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  • Ainda a propósito das eleições nos EUA

    Por: MAS, de Portugal

    É, portanto, da generalizada crise sistêmica do capitalismo, do desespero das velhas políticas, da consequente degradação das condições sociais e econômicas e da falta de uma alternativa anti-sistema à esquerda, que o capitalismo dá origem ao regresso de velhas receitas, as saídas pela extrema-direita.

    Após a vitória de Trump, nos EUA, começa a clarificar-se a composição do seu governo e quais serão as políticas que está disposto a pôr em prática.

    Sobre o seu governo, terão sido já nomeados os nomes para dois dos principais cargos: Reince Priebus, como chefe de gabinete da Casa Branca, e Steve Bannon, como braço-direito de Trump, que será o homem que irá delinear a estratégia geral da presidência de Trump. Dois dos nomes que estiveram na direcção da sua campanha eleitoral.

    Apesar da campanha de Trump ter personificado a opção contra o establishment, contra o “sistema”, uma das primeiras nomeações é a de Reince Priebus, o presidente do Comité Nacional Republicano. Ou seja, uma das figuras de proa do próprio “sistema”.

    Steve Bannon, por sua vez, apesar da sua retórica anti-elites, é precisamente um dos elementos dessas elites que nos conduziram à crise em que nos encontramos. Foi, durante anos, um dos sócios-gestores da Goldman Sachs, tendo depois chegado à presidência de uma empresa que tem como ferramenta de propaganda um site de extrema-direita, com forte simpatia por Trump ou Marine LePen e com posições políticas que defendem o racismo, a xenofobia, a “supremacia branca”, a violência sobre mulheres e a discriminação das LGBTs. Tanto assim é que o grupo fascista Ku Klux Klan já veio referir que a escolha de Steve Bannon seria “excelente”.

    Estas nomeações e as primeiras declarações de Trump evidenciam a intenção de avançar com boa parte das propostas feitas durante a campanha. Estamos a falar do levantamento de muros nas fronteiras; do endurecimento das leis de emigração; da prisão e expulsão de milhões de imigrantes e refugiados; da nomeação de juízes para o Supremo Tribunal com concepções profundamente reacionárias (anti-aborto e contra o casamento homossexual); da diminuição de impostos para as empresas; da desregulação sobre os mercados financeiros; aumentos dos gastos públicos com o exército e armamento…

    Por outras palavras, vê-se aqui uma forte tendência à polarização e desigualdade sociais, à hostilidade racial, ao recuo das conquistas democráticas, a um conjunto de ideias conservadoras, retrógradas e reacionárias. Vê-se aqui uma tendência ao autoritarismo, ao nacionalismo e até algumas características do fascismo das décadas de 1920 e 1930.

    Aqui chegados e como já foi explorado num outro texto do nosso site, devemos ter claro que o Governo Trump é uma consequência direta da crise do sistema econômico e político em que vivemos, o capitalismo. É a consequência das políticas seguidas pelos partidos que nos têm governado. É a consequência de um sistema econômico que, para defender os interesses das elites, gera gigantescas desigualdades, desemprego, empobrecimento e descontentamento a quem trabalha.

    No entanto, deixamos bem claro que esta não é uma consequência inevitável, nem é um horizonte prévia e historicamente determinado, perante o qual devamos prostrar-nos. É necessário construir alternativas políticas, à esquerda, intimamente comprometidas com a modificação profunda do sistema capitalista.

    O MAS afirma-se como uma dessas forças políticas. Mas já lá iremos.

    A resposta dos velhos partidos socialistas e sociais-democratas
    A vitória de Trump tem gerado uma onda de indignação, confusão e instabilidade social, econômica e política. Ainda estaremos para ver a sua profundidade, mas existem já alguns posicionamentos que pretendemos aqui analisar.

    São eles os do ex-Presidente da República, Jorge Sampaio, e os do atual Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo PS, Augusto Santos Silva.

    Jorge Sampaio presenteou-nos com uma extensa e vaga caracterização da situação política internacional onde aponta que as características da crise se mantêm. Que a UE, tendo acumulado uma série de erros, minou a confiança no seu projeto, o qual corre a passos largos para o abismo.

    Como propostas, Jorge Sampaio, sob o mote de “quebrar tabus”, propõem nada mais que “solidificar a União entre os 19 da Zona Euro […], através de um compromisso claramente político no sentido de reforçar os mecanismos económicos e financeiros da zona euro”. Ou seja, propõem-nos solidificar o Euro. Mas vai mais longe, e defende que é necessário avançar com a união bancária e com a união orçamental.

    Por seu lado, Santos Silva, no decurso daquela análise, vem sublinhar que aquilo que precisamos é a “valorização das alternativas ao centro”.

    Resumindo, a análise de Jorge Sampaio e Santos Silva é insuficiente para chegarmos às conclusões necessárias.

    As bases e características da UE estão elas próprias na origem da crise em que estamos mergulhados. A livre circulação de capitais, ou por outras palavras, a desregulação dos mercados que desembocaram em gigantescos buracos financeiros; as limitações à produção nos sectores primários e secundários; a união monetária; a união orçamental; a profunda austeridade sobre as economias periféricas da UE; a desastrosa política para os refugiados, que veio pôr em causa a livre circulação de pessoas no espaço europeu… Tudo isto são exemplos das opções políticas conscientes das instituições europeias e dos vários governos nacionais para proteger os banqueiros em detrimento dos povos, para proteger os interesses dos “credores” e dos ”mercados” em detrimento dos orçamentos públicos dos Estados; para proteger as grandes empresas em detrimento dos pequenos produtores; para proteger os interesses da Alemanha em detrimento dos países mais periféricos, para proteger os interesses privados em detrimento do interesse público; para proteger as elites em detrimento de quem trabalha.

    Estas são precisamente as opções políticas que os partidos socialistas, incluindo o PS português, do qual Jorge Sampaio e Santos Silva fazem historicamente parte, e os partidos social-democratas têm feito aplicar e que estão na origem do empobrecimento, do desemprego, da polarização social, dos exorbitantes défices públicos e gigantescas dívidas públicas. Estas são as políticas que determinaram a nossa perda de soberania.

    Posto isto, a análise de Jorge Sampaio e Santos Silva para além de (i) não trazer qualquer alternativa política nem (ii) de quebrar qualquer tabu, vem (iii) concordar com tudo aquilo que até aqui tem sido feito, e (iv) sugerir que continuemos com todas as políticas europeias que nos fizeram chegar até aqui. Isto é precisamente o que a UE, BCE e o governo alemão têm repetido até à exaustão nos últimos anos: continuemos, pois “não há alternativa”. Opção que tem conduzido a um profundo empobrecimento e descontentamento das classes trabalhadoras.

