A operação de salvamento a William Waack ou o racismo como um mal menor no jornalismo brasileiro

Por Romulo Mattos, do Rio de Janeiro, RJ.

I

Há cerca de um ano, William Waack estava em um estúdio da Rede Globo se preparando para entrevistar Paulo Sotero, diretor de uma instituição de estudos de geopolítica dos EUA, e ouviu uma buzina tocar. Insatisfeito com o ruído, o primeiro afirmou: “É coisa de preto”, e soltou uma gargalhada, enquanto o segundo sorriu. Em 8 de novembro de 2017, essa cena se tornou pública por meio de um vídeo que vazou na internet e viralizou. Diretores da empresa de comunicação afastaram o intelectual-jornalista[1] das funções de apresentador e editor do Jornal da Globo, ao passo que o programa Painel, da Globo News, por ele comandado, foi cancelado. Também divulgaram uma nota sobre o assunto no meio virtual, a qual foi lida por Renata Lo Prete naquele telejornal. O que aconteceu depois disso foi a montagem de uma operação de salvamento a Waack, envolvendo os principais veículos da grande imprensa.

O foco central de análise deste texto recai sobre os argumentos defendidos em tom combatente, de autoria de Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo, Rachel Sheherazade e um tal Filipe Vilicic. O primeiro e o último trabalham para a Veja, enquanto o segundo e a terceira escreveram no site da Rede TV! e no Instagram, respectivamente. Nunes é um veterano da grande imprensa que não deixa o fantasma do udenismo desaparecer, enquanto Vilicic pode ser definido como um jovem adulador de jornalistas consagrados que escreve sobre a indústria digital. Azevedo é reconhecido como um dos arautos da nova direita, talvez um guru, diferentemente de Sheherazade, uma verborrágica apresentadora de telejornal que flerta publicamente com a extrema-direita.

Em comum, esses textos promovem a ideia de que a excelência profissional de Waack não pode ser eclipsada pelo vazamento do tal vídeo comprometedor – trata-se da tese do racismo como um mal menor, diante de uma carreira exemplar dentro do jornalismo brasileiro. Eles também afirmam que o intelectual-jornalista não é racista e, por fim, transformam o agente produtor do preconceito racial em vítima. Quanto à primeira prática discursiva, o artigo de Nunes é o melhor exemplo:

“Repórter visceral, excepcionalmente talentoso, William tornou-se o melhor correspondente de guerra do mundo. (…) Os textos que assinou em jornais e revistas lhe garantem uma vaga perpétua no ranking dos grandes nomes da imprensa. Os livros que publicou reescreveram a História”.[2]

A passagem mais delirante desse trecho é a afirmação de que Waack reescreveu a História com os seus estudos, que não constam da bibliografia de nenhum curso de graduação minimamente sério na área das ciências humanas no Brasil – além de não haver consenso sobre a sua suposta condição de referência nacional como correspondente de guerra. A respeito da segunda ordem de argumentos, o texto de Azevedo é mais objetivo: “E eu sei, como sabem todos os que o conhecem, pessoal e profissionalmente, que ele não é racista”.[3] Aqui o articulista recorre a uma prova de inocência um tanto abstrata diante de um vídeo contundente. Sobre a terceira forma de defesa ao intelectual-jornalista, a manifestação de Sheherazade é especialmente curiosa:

“Caiu na armadilha pérfida dos coleguinhas invejosos, esquerdistas acéfalos e medíocres de todas as nuances. O hipocritamente correto venceu mais uma vez. Feriu de morte o brilhante Paulo Francis, atropelou Boris Casoy, trapaceou Reinaldo Azevedo e agora condenou à execração pública William Waack. E o jornalismo brasileiro fica a poucos passos da total acefalia”.[4]

Nessa citação há certos temas que são uma verdadeira obsessão para a nova direita: a conspiração de agentes da esquerda e a vitória do politicamente correto. Não obstante, há a solidariedade a jornalistas conservadores que tiveram a reputação manchada pela prática do preconceito, seja ele racial (no caso de Francis e Waack), social (no de Casoy) ou de gênero (no de Azevedo) – sendo que esses dois últimos foram condenados pela Justiça. Em um procedimento tipicamente brasileiro, como o samba e a feijoada, o algoz é transformado em vítima. Vale lembrar a polêmica em torno de Patrícia Moreira, a torcedora do Grêmio filmada enquanto chamava o goleiro Aranha de “macaco”. A primeira reportagem sobre o assunto que aparece no Google aponta para o: “(…) impacto social, financeiro e psicológico na garota, que passou e ainda passa por tratamento psiquiátrico para tentar seguir a vida e superar uma fase depressiva”.[5]

