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Especiais

Construir o socialismo em Cuba

Com a crescente pressão para a liberalização econômica, o que seria necessário para tornar Cuba uma democracia socialista?

Por: Samuel Farber (tradução: Gleice Barros)

Publicado originalmente no site The Jacobin Mag

Em julho de 2016, graças a 20% de redução dos embarques de petróleo vindos da Venezuela, o ministro da economia cubano, Marino Murillo, anunciou um corte de 6% no fornecimento de energia e de 28% de combustível.  Também ordenou a queda no uso de energia elétrica no setor público, com a consequente redução de horas trabalhadas para servidores públicos, e alertou sobre possíveis blackouts, aumentando o fantasma dos dias sombrios e famintos do Período Especial dos anos 1990.

Esta mudança nos acontecimentos foi um golpe às tentativas de Raúl Castro em estabelecer uma versão cubana do modelo sino-vietnamita, que mantém um Estado de partido único enquanto abre a economia à iniciativa privada e ao mercado.

No campo político, isso significou um relaxamento do controle estatal sobre os cidadãos. Mas isso não foi acompanhado pela democratização. Por exemplo, a reforma de migratória de 2012 facilitou a cidadãos cubanos entrar e sair do país, mas não reconhecia viajar para o exterior como um direito.

No campo econômico, o governo implementou uma estratégia contraditória e modesta. Por exemplo, as reformas estruturais no setor agrícola concederam a cessão de terras por um período máximo de vinte anos; os governos chineses e vietnamitas, ao contrário, estabeleceram, períodos mais longos e, em alguns casos, permanentes.

Atualmente, o governo permite o trabalho autônomo em algumas ocupações (pouco mais de 200). Se tivesse aberto para toda a economia – reservando apenas os setores considerados como prioridades sociais elevadas, como a medicina -, a reforma aumentaria os produtos e serviços disponíveis.

Mudanças complementares introduzidas para reforçar estas reformas estruturais – como o estabelecimento de grandes mercados e bancos de créditos comerciais – têm sido insuficientes e acabaram por impactar negativamente o programa de reforma. Além do mais, a burocrática e ineficiente Acopio – a agência estatal com o poder de monopólio para comprar a maioria dos produtos com preços estabelecidos pelo governo – diminuiu a produção agrícola.  Como resultado, colheitas têm estragado enquanto aguardam processamento pelas empresas do governo.

Provavelmente, as meias medidas do regime de Castro empurrarão Cuba mais perto de uma forma de capitalismo de Estado sem democracia. Mas há uma alternativa viável para o país.

Sem recuperação
Até esta nova crise, a economia cubana se recuperou parcialmente depois dos piores anos do Período Especial, que devastou o país logo após o colapso do bloco soviético no final dos anos 1980 e início dos 1990.

O país atingiu o ápice da crise entre 1992 e 1994, quando a extrema escassez de alimentos levou a um surto de neuropatia óptica que afetou algo em torno de 50 mil pessoas. Desde então, a economia cubana superou o PIB atingido em 1989.

Porém, outros indicadores – como salários reais e aposentadorias, que em 2014 ainda eram 27% e 50% dos valores de 1989, respectivamente – nunca voltaram a ser iguais. Enquanto isso, os gastos sociais continuam caindo e o consumo familiar tem expectativa de queda de 2,8% para 2016 e 7,5% em 2017.

Apesar de a fome do início dos anos 1990 ter acabado, os cubanos ainda têm dificuldades para encontrar comida suficiente. O muito elogiado desenvolvimento da agricultura orgânica e urbana na ilha representa uma parte relativamente pequena da produção agrícola. Como o economista cubano C. Juan Triana Cordovi apontou,  o declínio da produção doméstica obrigou hotéis a importar vegetais, incluindo a mandioca, a principal raiz vegetal que compõe a dieta cubana. O pequeno progresso da agricultura sustentável não compensou o fato que a produção alimentícia nunca mais alcançou os níveis de 1989 e mais da metade do fornecimento de alimentos de Cuba vem de importações, a um custo anual de US$ 2 bi.

Muitas conquistas da revolução em educação e saúde também foram perdidas. Os professores que fugiram do baixo salário da Educação não foram totalmente substituídos, e as aulas particulares – muitas vezes dadas pelos professores das escolas públicas em seu tempo livre – tem crescido exponencialmente.

