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  • Rejane Hoeveler: ‘As lutas contra o capitalismo e contra o patriarcado são indissociáveis’

    O estabelecimento de um Dia Internacional da Mulher, celebrado atualmente no dia 8 de março, deve muito à luta histórica das mulheres socialistas. É o que afirma a historiadora Rejane Hoeveler, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), que, nesta entrevista, resgata a história do protagonismo das mulheres socialistas nessa luta, desde o início do século 20. Protagonismo que, segundo ela, foi sendo deixado de lado ao longo das décadas, com a difusão de inúmeras versões que contam a origem desse dia passando ao largo da relação histórica que sempre existiu entre feminismo e socialismo. Rejane reafirma a necessidade de unificar as duas frentes, principalmente no atual cenário político, onde, em todo mundo, cresce a adesão a projetos políticos com propostas de extrema-direita e de cunho neoliberal. Na conjuntura brasileira atual, isso tem significado retrocessos nas políticas voltadas não só para os direitos das mulheres, mas para os direitos sociais como um todo. Para Rejane, o Dia Internacional da Mulher deve servir para promover esse debate, e reforçar a necessidade de união das forças políticas que se opõem à ofensiva conservadora sobre os direitos dos trabalhadores.

    Por André Antunes, da EPSJV/Fiocruz

    Há uma série de versões sobre a origem do Dia Internacional da Mulher. Existe uma que podemos chamar de oficial?

    Rejane Hoeveler

    Rejane Hoeveler

    A proposta de um Dia Internacional da Mulher partiu das mulheres socialistas, mas essa memória foi apagada. O Dia Internacional da Mulher foi reconhecido oficialmente pela Unesco só em 1975, mas até hoje várias versões apagam o papel das mulheres socialistas na criação dessa data, sugerida numa conferência internacional das mulheres socialistas. A pesquisadora Temma Kaplan, que estudou isso, afirma que o primeiro dia nacional das mulheres aconteceu nos Estados Unidos em 23 de fevereiro de 1909, dois anos antes daquele incêndio da indústria têxtil de Nova Iorque que é citado em uma das versões mais difundidas sobre a origem da data. Esse incêndio, no qual, de fato, morreram 129 mulheres, entre elas crianças, e 17 homens, foi em 25 de março de 1911. Mas o que é certo na literatura especializada é que foram as dirigentes da socialdemocracia alemã, a maior organização operária da Europa na época, Clara Zetkin e Louise Zietz, que organizaram, junto com mulheres de toda a Europa e da Rússia também, uma reunião, em 17 de agosto de 1907, pouco antes de um encontro internacional socialista na Alemanha. Nessa reunião elas reivindicaram que a luta pela igualdade das mulheres deveria ser travada em todos os aspectos da vida. Na época existia uma resistência tanto do movimento operário tradicional, que era bem machista, quanto do nascente movimento sufragista, que se consolida no início do século 20 , principalmente na Inglaterra, como um movimento que não era dirigido por operárias, mas sim por setores pequeno-burgueses. No movimento sufragista inglês existia essa polêmica sobre a inclusão ou não das operárias. Foi nesse congresso de 1907 que a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas aprovou o apoio dos socialistas à luta pelo voto feminino. Isso é um marco importante porque, até então, essa era vista como uma luta das mulheres burguesas, e a Clara Zetkin teve o papel mais importante de convencer as delegadas de que o proletariado como um todo avançaria com o voto das mulheres. E em 8 de março de 1908, no ano seguinte, as sufragistas americanas, entre elas algumas socialistas, participaram de uma grande manifestação pelo voto feminino. Mas ainda não tinha nenhuma referência, àquela altura, a um Dia da Mulher. Em 1909 as socialistas americanas firmaram o último dia de fevereiro como o Dia Nacional da Mulher, celebrando em 23 de fevereiro de 1909 e, no ano seguinte, em 27 de fevereiro. No encontro das mulheres da Internacional Socialista que precedeu o encontro geral da 2ª Internacional, em Copenhague em 1910, a Louise Zietz, companheira do Karl Kautsky, teria sugerido um Dia Internacional da Mulher, mas sem especificar uma data, a ser marcada para o ano seguinte, e a proposta foi apoiada pela Clara Zetkin. O primeiro Dia Internacional da Mulher na Europa foi realizado no dia 18 de março em Viena, e coincidiu com o aniversário de 40 anos da Comuna de Paris. A Revolução Russa de 1917 é um outro marco. Não foi uma coincidência exatamente, como diz o historiador Kevin Murphy, que a revolução de fevereiro de 1917 tenha estourado no Dia Internacional da Mulher, porque as mulheres operárias do bairro de Vyborg, em Petrogrado, estavam planejando uma greve no Dia Internacional da Mulher: 23 de fevereiro, pelo calendário gregoriano, e 8 de março no nosso calendário. E aí foi quando as mulheres russas lideraram um levante que culminaria na revolução de fevereiro e na queda do czarismo.

