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13 Julho, 2017
  • Para onde vai o Rock?

    Por: Ademar Lourenço, de Brasília*

    Dia 13 de julho é dia mundial do Rock. Não dá para questionar a importância do estilo musical para história. Surgido nos anos 50, o ritmo originado do Rhythm and Blues dos negros norte-americanos se tornou uma expressão de inconformismo e rebeldia juvenil. Mas os tempos mudam e o bom e velho Rock And Roll não faz mais a cabeça dos jovens como antigamente.

    Veio a música eletrônica, que na década de 90 se tornou bastante popular. O rap, surgido dos bairros negros dos Estados Unidos nos anos 70, também se popularizou no fim do século vinte. As batidas artificias, os samplers, a música pop e as rimas de rap hoje tem mais apelo que qualquer música baseada em guitarra, baixo e bateria. Rock se tornou coisa de gente com mais de 30 anos.

    No Brasil, então, nem se fale. Há dois anos seguidos o rock não aparece nem entre as 100 músicas mais tocadas na rádio. Desde 2012, não aparece entre as 30. É claro que existem vários festivais de rock pelo país com um público considerável, bandas fazem algum sucesso pela internet, mas nada se compara com a popularidade que Legião Urbana e Titãs tiveram um dia.

    Por que isto acontece? Uma juventude tão sensível à questão da representatividade de negros, mulheres e LGBTs simplesmente não se enxerga em bandas majoritariamente de homens brancos heterossexuais como Beatles, Pink Floyd, Led Zepellin, The Doors ou Nirvana.

    As letras muito sutis, difíceis de entender e que falam de um conceito muito abstrato de liberdade também não empolgam um jovem de 2017. A performance em instrumentos musicais como guitarra e bateria é outra coisa que não faz muito sentido para o público de hoje.

    Os jovens de 2017 querem uma música ágil, direta e que fale de sua realidade. Uma música de ritmo forte, dançante e melodia simples. Querem ver no palco gente que represente sua cor, orientação sexual, gênero e origem social.

    Quem hoje em dia tem uma banda de garagem? Há alguns anos, montar uma banda e tocar em grandes festivais era o sonho de vários adolescentes. As milhares de pequenas bandas de rock eram verdadeiros núcleos de base de um grande movimento cultural. Hoje a meninada prefere promover batalhas de MCs e fazer vídeos no Youtube.

    O Rock não morrerá, ainda há um público fiel, mas jamais terá a mesma popularidade de antes. Não temos que comemorar nem lamentar. Temos que entender que a música é um reflexo da sociedade, que está sempre em mutação. E que a juventude de hoje tem uma dinâmica diferente da juventude de tempos atrás. Que a geração atual se encontre de sua maneira.

    * Esse artigo representa as posições do autor e não necessariamente a opinião do Portal Esquerda Online. Somos uma publicação aberta ao debate e polêmicas da esquerda socialista.

    Foto: Voitaco

  • A condenação de Lula é política, desproporcional e sem provas cabais

    Lula errou, manteve relações promíscuas com a burguesia e seus partidos e recebeu mimos e favores, mas quem deve julgar isso é o voto popular

    Por: Henrique Carneiro*, colunista do Esquerda Online

    A condenação de Lula, além da ausência de provas cabais sobre a titularidade do apartamento, tem duas enormes desproporções que ressaltam o caráter político dessa decisão de um único juiz. Os escândalos de corrupção revelados pela Lava Jato envolvem bilhões de reais desviados. As contas no exterior de Renato Duque, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral são de dezenas, ou até centenas de milhões.

    Renato Duque entregou contas no valor de mais de 20 milhões de euros. Cabral tinha 100 milhões de dólares em dez contas em cinco países. Cunha tinha mais de 2,5 milhões de francos suíços numa só das contas bloqueadas pela Suíça, além de outras duas que ele encerrou antes das investigações. No caso de Palocci, sua empresa Projeto Consultoria tinha 30 milhões em ativos financeiros. No caso de Lula, não há contas no exterior, não há propriedades de luxo, não há fazendas, nem ativos financeiros.

    Há apenas reformas num sítio de amigos e reformas num apartamento que seria destinado a venda para Lula, mas o qual ele recusou. Os valores que envolvem essas reformas são da grandeza das centenas de milhares de dólares, não de milhões.

