Guilherme Boulos: “Em 2018, é preciso barrar a agenda do golpe”



Cotado como candidato do PSOL à Presidência da República, Guilherme Boulos, faz uma avaliação do ano de 2017 e aponta perspectivas para as lutas em 2018, que encontrará como principal desafio barrar a Reforma da Previdência, com votação prevista para fevereiro. Boulos ainda destaca o direito democrático da candidatura petista de Lula: “É uma necessidade de toda a esquerda, mesmo que discorde do programa apresentado pelo Lula, mesmo que tenha diferença com as políticas – seja no arco de alianças ou de não ter aprendido lições do processo do golpe – como nós temos também essas diferenças, defender o direito de Lula ser candidato. O que está em jogo nesse momento é uma unidade em torno da defesa da democracia”, afirmou em entrevista exclusiva para o Esquerda Online.

Por Gisele Peres, da Redação

EO: Mesmo impopulares, Temer e sua base aliada no Congresso conseguiram aprovar parte significativa das reformas e do ajuste fiscal. Na sua avaliação, que lições podemos tirar de 2017?

Guilherme Boulos: 2017 foi o ano em que o programa do golpe se consolidou no país. Já no fim de 2016, haviam aprovado a Emenda Constitucional 95, com o congelamento de investimentos sociais por 20 anos. Depois a aprovação, já em 2017, da Lei da Terceirização e na sequencia a Reforma Trabalhista. É verdade que não conseguiram aprovar a Reforma da Previdência que era o carro chefe das medidas antipopulares, mas os retrocessos vieram não apenas através dessas grandes reformas, contrarreformas melhor dizendo, mas também nos ataques ao Pré-Sal e uma série de medidas antinacionais e no avanço de um programa de privatizações do patrimônio público.

Ou seja, a agenda do golpe progrediu durante esse ano apesar das resistências populares. Não é verdade que não tenha havido luta, houve resistência. Não podemos esquecer que em março do ano passado ocorreram manifestações extremamente importantes, desde o Oito de Março, dia de luta das mulheres, o 15 de março que foi um dia de paralisações em todo o Brasil. Posteriormente, no 28 de abril nós tivemos uma das maiores greves gerais da história do país, seguida do Ocupa Brasília no fim de maio com mais de 200 mil pessoas em que a Esplanada dos Ministérios se transformou numa praça de guerra, inclusive com o Governo Temer chamando o Exército para reprimir as mobilizações. O primeiro semestre do ano foi marcado por grandes mobilizações que ajudaram inclusive a deter parte da agenda, como a própria Reforma da Previdência. É verdade que nós não conseguimos mater esse patamar de mobilizações no segundo semestre.

Podemos tirar disso duas conclusões fundamentais: A primeira é de que há um retrocesso democrático no país. Um governo com 3% de aprovação, um congresso desmoralizado, virarem as costas para o sentimento da maioria da população que é contra essas medidas, e seguirem independentemente da opinião social, realizando a agenda é uma expressão clara do esvaziamento democrático no nosso país. E uma segunda conclusão é que evidentemente a mobilização precisa ir para um outro patamar. As nossas vias e forças de mobilização foram insuficientes para deter o retrocesso e isso deve nos colocar o desafio de pensar de que maneira a esquerda e os movimentos sociais devem atuar para reconstruir um patamar de mobilização que seja mais efetivo para conter esses retrocessos.

EO: O MTST completou 20 anos em 2017. Para além da luta por moradia, o movimento representa a defesa das cidades, ao mesmo tempo em que foi o polo que articulou a Frente Povo Sem Medo. Qual a importância da unidade entre os movimentos sociais, sindical e estudantil diante da conjuntura do país?

Guilherme Boulos: Os 20 anos do MTST foram muito simbólicos. Nós comemoramos os nossos 20 anos fazendo a maior ocupação do país, que foi a Povo Sem Medo de São Bernardo do Campo, que se transformou em um polo importante e simbólico da luta social brasileira e da resistência como um todo – e ainda permanece resistindo. Terminamos o ano com um grande show, com mais de 40 mil pessoas em São Paulo, no Largo da Batata, com Caetano Veloso e vários artistas, prestando homenagens aos 20 anos do nosso movimento.

