Salvador: O carnaval das multidões, a “gincana” dos milhões e a crise das cordas



Por Jean Montezuma, de Salvador

Já é carnaval cidade! No último final de semana uma multidão tomou conta das ruas do circuito Barra-Ondina, em Salvador, arrastadas por duas festas pré-carnavalescas: O Fuzuê e o Furdunço. A primeira promovida pela prefeitura de ACM Neto (DEM), a segunda, patrocinada pelo governo estadual de Rui Costa (PT), levaram juntas dezenas de milhares de pessoas para acompanhar as atrações musicais que se apresentaram livres de cordas.

Com a chegada do carnaval, é dada a largada também para uma bem peculiar “gincana” entre prefeitura e governo do Estado. Na última terça-feira, dia 31 de janeiro, o governador Rui Costa promoveu um evento no Pelourinho, centro histórico de Salvador, onde na presença de artistas, publicitários, empresários e convidados, apresentou o plano do governo do Estado para o Carnaval. Ao todo o governo investirá R$70 milhões, sendo R$44 milhões para Segurança pública, e os outros R$26 milhões para contratação de atrações para a festa na capital e no interior. Em Salvador, serão 203 atrações promovidas pelo governo estadual nos três circuitos da festa, sendo 112 delas destinadas aos blocos sem cordas. Dos R$26 milhões, uma fatia de R$6,5 milhões serão destinadas para os blocos de matriz africana, um total de 91 entidades inscritas no projeto Carnaval Ouro Negro.

Já a prefeitura de ACM Neto, organizou o seu evento de divulgação no dia 01 de fevereiro. Na ocasião o prefeito declarou que serão investidos pela prefeitura R$55 milhões, sendo que R$35 milhões serão oriundos de contratos com a iniciativa privada. Os “parceiros” de ACM Neto vão desde as redes de rádio e televisão que transmitem a festa, passando pela rede hoteleira, chegando até as cervejarias que fecham contratos de exclusividade na comercialização de seus produtos nos circuitos da folia. Todos esse empresariado “bem intencionado” está de olho no retorno que a maior festa popular de rua do mundo produz em termos de receita. Os números são impressionantes, são esperados 2,1 milhões de turistas para a Bahia, gerando uma circulação de R$2,3 bilhões. Somente em Salvador são esperados 650 mil turistas e uma circulação de R$750 milhões em atividades ligadas diretamente ao carnaval.

Enquanto empresários preocupam-se em encher os bolsos, prefeito e governador disputam quem vai usar melhor do carnaval como plataforma para suas ambições políticas. Não se trata de defender que prefeitura e governo do Estado não devem investir no carnaval, isso seria uma falsa polêmica. Se trata de questionar a qual projeto, modelo e concepção de carnaval esse investimento milionário corresponde. Tanto a SALTUR (empresa de turismo da prefeitura), quanto a BAHIATURSA (Superintendência de fomento ao turismo do governo do Estado) funcionam como verdadeiros balcões de negócio, onde o carnaval é vendido como um produto.

Dissociado de um projeto que repense o carnaval como um todo, o discurso do carnaval sem cordas e para o povo, que sai da boca de ACM Neto e Rui Costa não vai muito além de demagogia financiada às custas do dinheiro público. A mesma preocupação que faz esses gestores obstinadamente não medirem esforços destinando milhões para o carnaval, desaparece quando se trata de outras demandas como saúde, educação e moradia, pra ficar apenas por aí. Esse discurso demagógico nada tem a ver, ou melhor dizendo, não passa de uma apropriação forçosa por parte da prefeitura e do governo do Estado, da legítima reivindicação pelo fim das cordas e por um carnaval mais democrático e popular.

Os milhões envolvidos na gincana entre prefeitura e governo estadual, o investimento em publicidade para divulgar as “atrações do governo do Estado” e as “atrações da prefeitura”, acaba por ofuscar uma crise mais profunda que há anos vem sendo gestada no carnaval de Salvador. A cada nova edição do carnaval, mais e mais agremiações deixam, literalmente, de colocar seus blocos na rua. A partir de 2017, e novamente agora em 2018, essa situação atingiu até mesmo os blocos mais tradicionais, aqueles dos abadás vendidos a preços altíssimos. Os donos de bloco esperneiam, apontam as altas taxas cobradas e a falta de patrocínio como causas da crise, e tratam a crise dos blocos de corda como sendo uma crise do próprio carnaval de Salvador. Para estes senhores não existe outra forma de carnaval, senão aquela que existe do lado de dentro de suas cordas.

Por outro lado, estudiosos como Paulo Miguez, Vice-reitor da Universidade Federal da Bahia, doutor em cultura contemporânea e pesquisador do carnaval, apontam que se trata de “uma crise no modelo de carnaval que vem desde os anos 80”. Estamos diante, portanto, do esgotamento de um ciclo que foi hegemonizado por um modelo de carnaval que transformou a festa soteropolitana numa máquina de fazer dinheiro, produzindo fortunas para quem se apropriou da nossa manifestação cultural como um produto. Que se lamentem os donos de blocos, mas para o carnaval de Salvador a falência desse modelo, que tem como símbolo as cordas como uma marca de desigualdade e violência, é extremamente progressivo. É nesse momento que, ao invés de fazer uma gincana demagógica do “quem banca mais”, prefeitura e governo do Estado deveriam promover espaços de debate com as entidades carnavalescas, artistas e a sociedade organizada, para elaborar um novo modelo e concepção de carnaval, oposto a lógica dos blocos de cordas, dos camarotes, das cotas de patrocínio e exclusividade das grandes marcas.

Que morram as cordas! Viva o carnaval!

Imagem: Trio Armandinho, Dodô e Osmar arrasta multidão no Furdunço (Foto: Elias Dantas/Ag. Haack)

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