Se Sheherazade culpa os (descerebrados) partidários da esquerda por Waack se encontrar no limbo, Nunes e Azevedo encontram um jeito de atacar o PT até quando defendem um jornalista da acusação de racismo (!) – e esse partido político é outra preocupação permanente dos colunistas da grande imprensa. Nunes caprichou: “Nestes tempos escuros impostos aos trêfegos trópicos pelos governos de Lula, do poste que fabricou e do vice que o dono do PT escolheu, William tem sido um dos pouquíssimos jornalistas de televisão irretocavelmente altivos”.[6] A citada dupla masculina também deixa claro que está defendendo a um amigo. Nas exemplares palavras de Azevedo:

“Não vou me sujeitar a uma ordem de coisas em que eu me veja proibido de dizer a verdade sobre um amigo quando o vejo ser esmagado pela mentira, pela covardia, pela inveja, pelo oportunismo, pela deslealdade, pela fraqueza de caráter, pela vigarice, pela ignorância”.[7]

É possível notar que o tema da amizade se enlaça ao da vitimização de Waack. Conforme diz a letra de “Canção da América” (1980), escrita por Fernando Brant e cantada por Milton Nascimento: “Amigo é coisa pra se guardar/ Debaixo de sete chaves/ Dentro do coração (…)”. A falta de cuidado na escolha dos argumentos é evidente, pois Nunes e Azevedo ignoram o critério da imparcialidade no jornalismo.

Exaltados, os quatro profissionais da grande imprensa mencionados neste texto atacam e ofendem moralmente os brasileiros que, no meio virtual, criticam a prática do racismo por um apresentador/editor de telejornal da maior empresa de comunicação do país. Os milhares de internautas que se indignaram com a atitude de Waack são chamados de “exército de abjetos” por Nunes, de “covardes” por Azevedo, de “fundamentalistas da moral seletiva” por Sheherazade, e “imbecis” por Velicic. Essa é a total inversão de valores e sentidos no que diz respeito à promoção de um jornalismo ético e cidadão, comprometido com o fortalecimento dos direitos da coletividade e com a dignidade humana. Certamente, a questão da igualdade racial não está na pauta desses jornalistas, se é que podem ser assim chamados, pois ignoram os princípios fundamentais do ofício.

Tendo em vista a confiabilidade do campo jornalístico, os profissionais aqui citados tiveram a chance de pedir desculpas pelo comportamento racista de Waack, considerado o mais importante agente da imprensa nacional por Azevedo. Ou de deixar claro que tal conduta não combina com os preceitos mais básicos do jornalismo. Pelo contrário, eles compuseram uma rede de solidariedade para salvar o apresentador/editor do Jornal do Globo. Assim, acreditam que o preconceito racial na grande mídia seja um tema irrelevante se comparado ao suposto brilho da carreira de um de seus representantes. Aqui a suposição se explica, sobretudo, pela ideia de que o praticante de um jornalismo francamente parcial não deve ser considerado tão brilhante. A não ser que os manuais de redação e estilo publicados pelos principais jornais brasileiros, com o bê-á-bá da profissão, sejam peças de ficção, assim como a própria ética do jornalismo liberal, segundo a qual nenhuma conduta que implique a supressão da verdade é correta.[8]

Talvez não seja coincidência que o diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, seja autor de um livro intitulado Não Somos Racistas, a essa altura involuntariamente negado pelo seu subordinado na Globo. Ou que o tal vídeo com cenas explícitas de racismo tenha sido recusado pelos chefes de redação do país, antes de vazar na internet. A resposta ouvida pelos militantes do movimento negro foi a de que esse material só seria interessante se envolvesse o outro William, o Bonner. Ou seja, aqueles quadros de comando estariam mais interessados no sensacionalismo ou nas notícias sobre celebridades do que no debate sobre o racismo no país – se essa não tivesse sido apenas uma desculpa para acobertar um de seus filhos diletos.[9]

