Pular para o conteúdo
EDITORIAL

Eleições na Áustria: conservadores vencem e extrema-direita deve compor governo    

Por: Victor Wolfgang Kemel Amal, de Florianópolis, SC

No dia 15 de outubro, ocorreram eleições na Áustria, para escolher a nova composição do parlamento e coalizão de governo dos próximos quatro anos. Assim como nas eleições deste ano, nos demais países europeus – em que a Frente Nacional foi ao segundo turno na França e a AfD entrou no parlamento alemão – o processo político ficou marcado pela direitização conservadora dos partidos liberais, enfraquecimento da esquerda e ascensão da extrema-direita.

O conservador Partido do Povo Austríaco (ÖVP) ficou em primeiro lugar com 31,7% dos votos. Seu representante para o cargo de chanceler é Sebastian Kurz, jovem de apenas 31 anos e ex-ministro do antigo governo de composição entre o ÖVP e a Socialdemocracia. Foi ele quem articulou junto à Hungria, governada pelo declaradamente islamofóbico Viktor Órban, a militarização e fechamento da rota de refugiados que passava pelos Bálcãs. Junto ao acordo de Merkel com Erdogan para trancafiar os refugiados sírios na Turquia, foram as duas principais medidas que impediram a vinda dos refugiados para o continente em 2016.

Kurz é da ala mais conservadora do ÖVP, firmemente contrário à “grande coalizão” com os socialdemocratas que governa o país há 10 anos. Entre 2014 e 2017 entraram cerca de 300 mil refugiados na Áustria, que tem menos de 10 milhões de habitantes e presenciou, por isso, um avanço inédito da xenofobia desde o pós-guerra. Por essa razão, o ÖVP escolheu Kurz para radicalizar o discurso e o programa direitista do partido – agregando ainda mais um caráter islamofóbico – e recuperar parte da popularidade perdida para a extrema direita.

Em segundo lugar ficou o Partido Socialista da Áustria (SPÖ), com 27% dos votos. Há dez anos os socialdemocratas vêm compondo governo com o ÖVP, a chamada “grande coalizão”, similar ao caso alemão da Democracia Cristã junto ao SPD. Devido à hegemonia da direita nesta coalizão, os socialistas vinham perdendo popularidade e se esperava uma derrota similar à que ocorreu com o SPD alemão (obteve nas eleições do mês passado sua pior votação na história). Mas com 27%, o SPÖ conseguiu respirar e não ser ultrapassado pela extrema direita.

Em terceiro ficou justamente o islamofóbico e racista Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), com 25,9% dos votos. O FPÖ foi fundado em 1956 por Anton Reinthaller, ex-oficial da SS (polícia secreta nazista), e já participou duas vezes da coalizão de governo. A primeira foi em 1983 com os Socialdemocratas, após um momentâneo giro “liberal” do FPÖ. A segunda vez foi em 2000, com o ÖVP, após um novo giro ultradireitista liderado por Jörg Haider. Contudo, devido à sua evolução mais ao centro durante a coalizão, o FPÖ foi punido nas eleições seguintes e obteve apenas 10% dos votos, momento em que Heinz-Cristhian Strache assume a presidência do partido.

Os grandes derrotados foram os Verdes, que após obterem 12,5% dos votos em 2013, este ano não chegaram à meros 5% e estarão fora do parlamento (partidos que não tiverem ao menos 5% dos votos não têm direito à representação parlamentar). Esta derrota tão expressiva não era esperada, dado o fato que nas eleições presidenciais do ano passado o candidato verde Alexander van der Bellen ganhou. Ainda, os “Liberais” conseguiram atingir 5% dos votos e participaram do parlamento.

Ao que tudo indica, a coalizão de governo será formada pelo ÖVP com o FPÖ, selando uma nova aliança entre os conservadores e os semifascistas. Isto porque o representante conservador, Sebastian Kurz, é da ala mais radical de seu partido e durante as eleições foi muito mais contundente em sua crítica aos socialdemocratas que ao FPÖ. Apesar de Kurz ter afirmado, em entrevista recente ao jornal alemão “Der Spiegel”, que irá conversar com ambos os partidos, a ampla maioria dos analistas políticos europeus já dão a aliança com a extrema direita como um fato.

A realidade é que, durante as eleições, como o próprio Stracher afirmou, os programas da FPÖ e da ÖVP eram praticamente iguais, tanto na questão dos refugiados quanto na da economia. Ambos são a favor de impedir a vinda de refugiados, mesmo pelo uso de armas de fogo, assim como a repressão contra a religião muçulmana e o corte de impostos aos mais ricos. Claro, existem diferenças. Enquanto o FPÖ quer proibir por completo a difusão do Al-Corão (livro sagrado muçulmano) e anexar o Tirol do Sul (pertencente à Itália) ao território austríaco, o ÖVP quer apenas banir as versões radicalizadas do Al-Corão e endossa o status quo territorial atual defendido pela União Europeia (UE). Importante ressaltar também que ambos partidos não querem a saída da Áustria da UE, tornando pouco provável um cenário parecido com o Brexit (ainda que o FPÖ se coloque contra o “integracionismo anti-nacional” da EU).

Por último, durante os dias 20 e 21 deste mês ocorreram as eleições na República Checa, onde ganhou o bilionário Andrej Babis. Apesar de Babis ter participado como ministro em governo anterior, agora foi eleito a partir de um novo partido de orientação pró-mercado e anti-refugiados (similar ao programa de Kurz). A socialdemocracia, que era governo até então, reduziu sua votação de 20% para 7% dos votos, enquanto o partido de centro-direita estagnou na segunda posição com 11%. Em terceiro lugar ficou o Partido Pirata e em quarto a extrema direita. Mais uma evidência da crise do sistema político europeu e do fortalecimento dos partidos de direita.