    Desde que Lula começou a fazer palestras para a Odebrecht e outras grandes empresas, isso me pareceu algo indigno de um líder da classe trabalhadora e que isso envolvia uma relação de recebimento de dinheiro que era imoral, mesmo que não fosse ilegal. A lista das 41 empresas que pagaram para Lula palestrar é grande e inclui da Infoglobo a bancos.

    A delação da JBS citou contas usadas para Lula e Dilma no montante de 150 milhões dólares. Caso houvesse uma evidência dessas contas, seria de fato justificável uma condenação contra os seus detentores. Mas, até o momento, não houve nenhuma evidência de enriquecimento ilícito de Lula. Os pedalinhos do sítio de Atibaia, assim como foram as pedaladas fiscais atribuídas a Dilma são um pretexto mequetrefe que não enfoca o núcleo do desvio de centenas de milhões.

    O próprio Temer tem uma mala de dinheiro que vale meio apartamento e que seria apenas uma cota semanal da propina da JBS entregue para seu preposto e filmada. Aécio também teve dois milhões recebidos e flagrados. Alguns têm fazendas, aeroportos, helicópteros, até mesmo carregados de cocaína, contas no exterior declaradas ou não, ações de empresas, carros de luxo, consumo de luxo obsceno, e estão não só impunes, mas governando o país na cadeira presidencial e no Congresso Nacional.

    Essa é a primeira desproporção. A segunda é política. No momento em que o Procurador da República denunciou Temer e em que este conseguiu aprovar uma Reforma Trabalhista que ataca direitos históricos, é anunciada a condenação de Lula. A escolha da oportunidade política em que se anuncia essa decisão não é acidental. O governo está numa crise aguda. Faltam apenas 15 meses para a eleição presidencial na qual as pesquisas indicam Lula como o primeiro colocado preferido por cerca de 30% do eleitorado.

    Há um julgamento que só pode ser político. Não se pode cassar a candidatura do maior líder popular das últimas décadas por causa de algumas reformas de um apartamento cuja propriedade não se comprovou sequer ser dele.

    A trajetória de Lula é uma demonstração de que sua política de conciliação e de alianças com setores da burguesia foi um erro tão grande que lhe saiu como um tiro pela culatra. Seus próprios ex-aliados agora buscam descartá-lo. Embora não todos. Alguns, como Renan, já se lançaram a defender Lula, o que mostra que na eventualidade de uma nova candidatura sua ele deverá repetir de forma piorada o que já fez antes. Não se pode descartar até mesmo que a aliança com o PMDB venha a continuar.

    O PT precisa ser superado e Lula deve ser denunciado em tudo que fez de errado. Mas, isso só poderá ser feito pela vontade coletiva manifestada em eleições democráticas que foram violadas com o processo do impeachment e continuam a ser negadas ao povo brasileiro.

    Foto: Reprodução Globo

    *Henrique Carneiro é historiador e professor da USP

  • Greve da construção civil de Fortaleza chega ao sexto dia

    Da Redação, de Fortaleza, CE

    A greve dos trabalhadores da construção civil de Fortaleza, que começou na quinta-feira (6), entra em seu sexto dia. A adesão e a força dos trabalhadores segue crescente. Suas reivindicações de reajuste salarial de 6,5%, aumento da cesta básica e vale combustível têm se mesclado com a luta nacional contra as famigeradas reformas do golpista Temer e dos grandes empresários do país.

    A indignação pela aprovação da Reforma Trabalhista foi a tônica da greve nos últimos dois dias. Hoje, quinta-feira (13), o tema da condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro esteve presente nas rodas de conversa dos inúmeros piquetes que formaram a passeata unificada da greve até a Assembleia Legislativa (AL-CE).

    A ida até a AL-CE teve como objetivo exigir do presidente da casa uma audiência pública entre o sindicato dos trabalhadores e o sindicato patronal, para que este retorne à mesa de negociação e atenda às reivindicações dos grevistas. Em frente à AL-CE, o deputado estadual do PSOL Renato Roseno declarou apoio à greve e se comprometeu a interceder junto ao presidente da Assembleia Legislativa para a realização de uma audiência.

    No final do ato, houve assembleia e a categoria decidiu pela continuidade da greve que está cercada de solidariedade. Trabalhadores rodoviários, gráficos, professores, da confecção feminina e até um diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Belém, Zé Gotinha, estão apoiando a greve. “A vitória dos operários de Fortaleza é uma vitória para os operários da construção civil de Belém”, afirmou.