    Como as mulheres socialistas entendiam a relação entre as pautas feministas e a luta pelo socialismo?
    As mulheres socialistas sempre enfrentaram um duplo desafio. O movimento operário era carregado de machismo. Os operários eram majoritariamente contra a entrada das mulheres no mercado de trabalho, porque isso significava uma desvalorização salarial geral. Isso tem a ver também com um modo de vida consolidado que a Revolução Industrial vem dissolver. A própria família operária se reestrutura de uma maneira totalmente diferente, porque agora a mulher não só fica em casa cuidando dos filhos, mas é obrigada a entrar no mercado de trabalho pra vender sua força de trabalho. Então as mulheres socialistas enfrentavam esse preconceito dentro, inclusive, dos partidos socialistas, da própria socialdemocracia. Mas, por outro lado, também enfrentavam no nascente movimento feminista outros tipos de desafios. Por exemplo, na própria Rússia houve uma grande conferência de mulheres em 1907, na qual se expressaram várias correntes políticas dentro do feminismo. O feminismo na Rússia existe desde meados do século 19, e era majoritariamente dirigido por setores que a gente pode chamar de burgueses ou até aristocráticos, de mulheres da aristocracia fundiária da Rússia, com poucas operárias. Havia disputa sobre as pautas que deveriam ser defendidas. Por exemplo, as mulheres que são as precursoras do chamado feminismo radical, como a Maria Krukovskaya e outras, defendiam apenas o direito ao voto feminino. Em alguns países, inclusive, essa corrente, que era majoritária do movimento feminista, não defendia sequer o voto universal. Aceitavam, por exemplo, o voto censitário, o que era inadmissível para as mulheres operárias. As mulheres operárias estavam muito mais preocupadas com creches públicas, salários, direito ao trabalho digno, enfim, estavam com outro tipo de preocupações, mais materiais, mais objetivas da vida. Essa foi uma grande disputa entre as correntes do feminismo desde o início do século 20.

    E como essas disputas se expressam na atualidade?
    Na minha opinião, o principal inimigo a ser combatido hoje é o feminismo neoliberal, que é o feminismo incentivado por entidades empresariais. Esse tipo de movimento tem recurso, tem mídia, tem aparato, tem argumentos palatáveis. Desde os anos 1970 já existem essas tentativas de captura, porém, como destaca bastante a professora Virgínia Fontes, dos anos 2000 pra cá isso se ampliou muito. Há movimentos, tanto internacionalmente quanto no Brasil, dentro da ONU inclusive, que são dirigidos por entidades empresariais. São movimentos que, ao mesmo tempo em que aparentam defender os direitos das mulheres e carregar a bandeira da emancipação feminina, reforçam a lógica neoliberal da meritocracia.

