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A vitória do governo no Equador: Lênin Moreno estará à altura da “Stalingrado latino-americana”?

David Cavalcante, de Recife/PE

 

Lênin Moreno, candidato a Presidente da República do Equador pelo partido Alianza PAIS – Movimiento Patria Altiva i Soberana, apoiado pelo atual Presidente Rafael Correa, venceu as eleições do 2º Turno, ocorrido no domingo dia 02 de abril. O resultado foi proclamado pelo Presidente do Conselho Nacional Eleitoral, somente na tarde de 05 de abril. A diferença apurada contra o candidato do capital financeiro, Guillermo Lasso, foi de pouco mais de 228 mil votos, onde Moreno teve 5.057.497 votos (51,16%) contra 4.828.813 (48,84%).

A forte polarização do 2º turno e a pequena margem de diferença (em torno de 200 mil votos), durante toda a apuração, abriu brechas para que a direita reacionária perdedora do pleito, liderada pela coligação dos partidos do agronegócio e do capital financeiro (CREO, PSC e seus sócios menores), desencadeasse uma campanha – antes mesmo da finalização da contagem e até agora sem muito peso social – de que houve fraudes, passando a chamar uma paralisação nacional, desde a noite do domingo do dia da votação, numa nítida manobra de tentativa de desestabilização do regime e de questionamento da vontade popular.

Rafael Correa e Lênin Moreno venceram de fato, apesar da pequena margem de diferença, também influenciada pelos impactos negativos que tiveram a tentativa de autogolpe de Nicolás Maduro, na Venezuela, já que a política daquele país influencia diretamente a do Equador, considerando que Correa sempre foi um dos férreos defensores do regime chavista. A prova maior foi a votação no 1º turno para o parlamento, onde Alianza PAIS alcançou 74 das 137 cadeiras, e ainda Izquierda Democrática-ID e Pachakutik, 4 cadeiras cada um, ou seja, a direita perdeu as eleições.

Do resultado das eleições duas avaliações emergiram entre os analistas e organizações de esquerda: a primeira, ultra-esquerdista e sectária, que tenta substituir a realidade existente pelos desejos abstratos das organizações, pois não localiza o resultado com o sentimento de vitória eleitoral do povo equatoriano ao projeto neoliberal recolonizador da América Latina – explicitamente representado pela candidatura do banqueiro Lasso – identificado diretamente com o pacote da dolarização do Governo de Jamil Mahuad (1998-2000), onde o mesmo foi o Super-Ministro da Economia e depois posto abaixo pelo levante popular-indígena de 21 de Janeiro de 2000, aquele dirigido pela poderosa Confederação das Nacionalidades Indígena do Equador-CONAIE.

A segunda posição é a que se fundamenta na ideologia da existência dos “campos progressivos” que difundiu a eleição do Equador e de Moreno como uma suposta “batalha de Stalingrado” da América Latina. Ocorre que nem a eleição se trata de luta social direta, corpo-a-corpo, como foi a Batalha de Stalingrado, nem tampouco o governo do Lenine equatoriano significará um enfretamento contra o capital, o imperialismo e suas empresas extrativistas.

O cidadão médio equatoriano parece ter entendido melhor do que muitas organizações de esquerda que votar ou não em Lenin Moreno se torna um detalhe tático quando temos consciência de que a política deve ser analisada principalmente mais pelo que se faz nas ações concretas do que nas declarações demagógicas de campanha.

Neste terreno, o termo “Revolução Cidadã”, cunhado pelo governo de Correa, na realidade, é vazio de conteúdo, pois suas medidas nunca foram revolucionárias. Não produziram nenhuma mudança estrutural na economia do país. No máximo se aproximaram de um social-liberalismo devido às políticas sociais sustentadas num keynesianismo raquítico, já que o mais elementar instrumento de soberania de uma nação que é a emissão de sua própria moeda, o correísmo não restaurou no país. Por isso mesmo as medidas sociais compensatórias lançadas no período em que a economia ainda crescia com base nos altos preços das commodities, em particular o petróleo, estão agora totalmente ameaçadas. O PIB encolhe, o déficit fiscal cresce, a crise se aprofunda.

A vitória apertada no 2º turno, também teve causa na ruptura do governo de Correa com o programa original de Alianza PAIS. Vários partidos, organizações de esquerda, movimentos sociais e ambientalistas, bem como nações indígenas, se enfrentaram com o governo bolivariano, pois o rol das vítimas sociais das decisões autoritárias que beneficiaram petroleiras e mineradoras, em terras ancestrais, é cada vez maior, a exemplo do vem denunciando a maior organização de massas do país, a CONAIE:

ORGANIZAÇÕES SOCIAIS INDÍGENAS DENUNCIAM CRIMINALIZAÇAO DO PROTESTO SOCIAL NO EQUADOR PERANTE A ONU… No exame anterior (2012) a ONU entregou ao Estado equatoriano 5 recomendações sobre Direitos que vinham sendo vulnerados em matéria de criminalização, mas nada disso foi cumprido, afirmam. Senão que, ao contrario,98 pessoas foram processadas em agosto de 2015 depois do Levante e Paralisação Nacional que foi realizado no Equador. Ressalta o documento que até o momento há 29 sentenciados a prisão de 3 meses a 4 anos, e agregam que uma nova onda de judicialização ocorreu entre 2016 e 2017, com dezenas de líderes amazônicos perseguidos após o Estado de Exceção em Morona Santiago”. Isso no que se refere ao conflito gerado na zona pela presença da mineradora Exsa em Nankints.

Por um lado, foi importante a derrota do candidato do capital financeiro, pois havia o temor de uma retirada sem piedade dos parciais direitos sociais conquistados nos últimos anos (a la Michel Temer), já que Guillermo Lasso, centrou seus discursos nas velhas propostas de abertura radical da economia e na diminuição de impostos. Chegando a declarar que fecharia a sede da União Sul-americana de Nações-UNASUL (com sede em Quito) e entregaria Julian Assange (o fundador do Wikileaks asilado na embaixada equatoriana em Londres) às autoridades britânicas. Agregando-se ainda o seu compromisso no campo da moral religiosa conservadora onde responde pela relação com Opus Dei.

Por outro, nem Correa nem Moreno enfrentaram as petroleiras e mineradoras. Deixaram ainda um dos mais altos saldos negativos do governo que foi as altas taxas de desemprego, com índices que ultrapassaram 420 mil trabalhadores. Os comandantes da “Revolução Cidadã” lideram a maioria do combativo povo equatoriano que sempre saiu às ruas para derrubar presidentes e defender direitos sociais, mas parece que não estão à altura dos desafios de uma suposta “Stalingrado”.