    Até aqui nada de novo. No entanto, Jorge Sampaio e Santos Silva, mesmo sem o desejarem, colocam a nu que não é só o projeto da UE que está falido, estão também politica e ideologicamente falidos os partidos que lhe estão na origem – os partidos socialistas e social-democratas.

    Estes partidos transformaram-se, ao longo do último século, em gestores e parte fundamental do sistema, quer seja em benefício próprio ou das elites com as quais foram intensificando relações. Com a entrada do sistema em crise, esta alastrou-se aos seus gestores e às suas velhas receitas, ficando estes “sem alternativas”, pelo que só lhes resta repetir, repetir, repetir que “não há alternativa”.

    É, portanto, da generalizada crise sistêmica do capitalismo, do desespero das velhas políticas, da consequente degradação das condições sociais e econômicas e da falta de uma alternativa anti-sistema à esquerda, que o capitalismo dá origem ao regresso de velhas receitas, as saídas pela extrema-direita.

    Trump ou Marine Le Pen são a expressão mais concreta desse fenômeno. Ainda não se colocam abertamente como Mussolini ou Hitler mas se não se construírem alternativas anti-sistêmicas à esquerda, capazes de mobilizar as classes mais pobres, o endurecimento dos regimes políticos, no sentido mais ditatorial e autoritário, é muito provável. E o seu alastramento é uma possibilidade real.

    Uma nova era dos extremos? Uma alternativa anti-sistêmica à esquerda precisa-se!

    O actual Governo PS, com o apoio de BE e PCP, é uma solução de recurso à crise sistêmica. O PS deixou de conseguir governar sozinho e, portanto, acabou por munir-se do BE e do PCP para manter a sua gestão do sistema. Afinal a austeridade mantém-se, embora de forma indireta, e os nossos problemas estruturais continuam a aprofundar-se: euro, banca, dívida, soberania, alto desemprego, precariedade, etc.

    Não trazendo uma solução ao sistema, este Governo PS, com o apoio de BE e PCP, poderá muito bem abrir portas a fenômenos de extrema-direita. Olhemos para o Governo Syriza, na Grécia, que não tem feito mais nada que não seja aplicar austeridade, aprofundando os seus problemas estruturais, e acabar por tornar possível o novo advento da direita e da extrema-direita.

    Perante condições econômicas e sociais intoleráveis, a História não para e parece voltar a colocar-nos perante um momento com a seguinte dicotomia: ou (i) revolução social e alteração do sistema ou (ii) regresso ao fascismo.

    É necessária uma alternativa àquilo que tem sido feito até agora pelos velhos partidos socialistas, social-democratas ou reformistas de esquerda. É preciso alterar a política que nos trouxe até a esta profunda crise.

    Uma alternativa política anti-sistêmica, composta pelos sectores mais empobrecidos da sociedade, com um programa corajoso para questionar o Euro e a UE; suspender o sufocante pagamento da dívida pública; capaz de estabelecer acordos econômicos e políticos com os restantes países periféricos da Europa; responsabilizar e confiscar banqueiros pela especulação e corrupção cometidas; nacionalizar a banca em torno de um plano de investimento que nos permita fortalecer o nosso sistema produtivo, resolver o desemprego e precariedade e retomar a nossa soberania.

    Uma alternativa anti-sistêmica à esquerda capaz de assegurar os direitos democráticos, com a coragem de combater o bolorento racismo, xenofobia, misoginia, LGBTfobia e todos os tipos de discriminação e opressão.

    Esta é a alternativa política a que o MAS se propõe.

  • Movimento SOS Emprego realiza ato pela retomada das obras e pagamento dos direitos, na porta da sede da Petrobras, no Rio

    Por: Natália Russo, do Rio de Janeiro, RJ

    Na manhã desta quarta-feira (16), trabalhadores demitidos das obras da Petrobras realizaram um ato no Edifício Senado, na Av. Henrique Valadares, Centro do Rio, atual sede da empresa, onde fica a diretoria e a Presidência. O Sindipetro-RJ e a Frente Internacionalista dos Sem Teto (Fist) estiveram presentes apoiando a manifestação.

    A reivindicação principal é o pagamento dos direitos trabalhistas por parte da empresa Alusa e outras terceirizadas que há mais de um ano enrolam o pagamento, levando muitos trabalhadores à fome e desespero.

    Outro tema é o questionamento aos desinvestimentos e privatizações que estão destruindo os empregos no Brasil. Muitas obras estão sendo realizadas na China. Os estaleiros já demitiram milhares. O Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, Comperj, em Itaboraí, onde trabalharam, não tem previsão de retornar normal funcionamento. Na Reduc, embora esteja caindo aos pedaços, não há contratação massiva para serviço de manutenção e obras de elétrica, mecânica e solda. No início do ano, um trabalhador caiu dentro do tanque que cedeu. A política da empresa de propaganda, de regras de ouro e acidentes zero, não condiz com essa situação.

    É necessário uma retomada das obras com políticas sérias de educação e infraestrutura por parte do Estado. Isso só poderá ser alcançado com medidas que, ao invés de cobrar a fatura da crise aos pobres e trabalhadores, cobre dos 1% mais ricos, como os banqueiros. As decisões e políticas erradas não foram culpa dos mais pobres e não são eles que devem pagar essa conta.

    Assista à entrevista com os trabalhadores, direto da manifestação

     

     

  • Lutar contra as ‘novas’ privatizações de Temer e Meirelles

    Por: André Freire, colunista do Esquerda Online

    É parte central da política econômica perversa do governo de Temer e Meirelles impulsionar uma nova onda de privatizações e entrega do patrimônio público, ao lado dos cortes e congelamento dos investimentos sociais e da retirada de direitos dos trabalhadores e aposentados.

    Infelizmente, o processo de privatizações não foi interrompido durante os governos do PT, tanto do Lula como da Dilma. Ao contrário, seguiu avançando, especialmente através da política das Parcerias Público Privadas (PPPs) e dos leilões das reservas de petróleo via sistema de partilha.

    Mas, é inegável também que o governo ilegítimo de Temer, fruto da manobra reacionária do Impeachment, busca intensificar a política de privatizações para entregar a ‘preço de banana’ o pouco que sobrou de nossa economia. O governo vem tomando várias iniciativas para impor essa nova agenda privatista.

    A principal delas foi a abertura às multinacionais da exploração do pré-sal. A Câmara dos Deputados acaba de concluir a aprovação do Projeto de Lei 4.567/16, que já passou pelo Senado e, agora, só aguarda sanção presidencial.
    Esse projeto, que foi negociado no Senado ainda no período em que Dilma era presidenta e contou com apoio do governo petista, muda as regras de exploração do petróleo do pré-sal, permitindo que empresas privadas, inclusive transnacionais, atuem ao lado da Petrobrás na exploração dessa que, sem dúvida, é uma de nossas maiores riquezas naturais.