    Hoje isso se expressa principalmente pelo discurso do empreendedorismo feminino, que virou um frisson tanto entre ONGs como entidades de perfil empresarial com atuação social, e a gente no Brasil tem uma proliferação gigantesca desse tipo de entidade empresarial. Em 2014, inclusive, a ONU estabeleceu o dia 19 de novembro como o Dia do Empreendedorismo Feminino, que concorre um pouco com 8 de março. Só que esse discurso é uma armadilha. Ao mesmo tempo em que enfatiza uma questão importante para as mulheres, a independência econômica, ele o faz mascarando a exploração do trabalho precarizado feminino. Então a revendedora da Avon, por exemplo, um trabalho precário que já é bem antigo no Brasil, ganha agora um novo rótulo. Esse empreendedorismo também reforça o estereótipo de gênero, com supostas qualidades intrínsecas às mulheres, como o de que elas conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo, são mais proativas, são mais intuitivas, mais sensitivas etc. Ou seja, levanta a bola das mulheres reforçando um estereótipo que as acaba oprimindo, porque a mulher que não consegue ser bem sucedida e não consegue entrar nesse case de sucesso vai se sentir um fracasso. É, digamos, um sequestro de ideias e bandeiras que sempre foram defendidas pelos movimentos sociais, pelos de baixo, pelos oprimidos. O próprio direito ao aborto:hoje há movimentos de direita neoliberal no Brasil defendendo o direito ao aborto, como o Livres. Só que defendem como? Desde que a mulher pague, desde que seja via mercado. Isso não resolve o problema das mulheres trabalhadoras, que precisam do direito ao aborto oferecido por um sistema público universal de qualidade de saúde.

    E dentro do movimento social, quais as disputas?
    Também há muitas disputas e muitas divergências. Por exemplo, tem uma corrente grande dentro dos movimentos feministas que é mais identitária, que acaba promovendo uma separação – voluntária ou não – da luta das mulheres de outras lutas mais gerais, mais universais, como a dos trabalhadores, ou até mesmo de outros setores oprimidos da sociedade, como os negros e os LGBTs. Existe, por exemplo, a corrente do feminismo radical, contrária ao movimento das mulheres transexuais. Isso é um exemplo de uma divergência dentro do campo feminista, entre as que estão na luta. Há socialistas que estão nessa luta, colocando suas ideias tentando superar justamente essa fragmentação. E aí entra aquele delicadíssimo debate do lugar de fala, que diz que somente o oprimido pode falar sobre a opressão que sente. Isso é uma questão que se tornou das mais relevantes hoje no mundo todo, acredito, e no Brasil é muito forte. A gente vê que nas redes sociais, principalmente, mas também dentro dos movimentos reais, em assembleias, reuniões, esse tem sido um debate central e, infelizmente, um debate muito mal parado.

    Por quê?
    Eu sou uma feminista marxista, então acredito que existe uma especificidade dentro da classe trabalhadora dos setores que são mais oprimidos, mais explorados, mais precarizados e que sofrem mais com o capitalismo e com tudo que vem junto com o capitalismo e com o patriarcado. As mulheres, os negros, os LGBTs. Porém, todos esses setores estão dentro de uma coisa maior, que é a classe. A classe não é uma coisa unívoca; ela é multifacetada, ela é heterogênea, é marcada por distinções, que são, inclusive, exploradas pelo capitalismo. O capitalismo explora a concorrência entre os trabalhadores desde sempre. Há algumas linhas de pensamento feminista que não fazem a crítica até o fim ao neoliberalismo e ao capitalismo, e eu discordo bastante dessa visão, embora estejamos juntas nas lutas. Mas acredito que a única saída real pra questão das mulheres é fora do capitalismo, é fora desse sistema, porque o patriarcado só vai acabar quando o capitalismo acabar. Ao mesmo tempo, a gente não vai esperar o capitalismo acabar pra lutar contra patriarcado. A gente tem que lutar contra as duas coisas ao mesmo tempo, porque essas lutas são indissociáveis. E acredito que os movimentos que separam ou que obstruem uma discussão mais ampla usando esse argumento do lugar de fala, por exemplo, são prejudiciais para esse debate, que fica muito travado.Acaba tendo uma interdição ao debate. Você acaba, antes de emitir qualquer opinião sobre qualquer tema relacionado às mulheres ou dentro da esquerda, tendo que se perguntar se você tem lugar de fala para falar sobre aquilo ou não. Isso é uma interdição ao debate na minha opinião.

