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TEORIA

Debate entre Waldo Mermelstein e Mario Maestri sobre o significado da queda de Aleppo

Querido Waldo:

“No nos saquemos la suerte entre gitanos” – diziam os companheiros chilenos. Sabes bem as razões pelas quais camaradas marxistas-revolucionários saúdam a queda de Aleppo como enorme vitória sobre o imperialismo estadunidense e mundial. E eu estou entre eles, com orgulho. Sabes também os motivos pelos quais os mesmos impugnam qualquer apoio, mesmo travestido de esquerda, à ofensiva em curso pela destruição do Estado sírio. Vou retomar, com alguns exemplos, a discussão que iniciamos em correspondência pessoal.

De 1979-1989, o morenismo [e outras correntes que se diziam trotskistas – mandelistas e lambertistas, sobretudo] saudaram eufóricas a agonia da revolução afegã. Diziam que se tratava da expansão-invasão do “imperialismo soviético”. Os mujahedins fundamentalistas foram louvados como revolucionários, mesmo quando degolavam comunistas e nacionalistas afegãos. Jamais houve dúvida do financiamento da contrarrevolução afegã [madrassas] pelo imperialismo, através sobretudo da Arábia Saudita. Após a vitória da contrarrevolução, com o domínio do país pelo fundamentalismo talibã, os morenistas não falaram mais de revolução afegã.

Nos anos 1990, enquanto se consolidava a hecatombe histórica do mundo do trabalho que nos oprime até hoje, os morenistas soltavam fogos festejando a dissolução da URSS e dos países operários do Leste Europeu. Tratava-se do avanço da “Revolução Política”, diziam! A contrarrevolução capitalista se impôs, com terríveis sequelas para centenas de milhões de populares e para o destino da humanidade. E os morenistas seguiram festejando a morte do “stalinismo”, como principal entrave à revolução. Nem vou me referir à exigência de L. Trotsky da defesa incondicional da URSS.

Os morenistas festejaram também a explosão da Iugoslávia, impulsionada pelos Estados Unidos, Alemanha, Itália e Vaticano, sobretudo. Eu escuto ainda hoje com horror os aviões da Otan que sobrevoavam o norte da Itália arrasando a resistência indefesa sérvia. Mais uma vez, abraçados ao imperialismo, os morenistas celebravam a derrota, a prisão e a seguir, a morte, do terrível “ditador” Slobodan Milosevic. Neste ano, Milosevic seria inocentado das acusações pelo próprio tribunal internacional ao serviço do imperialismo que o manteve preso até sua morte.

Vergada, boa parte da Iugoslávia deu origem a “Estados bandidos”, campo de caça do que há de pior no capital mundial – droga, prostituição, etc. A população Iugoslava, que conhecia indiscutível desenvolvimento econômico e social, pagou a terrível conta e, terminada a “festa”, nunca mais ouvimos uma palavra dos morenistas [e mandelistas, lambertistas, etc.] sobre a tal de revolução que viam em curso naquele país.

O imperialismo seguiu em frente em seu processo de destruição dos Estados nacionais que o incomodam na implementação da ordem mundial que delinearam. O caso da Líbia é exemplar e recente. Arrasaram o país, privatizaram o petróleo, tudo para livrar aquele país do também terrível ditador, folga dizer. Para os morenistas, era a revolução em marcha na Líbia! Eles entraram em verdadeiro orgasmo, quando Guedaffi foi humilhado, torturado, estuprado, confundindo-se também nisso aos islamistas fanáticos. O Estado líbio literalmente desapareceu, em uma orgia de crimes contra a população, com destaque para a negro-africana. Quando a nós, seguimos, como nos casos anteriores, perguntando, “où est passée” a tal de revolução morenista! Nem mais uma palavra.

O caso da Síria, o último dos grandes Estados laicos da região, é de certo modo apenas um prosseguimento. A Síria constitui – e sempre constituiu – um entrave geral à imposição plena na região do imperialismo estadunidense e europeu [com destaque para o francês],  sobretudo após o arrasamento do Iraque. Havia que subjugá-la, sempre para depor um terrível ditador!