    As mudanças nas regras de exploração do pré-sal foram umas das principais iniciativas do senador tucano José Serra (SP), agora parte do Ministério de Temer (PMDB). O PSDB já foi o responsável pela quebra do monopólio estatal da exploração do petróleo, ainda no governo FHC, e agora quer terminar o serviço de rapina, entregando o pré-sal para as grandes empresas transnacionais do ramo.

    Outra ofensiva do governo é avançar na privatização das empresas de água e saneamento básico, através do Programa de Parceria de Investimentos (PPI). Nesse mês, o BNDES já anunciou um programa para financiar empresas privadas que queiram comprar as empresas estatais do setor. Ao todo, 18 estados já aderiram, entre eles a Bahia, que é administrado pelo PT. Estão em risco de serem privatizadas a Cedae (no Rio de Janeiro), a Caern (no Rio Grande do Norte), Embasa (na Bahia), Cosanpa (no Pará), entre outras importantes empresas estatais estaduais.

    Ou seja, em meio à crise econômica, o confisco e os atrasos nos salários de servidores públicos em vários estados e municípios, a PEC 55 que quer congelar os investimentos sociais por 20 anos, vão utilizar dinheiro público, via financiamento do BNDES, para ajudar empresas privadas a comprar essas estatais. E todos e todas já sabem muito quem serão os maiores prejudicados, a maioria da população pobre e negra das periferias das grandes cidades, que continuarão com um serviço de péssima qualidade, mas agora pagando caro por ele.

    A ‘farra’ com o dinheiro público é tão grande que no último dia 14 de novembro a direção do BNDES aprovou também um financiamento de R$ 474,7 milhões a juros baixos para a ‘modernização’ dos serviços da Light, empresa já privatizada há muitos anos, responsável pela distribuição de energia de 31 municípios do Estado do Rio de Janeiro.

    Mas, a sanha privatista do Governo Federal não para por aí. Para ter mais ‘liberdades’ para realizar novos leilões de aeroportos, ferrovias e rodovias, o presidente Temer já autorizou sua liderança de governo no Congresso Nacional, para flexibilizar ainda mais as regras que permitem essas concessões para empresas privadas.

    A principal proposta é a criação de um comitê que facilite a entrega do patrimônio público. Neste comitê fariam parte ministros do Governo Temer, os presidentes da Câmara e do Senado e membros das agências reguladoras. Seus objetivos seriam flexibilizar as regras de concessão de licenças ambientais e encaminhar projetos de lei que facilitem as privatizações, eliminando exigências legais. Ou seja, um órgão formado por agentes públicos, mas que estaria totalmente a serviço de facilitar os negócios de grandes empresas privadas. Um escândalo!

    Diante de todos esses ataques à soberania nacional e ao patrimônio público, os movimentos sociais combativos, as centrais sindicais e as organizações políticas da esquerda socialista devem dar ainda mais centralidade à luta contra essa nova onda de privatizações.

    O Dia Nacional de Lutas e Greves marcado para 25 de novembro e a importante manifestação nacional em Brasília no dia 29 de novembro devem incorporar com importância a luta contra as privatizações, ao lado de outras bandeiras fundamentais como a derrota da PEC 55, da Medida Provisória que ataca o Ensino Médio e da Reforma da Previdência, que está para ser enviada ao Congresso Nacional ainda este ano.

    Essa luta também deve se estender aos estados e municípios, especialmente aqueles onde governos querem privatizar as empresas de água e saneamento. Vamos à luta para buscar derrotar mais estes ataques do governo Temer, de governos estaduais e da maioria corrupta e entreguista do Congresso Nacional.

    Foto: Lula Marques/ AGPT

  • Uber: entre o século 21 e o século 19

    Por: Miguel de Paula*, do ABC paulista, SP

    O debate sobre mobilidade urbana e a Uber tem sido um dos temas recorrentes em várias cidades pelo mundo, seja pela inovação, seja pela disputa com os taxistas. O objetivo deste artigo é debater como os socialistas devem se posicionar nesse debate. É fundamental que saibam responder aos fenômenos da atualidade e a Uber tem tudo a ver com mobilidade urbana e o direito às cidades, discussões centrais para os socialistas. Não tenho a pretensão de dar uma resposta acabada neste artigo, mas apenas de iniciar um debate.

    A chegada do transporte ao século 21
    É inegável que a Uber trouxe uma ideia original, que aliada à tecnologia do século 21 trouxe um novo conceito para a mobilidade urbana. Sua chegada, na prática democratizou o transporte nas grandes cidades, daí o apoio quase unânime dos trabalhadores e da população em geral.

    A Uer possibilitou que um amplo setor da classe trabalhadora que antes não tinha condições de utilizar táxi, passasse a utilizar esse meio de transporte. Muitos que nunca utilizavam táxis, ou o faziam raramente, passaram a ter essa possibilidade ‘na palma da mão’, a um preço muito mais baixo.

    No Brasil e em diversas cidades do mundo, o transporte, incluindo táxis, ônibus, vans, entre outras formas, é controlado por máfias, que são odiadas pelos trabalhadores. A Uber está quebrando a máfia dos taxistas, outro fator que colaborou no amplo apoio popular.

    No entanto, para os socialistas não basta ficar na análise superficial dos fatos, nem muito menos se deixar levar pela ‘opinião pública’ em geral. É necessária uma análise mais profunda.

    Os empresários, a mídia, os liberais aplaudem a Uber, pois oferece um serviço melhor que os táxis e com um preço menor. Mais que isso, a UBER desregulou o mercado e trouxe a tão aclamada ‘livre concorrência’. Aliás, já há outros aplicativos semelhantes, como 99, cabify, willgo, entre outros.

    Para os trabalhadores, só o fato desses setores aplaudirem a Uber já é motivo de desconfiança.

    Crise econômica e mobilidade urbana
    As grandes cidades em todo o mundo vivem um verdadeiro caos na mobilidade urbana, particularmente nos países “atrasados”, mas com a crise mundial e corte de gastos públicos em todo o mundo, esse caos também está presente em muitas capitais de países imperialistas.

    A crise econômica também tem provocado milhões de demissões por toda a parte, o que gera um exército de desempregados obrigados a trabalhar sob qualquer condição para garantir o sustento de suas famílias.
    A Uber se aproveitou exatamente dessas duas “frestas”, seus criadores têm o mérito de as terem identificado bem e apresentado um negócio que se encaixe nelas. Mas, a Uber é muito mais que isso.

