A Revolução Russa e o protagonismo das mulheres

Por: Fátima Dias, de Niterói, RJ

Pouca gente sabe que a Revolução de fevereiro de 1917, que derrubou o regime czarista existente há séculos na Rússia, foi protagonizada pelas operárias da indústria têxtil que organizaram um ato público no Dia Internacional da Mulher, de forma espontânea, insurrecional e pela base.

Conforme relata Trótski em sua História da Revolução Russa, as mulheres foram a vanguarda da Revolução de Fevereiro: “O dia 23 de fevereiro (no calendário juliano, correspondente a 8 de março no calendário gregoriano) era o Dia Internacional da Mulher. Os círculos da social democracia tensionavam festejá-lo segundo as normas tradicionais: reuniões, discursos, manifestos, etc. Na véspera ainda ninguém poderia supor que o Dia da Mulher poderia inaugurar a Revolução. Nenhuma organização preconizava greves para aquele dia. (…) No dia seguinte, pela manhã, apesar de todas as determinações, as operárias têxteis de diversas fábricas abandonaram o trabalho e enviaram delegadas aos metalúrgicos, solicitando-lhes que apoiassem a greve. (…) É evidente pois que a Revolução de Fevereiro foi iniciada pelos elementos de base, que ultrapassaram a resistência de suas próprias organizações revolucionárias, e que esta iniciativa foi espontaneamente tomada pela camada proletária mais explorada e oprimida que as demais – as operárias da indústria têxtil, entre as quais, deve-se supor, estavam incluídas numerosas mulheres casadas com soldados. (…) O Dia da Mulher foi bem sucedido, cheio de entusiasmo e sem vítimas. Anoitecera e nada revelava ainda o que esse dia trazia em suas entranhas. No dia seguinte, o movimento, longe de se apaziguar, dobrou em intensidade(…)” (1)

Como era a vida das mulheres operárias da indústria têxtil e a importância do Dia Internacional das Mulheres em seu desenvolvimento político

Na Rússia, em 1916, as operárias se concentravam no setor têxtil e eram a categoria mais explorada da classe operária. A média de seus salários chegava a menos da metade do salário dos operários do setor metalúrgico. A porcentagem de analfabetismo entre os trabalhadores industriais, que atingia a média de 36%, se reduzia a 17% entre os metalúrgicos e subia para 62% entre as têxteis.

No entanto, desde a revolução de 1905, já havia entre as mulheres socialistas como Aleksandra Kollontai, uma compreensão de que seria uma tarefa estratégica ganhar as mulheres trabalhadoras para o socialismo. Assim, na Primeira Conferência das Mulheres Socialistas, em Stuttgart (1907), se propôs a agitação e propaganda socialista entre as mulheres russas, e na Segunda Conferência, em Copenhague, 1910, com delegadas de dezessete países, foi declarada a necessidade do Dia da Mulher, com um caráter internacional e cuidadosamente preparado, em especial para a promoção da propaganda pelo sufrágio feminino.

Em 1914, as militantes socialistas russas decidiram editar uma revista dirigida às mulheres trabalhadoras, seguindo exemplo das social-democratas alemãs, que já tinham desde 1892, uma revista editada por Clara Zetkin chamada “A igualdade” (Die Gleichheit) que alcançou mais de 120 mil exemplares naquele ano. Editaram então a revista “Trabalhadora” (Robôtnitsa). O lançamento foi no Dia Internacional da Mulher de 1914 com 12 mil exemplares e faziam parte de seu conselho editorial Inês Armand, Aleksandra Kollontai e Nadêjda Krúpskaia, companheira de Lênin.

Nessa primeira edição, a revista já afirmava que educaria as trabalhadoras que, naquela época, eram um grupo com pouca consciência política, com um índice de sindicalização muito baixo e com pouca participação nas atividades como reuniões e conferências.

Entretanto, a Primeira Guerra Mundial foi decisiva na transformação do papel social das mulheres na Rússia. Entre 1914 e 1917, um grande número de jovens operários que eram o único sustento para suas famílias foram enviados ao front e, pressionadas pela necessidade, as mulheres foram ocupando seus lugares nas fábricas. Em 1916, o número de homens trabalhadores recrutados para a guerra chegou a 14,6 milhões.

Isso fez com que as mulheres se convertessem em operárias da indústria e o componente de mulheres na classe operária aumentou de 25,7% em 1914 para 33,2% em 1917, sendo que nas indústrias têxtil e de alimentos se tornaram maioria. Mas, além de estarem nos setores mais explorados da Indústria, as mulheres continuavam com suas tarefas domésticas e pressionadas pela fome de seus filhos e, nessa época, eram ainda bastante excluídas da vida social e política, o que as convertiam em um dos setores mais conservadores, conforme assinalava a revista “Trabalhadora”. Entretanto, essa condição de dupla opressão ia se tornando cada vez mais explosiva e, com a falta de pão que as obrigava, constantemente, a enfrentar filas para conseguir alimentos durante o inverno, passaram a questionar o poder político sem mais mediações.

Assim, na manhã de 23 de fevereiro de 1917, conforme relata Gordienko, trabalhador metalúrgico, no livro “Russia’s Second Revolution” (2) , ouviram-se vozes femininas na rua: “Chega de guerra! Chega de fome! Pão para os trabalhadores!” e ao olhar pela janela da fábrica os operários viram uma massa de mulheres trabalhadoras com ânimo militante! E cada uma que via os operários na janela, gritava: “Saiam! Deixem o trabalho!”, algumas atirando bolas de neve para chamar atenção.

E assim, esses operários decidiram em conjunto, se unirem às manifestações. O papel de vanguarda das mulheres trabalhadoras conquistou apoio dos soldados e desencadeou uma insurreição que contrariou as considerações de que não havia condições maduras para uma greve geral. A Revolução de Fevereiro foi desencadeada por uma greve insurrecional iniciada por operárias que se dirigiam à Duma (Câmara) Municipal pedindo pão e conseguiu, rapidamente, o apoio dos operários, se fundindo em palavras de ordem políticas como “Chega de autocracia” e “Chega de Guerra!”

O conceito de liderança – Consequências da mobilização das mulheres para a classe trabalhadora russa e da Revolução bolchevique para as mulheres

Essa iniciativa política das mulheres operárias teve como consequências a queda da Dinastia dos Românov, que governava a Rússia desde 1613, a proclamação de uma república democrática, o ressurgimento dos conselhos de deputados operários (sovietes), criados inicialmente pela classe operária russa na Revolução de 1905 e a abertura de uma etapa de duplo poder entre tais conselhos e o governo provisório que culminou com a tomada de poder pelos bolcheviques em 1917.

O enorme impulso que as trabalhadoras russas deram à revolução, combinado com a política revolucionária consequente dos bolcheviques, trouxe avanços como a plena igualdade de direitos civis e políticos, o casamento civil e o divórcio, o direito ao aborto em 1920 (primeiro país no mundo a conquistar esse direito) e desenvolveu uma política que incentivava a socialização do trabalho doméstico e a criação dos filhos, liberando a mulher do jugo da escravidão doméstica.

(1) León Trótsky “A História da Revolução Russa” Editora Paz e Terra, 2a Edição, 1977, vol.1, capítulo VII.

(2) Gordienko apud Cintia Frencia e Daniel Gaido em “Trabalhadoras na Vanguarda”, Revista CULT, fevereiro de 1917.

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