    Como você vê a importância do Dia Internacional das Mulheres no contexto atual, tendo em vista essa conjuntura de reascensão do neoliberalismo, principalmente desde a crise de 2008, e também de ascensão da extrema direita e do populismo em vários países? Qual importância que você vê, nesse contexto, das lutas feministas?
    Essa é uma questão muito importante.Acredito que, no mundo todo, o feminismo tem sido uma das principais forças a resistir a essa onda conservadora. No Brasil a gente viu isso em 2013, 2014 e 2015, principalmente. Estamos vendo no Brasil e no mundo o avanço de propostas conservadoras com relação ao direito reprodutivo das mulheres. Nos Estados Unidos, desde os anos 1990, os retrocessos são enormes, na França também… Nos Estados Unidos, em muitos estados em que havia sido aprovado o aborto a legalização foi revertida por conta da pressão de um movimento cristão, o Movimento Pelo Direito à Vida – que tem o mesmo nome no Brasil. Mas a vida que se defende nunca é a das mulheres que morrem fazendo aborto clandestino aos milhões. Essa reascensão do conservadorismo cristão e do conservadorismo de maneira geral, que não tem a ver com uma religião específica, está vindo pra cima dos direitos que foram conquistados principalmente nos anos 1960 e 1970. No Brasil é um pouco diferente. Como nos anos 1960 e 1970 estávamos numa ditadura, só vamos começar a falar e ter movimentos por direitos já na transição, nos anos 1980 e 1990. Recentemente, no período do governo Lula, houve também avanços com a lei Maria da Penha e outras medidas, como a criação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que foi extinta pelo governo Temer. Sob o governo Temer a gente está vendo um retrocesso em altíssima velocidade.

    Quais os principais retrocessos, na sua visão?
    A primeira coisa a ser lembrada é a polêmica em torno do que era inicialmente um ministério formado só por homens, um machistério. Depois, o Temer tentou consertar um pouquinho colocando a Fátima Pelaes, uma deputada do Acre que foi feminista nos anos 1970, mas virou da bancada chamada Pró-Vida, antiaborto, no Congresso. Ou seja, tentou consertar e ficou pior ainda, porque colocou uma mulher que é antidireitos para as mulheres e, ao mesmo tempo, fez essa reestruturação ministerial com a extinção de diversos ministérios voltados para o combate às opressões. E, enquanto o governo alegava que não tinha dinheiro para políticas públicas pra mulheres, ao mesmo tempo aprovava, por exemplo, a substituição do software livre no sistema de computação do governo por produtos da Microsoft, gastando milhões com os produtos da empresa. Então a gente vê que o problema não é a falta de dinheiro, é a opção política mesmo, por não dialogar com movimentos feministas. A situação tende a piorar, tanto quanto ao financiamento de políticas públicas pra reduzir o número de mortes em abortos e para diminuir a violência contra a mulher como,, ao mesmo tempo, quanto à repressão ao movimento feminista e, ainda, quanto à aprovação de projetos de lei que criminalizam, por exemplo, mulheres que fazem aborto. Essa foi a última grande novidade do nosso Congresso em relação a esse tema.

    Quais as bandeiras que você vê como mais urgentes em relação às lutas das mulheres hoje?
    Temos que lutar contra a reforma da Previdência, que vai atingir crucialmente as mulheres; a favor do aborto legal, seguro, gratuito, fornecido pelo SUS; por um SUS com financiamento suficiente, e por isso a gente tem que lutar contra a austeridade; contra a violência contra a mulher, que segue altíssima no Brasil, como mostram os números de estupros ede assédios, que já são subnotificados. Acho que essas lutas se ligam: as lutas contra a austeridade, contra esses ataques aos direitos sociais como um todo, como a reforma da Previdência, e a reforma trabalhista – que foi aprovada e vai atingir enormemente as mulheres, maior número entre os terceirizados e, assim, mais atingidas pelaperda de direitos. Não tem como separar, como dizer qual é a mais importante. A gente tem que lutar pelas pautas específicas das mulheres, que, na verdade, são pautas por uma sociedade mais igualitária. Nós temos que ter todo mundo: homens, mulheres, negros, LGBTs, e quaisquer pessoas que estejam contra essa ofensiva conservadora e a retirada de direitos nessa luta.Agora é o momento de unidade, não é momento de fragmentação, não é momento de disputa entre os que estão sofrendo os ataques.