O mesmo se aplica a muitos hospitais e outras instalações de saúde, que agora operam com equipes reduzidas: o governo enviou uma grande quantidade de clínicos gerais e de especialistas para a Venezuela e outros países em troca de petróleo ou de divisas.

As contraditórias reformas do regime provavelmente passarão com a geração histórica de líderes. A segunda geração de funcionários burocráticos provavelmente se comprometerá totalmente com o modelo sino-vietnamita, talvez até se inclinando para o capitalismo russo, que combina um massivo roubo oligárquico de propriedades do Estado com a “democracia” nominal, que daria ao congresso americano o pretexto político que precisa para anular a lei Helms-Burton de 1996 e remover o bloqueio econômico à ilha.

Além de ganhar o entusiasmo dos Estados Unidos, essa nova geração de líderes atrairá capital estrangeiro e, ao menos, um setor de capital cubano-americano, dando garantias de que o governo irá manter controle total sobre o Estado, a grande mídia e as organizações de massa – inclusive os sindicatos controlados pelo Estado – para garantir a seus novos investidores, estrangeiros e cubanos, paz, lei e ordem.

No entanto, há outros modelos econômicos sobre os que se comenta dentro e fora do governo, embora de maneira muito discreta devido, em grande parte, ao sistema político que não permite uma completa e clara exploração de ideias.

Livre e Racional
Os críticos do mainstream há algum tempo defendem o estabelecimento de uma economia de livre mercado, que apresentam como única alternativa racional à administração econômica do Partido Comunista.

Esse grupo abrange um amplo espectro, variando entre posições de estrito livre-mercado a uma perspectiva de estado de bem-estar social-democrata. Neste último grupo, críticos moderados se sobrepõem com setores de economistas acadêmicos, incluindo membros do Centro de Estudo da Economia Cubana da Universidade de Havana.

Contudo, dificilmente quaisquer destes críticos têm enfrentado a questão sobre o que fazer com relação a parte mais importante da economia cubana: as grandes empresas estatais.  Ao invés disso, focam no estabelecimento de “PyMEs” privadas – acrônimo em espanhol para empresas pequenas e médias – embora não esclareçam o que “média” realmente significa.

Eles também têm apoiado os movimentos do governo para substituir o sistema de racionamento universal por um que subsidie categorias de pessoas ao invés de produtos.  Hoje, todos os cubanos, seja qual for sua renda, podem receber um número de produtos a preços baixos e subsidiados. O novo sistema apenas fornecerá esses produtos aos mais pobres e mais desfavorecidos, racionalizando, dessa forma, o mercado agrícola e reduzindo os gastos governamentais. A recente redução pelo governo no número de produtos distribuídos por esse sistema marca o primeiro passo nesta direção.

Finalmente, sugerem que o monopólio do governo sobre o comercio exterior deve terminar, e que todos os cubanos devem livremente importar tudo que o que puderem adquirir do exterior.

Tito em Cuba
Como todos os oponentes do regime, a nascente esquerda crítica – majoritariamente composta por correntes anarquistas e socialdemocratas – teve que operar sob forte monitoramento e repressão estatal. Estas formações de esquerda resistem às reduções de benefícios estatais e – algo sem precedentes na história da esquerda cubana – propõem sobre uma economia dos trabalhadores.

Curiosamente, eles nunca mencionam um plano ou coordenação democrática de setores econômicos. Como resultado, sua versão de autogestão dos trabalhadores criaria uma economia de empresas autossuficientes em competição umas com as outras. Isso lembra o sistema implementado na Iugoslávia de Tito entre os anos 1950 e 1970.

Esse socialismo de mercado foi localmente autogestionado, mas foi regional e nacionalmente controlado pela Liga dos Comunistas. Isso aumentou a contribuição dos trabalhadores, a tomada de decisões e a produtividade no nível local, mas, devido à sua natureza competitiva e não planejada, também criou desemprego, ciclos comerciais acentuados, desigualdade salarial e notáveis disparidades regionais que favoreceram as repúblicas do Norte.

A impotência dos trabalhadores para decidir qualquer coisa além do que acontecia nos seus locais de trabalho encorajou o enfoque localista, isolando-os das decisões econômicas mais amplas nacionais. Os trabalhadores não viam razão para apoiar investimento em outras empresas, particularmente naquelas em locais distantes.