A “revolução” síria nasceu alimentada, desde o primeiro momento, pelo imperialismo, na esteira da maré fundamentalista que varreu a região. Na linha de frente estiveram e estão os Estados Unidos, a França, a Alemanha, a Arábia Saudita, Israel, a Turquia. E os morenistas deram e estão dando sua pequena mas barulhenta contribuição. Sempre para defender a população do terrível ditador e para fazer avançar os “revolucionários” imaginados! No ano passado, já sem travas, propuseram uma “frente” contra o ditador dos revolucionários com o imperialismo!

Também aqui, ao contrário da Tunísia e do Egito, não temos o mais mínimo traço de forças operárias, democráticas, socialistas, comunistas lutando contra o terrível ditador. Ao contrário, mesmo opostos a ele, essas forças se juntaram na defesa do estraçalhamento do Estado sírio, pois é isso que pretendeu e praticamente se alcançou. Se vencer o fundamentalismo, teremos certamente três ou quatro Sírias, todas ajustadas ao imperialismo.

Tudo isso fez e gritou o morenismo, que, nos últimos tempos, deu um passo mais ao aliar-se ao imperialismo e ao grande capital no golpe que vivemos, sempre, é claro, pela “esquerda”.

Preocupa-me, caro Waldo, nas tuas sempre interessantes e informadas leituras sobre a Síria, que nelas não entre, praticamente para nada, a ação do imperialismo e da contrarrevolução mundial em marcha. É como se ele e ela não existissem. Diversos companheiros já te chamaram a atenção sobre esse fato. Tudo seria obra do terrível ditador – e devemos fazer tudo para derrubá-lo. O que os Estados Unidos e a OTAN exigem, desde o início do conflito. A responsabilidade seria também da Rússia e do Irã. Lembro que uma e outra apoiam a Síria, não por serem anti-imperialistas, mas sobretudo por defesa nacional. Eles sabem que serão a próxima bola da vez!

Te chamei a atenção, há algumas semanas, para uma analogia histórica interessante. O Brasil Imperial e a Argentina liberal atacaram, em 1865, a pequena República do Paraguai dizendo que o faziam para combater o ditador Solano López. E ele era, indiscutivelmente, um ditador. Ganha a guerra, o Império e a Argentina destruíram o Estado então vigente e subjugaram por décadas e décadas e, de certa forma, até hoje, o país! Quem pagou o pato foi o país e a população!

Abraço forte do companheiro Mário Maestri


Companheiro Mario Maestri,

1-   Em primeiro lugar, não creio que o mais apropriado seja fazer aqui um longo balanço histórico da corrente a que pertenço ao longo de várias décadas sobre o tema do imperialismo americano e suas relações com países de alguma forma a ele subordinados. Começar assim o debate sobre um tema tão urgente como Aleppo, pela sua transcendência negativa em toda a região, é uma má ideia, pois os assuntos de história, como você sabe mais do que eu por sua especialização profissional, necessitam de tempo, rigor e demonstração exaustiva para se fazer um debate produtivo. E pode haver coincidências e divergências que não estejam exatamente enquadradas pela trajetória histórica. É por achar demasiado importante o enfoque que o considero deslocado. Pode ser que tenhas razão em algumas questões históricas e que isso não necessariamente se reflita no tema conjuntural. E a memória trai. Por exemplo, sobre o tema afegão, participei diretamente da conferência que debateu o assunto e apesar de nos opormos à invasão soviética, como é tradição no marxismo que não apoia a imposição manu militari de opções revolucionárias (que em nossa opinião não era o caso, mas é outro debate), tomamos muito cuidado em não apoiar a resistência dos mujahedins exatamente por ser totalmente controlada pela CIA; Uma simples consulta à Correspondência Internacional, órgão do Comitê Paritário que tínhamos à época com a corrente trotskista lambertista entre 1979 e 1981, pode esclarecer o tema.

