Contra a perseguição dos bolsominions a Rachel Sheherazade

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

Por Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online

A consciência da classe operária não pode ser uma consciência política verdadeira, se os operários não estiverem habituados a reagir contra todo abuso, toda manifestação de arbitrariedade, de opressão e de violência, quaisquer que sejam as classes atingidas.

Lenin, Vladimir I. Que fazer?

Não tenho nenhuma simpatia com a Rachel Sheherazade, nem com o que ela defende do ponto de vista político e moral. Entretanto, não posso deixar de reconhecer que ela está sendo vítima de agressões pessoais, políticas, machistas e nordestinofóbicas dos bolsominions após simplesmente exercer seu direito de opinião contrária ao neofascista Bolsonaro.

Bem feito?

Tendo em vista as posições reacionárias de Sheherazade, muitas pessoas estariam tentadas a simplesmente dizer: “Bem feito, isso é problema dela”. Trata-se de uma ideologia da vingança: não se importar com injustiças que os nossos adversários políticos sofrem. Isso é um equívoco político por diversas razões. Nós devemos, sim, ser contra toda opressão, toda violência e todo abuso, qualquer que seja a posição política da vítima.

Nós, socialistas, temos um projeto de sociedade que é contrário a toda forma de opressão e exploração. Somos contrárias ao machismo sofrido por qualquer mulher, pois um ataque machista é sempre, por sua natureza, um ataque a todas as mulheres. Somos contrárias à nordestinofobia praticada contra qualquer nordestina, pois cada ataque desse tipo atinge todas as pessoas do Nordeste. Somos contra a perseguição a qualquer cidadã que se posicione politicamente contra Bolsonaro, pois essa perseguição também prejudica a todas as pessoas que são contra Bolsonaro.

A perseguição e as ameaças sofridas por Sheherazade demonstram, sem dúvida, o caráter neofascista do movimento pró-Bolsonaro. Não é tolerada uma divergência sequer. Não se aceita ninguém que questione a suposta honestidade do “mito”. A defesa do personalismo, do nacionalismo chauvinista, da “ordem”, do assassinato e da tortura contra os “criminosos” (leia-se: qualquer pessoa que não seja do espectro político do Bolsonaro) e o uso da discriminação contra minorias, valendo-se inclusive de agressões físicas, são características de um movimento fascista.

O ataque

Sheherazade foi, ainda, acusada de estar sendo manipulada pelo marido tucano. Tal acusação nada mais é do que uma forma de machismo que não admite que uma mulher tem capacidade de ter uma opinião própria, a crença de que ela seria facilmente manipulável.

Em entrevista a Mônica Bergamo, colunista da Folha, Sheherazade afirma nunca ter tipo empatia pelo deputado. Ela afirmou que “foram publicadas notícias falsas dando conta de que eu estaria me filiando ao partido do senhor Bolsonaro para lançar uma possível candidatura ao seu lado”. Explica ainda:

Recebi todo tipo de ataque sórdido e covarde. Calúnias e difamações de toda natureza, atingindo desde minha honra como mãe e mulher até a minha credibilidade profissional. Também recebi ameaças de morte contra meus filhos, além de ataques machistas e contra a minha origem nordestina.

Essas agressões cheias de ódio e ressentimento partiram de eleitores e seguidores do senhor Bolsonaro, do filho do parlamentar Carlos Bolsonaro e também do ator pornô e aliado político de Bolsonaro, Alexandre Frota, contra quem já representei penalmente.

O caráter reacionário dos bolsominions ficam nítidos nesse relato. Só isso já é mais do que um belo motivo para se posicionar contra essa atitude.