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27 Outubro, 2016
  • Eisenstein e o marxismo em ‘A Greve’ e ‘Outubro’

    Por: Cláudio Gabriel, de Rio de Janeiro, RJ

    O cinema surge, nas feiras de atrações dos fins do século XIX, como uma arte extremamente popular entre os trabalhadores. Proletários gostavam de assistir os filmes enquanto existia um grande preconceito por parte da classe mais rica, perante a esse predomínio de telespectadores das classes mais populares. É sempre importante relatar que um dos primeiros curtas feitos pelos irmãos Lumière foi “A saída dos operários da fábrica Lumière”, de 1895, símbolo do que esse meio de comunicação, capaz de atingir uma grande massa, conseguia retratar.

    Logo após seu surgimento, novas maneiras de pensar a filmagem, maneiras de posicionamento de câmeras e de pensar como o cinema poderia interagir com a sociedade foram pensadas. Uma delas, o construtivismo russo, ganhou grande destaque na União Soviética. Extremamente ideológico e buscando popularizar ainda mais a sétima arte, este movimento é responsável pelas duas obras que dão título a esse trabalho.

    Serguei Eisenstein foi um dos grandes gênios e diretores mais expoentes do cinema soviético em toda sua história, graças à sua capacidade de contar tramas relacionadas a trabalhadores comuns, na qual a maioria dos operários na antiga União Soviética se identificava facilmente. Sempre defendeu a importância ideológica do Cinema no país para atingir um real comunismo.

    Assim, a estética teórica marxista é realizada de uma maneira muito nítida na maioria de seus longas. Pois, assim como o mesmo falou, após uma conversa com James Joyce, escritor de Ulysses: “A decisão está tomada: irei filmar o Capital segundo o roteiro de Karl Marx – esta é a única forma possível”.  Neste artigo, serão destacados apenas dois dele.

    Eisenstein sempre buscou um entendimento teórico na sétima arte comparado com a teoria criada por Karl Marx, e conseguiu levar esse ideal de uma maneira totalmente diversificada. Talvez o que mais se utilizava em suas obras era a dialética do método materialista histórico, com o prosseguimento da “tese”, “antítese” e “síntese”, utilizada durante o desenvolvimento narrativo, principalmente relacionado aos ideais dos trabalhadores.

    Vindo com uma forte influência do teatro, o diretor tinha em mente uma estética extremamente teatral em todos os seus filmes, sem dúvidas um diferencial positivo em sua carreira. Em suas obras, há uma exploração muito forte dos estereótipos, na qual ele exagera de maneiras absurdas em toda sua filmografia. A representação dos proprietários de fábricas como gordos e sempre sentados em cadeiras e muito confortáveis, gera uma ideia de desconforto por não se sentir parte daquela situação com o espectador soviético proletário. Do outro lado, tem-se um trabalhador comum, com roupas totalmente maltratadas e sujas, além de sempre aparentar uma cara cansada, sempre em grande número, o que gerava um senso de comunidade e organização por parte dessa classe explorada, algo também que possui relação direta com a teoria de Marx.

    O pensador alemão disse em seu livro mais conhecido “O manifesto do Partido Comunista” uma frase no primeiro capítulo que é um ponto culminante para entender todos os trabalhos realizados por Eisenstein: “A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes” (Marx, 1997). Nesse pequeno trecho, Karl Marx faz uma síntese do que abordará nesse exemplar dali para frente.  Esse mesmo trecho é utilizado de maneiras bem diretas pelo cineasta russo, inclusive nos dois filmes relatados nesse artigo.

    Por isso tudo, se deve considerar muito o estudo dedicado por Eisenstein ao cinema como matéria artística por si só, além do pensamento de popularizar e traduzir pensamentos ideológicos na sétima arte. Ao longo de sua filmografia, alterna a exposição explícita ou implícita de seus ideais. Nos dois longas analisados a seguir, ele demonstra de maneira bem nítida todo o seu posicionamento político e o objetivo da luta soviética, além do que ela almejava alcançar.

    A Greve
    A história de A Greve é sobre um grupo de trabalhadores que decide realizar uma greve geral na fábrica que trabalham, mas o patrão ao descobrir decide colocar a polícia na porta do local de trabalho e criar inimizades para desvencilhar o acontecimento.

    A direção de Eisenstein aqui se utiliza bastante das metáforas visuais, principalmente relacionadas aos animais, algo que ele costuma repetir bastante nas suas outras obras cinematográficas. A imagem mais marcante desse jogo de imagens é a cena que fecha o longa. Um comparativo de abate de um porco com a chacina dos trabalhadores que estavam realizando a atividade grevista, algo que cria um final extremamente tenso e deprimente. Ao final, a frase “Lembrem-se camaradas!”, fato que gera um senso de justiça e revolucionário muito forte, um dos objetivos a ser passado para a população soviética.

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    Outro fator de comparação com a obra marxiana, talvez o mais importante aqui, seja da organização da classe proletária. Quando o alemão diz “Proletários de todos os países, uni-vos!”, ele gera uma inspiração direta para a obra do diretor russo. Para além dessa frase, Marx realiza um grande trabalho de relatos sobre a organização da classe operária, seja essa em sindicatos, seja como sentimento de classe e outros. Esse ponto é essencial para o entendimento da união desses trabalhadores para buscarem um objetivo em comum, algo que é demonstrado de maneira perfeita por Eisenstein.

    Por fim, a não utilização de um protagonista individual, mas o foco na massa grevista em si é algo diferencial numa análise cinematográfica. O cinema, desde sua criação, buscou cada vez mais focar em histórias individuais, sobre temáticas que buscassem se pautar em realidades que todos poderiam evidenciar, mas em A Greve essa ideia é levada da maneira mais fácil de identificação, com uma classe de pessoas em busca de seus direitos e sendo brutalmente reprimida. Esse pensamento de tirar o foco em algum personagem específico gera um pensamento que qualquer telespectador poderia estar ali, principalmente contando com um contexto pós-revolucionário.

    O diretor se utiliza da montagem das atrações, na qual ele diz que “a montagem das atrações provoca radicalmente a alteração dos princípios de construção do produto final com seus artifícios manipuláveis utilizando o conceito de materialismo histórico-dialético desenvolvido por Karl Marx e Friedrich Engels”, realizando uma proximidade da tela com quem assiste de uma maneira ideológica e num ambiente realista.

    Outubro
    A trama de “Outubro” se passa logo após a revolução russa de fevereiro de 1917, que instalou um governo provisório no país, comandado pelos mencheviques. A história se passa com os trabalhadores tomando consciência de que suas vidas e a situação da nação pouco mudaram com a continuidade da Rússia na 1ª guerra mundial­­. É preciso destacar que o longa foi encomendado pelo governo em comemoração dos 10 anos da revolução.

    outubroÉ importante começar analisando que Eisenstein se utiliza novamente de três artifícios comentados para o filme anterior: a imagem do líder revolucionário Lenin, a das metáforas visuais e a de não possuir um protagonista específico, levando a ideia de o principal personagem ser o povo. Esses três fatos são feitos de uma maneira mais leve e sem tanta participação.

