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  • Catalunha republicana desafia monarquia espanhola

    Por Henrique Carneiro, Colunista do Esquerda Online

    A Espanha é um conjunto de povos de diferentes línguas governados por um centralismo castelhano monárquico baseado no ramo dos Bourbon que perderam a sua França originária, mas se mantém como soberanos da maior parte da península ibérica.

    A Espanha só teve cerca de 10 anos de vida republicana em toda a sua história moderna e a monarquia se impôs historicamente por meio da contra-revolução.

    A Espanha conheceu apenas duas repúblicas de breve duração.

    A primeira, durante o “sexênio revolucionário” de 1868 a 1874, começou com um movimento militar que derrotou a rainha Isabel II, mas ao invés da república as cortes (parlamento) foram eleitas por sufrágio universal masculino e votaram uma constituição que não abolia a escravidão e, ao invés da república, aprovava um reinado com um rei estrangeiro, Amadeo, da Savóia!

    Numa votação, os deputados escolheram-no dentre uma lista de reis. Nada mais ridículo do que um rei eleito por deputados!

    Seu reinado durou só dois anos e abdica em 1873. Só então vem a brevíssima 1ª República, que durou menos que os dois anos do rei Amadeo, e é derrubada por um golpe militar que proclama a restauração dos Bourbon.

    A Segunda República começou em 1931 e acabou em 1939 com a vitória de Franco na guerra civil.

    O rei que tinha se exilado, Alfonso XIII e seu filho sucessor, Don Juan, Conde de Barcelona, não aceitavam a República, mas tampouco aceitam que Franco se torne chefe do estado. Este ditador restaura a monarquia, mas assume a chefia do estado com a “Lei de Sucessão da Chefia do Estado”, em 1947, o que o rei não reconhece e continua no exílio.

    A Espanha se torna uma monarquia com um rei exilado.

    Só após a segunda guerra que o filho de Alfonso XIII, morto em 1941, se reaproxima de Franco e lhe envia o seu próprio filho Juan Carlos para ser o pupilo do ditador que o prepara para a transição. Após a morte do ditador, em 1975, se instala no trono Juan Carlos I que é aceito na Constituinte de 1978 como rei.

    Seu filho Felipe VI, vai hoje à TV em cadeia nacional, para fazer o pronunciamento do herdeiro bourbônico no trono sobre a revolta da Catalunha republicana.

    No centenário da revolução russa, um sucessor espanhol da dinastia dos Bourbon, que foram destronados pela revolução francesa em 1789, em pleno século XXI, vai a TV tentar impedir que sua Coroa perca a Catalunha.

    Melhor seria que abdicasse de vez.

  • Hoje é aniversário da Petrobras: por que nesse ano é diferente?

    Por Pedro Augusto Nascimento, de Mauá, SP

    Nesse 03 de Outubro a criação da Petrobras completa 64 anos. Sim, não se trata de uma data redonda ou nada do tipo. Mas ainda assim é um aniversário especial.

    A Petrobras nasceu após um longo processo de lutas, que envolveu desde o movimento operário e popular recém surgido no país nas décadas de 1940 e 1950, até setores que defendiam um nacionalismo-burguês à brasileira. Monteiro Lobato era o principal expoente desse último grupo. O lema do movimento era: “O petróleo é nosso!”.

    Esse lema traduz a principal motivação por trás desse forte e vigoroso movimento: defender que o petróleo contido no subsolo brasileiro não nos fosse tomado como havia sido o pau-brasil, a cana-de-açúcar, o ouro, o café. Dessa vez, o que estava em jogo era a principal matriz energética e matéria-prima do mundo. Ter controle sobre essa riqueza era uma questão de sobrevivência nacional, considerando um país de dimensões continentais que havia iniciado recentemente o seu processo de industrialização.

    As motivações de Getúlio Vargas para assinar a Lei 2004/ 1953 não eram as mesmas do movimento “O petróleo é nosso!”. Por um lado, a expansão da industrialização e o surgimento de grandes concentrações urbanas, somado ao início da expansão rodoviária que conectou as principais cidades do país naquele período, criava uma grande demanda por derivados de petróleo de primeira geração, como o diesel, a gasolina, o gás de cozinha (GLP), o asfalto, o querosene, o gás de refinaria, dentre outros. Além disso, o estímulo do Estado brasileiro para a descoberta de jazidas de petróleo no país por parte de “exploradores” financiados pela Standard Oil (maior multinacional petroleira da época – EUA) não obteve sucesso. Não foram encontradas jazidas significativas naquele momento, e seria necessário um grande investimento para avançar nas pesquisas. O lema das multinacionais passou, então, a ser: “nem explorar, nem deixar explorar”. Já a produção de derivados, atividade com maior valor agregado, não havia qualquer intenção dos países imperialistas e de suas multinacionais, em especial os Estados Unidos, de estimular a sua produção fora de seus domínios diretos. Getúlio, que num primeiro momento defendia um modelo misto de exploração de hidrocarbonetos, acabou sendo vencido pela pressão popular.

    A grande vitória do movimento, portanto, foi a criação do monopólio estatal do petróleo. Além disso, com a criação da Petrobras, o Brasil passou a ter um projeto de estímulo à busca por petróleo e pela auto-suficiência energética, financiado e controlado pelo Estado, ao invés de manter a busca paralisada até que os investidores estrangeiros voltassem a se interessar por esse promissor negócio. Além disso, a Petrobras assumiu desde cedo a vocação de abastecer o mercado interno com derivados, daí a construção de 14 refinarias ao longo de seus 64 anos de história.

    Os investimentos na tecnologia de exploração de petróleo teve efeito quase 30 anos depois, com as descobertas dos campos de petróleo no mar. Primeiramente em águas rasas, em Sergipe (1968), e posteriormente uma das maiores províncias petrolíferas do mundo, em águas profundas, na Bacia de Campos (1974). Já nos anos 2000, o pré-sal, descoberto em águas ultra-profundas, demonstrou que o investimento estatal valeu a pena, tornando o país auto-suficiente na produção de petróleo, e a Petrobras consolidando-se como a maior potência tecnológica na produção de petróleo em águas profundas e ultra-profundas no mundo.

    O alvo agora é o pré-sal

    Passados 64 anos, está em curso novamente uma grande ofensiva das multinacionais sobre as nossas reservas de petróleo e o abastecimento do país de derivados. Nos anos 1990, com a quebra do monopólio estatal do petróleo feita por FHC, a porteira foi aberta. Apesar disso, a Petrobras estava (ainda está!) tão à frente de suas concorrentes na tecnologia de exploração em águas profundas que pouco se alterou o cenário da produção de petróleo no país, com a Petrobras mantendo até hoje 93,7% da produção de óleo e gás no Brasil sob sua operação.