II

A Folha de São Paulo chegou a publicar dois textos que constituem uma envergonhada tentativa de livrar o intelectual-jornalista da berlinda, tendo em vista a preocupação de não comprometer a credibilidade do jornal: um deles não assinado[10], e o outro de autoria de Tony Goes.[11] Ambos insinuam a tese do racismo como um mal menor diante de uma excelentíssima trajetória no jornalismo, sendo que o primeiro é um detalhado relato da carreira de Waack (o que reforça tal teoria, sem parecer um texto engajado). Considerando a delicada situação em que se encontra o intelectual-jornalista, mais parece o seu obituário. Porém, apenas os escritos de Goes reproduzem o expediente de transformar o algoz em vítima. Esse autor sustenta um malicioso argumento que não pode passar despercebido: “Suspensão de William Waack comprova imediatismo da internet”.[12] Diferentemente, o que o revés do apresentador/editor confirma são os resultados acumulados pela luta histórica dos negros no espaço público.

É revelador que o vazamento do tal vídeo tenha sido obra de dois negros que trabalhavam como operadores de VT na Globo.[13] Apressadas análises associaram a divulgação das imagens ao suposto “ódio” existente em torno da vaidosa figura de Waack nos meios jornalísticos, na melhor tradição da teoria da conspiração. Jamais passou pela cabeça de seus convictos autores que pudesse se tratar de uma ação que expressasse a consciência política de negros.[14] Mas essa também vem sendo manifestada por meio da hashtag “#ÉCoisadePreto”, que transformou o comentário racista do intelectual-jornalista em memória de conquistas negras.[15]

Outra afirmação de Goes deve ser contestada, a de que a opção da Rede Globo por afastar Waack teria sido: “(…) uma atitude drástica”.[16] No Brasil, o recurso ao afastamento tem cheiro de impunidade, pois permite a reintegração profissional de protagonistas de escândalos logo após a poeira ter baixado – como é possível perceber na trajetória de executivos, políticos, dirigentes esportivos e até artistas com a reputação manchada por investigações ou vazamentos de vídeos e áudios comprometedores. A moderada decisão da empresa de comunicação não é compatível com a primeira linha da referida nota que publicou no site G1, lida no Jornal da Globo por Renata Lo Prete: “A Globo é visceralmente contra o racismo em todas as suas formas e manifestações”.[17] A perpetração de um crime – como a discriminação racista deve ser entendida – dentro de um estúdio de TV é motivo de sobra para a configuração da figura da justa causa.

A atuação de Waack, elitista e avessa à participação política popular, reforça o ambiente político conservador e profundamente excludente do país. O agente do telejornalismo que faz a propaganda das contrarreformas mais danosas aos trabalhadores, aceleradas pelo golpe de Estado do qual foi um militante, é o mesmo que expressa o racismo em seu local de trabalho – de onde saem as notícias para todo o Brasil.  E isso não deve ser coincidência. Vale lembrar que Waack também foi denunciado como informante da CIA pelo WickLeaks, muito embora ele seja considerado o maior exemplo de “independência” jornalística para Nunes… Em resumo, a sua performance contribui para que a televisão se mantenha como um instrumento de opressão simbólica, e não um extraordinário instrumento de democracia direta que idealmente poderia ser.[18]

A correlação de forças não é boa para a esquerda, que, porém, ainda tem os seus momentos na refrega. A queda de Waack é um deles e, como tal, merece ser comemorada por seus partidários. Que esse episódio contribua para o fortalecimento da luta contra o racismo no Brasil, e isso é o mais importante.


[1] Ao utilizar essa expressão, Bourdieu se referiu aos produtores culturais situados em um lugar incerto entre o campo jornalístico e os campos especializados, “que se servem de seu duplo vínculo para esquivar as exigências específicas dos dois universos e para introduzir em cada um deles poderes mais ou menos bem adquiridos no outro”. BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Seguido de A influência do jornalismo e Os Jogos Olímpicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

[2] NUNES, Augusto. William Waack vira alvo do exército dos abjetos. Veja, São Paulo, 9 de nov. 2017. <<http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/william-waack-vira-alvo-do-exercito-dos-abjetos-contra/>>. Acessado em: 10/11/2017, às 10h30m.

