O Exemplo do Che Guevara Inspirará Milhões de Militantes pelo Mundo



Por Ernest Mandel. Editorial de La Gauche“, n.º 39, publicado em 21 de Outubro de 1967. Retirado do site marxists.org

A humanidade progressista vem de sofrer uma terrível perda: Ernesto «Che» Guevara não existe mais. Morreu no combate, como Jaurès, como Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, como Durruti e Trotski. Tal como era ele, não esperaria outra morte que esta.

A revolução cubana e latino-americana perde um dos seus principais dirigentes; nós perdemos um camarada muito caro. Todos os que se lhe aproximaram, de perto ou de longe, foram comovidos pelo seu idealismo, a sua coragem, a sua franqueza e a sua lhaneza. Com Fidel Castro, e melhor do que qualquer outro no mundo de hoje, soube reencarnar as virtudes essenciais do revolucionário que o estalinismo tinha substituído por uma caricatura repugnante: a lealdade prioritária quanto aos deserdados de todo o mundo; a lucidez sem falha que não respeita nenhum dogma; a resolução bravia de pôr os seus actos em concordância com as suas convicções. Director do Banco do Estado cubano, assinou os bilhetes bancários com o simples pseudónimo de «Che», para patentear bem o desprezo fundamental que qualquer socialista tem de ter para o dinheiro. Persuadido de que o caminho das guerrilhas era o único meio adequado para a vitória da revolução na América Latina, ele próprio partiu para o combate, junto aos seus camaradas bolivianos. Marx que lutou toda a sua vida pela unidade da teoria e da prática orgulharia-se dele.

Os cínicos ou desenganados que pasmaram de que um dirigente como o «Che» lutasse em primeira linha e suspeitaram de alguma «maquinação política»; simplesmente provam que não conhecem nem podem compreender os homens como Guevara. Outros veem na sua morte a confirmação de que não teria sido mais que um «aventureiro irresponsável»; os «responsáveis» dignos de louvor não são outros, sem dúvida, que aqueles que sentados nas suas poltronas, não correm qualquer risco.

Outros ainda dirão que «pregando a violência», «morreu pola violência». Não entenderão jamais que ele morreu para livrar os vietnamitas de uma chuva ininterrupta de bombas mortíferas, que ele morreu para tirar milhões de meninos do seu continente da morte prematura, por centenas de milhões de afligidos por doenças cruéis e inúteis, sentenciados por um regime já condenado pela história.

A reacção triunfa. Os generais bolivianos, com as mãos vermelhas do sangue dos mineiros do seu país, celebram a morte do «intruso estrangeiro». Os trabalhadores bolivianos pregarão a memória deste «estrangeiro», que deu a sua vida pela sua libertação.

Os gritos de vitória dos agentes imperialistas traduzem bem o seu pânico e a sua covardia. «A guerrilha era um grave perigo»; «a guerrilha está vencida». Néscios! Podeis matar um homem. Não podeis matar uma ideia que enterra as suas raízes na realidade social mais profunda.

Milhares de bolivianos, de peruanos, de colombianos, de argentinos, de operários, de estudantes, de camponeses, de intelectuais da América Latina, apanharão o fuzil que o «Che» deixou cair das suas mãos agonizantes. O seu nome tornou-se já uma bandeira e um programa, um apelo à revolta que retumba pelos cinco continentes. As vossas miseráveis mascaradas não demorarão [adiarão] um dia o momento do vosso desmoronamento. O exemplo do «Che» estimulará milhões de revolucionários a tirar a imundice, a redobrar o fervor na luta contra o imperialismo e o capitalismo.

Nós choramos um grande amigo, um camarada exemplar, um militante heróico. Porém sabemos que a sua causa é invencível. Ele entrou vivo na história que cobrirá de desprezo o nome dos seus assassinos. Porque encarna esta Revolução, esta emancipação definitiva do Trabalho e do Homem para a que toda a realidade da nossa época proclama o que dera como epitáfio outra grande vítima de verdugos embrutecidos, Rosa Luxemburgo: ERA, SOU, E SEREI!

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