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EDITORIAL

A revolução impossível: um dissidente sírio e como a luta contra um ditador se tornou uma guerra por procuração

 

Prosseguindo com a divulgação das posições dos que lutam na revolução síria, publicamos uma entrevista realizada pelo Democracy Now em 22/16, com Yassin Al-Haj Saleh, veterano militante da oposição síria, que passou 16 anos nos cárceres da ditadura em Raqqa (dos 19 aos 35 anos, entre 1980 e 1996), pois militava em um dos partidos comunistas na universidade. Participou ativamente da revolução síria. Sua esposa foi sequestrada por um bando de fundamentalistas e seu irmão, pelo auto-denominado Estado Islâmico, ambos em 2013, e nunca mais foram vistos. Ao final daquele ano, Saleh teve que se exilar na Turquia.

 

Transcrição da entrevista

 

NERMEEN SHAIKH: Na Síria, a evacuação dos rebeldes e dos civis de Aleppo oriental recomeçou, depois que milhares ficaram parados na quarta-feira, em meio a uma neve pesada que caía e temperaturas congelantes. O governo sírio disse que esperava que os últimos dos evacuados embarcaria nos ônibus nas horas seguintes, deixando a cidade, que foi devastada por meses de bombardeio pesado e cerco militar, sob o controle completo do exército sírio.

 

 

AMY GOODMAN: Para conversar mais sobre a Síria, falamos com Istambul, de onde participará Yassin al-Haj Saleh. Ele é um escritor sírio, dissidente, ex-preso político na Síria. Seu próximo livro se denomina “A revolução impossível: compreendendo a tragédia síria.”

 

Yassin, obrigado por falar conosco de Istambul. Queria começar perguntando sobre sua resposta ao assassinato do embaixador russo em Ankara na segunda-feira.

 

YASSIN AL-HAJ SALEH: Bem, tenho uma sensação de déjà vu. Nós vimos ou lemos muito sobre esse tipo de coisas no século 19, quando a Rússia era o pilar do reacionarismo e estatismo na Europa e agora está desempenhando o mesmo papel na Síria e na região. O assassinato foi sempre uma parte integral da realpolitik das elites como a que governa a Rússia. Não provém de outro mundo.

 

Façamos justiça ao jovem policial turco que assassinou o embaixador: ele não era um jihadista. Ele talvez seja um muçulmano, um crente, que se sentiu ofendido pelo que os russos estiveram fazendo na Síria, em especial em Aleppo, nas últimas semanas. Quando ele gritou, “Não se esqueçam de Aleppo, não se esqueçam da Síria!”, ele estava somente se identificando com aquelas pessoas que ele muito provavelmente viu serem mortas, humilhadas ou deslocadas de maneira forçada – não é uma evacuação, como sua repórter disse – removidos de sua cidade, a população local. E ele sentiu que poderia fazer justiça com suas próprias mãos.  Claro, isso é – isso não pode ser justificado, mas isso não provém de um mundo distinto daquele em que a remoção forçada e o assassinato das pessoas em Aleppo provém.

 

NERMEEN SHAIKH: Bem, queria também lhe perguntar, Yassin, sobre o fato que você falou que os EUA e a Rússia exerceram papéis ativos para garantir o fracasso de qualquer resolução política para a guerra na Síria. Agora, dito isso, qual é a sua avaliação do fato que a Rússia está sediando essas conversações entre o Irã e Turquia e, evidentemente, nas que a Rússia está envolvida? Você acha que talvez elas possam criar a possibilidade de um cessar-fogo duradouro, que poderia levar a negociações para resolver a guerra na Síria?

 

YASSIN AL-HAJ SALEH: Não, de forma alguma. É uma continuação da guerra em Aleppo e na Síria com diferentes – por diferentes meios. É, novamente, o fracasso da política. Sim, e vocês sabem que a Rússia é parte das potências que estão apoiando o regime de Assad. Portanto, como poderia a Rússia ser – sediar um encontro para- a favor de um processo de paz – a favor de uma solução política na Síria? É algo inacreditável.

 

E eu penso que é algo relacionado ao método de gerenciamento de crises, não à política. O método de gerenciamento de crises é uma forma degenerada da política. É um método elitista que foi desenvolvido pelos americanos em relação à causa palestina e sabemos qual é o destino do processo de paz na Palestina.

 

Na Síria, estamos caminhando no mesmo sentido para uma situação em que as condições de guerra eterna serão criadas.  Com os russos, os iranianos, as milícias sectárias xiitas reocupando Aleppo neste momento. Penso que estamos vendo uma situação que colocará um ponto final a qualquer solução política. Não é o começo: é o fim. É um passo adiante para colocar um fim a qualquer solução política e esperança para uma solução política na Síria.

 

AMY GOODMAN: Yassin al-Haj Saleh, poderia nos explicar um pouco mais por que você acredita que os Estados Unidos estão tornando impossível qualquer tipo de resolução do conflito ou cessar-fogo ou solução na Síria?