Em última análise, como Catherine Samary analisou em Yugoslav Desmembrared, a autogestão iugoslava não pode enfrentar nem o plano burocrático nem o mercado. Os anos 1970 foram a última década de crescimento. Ao final, uma dívida de US$20 bilhões levou à intervenção do Fundo Monetário Internacional.

O modelo iugoslavo está eivado de problemas para ser seguido pelos cubanos. Além de tornar ainda mais improvável qualquer tipo de controle dos trabalhadores, nenhum dos oponentes de esquerda ao governo explicou como poderia ser implantado na ausência de um movimento dos trabalhadores ou como poderia operar caso os trabalhadores não estivessem dispostos a lutar por esses objetivos.

Existem outras vozes entre os críticos de esquerda que rejeitam qualquer concessão à iniciativa privada e ao capital pelo fato de que as empresas capitalistas, por definição, são contraditórias ao socialismo. Mas foram incapazes de responder à pergunta central de como uma Cuba socialista e democrática poderia surgir da pobreza e da estagnação econômica sem concessões de quaisquer tipos.

O que é possível
Um crescente número de cubanos que entram e saem da ilha, veem o socialismo – seja democrático ou autoritário – como uma impossibilidade. Um número cada vez menor de cubanos ainda o considera desejável ou provável. Certamente, as condições atuais de economia da ilha – combinado com um capital internacional extraordinariamente poderoso – torna difícil imaginar uma forma totalmente desenvolvida de socialismo.

Essa visão deriva de uma aplicação específica da teoria geral marxista que rejeita a possibilidade do socialismo em um só país, particularmente quando este país é subdesenvolvido economicamente e existe um mundo capitalista atualmente não ameaçado por revoluções socialistas.

Além de ter que enfrentar as hostilidades do seu vizinho do norte imperialista, o desenvolvimento de uma economia socialista autárquica não se adapta ao país que ainda depende da importação de petróleo.  E mais, sua dependência do turismo e de serviços médicos, níquel e, em menor grau, produtos farmacêuticos exportados e a drasticamente encolhida indústria açucareira, salienta o caráter externo da política de Cuba. A considerável integração da ilha no mercado capitalista mundial impede o estabelecimento de uma completa democracia socialista.

Mas isso não significa, contudo, que Cuba deva abandonar o socialismo. Ao invés disso, os críticos devem pensar em termos de uma economia de transição, uma operação temporária que pode, em realidade, ser implantada até uma situação internacional mais favorável ao desenvolvimento do socialismo.

A economia política clássica marxista fornece um modelo para o que este padrão pode ser. Esta teoria reconhece o grande papel que a produção e a distribuição familiar, em pequena escala cumprem em economias menos desenvolvidas como Cuba.

Em Do Socialismo Utópico ao Científico, Friedrich Engels, diferencia entre capitalismo moderno – quando a produção é um ato social, mas o produto é apropriado e controlado pelos indivíduos capitalistas – e socialismo – quando ambos, produção e sua apropriação são socializados.

Seguindo esta distinção, a propriedade produtiva que requer o trabalho coletivo se torna o objeto apropriado para socialização, deixando de lado a produção individual e familiar assim como a propriedade pessoal.

Uma economia de transição em Cuba deveria, por consequência, permitir pequenas propriedades privadas produtivas. Este ajuste deriva de uma análise marxista fundamental, não de uma adaptação a política liberal de livre mercado.

Em Cuba, como em vários outros países menos desenvolvidos, uma economia de transição deve subordinar uma setor privado de pequenas empresas reguladas por mecanismos de mercado sob o comando de um setor estatal que administre a grande indústria da ilha – farmacêuticas, de turismo, mineradoras e bancos – através do controle dos trabalhadores e controlado e planejado em um sistema político democrático. Com o conhecimento das condições de mercado e das previsões econômicas adequadas, o governo deverá se esforçar para harmonizar a economia estatal e autônoma de acordo com um plano definido.

Obstáculos Econômicos
Mas temos primeiro que avaliar honestamente a economia cubana, que, mesmo antes da redução do fornecimento de petróleo venezuelano provocar a crise atual, estava em estado de deterioração acentuado. Por um lado, seu abrangente setor público está cambaleante. Como lembrou o economista cubano Pedro Monreal, o governo admitiu abertamente que 58% das empresas estatais funcionam de forma deficiente ou em más condições.

Além disso, o crescimento econômico da ilha que, em geral, é baixo, pode ser agravado pela crise atual. O economista cubano Pavel Vidal Alejandro estima que o PIB cubano não irá crescer em 2016 e irá retroceder quase 3% em 2017. Isso deve marcar o primeiro ano de crescimento negativo no último quarto de século.