2-   O tema da situação real no Oriente Médio e as diversas mudanças na política do imperialismo americano.
A tentativa de retomar as jazidas de petróleo e de ter um controle mais direto e seguro dos estados nacionais da região foi implementada a fundo pelos americanos com a invasão do Afeganistão e principalmente a do Iraque…e fracassou. Não houve uma derrota ao estilo do Vietnã, nas mãos de uma direção nacionalista, mas o Iraque se transformou em um atoleiro em termos financeiros e militares. Não digo que os americanos não poderiam seguir a guerra, mas que os custos eram incompatíveis com o foco maior na dominação mundial que exercem. Não poderiam manter um esforço tão grande na região sem comprometer os demais pontos do globo. A partir da retirada, reforçaram a tentativa de maior colaboração e divisão de tarefas com os demais imperialismos e com as potências regionais. O ensaio inicial de encampar os levantes nos países do Oriente Médio e do Norte da África foi rapidamente substituído por uma linha muito mais cuidadosa e que evitava como a peste a desestabilização dos regimes, ao estilo da Líbia.

No caso da Síria, a política do imperialismo foi, em primeiro lugar, a de tentar desviar, controlar, e influir sobre o curso das mobilizações. Só uma interpretação maniqueísta pode dizer que o imenso levante popular que o país conheceu foi tudo um engendro americano. O que houve foi uma luta para impor o controle a partir de uma desestabilização real, pelas mãos de centenas de milhares de pessoas mobilizadas. A militarização do conflito ajudou sobremaneira a que os fundamentalistas (incluindo desde correntes “moderadas” ao estilo da Irmandade Muçulmana até jihadistas como Al Nusra) ganhassem influência sobre a população e sobre o movimento de oposição ao regime, sem que deixassem de existir os grupos laicos. Além disso, o atraso determinado por uma ditadura impiedosa que impediu qualquer expressão de vida política (imagino o quão informado você está sobre isso para abundar em detalhes) e a pequena participação organizada dos trabalhadores e da esquerda permitiram o avanço nesse sentido.
Mas a política do imperialismo nunca foi a de apoiar a deposição pura e simples do regime de Assad, mas a de construir uma oposição confiável (“moderada”, na linguagem diplomática) e que pudesse substituir de forma ordenada e não caótica o governo, sem cometer o erro grosseiro do Iraque em que deixaram o vazio com a destruição do regime de Sadam.

Mesmo quando começaram os primeiros massacres contra civis desarmados, em março de 2011, a então secretária de Estado Hillary Clinton declarava, que, ao contrário do seu pai, Hafez al-Assad, considerava Bashar al-Assad um “reformista”, o que descartava a intervenção militar direta.
Os EUA tentaram um acordo entre o regime e as forças de oposição vinculadas aos regimes ocidentais, à Turquia e aos países do Golfo, segundo o modelo “iemenita”, em que a substituição do governo foi feita com a manutenção do regime. Mesmo quando Assad demonstrou que não cederia e escalou dramaticamente a repressão, o chamado de Obama à deposição de Assad não propunha a mudança de regime. A partir de setembro de 2015, com a massiva intervenção militar direta russa, os EUA deixaram ainda mais claro que não propunham uma mudança de regime. E no último período, a política americana procura algum tipo de compromisso com Moscou na região, ainda que mantenham a política ofensiva em termos globais contra os russos. Foi a política seguida desde então por Obama e mais ainda a política abertamente enunciada por Trump para a região. Não está claro, no entanto, qual será sua política de conjunto em relação à Rússia, se manterá a ofensiva da última década e meia ou procurará algum tipo de acordo para poder enfrentar a China. É notável que não tenhas sequer mencionado as intenções anunciadas por Trump para o Oriente Médio. Mesmo que não se concretizem tal e qual, sinalizam um entendimento que, justiça seja feita, Obama já havia iniciado. A comemoração dos círculos ligados ao candidato de direita francesa, Fillon, com a queda de Aleppo, é outro alerta vermelho. Há um realinhamento na região, em direção a um acordo para manter o regime, como se vê na nova posição da Turquia, que só se interessa mesmo é em evitar o surgimento de qualquer estado autônomo curdo. Negociam com a Rússia algum tipo de transição com Assad. O Egito de Sisi mudou totalmente de posição apoiando abertamente Assad, entrando em choque com os sauditas. E para quem compreende que a guerra mantém uma continuidade com a política, a negativa americana em entregar armas para a defesa contra a força aérea de Assad e de Putin, coisa muito eficaz e relativamente simples de ser feita do ponto de vista militar nos dias de hoje, facilitou que Assad se mantivesse no poder. Assim, a realidade é muito mais complexa e menos linear do que você apresenta. E mesmo do ponto de vista geopolítico, falta uma análise da região que mantenha contato com a teimosa mensagem enviada pelos fatos. Que recoloque na sua devida dimensão um levante popular que sacudiu toda a região; que explique suas causas materiais, objetivas e que se debruce em suas tremendas deficiências sociais e políticas, na falta de uma participação da classe trabalhadora organizada e de correntes de esquerda fortes e combativas, o que excede este debate, é claro, mas que é urgentemente necessário.