    No entanto, o declínio da produção de óleo e gás no Mar do Norte, somado à busca das multinacionais por novos mercados, colocou o pré-sal brasileiro, que em pouco mais de dez anos já equivale à metade da produção do país (idem), no olho do furacão.

    Em 2013, durante o governo Dilma, foi realizado o Leilão de Libra, o maior campo descoberto do pré-sal. Para arrecadar R$ 15 Bilhões, que foram consumidos rapidamente para fechar o déficit nas contas públicas gerado pelo pagamento dos juros da dívida, foi entregue uma reserva estratégica que, segundo a Pré-sal Petróleo S/A, tem potencial de reserva de 28 a 35 bilhões de barris. Considerando o valor atual do barril de petróleo (US$ 50,4 o barril, em 02/10/2017), só o campo de LIBRA pode valer entre R$ 1,4 a R$ 1,7 Trilhões. Sim, Trilhões. A Petrobras ficou com 40% do bloco, 10% acima da previsão legal, que determinava um mínimo de participação da Petrobras em 30% de cada bloco do pré-sal. A Shell (Holanda/ Reino Unido), a Total (França), a CNOOC e a CNPC (China) arremataram os outros 60%.

    Programa do golpe inclui entrega da Petrobras

    É nesse contexto que o governo Temer teve como uma de suas primeiras medidas o apoio à aprovação da PLS 4567/16, negociada entre o governo Dilma (PT) e José Serra (PSDB), que retirou da Petrobras o monopólio da operação dos blocos do pré-sal e o patamar mínimo de participação de 30%, alterando assim a Lei da Partilha, aprovada em 2010.

    Pedro Parente, nomeado por Temer no ano passado, não só deu continuidade ao plano de desinvestimento bilionário iniciado por Aldemir Bendine, ainda durante o governo Dilma, como o ampliou e deu uma cobertura ideológica apoiado na Lava Jato e na ideia da estatal como uma empresa ineficiente e em decadência.

    Desde então, além da venda de campos de petróleo lucrativos em terra, no mar, e mesmo participação em blocos do pré-sal, Pedro Parente tem dado atenção especial em repartir os ativos mais rentáveis da Petrobras entre as empresas concorrentes, incluindo as subsidiárias, como a Liquigás, a Petrobras Distribuidora. Também pretende tirar a Petrobras da produção de fertilizantes, um mercado extremamente lucrativo no maior país produtor agropecuário do mundo, e da produção de biocombustível, essencial para o desenvolvimento de matrizes energéticas alternativas ao petróleo.

    Por exemplo, a malha de gás do sudeste, maior região consumidora do país, foi vendida em 2016 por US$ 4,23 Bilhões para a canadense Brookfield. Acontece que a Petrobras depende dessa malha para escoar a sua produção de gás e abastecer unidades termoelétricas e refinarias. Nesse pouco mais de um ano desde a venda a Petrobras, já pagou de aluguel US$ 1 Bilhão para usar o gasoduto que já era dela. Aliás, quem opera e faz manutenção na malha continua sendo a Transpetro, subsidiária da Petrobras que agora presta serviços à Brookfield. Ou seja, cabe à Brookfield manter um escritório e uma conta bancária para receber a renda do gasoduto daqui pra frente, enquanto a Petrobras terá pago de aluguel em 4 anos o valor recebido pela venda.

    Isso sem contar a redução drástica na produção de combustíveis nas refinarias da Petrobras, aumentando, dessa forma, a importação de combustíveis. Enquanto as refinarias, por ordem da diretoria da estatal, operam com 77% de sua capacidade, contra 98% em 2013 e 7% abaixo do mesmo período do ano anterior, a importação de derivados no país subiu 41% no último ano. Parece uma auto-sabotagem patrocinada pela diretoria com o aval do governo. E é. O objetivo é desvalorizar os ativos para favorecer a venda das refinarias, além de favorecer as importadoras de combustíveis e as refinarias dos Estados Unidos.


    https://ocafezinho.com/2017/07/18/eua-assumem-controle-de-83-da-importacao-brasileira-de-oleo-diesel/

    Outra arena da disputa pelo patrimônio da Petrobras é a redução do efetivo de trabalhadores. Segundo dados do final de 2016, o número de petroleiros terceirizados caiu desde 2013 60%, de 297 mil para 117 mil. Já os trabalhadores diretos foram de 85,6 mil para 68,8 mil no mesmo período, uma redução de aproximadamente 20% . Os efeitos na sobrecarga de trabalho e nos acidentes já são alarmantes, o que levou os petroleiros a entrarem em greve no final de Junho, para barrar a redução do efetivo mínimo nas refinarias, uma batalha que ainda não terminou.

    A proposta da Petrobras para o Acordo Coletivo de Trabalho 2017 mostra mais uma frente dessa artilharia que parece não ter fim. Na prática, a Petrobras propõe a redução de salário para os trabalhadores, o aumento do valor pago pelo plano de saúde em 34%, a redução no valor das horas extras pela metade, justamente quando as horas extras já estão aumentando devido à redução do efetivo, além de diversos outros ataques que valem um texto à parte. O objetivo é enxugar para vender, além de criar um clima de terror entre os trabalhadores e indicar ao mercado intransigência na defesa dos interesses dos acionistas e dos futuros compradores.

    Por fim, a empresa quer, em acordo com o Conselho Deliberativo da Petros, aplicar um plano de equacionamento do plano de previdência complementar dos petroleiros que o inviabiliza. Além de recusar-se a pagar as dívidas que tem com o plano e de não assumir suas falhas de gestão que geraram déficits no Petros PPSP (conhecido pelos trabalhadores como Petros 1), o equacionamento, se aplicado como está, prevê, no pior dos casos, um aumento da contribuição do petroleiro da ativa em 2,6 vezes, e do petroleiro aposentado em 3,5 vezes, o que torna impossível a sustentabilidade do plano. Ao reduzir de forma arbitrária o seu passivo, mais uma vez a Petrobras visa melhorar o perfil das dívidas para tornar ainda mais atrativo o patrimônio da estatal, que está à venda.

    O petróleo tem que ser nosso!

    É hora de voltar aonde tudo começou. Foi a mobilização popular que fez surgir uma das maiores indústrias de petróleo do mundo aqui no país, e foi o investimento estatal numa empresa estratégica, a Petrobras, que nos permitiu atingir níveis de excelência na produção de petróleo, que tem potencial de ser revertido em forma de saúde, educação e empregos para a população brasileira. E é essa conquista que está em jogo agora, como esteve 64 anos atrás.

    Hoje, além da indústria nacional de petróleo, estão ameaçados o sistema elétrico, através da privatização da Eletrobrás e de suas subsidiárias, além dos Correios e até mesmo a Casa da Moeda. Nos estados, a caça às estatais não é diferente, como mostra a privatização da CEDAE, que o governo do estado do Rio de Janeiro quer efetivar.

