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  • O pós-modernismo não late, nem morde

    Por: Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online
    Publicado originalmente na Revista Vírus.1

    O objetivo deste texto não é dizer o que é pós-modernismo, mas sim o que não é. Marxistas mecanicistas e feministas radicais trans-excludentes (TERFs) juram ver pós-modernismo por todos os lados. O objetivo deste texto é provar que o que essas pessoas veem não é pós-moderno.

        1. Definição de pós-modernismo

    Há algumas décadas, alguns marxistas identificaram uma certa corrente de pensamento, em particular na intelectualidade, que refletia as ideias de Jean-François Lyotard que estão expostas no livro A Condição Pós-Moderna.

    Nas palavras de Lyotard, em seu livro de 1979: “Simplificando ao máximo, ‘pós-moderno’ é a incredulidade em relação às metanarrativas”. Uma metanarrativa é uma narrativa sobre narrativas, ou seja, uma teoria que explique a história, a experiência ou o conhecimento humano. Pós-moderno é quem rejeita teorias (supostamente) universalizantes, que buscam explicar, na totalidade, a humanidade, a História, as transformações do mundo em que vivemos.

    Dois exemplos de metanarrativas dadas pelo próprio Lyotard são as teorias de Hegel e de Marx: “não podemos mais recorrer à grande narrativa – não podemos nos apoiar na dialética do espírito nem mesmo na emancipação da humanidade para validar o discurso científico pós-moderno”.

    Vale ressaltar que os marxistas coerentes nunca se valeram da “emancipação da humanidade” para justificar qualquer afirmação científica, e também que o marxismo nunca pretendeu ser uma explicação de tudo, mas sim de como se articula o todo, quais suas bases e qual a sua dinâmica.

        1. O abismo entre a intelectualidade acadêmica e o senso comum

    A principal questão que os marxistas parecem ter se esquecido é que há um abismo entre as teorias acadêmicas e o senso comum. A maioria dos acadêmicos, com sua linguagem própria e sua típica arrogância, não se preocupam em difundir suas teorias de forma popular. Esta atitude perversa se fundamenta especialmente na ideologia meritocrática, que prega que apenas algumas pessoas estariam naturalmente à altura de compreender o conteúdo das teorias acadêmicas.

    Conforme Gramsci, na Igreja Católica, por exemplo, as teorias são elaboradas constantemente tanto no Vaticano quanto nas congregações de bispos e difundidas socialmente pelos padres. O resultado é que há uma conexão entre a produção teórica e o senso comum. Os pós-modernos não aprenderam a fazer isso. Aliás, isso também é verdade para a vasta maioria dos marxistas, que também refletem a linguagem elitista acadêmica, distante da linguagem popular.

    Há diversos termos classificados como pós-modernos, como empoderamento e lugar de fala. O problema é que os termos, nas teorias originais, sejam pós-modernos, é preciso ainda analisar o significado que eles adquirem popularmente.

        1. Individualismo é pós-modernismo?

    Uma atitude muito comum dos marxistas e também das TERFs é taxar de individualista certas demandas de certas pessoas oprimidas e, com isso, justificar que seriam pós-modernas.

    O problema teórico aqui é óbvio. Em primeiro lugar, individualismo é uma ideologia do sistema capitalista. Por exemplo, ainda que a defesa da própria identidade fosse uma atitude individualista, o que é um absurdo, isso não classificaria a identidade de gênero como pós-moderna.

    Por outro lado, é óbvio que não é individualismo defender os próprios direitos. Mas também é verdade que, no atual sistema, devido à ideologia individualista, é muito difícil que as pessoas se solidarizem pelos direitos alheios. Sendo assim, o individualismo está no fato das TERFs e dos marxistas mecanicistas de taxarem como individualistas os direitos das outras pessoas oprimidas.

