Nduduzo tem voz! Não à sua expulsão do Brasil!



Por Waldo Mermelstein, São Paulo/SP

Uma vida por um fio. Um caso emblemático. A artista sul-africana, Nduduzo Dlamini, está prestes a ser expulsa do país. É mais uma das milhares de estrangeiras, pobres, em geral negras ou pertencentes a povos originários latinoamericanos, presas na injusta e inútil “guerra às drogas”.
Com essa política, nos últimos 15 anos, a população carcerária aumentou em quase 700% no país, que já tem a terceira maior quantidade de presos e presas no mundo. Com relação às mulheres estrangeiras presas, a esmagadora maioria é condenada pelo transporte de pequenas quantidades de droga.
Pessoalmente, presenciei essa triste realidade por alguns anos em que trabalhei, como servidor da Justiça Federal, como intérprete de audiências criminais em casos como o desta jovem. Ao falar seu idioma, muitas vezes era a primeira pessoa com quem conseguiam se comunicar.
Ficava sabendo de sua vida e do que passavam. Várias grávidas ou com filhos pequenos, doentes, sem contato com a família nem atenção médica minimamente decente. Em sua esmagadora maioria, aliciadas pelas redes de tráfico internacionais, muitas vezes sem nem saber o que transportavam. E ao cumprirem o tempo estipulado para a prisão fechada, entram em uma armadilha legal: como é muito difícil provarem residência legal ao saírem da cadeia, sua expulsão do país é automaticamente decretada.
É o caso desta jovem de 29 anos, que conseguiu inclusive reconstruir parcialmente sua vida e se tornou cantora em nosso país. A campanha contra sua expulsão pode ser um marco para mudar essa triste rotina de muitos e muitas como ela e contra a xenofobia em alta nos últimos tempos, como nos casos de agressões e inclusive mortes de imigrantes no país. E isso embora a imigrante no Brasil não chegue a mais de 0,5 do total.

Aqui um vídeo em que fala em sua defesa e canta em Zulu e em inglês.

Abaixo, a nota da coordenação da campanha contra a sua expulsão:

 

No dia internacional da mulher, rede de apoio lança campanha em solidariedade à artista Nduduzo

 

Diversos movimentos, grupos das artes e universitários de São Paulo se mobilizam contra expulsão da sul-africana que já é referência artística em São Paulo

No dia 8 de março – dia internacional da mulher – uma rede de apoio composta por diversos setores da sociedade civil, como artistas, intelectuais e movimentos sociais lançam a campanha #NduduzoTemVoZ.

 

A campanha busca defender a permanência da artista sul-africana Nduduzo no Brasil, além de dar visibilidade ao trabalho artístico que vem sendo desenvolvido por ela. A professora Carmina Pinheiro da Universidade de São Paulo, coordenadora do projeto Mulheres Livres promovido pelo CORAL-USP, é uma das que atestam que a artista tem “talento musical extraordinário, além de carisma social e articulação intelectual”.

 

Nduduzo como uma pessoa migrante que cumpriu pena por ter sido acusada de tráfico transnacional de drogas no Brasil responde atualmente a um procedimento administrativo de expulsão que é tramitado no Ministério da Justiça. Como mulher, migrante, negra, egressa do sistema prisional brasileiro, e agora como artista, cantora e atriz, Nduduzo tem o sonho de continuar no Brasil para despertar a voz de outras mulheres que “não podem nem sonhar com a liberdade”.

 

A sua permanência significa esperança para milhares de mulheres que sonham com algum tipo de ressocialização no terceiro país onde mais se encarcera pessoas no mundo, e onde a população carcerária feminina, composta em grande parte por mulheres negras, cresceu 698% em 16 anos, a maioria detida por tráfico de pequenas quantias de drogas como única forma de sobrevivência da família no país que supera ranking de desigualdade.

 

Destaques da trajetória artística e acadêmica de Nduduzo em São Paulo

 

Desde 2017, Nduduzo atua no espetáculo Inútil Canto e Inútil Pranto Pelos Anjos Caídos, escrito pelo dramaturgo Plínio Marcos em 1977,  que ficou em temporada na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo e no Itaú Cultural.

 

Também participou de mais de 12 eventos públicos, com destaque para o projeto “Voz Própria” do grupo Mulheres Livres, que dará origem a um filme curta metragem patrocinado pela Secretaria do Estado de Cultura.

 

É convidada do Núcleo Permanente de Pesquisa Musical da Cia Tijolo, projeto coordenado pelo maestro William Guedes apoiado pela Lei de Fomento ao Teatro da Prefeitura de São Paulo. A artista tem contribuído também com o grupo de pesquisa em performances e novas mídias do Colabor-USP, ligado à Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP).

 

9 de Março: Nduduzo recorre contra expulsão no Ministério da Justiça

 

Neste momento, Nduduzo apresenta recurso administrativo por meio da Defensoria Pública da União, órgão de assistência judiciária na área de migrações, solicitando que o Ministério da Justiça reconsidere e revogue seu decreto de expulsão com base em sua ressocialização, hipótese prevista na nova lei de migração e no sistema internacional de direitos humanos.

 

A presença de Nduduzo no Brasil é fundamental para a continuidade dos projetos musicais e novos desdobramentos junto à comunidade artística brasileira, nos meios teatrais, musicais e universitários, já sendo considerada uma referência.

 

Queremos Nduduzo no Brasil. Queremos Nduduzo Livre!

 

 

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