    O que é a Uber?
    Por trás do apoio popular e dos preços baixos se esconde a verdadeira UBER. Uma empresa capitalista que recebeu bilhões de investimento de grandes fundos como o Goldman e Sachs, de gigantes de tecnologia como Google e Microsoft e segue recebendo bilhões em investimentos.
    O objetivo da UBER é obter a maior taxa de lucro possível para distribuir aos seus acionistas. Mas, estranhamente todas as notícias dão conta que a UBER vem tendo prejuízo nos últimos anos, a mais recente de um prejuízo de mais de U$ 1 BILHÃO só no primeiro semestre de 2016.
    Mais estranho ainda é que a UBER segue recebendo bilhões em investimentos. Por que então a grande Burguesia Mundial segue investindo em uma empresa que vem tendo bilhões de prejuízo?
    A explicação está na estratégia de negócios da UBER, selvagem e predatória (não que eu acredite em capitalismo humanitário!). Se aproveitando da ausência de qualquer lei ou regulamentação na maioria dos países, ou mesmo desrespeitando as leis onde elas existem.
    Adota práticas como a redução da artificial das tarifas para “quebrar” os aplicativos concorrentes e os taxistas e uma longa lista de desrespeito de leis, normas, e até de práticas condenadas pela própria burguesia mundial que “regula o mercado” através da OMC, a UBER atua como qualquer outra empresa imperialista, apesar de sua aparência “amigável”.

    “Concorrência” e “livre mercado”?
    A ideia de um mercado desregulado e com livre concorrência, qualquer que seja, é uma grande mentira utilizada pelos capitalistas para enganar os trabalhadores. O que ocorre é exatamente o oposto. A economia mundial está cada vez mais concentrada em um número menor de capitalistas, basta investigar qualquer setor da economia para verificar isso. Ou mesmo os dados mais recentes que comprovam a maior concentração da riqueza em todo o mundo.

    No caso da Uber, ela busca construir um monopólio mundial. Os concorrentes são, em geral, marginais, e onde tentam fazer frente a ela são suprimidos, ou minimizados pelas práticas desta. Em um mercado novo é possível que haja concorrência no curto prazo, algo cada vez menos provável pelo monopólio que a Uber já está consolidando na maior parte do mundo. Se em algum país outro aplicativo se destacar mais que a Uber, provavelmente será esmagado ou comprado por ela.

    É essa estratégia monopolista que faz os grandes capitalistas investirem altos volumes na Uber, pela expectativa de altos lucros no futuro, após deter um monopólio mundial. Não à toa o preço de mercado da Uber já está acima da GM, Ford e outras gigantes.

    Isso significa que mesmo os aparentes “benefícios” com a chegada da Uber em diversas cidades, logo serão suprimidos em prol dos lucros. Ou alguém tem dúvidas do que possa acontecer logo após a Uber derrotar de vez os táxis e demais concorrentes? Já há o exemplo do preço dinâmico e no México já há denúncias de que após eliminar os táxis, a Uber elevou os preços abusivamente.

    O retorno ao século 19
    Para além da estratégia monopolista, há outro elemento fundamental que garante um futuro promissor de realização de lucros para os proprietários da Uber: os seus trabalhadores, os motoristas. Pouco importa para nossa análise as declarações da empresa de que os motoristas não são funcionários, ou se a própria legislação trabalhista entende que são, ou não.

    Os motoristas da Uber, para conseguir sustentar suas famílias precisam trabalhar 14h, 16h, ou até mesmo 18h por dia, sete dias por semana, sem férias, 13°, FGTS, horas extras, entre outros benefícios. Mesmo aqueles que o fazem para complementar a renda de outro trabalho, recebem muito menos quando estão trabalhando para a Uber, ainda mais se compararmos com “horas-extras” caso realizassem essa jornada no seu trabalho principal.

    Imaginem se qualquer empresa com 50 mil funcionários tivesse essa prática? Seria um verdadeiro escândalo! Certamente haveria um rechaço generalizado dos trabalhadores. Nem mesmo o McDonalds, conhecido por superexplorar seus trabalhadores, têm essa jornada de trabalho sem direitos.

    A Uber ilude seus motoristas, maquiando seus ganhos e dizendo que são donos do próprio negócio por serem os proprietários dos veículos. Na verdade, a Uber se livra do que seria seu principal custo, o veículo. Há diversos gastos implícitos que os motoristas não enxergam facilmente, como custo de manutenção do veículo, depreciação acelerada por conta do uso intenso, custo de eventuais acidentes, multas, entre outros. Os custos do veículo são altos, e quando colocados na ponta do lápis reduzem os ganhos dos motoristas a valores incrivelmente baixos, ainda mais comparados com a jornada de trabalho.

    É justamente aí que reside outro grande potencial de lucros da Uber, na superexploração de seus trabalhadores. E a tendencia é piorar ainda mais. Em diversos países tem elevado o percentual que desconta dos motoristas, chegando a 30% do valor. Retrocede as relações de trabalho para padrões praticados no século 19, retirando de uma só vez todos os direitos com jornadas de trabalho extenuantes. Portanto, é um crime que os socialistas se calem sobre a Uber, ou a defendam sob qualquer aspecto.

    E eu com isso?
    Alguns trabalhadores podem pensar: trabalha para a Uber quem quer, isso não tem nada a ver comigo. Nada mais falso. Sempre que há um setor superexplorado da classe, este serve de pressão para a redução de salários e direitos do conjunto da classe. Como já vem acontecendo com as categorias que têm mais direitos, que vêm perdendo os direitos conquistados. Quem nunca ouviu a máxima “Se você está insatisfeito com este trabalho, tem outros lá fora que aceitariam”?

    Significa que o ganho que um setor da classe tem hoje em mobilidade urbana lhe será cobrado em dobro em redução de salários e direitos, isso se é que já não está sendo cobrado. Por isso, a ideia de que a classe trabalhadora possa, de fato, beneficiar-se dos avanços tecnológicos e da ‘concorrência’ capitalista não passa de uma grande mentira. Esse mecanismo é uma das principais fortalezas do capitalismo para embriagar a classe trabalhadora.

    Em defesa dos táxis?
    Fazer uma análise correta da Uber não significa que os socialistas devem apoiar os táxis, ou fechar os olhos para os avanços tecnológicos. Os táxis sempre foram comandados por máfias nas grandes cidades, sendo de poucos donos (às vezes camuflados como cooperativas), que também superexploram outros trabalhadores cobrando diárias altíssimas. Aliás, nada impede que com o tempo aconteça o mesmo com a Uber, já que é permitido ao motorista utilizar carros de terceiros, quem garante que em algum tempo não terão poucos com uma frota de carros que cobram diárias de motoristas? Essa prática já vem ocorrendo, apesar de ainda não ser generalizada.

    Portanto, não se trata de ignorar que a tecnologia pode contribuir para democratizar as cidades, facilitar o transporte. Não podemos simplesmente defender “Fim da Uber” e o retorno dos táxis retornando, como era antes.

    Construir um Programa para a Uber e para a mobilidade urbana
    É essencial que os socialistas avancem no debate sobre o programa que devem adotar em relação à Uber, que deve estar associado a um programa para a mobilidade urbana. Vou apenas apontar alguns itens para abrir a discussão, que certamente vão conter erros e imprecisões.