        1. O neoliberalismo é pós-moderno?

    Yoshihiro Francis Fukuyama publicou um livro em 1992, O Fim da História e o Último Homem, considerado a manifestação mais concreta da ideologia neoliberal. Muitas pessoas juram que é pós-moderno. O título, por outro lado, deve já nos oferecer uma pista de que isso não é verdade. Se Fukuyama, assim como Hegel, teoriza que o Fim da História é o sistema capitalista, então isso é uma metanarrativa. De fato, Yoshihiro não recorre a Lyotard para explicar por que o socialismo chegou ao seu fim e o capitalismo venceu, mas sim ao evolucionismo vulgar. Ele, de fato, prega a existência de uma totalidade: o Estado Liberal e o Livre Mercado.

        1. Identidade de gênero é pós-moderna?

    De fato, é ridículo pensar que o conceito “identidade de gênero” carrega, em si, a ideia de que se deve negar as metanarrativas. Aliás, ele nem sequer tem origem pós-moderna.

    O conceito identidade de gênero foi criado por Sigmund Freud em 1905 para explicar o momento a partir do qual as crianças adquirem consciência de seu gênero. Já em 1910, Magnus Hirschfeld, o maior ativista homossexual da época e também sexólogo, publicou um livro em que ele já explicava o “travestismo” (sic) como uma característica inerente à pessoa, e não apenas um maneirismo de vestir-se com roupas do gênero oposto, muito menos uma doença. Mais tarde, criou o termo “transexualismo” (sic), que ele também não considerava doença.

    Em 1958, o Gender Identity Research Project do UCLA Medical Center, Los Angeles, Califórnia, EUA, começou a estudar a identidade de gênero de pessoas intersexuais e transexuais.

        1. A ironia

    Lyotard afirmou que o mundo estava entrando na condição pós-moderna e que cada vez mais as metanarrativas seriam expulsas do mundo. A ironia é que muitos marxistas mecanicistas acreditaram nele e realmente acham que a situação atual da humanidade é pós-moderna.

    Nós podemos, entretanto, buscar o tal pós-modernismo em todas as entidades LGBTs, negras, feministas, nas páginas de Facebook, etc, e mesmo assim teremos muita dificuldade em encontrar alguém afirmando o fim das metanarrativas. É possível, de fato, encontrar algumas ideias que são, de certa forma, distorções dessa ideologia, mas elas dificilmente alcançam o senso comum. O pós-modernismo influencia parte da intelectualidade, mas não late nem morde.

  • Desvendando a Lava Jato: quando a própria burguesia resolve violar seu Estado de Direito

    Por: Euclides de Agrela, de Fortaleza, CE

    Não temos nenhum compromisso político com Lula e o PT. Muito pelo contrário, os denunciamos como artífices de uma política de conciliação de classes que beneficiou em grande medida bancos e empresas nacionais e estrangeiras instaladas no país. Somos oposição de esquerda a Lula e ao PT e lutamos para superar sua hegemonia sobre os movimentos sociais brasileiros através da construção de uma nova direção política, sindical e popular que supere a conciliação com a burguesia e tome o caminho da revolução e da transição socialista.

    Da mesma forma, estamos entre aqueles que denunciam o Estado capitalista como o comitê de negócios da classe dominante, como guardião da propriedade privada dos meios de produção, como instrumento político-jurídico que coloca o direito de propriedade acima do direito à vida.

    No entanto, é imprescindível reconhecer que o depoimento do ex-presidente Lula conduzido pelo juiz Sérgio Moro, em Curitiba, no último 10 de maio, escancarou o quanto o Judiciário brasileiro, em particular o Ministério Público Federal (MPF) na condução da Operação Lava Jato, está rompendo com o chamado “Estado Democrático de Direito”. Em nome de uma suposta luta contra a corrupção governamental, institucionalizou-se o “vale tudo”.

    Defender as liberdades democráticas contra o Estado capitalista

    Somos marxistas revolucionários. E, como tais, não podemos deixar de reconhecer que, em sua luta contra os privilégios políticos e jurídicos da nobreza feudal, a burguesia impôs novos princípios para o código processual penal que se estabeleceram como uma das maiores conquistas civilizatória oriundas das revoluções inglesas do século XVII e da revolução francesa, do século XVIII.