    O dia de hoje representa, portanto, o aniversário de uma das maiores conquistas do povo brasileiro, que é a Petrobras, e a luta pela preservação desse patrimônio brasileiro como indutor do desenvolvimento e como arma pela conquista da soberania nacional e energética. Representa também a unidade de petroleiros, trabalhadores dos correios, eletricitários, funcionários da Casa da Moeda e da CEDAE, além de movimentos populares, na luta em defesa das estatais e dos nossos direitos. Todos contra Temer, sem temer.

  • Eleições alemães: crise do “centrão” e insuficiência da esquerda fazem crescer extrema direita

    Por MAS – Movimento Alternativa Socialista de Portugal

    No passado dia 24 de Setembro, tiveram lugar as eleições legislativas na Alemanha. Estas levaram a votos a governação da coligação entre Merkel e Schulz, CDU/CSU e SPD.

    A economia alemã deverá ser hoje uma das mais estáveis e mais dominantes, quer na Europa, quer no mundo. O continuado crescimento económico alemão, geralmente, acima do crescimento da Zona Euro, registou, em 2016, o valor de 1,9%. A constante diminuição da dívida pública, desde 2010, quando registou 81%, alcançou, em 2016, os 68%. O reduzido desemprego alcança hoje os mínimos históricos de 3,9%. As contas públicas registaram um superavit de 0,8% do PIB, em 2016, e a balança corrente mantém-se extremamente superavitária.

    Ainda assim, estes parecem não ter sido fatores suficientes para imunizar a Alemanha e o Governo Merkel (coligação CDU/SPD) das tendências gerais que se fazem sentir a nível internacional.

    Por outro lado, também é verdade que a “prosperidade alemã” não tem significado uma diminuição da pobreza. Segundo estudos do próprio governo, a desigualdade social e a pobreza têm vindo a atingir valores nunca antes registados. Em 2015, a taxa de pobreza atingiu 15,7%1 da população, cerca de 13 milhões de pessoas.

    “Os alemães ricos estão cada vez mais ricos e os pobres, se não estão cada vez mais pobres, estão, pelo menos, mais numerosos”2. Ou seja, parece existir uma erosão das classes médias. Mais concretamente, o número de milionários cresceu de 12.424, em 2009, para 16.495 (0,02% da população), em 2016. Ao mesmo tempo, atualmente, 20% da população alemã está ameaçada pela pobreza.

    A verdade é que os trabalhadores alemães viram os seus salários estagnados durante décadas, pelo menos, entre 1993 e 2008, como forma de os empresários alemães conquistarem melhores níveis de competitividade internacional. A verdade é que dos novos postos de trabalhos que são criados, uma considerável parte caracteriza-se pela precariedade e baixos salários, ou seja, um alto nível de exploração da força de trabalho.

    O que se retira daqui é que o crescimento e prosperidades alemães são atingidos através de um novo patamar de exploração da força de trabalho, tendo por bases a política neoliberal de desregulação do mercado de trabalho, destruição de direitos, privatização de setores públicos fundamentais e rebaixamento de salários, contribuindo para um aumento da pobreza e desigualdade social.

    Estas são as bases materiais que explicam as tendências políticas alemãs. Veja-se que as políticas que têm sido seguidas e os seus efeitos têm definido um comportamento geral, em diferentes países, a nível internacional. Daí que as tendências políticas sejam semelhantes.

    Os resultados eleitorais: 3 grandes comportamentos

    Também na Alemanha se verificaram três grandes comportamentos: (i) erosão do “centrão” e elementos de polarização social; (ii) falta de alternativa à esquerda; e (iii) considerável crescimento da extrema-direita. Estas são tendências que se têm verificado, em maior ou menor grau, nos restantes países europeus, e não só. Mas vamos por partes.

    A profunda erosão do “centrão”, quer dos tradicionais conservadores, neoliberais (CDU/CSU), quer dos tradicionais partidos social-democratas (SPD), é explicada pelo facto de serem os responsáveis políticos diretos pela crise em que mergulharam o mundo.

    Como se não bastasse, depois de nos terem enterrado até à garganta, estes partidos têm assumindo a prioridade de salvar o sistema financeiro em detrimento das condições de trabalho e de vida das populações.

    Tanto o SPD como a CDU/CSU, quer em governos alternados, quer em governos de coligação entre si, são os responsáveis directos pela aplicação continuada da agenda neoliberal de desregulação e destruição dos direitos e rendimentos laborais, desde o início do século. Os trabalhadores alemães não têm ficado de fora deste plano.

    São os piores resultados tanto para a CDU/CSU como para o SPD, desde 1945. Em conjunto, estes dois partidos, que formam o “centrão”, deixaram de representar 67,2% dos votos, em 2013, para passarem a representar 53,5%. Perderam mais de 4,5 milhões de votos, correspondendo a uma perda de 105 deputados, 65 da CDU/CSU e 40 do SPD.

    Quem não viu já este filme ocorrer na Grécia, em Espanha, em França ou até mesmo em Portugal? Uma profunda decomposição dos tradicionais conservadores e, sobretudo, dos tradicionais social-democratas e alguns elementos de polarização social.

    Juntos, aqueles dois partidos e os seus líderes, Merkel e Schulz, para além de responsáveis diretos pela política interna alemã de contração de direitos laborais e salários, são a cara do desgaste do projeto europeu. Estas duas forças políticas conseguiram amenizar os efeitos da crise, nomeadamente, através das astronómicas injeções do BCE, mas vai ficando evidente que a Europa coze em lume brando, sem que haja uma alternativa à vista. Aquilo que estas duas forças políticas têm para nos oferecer é mais do mesmo, mais desta UE, mais deste Euro, mais resgates ao sistema financeiro e mais austeridade.

    Mais do mesmo é precisamente aquilo que, tendencialmente, os povos europeus não querem. A posição de domínio que a Alemanha tem ocupado, para além de ir massacrando todos os restantes Estados e os seus povos, tornando-os mais dependentes, não serve sequer para resolver a crise dentro da própria Alemanha.

    A “grande decisão” de Merkel sobre os refugiados é uma farsa!

    Há quem refira que a perda da CDU/CSU se deve, em grande medida, à “forma correta” como Merkel se “disponibilizou” para receber refugiados, nomeadamente, na Alemanha.

    Em primeiro lugar, esta é uma afirmação completamente falsa. Merkel não se disponibilizou para receber refugiados. Merkel, perante a crise humanitária que tinha entre mãos, e ao ver-se confrontada com uma difícil negociação com os restantes países europeus, foi forçada a dar alguns passos para amenizar as consequências de tal catástrofe. Lembremo-nos que os cadáveres chegavam às centenas à costa europeia. Catástrofe essa que, diga-se de passagem, é a consequência direta das sucessivas intervenções e ingerências dos principais países europeus no Norte de África e Médio Oriente.