    Devemos partir do programa geral para a mobilidade urbana, focado no transporte público de massas, em especial sobre trilhos estatal, passe livre, tarifa social. Mas, esse debate já está mais consolidado entre os socialistas, por isso não vamos aprofundá-lo neste artigo, nosso objetivo aqui é outro. É importante deixar claro que consideramos que uma política para o transporte tipo Uber é auxiliar a primeira. Consideramos que a política central para mobilidade urbana deve ser voltada para o transporte público de massa.

    Para a UBER, em primeiro lugar temos que exigir garantia do vínculo empregatício de todos os seus motoristas, garantindo pagamento mínimo fixo, jornada de trabalho e todos os direitos trabalhistas. Essa reivindicação não deve ser confundida com uma jornada de trabalho fixa, pois é plenamente possível garantir todos os direitos trabalhistas com jornada de trabalho diferente das 44 horas semanais, como já ocorre em alguns setores inclusive.

    Mas, não podemos parar por aí. Temos que que exigir que o estado tenha política para este novo tipo de mobilidade urbana. As Prefeituras poderiam criar e incentivar plataformas gratuitas de caronas, conectando pessoas que têm o mesmo destino, sem custos, reduzindo o número de carros nas ruas.

    Poderiam ser criados aplicativos similares ao da Uber sem a cobrança das altas taxas dos motoristas, garantindo os direitos aos trabalhadores. Em todas as regulamentações que estão sendo aprovadas nos municípios e também no debate que será aberto no Congresso Nacional, garantir que seja exigido o pagamento de todos os direitos para poder operar no Brasil. Algo que é solenemente ignorado por todos.

    Tudo isso, com a garantia que o estado comece a operar também nessa modalidade de transporte a preço de custo, sem a busca incessante pelo lucro, o que poderia garantir preços baixos sem gerar novas despesas, já que as despesas públicas em mobilidade urbana devem ser focadas no transporte de massa.

    Neste marco, uma ‘Uber’ pública com caronas para quem vai ao mesmo destino e também possibilidade de pagar por “corridas”, voltada para o transporte da população e não para os lucros poderia fazer parte da política de mobilidade urbana. Sua modalidade pool (onde várias pessoas com destinos similares podem compartilhar o mesmo veículo), poderia integrar o sistema com carros 7, 10, 12 lugares nessa modalidade, tornando esse sistema um importante auxiliar ao transporte de massa, ou ao menos um intermediário até que se garanta o transporte coletivo com dignidade para todos.

    * Com a discussão e colaboração de um dos núcleos do #MAIS ABC.

    Foto: An UBER application is shown as cars drive by in Washington, DC. (Andrew Caballero-Reynolds/AFP/Getty Images)

  • A intolerância que destrói a juventude: Quantos Guilhermes? Quantos Diegos?

    Por: Lucas Fagundes, 17 anos, secundarista, de Porto Alegre, RS

    “O fascista fala o tempo todo em corrupção. Fez isso em 1922 na Itália, em 1933 na Alemanha, no Brasil em 1964. Mas, o Fascista é apenas um criminoso comum, ou um sociopata que está fazendo carreira na política. No poder, essa direita não hesita em torturar, estuprar e roubar sua carteira, sua liberdade e seus direitos. Mais do que a corrupção, o fascista pratica a maldade”. Quando disse tão sábias palavras, Norberto Bobbio definia os momentos que vivemos. Vivemos um tempo de opressão às minorias. Mas, isso não é novidade. Realmente, a opressão que sofremos vem desde sempre e começa no exato momento em que o homem recebe o privilégio de ser superior à mulher. O privilégio que é nos dado é a abertura para todas as demais opressões.

    No tempo em que vivemos processos tão legítimos e na busca da liberdade das opressões através dos estudantes com as ocupações de escolas e espaços públicos, ocupações de vias públicas com milhares na busca pelo mesmo objetivo, também sofremos duros ataques aos direitos sociais. Nos últimos tempos, a juventude brasileira tem sido destroçada devido a ataques racistas, homofóbicos, machistas e, acima de tudo, fascistas. Precisamos falar sobre isso, urgentemente.

    A juventude busca caminhos alternativos
    As ocupações não são somente espaços de luta e resistência, são espaços de politização, espaços de desconstrução e fuga das opressões sociais. O retrato da juventude brasileira nesses últimos tempos tem sido a resistência. A juventude fica marcada por ser responsável de manter acesa uma luz no fim do túnel. Assim como na ditadura em 64 e no impeachment de Collor, a juventude e o movimento estudantil se colocam à frente dos movimentos que nos mostram a saída.

    Guilherme Irish foi assassinado pelo seu pai, após Alexandre descobrir o envolvimento do jovem de 20 anos no movimento de ocupações contra a PEC 55 (241). Ele executou Guilherme com quatro tiros e, logo após, se suicidou. Nessa hora tento imaginar o nível de pensamento do pai. Ele me parece pensar muito parecido com Bolsonaro e toda a bancada evangélica, me parece pensar que nem Garrastazú Médici, ou quem sabe Carlos Alberto Ustra. A intolerância dos tempos de hoje é similar à da época ditatorial.

    Precisamos ouvir a juventude, agora!
    Os jovens precisam aconselhar e serem aconselhados. Assim como aqueles que resistiram na ditadura são exemplos de resistência hoje, mais do que nunca, somos exemplo para os que resistiram e que vão resistir. Nós precisávamos ouvir o Guilherme, nós precisávamos ouvir o Diego Vieira, jovem que morreu esfaqueado por ser negro e LGBT, no Campus do Fundão da UFRJ.

    A juventude nos mostra a saída e a luz que vai sustentar a luta contra toda a retirada de direitos e buscará a alternativa contra as opressões sociais. Assim como Dani Black diz na música ‘O trono do estudar’: “E tem que honrar e se orgulhar do trono mesmo, e perder o sono mesmo para lutar pelo o que é seu. Que neste trono todo ser humano é rei, seja preto, branco, gay, rico, pobre, santo, ateu”. Ninguém tira o trono da juventude, que consigamos lutar unidos em busca de um só objetivo: uma sociedade livre das opressões.

  • Zumbi e Dandara vivem: 5 motivos para ir às ruas no dia 20 de novembro

    Estima-se que mais de 10 milhões de africanos foram trazidos como escravos ao Brasil, entre meados do século XVI e meados do século XIX. Esse sequestro fez do Brasil o país com a maior população negra fora do continente africano e é decisivo para entender as nossas atuais desigualdades sociais.

    Não somos o país da democracia racial como afirmado nas teses de Gilberto Freire, requentadas atualmente pelos neoliberais. Pelo contrário, a formação e desenvolvimento do capitalismo brasileiro aconteceram sobre o suor e sangue de milhões de africanos retirados da terra natal e escravizados, assassinados, violentados e humilhados. O Brasil foi o último país das Américas a acabar com a escravidão em 1888 e o racismo é estrutural da sociedade brasileira.