    A forma processual da Lava Jato vem questionando essa conquista civilizatória na medida em que nega explicitamente: a) a presunção da inocência, ou seja, o princípio de que todo mundo é inocente até que se prove o contrário; b) o princípio de que o ônus da prova recai sobre quem acusa, quer dizer, o réu não é obrigado a provar sua inocência, mas a acusação é que tem a obrigação de provar sua culpa; c) a prioridade dada a provas materiais sobre os depoimentos das testemunhas.

    Estas importantes conquistas democráticas são constantemente ameaçadas. Por isso mesmo devem ser defendidas com unhas e dentes pela esquerda socialista contra qualquer gestão autoritária desta ou daquela fração da burguesia nacional. Elas estão para as liberdades democráticas num nível semelhante ao direito de opinião, à liberdade de imprensa, ao direito de manifestação e greve, ao direito de fazer oposição e de organizar partidos e sindicatos livres.

    Defender estas conquistas democráticas não é o mesmo que defender o Estado capitalista. Ao contrário, para defendê-las, na maioria das vezes é preciso enfrentar o próprio Estado capitalista marcado pela decadência da época imperialista, na medida em que as classes dominantes não medirão esforços para proteger a propriedade e os monopólios privados, ainda que para tal passem por cima dos seus tão caros “princípios” do Estado Democrático de Direito.

    A ruptura com as conquistas civilizatórias do Direito burguês

    A chamada Teoria do Domínio do Fato, que afirma que é autor – e não mero partícipe – a pessoa que, mesmo não tendo praticado diretamente a infração penal, supostamente decidiu e ordenou sua prática a subordinado seu, o qual foi o agente que diretamente a praticou em obediência ao primeiro, é utilizada atualmente no processo da Lava Jato como um princípio que, sem provas materiais, se coloca acima da presunção da inocência, do ônus da prova e da prioridade dada a provas materiais.

    Por outro lado, na mesma Lava Jato, a Delação Premiada é irmã siamesa da Teoria do Domínio do Fato, sendo utilizada a torto e a direito como alvará de soltura para corruptos e corruptores que desfalcaram os cofres públicos em bilhões de reais, com o objetivo fundamental de angariar provas testemunhais, particularmente contra o ex-presidente Lula e o PT, sem se dar o trabalho de provar sua veracidade baseada em dados e fatos materiais. Com a Delação Premiada, institui-se objetivamente a condenação do suspeito a partir de depoimentos que sequer são comprovados.

    A Teoria do Domínio do Fato e a Delação Premiada são os novos princípios do Direito brasileiro esgrimidos pelo Juiz Sérgio Moro e o Ministério Público federal (MPF). Eles jogam na lata do lixo os princípios anteriores, que fundamentaram as medidas mais progressivas do Direito burguês em oposição ao direito eclesiástico, que privilegiava política e legalmente a nobreza feudal. Neste sentido, a Lava Jato, para impor uma nova forma processual teve e tem que atentar contra algumas das conquistas civilizatórias mais importantes do chamado Estado Democrático de Direito.

    Um grave precedente contra os movimentos sociais

    Algum desavisado poderá arguir que se é para prender ricos e poderosos, nada mais justo que se use desses expedientes. Esse argumento é perigoso, na medida em que se baseia aparentemente num discurso classista, contra os ricos, poderosos e corruptos.

    No entanto, se este grave precedente processual passar em brancas nuvens e se institucionalizar como um novo paradigma quem sofrerá efetivamente as consequências desta mudança jurídica? Os ricos, os poderosos e os corruptos ou os trabalhadores, pobres, negros, jovens, mulheres e LGBTs em suas lutas por melhores condições de vida, trabalho, salário e direitos político-sociais? Não temos nenhuma dúvida em afirmar categoricamente que serão os segundos, e não os primeiros, o principal alvo desta mudança de modelo jurídico.

    A Lei Antiterror, as recentes restrições ao direito de greve, a criminalização dos movimentos sociais e da pobreza, levarão até às últimas consequências expedientes antidemocráticos como a Teoria do Domínios dos Fatos e a Delação Premiada contra os movimentos sociais organizados, condenando por antecipação quaisquer supostos suspeitos de formação de quadrilha, de depredação do patrimônio público, de incitação à violência, etc.