    O que Merkel fez foi empurrar a crise humanitária para debaixo do tapete, ao mesmo tempo que ia tomando medidas que não manchassem ainda mais a “face solidária” da UE e da Alemanha, como seu Estado predominante.

    “Disponibilizou-se a receber” 1 milhão de refugiados na Alemanha, ao mesmo tempo que fechou e reforçou as fronteiras externas da UE, através do programa Frontex. Os refugiados não deixaram de morrer aos milhares no Mar Mediterrâneo e todos aqueles que conseguiram chegar com vida às fronteiras europeias, têm sido imediatamente recambiados para a Turquia. A Alemanha “disponibilizou-se a receber 1 milhão de refugiados” mas existem cerca de 4 milhões na Turquia, Líbano e Jordânia em condições desumanas.

    Isto sem esquecer que 1 milhão de refugiados na Alemanha corresponde a 1,2% da sua população, um número irrisório. Sabendo que Portugal é o 4º país que mais refugiados recebeu e que apenas cá chegaram cerca de 1.000 pessoas, mais irrisórios ainda são os números de refugiados que foram recebidos por todos os países da UE.

    A questão é que os governos dos principais países europeus não assumem que a crise de refugiados é consequência e responsabilidade da sua própria ação no Norte de África e Médio Oriente, portanto vão criando a compreensão de que a crise de refugiados nos é completamente alheia e que o acolhimento de refugiados não passa de um ato benevolente e voluntário da velha solidariedade europeia. A par disto vão sendo ventiladas conceções de que a Europa é para os “europeus”, não tendo condições para acolher os que aqui se veem aqui refugiar, ainda para mais vindos de países árabes. É ainda feita uma relação direta entre as pessoas que procuram asilo na Europa, o terrorismo e a insegurança. Quem não se recorda da estória de um milhar de árabes que atacaram, roubaram e violaram dezenas de mulheres, em Colónia, na Alemanha, na passagem de ano de 2015 para 2016? Uma estória que se veio a confirmar completamente falsa.

    Política de Merkel e Schulz é causa direta do crescimento da extrema-direita

    Merkel é a responsável direta pelo crescimento da extrema-direita que conseguiu alcançar quase 6 milhões de votos, 12,6% da votação e, pela primaria vez, desde 1945, 94 deputados no Bundestag. A extrema-direita ocupa agora o lugar de terceira maior força política na Alemanha e vai beber ao descontentamento com a política da CDU/CSU, do SPD, até a setores tradicionalmente à esquerda do SPD e a setores normalmente abstencionistas.

    Se não vejamos, junte-se a política da CDU/CSU e SPD, cujas consequências são (i) uma crise internacional da qual a Alemanha, apesar de se localizar no topo da cadeia alimentar, não está imune, (ii) uma instabilidade económica e financeira alongada no tempo, (iii) uma ameaça permanente sobre as expectativas das classes trabalhadoras e das classes médias e (iv) uma retórica de ameaça ao modo de vida ocidental associada aos refugiados. De seguida, (v) misturamos a este combinado uma força política de extrema-direita disposta a cavalgar a insatisfação latente, sobretudo entre as classes médias empobrecidas e, consequentemente, entre as classes mais baixas da sociedade, através de todo e qualquer tipo de preconceitos existentes.

    É deste tipo de mistela que sai um Trump nos EUA, uma Le Pen em França e um crescimento exponencial da extrema-direita no Reino unido, Holanda, Áustria e, agora, Alemanha.

    À esquerda, Die Linke marca passo! Extrema-direita aproveita para ocupa posições

    Se a política de Merkel e Schulz são a causa direta do crescimento da extrema-direita, também à esquerda se devem assacar parte das responsabilidades. O Die Linke aumentou apenas cerca de 500 mil votos, passando de 8,6%, em 2013, para os presentes 9,2%.

    Não consegue aumentar a sua influência política, deixa de ser a principal oposição ao futuro governo, não consegue capitalizar nenhum do descontentamento entre os setores sociais que vão engrossando as camadas mais pobres, não consegue, sequer, capitalizar o descontentamento entre o eleitorado do SPD, não consegue dar uma resposta à situação dos refugiados, nem uma resposta aos problemas internos da UE. O Die Linke não se coloca como uma força política anti-sistema e este espaço parece ter sido ocupado pela extrema-direita.

    O Die Linke chegou mesmo a perder influência a Leste do país, seus bastiões tradicionais, locais marcados pela forte desindustrialização e empobrecimento, onde, precisamente, a extrema-direita consegue crescer muito.

    A verdade é que a aplicação dos programas neoliberais não tem tido uma resposta alternativa à esquerda. O Syriza atraiçoou a confiança que lhe foi concedida, o Podemos não está empenhado em romper com a lógica meramente eleitoralista, marcando a sua política pela dubiedade sobre questões fundamentais, como a Catalunha, e o BE apoia um Governo PS.

    Que futuro?

    Para já e face à enorme perda de votos, o SPD distanciou-se da possibilidade de renovar a coligação com Merkel, o que poderá ser revertido caso a gestão do sistema capitalista alemão esteja em causa.

    Por sua vez, Merkel já afirmou que apenas afasta a possibilidade de se apoiar na extrema-direita para conseguir formar governo, estando disposta a dialogar com todos os outros setores, podendo formar governo com os liberais do FDP e os Verdes, como forma de manter e dar continuidade ao plano que tem já seguido.

    Por fim, é evidente que é necessário um programa à esquerda, de combate frontal aos planos de austeridade, apoiado nas lutas dos setores que se vão mobilizando, um programa anti-elites, anti-capitalista, que denuncie que a Europa dos bancos é contrária à Europa dos povos, de combate aos setores mais conservadores e reacionários da sociedade, profundamente marcado pela determinação em reconquistar direitos laborais e melhores condições de vida de quem trabalha.

    Caso contrário, a crise das elites que nos têm governado só pode desembocar num crescimento do racismo e nacionalismo da extrema-direita.

  • Eleições autárquicas: derrota do PSD e impasse à esquerda

    Por MAS – Movimento Alternativa Socialista de Portugal

    As eleições foram autárquicas, mas a leitura de resultados é, para todos, nacional. Inevitavelmente estas eleições serão lidas como um referendo ao governo PS e ao apoio prestado por PCP e BE, assim como à performance da oposição de direita.

    O PS aparece como o grande vencedor: no total ganhou mais 9 Presidências de Câmara e 22 maiorias absolutas, crescendo de de 36,4% para 38%, no total. António Costa fez questão de ser o grande protagonista da noite: ainda que não o diga, viu este resultado como mais um passo na direção da maioria absoluta.

