Pantera Negra e o partido Panteras Negras



Por: Elber Almeida, do ABC, SP

[Contém spoiler]

O movimento The Black Lives Matter, Vidas Negras Importam, trouxe para ordem do dia a questão racial nos EUA. As manifestações contra as mortes de negros em Baltimore, Ferguson e em outras localidades impulsionaram a luta contra o racismo naquele país que é o modelo de encarceramento em massa e repressão policial no mundo, o que preserva o racismo mesmo após um século e meio de abolição.

Negros passaram a se identificar cada vez mais com a luta racial e isso criou reflexos no mundo todo. Não foi a primeira vez que isso ocorreu. Em 1966, ano após a morte de Malcolm X, dois jovens formados em direito, Bobby Seale e Huey Newton, fundaram em Oakland o Partido Panteras Negras para auto-defesa. Com o uso de programas sociais de café comunitário e auto-defesa armada baseada na legislação da califórnia, a organização cresceu rapidamente e se nacionalizou. Logo foram infiltrados agentes da inteligência estadunidense para gerar intrigas entre os dirigentes, o que criou sucessivas rupturas e a destruição da organização. Até hoje alguns de seus membros estão presos, outros morreram, como Newton.

Os Panteras Negras tinham um programa baseado na luta por direitos sociais e a luta contra o racismo. O “Programa dos Dez Pontos”, que incluía a expropriação dos meios de produção, ou seja, um programa comunista.

“Nós acreditamos que se o homem de negócios americano branco não nos dá emprego, então os meios de produção devem ser tomados dos homens de negócios e ser colocados na comunidade de modo que o povo da comunidade possa organizar e empregar todas as pessoas e dar-lhes um padrão elevado de vida.” – Programa dos Dez Pontos.

O BPP também não era um partido “anti-brancos”. Sua organização não aceitava brancos em suas fileiras devido a uma opção organizativa, porém, traçava ações em conjunto com organizações de esquerda destes, como foi o caso na luta contra a guerra do Vietnã, por exemplo. A direção do BPP polemizava com outros grupos do movimento negro e com setores do próprio partido, como as células de Nova Iorque, quanto ao caráter desta luta. 

“No que diz respeito ao nosso partido, o Black Panther Party é um partido totalmente negro, porque pensamos, como Malcolm X pensava, que não pode haver unidade entre brancos e negros até que primeiro exista unidade entre os negros. Temos um problema na colônia negra que é particular à colônia, mas estamos dispostos a aceitar ajuda do país desde que os radicais desse país percebam que temos, como Eldrige Cleaver diz em Soul on Ice, uma mente própria. Reconquistamos nossa mente, que foi tirada de nós, e vamos decidir as posições políticas e práticas que vamos tomar. Nós vamos fazer a teoria e executar a prática. É dever do revolucionário branco nos ajudar nisso.” – Huey Newton em célebre entrevista ao “The Moviment”.

Em resumo, estes foram os Panteras Negras. Agora, existe um filme recém lançado de bilheteria gigante que altera o significado de “Pantera” ao invocar um personagem de quadrinhos criado antes da existência da organização. Este personagem é um rei de uma nação pretensamente futurista e um super-herói.

Em primeiro lugar, é um filme de entretenimento. Tem cenas de explosão, perseguição, tiroteio, rinoceronte assassino, nave espacial, pancadaria, trajes legais. Mas, como é bem sabido, o entretenimento produzido nos EUA cumpre um papel sociopolítico no mundo todo, ao espalhar ideologias que protegem seus ideais de nação. Nem é necessário citar exemplos, certo?

Em segundo lugar, é um filme de entretenimento diferente de muitos. O fato é que o elenco é negro, seus protagonistas, direção, também. Usa referências à cultura negra e coloca-a no centro da trama. Esse fato inegável levou muitos ativistas da luta contra o racismo a se empolgarem MUITO com o lançamento.

Agora, é necessário discutir o porquê disso. Os negros são historicamente colocados como personagens secundários ou antagonistas nestes tipos de filmes, até mesmo quando colocados como pessoas poderosas, por exemplo, no filme “Thor”, referenciado na mitologia nórdica, portanto branca, colocaram um negro para ser um “deus”, que por acaso era o porteiro de Asgard. O que significa essa mudança?

