A Revolução que abalou o mundo (parte 1)

Por Carlos Zacarias de Sena Júnior, Colunista do Esquerda Online – Publicado no jornal A tarde, em Salvador

“Não foi coincidência que a greve mais importante da história mundial tenha começado com mulheres do setor têxtil em Petrogrado no Dia Internacional da Mulher de 1917 – 23 de fevereiro no antigo calendário juliano”, escreveu o historiador norte-americano Kevin Murphy, professor da Universidade de Massachusetts. Autor do magistral Revolution and counterrevolution: class struggle in a Moscow metal factory, ainda sem tradução no país, Murphy esteve no Rio em setembro para participar de um evento na universidade e para refletir sobre o centenário da Revolução que mudou o mundo, tema em que é dos principais especialistas na atualidade.

A chamada Revolução de Fevereiro aconteceu quando da deflagração de greves que logo se generalizaram pelas principais cidades. Segundo Murphy, as mulheres russas trabalhavam 13 horas por dia, enquanto seus maridos e filhos estavam no front combatendo na guerra. Condenadas “a uma vida monótona e imutável, provendo suas famílias e esperando numa fila, durante horas, num frio abaixo de zero graus, na esperança de conseguir um pão”, as mulheres não precisavam de muito convencimento para se lançarem à luta. Desencadeada a partir do setor têxtil de Petrogrado, em poucos dias, a greve iniciada por algumas centenas de mulheres se alastrou e pôs regime tzarista nas cordas.

A Revolução de Fevereiro foi, para a Rússia, aquilo que a Revolução de 1789 foi para os franceses, uma revolução tipicamente burguesa. A autocracia tzarista, sustentada num regime brutal e senil que perdurava por séculos, muito além do absolutismo no ocidente europeu, não teve como opor resistência. Não obstante, a disposição dos trabalhadores, que há apenas 12 anos tinham oferecido ao mundo um mecanismo de auto-organização e de duplo poder absolutamente eficaz, os sovietes, logo sugeriu que os protagonistas da revolução não pretendiam circunscreve-la ao horizonte burguês.

Mergulhados numa crise econômica e social profunda, cujo pano de fundo era o abismo que dividia ricos e pobres, o brutal regime tzarista não resistiu. Depois de alguns dias, Nicolau II saiu da história pelas portas dos fundos, dando lugar a um governo constituído, em sua maioria, por Socialistas-Revolucionários e Cadetes e uma minoria de mencheviques.

Do exílio na Suíça, Vladimir Ilitch Lenin, principal dirigente bolchevique, arrumou as malas para partir para Petrogrado. Antes de tomar o trem blindado com destino à Estação Finlândia, Lenin redigiu suas Cartas de longe, um poderoso manifesto em que colocava as suas impressões sobre os acontecimentos na Rússia e apontava as principais tarefas dos bolcheviques: “A primeira revolução gerada pela guerra mundial imperialista eclodiu. Esta primeira revolução não será, certamente, a última”, escreveu. Premonitório, Lenin partiu para a Rússia destinado a escrever uma das mais importantes páginas da história da humanidade.

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