    Gostaria de ouvir a sua análise sobre essa polêmica recente envolvendo as feministas francesas e as feministas americanas ao redor do movimento do Me Too, que levantou denúncias de assédio na indústria do cinema norteamericana. O quanto o protagonismo dessa luta das atrizes contra o assédio no contexto todo do movimento Me Too revela sobre o feminismo hoje, no contexto que a gente está vendo de aumento da desigualdade, etc?
    Eu acompanhei bastante por alto essa questão das denúncias das atrizes, mas achei ótimo que figuras famosas, que são conhecidas dentro da indústria cultural, por grandes populações, estejam vindo a público pra fazer essas denúncias. Isso é fundamental, dá mais visibilidade. A gente até pode falar que são atrizes que ganham milhões, mas não importa: o machismo está presente ali também. Tem dois planos de análises aí. Elas recebem menos que os homens, são relegadas a condições mais subalternas e também, por outro lado, nos próprios filmes, nos próprios roteiros, são retratadas de uma forma estereotipada.Na maioria das vezes, na grande indústria cultural, a mulher só é feliz se no final do filme se casa ou quando dá conta de tudo, do trabalho, do marido, do filho. Acho que as denúncias incentivam as mulheres comuns, as mulheres que estão em posições muito mais vulneráveis na vida, a fazerem denúncias de assédio. Claro que tem uma série de coisas que podem contribuir pra que essa mulher, que precisa de um emprego, consiga fazer essa denúncia. É uma disputa das mulheres que estão nessas condições mais vulneráveis de vida, e é muito mais difícil. Ao mesmo tempo, essa mulher poderia nem saber que estava sofrendo assédio, ou que o nome daquilo que ela está sofrendo no emprego é assédio. E, vendo isso, ela pode avançar em sua consciência. Essa mudança, ainda que não resolva o problema individualmente, pode trazê-la para o movimento feminista, por exemplo.

    Publicado originalmente no site da ESPJV/Fiocruz

     

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  • 8M: Protesto ocupa a Casa da Mulher Brasileira, em Fortaleza

    Da redação,

    O ato na capital do Ceará reuniu mais de mil pessoas na manhã deste 8 de Março. Foi impulsionado por sindicatos, coletivos feministas, organizações e partidos de esquerda, com destaque para uma forte presença das Mulheres Sem Medo de Lutar, de uma ocupação do MTST. Também participaram mães de jovens assassinados na chacina do bairro Cajazeiras, em janeiro deste ano, e que se organizam desde então para exigir a apuração do crime.

    O protesto teve início em uma estação de ônibus, onde foram feitos discursos contra a violência machista e as condições do transporte. Em seguida, as mulheres seguiram em caminhada até a Casa da Mulher Brasileira, onde fizeram uma ocupação, exigindo o funcionamento do prédio.

    O prédio começou a ser construído em 2015 e até agora não foi inaugurado. O governo estadual culpa o governo federal, que teria que repassar cerca de R$ 4 milhões, envio de mobiliário e equipamentos para o início das atividades. A Casa foi criada para reunir em um só lugar todos os atendimentos às vítimas de violência doméstica, com apoio psicossocial, alojamento, delegacia especializada, defensoria pública e Poder Judiciário. Atualmente, há apenas uma delegacia especializada em combater este tipo de crime em Fortaleza e está sem sede própria.

    O atraso contrasta com o crescimento da violência machista e do feminicídio no Ceará. Só neste início de ano, foram mais de 100 mulheres assassinadas no Ceará, um aumento de 296% em relação a 2017. As manifestantes levaram cruzes, com os nomes de mulheres mortas neste ano, e afincaram na frente do prédio.