3-   Aqui, evidentemente, há um aspecto teórico central em discussão. A análise da realidade sob a ótica marxista necessita ser encarada a partir da relação entre as classes sociais E sua conexão com a hierarquia e as disputas no sistema de estados. Toda tentativa de análise baseada em somente um dos aspectos levará a equívocos, por mais que o centro seja sempre a luta entre as classes fundamentais em determinado país. Em minha opinião, sua análise pende perigosamente para a unilateralidade. Falta o mais importante, uma análise concreta, mesmo que rápida, sobre o que é o regime de Assad: o giro neoliberal que já havia sido dado, privatizando empresas públicas, cortando subsídios e o domínio dos clãs ligados à sua família (seu primo, Rami Makhlouf, é a pessoa mais rica do país) , à burguesia alauíta e à alta burguesia sunita; a construção de um aparelho de segurança ligado aos alauítas e à sua família, constituindo uma verdadeira guarda pretoriana do regime, controlada com mão de ferro pela dinastia e que não se dividiu ao massacrar o povo, como ocorreu com outras poderosas forças armadas na região. Além disso, houve uma importante aproximação com o imperialismo. Não por acaso, a dinastia dos Assad apoiou as duas guerras do Iraque, apoiou a guerra reacionária do Iraque contra o Irã nos anos 80, aceitou prisioneiros da CIA em seu território depois do 11/9, expulsou o dirigente do PKK curdo, Ocalan do país para ser preso na Turquia, e nada tinha nem tem de anti-imperialista.

Capítulo à parte merece a política do regime com os palestinos. A brutal repressão em Yarmouk só foi saudada pelo Comando Geral de Ahmed Jibril, ligado ao regime e que depois teve que abandonar a cidade. Os palestinos já conheciam a mão pesada do assadismo, como quando impôs o controle do Líbano e evitou a vitória da esquerda na guerra civil dos anos 70-80. Tel al-Zaatar, o campo palestino massacrado em 1976 pelas tropas sírias e pela falange maronita é um símbolo que você conhece e que qualquer palestino reconhece.

Outra coisa é que não seja o regime dos sonhos dos americanos, mas fantasiar a suposta “resistência síria” ao imperialismo diminui a tua capacidade de análise, com o objetivo de comprovar uma tese sem nenhuma base na realidade. Evidentemente, a disputa do imperialismo americano e europeu com a Rússia tornou o tema sírio uma questão central para Moscou, mas para manter a sua força enquanto potência no mínimo regional.

4-   Este erro de análise poderia ser facilmente sanável com uma discussão concreta, mas há um erro político mais grave que eu denominaria de “campismo tardio”. Essa linha de considerar o mundo essencialmente em termos geopolíticos já seria equivocada nos tempos da Guerra Fria. Naquele tempo, havia estados pós-capitalistas ou não-capitalistas que eram atacados pelo imperialismo e a posição de estar do lado desses últimos estados contra as agressões imperialistas era um precioso legado dos últimos escritos de Trotsky. Sem fazer um balanço mais exaustivo, alguns setores das correntes que reivindicavam a IV Internacional foram longe demais e acabaram capitulando àqueles regimes. Tiveram dificuldades em apoiar os levantes dos operários de Berlim em 53, mas isso foi sendo corrigido de certa forma. Se transposta àquelas situações, o que você coloca poria em xeque o apoio às revoluções anti-burocráticas na Tchecoslováquia em 68, na Polônia em 1966, 1970, 1976 e 1980 e inclusive a heroica luta da Praça da Paz Celestial em 1989, pois suas direções tendiam claramente a uma linha que levava à restauração do capitalismo. Por outro lado, e sistematicamente, as correntes trotskistas latino-americanas se negaram a se diferenciar da direção castrista em seu apoio à invasão da Tchecoslováquia, por exemplo.

