Nada nos prepara para a morte


Publicado em: 2 de fevereiro de 2017

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

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Por: Valério Arcary, colunista do Esquerda Online

Diante da morte somos convidados a pensar sobre a vida e seus sentidos. A notícia da morte cerebral de Dona Marisa Letícia comoveu a esquerda brasileira. Digo a esquerda, porque o mal estar não ficou restrito aos petistas. Comoveu porque foram impressionantes as reações iradas de ódio a Lula nas redes sociais. Revelou-se o grau de politização doentia de parcelas massivas da base social que foi às ruas pelo impeachment de Dilma Rousseff, e oferece apoio ao governo Temer.

A morte nos provoca pensar sobre o tempo.
Acontece que o tempo é vivido como uma experiência subjetiva.

As grandes concepções da história viram-se obrigadas e refletir sobre o tempo e suas medidas. Sempre foi assim, mesmo antes da história se constituir como ciência: as teleologias religiosas (ou laicas) foram, também, ciosas de estabelecer os seus critérios. Afinal, o tempo é a medida da vida e esta, sendo irredutível, oferece sentido à condição humana. O eterno retorno oriental, com a alternância de punição ou recompensa; o tempo de provação e espera do judaico-cristianismo, como antessala do combate final entre o bem e o mal, o Armagedon; o tempo hegeliano do progresso, como aventura da realização do Espírito.

O tempo não para. Mas a compreensão do tempo, também, muda. O elogio do tempo presente como a única medida da experiência humana, ou a renúncia ao amanhã, o carpe diem, é uma escolha moral. O sacrifício do presente em troca de uma recompensa no futuro (seja ela moral, a salvação, ou material, o enriquecimento) é, também, uma escolha moral. Já o marxismo abraça uma moral que é outra: a indivisibilidade dos fins e dos meios. Os meios devem estar à altura dos fins. Os marxistas atribuem, também, qualidades ao tempo: em uma palavra, como igualitaristas, antes de mais nada, temos pressa, porque sabemos que, na escala do atraso e lentidão das longas durações da transformação histórica, todas as revoluções ocorreram, em alguma maneira, atrasadas, portanto, demasiado tarde, tão grande a dívida de injustiça a ser resgatada.

Mesmo quando as revoluções foram, politicamente, prematuras.
Por isso, a esperança é o sentimento político mais bonito.

Para ilustrar, uma fábula: ensina uma sabedoria antiga que Zeus enviou Pandora para castigar Prometeu, que tinha roubado o fogo para oferecer a vida aos seres humanos. Tendo, por isso, contrariado os desígnios dos Deuses, foi condenado a sofrer todas as maldições mais atrozes, até que Zeus, tomado de piedade, decidiu fechar a caixa de Pandora, quando no seu interior só restava a última, porém a mais terrível das maldições. A Humanidade foi assim poupada do pior dos males, o mais invisível e o mais perturbador, a perda da esperança.

Porque há coisas que não se podem perder.
Mesmo diante da maior de todas as perdas.
Nada nos prepara para a morte.

Foto: EBC


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