    O tempo de Lenin em tela é bem pequeno, apenas durante um discurso contra o governo provisório, o chamando de um “governo burguês”, algo que se repete durante toda a projeção por diversos personagens, fato que remete a uma ideia marxista da luta de classes.

    Sobre a segunda repetição, a analogia de imagem que fica mais nítida em toda a obra é a da cena do pavão. Nesse determinado segmento, o diretor utiliza uma imagem de um pavão, com todas suas penas abertas, para demonstrar os mencheviques, que seriam os “traidores” do movimento revolucionário, como se demonstrasse que eles estariam todos abertos para o governo popular, mas ao mesmo tempo a ponto de atacar esse, sendo considerado assim um governo traidor.

    A terceira é feita de uma maneira muito nítida, com sempre muitos planos abertos para mostrar a imensidão dos trabalhadores que lutavam ali.

    Nessa película, o diretor soviético utiliza a “montagem dialética”, que busca em todas as cenas demonstrar uma “tese”, para depois ter um contraponto a ela (a “antítese”) e, por fim, gerar a “síntese”. Esse tipo de montagem também é realizado em “A greve”, mas de uma maneira um pouco mais superficial. Ele se utiliza dessa técnica, pois acreditava que toda arte necessariamente precisa gerar conflito e buscar um ideal de “vencedor” que sairá dos embates demonstrados.

    Engajamento
    O que pode se tirar como conclusão das análises dos dois filmes é que Eisenstein é um diretor totalmente envolvido com sua causa ideológica e contexto histórico-político que vivia na União Soviética. Além disso, ele demonstra a necessidade do cinema se tornar uma arte extremamente acessível para todas as pessoas, no caso aqui retratado o operariado russo.

    O realizador diz em seu texto Método de realização de um filme operário, duas escolhas de estímulos que merecem ser destacadas. Ambas aparecem nas duas obras analisadas anteriormente e se encaixam de maneira perfeita com a teoria marxiana. As duas são: “pela correta avaliação de sua inevitável eficácia de classe: isto é, um determinado estímulo é capaz de provocar uma determinada reação (efeito) apenas em um público de determinada classe” e “acessibilidade de classe desse ou daquele estímulo”.

    Essas duas escolhas demonstram com precisão o caráter classista que Serguei buscava com suas obras, uma ideia objetivada no entendimento de classe que o operariado russo precisava para alcançar o comunismo, algo que o escritor alemão Karl Marx buscava alguns anos antes.

  • Violência de Estado mata mais um torcedor em estádio de futebol

    Por Alexandre Zambelli, de Belo Horizonte, MG

    Nesta quarta-feira (26), foi mais um dia triste dentro de um estádio de futebol. Durante o jogo Cruzeiro X Grêmio, válido pela semifinal da Copa do Brasil, Eros Dátilo, dirigente da torcida Pavilhão Independente, morreu pelas mãos da segurança privada do Mineirão.

    Inicialmente, a versão sobre a morte foi que se tratava de um infarto, mas logo a versão caiu por terra. Amigos e torcedores próximos relataram a agressão por parte da segurança do estádio, e o boletim do hospital que o atendeu disse que Eros havia sofrido múltiplos traumas. Houve grande repercussão pela ampla manifestação de torcedores, a despeito da tentativa da Minas Arena, concessionária que administra o estádio de Belo Horizonte, de tentar abafar o caso. Na mesma madrugada, o protesto dos torcedores pela morte do dirigente da torcida, no Mineirão, foi reprimido com violência pela PM.

    Legado dos megaeventos
    Os megaeventos realizados recentemente no Brasil trouxeram várias consequências. Um dos legados que, sem dúvida, atinge os amantes dos esportes, sobretudo o futebol, é o modelo higienista das novas arenas. Vários casos de violência têm assombrado ainda mais aqueles que deveriam ser locais de torcida e alegria.

    No último domingo, tivemos a cena de vários torcedores do Corinthians que, após partida contra o Flamengo no Maracanã, ficaram retidos para identificação pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Não faltaram relatos de abusos e violências policiais. No mesmo fim de semana, em São Paulo, a polícia local fechou as ruas no entorno do estádio do Palmeiras, com a desculpa de melhorar a segurança. Sabemos que isso só impede de fato a festa que a torcida costuma fazer antes dos jogos. Esta tática de fechar as ruas dos entornos das arenas tem se tornado cada vez mais recorrentes, sobretudo na época da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Espaços eram fechados para o comércio local a fim de favorecer as grandes corporações que patrocinaram estes eventos.

    Estádios de futebol e a violência do Estado
    A violência sempre esteve associada às torcidas organizadas, porém sabemos hoje quem é o responsável pela violência: o estado e seus braços armados. Boa parte das cessões de uso das arenas envolve terceirização de serviços, sobretudo de segurança. O trabalho precário mostra seus efeitos da pior maneira, sobretudo no despreparo dos agentes de segurança privados, que tem atitudes ainda piores que das polícias militares. Ainda há grande responsabilidade por parte das diretorias dos clubes que, cada vez mais, dificultam o acesso dos torcedores aos estádios, cobrando ingressos caros e sendo coniventes com toda forma de repressão às torcidas.

    As manifestações de solidariedade e homenagem a Eros Dátilo demonstram que o silêncio covarde daqueles que mandam no futebol não irá perdurar. Tampouco uma responsabilização individual será suficiente. É necessário superar cada vez mais os efeitos da arenização e acabar com a violência do Estado. Um importante passo é dado pelas próprias organizadas que cada vez mais se organizam e debatem pra enfrentar a elitização do futebol. É o povo tomando pra si aquilo que sempre foi dele.

    Foto: Cruzeiro Imagem

  • Um trabalhador pode ter um iphone?

    Por Karina Lourenço, ABC Paulista


    Certo dia, um colega de faculdade, sabendo do meu posicionamento ideológico de esquerda, me questionou sobre o que achava de um sindicalista ter iphone? Já havia passado por questionamentos do tipo antes, e sempre ficava com o mesmo tipo de impressão. Como há uma enorme confusão na cabeça da grande maioria das pessoas frente ao socialismo.

    Há uma falsa consciência, questões quase que cristalizadas na mente das pessoas, frente ao marxismo científico e a emancipação da classe. Tenho a impressão que boa parte do senso comum e, muitas vezes, dentro do próprio movimento, exista uma prerrogativa que para ser socialista devemos optar por algum tipo de “marxismo franciscano”, confundindo de maneira quase que neurótica, dedicação a outra proposta de sociedade com abnegação religiosa.

    O caminho talvez seja compreender o que de fato o marxismo científico defende e sistematiza. Minha reação ao colega, talvez exemplifique melhor a questão.

    Respondi a ele que se é através das mãos de um trabalhador que se produz a tecnologia de um iphone, que sim, todo o trabalhador deve ter acesso a um. Marx defendeu o fim da exploração de uma classe que detinha os meios de produção em suas mãos, a burguesia, e que através disso explorava a classe proletária. Isso não deve ser confundido com a destruição de tudo o que a humanidade produziu até os dias de hoje, pelo contrário.