    Que o diga o jovem negro Rafael Braga, condenando no último 21 de abril, pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), a 11 anos de prisão e ao pagamento de R$1.687,00 de multa por simplesmente portar uma garrafa de Pinho Sol, que utilizava para limpar carros como forma de sustentar sua família. Para os policiais civis que o detiveram, a garrafa de Pinho Sol era um coquetel Molotov. Não poderia haver exemplo mais grotesco que demonstra a antecipação da atribuição de culpa e a condenação com base em suposições estapafúrdias.

    PRG X PF

    A Deleção Premiada vem se transformando em algo tão escandaloso que a própria Procuradoria Geral da República (PRG) e a Polícia Federal (PF) vem divergindo de qual seria o órgão competente que trataria das delações dos marqueteiros Duda Mendonça e João Santana. Duda firmou acordo com a PF, em Brasília, e Santana assinou com a PGR.

    Segundo a Folha de São Paulo, Duda Mendonça transformou-se no caso mais emblemático do cabo de guerra que se criou entre as duas instituições. Duda denunciou o pagamento de R$ 10 milhões da Odebrecht à campanha 2014 de Paulo Skaf (PMDB) ao governo de São Paulo, fato também narrado por delatores da empreiteira, como o ex-presidente Marcelo Odebrecht. Na avaliação da PF, as informações trazidas pelo marqueteiro podem ser úteis para preencher pontas de histórias que tinham só um lado fechado até agora.

    Dentro da PF, segundo a Folha apurou, adotou-se o discurso de que o acordo com a PGR não avançou porque poderia contradizer pontos da narrativa que vem sendo contada até agora por delatores da Odebrecht.

    Por outro lado, A PGR pede ao Supremo Tribunal Federal (STF) a inconstitucionalidade da lei que diz que a PF pode fazer acordos de delação. O caso está com o ministro Marco Aurélio, que negou liminar e deve levar o tema a plenário do próprio STF.

    Além disso, a PF defende que a definição da pena tem que ocorrer após a comprovação da efetividade da delação, mas a PGR vem adotando a prática de definir as punições nas tratativas dos acordos.

    Essa é principal crítica da PF em relação ao MPF. Ela afirma que o MPF parte da premissa “de que a colaboração é uma forma de transação penal”.

    Em nota, o superintende da PF do Distrito Federal Élzio Vicente da Silva afirma que “quando o MPF estabelece e oferece benefícios acertados nessas tratativas em troca de informações não checadas, surge a possibilidade de o pretenso colaborador se beneficiar ainda que fornecendo elementos já existentes na investigação, falsos, ou ocultando dados de relevo”.

    A PGR, porém, defende que as penas devem ser definidas na negociação porque “a colaboração produz efeitos na investigação, no processo penal e na execução penal”. Diz ainda que a prática tem sido aceita pelo STF.

    “No modelo adotado pela PF, o réu abre mão de direitos sem qualquer garantia no processo, já que a autoridade policial não pode garantir nada relativo à pena estabelecida no processo”, afirma em nota. 

    A controvérsia entre PF e MPF demonstra que não importam em nada a veracidade ou não das delações na Operação Lava Jato, nem se os depoimentos são falsos ou ocultam dados de relevo, o que importa fundamentalmente é a sua utilização como “forma de transação penal”, quer dizer, como moeda de troca para negociar alvarás de soltura de corruptos e corruptores.

    Recentemente a colunista Mônica Bergamo publicou, em sua coluna na Folha de São Paulo, que o publicitário João Santana, ao assinar o acordo de Delação Premiada com o MPF, teria demonstrado a interlocutores certo constrangimento com a adesão ao acordo. O marqueteiro, que comandou o marketing das campanhas de Lula e de Dilma Rousseff resistiu até quando a situação se mostrou insustentável.

    Não é à toa que depois que o tiro do depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro saiu pela culatra, o grande espetáculo da Delação Premiada migrou agora para o depoimento de João Santana e de sua mulher e sócia, Mônica Moura.

    PRG X STF

    Por fim, diante da redução das investigações da corrupção governamental a uma campanha política baseada na Delação Premiada, o jornal O Estado de São Paulo, no último dia 10 de maio, exatamente no dia do depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro em Curitiba, acende o sinal amarelo ao chamar de perniciosa a “tentativa de transformar a Lava Jato na grande panaceia nacional”.