Foram 20 anos de muita luta, de trabalho de base, de organização das periferias e de resistência. O MTST, ao longo da sua trajetória, sempre se preocupou com uma construção mais ampla, nós sabemos que não somos suficientes, nós sabemos que por mais força que possa ter um movimento, sozinho não é capaz de enfrentar efetivamente os desmandos da direita e do capital no nosso país. Por isso, a aposta na unidade é fundamental. É nesse espírito que nós ajudamos a estimular a Frente Povo Sem Medo, é nesse espírito também que temos atuado na unidade de ação em diversas frentes e com várias forças sociais e políticas. Nesse momento ainda mais: é um momento de retrocessos, é um momento de ofensiva do lado de lá e por isso é um momento em que nós precisamos ter a mais ampla unidade em relação as pautas fundamentais da resistência.

Nós entendemos que é preciso muita unidade para enfrentar a continuidade das reformas. Querem botar para votar a reforma da previdência em fevereiro, ou seja, enfrentar a continuidade da agenda do golpe, enfrentar o golpe. É preciso também muita unidade para enfrentar os retrocessos democráticos, que hoje tem uma de suas expressões na tentativa do judiciário de impedir “no tapetão” o direito do Lula ser candidato. É preciso ter, portanto, uma grande frente de defesa dos direitos e da democracia que seja ampla e forte o suficiente para que a resistência possa ser vitoriosa.

EO: A plataforma VAMOS buscou apresentar um novo programa para o Brasil a partir do acúmulo de debates nas redes e nas ruas, contemplando a diversidade de representações e de posicionamentos políticos. O que você destaca dessa experiência? Qual a síntese desse programa?

Guilherme Boulos: O VAMOS tem sido uma experiência extraordinária, que foi capaz de no segundo semestre de 2017 juntar diferentes setores, agregar uma diversidade de representações e opiniões políticas para pensar um projeto de futuro para o país. Nos debates do VAMOS – foram 55 debates, em 24 cidades brasileiras – participaram sem-tetos, indígenas, trabalhadoras e trabalhadores, movimentos de comunicação e cultura, movimento feminista, movimento negro, movimento LGBT, lideranças políticas, intelectuais, gente de partidos de esquerda, gente que não é de partido algum, ativistas em geral.

Esse processo foi muito rico e permitiu uma experiência de baixo para cima, debatendo nas praças, possibilitou a construção de alguns consensos democráticos. O resultado inicial do VAMOS que foi apresentado em Recife, no final de novembro, não é uma coisa que se pretenda pronta ou um programa definitivo e sim um acúmulo de debates vivos e dinâmicos feitos com amplos setores.

Para além disso, também houve a plataforma virtual, com mais de 130 mil pessoas acessando e deixando suas contribuições, uma ferramenta de participação de rede similar aquelas que tem acontecido em várias experiências de esquerda no mundo. Então, nós acreditamos que o VAMOS é muito simbólico e ajuda a plantar sementes de novas configurações e novos caminhos na esquerda brasileira. E não vai parar por aí, o que nós vimos no ano passado foi uma primeira etapa do VAMOS, a abertura de um debate, e nós pretendemos levar isso adiante durante o ano de 2018, especialmente levando essas discussões com mais força para as periferias.

EO: O dia 24 de janeiro será decisivo para o rumo das eleições presidenciais em 2018. Será  o julgamento dos recursos do ex-presidente Lula, condenado pelo juiz Sérgio Moro pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Qual a sua avaliação sobre esse processo? Defender o direito democrático da candidatura de Lula se confunde com a defesa da conciliação de classes dos governos petistas?

Guilherme Boulos: Dia 24 teremos uma grande batalha em defesa da democracia. Se nós observarmos, a condução do processo da Lava Jato contra o Lula é uma verdadeira aberração jurídica. Lula foi condenado em primeira instância sem qualquer prova material, de maneira casuística, com uma atuação evidentemente política e arbitrária do juiz Sérgio Moro.

Aliás, que expressa procedimentos que tem sido reiterados em vários momentos da Lava Jato: delações premiadas sem qualquer critério claro das suas aceitações, divulgação ilegal de grampos, abuso de prisões provisórias e preventivas, conduções coercitivas, uma relação promíscua com setores da imprensa.