 

YASSIN AL-HAJ SALEH: Os Estados Unidos foram um parceiro da Rússia no acordo [sobre as armas] químicas em setembro de 2013. E creio que, a partir daquele momento, a mensagem que recebemos como democratas sírios, como pessoas da oposição síria, é que ficamos à mercê de uma junta brutal e de seus aliados. O regime ganhou algo daquele acordo, que é permanecer no poder. A constituição real do regime é permanecer no poder para sempre. E os russos ganharam algo ao salvar um regime que é seu cliente. Os americanos ganharam algo ao desarmar o regime de suas armas químicas. Os israelenses, de quem veio a inspiração para realizar aquele acordo, ganharam algo que é, novamente, desarmar o regime de suas armas de destruição em massa.

 

Mas quem perdeu tudo? Foi o povo que, somente três semanas antes do acordo, perdeu 1466 pessoas. E o assassino recebeu uma licença renovada para matá-los com outros meios – com barris de bombas, com aviões, inclusive com gás de cloro e armas químicas.

 

Então dessa forma, as chances de uma solução política foram extremamente dissipadas. E não houve pressão; a partir daquele momento, o regime de Assad percebeu que não enfrentar qualquer pressão real por parte dos EUA ou de qualquer outra potência. E é por isso que o regime, durante seis anos, não concedeu nada de seu poder real a qualquer representante da oposição, nem dois por cento de seu poder real. Não se pode chegar a uma solução política se o regime tem licença para continuar sua atividade mortífera e não enfrenta nenhum tipo de pressão.

 

NERMEEN SHAIKH: Bem, Yassin, algumas pessoas expressaram a preocupação sobre quem constitui hoje a oposição que luta contra o regime de Assad na Síria. E você falou sobre os três estágios que o levante passou, os três estágios da revolta contra Assad, que começou em 2011. Poderia falar sobre quais são esses três estágios e como a oposição se transformou nesse tempo?

 

YASSIN AL-HAJ SALEH: Bem, agora já se passaram seis anos do levante. Posso diferenciar três estágios. E talvez, após Aleppo, há um quarto estágio, sobre o qual não posso dizer nada agora.

 

O primeiro estágio é a revolução propriamente dita. Compreende os anos de 2011 e 2012, talvez os primeiros dois ou três meses de 2013. A oposição era formada pelo Exército Livre da Síria, pessoas das localidades ou desertores do exército que lutavam contra o regime, defendendo suas comunidades locais, cidades ou bairros. E eram sírios contra sírios. Ou seja, era nossa guerra civil. De fato, nossa guerra civil terminou em 2013, em minha opinião. Começou provavelmente em setembro ou outubro de 2011, porque houve um período pacífico da revolução; depois, era pacífico e armado até junho de 2012; a partir daí somente luta armada, mas ainda de sírios contra sírios, até a intervenção do Hezbollah, e até a ascensão do Daesh (acrônimo árabe para o autodenominado Estado Islâmico – N. do T.) em – ambos apareceram em abril de 2013.

 

Então, naquele momento, na primavera, no começo da primavera de 2013, começou o segundo estágio com a guerra entre sunitas e xiitas na Síria, representada pelos jihadistas salafistas, os sunitas, as organizações jihadistas salafistas, e pelo Hezbollah e outras milícias que vieram do Iraque, Afeganistão e, claro, do Líbano e do Irã.

 

Esse segundo estágio terminou, em minha opinião, em setembro de 2014, quando os americanos intervieram, depois que o Daesh ocupou Mossul e o Iraque, e então, um ano depois, os russos também intervieram. Portanto, esse é o começo do terceiro estágio, o estágio imperialista, quando as duas superpotências se tornaram os principais atores na Síria.

 

Dessa forma, agora, quando as pessoas ou quando sua reportagem diz algo sobre a vitória de Bashar al-Assad, não é a vitória de Bashar al-Assad; é a vitória do Irã e da Rússia. E não é uma vitória do exército sírio; é uma vitória do Hezbollah e da milícia sectária xiita em Aleppo, e com a população local deslocada.

 

No primeiro estágio, a oposição estava composta pelo Exército Livre da Síria que tinha uma relação com a oposição política que eram – que lutaram contra o regime por toda uma geração— quero dizer, a minha geração, nos anos 1980, em que vocês sabem que havia dezenas de milhares de sírios que foram mortos, presos e torturados. Então, o segundo estágio, no segundo estágio, 2013 e 2014, o êxodo de massas dos sírios e os assassinatos em massa.

E o quarto estágio, agora esta situação caótica, a Síria é um país globalizado. E a oposição síria está enfraquecida. Ainda existem alguns grupos do Exército Livre da Síria, mas eles estão enfraquecidos e colocados à margem. E precisamos agora, em minha opinião, de uma dinâmica diferente para a inclusão, para a reconciliação, para a moderação, que – e isso requer uma mudança real e substancial no ambiente político na Síria, algo que não pode ser alcançada enquanto Bashar al-Assad ainda estiver no poder.