    O que há de mais avançado na tecnologia deve estar a serviço da classe que a produz, desde os bens de consumo duráveis e não duráveis, até o mais avançado sistema de educação, saúde, lazer e cultura. É subverter a ordem do econômico a serviço do social e do político e não ao contrário. Como observa Marx no capital

    “…Hoje que Deus esta em vésperas de morrer sem posteridade, sem nunca poder ter podido assegurar a execução do seu mandamento, o Socialismo propõe-se a compelir a observância da sentença divina os que, desde há muito, ganham o pão com o suor do rosto dos outros.Pode isso conseguir-se? Sim, pela socialização dos meios de produção, a que tende nosso sistema econômico…”(Marx, p.20)

    O que não devemos perder de vista é que o iphone é regulado por uma lei de mercado injusta e arbitrária da economia capitalista. Seu valor hoje, no Brasil, chega a ser de até R$ 4000,00, em um país que tem um salário mínimo de R$ 890,00 e que a maior parte das pessoas sobrevivi com uma média de dois salários mínimos mensais.

    Os EUA viveram o revés de uma economia interna protecionista, de superprodução industrial, que culminou na grande crise de 1929. Culturalmente, nunca antes um país havia construído uma cultura de produção e consumo tão supérflua, num ritmo frenético de consumo e modo de vida que, infelizmente, ainda hoje é o status quo de boa parte do mundo.

    Uma calça jeans, por exemplo, demanda 11 mil litros de água para ser produzida. Penso que como marxistas, nosso posicionamento a tudo que diz respeito a nossas relações sociais, nossas relações de consumo devem ser feitas de maneira crítica, com um olhar aguçado, mas não alienante. Não somos somente fruto do tempo histórico em que vivemos, somos transformadores do nosso tempo.

     

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  • Petrobras detalha como pretende entregar a produção de combustíveis às multinacionais

    Por Pedro Augusto, ABC Paulista

    A diretoria da Petrobras esteve em peso na Rio Oil & Gas, feira da indústria de petróleo que acontece no Rio de Janeiro desde segunda-feira (24) e termina nesta quinta-feira (27). A Petrobras foi a grande atração do evento, mas não da forma como ficou conhecida ao longo, pelo menos, dos últimos 30 anos.

    No último período, o grande destaque da Petrobras foi o aprimoramento de suas tecnologias de exploração em águas profundas, especialmente desde a descoberta do Campo de Marlim na Bacia de Campos, em 1985. O destaque da Petrobras dessa vez foi de outro tipo. Esteve como uma mercadoria posta à venda.

    Os diretores da estatal apresentaram detalhes do Plano de Negócios 2017-2021, que coloca US$ 19,5 Bilhões em ativos da Petrobras à venda até 2018. Esse valor soma-se aos US$ 15,6 Bi que o plano anterior pretendia vender até o final deste ano de 2016.

    Venda casada de refinarias e estrutura logística
    A grande novidade foi a informação divulgada pelo Diretor de Refino e Gás, Jorge Celestino, de que a Petrobras pretende incluir ativos de logística na venda de participações nas refinarias, a partir do ano que vem. Segundo o diretor, em palestra nesta segunda-feira (24), a ideia é criar uma empresa que controle as refinarias e a logística, e vender parte dela às empresas privadas.

    O pulo do gato, entretanto, está no modelo de negócio que a Petrobras pretende oferecer ao seu futuro sócio: a possibilidade deste controlar desde o fornecimento de petróleo até o destino dos derivados produzidos. Nas palavras de Celestino: “É um modelo que dá ao investidor gestão sobre as suas margens”.

    Esse modelo, caso seja realmente implementado, muda completamente a forma de atuação da Petrobras no abastecimento de derivados para o Brasil. Até então, o abastecimento de combustíveis para o país era a premissa básica da produção das refinarias da Petrobras. Através das parcerias, abre-se a possibilidade de um bloco formado por uma refinaria e seu suporte logístico integrado atuar como uma espécie de enclave no Brasil. Ou seja, numa situação extrema, pode importar todo o petróleo, produzir explorando recursos humanos, naturais e materiais brasileiros, e exportar todo o combustível produzido. E isso independentemente da demanda de combustíveis do país, o que pode levar a um encarecimento ainda maior do preço dos derivados de petróleo, sem contar o risco de desabastecimento.

    A ANP (Agência Nacional de Petróleo) estima que, caso o Brasil deixe de construir refinarias, como prevê o plano de negócios 2017-2021, aprovado pelo Conselho de Administração em setembro último, a demanda por importação de combustíveis pode subir de 401 mil barris por dia (2015) para 1,1 milhões de barris (2030). Isso considerando que a decisão do suposto futuro sócio da Petrobras seja vender os derivados no mercado brasileiro.

    O comentário de Jorge Celestino sobre o impacto para o Brasil do novo modelo de negócio proposto para a área de Refino e Gás da Petrobras foi emblemático: “Para o país, talvez não seja a melhor solução. Mas é a melhor solução para a Petrobras”.

    Resta saber o que a atual cúpula da companhia entende por Petrobras. O que se pode afirmar é que, certamente, não a entende como uma peça estratégica para a soberania energética do país, motivo pelo qual o povo brasileiro saiu às ruas na década de 1950, conquistando como resultado a criação da Petrobras.

    Parceria com a francesa Total na Exploração e Produção deve se expandir
    Ainda nesta egunda-feira, na mesma Rio Oil & Gas, a Petrobras e a petroleira francesa Total assinaram um memorando expandindo a parceria que já existe na Exploração e Produção de Petróleo, mas também adentrando a área de Refino e Gás. Em entrevista coletiva à imprensa, Pedro Parente, presidente da Petrobras, afirmou: “Não é estritamente uma cooperação transacional, o objetivo aqui é dividir riscos e reduzir a necessidade de recursos da empresa. Além disso, nesse momento tão importante trocamos tecnologia, como no caso de Libra”.

    Considerando os riscos já assumidos pela Petrobras na exploração do pré-sal e o fato de seu corpo técnico ter desenvolvido a tecnologia mais avançada de exploração em águas profundas e ultra profundas, tudo indica que a intenção de Pedro Parente e a sua equipe é principalmente dividir o lucro dessas operações.

    Citando uma vez mais Jorge Celestino, “não pode um país ter uma empresa com 100% do mercado”. Essa frase faria mais sentido se não fosse o próprio Estado o sócio majoritário dessa empresa. Parece que esse é o centro do debate em torno da Petrobras sob o governo Temer: não pode o Estado brasileiro ser o principal beneficiário da renda nacional do petróleo para poder investir em saúde, educação e serviços públicos de qualidade. É preciso dividir com as multinacionais.

  • Raquel Varela, historiadora portuguesa: “Que socialismo é esse que queremos?”

    O Blog Socialista Morena, da Jornalista Cynara Menezes, entrevistou a historiadora Portuguesa e colunista do Esquerda Online, Raquel Varela. A blogueira, gentilmente, cedeu ao Esquerda Online a reprodução da entrevista. Confira:

    Socialista com forte influência de Leon Trotski, a escritora portuguesa Raquel Varela é uma das novas pensadoras da esquerda na Europa e é também uma personalidade da televisão portuguesa, onde atua como debatedora em um dos canais da TV pública, a RTP 3. Conversar com Raquel em Brasília, onde veio participar da Bienal do Livro, foi não só um prazeroso encontro de pensamentos semelhantes como um alívio por vê-la relatar que o neomacarthismo (ou ignorantismo) que vivemos não é uma tendência –pelo menos não em Portugal, onde as pessoas ainda podem se dizer de esquerda sem ser agredidas. Ufa.