    O editorial do Estadão revela uma disputa não menos importante desta vez entre a PGR e o STF. O jornal critica o pedido do procurador geral da República, Rodrigo Janot, para que o ministro Gilmar Mendes, do STF, seja declarado impedido de atuar no caso envolvendo Eike Batista é mais um exemplo de reação exagerada por parte do MPF. Janot alega que a esposa de Gilmar Mendes integra banca de advogados “que prestaria serviços” a Eike Batista, o que comprometeria a imparcialidade do ministro.

    Em resposta a Janot, o Estadão joga pesado:

    “A realidade não é bem essa. Nem tudo está podre nem o Ministério Público é o suprassumo da pureza e da inocência. Caso se lhe apliquem as lentes que alguns do MPF querem impor às outras instituições, perde também ele imediatamente seu odor de santidade. Como revelou o site Consultor Jurídico, a filha do indignado Janot é advogada e tem como clientes, em diferentes casos na Justiça Federal e no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a Braskem, petroquímica controlada pela Odebrecht, a construtora OAS e a Petrobrás”.

    Conclui o editorial do Estadão:

    “É perniciosa a tentativa de transformar a Lava Jato na grande panaceia nacional. Além de não tirar o País da crise, esse modo de conduzi-la, como se tudo estivesse podre – como se os poderes constituídos já não tivessem legitimidade para construir soluções –, inviabiliza a saída da crise”.

    Não comungamos com a defesa que faz o Estadão das instituições do Estado capitalista. Mas o editorial acima releva nitidamente uma verdadeira guerra de interesses políticos e econômicos perpassando a Operação Lava Jato. Qualquer observador com um mínimo de discernimento constará aqui que a Lava Jato não se move, não se moveu nem se moverá de maneira desinteressada, em nome da ética na política, da defesa do patrimônio público, do combate a corrupção governamental.

    Quando um jornal ultrarreacionário, como o Estado de São Paulo, vem “relativizar” a importância da Lava Jato de maneira tão dura e contundente, é preciso ser muito ingênuo ou ter muita má-fé para crer e seguir reivindicando essa panaceia como a salvadora da pátria. Confiar às instituições do Estado capitalista o combate desinteressado à corrupção é como confiar a diferentes raposas o cuidado do galinheiro: elas podem até brigar entre si, mas apenas para ver quem come mais galinhas.

    A Luta contra a corrupção, mais que uma luta democrática é uma luta anticapitalista contra a burguesia e seu Estado. A corrupção só terá fim quando os trabalhadores tomarem em suas mãos o poder e imporem mecanismos de fiscalização e controle social baseados na propriedade coletiva dos meios de produção, no planejamento da economia e das políticas públicas, na revogabilidade de mandatos e no fim de todos os privilégios políticos e jurídicos dos ricos e poderosos.

  • ‘Impopular’, assume Temer em balanço de um ano de governo

    Da Redação

    O tema impopularidade não teve como passar despercebido no balanço de um ano do governo de Michel Temer. Após a cerimônia, o interino destacou não estar preocupado com esse quesito, marca de seu mandato. “Não estou preocupado com popularidade”, disse. Em termos comparativos, o peemedebista tem uma das piores aprovações da história do país.

    Ainda em outubro de 2016,  pesquisa IBOPE divulgou dados onde a popularidade do presidente, em pouco tempo de mandato, já apresentada níveis de negatividade altos. Em se tratando dos que avaliavam o governo como péssimo ou ruim, o número apresentado no governo Temer já era superior aos apresentados antes de março de 2015 por Dilma. Nos últimos 20 anos, os presidentes que atingiram maior percentual de desaprovação foram Dilma, Sarney e depois Collor ao final do mandato, respectivamente. Sarney tinha índice de aprovação comparado aos 70% de avaliação positiva de Lula, que  passou por crescimento econômico, mas viu a avaliação despencar até o término da gestão. Os governos de Collor e Dilma, que também foram depostos, apresentaram a mesma movimentação, com mais insatisfação ao final do mandato, seguidos de Fernando Henrique, que apresentou menos de 30% de avaliação boa ou ótima ao final da gestão.

