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  • Esporte é política, caro Leifert

    Por Mariana Vantine* e Bernardo Pilotto**, do Rio de Janeiro (RJ)

    O artigo de Tiago Leifert, apresentador de programas de grande audiência da Rede Globo, no site da revista GQ Brasil, que afirma que esporte e política não devem se misturar, é fruto de uma opinião conservadora e liberal sobr o que é esporte e também do que é política.

    Mas, antes de desfazer os argumentos de Leifert, é preciso dizer que seu artigo é uma resposta à crescente politização dos atletas, tanto no Brasil quanto no mundo. O que parece é que Leifert se sente acanhado com essa “onda” e por isso resolveu escrever para mostrar como essa “onda” estaria errada.

    Logo no início de seu texto, o apresentador global tenta ganhar a simpatia de todos os leitores e por isso faz críticas a execução do hino nacional antes das partidas de futebol. Mas na sequência já demonstra uma visão liberal do que é o esporte, ao afirmar que considera errado que uma Assembleia Legislativa “interfira no rito esportivo”.

    Nós temos uma visão oposta: consideramos que as Assembleias Legislativas (e demais instâncias do poder público) tem o direito (e o dever) de opinar e regulamentar sobre os ritos esportivos. É importante que o poder público delimite regras sobre os direitos dos atletas e demais trabalhadores dos eventos esportivos, por exemplo. Lembramos aqui da Lei nº 13.748/09, de autoria do deputado estadual Raul Marcelo (PSOL-SP), que obriga os clubes de futebol profissional a assegurar a permanência e frequência escolar aos seus atletas menores de 18 anos, sob pena de multa e desligamento das competições oficiais no Estado de São Paulo.

    Depois, Leifert traz o exemplo de Colin Kaepernick, jogador da NFL (liga de futebol americano dos EUA), que está desempregado após protestar, durante a execução do hino nacional, contra o extermínio da população negra de seu país. Ao invés de denunciar a demissão como uma atitude persecutória da direção do time, Leifert se limita a dizer que isso é a prova de que misturar política e esporte “dá ruim”. Ele quase comemora a demissão de Colin.

    Após os dois exemplos, Leifert traz seus argumentos. Para ele, o fato do jogador estar vestindo uma camiseta de um clube não autorizaria a ele demonstrar uma opinião que é individual. O esporte seria também um momento de paz, de não se “importar com nada”. Ter política num jogo de futebol seria como sua pizza de sexta-feira a noite vir com palavras de ordem desenhadas no catupiry (!!!).

    Acontece que o esporte não existe no vácuo
    O esporte não é uma bolha, ele é parte de nossa sociedade. Ele está, portanto, inserido em todo um contexto de lutas na sociedade. O fenômeno futebol no Brasil, por exemplo, surgiu da luta de classes. Sim, já que se esse esporte chegou ao país apenas como um hobby de elite e só conseguiu se tornar um esporte de massas a partir da luta dos operários para conseguir jogar nos times e ocupar as arquibancadas. Não podemos esquecer também, que nossos craques, como Pelé, Garrincha, Jairzinho, entre tantos outros, nem sonhariam em ser jogadores se não fosse a luta contra o racismo, já que no início da história do futebol brasileiro os negros eram proibidos de serem atletas de futebol.

    A participação política é, portanto, um direito dos atletas. E é muito saudável que eles aproveitem a repercussão que o esporte tem para levantarem bandeiras e demandas que muitas vezes são ignoradas pelos governos e pela sociedade.

    A verdade é que o esporte, assim como a sociedade num geral, precisa cada vez mais de pessoas engajadas. Infelizmente, ainda temos muitos atletas LGBTs que não se sentem a vontade de se assumir, ou ainda LGBTs que sequer se interessam e se envolvem no meio esportivo, por encontrar um ambiente altamente opressor e refratário. Se começar a surgir posicionamentos por essa luta, certamente essa realidade irá mudar. E as mulheres? Seria justo não se posicionar diante da diferença salarial e de premiação entre atletas homens e mulheres? Ficarem caladas diante de assédios e estupros? É essencial que as atletas se posicionem contra a cultura machista na qual o esporte está inserido.