    A história dos negros e negras no Brasil é a história da sua resistência. No período em que vigorou a escravidão inúmeras foram as revoltas de escravizados e a formação de Quilombos contra a opressão da Coroa Portuguesa e da Casa Grande e seus senhores. A luta de classes no país data daí. Não atoa, a origem do atual aparelho repressivo do Estado brasileiro também é oriunda dessa fase. A escravidão só acabou no país quando a burguesia em formação vetou os negros do acesso à terra, trabalho, direitos sociais e qualquer perspectiva de reparação, no contexto de uma nação que desenvolvia-se extremamente dependente do imperialismo nascente.

    O Dia Nacional da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro, data do assassinato de Zumbi dos Palmares, maior líder e guerreiro do Quilombo de Palmares. Em várias capitais do país a data virou feriado após muita luta.

    A conjuntura aberta pelo golpe parlamentar dirigido por Temer e pela burguesia e seus planos de retirar direitos históricos do conjunto dos trabalhadores atingem principalmente os negros e negras no Brasil. Em memória de Zumbi, Dandara e dos nossos antepassados não faltam motivos para ir às ruas protestar nesse 20 de novembro.

    Listamos, abaixo, 5 motivos para irmos para a luta no Dia Nacional da Consciência Negra:

    1- A luta contra a Reforma da Previdência e os efeitos da Reforma Trabalhista que atingem principalmente os negros que ocupam os piores postos de trabalho e estão nos trabalhos mais precários e pior remunerados.

    2- A luta em defesa das cotas raciais nas universidades e concursos públicos. Já existem nas universidades projetos que buscam restringir as cotas como parte da ofensiva do governo golpista de Temer, bem como a desestruturação da Lei 10.639, que garante o estudo da história africana e indígena, hoje ameaçada pela MP do Ensino Médio. Nenhum direito a menos.

    3 – A luta contra o genocídio da juventude negra. Em 2003 morriam, proporcionalmente, 71,7% mais negros do que brancos. Em 2014, esse número saltou para 158,9%, ou seja, morrem 2,6 mais negros do que brancos no país. Vamos exigir o fim da estrutura militar das polícias e protestar contra o assassinato todos os dias, de Amarildos, Claudias, dos cinco jovens da Zona Leste de São Paulo, Djavans, DGs e todos os negros que são assassinados todos os dias pela polícia. Também reafirmaremos que a redução da maioridade penal não é a solução para o combate à violência.

    4 – Precisamos ampliar a organização do povo negro nas favelas, locais de estudo e trabalho no Brasil. Há um crescimento da nossa afirmação como povo, que precisa tornar-se exigência de reparações históricas aos crimes cometidos. Essa é uma luta de enfrentamento ao capital, que não foi levada adiante pelos governos do PT e precisa tornar-se tarefa geral dos que querem reorganizar a esquerda socialista com a cara do povo negro brasileiro.

    5 – As manifestações que começaram em março de 2015 e culminaram no Impeachment de Dilma Rousseff (PT) foram ações da Casa Grande. Os negros e negras estiveram fora das ruas, não tinham referência na manifestação das elites. A primeira medida do governo golpista de Temer foi extinguir o Ministério de Promoção da Igualdade Racial. O MBL quer acabar com o Dia da Consciência Negra e as cotas. Não vamos aceitar retrocesso. Vamos às ruas pelo Fora Temer!

    Foto: Reprodução Facebook

  • Zumbi e Dandara vivem: 5 motivos para ir às ruas no dia 20 de novembro

    EDITORIAL 16 DE NOVEMBRO – Estima-se que mais de 10 milhões de africanos foram trazidos como escravos ao Brasil, entre meados do século XVI e meados do século XIX. Esse sequestro fez do Brasil o país com a maior população negra fora do continente africano e é decisivo para entender as nossas atuais desigualdades sociais.

    Não somos o país da democracia racial como afirmado nas teses de Gilberto Freire, requentadas atualmente pelos neoliberais. Pelo contrário, a formação e desenvolvimento do capitalismo brasileiro aconteceram sobre o suor e sangue de milhões de africanos retirados da terra natal e escravizados, assassinados, violentados e humilhados. O Brasil foi o último país das Américas a acabar com a escravidão em 1888 e o racismo é estrutural da sociedade brasileira.

    A história dos negros e negras no Brasil é a história da sua resistência. No período em que vigorou a escravidão inúmeras foram as revoltas de escravizados e a formação de Quilombos contra a opressão da Coroa Portuguesa e da Casa Grande e seus senhores. A luta de classes no país data daí. Não atoa, a origem do atual aparelho repressivo do Estado brasileiro também é oriunda dessa fase. A escravidão só acabou no país quando a burguesia em formação vetou os negros do acesso à terra, trabalho, direitos sociais e qualquer perspectiva de reparação, no contexto de uma nação que desenvolvia-se extremamente dependente do imperialismo nascente.

    O Dia Nacional da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro, data do assassinato de Zumbi dos Palmares, maior líder e guerreiro do Quilombo de Palmares. Em várias capitais do país a data virou feriado após muita luta.

    A conjuntura aberta pelo golpe parlamentar dirigido por Temer e pela burguesia e seus planos de retirar direitos históricos do conjunto dos trabalhadores atingem principalmente os negros e negras no Brasil. Em memória de Zumbi, Dandara e dos nossos antepassados não faltam motivos para ir às ruas protestar nesse 20 de novembro.

    Listamos, abaixo, 5 motivos para irmos para a luta no Dia Nacional da Consciência Negra:

    1- A luta contra a PEC 55, que congela os gastos sociais para os próximos 20 anos e atinge diretamente a população negra, maior usuária do sistema público. Assim como as reformas Trabalhista e Previdenciária e todas as medidas de ajuste do governo Temer.

    2- A luta em defesa das cotas raciais nas universidades e concursos públicos. Já existem nas universidades projetos que buscam restringir as cotas como parte da ofensiva do governo golpista de Temer, bem como a desestruturação da Lei 10.639, que garante o estudo da história africana e indígena, hoje ameaçada pela MP do Ensino Médio. Nenhum direito a menos.

    3 – A luta contra o genocídio da juventude negra. Em 2003 morriam, proporcionalmente, 71,7% mais negros do que brancos. Em 2014, esse número saltou para 158,9%, ou seja, morrem 2,6 mais negros do que brancos no país. Vamos exigir o fim da estrutura militar das polícias e protestar contra o assassinato todos os dias, de Amarildos, Claudias, dos cinco jovens da Zona Leste de São Paulo, Djavans, DGs e todos os negros que são assassinados todos os dias pela polícia. Também reafirmaremos que a redução da maioridade penal não é a solução para o combate à violência.