    Com informações do MAIS Ceará

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  • 8M: Ato em Belém denuncia tragédia ambiental e feminicídio

    Gizelle Freitas, de Belém (PA)

    O ato unificado na manhã deste 08 de Março reuniu cerca de mil mulheres em Belém (PA) e foi muito vitorioso, sob um lindo sol (apesar de estarmos no inverno amazônico). O protesto foi construído pela Frente Feminista de Belém, e por dezenas de mãos de 28 entidades, entre coletivos de mulheres, partidos, entidades estudantis, com destaque para o MST, o Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimento dos Atingidos por Mineradoras.

    O ponto alto do protesto foi no prédio da Hydro Alunorte, a empresa mineradora que através do vazamento de rejeitos de bauxita contaminou diversas áreas do município de Barcarena, no dia 17 de fevereiro, causando danos ao meio ambiente e à saúde da população. Nas falas, foi exigida a suspensão imediata das atividades da empresa, a cassação da licença, multas e indenização à população, que vive da pesca e da agricultura.

    A marcha finalizou, sob forte chuva, na Prefeitura de Belém pra denunciar o descaso completo da gestão municipal, de Zenaldo Coutinho (PSDB), com o combate à violência contra as mulheres. Durante todo o trajeto, em cartazes, faixas e no microfone, as mulheres exigiam o fim da reforma da Previdência, nenhum direito a menos, fora Temer e basta de feminícidio e denunciaram a alta dos preços das tarifas.

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  • 8M: Greve feminista sacode a Espanha

    Sindicatos afirmam que 5,3 milhões pararam por duas horas durante a manhã de hoje

    Ao contrário de 2017, quando ocorreu uma greve mundial de mulheres, neste ano a Espanha talvez seja o único país a ter uma greve feminista, entre as 170 nações que marcaram protestos neste dia. A greve feminista começou a ser organizada em janeiro, em uma plenária com mais de 400 mulheres, e foi abraçada pelos principais sindicatos e centrais sindicais e contou com apoio de inúmeras associações civis e coletivos, ganhando o apoio popular.

    Durante as primeiras horas da manhã, calcula-se que 5,3 milhões tenham aderido à paralisação de duas horas, segundo a UGT e a CCOO. Outras centrais, como a CGT e a CNT, além da paralisação, convocaram a greve de 24 horas. Paralisaram hospitais, bancos, escolas, universidades e o serviço público. A greve chegou até a algumas redações da imprensa. Em alguns canais, as apresentadoras não foram trabalhar e os programas de TV estão sendo apresentados apenas por homens, evidenciando a greve feminista. Um manifesto foi assinado por 7.400 comunicadoras.

    Ao todo existem 120 manifestações convocadas para hoje no Estado Espanhol. Durante as primeiras horas do dia, piquetes e bloqueios de rua pararam pontos chaves em Barcelona e em outras cidades. Durante a manhã, uma bicicletada percorreu as ruas, divulgando a greve. Manifestantes fizeram protestos dentro de grandes lojas de roupas, exigindo o fechamento. E, às 12h, ocorreram grandes concentrações na Praça, que estão sendo seguidas de piqueniques coletivos. Novas concentrações ocorreram no final do dia, às 19h (hora local), com a principal manifestação na Estação Atocha, em Madrid.

    Das sacadas, aventais mostram a adesão à greve. Fonte: hacialahuelgafeminista.org

    Das sacadas, aventais mostram a adesão à greve. Fonte: hacialahuelgafeminista.org

    Um dos símbolos da greve tem sido o avental. Nas casas, as mulheres têm pendurado aventais nas sacadas e janela das casas, demonstrando que ali uma mulher aderiu ao protesto, e está em “greve de cuidado”. Logo pela manhã, diversas estátuas de homens amanheceram com um avental e utensílios de limpeza.