    Os valores do esporte também são políticos
    Mas, para além das relações do esporte com a sociedade, é preciso ainda dizer que o esporte em si também é política. Isso porque os esportes trazem alguns valores junto consigo. Nas atividades esportivas podem ser ensinadas relações de amizade e camaradagem, por exemplo.

    E, numa sociedade pautada pelo individualismo e pela competitividade, sabemos que tais valores são também um posicionamento político.

    Se no esporte de alto rendimento o investimento é baixo, a valorização do esporte enquanto uma atividade cotidiana, é ainda mais complicada. No Brasil e na maioria dos países por aí, é valorizado apenas o esporte que pode gerar medalhas olímpicas e vitórias internacionais (no caso do Brasil, nem esse muitas vezes é valorizado). Nessa concepção, parece que só os muito bons tem direito a praticar o esporte.

    Entendemos que o esporte deve ser visto de forma diferente: como algo cotidiano, para todos e todas, possibilitando inclusive uma vida mais saudável. Infelizmente, é raro ter por exemplo, espaços públicos para a prática de esportes, sobretudo nas periferias.

    A política é a forma de mudar a sociedade
    Ao deixar de debater os problemas de nossa vida e nossa sociedade (o que se chama de política), estamos sendo contribuindo para que esses problemas não sejam alterados. Por isso o texto de Leifert representa uma visão conservadora, pois na prática ele colabora para que tudo permaneça como está.

    E essas diferenças e problemas sociais existem mesmo nos momentos de lazer. Pois há aqueles que têm direito ao lazer e a prática esportiva e há outros tantos que não tem esse direito, seja porque não podem pagar, ou porque estão trabalhando (na dupla e tripla jornada doméstica e/ou em empregos precários).

    Há aqueles que podem pedir uma pizza com catupiry e há aqueles que nem esse direito tem.

     

    *Mariana Vantine – Graduanda no curso de Economia da UFRJ, membro do Football Collective e militante do RUA – Juventude Anticapitalista

    **Bernardo Pilotto – Sociólogo formado pela UFPR.

    Foto: O jogador Reinaldo comemorando um gol com a camisa do Atlético Mineiro e erguendo o punho, como na saudação dos Panteras Negras

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  • Carlos Zacarias, da UFBA: “A atitude do ministro demonstra que ele não tem a mínima ideia do que se passa na Universidade”

    As ameaças do ministro da Educação, Mendonça Filho, ao professor que planejou uma disciplina sobre o golpe de 2016 tiveram efeito contrário. A disciplina na Universidade de Brasília (UnB) teve um grande número de interessados e foi defendida pela Reitoria e pelo DCE. Depois disso, várias universidades passaram a oferecer cursos semelhantes, como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade de Campinas (Unicamp), a UFPR e outras universidades federais.

    Carlos Zacarias de Sena Jr, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e colunista do Esquerda Online e do jornal A Tarde, também decidiu ministrar um curso com o mesmo tema e que conta com 23 professores da UFBA. Desde que anunciou a disciplina, tem sofrido ataques na internet e declarações de solidariedade. Nesta entrevista para o Esquerda Online, ele contou como surgiu a ideia, discutiu a validade científica da iniciativa, as diferentes narrativas sobre o golpe e criticou a tentação autoritária do MEC. “Na universidade, quando divergimos, escrevemos, polemizamos, mas não tentamos impedir o outro de falar”, afirmou.

    Por Ademar Lourenço, de Brasília (DF)

    Como surgiu a ideia de ministrar a disciplina?