A indústria cultural cinematográfica lucra bilhões com suas vendas. Ela sabe detectar tendências de mercado muito bem. Negras e negros estão se identificando com sua história, passando a ter orgulho de seus traços físicos, sua cultura e lutando contra o racismo, o que é um movimento muito positivo. Porém, o capitalismo sabe transformar quase tudo em mercadoria e para ele essa é uma oportunidade de negócios e de ganhar mais dinheiro.

Mas não é só isso.

No filme existe um protagonista e um antagonista. O mocinho de traje azul e o vilão de traje vermelho. O mocinho é um rei, um moço de família bem comportado, um negro que busca governar sua nação. O vilão é um assassino de guerra, movido pelo sentimento de vingança e, principalmente, a verdadeira referência ao Partido Panteras Negras, embora com distorções.

Killmonger é seu vulgo. Nasceu em Oakland, o que na vida real é a terra de origem dos Panteras Negras. Seu pai foi morto pelo rei anterior de Wakanda, o reino do mocinho, por tramar usar a riqueza de sua nação, o minério fictício vibranium, para a luta dos negros no mundo todo. Em um sonho Killmonger revê seu pai, arrependido, dizendo para o jovem não ler seus livros. O pai, que num relance do filme mostra ter um poster com a icônica foto de Huey Newton em casa, é a principal referência do filho vingador, que toma o trono de Wakanda numa luta de morte contra o mocinho para espalhar armas de vibranium pelo mundo e iniciar guerras e revoluções contra o racismo.

Wakanda é um reino romântico, de reis guerreiros, extremamente fechado e pretensamente futurista. Pretensamente, pois, apesar dos arranha-ceús, dos veículos voadores, da ciência, etc., não deixa de ser um reino. A escolha de seus líderes é de acordo com a divisão em tribos e seu rei se mantém no trono após um desafio de morte que pode ser realizado por membros importantes da nação. Sua riqueza provém de um minério, o que lembra bem a economia colonizada dos países da África, e no final divide-se em uma guerra civil ao invés de lançar-se numa empreitada contra o mundo imperialista, o que é a imagem que o imperialismo sempre transmitiu do continente africano: nações que se matam em guerras tribais causadas por elas mesmas em luta por riquezas, ao invés da realidade que é a de países criados por tratados europeus e sua intervenção política que gera conflitos entre povos.

E a cereja do bolo é o personagem Everet Ross, agente branco da CIA, que além de ter um passado de colaboração com T’Challa foi uma peça fundamental na batalha pelo restabelecimento do reinado deste. A inteligência dos EUA, que derruba governos pelo mundo em defesa dos interesses estadunidenses e que foi fundamental para o desmantelamento do Partido Panteras Negras, aqui é parte da salvação.

A contradição entre o vilão revolucionário, assassino raivoso de guerra, irracional déspota que planeja uma guerra que irá cobrir o mundo todo, e o mocinho monarca, garoto de família, portador do perdão e da conciliação, é sintetizada no desejo que os dois possuíam, o primeiro numa maior medida que o segundo, que só foi convencido por sua amada, pela defesa dos negros que viviam fora do reino. A solução final é a criação de projetos sociais, que iniciam em Oakland, financiados por Wakanda, no estilo ONG.

Esta solução final há um problema concreto, apresentada neste filme de entretenimento e fantasia – reforçando que a indústria de entretenimento é sociopolítica – vai na contramão do que eram os Panteras Negras. Sua organização era revolucionária, enxergavam as contradições de classe no mundo, lutavam contra governos e faziam isso paralelamente a projetos sociais, como os cafés da manhã comunitários para crianças negras, provando, na prática, o critério da verdade, que não há contradição entre solidariedade e luta. A real contradição, que o filme busca desmanchar com sua narrativa, é a que existe entre solidariedade e manutenção do poder estabelecido através de classes sociais.

Por fim, voltamos ao começo. É um filme de entretenimento. É arte. Não é condenável assisti-lo mesmo levando-se em conta a visão acima. Pode gerar efeitos positivos em alguns casos, como de crianças, ou até mesmo adultos, que enxergam o negro como protagonista de uma história, o que é muito raro. Porém, não só não é contestador, como descaracteriza a história dos contestadores. Sua existência é claramente uma resposta da indústria cinematográfica à luta que os negros fizeram e fazem no dia a dia contra o racismo. O surpreendente não é a intenção desta indústria, ela está aí e enquanto existir cumprirá seu papel de manutenção da ordem. O surpreendente, e preocupante, é a reação da maioria do ativismo de celebração eufórica e com muito poucas críticas a tal peça.

Foto: Divulgação

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