Agora, quando o caso são regimes que giraram ao apoio ao imperialismo, à reconversão neoliberal, isso é de um anacronismo total. Khadafi, Assad, todos giraram em direção a políticas neoliberais, não na medida exigida pelo imperialismo, mas sem a fraseologia e as medidas nacionalistas dos anos 60 e 70. Basta ver as boas relações que Khadafi começava a ter com o imperialismo e como inclusive Assad começa a ter um tratamento mais respeitoso. Fiquei impressionado com a entrevista que a RTP portuguesa fez com ele, aproveitando-se da oportunidade da eleição de Guterres como Secretário-Geral da ONU.

5-   Mas o mais grave nesse campismo reciclado é que, mesmo que fosse correta a sua análise, a linha apresentada está errada. Não poderia deixar de criticar duramente o que está sendo feito em Aleppo. Quando falamos de um tema sobre o qual a esquerda tem pouca ou nenhuma influência como é o caso interno da Síria, a primeira coisa é pensarmos que mensagem queremos deixar para a vanguarda e os trabalhadores daquele país. Se lá estivéssemos estaríamos nos alistando para bombardear a cidade de Aleppo? Foi isso o que mais me escandalizou em sua posição. Claro que não se pode dar o mais mínimo apoio político aos setores fundamentalistas que predominam entre os rebeldes. Mas não é verdade que sejam a única expressão de oposição ao governo, mesmo tanto tempo depois de uma guerra civil mortífera. Em condições extremas de repressão, depois de cinco anos de guerra, ainda tiveram forças de se manifestar contra o regime e o fundamentalismo em todo o país em março deste ano, durante uma breve pausa na guerra civil.

E, o mais importante: é verdade que um regime anti-imperialista teria nosso apoio se atuasse dessa forma? Mesmo que a causa fosse justa, que houvesse um real enfrentamento com o imperialismo, nunca se poderia apoiar um massacre como este.

Nem me refiro aos argumentos de outras pessoas sobre o tema e que dizem que os que falam contra o massacre de Aleppo não se referem aos outros massacres na região. Deparei-me com essa linha de argumentação muitas vezes na vida, ultimamente com os sionistas que reclamam que falamos das barbáries cometidas por Israel sem tocar dos demais massacres no Oriente Médio.

Mas estamos falando essencialmente para países ocidentais, em que há algum grau importante de democracia, a maior parte conquistada a duras penas e colocada cada vez mais em questão pela ofensiva do capital. É razoável que saudemos o bombardeio aéreo de populações civis? Essa é a mensagem que queremos passar? Israel perdeu a batalha pelos corações e mentes quando dos massacres durante a guerra do Líbano em 2006 e em Gaza em 2008, só piorando depois. A esquerda não pode se confundir com esse tipo de barbárie. Mesmo que fossem anti-imperialistas. Mas seriam métodos burgueses, assassinos, que não elevam a auto-organização, a autoconfiança e a solidariedade dos trabalhadores e do povo. Agora, defender o massacre como o de Aleppo em nome de um regime decrépito, burguês até a alma, neoliberal e assassino? A comparação com Solano Lopez é claramente anacrônica. Assad não resiste ao imperialismo, nem adota medidas progressivas, no marco de seu caráter ditatorial. É realmente demonstrar uma desesperança muito grande com a causa dos trabalhadores do mundo depositar as esperanças em “vitórias” como as em Aleppo. Pense no efeito que isso terá no Oriente Médio e na Síria. Aumentará a força dos trabalhadores e dos setores oprimidos ou reforçará os regimes mais despóticos? Esse é o eixo do problema e que lamentavelmente você ignora ou dá uma resposta oposta ao que seria condizente com a sua condição de marxista.

Waldo Mermelstein

Foto: KARAM AL-MASRI/AFP