Importantes vozes da oposição de esquerda têm argumentado contra o crescimento econômico por motivos ecológicos, dentre outros. Mas melhorar a condição material dos cubanos é condição para o sucesso da democratização. A alternativa – estagnação contínua e declínio do padrão de vida – irá incentivar uma emigração massiva. Isso representa uma tragédia em si, mas também minaria potenciais movimentos de oposição progressivos e democráticos – deixando os socialistas sozinhos.

O que é alarmante é a taxa de novos investimentos, que é necessária para reabastecer o estoque de capital existente, tornou-se uma das mais baixa da América Latina, caindo abaixo de 12% do PIB. Previsões do governo indicam que os investimentos irão cair 17% em 2016 e 20% em 2017. Isso resultará em uma taxa de formação bruta de capital ligeiramente superior a 10%, apenas metade da taxa de investimento considerada necessária para o desenvolvimento econômico.

A deterioração do capital social de Cuba torna impossível manter os resultados atuais da produção e do padrão de vida, muito menos expandi-los. Como resultado, o aumento substancial do turismo – de 3 milhões de turistas em 2014 para 3,5 milhões em 2015, e uma projeção de 3,7 milhões até o final de 2016, aquecida pela retomada das relações entre EUA e Cuba, em dezembro de 2014 – tem levado a capacidade turística de Cuba ao limite.

Além disso, o fim das restrições a remessas de lucros feito, pelo Presidente Obama, enviada a ilha por cubano-americanos piorou significativamente a escassez de alimentos e bebidas. A oferta não consegue atender ao aumento da demanda.

A produtividade econômica cubana também se atrasa. Os rendimentos agrícolas – com exceção da batata – estão bem abaixo do resto da América Latina. Na indústria, a biotecnologia é o único sector que tem uma relativa alta produtividade na região.

O aumento da produtividade não é somente um esquema capitalista para o lucro. Uma economia que prioriza reduzir o trabalho penoso, melhorar as condições de vida e aumentar o tempo de lazer somente pode fazer isso se também priorizar produzir mais com a força de trabalho existente.

Che Guevara defendia o que na verdade era a “suor do trabalho”. Mas melhor organização, tecnologia e – mais importante – controle operário teria o mesmo efeito. O controle, por si só, representa uma poderosa motivação. A atual baixa produtividade vem de um sistema burocrático que sistematicamente cria desorganização e caos e não dá aos trabalhadores nem incentivos políticos – permitindo-lhes ter voz e controle sobre o que fazer – nem incentivos materiais –  típicos de um capitalismo mundial desenvolvido – para motivá-los. Os incentivos morais de Che falharam: eram métodos para fazer os trabalhadores assumirem a responsabilidade sem o poder e trabalhar sem o controle ou o pagamento.

Obstáculos Ecológicos
Muito da oposição de esquerda ao crescimento econômico na Ilha é fundamentada em considerações sobre o meio ambiente. Cuba hoje enfrenta muitos problemas ecológicos graves, incluindo o número crescente de rupturas e vazamentos nas antigas e mal reparadas canalizações de água em toda a ilha. Isso levou a ilha a uma grande perda de água, que frequentemente escorrem pelas ruas e terrenos baldios e ao armazenamento inadequado e frequente a que muitos moradores foram forçados a fazer em resposta à falta de água. Em consequência, o mosquito Aedes Aegypti, que transmite Dengue, se proliferou.

Além do mais, o crescente número de porcos, aves e culturas domésticas – parte do muito alardeado, mas muito problemático, movimento de agricultura urbana – combinado com o deteriorado serviço de coleta de lixo tem aumentado consideravelmente o risco de crises sanitárias urbanas.

A recente alegação do governo de ter impedido a epidemia de Zika e quase ter eliminado a dengue, deve ser vista com desconfiança, enquanto esta e outras condições que propiciam a proliferação dessas doenças permanecerem.

O sentimento anti-crescimento entre os oposicionistas cubanos de esquerda foi reforçado quando, em recente visita a Cuba, o economista Jeffrey Sachs recomendou que “o povo cubano não progrida no século XX”. Como o jornalista de esquerda Fernando Ravsberg explicou, Sachs argumentou que os cubanos não deveriam se esquecer da sustentabilidade e sim concentrar-se no desenvolvimento da agricultura orgânica, semeando sem tratores e sem adubos químicos ou pesticidas.