  • Entrevista com Simone Dutra: a luta dos trabalhadores da saúde no Rio Grande do Norte

    Por: Maurício Moreira, de Natal, Rio Grande do Norte

    Conversamos com a diretora do Sindisaúde do Rio Grande do Norte Simone Dutra sobre a situação do sistema público de saúde do estado e as lutas dos servidores que acabam de iniciar uma greve por tempo indeterminado. Simone é uma reconhecida e combativa militante dos movimentos sociais no estado do Rio Grande do Norte e integra o Movimento Por Uma Alternativa Independente e Socialista (MAIS).

    Esquerda Online:  Simone, qual o tamanho da crise que atinge o estado do Rio Grande do Norte?

    A crise tem um efeito avassalador porque o governo Robinson faz o ajuste fiscal exatamente em cima das políticas sociais das quais depende a maioria da população do estado. O resultado é o caos vivenciado na saúde, na segurança pública e demais áreas essenciais.

    EO: E qual o impacto dessa crise no sistema de saúde do estado?

    A crise se expressa no desabastecimento dos hospitais estaduais, no fechamento de serviços como a UTI do Hospital Infantil Maria Alice Fernandes e da UTI Cardiológica do Hospital Walfredo Gurgel, na superlotação dos hospitais e, principalmente, pelo aumento no número de óbitos nestes serviços.

    EO: O Sindsaúde tem sido um dos sindicatos que impulsionam o Fórum dos Servidores Públicos do estado do Ri Grande do Norte. Qual a importância dessa unidade?

    A maior importância do Fórum dos Servidores Estaduais do Rio Grande do Norte é a unidade que foi estabelecida entre as diversas categorias e sindicatos para enfrentar os ataques do governo Robinson.

    EO: Quais têm sido as principais reivindicações dos servidores públicos do Rio Grande do Norte?

    A principal reivindicação é a atualização dos salários, visto que estamos há quase dois anos recebendo os salários após 10, 20 ou 30 dias de atraso, dependendo da faixa salarial.Outra importante reivindicação é a retirada de projeto de lei da Assembleia Legislativa que antecipa a reforma da Previdência do governo Temer e impõe uma alíquota que passa de 11% para 14%, como também reduz as pensões por morte.

    EO: A greve da saúde se insere nesse contexto de luta contra o sucateamento e desmonte dos serviços públicos?

    Completamente. A greve da saúde ocorre num momento em que  há um abrupto desfinanciamento imposto pelo ajuste fiscal do governador Robinson Faria. E para 2018 a situação pode piorar ainda mais, uma vez que a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) enviada para a Assembleia Legislativa não prevê sequer a inflação do ano anterior, ou seja, é um versão piorada da nefasta PEC 55, que congela os gastos primários por 20 anos prevendo apenas a inflação do ano anterior. Sequer a reposição do salario mínimo é prevista na LDO e setores como a saúde, terão que “funcionar” com menos do que tem em 2017.

    Foto: Sindsaúde-RN

  • Escutei atentamente o discurso do Lula

    Por: Silvia Ferraro, colunista do Esquerda Online

    Lula usou dois argumentos fortes para se defender. O primeiro é de que não existem provas que fundamentem a condenação feita por Sergio Moro, fruto da operação Lava Jato. O outro argumento é de que essa condenação existe para sepultar a possibilidade de que Lula possa concorrer às próximas eleições presidenciais.

    Estes dois argumentos são reais. A Lava Jato tem sido utilizada como instrumento para que se vinguem os interesses econômicos e políticos de uma fração burguesa dominante no país. Mas exatamente por isso, Lula comete um erro muito grande ao dizer que continua confiando na Polícia Federal, na Justiça e nas instituições.

    A Justiça tem lado e se move de acordo com os interesses de classe. A Lava Jato e nenhuma instituição merecem qualquer tipo de confiança. Lula já deveria ter aprendido sobre isso, mas parece que nem sob a mira da condenação, rompe com seu espírito conciliador.

    É impressionante como Lula não utiliza em nenhum momento em seu discurso o apelo à mobilização popular para derrotar o projeto golpista que acabou de aprovar uma Reforma Trabalhista que varreu com os interesses históricos dos trabalhadores.

    Mobilização que faltou às ruas na greve do dia 30 de junho e que se tivesse existido poderia ter dado outra correlação de forças para derrotar Temer e as Reformas.

    É lamentável que Lula diga que não quer dar um “golpe” no Temer. Não é possível dar golpe em quem está no poder fruto do golpe. Temer tem que cair pela força da mobilização popular. Lula parece não querer este caminho, prefere lançar sua candidatura no dia de hoje e ficar esperando 2018.