    Carlos Zacarias – Eu vinha acompanhando a repercussão da oferta da disciplina na UnB a partir da tentativa de intervenção do ministro da Educação, que soou muito mal na academia e nos setores democráticos. Outras pessoas também vinham no mesmo movimento. Pelas redes sociais se criou um imenso sentimento de indignação quanto à tentativa de atentar contra a autonomia universitária e a liberdade de cátedra. Vi que algumas pessoas começaram a se movimentar para criar disciplinas em outras universidades com o mesmo nome. Na minha programação de disciplinas para 2018.1 eu estava escalado para oferecer um Tópico Especial em História. Estava elaborando um programa sobre o golpe e a ditadura de 1964 a 1985 no Brasil. Então pensei que podia transformar minha disciplina numa disciplina igual ao dos professores da UnB. Quando propus isso no grupo de WhatsApp da minha linha de pesquisa na pós-graduação, vários docentes logo se prontificaram a vir compor a equipe comigo. Depois soube que já haviam outras pessoas pensando a mesma coisa na UFBA e terminamos por juntar mais de 20 professores nesse projeto.

    Alguns criticam o curso porque ele não teria base científica. O que acha disso?

    Carlos Zacarias – As bases científicas nas ciências sociais e humanas são distintas das de outras ciências, então pode haver interpretações distintas sobre muitas coisas, como podem haver paradigmas rivais coexistindo em conflito por muito tempo. É verdade que não há consenso sobre o golpe de 2016. Há pessoas que acham que não foi golpe e há diversas narrativas sobre o momento em que as coisas começam a acontecer até a aprovação do impeachment. Mas há divergências sobre muitas outras coisas que hoje nos parecem mais óbvias.

    Parece improvável que poucos questionariam que houve um golpe em 1964. Mas há divergências quanto ao fato de que foi um golpe militar ou um golpe civil-militar. Entre os que acham que foi um golpe civil-militar, há os que pensam que se tratou que o componente civil foi um componente de classe e os que acham que o componente civil deve-se ao fato de que setores da sociedade civil apoiaram o golpe. Há divergências sobre a ditadura: ela foi militar ou foi civil-militar? E há também divergências quanto à duração da mesma. O fato de existir divergências não significa que se trata apenas de opinião, porque uma hipótese para se afirmar precisa de lastro, de evidências e de algo que a sustente.

    Portanto não há sentido em dizer que não há base científica, porque as bases científicas vão sendo fortalecidas na medida em que boas hipóteses são articuladas dialogando com as evidências que vão se revelando. Sobre 2016 há cada vez mais evidências de que não houve crime de responsabilidade do governo de Dilma, de que houve uma articulação das classes dominantes através da FIESP, dos banqueiros e de outros setores, que aliados ao judiciário, à imprensa e ao parlamento, conspiraram para depor o governo. Por conta do que hoje já se sabe, as hipóteses em torno do golpe vão se fortalecendo e alcançando o consenso possível na academia.

    Como o golpe de 2016 será abordado durante o curso?

    Carlos Zacarias – Não há uma única forma de abordar o golpe. Há quem diga que o golpe começou em 2013, quando as direitas e as classes médias desceram às ruas incentivadas pela grande imprensa que fomentou o ódio aos mais pobres. Há quem diga que revoltas nas dimensões das ocorridas nas Jornadas de Junho comportam muito mais do que uma única posição e que o fato de os movimentos sociais estarem atrelados ao governo que começava a desmoronar, contribuiu imensamente para a desocupação das ruas pelas forças progressistas e a ocupação do espaço pelas direitas.

    Prefiro essa última narrativa, que se articula com muitas outras  questões que não posso desenvolver aqui. O fato é que há maneiras distintas de abordar o acontecimento que a equipe de 23 docentes não pretende resolver no curto espaço do desenvolvimento da disciplina. Todavia, se há muitas divergências e imensa pluralidade nas abordagens, o sentimento predominante é que houve golpe e que a pouca democracia corre riscos.

    A perseguição do ministro da educação pode intimidar os professores a dar a disciplina?