    Mais que a vitória do PS, foi a derrota do PSD que marcou a noite. Se no PS, o resultado é lido como um plebiscito a António Costa, no PSD acontece o mesmo face a Passos Coelho. A derrocada do PSD é enorme: perdeu 20 Câmaras e em Lisboa e no Porto ficou na casa dos 10%. Teresa Leal Coelho, vista como braço-direito do ex-primeiro ministro, foi largamente ultrapassada pelo CDS em Lisboa, e mesmo no Porto, a candidatura improvisada do PS teve quase três vezes mais votos que o PSD.

    À esquerda os resultados são contraditórias, mas, numa contagem geral, refletem, no mínimo, um impasse. A CDU, e portanto, o PCP, é, ao lado de Passos Coelho, a grande derrotada da noite. Isso foi até assumido, de forma inédita, por Jerónimo de Sousa. Após ficar atrás do BE nas legislativas de 2015 e de dar um grande tropeção nas presidenciais de 2016, o PCP agora vê-se derrotado num terreno que lhe é mais favorável, o do trabalho local. A CDU perdeu 10 Câmaras, em particular alguns bastiões, como Almada, Beja ou Barreiro. Perdeu-os todos para o PS. Perdeu ainda 10 maiorias absolutas e 40 vereações. Só o resultado de João Ferreira em Lisboa, que subiu cerca de 2000 mil votos face a 2013, serve de ligeiro consolo.

    O BE consegue sair melhor destas eleições, mas aquém dos objetivos assumidos. Um partido quase sem tradição autárquica, passou de 8 para 11 vereadores do no país. Nas Freguesias, a subida foi de 138 para 212 eleitos. O “salto” que Catarina Martins anunciou não se deu. Ainda que tenha uma importância política e ideológica crescente em todo o país, o BE confirmou-se um partido essencialmente parlamentar, do ponto de vista orgânico. Isso não pode ser colmatado apenas por boas campanhas autárquicas de quatro em quatro anos. A eleição de Ricardo Robles em Lisboa é uma importante vitória, que deve servir para impulsionar lutas na cidade, organizadas pela base, em torno dos grandes temas da campanha: transportes, habitação ou as creches públicas. Porém isso não será possível caso se conforme uma “mini-geringonça” com Medina, como parece pretender o PS.

    MAS, uma participação 100% à esquerda

    O MAS esteve empenhado nestas eleições em diversas cidades. Vimos a possibilidade e necessidade de evitar que a previsível queda da direita fosse capitalizada pelo PS, e o seu governo. Porque estamos certos que, quanto mais o PS se fortaleça, mais espaço de manobra terá para continuar as suas políticas, restritivas para os trabalhadores, a saúde e a educação, e favoráveis à banca e às grandes empresas como a Altice ou Autoeuropa, que atacam os trabalhadores impunemente. Defendemos, nesse sentido, que PCP e BE lançassem candidaturas unitárias, assinalado uma perspetiva independente da direita e do governo. Como isso não sucedeu, participamos de diversas candidaturas, para reforçar a esquerda, contra a direita e o PS. O nosso objetivo era dirigir-nos aos trabalhadores e aos eleitores da esquerda para denunciar os ataques feitos pela direita e pelo PS, não só no terreno local, apoiar as lutas em curso – como a da Autoeuropa ou dos SMTUC de Coimbra – e defender uma perspetiva de esquerda, independente do PS, apoiada num programa anti-capitalista. Fizemo-lo de diferentes maneiras: com uma candidatura própria do MAS em Barcelos, integrando as listas do movimento Cidadãos por Coimbra ou apoiando as candidaturas do BE em Lisboa, Loures e Vila Franca de Xira, dando uma principal força aos seus candidatos sindicalistas e trabalhadores.

    Orgulhamo-nos especialmente da candidatura e do resultado do Vasco Santos em Barcelos, a única candidatura do MAS nestas eleições. Foi, nesse Concelho, a candidatura que fez a diferença. Pela voz de um auxiliar de ação médica, dirigente sindical e lutador dos bairros sociais daquela cidade, o MAS demonstrou como é possível fazer, também neste terreno, uma política para os trabalhadores, com propostas anti-capitalistas, como a remunicipalização das Águas de Barcelos, sem qualquer indemnização. O resultado de 1,29% é modesto mas muito importante, praticamente a par dos resultados da CDU e do BE em Barcelos.

    Algumas conclusões iniciais

    Após dois anos de “Geringonça”, o terreno político parece estar a mudar. O momento inicial, de expectativa e de “devolução de rendimentos” esgotou-se e quem o capitalizou foi essencialmente o PS. O clima de crescimento económico, que segue as tendenciais internacionais, reforça esse fôlego de António Costa. Porém, ao mesmo tempo que recomeçam as lutas e as greves, a esquerda parece estagnar. A ligeira subida do BE não compensa a queda da CDU e ambos parecem chocar contra uma parede que eles mesmo ergueram: o prestígio do Governo e de António Costa. Prestígio imerecido, diga-se, dado que no essencial, a vida da maioria da população, em especial dos trabalhadores, pouco mudou. Por isso começam a sair à rua.

    As votações do PS mostram que a sua força não é tanta como António Costa quer que pareça. Por exemplo em Lisboa, o PS perde 10 mil votos e a maioria absoluta, essencialmente para a sua esquerda. No Porto, o PS rompeu com Rui Moreira, mas este reforçou-se, tornando-se mais independente do PS. As nove Câmaras ganhas pelo PS, tão pouco constituem um número assinalável. A força do PS e o sucesso de Costa consiste, essencialmente, na inexistência de oposição à altura. Ainda que, nestas eleições autárquicas, BE e PCP, tenham atacado de forma muitas vezes certeira as autarquias do PS, como em Lisboa, nunca deixaram de defender a governação do PS no país e preparam-se para aprovar mais um Orçamento de Estado restritivo. É certo que fazem críticas pela esquerda ao Governo, mas se passaram dois anos e meio a elogiar a solução de governo capitaneada por Costa, porque motivo esperavam que os eleitores os votassem na esquerda?

    Confirma-se também que a queda do PSD não é momentânea, mas estrutural e que se abre um momento de reorganização da direita. Isso fica evidente com a votação no CDS em Lisboa. Mas também fica evidente que, no seio das novas movimentações à direita, surgirão variantes mais radicais, como André Ventura, cujo discurso xenófobo permitiu uma subida do PSD em Loures – ainda que modesta, em total contraste com o resto do país. Sobretudo fica evidente que a ameaça do regresso da direita ao poder e de Passos Coelho em particular, está arredada para já. A esquerda perde assim a principal justificação para a sua aliança com o PS. Na verdade, agora que o PSD está em crise e que ainda vai demorar a recompor-se, é o momento ideal para ajustar contas com o Governo e lutar na rua por tudo o que ainda há por fazer. Só assim se pode impedir o reforço do PS à custa da esquerda, recuperar salários e direitos laborais, e, ao mesmo tempo, impedir que uma nova direita cresça, não por mérito próprio mas por lhe ter sido entregue todo o terreno da oposição ao Governo.