    Ao final do governo de Dilma, a avaliação despencou em todos os quesitos, fato aproveitado pelo PMDB e partidos aliados da direita tradicional para orquestrarem o golpe parlamentar que colocou Temer no governo. Os índices baixos de popularidade de Temer eram grandes, mas a insatisfação representada pela pesquisa IBOPE em outubro ainda não tinha superado o apresentado ao final do governo de Dilma Roussef. Ao todo, 69% consideravam o governo petista ruim e péssimo em março de 2016, bem superior aos 39% de Temer em setembro de 2016.

    No entanto, esses dados mudaram consideravelmente. Na última pesquisa do Datafolha, 71% dos brasileiros consideram ruim ou péssimo o governo de Temer. O índice é maior do que o do final do mandato de Dilma. A principal justificativa do desgaste pode ser a experiência da população sobre a serviço de quê veio o presidente. Junto com ele, diversas medidas foram apresentadas, como o pacote de reformas que mexe diretamente com a vida de milhões de brasileiros. A Reforma da Previdência, por exemplo, tem 71% de rejeição. Mesmo assim, o presidente insiste em não estar preocupado com o fato.

    Segundo Temer, em entrevista nesta sexta-feira, “A ordem é a da frase ‘Ordem e Progresso'”, disse. Resta perguntar: “progresso para quem?”.

    Participaram da cerimônia ministros e aliados de Temer na Câmara e no Congresso. Durante o evento, o 1º vice-presidente do Senado, senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), afirmou que Temer não tem um governo “populista”.

    Foto: 12/05/2017- Brasília – DF, Brasil- Reunião “Um Ano de Conquistas”

  • ‘Não é um governo populista’, diz representante do Senado sobre um ano de governo Temer

    Da Redação

    Esta sexta-feira (12) marca um ano do governo de Michel Temer, após o impeachment da ex-presidente Dilma Roussef (PT). O caráter do governo construído após um golpe parlamentar é escancarado na cerimônia de balanço realizada em Brasília. O 1º vice-presidente do Senado, Cássio Cunha Lima (PSDB), foi claro em seu discurso: “Definitivamente, esse não é um governo populista”, em referência ao mandato do peemedebista. Cássio ainda classificou as ações dos opositores como “terrorismo”.

    O presidente do Senado Eunício Oliveira (PMDB) não compareceu à cerimônia, com a justificativa de estar em viagem no exterior para exames médicos. Em seu lugar, o senador do PSDB desfilou caracterizações de como enxerga os um ano de governo de Temer. “É preciso pensar como qualificar esse período de um ano. Poderíamos usar vários adjetivos, menos um: populismo. Definitivamente, esse não é um governo populista”.

    Cunha Lima não explicou, no entanto, o que entende como um governo populista. O que se sabe é que o governo Temer está, na verdade, longe de ser um governo popular, ou com popularidade. Tanto o presidente, quanto suas medidas, o que foi demonstrado nas últimas pesquisas. Segundo o Datafolha, 71% consideram o governo Temer ruim ou péssimo e 71% reprovam a Reforma da Previdência. O mesmo é comprovado no nenhum interesse de Michel Temer em relação à opinião da população sobre seu governo. Como justificativa, por diversas vezes proferiu: “Não sou candidato à reeleição”.

    Em entrevista recente à Rede TV, Reinaldo Azevedo deu a deixa ao presidente para que explicasse os motivos da sua anti-popularidade, dando a interpretação de que as expectativas futuras sobre a economia poderiam significar um otimismo crescente por parte da população. “Seu governo fez coisas importantes”, disse Azevedo, que chegou a conjecturar que o motivo da rejeição seria o fato de as medidas ainda não terem sido postas em prática por um tempo suficiente para avaliar suas consequências.

    Em um bate e volta, o comentarista de política e Temer parecem zombar da população. É exatamente esse o motivo pelo qual as pessoas rejeitam as reformas, como a da Previdência, pelas consequências desastrosas que essas poderão significar no futuro. E foi por essas pautas que foi construída uma greve geral no dia 28 de abril, com adesão de categorias importantes de trabalhadores. Talvez sejam essas as ações que, no discurso do vice-presidente do Senado, apareçam como “terroristas”.