 

AMY GOODMAN: Yassin, queria lhe perguntar sobre sua própria história. Você mencionou ter sido um dissidente na Síria. Você foi detido e aprisionado pelo regime do pai de Bashar al-Assad, Hafez al-Assad. Pode nos contar sobre como você se enquadra na resistência hoje em dia? E também conte sobre a terrível perda de sua esposa, que foi raptada alguns anos atrás, juntamente com a proeminente  advogada e ativista de direitos humanos síria, Razan Zaitouneh.

 

YASSIN AL-HAJ SALEH: O que quero dizer é que nossa luta não começou cinco ou seis anos atrás. Lutamos há duas gerações. Éramos jovens – eu tinha menos de 20 anos quando fui detido e permaneci na prisão por 16 anos. E meus colegas se contam às centenas e milhares. E como acabei de dizer, 16, perdão, dezenas de milhares foram mortos, torturados e humilhados.

 

Portanto, foi – eu fui naturalmente parte dessa segunda onda de luta pela democracia, por liberdade e justiça em meu país. E eu vivi na clandestinidade em Damasco durante dois anos, a partir do começo da revolução, e participei de muitas atividades e tentei ser parte desse grande e único levante, da grande luta dos sírios pela mudança, por mudança real.

 

Samira, minha esposa, foi também uma prisioneira política. Ela foi detida, foi presa durante quatro anos e foi torturada. Trabalhávamos juntos, Samira, Razan e eu, em Douma em 2013. Eu as deixei quando fui para Raqqa. Sou natural da cidade de Raqqa, que é hoje controlada pelo Daesh, e vivi lá, também na clandestinidade por um tempo. Não era possível que Samira me acompanhasse em minha dura e perigosa viagem.

 

Ela permaneceu [em Douma} e Wael, marido de Razan, e Nazem Hamadi, que é um poeta e ativista dos direitos humanos, juntaram-se a eles. Foram sequestrados pelo Jaysh al-Islam, uma formação militar salafista, em Douma, em dezembro de 2013. Temos algumas informações concretas sobre os responsáveis, mas não temos, sinto dizê-lo, nenhuma informação confiável sobre o destino dos quatro nos últimos três anos e 13 dias.

 

NERMEEN SHAIKH: Antes de concluirmos, Yassin, você poderia dizer algo sobre o que pensa que os EUA deveriam estar fazendo agora, pelo que está acontecendo na Síria?

 

YASSIN AL-HAJ SALEH: Em primeiro lugar, talvez eles devessem deixar de dar prioridade à guerra ao terror em relação à nossa luta por justiça e por liberdade. Essa grande narrativa de hoje em dia no mundo, a da guerra ao terror, é boa para as elites. É boa para gente como Bashar al-Assad, como Putin, como Netanyahu, como Khamenei. É muito ruim para o povo, não somente em meu país, mas mesmo no Ocidente. A guerra ao terror é, dessa forma, uma guerra à democracia.  E não pode ser uma base real para a luta por liberdade e por justiça. Portanto, essa é a primeira questão.

 

A segunda questão talvez seja – realmente, [relativa às] minhas esperanças no que diz respeito ao papel dos EUA na Síria ou no Oriente Médio. Mas eu espero que eles compreendam que ao final que deve haver outro método além do gerenciamento de crises: negociações e uma política reais – uma política que não esteja isolada das questões de justiça e de democracia, pois quanto mais se utilize esse método na Síria, na Palestina, no Oriente Médio, as coisas irão piorar mito. E eu não conheço nenhum exemplo de sucesso da guerra ao terror. Ela somente gera mais terror e mais – mais sangue, mais violência e mais ditaduras, como os regimes de Assad e assemelhados em nossa região.

 

AMY GOODMAN: E para finalizar, em 30 segundos, você disse que ficou chocado pela resposta da esquerda à Síria. Pode explicar isso?

 

YASSIN AL-HAJ SALEH: Eu sempre pensei que nossa causa é clara: estivemos lutando pela democracia por duas gerações. Pagamos um pesado preço por isso. E eu pensava que as pessoas iriam – iriam estar ao lado de nossa luta, que eles iriam nos compreender e que eles nunca encontrariam desculpas para um regime tão brutal como o de Bashar al-Assad. O problema é que….

 

AMY GOODMAN: Acabamos de perder o contato com Yassin al-Haj Saleh, nossa conexão via satélite com Istambul, mas continuaremos a conversa no futuro. Yassin al-Haj Saleh é um escritor, dissidente, ex-preso político sírio. Seu livro a ser proximamente publicado chama-se “A revolução impossível: compreendendo a tragédia síria”.