    Em uma pesquisa feita pelo El Pais, 82% dos entrevistados consideravam que haviam motivos para a greve. Na Espanha, as mulheres ganham 13% a menos do que os homens em tarefas iguais, mas têm mais dificuldade em entrar no mercado

    de trabalho, ocupam 73,9% dos contratos em jornada parcial e são ampla maioria no trabalho precário e informal, em especial no doméstico. “Não vamos parar. Este processo nos faz sentir fortes e reforça a ideia de que o caminho é mobilizar-se”, afirmou María Álvarez, da Comissão 8M, um coletivo formado para organizar os protestos, e que mantêm a plataforma http://hacialahuelgafeminista.org.

    Com informações do El País, El Mundo e hacialahuelgafeminista.org

    Confira a galeria de fotos do jornal El Pais

     

     

    8 de Março: Dia de ir às ruas unidas contra a intervenção militar e a violência à mulher

     

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  • Um novo começo para a esquerda brasileira

    Insurgência, corrente interna do PSOL

    Depois de 13 anos de jornada, em meio a uma conjuntura difícil e regressiva, o PSOL está prestes a efetivar aquilo pelo qual milhares dos seus filiados lutaram desde a fundação do partido: uma frente política com os movimentos sociais, como verdadeiro contraponto às alianças conciliatórias e fisiológicas da velha ordem, que terminaram por engolir e destruir a velha direção da esquerda brasileira hegemonizada pelo lulopetismo nas últimas décadas.

    A Conferência Cidadã, chamada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, realizada em São Paulo no sábado 3 de março, apresentou Guilherme Boulos e Sônia Gujajara como candidatos a presidente e vice-presidente da República – formalmente pelo PSOL, mas de fato numa aliança entre partidos e movimentos dos explorados e oprimidos. (Dois dias depois, Guilherme Boulos formalizou em ato também em São Paulo sua filiação ao PSOL, num passo prático e decisivo para dar corpo a essa aliança).

    A proposta da Conferência é que a aliança não seja apenas para a disputa eleitoral de 2018, mas o primeiro e fundamental passo de um projeto político conjunto, de síntese programática para a reorganização da esquerda e do movimento de massas no Brasil no próximo período histórico.

    Uma aliança com o PSOL
    O evento do sábado estava repleto de sem-teto, lideranças indígenas, movimentos de mulheres, da negritude, LGBTs, jovens, artistas, intelectuais, sindicalistas, comunicadores, religiosos progressistas. Todos entusiasmados com a perspectiva de uma campanha antissistêmica e popular, diversa e combativa da Conferência foram capazes de acender uma luz de esperança para a recomposição política e social necessária aos vulnerabilizados.

    Com a aceitação dessa aliança – o que esperamos que se aprove na Conferência Eleitoral do próximo sábado – o PSOL reconhece o inestimável valor da resistência indígena e dos sem-teto. Trata-se de uma enorme vitória ao partido o fato de que seja o PSOL a referência de sigla e aliado fundamental desses movimentos.

    O desafio programático
    O momento é de renovação, reorganização, recomposição, é hora de renovar – por que não revolucionar – também as formas da disputa política e programática? Para manter esse conjunto de atores empolgados é preciso enfrentar o desafio de que o programa e o perfil da campanha sejam profundamente radicais, realmente antissistêmicos. E que seja resultado de uma elaboração coletiva e democrática, com debates fraternos e construtivos, sem recair nas disputas pequenas que tanto já contaminaram a esquerda socialista.

    Esta nova recomposição exigirá de nós muito mais paciência para o diálogo e respeito à pluralidade, porque, antes que nada, estamos enfrentando retrocessos de toda ordem, enfrentando um governo ilegítimo e uma extrema direita belicosa com peso eleitoral de massas. Estamos nadando contra a corrente do conservadorismo fundamentalista, da sanha predadora do capital financeiro, dos genocídios, do agronegócio, dos monopólios capitalistas.

    Por isso, nosso espírito unitário com todos os dispostos ao enfrentamento à agenda neoliberal e aos ataques às liberdades democráticas não pode se confundir com unidade política com forças que pretendem repetir a fórmula da conciliação de classes e priorização da luta institucional, já fartamente aplicada pelo lulopetismo. Este é o primeiro e fundamental desafio para uma nova caminhada: total independência da esquerda conciliadora. É preciso formular propostas alternativas ao modelo de desenvolvimento predatório e de governabilidade conservadoras assumidas pelos governos petistas. É preciso lembrar que eles também favoreceram bancos e agronegócio, devastaram o meio ambiente, atacaram povos indígenas e vitaminaram, com seus apoios e alianças, as bancadas fundamentalistas.

