Educadores de SP criam grupo de estudos sobre marxismo e educação pública



O grupo de estudos inicia nesta quarta, 21/02. Confira o texto de apresentação e a bibliografia

Ana Maria Mello, de São Paulo (SP)

Alguns camaradas têm nos perguntado: porque estudar a educação pública com autores marxistas, em uma perspectiva do materialismo histórico-dialético? Ou ainda: mais um grupo de estudos sobre educação pública e emancipatória?

Nessa oportunidade é útil uma apresentação mais ampla de como nasceu esse grupo. Somos todas ligadas à educação pública, professoras, coordenadoras pedagógicas e diretoras vinculadas à educação básica, inicialmente no município de São Paulo. O leitor pode observar que apresento aqui um grupo feminino. Ele poderá se ampliar e é o que desejamos, mas por hora somos mulheres que ao longo de muitos anos trabalhamos abrindo e fechando unidades educativas, resistindo às reformas rasteiras e de pouca durabilidade por diferentes governos reformistas ou não, enfim vivemos cuidando e educando crianças e jovens em luta continuada.

Ao escrever esse artigo, represento esse grupo inicial. Talvez tenha sido escolhida para essa tarefa por ser a mais velha desse coletivo, e como tal tenho algumas histórias ainda das décadas de 1970/80.

Por isso, vamos lá. Em 1974 eu estudava letras na UNESP de Marília onde conheci o grupo de estudos do Professor José Arruda Penteado. Os dias ocorriam na clandestinidade, e muitos de nós, estudantes universitários, nos engajamos em grupos de estudos disfarçados em diferentes abordagens. Nós, por exemplo, estudávamos os trabalhos do educador Célestin Freinet. Os freinetianos, motivados por esse professor animado, destacavam autores como Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Michel Foucault, para nos provocar continuadamente.

O Professor Penteado nos relatava a visita de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre ao Brasil, e a Conferência em Araraquara de 1960, onde os professores Antônio Candido, Bento Prado, Fernando H. Cardoso, Miriam Moreira Leite, Ruth Cardoso, entre outros, mediavam um debate aquecido sobre a tentativa de conciliação entre o existencialismo e o marxismo. Ele lia para nós trechos do livro “Critica da Razão Dialética” e lembrava, com animação, os momentos da visita de Sartre.

Vivemos também a segunda visita de Michel Foucault à USP, em São Paulo. Foi justamente em 29/10/1975, lembro-me da data, pois ficamos todos abalados com a morte do jornalista Wladimir Herzog, e os estudantes pediram para Foucault ler um texto escrito pelo movimento estudantil sobre essa tragédia.

Contrariamente a Sartre e a Simone de Beauvoir, Foucault foi filiado ao PC francês, embora dissesse que não gostava de se envolver com partidos políticos. Aluno do marxista Louis Althusser, Foucault rompeu com suas ideias e foi considerado pelas gerações seguintes como um importante representante da corrente pós-estruturalista.

Tempos agitados aqueles… Assim, de 1974 a 1978, acompanhei com muito entusiasmo esse grupo. José Arruda, marxista convicto, não achava possível o diálogo entre existencialistas e marxistas, cristãos e marxistas, ou posteriormente, estruturalistas e marxistas. Lembro que saíamos aquecidos, comentando as diferenças entre os conceitos marxistas e os colegas mais engajados afirmavam com convicção: “eles podem apoiar a revolução cubana, podem escolher como analise a variável classe social, ou ainda a população mais excluída, mas continuarão existencialistas e/ou cristãos.”

Eu? Achava os debates importantes para nossa educação, mas não tinha formação suficiente para compreender o que se passava. Nesse período estávamos filiados a movimentos clandestinos (PCB, MR8, Liberdade e Luta etc.). Todos muito disciplinados, líamos com dedicação os textos do Freinet – Ensaio de psicologia sensível aplicada à educação e Educação pelo trabalho. Esse grupo tinha como tarefa principal zelar por dez salas de aulas públicas – Freinet, tanto de pré-escola como dos primeiros anos de ensino primário da época. Eu era uma das professoras-estagiárias dessas salas, queríamos ser ativistas freinetianas, ou seja, aprender, prestar atenção, ouvir a criança e sua família, identificar nas crianças, via tateio experimental, os modos de expressão infantil. Desejávamos, assim, incluir a família na participação diária daquelas salas experimentais e criar caminhos que não fossem “invadidos por palavras inúteis e pelas teorias falaciosas descompromissadas…” (Freinet). Continuei na UNESP, agora em Assis, cursando psicologia.