    Carlos Zacarias – A postura do MEC só confirma que é necessário discutir o futuro da democracia no país, porque se se tratasse de um governo eleito, isso dificilmente aconteceria. Na universidade, quando divergimos sobre os assuntos, escrevemos textos, polemizamos, mas não tentamos impedir o outro de falar. Há debates sobre muitas coisas e na maioria das vezes os debates são quentes, porque a universidade é algo vivo e pulsante. A atitude do ministro demonstra que ele não tem a mínima ideia do que se passa na Universidade e exatamente por isso gerou uma imensa repercussão negativa, representando um tiro no pé, pois fortaleceu o sentimento sobre o fato de que é necessário defender a universidade e é urgente defender a democracia.

    Confira a página de Carlos Zacarias no Esquerda Online

  • Moradores da Zona Oeste do Rio de Janeiro exigem água, luz e transporte

    Conselho de moradores de Guaratiba convoca a população para um ato público nesta sexta (02)

    Igor Dantas, do Rio de Janeiro (RJ)

    O descaso do poder público no bairro de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, está cada dia mais evidente. As principais reclamações dos moradores são quanto a falta de abastecimento de energia elétrica e água e o precário transporte público. Na região, principalmente após a criação do BRT (Bus Rapid Transit), linhas de ônibus foram extintas, horários e itinerários foram alterados, sem uma consulta séria aos que ali vivem e dependem desse serviço. São direitos básicos que estão sendo negados para os trabalhadores e trabalhadoras da região.

    Diante dessa situação calamitosa, o Conselho de Moradores e Amigos de Barra de Guaratiba (COMGuaratiba) está convocando a população para lutar por seus direitos, contra o abandono do bairro. E fará um ato nesta sexta, 02/03, na estação do BRT na Ilha de Guaratiba, a partir das 06h30.

    A situação de Guaratiba é mais um exemplo da destruição do Estado do Rio de Janeiro nas mãos do PMDB de Pezão e Cabral e agora com a Prefeitura de Crivella. Enquanto investem milhões na intervenção militar na cidade, não se investe na infra-estrutura, saneamento e nos serviços públicos, enquanto fecham os olhos para os desmandos das concessionárias. Tudo isso com o silêncio por parte dos grandes veículos de mídia.

  • Liga das Escolas de Samba faz virada de mesa no Carnaval do Rio

    Bernardo Pilotto, do Rio de Janeiro (RJ)

    A decisão da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba) e da maioria das escolas filiadas de não haver nenhum rebaixamento em 2018 deve ser repudiada por todos e todas, ainda que não seja surpreendente. Desde que a apuração dos desfiles, na Quarta-Feira de Cinzas, apontou o rebaixamento da poderosa Acadêmicos do Grande Rio, cogitava-se uma virada de mesa.

    E essa não é, infelizmente, a primeira virada de mesa da história. Isso também ocorreu no ano passado e ao longo dos anos 1990 (como em 1993, 1994 e 1995) e nos anos 1980 (como em 1981 e 1988). Muito antes disso, também tivemos outros momentos de crise: entre o final da década de 1940 e início da década de 1950 aconteceram dois desfiles considerados principais, visto que haviam duas ligas/associações organizadoras.

    LIESA: com você não dá mais
    A decisão desta quarta-feira mostrou a completa incapacidade da LIESA em gerir o desfile das escolas de samba. Nas redes sociais, desde os primeiros rumores de que o regulamento não seria cumprido, muitos se posicionaram pedindo que a Prefeitura cortasse por completo o repasse de dinheiro público a essas escolas, visto que elas não estariam cumprindo com o contrato estabelecido. Mas a solução passa por uma proposta totalmente oposta a essa.

    Acredito que o maior desfile de escolas de samba do mundo não pode ser organizado por uma liga que não tem democracia nem qualquer tipo de transparência nas suas ações. Está mais do que na hora do poder público retomar a organização dos desfiles das escolas de samba.

    Ainda que hoje a Prefeitura de Crivella seja inimiga do carnaval, a organização dos desfiles da Sapucaí (e também dos desfiles da Intendente Magalhães e do carnaval de rua) por uma Subsecretaria de Carnaval (conforme consta no relatório da Comissão Especial de Carnaval da Câmara de Vereadores) possibilitaria maior controle público sobre os rumos da festa.