    4 – Precisamos ampliar a organização do povo negro nas favelas, locais de estudo e trabalho no Brasil. Há um crescimento da nossa afirmação como povo, que precisa tornar-se exigência de reparações históricas aos crimes cometidos. Essa é uma luta de enfrentamento ao capital, que não foi levada adiante pelos governos do PT e precisa tornar-se tarefa geral dos que querem reorganizar a esquerda socialista com a cara do povo negro brasileiro.

    5 – As manifestações que começaram em março de 2015 e culminaram no Impeachment de Dilma Rousseff (PT) foram ações da Casa Grande. Os negros e negras estiveram fora das ruas, não tinham referência na manifestação das elites. A primeira medida do governo golpista de Temer foi extinguir o Ministério de Promoção da Igualdade Racial. O MBL quer acabar com o Dia da Consciência Negra e as cotas. Não vamos aceitar retrocesso. Vamos às ruas pelo Fora Temer!

    Foto: Reprodução Facebook

  • Simonov e a volta do ‘Eu’: o poeta ‘proletário’

    Por: Saymon de Oliveira Justo, mestre em História pela UNESP

    A Revolução de Outubro de 1917 transformou praticamente todas as esferas da sociedade russa. A propriedade privada foi violentamente atacada,  a economia passou a obedecer a uma nova lógica. As antigas relações sociais foram subvertidas, o que era certo se tornou errado e vice versa. E nesse novo mundo que estava sendo criado, a produção artística também não escapou incólume.

    Já nos primeiros anos da Revolução, muitos bolcheviques renegavam todo e qualquer resquício do passado imperial. Como Comissário da Guerra, Trotsky travou uma encarniçada luta no seio do próprio Partido contra seus camaradas que queriam expurgar do Exército Vermelho os oficiais formados nas academias do Czar. O mesmo Comissário perdeu parte do seu capital político em rusgas com setores do bolchevismo que pretendiam eliminar sumariamente toda ‘arte burguesa’ e não menos sumariamente, forjar uma suposta ‘arte proletária’.

    Conforme Stalin e seus partidários ascendiam no Partido e no governo soviético, essa perspectiva de banir todas as ‘conquistas’ das antigas gerações como velharias burguesas ganhou força. Se no final da década de 1920 a coletivização forçada do campo e a criação dos Kolkhoz (fazendas coletivas) representam a insanidade do regime em eliminar a pequena agricultura individual, anos antes os Kommunalkas objetivavam também o fim do modelo burguês de convivência. Os Kommunalkas eram apartamentos coletivos, onde várias famílias compartilhavam cozinha, sala, banheiro, enfim, constituía uma tentativa de eliminar o individualismo e a privacidade familiar, valores tidos como nocivos à nova sociedade.

    A arte proletária também deveria banir o individualismo, assim, os novos poetas eram ‘incentivados’ a louvarem o amor ao Partido, ao camarada Stalin e ao coletivismo. O antigo lirismo do homem por sua amada, ou vice-versa, passa a ser visto em princípio como fraqueza pequeno-burguesa e posteriormente como uma “arte inimiga” da nova sociedade e seus valores, podendo mesmo o artista ser enquadrado na categoria penal de “inimigo do povo”. Nesse contexto, o regime soviético patrocinava cineastas, pintores, escultores, romancistas e poetas, transformando-os em soldados da nova cultura proletária, ou melhor, panfletistas do regime soviético.

    Konstantin Simonov nasceu no seio da antiga intelligentsia russa e para apagar essa ‘mácula’ em seu passado e ser aceito na sociedade soviética, ainda jovem Simonov rejeitou uma possível formação acadêmica e se matriculou em uma Escola de Aprendizes de Fábrica, as FZU, onde aprendeu o ofício de torneiro. Estudando durante o dia, Simonov trabalhava a noite montando cartuchos para rifles e a confiar em suas memórias, realmente se empolgou com o ‘espírito da Revolução’. Com a prisão do padrasto, Simonov trabalhou ainda mais para construir e fortalecer uma identidade proletária, pois só assim poderia camuflar suas origens burguesas e não terminar em algum preso em algum Gulag como inimigo do povo.

    Na década de 1930 estava sendo construído o Canal do Mar Branco, uma obra que ligaria este ao Mar Báltico. Nessa obra foi empregada literalmente mão de obra dos prisioneiros dos gulags, que morreram aos milhares escavando o canal com as próprias mãos. Foi por esses tempos que Simonov escreveu alguns poemas sobre o caráter redentor do trabalho na vida dos prisioneiros políticos. Não se sabe exatamente como, mas esses poemas foram parar nas mãos dos agentes da OGPU (polícia política) e esse foi o início da carreira de Simonov como “poeta proletário”.

    Konstantin Simonov foi um típico poeta a serviço do Partido e do Estado soviético deformado pelo estalinismo. Recebia incentivos, regalias e orientações para se enquadrar no Realismo Socialista e promover as conquistas e façanhas do regime. Tido por muitos como um poeta medíocre, Simonov conseguiu sobreviver e se destacar no mundo soviético em boa parte pelos serviços líricos que prestava ao regime. Com a invasão da União Soviética pela Alemanha nazista em 1941, Konstantin Simonov foi mandado ao front como uma espécie de correspondente de guerra e além de trabalhar contra o derrotismo, deveria escrever para levantar o moral dos ‘soldados vermelhos’. Apaixonado pela atriz de cinema Valentina Serova, Simonov escreveu ‘Espere por Mim’, talvez seu mais belo poema.

    Mas, a verdadeira importância de ‘Espere por Mim’ é o rompimento que representa com o ‘Realismo Socialista’, trazendo novamente a dignidade àquele amor romântico entre duas pessoas. Soldados compilavam o poema e repassavam aos camaradas; recitavam nas trincheiras e mandavam em cartas às suas amadas. Finalmente Simonov se tornava Poeta, sentindo as dores do homem comum, traduzindo-as em poesia e a elevando à dignidade lírica.

    ESPERE POR MIM

    Espere por mim, que eu voltarei,
    Mas tens de esperar muito
    Espere quando a chuva amarela
    Tristeza trouxer,
    Espere quando a neve vier,
    Espere quando fizer calor,
    Espere quando os outros não esperarem,
    Esquecidos do passado.
    Espere, quando dos países distantes
    Cartas não chegarem,
    Espere, quando até se cansarem
    Aqueles que juntos esperam.

    Espere por mim, que eu voltarei,
    Não perdoes àqueles
    Que encontram palavras para dizer
    Que é tempo de esquecer.
    E se crêem, filho e mãe,
    Que já não vivo,
    Se os meus amigos, cansados de esperar,
    Se sentam à lareira
    E bebem vinho amargo
    Para me recordarem…
    Espere. E com eles
    Não te apresses a beber.

