O discurso de Oprah Winfrey no Globo de Ouro



Na noite deste domingo (7), houve a apresentação do Globo de Ouro, disputa de premiações em Hollywood para cinema e televisão. O prêmio existe desde 1944 e é considerada a maior honra profissional atribuída por um júri internacional, visto que o Oscar e Emmy são prêmios julgados pelos respectivos pares locais. Em destaque, neste ano, o Prêmio Cecil B. DeMille, atribuído anualmente pelo conjunto da obra e a notabilidade no cinema, foi concedido à atriz e apresentadora norte-americana Oprah Winfrey.

Por Martina Gomes, de Porto Alegre

Representatividade: a primeira atriz negra a receber o Prêmio Cecil B. DeMille

Foram mais de oito minutos de um discurso forte e com uma forte mensagem em rede internacional. Oprah iniciou seu discurso a partir da lembrança de Sidney Poitier, primeiro ator negro a receber o Oscar de Melhor Ator em 1963, posteriormente em 1982 vindo a receber a mesma premiação que a atriz nesta noite.

Seu discurso entoou a voz de representação da população negra ao se enxergar em um espaço de proporção ainda minoritária. Ao afirmar que “Neste momento, há algumas garotinhas assistindo eu me tornar a primeira mulher negra a receber esse mesmo prêmio” Oprah revela sua consciência enquanto mulher negra norte-americana ao ocupar um lugar de destaque em 2018, tornado-se assim uma referência publicitária na construção da identidade racial com imagem positiva para várias gerações.

Em 1944 ,quando a atriz Hattie McDaniel, a criada Mammy de E Tudo o Vento Levou (1939), recebeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, sua localização na sala de premiações foi ao fundo separada do restante do elenco. Não era permitida a entrada de negros no Hotel que ocorria a cerimônia, e mesmo após conseguir uma autorização para tal, a mesma seguiu isolada do restante dos atores. Esta foi a primeira vez que um negro ganhava uma premiação no Oscar, que já estava em sua 17ª edição.

Sidney Poitier foi reconhecido não somente por ser um ator negro, mas também por não aceitar manter o estereótipo dos afro-americanos com uma imagem subjugada. Portanto, sempre se propôs a estar vinculado à projetos e cineastas que deixassem a questão racial surgir em novas narrativas.

Neste sentido, Oprah Winfrey teve como marca de sua carreira seu talk-show que ficou 25 anos ininterruptos no ar, sendo o programa com maior audiência nos EUA. Além da interpretação de personagens em filmes que auxiliaram a vincular a uma imagem de mulher negra e forte. Recentemente, no filme A vida Imortal de Herrieta Lacks ela recupera a história da até então anônima mulher negra que foi fundamental nas pesquisas de tratamento do câncer.

#Metoo

Outro aspecto importante do seu discurso foi o combate à violência e assédio sexual. Foi amplamente divulgado que frente às denúncias em Hollywood de assédio as mulheres foram à premiação, em sua grande maioria, vestidas de preto, como forma de protesto e solidariedade às vítimas que denunciaram seus casos.

Porém, a partir deste fato que sensibilizou amplamente com a campanha em forma de hashtag nas redes sociais #metoo (“eu também”) demonstrando o quão ampla é a violência contra as mulheres, Oprah fez uma opção de ampliar o tema. Além de incentivar que a“verdade” seja exposta mesmo com todas as dificuldades que a situação de violência coloca as mulheres, ela afirma em seu discurso que “são as mulheres cujos nomes nunca conheceremos, são trabalhadoras domésticas e trabalhadoras agrícolas, elas estão trabalhando em fábricas, em restaurantes, estão nas universidades, engenharia, medicina e ciência, elas fazem parte do mundo da tecnologia, da política e dos negócios, elas são nossos atletas nas Olimpíadas e elas são nossas soldadas nas forças armadas”.

A afirmação de Oprah nos auxilia na conclusão de que inclusive são estas mulheres ditas por ela “anônimas” as maiores vítimas dessas inúmeras violências cotidianas. São em especial as mulheres simbolizadas por Recy Taylor em seu discurso. Uma mulher, trabalhadora e negra que foi violentada em 1944 quando saia da Igreja e que lutou por justiça em um país segregado e com um Estado racista. Foi Rosa Parks, que anos depois viria a se transformar em um símbolo da luta contra a segregação racial nos EUA, ao não ceder seu lugar no ônibus para um branco. Ela foi companheira de Recy Taylor por justiça a violência que havia sofrido.

Para um Novo Amanhecer: Rosa Parks

O discurso proferido por Oprah no Globo de Ouro chegará a milhões de pessoas em diversos países. Sem dúvida, tocará profundamente algumas milhares de crianças meninas negras que no dia de hoje tem acesso em alguns segundos a tudo que ocorre no mundo. Oprah falou sobre Recy Taylor e Rosa Parks que lutaram durante o auge das leis de segregação racial (Jim Crow), por direito de sobrevivência básicos, a luta por direitos civis nos EUA tem como referência o boicote ao ônibus de Montgomery em 1955.  A divulgação das suas lutas em um prêmio que é assistido por milhões de pessoas em todo o mundo impacta progressivamente o despertar da luta dos oprimidos.

O discurso de Oprah em Hollywood, utilizando um símbolo da questão negra, é uma contradição com a sua posição social de uma das mulheres negras mais ricas do mundo segundo a revista Forbes. O seu elemento positivo de denúncia da situação do negro e das mulheres
nos Estados Unidos acompanha também seus limites: a representatividade importa e é fundamental mas tem se demonstrado insuficiente para os negros e negras norte-americanos.

Nunca antes na história dos Estados Unidos, negros e negras tiveram em tantos postos de governo e recebendo premiações em diversos prêmios de cinema e televisão. Em contradição a isso as desigualdades sociais, a discriminação e o preconceito racial se mostraram
duradouros e persistentes na vida social dos negros e negras. Na verdade, voltaram a aumentar nos últimos anos depois da crise econômica de 2007/2008 e seus efeitos. Os negros e negras, assim como as mulheres e as LGBT’s, são os primeiros a pagar os efeitos da crise, como também o crescimento da ofensiva conservadora no primeiro ano do governo Trump.

As mobilizações de Baltimore, Ferguson, o movimento #BlackLivesMatter(Vidas negras importam) e o protagonismo do movimento negro na luta contra Trump têm sido um elemento de destaque da política norte-americana. Assim como as mobilizações do 8 de março das mulheres contra Trump. Essas mobilizações demonstram quem são os sujeitos, por vezes “anônimos e anônimas”, que estão sendo os principais combatentes das políticas reacionárias no país. Porém, mais do que isso, eles apontam que apos mais de um século de luta por direitos civis nos EUA toda representatividade só muda efetivamente a vida dos que são sujeitados se vierem acompanhadas de organização coletiva para a parcela que mais necessitam.

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