    Também é lamentável que o grande projeto de Lula seja colocar o pobre no orçamento e retomar o crédito. Este projeto de conciliação fracassou e as forças eleitas em 2014, entrelaçadas com o PT, são exatamente aquelas que hoje estão massacrando os trabalhadores.

    Repudiamos a direita asquerosa com seu preconceito de classe que ontem comemorou a condenação de Lula trajando uma camiseta assinada pelo MBL, estampando os dedos da mão de Lula. Assim como repudiamos a operação Lava Jato que está a serviço do projeto político do poder econômico.

    Mas, também não temos nenhum acordo com o projeto político defendido por Lula neste seu discurso hoje. Não queremos simplesmente inserir o pobre no orçamento através das políticas de bolsas e de subemprego. É preciso ousadia pra derrotar o projeto golpista que está sendo aplicado por Temer e Meirelles. É preciso ir a fundo numa mudança radical pela esquerda, sem confiança nas instituições e sem acordos com os poderosos. Lula e o PT não são portavozes dessa coragem. É preciso vir o novo que não tenha medo de lutar!

    Assista à integra do discurso

    Foto: Ricardo Stuckert

  • A derrota

    Por: Jorge Luiz Souto Maior, colunista do Esquerda Online

    …Enquanto isso sobem os homens pelo Sistema Solar… Deixam pegadas de sapatos na Lua… Tudo luta por mudanças, menos os velhos sistemas… A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais… Teias de aranha mais duras do que os ferros das máquinas… No entanto, há gente que acredita numa mudança, que tem posto em prática a mudança, que tem feito triunfar a mudança, que tem feito florescer a mudança… Caramba!… A primavera é inexorável!” (Pablo Neruda)

    Permitam-me falar sobre algo de que entendo bem, de derrotas, vez que já sofri várias ao longo da vida.

    Dirijo-me, precisamente, aos que estão tristes ou indignados com a aprovação no Congresso Nacional da “reforma” trabalhista, mas que lutaram, cada um ao seu jeito e dentro das suas possibilidades, para que a reforma não fosse aprovada e já adianto que essa não é uma palavra de consolo, pois quem participou do embate e foi derrotado não precisa de conforto, embora, claro, lhe seja permitida a tristeza e até o choro.

    Mas essa não é uma tristeza triste, como diria o poeta, porque, afinal de contas, é carregada de um sentido muito preciso, o da frustração de não se ter conseguido superar o adversário, o que, afinal, revela para nós mesmos a nossa condição humana.

    Então, o primeiro passo é não querer não sofrer, esperando uma palavra redentora, que tantas vezes tende a vir da nossa própria mente, onde, para autoproteção, tendemos a não admitir a derrota, buscando encontrar justificativas.

    Em instantes como este é necessário admitir a derrota e sofrer com ela, até porque é exatamente isso o que dá sentido à luta empreendida. Do contrário, vamos nos punir por ter lutado, por em dúvida nossas razões e, na sequência, fazer alianças com os vencedores, para, como se diz, “minimizar os prejuízos”.

    É por demais importante compreender que aqueles que tentam mudar o mundo ou, no caso específico, impedir que se ande para trás, não terão um caminho fácil e confortável pela frente e estão fadados a sofrer derrotas e se a cada derrota não quiserem sofrer tenderão a abandonar as suas convicções pelo caminho.

    Essa é, ademais, a origem da acomodação e do conformismo. Com o tempo, diante de tantas adversidades estruturalmente postas, as pessoas vão encontrando argumentos para dizer que não acreditam mais em mudanças e que estão cansadas, ou que essa história de tentar mudar o mundo é uma ilusão típica da juventude. Na ânsia de não sofrerem, ou até de buscarem conforto e felicidade, deixam que o reacionarismo ganhe espaço e acabe as dominando. É quando se expressa: “se não posso mudar o mundo, para não sofrer, mudo a mim mesmo, adaptando-me ao que está posto”.

    O fato é que a derrota traz prejuízos, como a luta impõe sacrifícios e quem não está disposto a sofrer abandona não apenas a luta, mas as suas próprias convicções, tendendo a reproduzir a lógica dominante.