  • Amar em catalão

    Por Raquel Varela, Colunista do Esquerda Online, de Lisboa, Portugal.

    As imagens da brutalidade de Rajoy sobre a Catalunha correram o mundo mas elas não são, creio, as que melhor ilustram o momento. A sua repetição oculta algo, mais profundo e interessante para a humanidade. Para os cínicos (e chatos) que acham que o mundo está condenado ao fracasso a Catalunha foi um choque de realidade. Há um grupo de historiadores no mundo que dedicou a vida a estudar revoluções – são poucos, apesar do século XX ser o século mais revolucionário da história da humanidade. Um dos esforços que levamos a cabo é demonstrar que a violência raramente é um acto revolucionário, pelo contrário ela é quase sempre um impulso contra-revolucionário. Em São Petersburgo morreram 10 pessoas e em Moscovo, cito de memória, pouco mais de 100 no dia da revolução. Quando esta foi invadida por 14 exércitos estrangeiros morreram milhares, quem tem poder e o vê ameaçado recorre de imediato à violência para o conservar. Em Portugal, na revolução dos cravos, a violência veio da extrema-direita, na sede da PIDE, na Madeira, em Braga. No Egipto, recentemente na Primavera Árabe a população dirigiu-se para a sede da polícia, símbolo da ditadura, queimou-a e a seguir foi defender em comités auto organizados os supermercados dos criminosos que aproveitam os momentos de crise de Estado para roubar bens. O que quer isto dizer? Que, em situações de crise de Estado há um impulso de uma fatia grande da população para se substituir ao Estado – médicos vão para os hospitais geri-los, coordenar; trabalhadores mantêm as fábricas em laboração, populares organizam-se contra roubos e saques; professores e pais colocam as escolas a funcionar – em geral não porque o queiram fazer mas porque perante a crise Estado não têm alternativa.

    Estou convencida – e nisso tenho colocado as minhas hipotéses de estudo – que é acima de tudo um impulso de sobrevivência. É inegável que o nascimento de um poder paralelo ao Estado é espontâneo – isso já outros antes de mim demonstraram. Acrescento apenas isto, ele não é um movimento ideológico, mas profundamente material, ele nasce, o poder auto organizado, associativo, popular, como queiram chamar, para repor serviços básicos que o Estado não consegue assegurar ou que se prevê que não consiga garantir – o Estado que no seu caminho vai em direcção à crise e reforça a repressão, transformando-se apenas num “bando de homens armados”- como nas imagens – descora o provimento das necessidades básicas, transportes, saúde, alimentação, segurança – é aí que nasce também o embrião do impulso colectivo.

    Porém – estou quase a chegar à Catalunha -, quando a população se coloca em marcha para se substituir ao Estado ganha uma confiança gigante em si própria, percebem que são capazes de cooperar e que cooperando produzem mais e melhor, erguem uma sociedade muito mais eficiente, digna e justa, mais afectos, reais. Porque caem as barreiras da competição diária por emprego, tempo, dinheiro, e ergue-se uma criatividade impar – isto é assim em todos, sem qualquer excepção, estudos de revoluções e em qualquer parte do mundo. Na Catalunha não há – ainda – uma revolução, desde logo porque o Estado catalão não está em crise – o Espanhol está. Mas na Espanha não há um poder paralelo ao Estado, na Catalunha há uma mobilização. Que foi, perdoem-me assinalar isto sem desvalorizar a brutalidade da carga policial, muito mais importante e talvez por isso menos divulgada.

    Era aqui que queria chegar: nestes meses centenas de milhar de pessoas reuniram-se nos seus bairros, locais de trabalho, transportes, portos, ferrovias, sindicatos, associações culturais, hospitais, centros de comunicações, media, creches, conheceram com quem se vão casar, fizeram novos amigos, tomaram o pequeno almoço com vizinhos que nem conheciam, estiverem juntos como – certamente no caso das gerações mais novas, – nunca tinham estado.

    Essa experiência, de que a força colectiva supera a violência, que a construção supera a destruição, é insubstituível. Se descermos ao estudo empírico posso adivinhar, por paralelo com outras situações históricas, que a Catalunha nestes dias não deve ter sido muito distinta de outras situações de organização colectiva – milhares adormecidos, gente simples que ninguém dava nada por eles em termos políticos, ganhou um vigor e iniciativa surpreendentes. A política deixa de ser tema de especialistas, e passa a ser a vida diária de muitos.
    E os cínicos perderam o dia, a menos que só consigam ver o que lhes mostram – a polícia a bater em eleitores.

  • Em direção à grande marcha, segue firme o Povo Sem Medo de São Bernardo do Campo

    Por: Elber Almeida, de São Bernardo do Campo

    A mega ocupação Povo Sem Medo de São Bernardo do Campo já completou um mês e atingiu o número de mais de oito mil famílias cadastradas. Em estado de mobilização, realiza grandes atos que mostram a força da ocupação, além de eventos culturais como peças teatrais, apresentação de grupos de rap, entre outras. É, sem dúvida nenhuma, uma das maiores ocupações da América Latina no momento.

    Numa cidade que faz parte do eixo industrial do país, profundamente afetado pela crise, o desemprego avassalador combina-se com um déficit habitacional gerado por décadas de políticas habitacionais absolutamente insuficientes e séculos de formação de uma nação baseada na desigualdade, inclusive de distribuição de terras. Neste contexto, o crescimento enorme de uma ocupação desse tipo é perfeitamente compreensível.

    A constituição de 88 previa o direito à moradia como fundamental. Esse direito não é usufruído por milhões de brasileiros. Por outro lado, inúmeros imóveis são abandonados à especulação imobiliária, não cumprindo função social. Um exemplo disto é o terreno ocupado pelas famílias organizadas pelo MTST em São Bernardo do Campo, que já estava vazio há mais de 40 anos, enquanto dizia-se pertencer a uma construtora que deve mais de meio milhão de reais em impostos ao governo.

    Apesar disto, a prefeitura municipal resolveu declarar-se inimiga das trabalhadoras e trabalhadores ocupantes, dizendo estar à disposição para a realização de uma ação de reintegração de posse e agindo em prol da imediata reintegração nas instâncias judiciais . Com muita mobilização, o movimento conseguiu arrancar a suspensão da reintegração até uma nova reunião de negociação.