    Raquel tem vindo mais ao Brasil ultimamente, como professora visitante na UFF (Universidade Federal Fluminense), e aos poucos vêm conhecendo as facetas da direita tupiniquim, que tem lhe parecido conservadora ao extremo em sua totalidade, ao contrário da europeia, o que demonstra bem nosso precário nível de conscientização política. “Os direitos, liberdades e garantias na Europa frequentemente são pessoas de direita que vêm defender. Por exemplo, a presunção da inocência”, diz a escritora.

    Mas não é só a direita que vai mal, é preciso à esquerda fazer uma autocrítica e se rediscutir, defende. “Estamos sempre a discutir políticas anticapitalistas, mas não dizemos o que é que queremos depois do capitalismo. Como se faz a transição ao socialismo? Que socialismo é esse que queremos? É um socialismo que mata a iniciativa individual? É um socialismo que igualitariza todos ao ponto de eliminar as diferenças? A gente tem que ter essa discussão. Nós queremos outra sociedade, mas que outra sociedade queremos?”

    Segundo Raquel, este é um momento de entressafra para a esquerda, de transição. Onde está a saída? Na classe trabalhadora, claro. “Mais do que a classe trabalhadora ter abandonado a esquerda, a esquerda é que abandonou a classe trabalhadora”, afirma. “Eu apostaria minhas forças aí, nas classes trabalhadoras, em quem produz, em quem sai todos os dias para trabalhar e volta. Estas pessoas têm nas mãos a capacidade de mudar o mundo.”

    Leiam, vale muito a pena.

    Socialista Morena – Como você se define ideologicamente?

    Raquel Varela – Olha, eu acho que a palavra mais bonita continua a ser socialismo. Socialismo enquanto reino da liberdade e da igualdade, em que um não pode se diminuir em função do outro. E acho que o autor mais importante do século 20 continua a ser Leon Trotski, a atualidade dele é impressionante. A teoria do desenvolvimento desigual e combinado, sua teoria da revolução, a complexidade com que viu as classes sociais e a relação entre elas. De todos os pensadores clássicos, estrategicamente é o que teve mais influência em mim. Eu sou muito adepta das teorias da Rosa Luxemburgo nas questões do modo de vida, também a questão do feminismo. A Rosa não era uma feminista, até porque ela preferia que as mulheres dirigissem os partidos e não campos destinados às mulheres. Eu subscrevo inteiramente isso.

    – Ou seja, Rosa nem chegava a colocar qualquer diferença de gênero, era a equidade total…

    – Claro. Não é colocar as mulheres em um gueto, mulheres dirigir mulheres, mulheres a cuidar de mulheres. Nas manifestações contra as violações e as mortes de mulheres devem estar tanto homens quanto mulheres. Por que os homens não estão lá, nestas manifestações? Não são filhos de mulheres, maridos de mulheres, pais de mulheres?

    – Mas tem uma posição dentro do feminismo que acha que o homem não deve participar, que seria “roubar protagonismo”.

    – Há uma ideia de que o homem é sempre suspeito. Não pode ser. Há homens que são suspeitos, mas também há mulheres que são suspeitas. Há muito machismo que é veiculado pelas mulheres, pelas mães, pelas avós, na criação dos homens e das mulheres, na subalternidade. Esta é uma sociedade profundamente hierarquizada, em que a ideia de subalternidade é permanentemente veiculada por todos, a começar pela família. Outra questão importante que Rosa Luxemburgo trouxe de grande importância foi o internacionalismo. Ela foi contra a independência de seu próprio país, a Polônia! Quer dizer, nós vivemos num mundo globalizado, em que há uma divisão internacional do trabalho plena, ou quase plena, ou seja, uma competição em escala mundial entre trabalhadores para ver quem é que oferece menos. Só o internacionalismo pode impedir isso. Só os sindicatos internacionais, os movimentos sociais organizados internacionalmente, podem impedir as migrações forçadas, porque migração forçada não é só refugiados, a dilapidação econômica de um país também leva a um exílio forçado, entre aspas, pessoas à procura de trabalho.

    – Aqui no Brasil estão querendo transformar ser socialista ou comunista em algo bizarro. Imagino o escândalo que seria para uma apresentadora na TV pública atualmente se definir assim…

    – Eu faço parte de um programa de debates da rede pública chamado “O último apaga a luz”. E o partido que está no governo é o partido Socialista, chama-se assim. Portanto, teoricamente não deveria haver, é um movimento de massas em Portugal, já que votaram massivamente no partido Socialista, apoiado pelo Bloco de Esquerda e pelo partido Comunista. Mas este socialismo anticapitalista é uma coisa muito marginal. A direita ganhou a batalha hegemônica. Veja agora nas eleições norte-americanas, só se discutem os meios, não se discutem os fins. Os meios são que há um bronco racista, machista a falar ou uma mulher delicada. Ambos são defensores da produção para o lucro, da indústria da guerra norte-americana, da dilapidação da saúde, da invasão dos outros países, do dólar capaz de mexer com a vida de milhões de pessoas. A política financeira norte-americana é o que determina a vida de todo o mundo e só se discute se é um tipo completamente bruto e bronco ou se é uma mulher delicada. Porque a direita ganhou esta ideia de que o capitalismo é o fim da história e que a alternativa é um Gulag stalinista. É uma ideia que só pode ser revertida por uma discussão aprofundada dos socialistas sobre o que é o socialismo. Nós também temos culpa nisso, porque estamos sempre a discutir políticas anticapitalistas, mas não dizemos o que é que queremos depois do capitalismo. Como se faz a transição ao socialismo? Que socialismo é esse? É um socialismo que mata a iniciativa individual? É um socialismo que igualitariza todos ao ponto de eliminar as diferenças? Eu acho que o socialismo é, na verdade, dar espaço para o desenvolvimento da liberdade individual. Está garantido pelo desenvolvimento das forças produtivas o reino da abundância. Mas a gente tem que ter essa discussão. Nós queremos outra sociedade, mas que outra sociedade queremos?

    – No Brasil vivemos uma onda neomacarthista. Na Europa está acontecendo algo parecido?