A própria antecipação do julgamento do TRF4 para o dia 24 foi escandalosa, ajustando os prazos para impedir Lula de concorrer nas eleições. Então, nesse sentido, se trata num primeiro momento de impedir e denunciar o abuso judicial de uma condenação sem provas. Mas, ao mesmo tempo, isso tem muita relação com o processo eleitoral porque existe um casuísmo evidente de querer resolver as eleições no tapetão do judiciário. Impedir Lula significa isso. Nós entendemos que é um desafio de toda a esquerda defender o direito do Lula ser candidato.

Se trata, na verdade, de uma nova fase do golpe, um aprofundamento do golpe. E da mesma forma que nós enfrentamos o golpe e defendemos o mandato da Dilma, muito embora discordássemos de caminhos que foram tomados pelo seu governo, nós achamos que é necessário nesse momento defender o direito do Lula ser candidato e enfrentar essa nova etapa do golpe independentemente de termos discordâncias com o programa político e eleitoral que Lula oferece para a sociedade. Ou seja, é uma defesa democrática. É disso que se trata. É uma necessidade de toda a esquerda, mesmo que discorde do programa apresentado pelo Lula, mesmo que tenha diferença com as políticas – seja no arco de alianças ou de não ter aprendido lições do processo do golpe – como nós temos também essas diferenças, defender o direito de Lula ser candidato. O que está em jogo nesse momento é uma unidade em torno da defesa da democracia

EO: Seu nome é reivindicado como uma das principais lideranças que podem impulsionar uma Frente de Esquerda Socialista e uma candidatura presidencial do PSOL em 2018. Como você avalia os desafios que estarão colocados para os movimentos sociais durante esse período?

Guilherme Boulos: Esse é um debate em curso, ainda não há definição. Tem ocorrido conversas entre a direção do MTST, dirigentes do PSOL e aliados nossos a respeito dessa possibilidade de uma participação eleitoral neste ano. Os desafios dos movimentos sociais, no nosso entendimento, nesse processo eleitoral são dois fundamentalmente.

O primeiro é enfrentar o golpe em curso. Isso se expressa, como dissemos, na tentativa de obstruir o Lula, mas não somente. Isso também se expressa nas propostas de semi-parlamentarismo que tem aparecido com cada vez mais frequencia na boca de gente como Gilmar Mendes e do próprio Michel Temer; isso se expressa na necessidade de garantir que os setores mais retrógrados da sociedade não bloqueiem ainda mais o que restou de ambiente democrático no país. Esse é um desafio fundamental. Isso passa também por enfrentar as alternativas da direita, e o crescimento de figuras como Jair Bolsonaro querendo canalizar o sentimento de anti-política para um retrocesso político ainda maior.

E um segundo desafio, é que o momento eleitoral coloca a necessidade de debater um projeto de país. Nós vemos a agenda do golpe sendo implementada, penalizando as maiorias, e é preciso aprender com as lições desse processo. É preciso entender que o momento é outro. O momento atual não permite avanços do ponto de vista de direitos sociais, avanços das pautas populares do país sem enfrentamento decidido aos privilégios, sem colocar o dedo na ferida de questões fundamentais. Na economia, o enfrentamento aos bancos e ao sistema financeiro; a necessidade de uma reforma tributária progressiva. Na política, a necessidade de uma democratização profunda, que apresente uma saída popular à falência do sistema da Nova República. Dentre vários outros debates programáticos, muitos deles colocados pelo próprio VAMOS. É um momento de enfrentamento e a esquerda precisa saber colocar esses temas no centro da agenda. Senão as políticas de retirada de direitos novamente serão vendidas como única “alternativa”.

A margem de manobra para soluções intermediárias, soluções de centro, soluções de conciliação é muito reduzida. Portanto, é necessário que a esquerda pense e que os movimentos sociais pensem alternativas para a saída dessa crise. O VAMOS e todo esforço que fizemos de debates programáticos nos ajudou a indicar alguns caminhos do que seria hoje um programa de esquerda para o país. Evidentemnete, ainda é muito insuficiente. Nós precisamos aprofundar esse debate, e também se valer do aquecimento do debate político na sociedade para questionar o projeto do golpe e apresentar possibilidade de um projeto de enfrentamento que efetivamente represente as maiorias.

Imagem: Guilherme Boulos no ato pelas “Diretas, Já” no Rio de Janeiro em maio de 2017/ Crédito: Coletivo Comunicadores Sem Medo

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