    Aos olhos da situação, terroristas também poderiam ser as medidas como a que tentou aprovar o PSOL na Comissão da Reforma da Previdência, da Câmara dos Deputados. Que a proposta fosse encaminhada para plebiscito popular e, assim, passasse pelo julgamento dos brasileiros. O destaque, no entanto, foi recusado. Não há interesse em ouvir.

    Desde o primeiro dia, com um governo construído à revelia do interesse da população até este 12 de maio, no conteúdo e na forma, a principal característica do governo parece ser o poder de fechar os ouvidos e dar as costas aos trabalhadores e jovens do país, com medidas que visam atacar direitos históricos. Com isso, a tentativa de marketing com o slogan “Um ano de coragem, trabalho e avanços” sobre o balanço do governo poderia ser: Um ano de coragem, trabalho e avanços contra os trabalhadores”.

  • Disputa entre Lula e Moro antecipa eleições de 2018

    OPINIÃO*| Lula faz discurso inflamado. Sérgio Moro posa de herói. Nenhum dos dois fala das reformas que prejudicam os trabalhadores

    Por Ademar Lourenço, do DF.

    Lula anunciou em discurso em Curitiba nesta quarta estar “vivo” e se “preparando para voltar a ser candidato a presidente deste país”. Não que isso era segredo, mas agora é oficial. Começou a disputa pela Presidência em 2018 e já temos um candidato. E o pontapé inicial da corrida foi justamente o tão esperado depoimento do ex-presidente ao juiz Sérgio Moro.

    “O dia que você for candidato, o senhor vai ter muita força de expressão”, disse Lula ao Juiz no seu depoimento. A provocação faz sentido. Moro aparece nas pesquisas de intenção de voto. Seus vídeos em redes sociais defendendo a operação Lava-Jato têm um tom político. No depoimento de cinco horas, ele se comportou muitas vezes como um acusador e não como um juiz imparcial.

    Apesar de longo, o ritual não trouxe muita coisa nova sobre a acusação de que o ex-presidente recebeu de presente um apartamento da construtora OAS para que ele “facilitasse” negócios da empresa.  Mas isso é o de menos. O depoimento de Lula foi mais um fato político do que jurídico.

    O juiz Sérgio Moro muito provavelmente vai condenar Lula. Mas o ex-presidente ainda vai recorrer da decisão. Ele só será impedido de se candidatar se for condenado por um tribunal. Isso faz com a condenação feita por Moro não tenha efeito jurídico imediato. Nem efeito político. Afinal, se do ponto de vista político Moro deixou de ser juiz para ser parte interessada, o papel de magistrado ficou para a opinião pública. E esta parece disposta dar o veredicto em 2018, nas eleições.

    E os interesses dos trabalhadores, como ficam?

    Em seu discurso, Lula não falou sobre a reforma da previdência, que se aprovada vai fazer muita gente trabalhar até morrer. Também não citou a reforma trabalhista, que vai retirar direitos históricos. E na plateia estavam milhares de militantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que está na organização dos atos contra as reformas. Lula em momento algum quis chamar o Fora Temer. Ele aposta em um tom conciliador para que a classe dominante permita que ele se candidate e ganhe.

    Sérgio Moro, que oficialmente ainda não é político, só se pronuncia para defender a operação Lava-Jato. Mas ele não se constrange em participar de eventos cheios de políticos citados em delações premiadas. Claro, desde que esses políticos sejam do PSDB, PMDB e partido da base aliada de Temer. Seu alvo não é a corrupção como um todo, mas apenas o PT. Já sabemos de que lado ele vai ficar se realmente entrar para a política, não é?

    Enquanto acontece esta disputa, o presidente Michel Temer e o Congresso aproveitam a distração para adiantar a aprovação das reformas que retiram os direitos. Como diz o ditado, em briga de elefante quem perde é a grama.

     Fotos: wikipedia

    *Este texto reflete opiniões do autor e não necessariamente a posição do site.