    – Não. O Brasil tem uma direita essencialmente conservadora. O Brasil tem muito pouco peso da direita liberal. Então, os direitos, liberdades e garantias na Europa frequentemente são pessoas de direita que vêm defender. Por exemplo, a presunção da inocência. Direita não reprime manifestações. Há uma direita, uma social-democracia liberal, que defende os direitos e as conquistas históricas, que são conquistas da classe trabalhadora, porque os direitos, liberdades e garantias foram impulsionados por movimentos da classe trabalhadora. O direito ao voto é uma conquista da classe operária, mas que hoje uma burguesia ilustrada defende também. No Brasil, dá-me a ideia de que a direita toda que existe é conservadora e reacionária. Não sei se por causa do peso do agronegócio…

    – … misturado com religião…

    – A força dos evangélicos tem a ver com a ausência de um Estado social, porque os evangélicos acabam por cumprir este papel nas favelas, as igrejas como pequeno auxílio à vida cotidiana das pessoas, que é outra coisa que a esquerda abandonou. Por que os sindicatos não são espaços de sociabilidade, só são espaços de discussão do salário? Por que o nosso partido não é um lugar onde se dança? No partido do Marx havia reuniões uma vez por semana, o resto era baile, teatro… Um baile é o quê? Troca de afetos, relação. Espaços de relações humanas. Então nosso socialismo não pode ser discussão de salários. E também não pode ser ‘pras Calendas gregas’ (num futuro longínquo), como se diz. Por que não começamos a construir espaços de sociabilidade socialistas hoje, dentro dos partidos e dos sindicatos?

    – Uma coisa que a gente percebe é o distanciamento da classe trabalhadora da esquerda atualmente, não só no Brasil, como na Inglaterra e nos EUA. Por que isto aconteceu?

    – É curioso que não é bem assim. Por exemplo: na França há uma contagem interessantíssima, bem detalhada, sobre o voto na extrema-direita. A maioria dos operários deixou de votar. A maioria dos que votam é que votam na extrema-direita. A maioria não vota. O que isso indica? Que a abstenção, que tem crescido praticamente em todos os países da Europa, demonstrou que, mais do que a classe trabalhadora ter abandonado a esquerda, a esquerda é que abandonou a classe trabalhadora. Reduzir políticas de esquerda governistas a programas assistencialistas não pode ser. Nós temos que ser defensores absolutos do pleno emprego, de condições de vida decentes, não é só um mínimo para viver e estar vivo. Nós temos que defender que o trabalho tem que dar dignidade às pessoas, que não pode ser uma tortura, uma ameaça, um sofrimento. Para a maioria das pessoas o trabalho é um sofrimento. Então, há uma série de coisas que a esquerda deixou de lado, a política de esquerda ficou resumida a políticas sociais localizadas. Não pode ser. Estas políticas são essenciais para combater emergências, como é óbvio, mas não são suficientes.

    – A gente não quer só comida, né?

    – Pão e poesia. E pão de qualidade, não o mínimo para estar vivo.

    – Nas últimas manifestações contra e a favor de Dilma Rousseff a classe trabalhadora não estava nem de um lado nem de outro. Parecia apática.

    – E por quê? Será que a vida deles melhorou tanto assim? Porque para nós, de classe média, é fácil dizer: ‘ah, as pessoas começaram a comer todos os dias’. Isso é importante? Muito. É inaceitável que pessoas passem fome, portanto as políticas sociais localizadas precisavam ser feitas emergencialmente. Mas também é verdade que as pessoas se viram endividando-se, trabalhando mais, cinco horas num transporte. Qual é a vida da classe trabalhadora?

    – Em contrapartida, há um crescimento desta ideia de meritocracia – é engraçado, no Brasil geralmente são herdeiros que mais falam disso–, de que as pessoas não precisam do Estado, que devem “se esforçar”. Me parece que este discurso tem tido um eco muito grande na juventude.

    – Acho que é o discurso do individualismo e do pensamento mágico, que é o seguinte: desde o início dos anos 1990, o volume de classe trabalhadora a trabalhar para o capital duplicou. E nós temos neste momento o maior desemprego da história. A forma que o liberalismo promoveu aos jovens para enfrentar o desemprego é o empreendedorismo, é o mérito individual. Oculta o seguinte: 92% das empresas criadas por iniciativas de jovens, as startups, entram em falência ao final de três anos. Este discurso nunca é dado. A ideia é de que as pessoas só estão desempregadas porque não se esforçaram o suficiente, quando o desemprego hoje é o verdadeiro regulador dos salários. Enquanto você tinha na ditadura brasileira ou portuguesa a proibição de sindicatos e partidos como regulador de salários, hoje é o desemprego, a ameaça de ser substituído por outro.

    – Houve uma época que os socialistas defendiam diminuir a jornada para que mais pessoas trabalhem…

    – Esta era a ideia mais progressista que a social-democracia tinha nos anos 1970. E foi abandonada.

    Enquanto isso, acontece o contrário: gente trabalhando cada vez mais horas e o desemprego crescendo…

    – Sim, intensificaram as jornadas com as novas tecnologias. A pessoa precisa fazer vinte tarefas ao mesmo tempo. Isso tem perdas gigantescas. Primeiro o sofrimento que as pessoas têm de burnout (estafa profissional). Por exemplo, há um estudo na Europa dizendo que 40% dos médicos estão em burnout, em esgotamento. Por outro lado, nós temos que pensar não só naquilo que criamos mal como naquilo que não criamos. O que nós poderíamos criar, do ponto de vista científico e político, se as pessoas tivessem mais tempo para pensar, para usufruir? Nós próprios, quando é que escrevemos? Nós não podemos estar permanentemente a trabalhar para conseguir escrever, temos que ter momentos até de tédio, ficar pasmados, não ver nada, desligar.

    – O ser humano tem outras necessidades. Mas pelo visto estão convencendo o mundo que há maior delas é ganhar dinheiro e consumir, comprar o último Iphone, e sinto como se estivéssemos perdendo a disputa de narrativa.

    – Eu acho que o modo de produção capitalista está em um declínio histórico. As forças destrutivas hoje são mais importantes do que as construtivas e produtivas. Ou seja, hoje você tem uma grande parte da acumulação feita através de parasitismo e rentismo. Terras incultas, paradas, latifúndios, dívida pública, parcerias público-privadas, destruição dos serviços públicos. Essa é a nova acumulação, não é a invenção de novos produtos.

    – Você acha que, na roda da fortuna, a esquerda está em baixa neste momento? Aqui na América Latina a gente percebe este viés de baixa.

    – Sim, aqui houve um giro enorme. Agora, tem que se fazer uma reflexão sobre o que significaram estes últimos 30 anos. Como é que a classe trabalhadora teve tantas esperanças no PT e como é que não saiu às ruas para defender o PT, por exemplo.

    – E a direita está tomando o poder mais uma vez na marra, com muita repressão aos movimentos sociais.

    – Aqui, sim. É uma situação diferente da Europa. Eu acho que aqui tem que haver algum processo de luta por algumas liberdades democráticas. Uma coisa que me choca no Brasil é o nível de violência sobre as manifestações pela Polícia Militar. Aliás, o Brasil tem uma polícia militar, coisa que não existe nos outros países. É inaceitável como se reprime, uma brutalidade.

    – Agora em Rosario, na Argentina, houve uma violência enorme contra as mulheres marchando contra os feminicídios. Mas houve uma reação maravilhosa, as meninas tirando a blusa e enfrentando os policiais de peito aberto…

    – O impressionante na repressão é também ver a resistência. É incrível que, neste mundo tão degradado, a maioria das pessoas continua a levantar-se para trabalhar, chegar à casa e viver sua vida. E muitas resistem, muitas agarram sonhos nas mãos. Pensa no que as pessoas fazem com poucas migalhas, imagina o que elas fariam se tivessem meios? A gente entra numa escola, o professor ganha abaixo do salário mínimo, ganha mal, tem muitos alunos desagregados, desestruturados, e a escola mesmo assim, mal, mas funciona. Imagina como funcionaria se tivesse as condições?