    Renovação e obstáculos
    Algumas falas da Conferência indicaram caminhos de renovação prática, como a menção da necessidade da retomada das bases feita por Frei Betto e o fim das negociações por tempo de TV, com alianças sem política e distribuição de cargos, que Marcelo Freixo abordou. Freixo ainda foi feliz em reafirmar, logo após a exibição do polêmico vídeo de Lula exibido na Conferência, que Boulos é o único candidato até agora comprometido a revogar todas as medidas do governo golpista de Michel Temer e que diz que não fará um governo para todos, mas sim, para os 99%, ao mesmo tempo em que o 1% das classes dominantes perderá e muito.

    A exibição de um vídeo de Lula durante a Conferência Cidadã incomodou profundamente as forças do PSOL construtoras dessa aliança. A repercussão negativa do vídeo e da sugerida associação da imagem do nosso candidato com a velha esquerda não se dá apenas na imprensa, mas também em setores de movimentos sociais que mais sofreram com ataques durante o período dos governos petistas, com destaque ao próprio movimento indígena. Para nós, é legítimo continuar debatendo, com franqueza e fraternidade crítica, como a aliança falará, durante a campanha, às bases que ainda têm ilusões em Lula e no PT. O que definitivamente não cabe, porque não foi essa a relação construída até aqui nessa aliança é a ausência diálogo para decisão tão importante como a exibição do vídeo.

    Pois, o sentido geral da caminhada que começa na chapa Boulos-Guajajara é o da superação da estratégia de conciliação de classes. E isto não é contraditório com a nossa inequívoca defesa do direito de Lula ser candidato, nosso rechaço à condenação sem provas e à prisão injusta do ex-presidente.

    De outro lado, é preciso superar também o messianismo de setores da esquerda socialista (inclusive parcelas do PSOL), que acreditam ter programas acabados e suficientes e, com isso, dispensam tratamento preconceituoso, quando não violento, a todo e qualquer militante ou agrupamento oriundo do petismo.

    Não haverá recomposição da esquerda socialista sem deslocamentos nas bases sociais da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, hoje no Brasil ainda sob influência de Lula e do petismo. O próprio PSOL não existiria sem os deslocamentos vindos do antigo bloco. A diferença agora é de escala: os deslocamentos poderão ser de maior dimensão, porque se trata de uma aliança com movimentos sociais, da resistência ativa, que cresce buscando outro caminho. Rechaçar ou desqualificar esta aliança com estes movimentos como “lulista” ou algo similar é contentar-se com a eterna condição de minoria messiânica.

    É preciso também, no entanto, que essa aliança se constitua sobre uma sólida base programática, começando por estabelecer uma metodologia democrática de debates e construção do programa de governo. Tendo, também, a Plataforma VAMOS como ponto de partida – são diretrizes e não de um programa pronto (o que aliás, a Vamos nunca se propôs a ser) – precisamos nos próximos meses, até a formalização de um programa de governo, avançar alguns passos.

    A composição Boulos-Guajajara, para nós, aponta para uma das questões essenciais e definidoras da radicalidade, que é a busca pela superação dos modelos de desenvolvimento extrativistas-produtivistas. Esse modelo está na raiz do esgotamento dos governos progressistas no nosso continente.

    Guilherme e Sônia simbolizam um programa que se assenta na mobilização social e incorpora bandeiras cada vez mais centrais para um projeto revolucionário: o combate ao racismo, ao machismo e à LGBTfobia, do direito à cidade, do ecossocialismo, o questionamento da guerra às drogas (travestida de guerra aos pobres, sobretudo em tempos de intervenção militar) e a afirmação de novas formas de participação popular.

    Vamos juntos e juntas: PSOL, MTST, Povos Indígenas! Aqui está o povo sem medo de lutar!