Se a conta de Ravsberg estiver correta, os argumentos de Sachs falharam em ponderar os custos relativos e os benefícios das medidas ambientalmente conscientes. Tratores pequenos e econômicos, como os que o governo cubano planeja produzir em associação com o capital dos EUA, continuam a consumir petróleo. Mas os efeitos negativos ao ambiente do petróleo não se comparam ao custo da agricultura humana e animal.  Este último produz menos enquanto requer massiva absorção de energia humana e animal.

A história cubana já provou isso: o abandono forçado dos veículos agrícolas no começo do Período Especial constituiu, em termos líquidos, um grande passo atrás para o povo cubano.

Também nos anos 1990, diminuiu o uso de transporte urbano motorizado, e muitos moradores passaram a andar de bicicletas. Depois as bicicletas foram abandonadas – não porque os cubanos preferem os escassos e superlotados ônibus ou os caríssimos táxis coletivos (apenas uma pequena parte dos cubanos tem automóveis), mas porque as bicicletas não permitem os trabalhadores chegar a tempo dos distantes bairros operários nem protegem os ciclistas das chuvas tropicais e ventos de junho a novembro.

O governo chinês encorajou a propriedade individual de carros, o que contribuiu para a esmagadora poluição urbana do país. Isso deveria servir como um sinal de alerta para que Cuba vise a adoção de um sistema efetivo de transporte coletivo como uma política ambiental alternativa.

Finalmente, como mínimo, Cuba precisa aumentar os 5% de sua eletricidade derivada de fontes renováveis, o que significa um quarto da média latino-americana.

A Política de uma Alternativa Socialista
O movimento em direção a uma sociedade socialista não apenas requer um programa, mas também uma política. Isso exige o uso de princípios estratégicos e considerações táticas para debater as propostas do governo e das várias correntes oposicionistas.

Fazendo isso, socialistas cubanos poderiam encontrar áreas de coincidência com as críticas dos católicos liberais e socialdemocratas. Incluídas as propostas que promovem a produção e a produtividade agrícolas, como a codificação dos direitos de usufruto dos agricultores individuais, eliminação da venda compulsória da produção agrícola ao governo por preços determinados pelo Acopio e a criação de mercados atacadistas para pequenas empresas e produtores individuais.

No campo do emprego urbano, essas propostas incluem a formação de cooperativas baseadas nas iniciativas dos trabalhadores interessados, ao invés dos ditames do governo de tentar de eliminar os chamados limões – empresas ou negócios não lucrativos que são difíceis de administrar de forma centralizada, como pequenos restaurantes.

Ao mesmo tempo, esta nova esquerda precisará se contrapor a outras propostas desses mesmos grupos. Por exemplo, eles pedem a legalização de todas as formas de trabalho autônomo, incluindo ocupações que devem funcionar em defesa do interesse público, como a educação e a saúde.

A esquerda pode responder ao chamado de livre importação argumentando que um Estado democraticamente dirigido deve alocar divisas em base a prioridades estritas, com critérios sociais que favoreçam os setores mais desprovidos economicamente da população e a compra de bens de capital que dariam maior suporte ao desenvolvimento econômico do país. De outra forma, os cubanos abastados podem desperdiçar as relativamente escassas divisas com importações frívolas, como carros importados ou móveis e aparelhos domésticos luxuosos.

Os socialistas podem também resistir à visão dominante – defendida tanto pelos críticos como por um crescente número de economistas do governo – de que o governo deveria subsidiar pessoas, não produtos, que deveria substituir seus subsídios universais por um sistema que provesse apenas os mais necessitados.

Certamente, os subsídios universais beneficiam desnecessariamente os cubanos mais ricos.  Entretanto, os críticos deste programa nunca mencionam as desvantagens da sua proposta, que prejudica a solidariedade social. Experiências internacionais mostram que programas de auxílio por faixas de renda produzem estigmatização e, como resultado, perdem legitimidade com o tempo, assim ameaçando o seu financiamento e viabilidade a longo prazo.

Uma resposta a este problema poderia ser a introdução de uma escala móvel onde todos se beneficiam em proporção inversa à sua renda. Isso reconheceria as diferentes necessidades, ao mesmo tempo em que mantém um apoio político máximo.