    – Esta redução das políticas sociais também é uma tendência? Você fala disso no livro que organizou, Quem Paga o Estado Social em Portugal?.

    – Há uma redução das políticas sociais, mas sobretudo ela tem um target, é bastante localizada. Reduz para doentes crônicos, para pensionistas, trabalhadores mais velhos. É uma eugenização da classe trabalhadora, eu utilizei esta expressão em um dos meus livros e tenho certeza absoluta disso.

    – Vi uma expressão sua muito boa, o “socialismo dos ricos”. Como é isso?

    – O Bank of America, a General Motors, o maior banco e a maior empresa do mundo faliram em 2008. Foi dinheiro dos trabalhadores norte-americanos. A seguir, faliu massivamente o sistema bancário italiano, a alemã, a portuguesa, a inglesa, a grega… Em Portugal os bancos já engoliram quase um quarto do PIB. Com a ajuda dos trabalhadores, o dinheiro do governo é dinheiro dos trabalhadores. Quem é que paga imposto, quem é que trabalha, quem é que produz valor? É como tirar de todos para dar a um setor minoritário da sociedade.

    – Ou seja, ao mesmo tempo que vêm com a falácia de estado mínimo, quando os bancos precisam é “estado máximo”…

    – Esta é uma pergunta que os trabalhadores têm que fazer: para que serve o Estado se não é social? Serve para quê? Para reprimir? Ou o Estado é social ou não serve como Estado. Ou não precisamos desta instituição. A nossa relação é com o Estado social, o outro a gente não precisa dele. Ou o Estado serve para prestar serviços públicos ou não serve para nada. Aí nos auto-organizamos e não pagamos impostos, só na nossa comunidade. Se eu entrego dinheiro ao Estado para criar serviços de saúde e o Estado não cria, então não vou mais entregar dinheiro ao Estado. Vou criar um serviço autônomo, auto-organizado, no meu bairro. É isso? Penso que não, que a ideia é ter uma saúde pública universal e gratuita. O que não pode é não haver fronteira, ser privado com dinheiro público.

    – A direita já conseguiu atacar a saúde pública em Portugal?

    Sim. Há um retrocesso brutal do serviço nacional de saúde. O que existe neste momento é um serviço de saúde público cada vez mais vocacionado para um setor mais pobre da classe trabalhadora. Ainda não é assim, mas a tendência é essa.

    – Já existem planos de saúde privados?

    – Já. Disseminados. E é curioso verificar que no Brasil, só para avisar os portugueses, neste momento está em risco de falir o plano de saúde individual, porque só os planos de saúde das empresas é que ainda dão lucro. Só para avisar os portugueses da classe média que acham que pode funcionar um plano de saúde privada. Não funciona.

    – Qualquer pessoa que chegue num hospital público ainda é atendida?

    – Qualquer pessoa, desde que pague uma taxa moderadora, que é relativamente baixa. O problema são as listas de espera, as consultas com especialistas levam um ano e meio. Ou seja, não tem. Se não for uma coisa emergencial, tudo bem, mas se é uma coisa mais estrutural, ninguém vai esperar um ano e meio.

    – O que me espanta é que todos estes planos, de dilapidar os direitos dos trabalhadores, de acabar com a saúde e a educação gratuitas, são os mesmos em toda parte…

    – Porque são planos do Banco Mundial. Não é que o capitalismo seja gerido por um clube que se encontra para jantar, isso é ridículo. O capital tem uma racionalidade própria que é irracional, a acumulação de lucro. Os capitalistas não são bons ou maus, eles investem dinheiro para acumular capital. Não interessa se é para vender planos de saúde, roupas ou cadeiras. Agora, obviamente que em relação aos planos de privatização dos serviços públicos a racionalidade é uma racionalidade pensada, e se formos aos relatórios do Banco Mundial tem centenas de pesquisadores e quadros, ministros brasileiros e ministros portugueses estiveram no Banco Mundial, se você for ver no currículo deles. Então essa conexão de planos é feita.

    – A esquerda brasileira está muito angustiada no momento, vendo este golpe e estes golpistas destruírem as conquistas sociais e ameaçarem o futuro da educação e da saúde públicas. Que mensagem você deixaria para nós?

    – A esquerda tem que confiar mais nas classes trabalhadoras, nas suas próprias forças. Há uma pressão muito grande para o que se chama em História de “substitucionismo social”, uma expressão do próprio Trotski, que é nós acharmos que outras classes sociais vão cumprir o nosso programa. Muitas vezes se faz o retrato do povo como uma coisa monstruosa, violenta, assustadora. Eu acho que há muito mais potencialidades nos de baixo do que a gente imagina. Não acho que as coisas estejam de maneira nenhuma perdidas. Eu apostaria minhas forças aí, nas classes trabalhadoras, em quem produz, em quem sai todos os dias para trabalhar e volta. Estas pessoas têm nas mãos a capacidade de mudar o mundo. A possibilidade de mudar o mundo. Outra coisa é que nós vivemos num período de transição, do declínio do capitalismo, da sociedade agrária para a sociedade urbana, de uma sociedade analfabeta para uma sociedade escolarizada, de uma sociedade machista para uma sociedade de igualdade entre homem e mulher, então tudo isso é um tumulto que parece muito intenso. O velho já não é e o novo ainda não é. Mas são normais estes processos de transição. Não se consegue parir sem dores do parto.

    – Por outro lado, nós vemos crescer aqui no Brasil um movimento forte de mulheres, de negros, de jovens. É razão para otimismo?

    – Claro que sim. Isso significa que estas pessoas têm dentro de si um potencial de resistência a estas políticas. Não se pode pensar que o Brasil está sozinho no mundo, porque não está. Alguns dos movimentos sociais mais importantes dos últimos tempos vieram do Oriente Médio, da Europa, dos EUA. Eu não acho que Bernie Sanders ou (o líder trabalhista) Jeremy Corbyn, na Grã-Bretanha, vão fazer o socialismo, mas, caramba, isso significa que as pessoas estão à procura de outra coisa.

     

  • Diferente da reportagem do Valor Econômico, não faltam motivos para uma greve dos petroleiros

    Por Daniel Tomazine, Duque de Caxias, RJ

    A reportagem do Valor Econômico, desta quarta-feira (26), apresenta a visão da diretoria da Petrobras, expressa através de seu diretor de Assuntos Corporativos, Hugo Repsold, sobre uma possível greve dos empregados da companhia. Em sua visão, não há motivos para greve. Ele diz que a empresa está sempre disposta a negociar, mas que há limites para ceder. Conclui que é preciso que os funcionários, por meio das entidades sindicais, também cedam.

    Em primeiro lugar, é lamentável que a reportagem de tão importante jornal não tenha procurado nenhum representante sindical para comentar a fala do diretor. Diante do ato falho dos jornalistas Rodrigo Polio e André Ramalho, que assinam a matéria, tomo a liberdade enquanto petroleiro, que está no dia a dia construindo a maior empresa nacional deste país, de responder que existem sim motivos para uma greve, não só de petroleiros, mas como de toda a classe trabalhadora brasileira. Vamos aos fatos.