    A LIESA se mostrou, desde a sua fundação, em 1984, uma entidade que visa apenas o atendimento do interesse dos presidentes das escolas, deixando de lado sambistas, foliões e o público. É uma entidade que gere o carnaval a partir de interesses particulares.

    E, incrivelmente, a virada de mesa de 2018 é só um dos problemas dessa entidade. Com a LIESA no comando do carnaval, não temos critérios públicos para a escolha dos jurados, não há licitação para a ocupação dos espaços do Sambódromo (que é um equipamento público) e os ingressos são vendidos de modo a dificultar ao máximo a vida do folião (o que favorece o trabalho de agências de viagem que aplicam uma taxa alta no preço do ingresso).

    A virada de mesa não ajuda na consolidação do público

    E essa visão apenas imediatista e comercial dos desfiles é um tiro no pé. Ao longo dos anos, ela tem servido para afastar o público, especialmente o mais jovem, da Sapucaí. Se, nos anos 1980, era comum que todo carioca tivesse uma escola do coração, hoje isso é cada vez mais raro entre aqueles que tem até 30 anos.

    Os desfiles desse ano mostraram um grande potencial para que essa lógica fosse invertida. As escolas de samba viraram assunto em todo o país, os desfiles foram comentados nas redes sociais por muita gente que nunca havia se interessado pelo tema.

    Certamente a decisão de rasgar o regulamento e não rebaixar nenhuma escola não ajuda para consolidar o público que foi atraído em 2018. Parece que a LIESA trabalha com a lógica do quanto pior melhor.

    Felizmente, sabemos que o complexo cultural que envolve as escolas de samba é muito maior do que uma liga comandada por meia dúzia de dirigentes com ficha policial extensa. Por sua vez, um eventual abandono daqueles que amam verdadeiramente as escolas só iria fortalecer essa camarilha.

    Por isso, nosso desafio segue o sendo o de defender as escolas dos ataques conservadores e de continuar a luta pela democratização da gestão do carnaval.

    Visite o especial Carnaval e(é) Resistência, sobre o carnaval 2018
    Vídeo: Entrevista com Luiz Antonio Simas, sobre carnaval, diáspora e o Rio de Janeiro

  • Operação Cartão Vermelho: Mais um passo na judicialização da política

    Jean Montezuma, de Salvador (BA)

    Na última segunda-feira, 26/02, a Polícia Federal cumpriu sete mandados de busca e apreensão em Salvador. A ação fez parte da Operação Cartão Vermelho, que investiga suspeitas de superfaturamento no serviço de demolição, construção e administração do estádio Arena Fonte Nova. O principal alvo da operação é o ex-governador da Bahia, o petista Jaques Wagner, atualmente secretário de Desenvolvimento Social do governo Rui Costa (PT). Wagner governou a Bahia entre 2007 e 2014, período em que o contrato de licitação foi celebrado com o consórcio Fonte Nova Participações (OAS/Odebrecht). Segundo a investigação da Polícia Federal, o contrato tem indícios de superfaturamento de R$ 450 milhões, e Wagner teria recebido R$ 82 milhões em propina.

    Os mandados de busca e apreensão fora cumpridos no apartamento do ex-governador, no seu gabinete na SEDES, e em outros endereços particulares e órgãos públicos na capital baiana. Desde as primeiras horas da manhã, a ação da Polícia Federal ganhou grande repercussão na mídia. No mesmo dia, a imprensa foi chamada a uma coletiva na qual a delegada responsável, contrariando o estágio ainda inicial das investigações, se mostrou convicta das acusações e afirmou que a PF chegou a pedir prisão preventiva de Jaques Wagner.