Socialistas da tradição marxista entendem que os subsídios devem ser seletivos; se, sob as condições atuais, tudo for fornecido gratuitamente ou vendido abaixo dos custos de produção, uma economia poderia colapsar em curto prazo. Além do mais, uma economia relativamente subdesenvolvida como a cubana tem um excedente muito menor para alavancagem de bens gratuitos e subsídios.

Mas, mantendo viva a ideia de subsídios universais, deixa o caminho aberto para uma futura expansão assim que a economia cubana se tornar mais produtiva e saudável.

Críticos liberais e o próprio governo apoiam investimentos estrangeiros como um meio para lidar com a subcapitalização da economia cubana. Muitos setores de esquerda têm se oposto a isso, enxergando-o como um Cavalo de Troia do capitalismo e da dominação estrangeira. Entretanto, uma política seletiva de controle e investimentos do capital estrangeiro é indispensável na falta de uma indústria doméstica de bens desenvolvida.

Essas importações podem trazer um novo maquinário e renovar a infraestrutura de transporte e de serviços. Novos investimentos externos também podem gerar empregos significativos e multiplicar efeitos que irão disparar o desenvolvimento de empresas totalmente novas que complementarão e desenvolverão completamente as já estabelecidas no país.

E mais, o impacto dos investimentos estrangeiros sobre os salários e as condições de trabalho podem ser negociadas por sindicatos independentes, que, entre outras coisas, devem priorizar a abolição imediata das práticas do governo cubano de coletar os salários dos trabalhadores em investimentos estrangeiros e então devolver aos cidadãos apenas uma pequena parcela do dinheiro coletado. O governo explica que faz isso para financiar os gastos sociais e outras operações governamentais. Mas o mesmo objetivo pode ser alcançado por meio de um sistema tributário transparente e igualitário em vez de o ser por meio do monopólio do governo sobre venda e controle do trabalho.

É verdade que o controle operário sobre a produção e sindicatos fortes podem deter os investimentos externos. Entretanto, uma administração pública e um sistema tributário honestos assim como a existência de recursos naturais e humanos não reproduzíveis em qualquer lugar também podem servir como um atrativo para superar estas desvantagens.

Críticos de direita e oposicionistas minimizam – se não ignoram completamente – a questão crucial do crescimento da desigualdade em Cuba. Para a esquerda, isso apresenta uma oportunidade única de pressionar por sindicatos independentes, o que, combinado com um sistema tributário progressivo, pode ser uma política mais efetiva que a atual, em que a proliferação de regras burocráticas assedia as pequenas empresas e os trabalhadores autônomos.

Isso não é para acabar com a regulamentação completamente; ela é necessária na segurança ocupacional, na saúde, nas aposentadorias e nos direitos sindicais. Se essas regras fossem administradas – sob controle e supervisão dos trabalhadores – por organizações profissionais ao invés de uma burocracia central, poderiam certamente beneficiar trabalhadores e não patrões. Mas para isso, se requer a distinção entre as regras destinadas a proteger os interesses dos trabalhadores e àquelas que protegem interesses dos burocratas.

Ao debater as propostas específicas propostas tanto pelo governo antidemocrático como pelo setor oposicionista pró-capitalista, a esquerda terá a oportunidade de formular demandas específicas e mobilizar o povo para lutar por elas. Isso pode construir um movimento – ou pelo menos um polo organizacional claro – apesar da repressão do governo e do ceticismo popular.

O presente regime de Cuba não irá permitir a existência de outros partidos políticos legais, de sindicatos independentes ou de meios de comunicação de massas livres. Claro, estes elementos constituem precisamente o cenário político que facilitaria o tipo de sistema de transição social e política descrito acima.

No entanto, a oposição de esquerda deve abordar um modelo alternativo que abertamente reconheça as possibilidades e as dificuldades envolvidas em construir uma democracia socialista. Isso empodera o povo ao invés de fazê-lo sentir que nada pode ser feito para pressionar o país numa direção anticapitalista, radicalmente democrática e socialista. Mas há uma alternativa.

Samuel Farber é um socialista nascido e criado em Cuba, que emigrou para os EUA e que segue ativo e escreveu extensamente sobre o país. Entre seus livros está The Origins of the Cuban Revolution Reconsidered  (Reconsiderando as origens da Revolução Cubana) e, o mais recente é The Politics of Che Guevara: Theory and Practice (A política de Che Guevara: Teoria e prática). É filho de judeus poloneses que emigraram para Cuba nos anos 1920s.