[3] AZEVEDO, Reinaldo. William Waack, o jornalista mais importante do Brasil, não é racista! Os covardes se assanham! Blog Reinaldo Azevedo – Rede TV!, São Paulo, 9 de nov. 2017. <<http://www3.redetv.uol.com.br/blog/reinaldo/post/william-waack-o-jornalista-mais-importante-do-pais-nao-e-racista-os-covardes-se-assanham/>>Acessado em: 10/11/2017, às 10h50m.

[4] RACHEL Sheherazade defende William Waack: “O hipocritamente correto venceu”. IG, 10 de nov. 2017.<<http://gente.ig.com.br/fofocas-famosos/2017-11-10/rachel-sheherazade.html>>. Acessado em: 10/11/2017, às 10h52m.

[5] MOURA, Eduardo. Pivô do caso Aranha volta a trabalhar, mas ainda sofre ameaça 1 ano depois. Globo Esporte.com, Rio de Janeiro, 27/08/2015. <<http://globoesporte.globo.com/rs/noticia/2015/08/pivo-do-caso-aranha-volta-trabalhar-mas-ainda-sofre-ameaca-1-ano-depois.html>>. Acessado em: 10/11/2017, às 13h50m.

[6] NUNES, Augusto. op. cit.

[7] AZEVEDO, Reinaldo. op. cit.

[8] ALMINO, João. A verdade e a informação. São Paulo: Brasiliense, 1986.

[9] Guimarães, João. op. cit.

[10] AFASTADO da Globo por comentário racista, William Waack já foi sequestrado por forças de Saddam Hussein. Folha de São Paulo, São Paulo, 9 de nov. 2017. <<http://f5.folha.uol.com.br/televisao/2017/11/afastado-da-globo-por-comentario-racista-william-waack-foi-sequestrado-por-forcas-de-saddam-hussein.shtml>>. Acessado em: 10/11/2007, às 21h12m.

[11] GOES, Tony. Suspensão de William Waack comprova imediatismo da internet. Folha de São Paulo, São Paulo, 8/11/2017. <<http://f5.folha.uol.com.br/colunistas/tonygoes/2017/11/suspensao-de-william-waack-comprova-imediatismo-da-internet.shtml>>. Acessado em: 10/11/2017, às 14h00m.

[12] GOES, Tony. “Suspensão de William Waack comprova imediatismo da internet”. Folha de São Paulo, São Paulo, 8/11/2017. <<http://f5.folha.uol.com.br/colunistas/tonygoes/2017/11/suspensao-de-william-waack-comprova-imediatismo-da-internet.shtml>>. Acessado em: 10/11/2017, às 14h00m. Idem para as próximas citações.

[13] Guimarães, João. Queríamos discutir o racismo, afirmam responsáveis por vazamento de vídeo de Waack. Jovem Pam, São Paulo, 9 de nov. 2017. <<http://jovempan.uol.com.br/entretenimento/tv-e-cinema/queriamos-discutir-o-racismo-afirmam-responsaveis-por-vazamento-de-video-de-waack.html>>. Acessado em: 10/11/2007, às 15h40m.

[14] ROVAI, Renato. William Waack se despede do jornalismo da pior forma possível. Revista Forum, 9 de nov. 2017. <<https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2017/11/08/william-waack-se-despede-do-jornalismo-da-pior-forma-possivel/>>. Acessado em: 10/11/2007, às 15h

[15] KASTNER, Tássia. Hashtag #ÉCoisadePreto transforma comentário racista em memória de conquistas negras. Folha de São Paulo, São Paulo, 9 de nov. 2017. <<http://hashtag.blogfolha.uol.com.br/2017/11/09/hashtag-ecoisadepreto-transforma-comentario-racista-em-memoria-de-conquistas-negras/>>. Acessado em: 10/11/2007, às 16h20m.

[16] GOES, Tony. op. cit.

[17] REDE GLOBO. William Waack é afastado do Jornal da Globo. G1, Rio de Janeiro, 8/11/2017. <<https://g1.globo.com/economia/midia-e-marketing/noticia/william-waack-e-suspenso-do-jornal-da-globo.ghtml>>. Acessado em: 10/11/2017, às 10h40m. Idem para as próximas citações.

[18] BOURDIEU, Pierre. op. cit. p. 13.

 

            

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