    Espere por mim, que eu voltarei
    A despeito da morte.
    Quem não me esperou,
    Que diga: ‘Teve sorte!’
    Não compreendem os que não esperavam
    Como no meio do fogo
    A tua espera
    Me salvou.
    Como sobrevivi, saberemos
    Só tu e eu, –
    É porque me soubeste esperar
    Como ninguém mais

    Konstantin Simnov

    Foto: Valentina Serova e Konstantin Simonov

  • Ocupa tudo contra a casa grande golpista: [email protected] resistem

    Por: Martina Gomes, de Porto Alegre, RS

    “Vidas Negras importam!”, ecoa o grito de Norte a Sul das Américas. A crise econômica mundial iniciada em 2007 e 2008 nos EUA continua sem perspectivas de fim e chegou com toda força ao Brasil. A necessidade de recompor a taxa de lucro da burguesia tem como consequência direta o aumento da exploração e o ataque a direitos dos trabalhadores. Neste caso, o plano para a população negra, com a aplicação dos planos de ajuste fiscal são ainda mais perversos, e incluem um rebaixamento de direitos e de acesso a investimentos sociais.

    Ajuste na ‘carne mais barata’
    Nos primeiros meses de 2015, com a narrativa da necessidade de ajuste para superar a crise econômica, a então presidente Dilma iniciou duros cortes nas áreas sociais e nos programas de benefícios que atingiram em especial as parcelas mais dependentes, como as mulheres negras. O aumento para ter o direito ao benefício do seguro-desemprego, de seis meses para um ano e meio, fez com que todos que vivem de setores de alta rotatividade, tais como a terceirização e o telemarketing, fossem duramente afetados na sua condição salarial.

    As mobilizações reacionárias, brancas e de classe média alta que começaram em março de 2015 eram mobilizações da casa grande. Os negros e negras não se identificaram com os atos que queriam a diminuição de direitos. O processo de ascensão da burguesia, que culminou com a consumação do impeachment de Dilma Rousseff (PT) em setembro de 2016, abriu uma conjuntura de ataques brutais a direitos históricos dos trabalhadores, na qual nos encontramos hoje. O PT ,ao governar em colaboração de classes com a burguesia, abriu as portas para um governo ainda mais entreguista e que ataca ainda mais os direitos dos trabalhadores.

    Neste cenário, o governo golpista de Temer, já em seus primeiros seis meses, vem demonstrando que pretende governar integralmente para os donos da Casa Grande e seus aliados da burguesia internacional. Nos últimos meses, os índices de desemprego aumentaram vertiginosamente, já são 12 milhões de desempregados (11,8%), segundo dados do IBGE e o trimestre de junho, julho, agosto de 2016 aumentou em 5,1% o número de desempregados em comparação aos três meses anteriores .Isto já representa a maior série histórica de aumento dos índices de desemprego.

    O plano do governo Temer é aplicar um plano de ajuste fiscal para impedir o aumento dos investimentos em áreas como educação e saúde públicas pelos próximos 20 anos, esse é o significado da PEC 55 (antiga PEC241). A aprovação, pela via judicial, com auxílio do STF, das mudanças nas terceirizações é mais um passo em direção à redução dos direitos trabalhistas e da qualidade dos serviços de atendimento à população. O governo golpista tem entre os seus projetos fazer, ainda, as reformas da Previdência e Trabalhista.

    As conquistas da população negra, tais como a política de cotas e ações afirmativas, também tornam-se alvo de tentativas de modificações, foi assim na UFRGS e é assim nas universidades em processo de debate, tais como a UNICAMP.

    O plano da burguesia brasileira é atingir diretamente direitos históricos da classe trabalhadora. Atingindo em cheio e com mais força os oprimidos, particularmente, o povo negro.

    A bala que não é de borracha
    Amarildo foi um grito na multidão, um pedreiro da favela carioca que em junho de 2013 foi assassinado pela PM do Rio de Janeiro e é símbolo de um enfrentamento que os negros e negras vivem desde a saída das senzalas e ida para as favelas. Não existe proteção quando se é o tipo suspeito, ou quando se tem poucas alternativas para sobreviver. Djavan, Rodrigo, Claúdia e tantos e tantas outras mortos direta, ou indiretamente pelo braço do Estado.

    De acordo com as estatísticas, enquanto no período compreendido entre 2003 e 2014, o número de homicídios por arma de fogo dentre a população branca diminuiu 26,1%, entre a população negra aumentou 46,9%. Enquanto no ano de 2003 morriam, proporcionalmente, 71,7% mais negros do que brancos, em 2014 esse número saltou para 158,9%, ou seja, morrem 2,6 mais negros do que brancos no país.

    Como ocupávamos e construíamos quilombos : somos a linha de frente da resistência
    O fato de Temer e seus senhores aumentarem a força da chibata nos projetos que nos retiram direitos e, com isso, haver o crescimento da polarização social, faz com que surja movimentos de extrema direita como o MBL (Movimento Brasil Livre), que exigem medidas mais austeras, machistas, lgbtfóbicas e racistas para se contrapor à linha de frente dos setores que vêm construindo sua identidade e reconhecendo sua força.

    Todo espaço conquistado pelos negros e negras, com acesso a maior escolaridade e outros aspectos hoje é o germe de contradição para os que querem fazer com que voltemos à situação de semi-escravidão. Viramos semente. No Brasil e no mundo assistimos atentos e somos parte dos negros e negras que estão na linha de frente das mobilizações contra a aplicação desses ajustes.

    A partir da política de ações afirmativas em muitas universidades, avançamos em nossa identidade. A partir da desigualdade salarial de cerca de 59% dos negros em relação aos brancos, rechaçamos a cordialidade do mito da democracia racial e lutamos pela igualdade. Os quilombolas que há décadas lutam pela titulação de terras ocupam contra o retrocesso e pela busca pelo direito ao que é seu. A periferia não aceita mais com normalidade a morte de seus filhos e as mulheres negras se organizam para buscar o direito de existir das futuras gerações.

    A juventude das escolas públicas, dos institutos federais e das universidades é também negra, mulher e uma parte significativa LGBT e, por isso, ocupa levantando o seu black no front de batalha. É Mc Carol, Sofia, Karol Conka que cantam a luta do nosso povo, na linguagem de uma geração, “gíria não, dialeto”.

    A luta é desigual, pois enfrentamos um governo que pretende aplicar o plano clássico da burguesia e necessita retirar direitos conquistados pela população negra na última década. Além disso, sofremos de uma importante fragmentação no movimento negro. Infelizmente, uma parcela aderiu diretamente ao Estado e abandou a batalha de libertação social. Outra parcela divide-se em um grande arsenal de perspectivas que não necessariamente fortalecem a luta coletiva e levam a saídas individuais.

    Nos quilombos nos organizamos para resistir, nossa história se faz necessariamente de forma coletiva para destruir este sistema que cada vez mais necessita nos tirar o direito à vida para existir.

    Ocupar e resistir! Contra o Golpe da Casa Grande! Nenhum direito a menos!

    Foto: Mídia Ninja