    O prefeito Orlando Morando, do PSDB, tem como objetivo garantir o que julga ser a segurança das famílias que habitam os condomínios do entorno. Uma parte de tais famílias é hostil à ocupação, tendo organizado atos contra esta. O ponto alto da tensão no local partiu de um tiro vindo de um dos prédios ao lado, que atingiu um trabalhador que estava na ocupação quando iniciava uma Batalha de MCs no local. A sede de sangue dos setores mais reacionários da sociedade se combina com a ação repressiva do Estado em defesa dos interesses dos ricos e poderosos, mesmo que devedores deste, em uma guerra contra o povo trabalhador, pobre e em sua maioria negro, o que fica especialmente evidente quando visualizamos os conflitos que giram e torno desta luta.

    Apesar deste cenário, a Ocupação Povo Sem Medo de São Bernardo do Campo é uma nova injeção de ânimo para os lutadores de todos os cantos deste país, ao fazer uma luta tão intensa num contexto tão nebuloso em que os setores que pregam os retrocessos mais escabrosos, como a defesa de um novo golpe militar, começam a dar as caras cada vez mais. Sua proposta é intensificar as lutas, preparando um ato que será o maior em percurso da história do estado de São Paulo, saindo do coração de São Bernardo do Campo e indo até o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, para cobrar posicionamentos do governador Geraldo Alckmin frente a esta questão.

    Não é por acaso que artistas como Wagner Moura e Caetano Veloso começam a se posicionar publicamente a favor da ocupação. A história está sendo escrita por aqueles que alguns julgam só estar levantando lonas.

    Vídeo

    Foto: Reprodução Facebook | MTST

  • As tarefas políticas do 3º Congresso da CSP Conlutas

    Por Camila Lisboa e Mauro Puerro, de São Paulo, SP

    Quase 2 mil delegados se preparam para participar do 3º Congresso da CSP Conlutas, que começa no próximo dia 12. Seguramente, os delegados e as delegadas lá presentes vão refletir as lutas e os desafios colocados no último período. De 2015 para cá, quando se realizou o último congresso de nossa Central, a necessidade de potencializar a resistência contra os planos de ataques aos nossos direitos esteve mais colocada do que nunca.

    Crise econômica e golpe parlamentar

    Nesses últimos dois anos, a crise econômica aprofundou-se em nosso país. Os governos e empresários armaram-se para aplicação de um plano de ajuste fiscal duríssimo contra os trabalhadores. O então governo Dilma (PT) demonstrava toda a disposição de aplicar esses planos e, inclusive, os iniciou. No entanto, o empresariado brasileiro e setores políticos da direita tradicional, como o próprio vice-presidente Michel Temer (PMDB), aplicaram um golpe parlamentar, para assegurar que esses planos não apenas seriam aplicados, como aprofundados.

    No final de 2016, foi aprovada a PEC 55, que impõe um teto de gastos para as áreas sociais durante 20 anos. Não há precedente de um ataque deste tipo nas últimas décadas da nossa história. Junto a isso, Temer e Congresso Nacional aprovaram o fim da CLT com a Reforma Trabalhista e seguem ameaçando os direitos previdenciários.

    Os desafios da resistência

    Apesar de importantes manifestações contra Temer, como a marcha que reuniu mais de 60 mil pessoas em São Paulo, em setembro de 2016, e as ocupações das escolas e universidades contra a PEC 55, foi em 2017 que a força da nossa classe se demonstrou de forma mais categórica.

    Os dias 8 e 15 de março prepararam a poderosa greve geral do dia 28 de abril. Impusemos recuos ao governo, que tinha como plano aprovar a reforma da previdência no 1º semestre. A partir dessa força, era necessário avançar em mais um grande dia de greve geral. Infelizmente, as maiores Centrais de nosso país recuaram da disposição demonstrada em Abril. Em alguns casos, por apoiar diretamente o governo Temer (Força Sindical e UGT), em outros, por optar em construir uma candidatura para 2018 e abster-se da resistência do presente (CUT e CTB).

    Fato é que, diante disso, o governo conseguiu aprovar a reforma trabalhista, o projeto de lei que permite terceirizar tudo e manter-se no poder, mesmo após diversos escândalos de corrupção, como a delação da JBS.

    Portanto, construir a resistência nesse 2º semestre e no próximo período, tem como desafio central retomar a unidade que permitiu a realização das ações de março, abril e maio (#ocupa Brasília) de 2017. Para isso é muito importante medidas como a plenária unificada dos metalúrgicos com participação de outros setores que marcou o dia nacional de luta em 10 de novembro.

    Combater o avanço da direita e construir uma alternativa da esquerda classista

    Os ataques sobre nossa classe estão combinados com um fortalecimento político e ideológico de setores de direita e ultradireita. Discursos intolerantes que ganham simpatia também entre a classe trabalhadora. A crise econômica e o ambiente de desesperança que ela cria, combinado com a desmoralização completa da classe política, abrem espaços para setores reacionários levantarem a cabeça e se colocarem na disputa sobre o desfecho dessa crise. Assim, o general Antônio Hamilton Mourão “tranquilamente” dá uma declaração sobre a possibilidade de intervenção militar e Bolsonaro vem crescendo nas pesquisas eleitorais e no gosto popular.

    Essa situação deve nos dar um alerta. É preciso armar nossa classe e nossos instrumentos de luta, como a CSP Conlutas, contra o avanço da direita. Porque seu avanço não se expressa só em Bolsonaro e simpatizantes da intervenção militar, mas também nas figuras “não políticas”, como de João Dória, prefeito de São Paulo pelo PSDB, árduo defensor das privatizações.

    Esse cenário, entretanto, não pode nos fazer repetir os erros do passado. Para combater o avanço da direita de forma consequente é necessário construir um campo de independência de classe. Uma articulação política dos movimentos sociais e organizações políticas que dispute corações e mentes da população trabalhadora com um programa classista e anticapitalista. Uma articulação que se apresente como uma alternativa de classe não só aos diversos representantes do capital, como também à política de conciliação de classes. Os 13 anos de conciliação de classes dos governos petistas e suas alianças contribuíram para o surgimento do governo Temer e toda sua agressividade contra os trabalhadores.

    O Congresso da CSP Conlutas tem capacidade de se apresentar ao conjunto do movimento social brasileiro com essa disposição. Para isso, é necessário fortalecer o discurso e a prática unitária, ter firmeza no horizonte de combate e capacidade de diálogo.

    Resistir com a força e com a cara da nossa classe

    O 3º Congresso também vai refletir as lutas do movimento popular e dos movimentos de luta contra a opressão. De 2015 para cá, assistimos a muitas ocupações urbanas, como consequência da crise, que impacta o direito à moradia. São diversos movimentos populares que fortaleceram a resistência em nosso país e se unificaram com o movimento sindical para combater os ataques. Nossa Central, a única a ser sindical e popular, cada vez mais precisa ter capacidade de diálogo com esta forma de resistência.