    Retirada de Direitos
    O Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) dos petroleiros tem a duração de dois anos. No ano passado, somente debatemos as questões econômicas, isto é, a reposição salarial.  No entanto, a diretoria da empresa quer empurrar goela abaixo a redução da jornada de trabalho com redução salarial, e também a redução do valor pago pelas horas extras. Ambas as propostas foram amplamente rejeitadas no ano passado, somente sendo retiradas da proposta de ACT após forte greve.

    A redução da jornada e salário serve para precarizar o serviço nos prédios administrativos, abrindo espaço para o assédio moral e a terceirização. A redução do valor da hora extra é tão absurda que a justificativa da empresa é de que precisam desestimular sua realização. Ora, nenhum trabalhador da Petrobras pode fazer horas extras quando bem entender. Só é feito quando o trabalhador é convocado pela empresa para tal. Ela só é realizada com a aprovação da gerência imediata e da gerência geral da unidade.

    A verdadeira razão para reduzir os custos com horas extras é que a drástica redução da mão de obra petroleira tem causado uma enorme necessidade de dobras, trabalhos na folga e extensão dos serviços operacionais e de manutenção. Se a diretoria deseja economizar com horas extras, basta abrir concurso público e reestabelecer níveis seguros de mão de obra. Manter nossos direitos e lutar por mais empregados é um bom motivo para greve, pois são pontos inegociáveis.

    Oferecer reajuste abaixo da inflação não é diálogo. É propor redução salarial. Isso é inaceitável. Basta lembrar do período em que o atual presidente foi ministro de governo. Passamos anos sem reajuste ou com reajuste abaixo da inflação. Acumulamos déficit absurdos ao juntarmos os governos Sarney, Collor, Itamar e FHC.

    A empresa alega que, nos últimos 13 anos, recebemos ganhos acima da inflação. Mas não diz que esses aumentos serviram para repor o passivo. Também não diz que, desde 2007, todo aumento superior à inflação foi concedido somente na tabela da RMNR, não atingindo nosso salário-base. Além disso, a Petrobras segue batendo recordes atrás de recordes. De quem é este resultado? Do corpo técnico e operacional dessa companhia ou da burocracia que se esconde atrás de caríssimos cargos? Além disso, se não foram os petroleiros os responsáveis pela suposta crise da empresa, porque deveríamos aceitar pagar pela crise? Não aceitar perder direitos e não aceitar pagar por uma crise que não criamos é um bom motive de greve, não acha?


    Petrobras para o povo brasileiro
    Mas nosso movimento não se restringe aos valores econômicos. Diz respeito a uma pauta nacional: a quem serve a Petrobras?

    A Petrobras deve servir ao desenvolvimento de uma sociedade igualitária, na qual as riquezas produzidas sirvam à nossa sociedade de conjunto. O petróleo e o gás natural são recursos finitos. A Petrobras descobriu e possui uma das principais reservas mundiais. Seu valor total é ainda uma especulação. A cada dia, novas descobertas são feitas. O que se pensava ser grande, já se mostra  mostra gigantesco. O petróleo tem que ser do povo brasileiro.  E, por isso, a Petrobras precisa ser 100% estatal e a exploração e produção dos hidrocarbonetos voltar a ser monopólio estatal.

    Mas mesmo que não se atendesse a este modelo de desenvolvimento, existem outros. Qual modelo iremos seguir? A Noruega, por exemplo, nos anos 1970, descobriu reservas inferiores as nossas, mas criou uma empresa estatal (Statoil) e utilizou as riquezas geradas para o desenvolvimento do país, que atualmente ocupa a 1ª posição mundial no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). No oposto, o modelo nigeriano, por sua vez, entregou toda a exploração de suas reservas petrolíferas às empresas estrangeiras e ocupa a 152ª posição no IDH. Certamente, o modelo norueguês não contempla, pois ele não aboliu as desigualdades sociais, especialmente pela Statoil ser uma empresa multinacional que explora o subdesenvolvimento de outras nações. Não desejamos uma Petrobras que desenvolva o Brasil empurrando o resto do mundo à pobreza.

    A questão é que nem isso está em pauta. Colocam como única alternativa a entrega total de nossas riquezas. É repetir a velha história do Brasil colônia, onde a riqueza produzida por nossa negra gente vai enriquecer os privilegiados de fora, com um pequeno quinhão aos entreguistas daqui.

    Os planos de entrega do Pré-Sal, aprovado no Congresso Nacional e de privatizações que enfraquecem a companhia e abrem espaço para as empresas estrangeiras, irão nos levar a seguir o modelo nigeriano. Faríamos sim greve para um modelo de desenvolvimento que combata as desigualdades sociais. Quem poderia nos acusar de sermos insensíveis, de não cedermos?


    Recordes de lucros
    A diretoria, o governo e a grande mídia insistem que a Petrobras está quebrada e que, portanto, não existe alternativa. É preciso vender unidades produtivas e lucrativas. É preciso reduzir sua participação. É preciso deixar de investir em agregar valor ao óleo e gás nas refinarias, térmicas e fábricas de fertilizantes, por exemplo, para nos concentrarmos na venda de hidrocarbonetos brutos. Tudo isso não passa de falácia.

    Os ativos que estão sendo vendidos são muito rentáveis e agregam valor a toda cadeia produtiva, deixando a empresa menos exposta às variações internacionais do barril de petróleo. A meta imposta pela diretoria de redução da alavancagem pode ser atingida sem se vender nenhuma unidade. Basta se estender o prazo por mais três ou cinco anos, que com o atual fluxo de caixa se conseguirá atingir o patamar de alavancagem de 2,5x.

    O que é melhor para o país, uma empresa integrada de energia, geradora de emprego e impostos, produtora de mercadorias de alto valor agregado, ou uma empresa exportadora de óleo cru, totalmente exposta às variações do dólar e do preço do barril? Não é motivo de greve? O que a empresa aceita negociar?

    A energia da Petrobras são os petroleiros
    Alegam que a Petrobras não pode investir em bioenergia e biorrefinarias, pois essa não é nossa vocação. Nossa vocação é enfrentar desafios que nos insistem em dizer que são impossíveis. Que não somos capazes. Mas somos. E isto está mais do que provado em 60 anos de história. O nosso papel é pensar nos próximos 60 anos. 120 anos. Queremos que a Petrobras seja sempre lembrada com parte fundamental do desenvolvimento do Brasil enquanto nação justa. Queremos que o petróleo seja alavanca para uma sociedade que se utiliza de energias “limpas”, renováveis.

    A verdade é que tanto a gasolina quanto o diesel recebem misturas em sua composição. A Petrobras pode produzir etanol e biodiesel de qualidade e em volume suficiente para que o preço dos combustíveis realmente caia,  e não aumente como se deu recentemente mesmo após a empresa diminuir o preço cobrado nas refinarias. O projeto Petrobras Bioenergia é segurança energética e desenvolvimento sustentável para o país. Não é custo, é investimento. É um motivo pelo qual se vale lutar, vale fazer greve.

