Mobilizações agitam a França



Por: Renato Fernandes, de Campinas, SP

O 22 de março é uma data simbólica para a luta social na França: em 1968, os estudantes decidem ocupar o anfiteatro da universidade em Nanterre (cidade próxima a Paris) e desencadeiam um movimento muito mais amplo que culminou em diversos enfrentamentos, greve geral e em uma das mobilizações mais fortes do século XX no país. Como forma de recuperar essa memória, mas também de realizar os enfrentamentos necessários ao governo neoliberal de Emmanuel Macron, as principais centrais sindicais convocaram uma jornada de mobilização e greves. De acordo com a CGT, principal central do país, cerca de 500 mil se mobilizaram. Um número pequeno, porém animador após as derrotas sofridas no ano passado.

Os principais setores mobilizados foram os ferroviários – só circularam 40% dos trens de alta velocidade e 25% dos de médio alcance – e os funcionários públicos no geral. Os planos de Macron para essas categorias são o clássico do neoliberalismo: colocar o fim do estatuto trabalhista dos ferroviários, modificando direitos, principalmente em relação à aposentadoria; em relação aos funcionários públicos, entre outros ataques, Macron venceu a eleição afirmando que ia reduzir 120 mil postos de trabalho, o que vai piorar ainda mais as condições dos que estão trabalhando e dos serviços públicos no geral – a França possuía, em 2016, cerca de 5,4 milhões de funcionários públicos, sendo 21,7% destes por contrato temporário (pouco mais de 1,1 milhão). Nas Universidades, Macron quer modificar a forma de seleção de estudantes, elitizando o processo, além de querer reduzir as universidades públicas, propondo algumas fusões entre elas.

As mobilizações ocorreram por todo o país. Em Paris, de acordo com a CGT, 65 mil pessoas participaram do ato, sendo cerca de 15 mil ferroviários – a categoria, nacionalmente, conta com um pouco mais de 120 mil. Na cidade de Lyon, estiveram presentes cerca de 15 mil, enquanto em Marseille a mobilização foi muito mais forte, com 55 mil presentes.

Vale destacar que o movimento estudantil foi e é uma importante ponta de lança destas manifestações. Em cidades como Bordeaux, a manifestação terminou na Faculdade ocupada pelos estudantes, onde se realizou uma assembleia com cerca de 2 mil pessoas. São diversas as faculdades que estão em greve contra o projeto de Macron de transformação da educação universitária.

Esse foi apenas o começo
De acordo com os principais sindicatos, a jornada do 22 de março foi apenas o começo. Já está prevista uma segunda jornada para o dia 19 de abril. Apesar de ter sido uma jornada grande, o governo Macron já demonstrou que está inflexível, afirmando que “continuamos a discutir [com os sindicatos], mas iremos até o fim nas reformas”.

Como ficou provado no ano passado, pequenas e espaçadas lutas, não podem derrotar o trator neoliberal de Macron. Será necessário subir o tom, obrigar as centrais conciliadoras a entrarem na mobilização, como a CFDT (segunda maior central), e aumentar as assembleias, greves e manifestações. É nesse terreno que poderá se derrotar o governo Macron.

Fotos da manifestação – retiradas de https://npa2009.org/actualite/social-autres/manifestations-du-22-mars-ce-nest-quun-debut

 

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