    Em tempo, não nos cabe o papel de advogados. Tampouco é objetivo desse artigo emitir um parecer sobre a inocência de Jaques Wagner e quaisquer das lideranças petistas envolvidas no seu governo. Diante de suspeitas de corrupção e má gestão dos recursos públicos, somos defensores de uma investigação transparente. Mas não é isso que vem ocorrendo com investigações como a Lava-jato e demais operações que envolvem a PF e o poder judiciário.

    Temer e a maioria esmagadora do seus ministros, envolvidos até o pescoço em casos de corrupção, seguem soltos e exercendo seus mandatos. Na Bahia, o deputado federal Atonio Imbassahy, liderança do PSDB, segue solto mesmo diante das denúncias de corrupção nas obras do metrô de Salvador quando era prefeito. Já o atual prefeito ACM Neto (DEM) é alvo de denúncia de recebimento de caixa 2 para a campanha eleitoral de 2012 – o montante, segundo delator da Odebrecht, seria de R$ 2,2 milhões.

    O espetáculo midiático provocado pela Operação cartão vermelho ocorre poucas semanas após o TRF-4 condenar em segunda instância o ex-presidente Lula. A condenação de Lula, sem provas e sustentada no dispositivo da delação premiada e na “convicção” dos Procuradores, se configurou no segundo ato do golpe. Através do reacionário poder judiciário, a burguesia que já havia interrompido o mandato de Dilma, retirou da corrida eleitoral o pré-candidato que liderava as pesquisas em todos os cenários, decidindo arbitrariamente em quem o povo pode ou não votar. É justo que se diga, com todos os enormes limites e contradições, o voto é um direito, uma conquista democrática. E toda restrição as liberdades democráticas deve ser repudiada e combatida. Lula tem o direito de ser candidato, e os trabalhadores têm o direito de decidir em quem vão votar. Deve-se combater a estratégia de conciliação de classes do lulopetismo na arena da política, e não judicial.

    Do mesmo modo, Jaques Wagner, apontado como um possível “plano B” do PT, é agora centro de uma nova investida daquilo que temos chamado de judicialização da política, ou politização da atuação do poder judiciário e da Polícia Federal. O Esquerda Online, através de seus editoriais e artigos de opinião, tem se posicionado sobre como a Operação Lava-jato cumpriu um papel fundamental na articulação que gerou o golpe de 2016. Já apontamos inúmeras vezes que seus problemas vão além da seletividade de suas ações, mas no seu próprio conteúdo reacionário, servindo como braço jurídico do programa conservador de reconfiguração do sistema político do país, para torná-lo ainda mais fechado.

    A entrevista da delegada que coordena a Operação cartão vermelho, e o pedido de prisão preventiva de Jaques Wagner, por ora negado pelo TRF-1, escancara um modus operandi idêntico ao aplicado pela operação Lava-jato. Ou seja, juízo político dos fatos, prisões arbitrárias para forçar acordos de delações premiadas e, por consequência, condenações baseadas exclusivamente na reacionária teoria do domínio do fato.

    Com base nessa teoria, Lula, o PT, e suas lideranças estão sendo criminalizados. O mesmo expediente já é utilizado contra o MST e o MTST, por exemplo. Se nada for feito, quanto tempo demorará até sindicatos, centrais sindicais e federações, outros partidos ideológicos de esquerda como o PSOL, PCB e PSTU, também virarem alvo?

    Rejeitar a judicialização da política não significa prestar apoio ao projeto de Lula, Wagner e do PT
    Se posicionar criticamente à Operação Cartão Vermelho, por identificar nela o mesmo sentido reacionário da operação Lava-jato, não significa apoiar politicamente o PT e muito menos o legado dos governos de Jaques Wagner. Categoricamente, do ponto de vista político e programático, os governos de Wagner e agora o do seu sucessor Rui Costa, são indefensáveis. No comando da Bahia entre 2007 e 2014, Wagner acabou por trair as expectativas do povo trabalhador baiano, que via seu governo com os olhos de esperança, a esperança de deixar para trás os tempos ingratos do Carlismo.