Tempos melhores, menos clandestinos, podiam agora nos apresentar como marxistas? Ainda timidamente. Muitos autores marxistas entraram no Brasil na década de 1980. Wallon, Vigostki, Luria, Leontiev e Elkonin, que já apareciam entre os nossos formadores.

Desde dessa década dirigi e supervisionei creches e pré-escolas públicas, fui a Cuba estagiar em creches, continuei meus estudos, agora na USP de Ribeirão Preto, e finalmente trabalhei como psicóloga na Escola de Aplicação (FEUSP). Em todos esses espaços educacionais, tive muitas oportunidades de debates, mas poucos docentes me ensinaram a pensar dialeticamente. Na realidade, os autores marxistas foram lidos com diferentes olhares, mas em minha opinião, não foram visões e debates marxistas.

Ao contar essas e outras historias para algumas colegas professoras, marxistas, elas, entusiasmadas me convenceram de reiniciar um grupo, agora novamente em tempos difíceis, desafiantes para todos que desejam uma educação emancipatória.
Esse será um grupo de estudos marxistas, que se propõe estudar autores de gênese e pensamento dialético construído em torno do reconhecimento do papel essencial das lutas de classes. Conforme comentei, este grupo está sendo organizado por militantes que atuam no chão da escola, professoras, coordenadores e orientadoras pedagógicos, diretores da educação pública.

Acreditamos que o conhecimento, assim como tudo o que é produzido pela humanidade, se encontra, sob o capitalismo, restrito a uma classe dominante. Para somarmos à luta pela sua democratização, é necessário que a estratégia esteja acompanhada de uma boa teoria. Nosso desejo (anticapitalista) é compreender as reformas (e as reformas sem reformas!) para ultrapassá-las. Saber mais do pensamento histórico-crítico dialético, analisando nossas ações, buscando ampliar o grau de participação de cada criança e sua família, analisando as condições de trabalho dos educadores para identificar onde e como o trabalho do professor se aliena.

Para tanto começaremos com um texto de Dermeval Saviani de 1983, porque quando esse debate ocorreu naquela década, a sociedade brasileira passava por uma fase de grande mobilização. De lá para cá, muitos de nós confiamos em reformas, ou a expectativa foi favorável para receber muitas delas e muitos autores pós-marxistas.  Autores como: Sartre, Guatari, Foucault, Levi-Strauss, Derrida e Deleuze entre outros, afora as abordagens psicanalistas na educação advinda das ideias de Lacan serviram (e servem) de base à construção de argumentos contra as teorias e os teóricos marxistas, causando, em nossa opinião, impactos recessivos em toda América Latina.

Alguns autores (brasileiros ou não) resistiram a essas teses tão bem elaboradas e, portanto, tão sedutoras. Com o objetivo de estudar o lugar da educação publica contemporânea em nossa sociedade, propomos pontos para o debate, formulando argumentos para a defesa da construção continuada de uma educação emancipatória.

Nosso desejo é construir bons debates, boas práticas e registros desse novo grupo de estudos.


Adesões: O grupo de estudos é gratuito, ele se inicia no dia 21/2, às 17 horas no Centro Cultural Vergueiro (Metro Vergueiro). É preciso ser professor(a) de unidades educativas públicas. Procure a Helena, pelo e-mail [email protected]

Abaixo apresentamos a bibliografia para este semestre, e iremos organizar o segundo semestre com a colaboração de todos-as.

Bibliografia
• Dermeval Saviani. Pedagogia Histórico-Crítica, primeiras aproximações. Editora Autores Associados, pp. 5 a 14, 1995
• Perry Anderson. A Crise da crise do Marxismo. Introdução a um debate contemporâneo, pp. 10 a 64, Brasiliense, 1984.
• Silvana Calvo Tuleski. As interpretações ocidentais da obra de Vigotski, pp. 29-70, Vigotski – a construção de uma psicologia marxista, Ed. UF Maringá, 2008.
• Suely Mello. Cultura, medicação e atividade”. Marx, Gramsci e Vigotski: aproximações, pp. 375 a 376 – Ed. Cultura Acadêmica & Junqueira, 2009.
• Alessandra Arce e Rosimeire Simão. A psicogênese da brincadeira de papéis sociais ou o jogo protagonizado – Daniil Borosovich Elkonin, pp.65 – 88, Brincadeiras de papeis sociais na EI – As contribuições de Vigotski, Leontiev e Elkonin, Ed. Xamã, 2006.

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