    O avanço da intolerância contra as mulheres, negros/as e LGBT’s também se traduziu em resistências importantes, como a luta contra o genocídio da juventude negra, a violência às mulheres e ataques aos direitos reprodutivos e o recente combate à “cura gay”. O caráter democrático dessas lutas exige que nossa Central saiba intervir nesses processos com disposição de unidade e combate.

    Fortalecer a CSP-Conlutas como instrumento de frente única da nossa classe

    A importância política de nossa Central não pode nos fazer fechar os olhos para seus limites. Construímos a Central mais dinâmica e mais responsável com a defesa dos direitos de nossa classe, mas somos uma Central minoritária na realidade. Foi essa avaliação que fez, por muitas vezes, com que os setores políticos que constroem a CSP Conlutas se engajassem na construção de sínteses dos acúmulos políticos de cada entidade e cada organização que a constrói.

    Seu atual formato contribui para isso, pois suas Coordenações Nacionais de dois em dois meses permitem atualizações políticas da conjuntura importantes. Além disso, é necessário preservar o aspecto democrático desse formato, que permite que sua direção mais cotidiana, a Secretaria Executiva Nacional, tenha contato com os debates e elaborações das entidades e movimentos filiados.

    Portanto, é decisivo aprofundar o funcionamento democrático da central, fortalecendo suas instâncias, suas entidades e seus caráter de organização de frente única, evitando o risco e perigo de se transformar em colateral de organização política, pois isso, infelizmente, ocorreu com a ampla maioria das centrais. A CSP-Conlutas precisa e deve ser exceção. Esse congresso tem o grande desafio de (re)afirmar essa concepção democrática.

  • Rebelión en Cataluña

     

    Editorial del 2 de octubre

    A pesar de la represión brutal, millones acudieron a las urnas en un referéndum sobre la independencia de Cataluña el domingo (1). Desafiando las barreras, las balas de goma y cachiporras policiales, el pueblo catalán luchó valientemente por el derecho a la libertad.

    De los 2.262.424 votos emitidos, 2.020.144 (90,09%) fueron a favor del “sí”, 176.565 (7,87%) del “no”; y blancos y nulos sumaron el 2,92%.

    Con la aplastante victoria del “sí”, el presidente del gobierno catalán, Carles Puigdemont, afirmó que la independencia será proclamada en los próximos días. “Nosotros, los ciudadanos de Cataluña, ganamos el derecho a tener un Estado independiente que se constituya en la forma de una República”, declaró. Puigdemont llevará al parlamento local los resultados de la consulta, para que este actúe “como prevé la ley del referéndum”.

    En Madrid, el conservador Mariano Rajoy, primer ministro del Estado monárquico español, afirmó que el referéndum fue ilegal y que no reconocerá el resultado. El presidente intentó justificar el uso de la violencia policial, que hirió a más de 800 personas. “Hicimos lo que había que hacer”, “no hubo referéndum, asistimos a una mera puesta en escena”, declaró. Rajoy anunció que convocará a todos los partidos con representación parlamentaria para debatir las consecuencias de la rebelión catalana.

    Los medios de comunicación, partidarios de la monarquía española, dispararon ataques furiosos. El diario El País publicó un editorial en el que afirma que hay que detener la “insurrección”. La Razón pidió “firmeza frente al golpe”. Los medios de comunicación expresan de este modo la posición de la burguesía española, que a pesar de hacer algunas críticas a la inhabilidad política de Rajoy, exige “pulso firme” para derrotar al movimiento por la independencia.

    En contrapartida, en defensa del referéndum los sindicatos de trabajadores de Cataluña y entidades civiles prometen una paralización general este martes (3). Los movimientos sociales, estudiantiles y democráticos también irán a las calles. La lucha del pueblo catalán despertó enorme solidaridad internacional.

    La represión es derrotada

    El gobierno español intentó impedir por la fuerza la realización de la consulta democrática. El primer ataque vino del Tribunal Constitucional español, que declaró ilegal el referéndum. Amparándose en esta ofensiva judicial, Rajoy desencadenó una brutal represión policial.

    Días antes de la consulta, varias autoridades catalanas fueron detenidas y las manifestaciones fueron reprimidas en nombre de la “legalidad”. El domingo, la escala represiva subió a niveles chocantes, recordando los tiempos de la dictadura de Franco. La guardia regional catalana -los Mossos d’Esquadra-, se negó a reprimir a las personas que dirigían la votación, el gobierno central envió a la Policía Nacional y a la Guardia Civil.

    Las escenas que se vieron revelaron un régimen dispuesto a pisotear la democracia. Los policías cerraron 319 centros de votación, golpearon a las personas en las filas, incluso ancianos, dispararon balas de goma y lanzaron gases a la población. Un hombre de 70 años infartó durante una acción represiva y fue llevado en estado crítico al hospital. Las imágenes de personas ensangrentadas se extendieron por las redes sociales, causando conmoción e indignación. El velo democrático se deshizo y la cara autoritaria del Estado español asustó al mundo.

    Sin embargo, la brutal represión no logró detener al pueblo catalán y su movilización por la libertad de elección. Miles de manifestantes se enfrentaron a las fuerzas policiales para garantizar el acceso a las urnas. Los bomberos formaron cordones para dar seguridad a los ciudadanos. Fueron incontables los ejemplos de valor y determinación democrática. Al final, la fuerza de un pueblo en lucha derrotó a la sangrienta represión.

    Rodear de solidaridad a Cataluña

    La lucha del pueblo catalán por el derecho a la independencia debe ser apoyada por los trabajadores y los pueblos en todo el mundo. Es hora de la máxima solidaridad. Deben realizarse actos en las embajadas, declaraciones de las organizaciones políticas y sindicales y el apoyo político en las redes sociales. Es necesario abrazar a Cataluña y denunciar la abominable represión del Estado español.

    La victoria de los catalanes será una victoria de todos los que luchan por el derecho democrático de la autodeterminación de los pueblos. El triunfo de Cataluña fortalecerá la lucha de los pueblos oprimidos en todo el mundo.

    Los trabajadores y la juventud de Cataluña deben confiar en sus propias fuerzas. Solo la lucha organizada podrá garantizar que el resultado del referéndum sea respetado.

    Los próximos días serán decisivos. El gobierno de Rajoy, probablemente con el apoyo de las potencias centrales de Europa, aumentará los ataques y la represión. Existe la posibilidad real de intervención militar.

    La lucha por la libertad de los pueblos tiene hoy en Barcelona su principal escenario de batalla. ¡Estemos todos con los catalanes!