    Jaques Wagner adotou na Bahia uma política econômica que seguiu a mesma fórmula dos governos Lula e Dilma. Privatizações e parcerias público-privadas em inúmeras áreas, que fizeram a alegria das empreiteiras como OAS e Odebrecht , que lucraram como nunca. No campo, o avanço do agronegócio foi voraz e a reforma agrária foi jogada pra escanteio. Mineradoras multinacionais se instalaram na Bahia para explorar quase sem nenhum limite nossas riquezas minerais. A estratégia da conciliação de classes serviu muito bem aos interesses dos poderosos, o crescimento econômico que embalou as administrações de Wagner, não se refletiu em diminuição da desigualdade social e econômica.

    Para obter a chamada “governabilidade”, Wagner não se apoiou na mobilização das centrais, sindicatos e movimentos que o ajudaram a se eleger. Optou privilegiadamente pela aliança com as mesmas oligarquias que outrora deram sustentação política ao carlismo. Carlistas de carteirinha, como os ex-governadores Cesar Borges e Otto Alencar, entraram pro time de Wagner. Até mesmo Geddel Viera Lima foi, durante o primeiro mandato, um aliado fundamental da administração petista.

    Tão íntimo dos coronéis do carlismo, Wagner se distanciou dos trabalhadores. O funcionalismo público sofreu com arrocho salarial e precarização das condições de trabalho. Diante das greves, Wagner sempre respondeu com intransigência nas negociações e truculência na repressão aos movimentos e suas lideranças. Exemplo simbólico foi a histórica greve da educação de 2012, que durou mais de 100 dias, onde Wagner recusou-se a negociar, cortou salários, créditos de alimentação, e até mesmo o plano de saúde dos servidores.

    Um legado particularmente cruel se relaciona com a questão da segurança pública. No seu governo, Wagner seguiu a cartilha dos seus antecessores carlistas e investiu na repressão, adotando medidas que contribuíram para transformar a PM da Bahia numa verdadeira máquina de guerra. Para que se tenha ideia, em 2013 (penúltimo ano de mandato) investiu R$ 3,3 bilhões na pasta de segurança pública, verba direcionada para construção de presídios, compra de viaturas, armamentos e treinamento de grupos especiais como a Rondesp. O resultado disso, é que nesse mesmo ano a Bahia foi o estado com o maior número de assassinatos no Brasil, com um total de 5.440 mortos, segundo os dados da oitava edição do Anuário brasileiro de segurança pública. Atualmente, o seu sucessor Rui Costa tem dado continuidade a mesma política e a PM baiana é a que mais mata no Brasil. Jamais esqueceremos da chacina do Cabula, onde um laudo pericial comprovou que 12 jovens negros foram torturados e assassinados. Na ocasião, Rui Costa saiu em defesa dos policiais.

    Por irem na contramão da defesa dos interesses históricos dos trabalhadores, os governos de Wagner e Rui Costa são politicamente indefensáveis. Porém, o desafio de superá-los, assim como ao lulopetismo de conjunto, é uma tarefa política que cabe a classe trabalhadora. Ela não pode ser terceirizada para a classe inimiga e suas instituições, como o poder judiciário e a polícia federal. É compreensível que a desilusão com o projeto do PT abra caminho para a tentação de atalhos para superá-lo. Mas em política, os atalhos costumam a ser perigosos, e nesse caso, diante de operações como a Lava-jato e a Cartão Vermelho, apoiar ou fazer de conta que não nos diz respeito, é um grave erro, pois desconsidera as fronteiras de classe. Trata-se de uma ação reacionária do aparato jurídico-policial burguês.

    O caminho da esquerda socialista brasileira, sem se desligar um único instante do conjunto do povo trabalhador, passa pelo repúdio e combate a reacionária judicialização da política, pela luta unitária e radical contra a agenda golpista de retirada de direitos, e pela construção de uma alternativa de esquerda e independente, capaz de superar o projeto de conciliação de classes da direção do PT.

    24 de janeiro: mais um capítulo do golpe parlamentar