    Outra fórmula clássica de se alcançar esse conforto é a de tentar considerar que a derrota não foi tão grande assim, ou que será revertida pelo simples passar do tempo, o que também impede que se faça uma necessária reflexão sobre os erros cometidos no processo de luta. Nesse aspecto, é essencial refletir sobre as concessões que já começaram a ser feitas quando se avaliou, precipitadamente, que a derrota seria inevitável. Isso, claro, não explica tudo, mas é fundamental que seja pontuado para que se possa perceber o quanto o próprio medo da derrota contribuiu para minar uma resistência mais ampla e efetiva.

    No caso específico da aprovação da “reforma” trabalhista devemos reconhecer – os que lutaram para que não fosse aprovada – que fomos derrotados, que a derrota é muito grande em diversos aspectos e que sofreremos com isso por algum tempo, até porque os ataques, mantida a mesma correlação de forças, ainda podem aumentar. Por outro lado, teremos em nossos registros de vida o fato de que estivemos presentes e isso nos dá força para não abandonarmos as convicções que nos impulsionaram.

    Assim, não se pode, agora, de modo algum, propor uma reconciliação com os vencedores para minimizar o prejuízo, aceitando, por exemplo, a validade do acordo espúrio feito entre alguns Senadores e a Presidência da República. Às centrais sindicais será historicamente imperdoável se aceitarem que uma Medida Provisória lhes dê de volta a contribuição sindical; à Justiça do Trabalho será imperdoável se aceitar maior fatia no orçamento sob a condição de alterar sua jurisprudência em favor da lógica intrínseca da “reforma”; aos profissionais do Direito do Trabalho será imperdoável se, simplesmente, sem qualquer reflexão crítica e resistência, contribuírem para uma “reconstrução” doutrinária destrutiva do Direito do Trabalho, reproduzindo os “valores” dos “novos” tempos.

    Admitir a derrota não é se submeter resignadamente aos seus efeitos. Admitir a derrota é reconhecer que uma batalha foi perdida, para, sem o medo de sofrer nova derrota e de experimentar outro sofrimento, preservar a consciência necessária e, dentro das possibilidades que se apresentem no contexto de uma realidade modificada, persistir no combate, pois no jogo da vida nunca há uma espécie de “partida final”.

    Com essa consciência e com esse espírito será possível, em pouco tempo, enxergar o momento de forma mais ampliada e assim visualizar caminhos e engendrar renovadas estratégias.

    No campo do direito, essas possibilidades de reverter as derrotas são múltiplas e devem ser utilizadas para que se garanta a efetividade dos preceitos e constitucionais e internacionais ligados aos Direitos Sociais e aos Direitos Humanos.

    Mas, primeiro, não se pode ser completamente otimista quanto às potencialidades e limites dessa atuação, até por conta do tempo que pode levar e, enquanto isso, vários serão os sofrimentos concretos nas vidas de diversos trabalhadores. Segundo, é preciso reconhecer que, independente da necessária reação, a presente situação nos conduziu a um fundo de poço tão profundo que nos impõe pensar até mesmo se a reversão jurídica da “reforma” será suficiente para reanimar a luta em torno da necessidade da construção de uma sociedade melhor, efetivamente justa, na qual a condição humana sobressaia e a sua integridade seja permitida a todas e todos, sem quaisquer distinções.

    Afinal, o modo como se impôs es sa derrota, por meio de ajustes, despudoradamente explícitos, entre políticos e o poder econômico, que foram acatados pela grande mídia e assimilados em silêncio pela classe dominante, tudo para aumentar a exploração, a humilhação, a sensação de impotência e o sofrimento da classe da trabalhadora, nos confere a certeza de que estamos falhando, e muito, na consagração de valores mínimos ao convívio social, como ética, honestidade, sinceridade, confiança, respeito e solidariedade.

    Pensando assim, com ampliação de horizontes, não corremos o risco de amesquinhar a relevância histórica da resistência empreendida e com isso passar a considerar que o que resulta dela é apenas a luta para diminuir os prejuízos, exigindo, como já dito, que a Presidência da República cumpra o suposto “acordo” referente às Medidas Provisórias para “corrigir defeitos” da lei e que o Congresso as aprove, pois isso sim seria não querer admitir a derrota e assumir, com resignação, os seus efeitos, jogando no lixo toda a luta realizada e com ela a nossa consciência e a nossa dignidade.

    Portanto, como passo necessário para se iniciar uma reação, que parte do reconhecimento da derrota, emergencialmente, é hora de sofrer, para manter a dignidade e preservar a consciência.

    São Paulo, 12 de julho de 2017.