    Mas a Petrobras apresentou dois anos seguidos de prejuízo. É preciso fazer caixa. Mais uma falácia. A Petrobras teve lucro nos dois últimos anos. Os enormes números negativos nada mais foram que uma jogada contábil. A maior empresa privada do ramo de petróleo, a Exxon Mobil optou por não seguir o mesmo método, por exemplo.

    As variações do preço do barril de petróleo são comuns e sempre ocorreram. Portanto, é loucura trazer para o tempo presente um prejuízo que não se concretizou. Isto é, não faz sentido dizer que a Petrobras teve perdas de 40 bilhões de dólares enquanto o petróleo continua a 7 mil metros de profundidade. A verdade é que a empresa lucrou com a venda do petróleo, gás natural e seus derivados que realmente foram explorados. Só no ano de 2015, o caixa da empresa aumento de aproximadamente 75 bilhões de reais para 90 bilhões de reais. Por que os petroleiros não fariam uma greve pela verdade, se a mentira é a justificativa pela destruição de nossa companhia?

    Mesmo que consideremos que a dívida da empresa atingiu um patamar insustentável e que é preciso reduzi-lo urgentemente, o que se deve fazer é exigir que os sócios da companhia entrassem com capital nela. Se os sócios privados não tem este apresso pelo que é seu, então que devolvam suas ações. Reestatização já da empresa! Ter acionistas privados não impediu a corrupção e o alto endividamento. Pelo contrário. Eles lucraram muito durante todo esse período. Toda a corrupção na Petrobras se deu em conluio com empresas privadas.

    Mas lembremos, a Petrobras tem como maior acionista o Estado brasileiro. E este tem compromisso, em primeiro lugar, com sua população, ou pelo menos deveria ter. A Petrobras é fundamental para nosso país. Assim, porque não exigir que o governo brasileiro invista os U$ 35 bilhões que a atual diretoria espera conseguir privatizando? Afinal, nosso país possui reservas de mais de U$ 377 bilhões! É maior do que o PIB de muitos países. Lembram da nossa amiga Noruega? Então, seu PIB é de U$ 450 bilhões.  O Brasil tem quase uma Noruega de reserva e não usa.

    Um momento crítico, com mais de 12 milhões de desempregados no país, e não podemos retirar 10% dessas reservas para impedir a dilapidação de nossa maior empresa? Se o governo quiser gastar 15% dessas reservas, ele não só consegue reduzir para 2,5% de alavancagem da Petrobras, como também conseguiria terminar as obras do COMPERJ e da RENEST, melhorando ainda mais o fluxo de caixa de nossa empresa, e gerando mais empregos no país. Tudo isso mantendo nossas reservas superiores à 300 bilhões de dólares.  Por emprego, vale uma greve.

    O desmonte da Petrobras tem atingido toda a cadeia produtiva do Brasil: mineradora, siderúrgica, metalúrgica, indústria naval, construção civil, e uma longa lista, que passa de insumos para todas essas indústrias, até vendedores ambulantes, passando por fornecedores de uniformes, alimentos, transportes e outros.

    Em 2015, nossa greve acabou com a promessa de que a empresa criaria um grupo de trabalho para estudar outra opção à privatização. O estudo ficou pronto e nada foi feito. A companhia segue privatizando, fingindo que não existem alternativas. Para piorar, o presidente diz que a lei do conteúdo nacional atrapalha. Ele quer voltar à época em que a Petrobras comprava tudo da Azia, Europa e EUA. É preciso barrar a mudança na lei do conteúdo nacional. É imperioso para que o Brasil saia da crise que a Petrobras compre seus equipamentos, navios e plataformas aqui dentro. Pra ajudar o Brasil a sair da crise, também vale uma greve.

    Acidente e mortes no trabalho
    Ao longo dos últimos 10 anos, já morreram 120 empregados. Esses números são inaceitáveis. São companheiros que perderam suas vidas para a ganância. Todas elas poderiam ter sido evitadas. Não é normal que um trabalhador saia de casa para trabalhar e não volte nunca mais, devido a um acidente. Mortes estúpidas, como a do Técnico de Operação da REDUC que caiu dentro de um tanque após o teto do mesmo ceder devido à corrosão. Até agora, nenhum dos assassinos foram presos. Até agora, a Refinaria Duque de Caxias não recebeu investimentos necessários para se tornar um local seguro. Pelo contrário, seus funcionários são seguidamente assediados e pressionados a darem mais do que a sua competência. Querem nosso sangue. Mas isso não é aceitável e nem negociável. A diretoria precisa ceder. Nossas vidas valem mais do que o lucro do acionista. Isto é motivo para uma greve.

    Por fim, não poderíamos fingir que nossos patrões não sejam os mesmos que querem congelar os serviços públicos por 20 anos com a famigerada PEC 241. Que querem atacar os servidores públicos com o PL 257. Que estão destruindo o pouco que resta de qualidade do ensino médio com a Medida Provisória 746/2016 e com o PL Escola sem Partido, ou melhor, escola com mordaça. São os nossos patrões quem promove o maior desmonte da seguridade social e querem nos fazer trabalhar até a morte. São estes patrões que querem fazer com que todos os trabalhadores percam seus direitos, flexibilizando tudo. Tudo isso vale uma greve, não só de petroleiros, mas de todos os trabalhadores.

    Em verdade, uma greve geral já deveria ter ocorrido. A juventude tem mostrado que há muito pelo que lutar. Mais de mil escolas e universidades ocupadas. Que nossa juventude ensine aos líderes sindicais de nossa classe como é que se enfrenta os interesses do patrão. Que venha a greve, para que não nos reste o desespero.

    Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil

  • Venezuela: Oposição convoca greve geral e chavismo convoca mobilização nacional para esta sexta

    Da Redação

    Sob o nome de “Tomada da Venezuela”, ontem, quarta-feira, 26, ocorreram manifestações em todo país para exigir a realização do referendo revogatório sobre o mandato do presidente Nicolás Maduro. O processo de convocação do referendo impulsionado pela oposição foi suspenso na última terça, 25, pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE). A decisão se baseou no fato de que tribunais de 5 estados consideraram que ocorreu fraude nas assinaturas coletadas em maio, durante a primeira fase do processo.

    Nesta quarta, houve vários confrontos entre as forças de repressão do governo e os manifestantes da oposição. O Ministério da Justiça confirmou a informação sobre a morte de um policial no Estado de Miranda. Ele foi baleado quando tentava dispersar uma manifestação. Segundo denúncia da Oposição pelo menos 147 pessoas foram presas e outras 120 ficaram feridas durante as manifestações.

    A Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalização opositora, convocou uma greve geral para a próxima sexta-feira, dia 28. Também está prevista uma marcha para a próxima quinta, dia 3 de novembro. Ela tem como alvo o Palácio de Miraflores, sede da Presidência. Neste dia a Oposição vai entregar a Maduro uma notificação em que considera o “abandono de cargo” da presidência da república. Prevista na Constituição venezuelana, o abandono ocorre quando o presidente deixa de exercer suas atribuições. A iniciativa visa caracterizar o crime de responsabilidade política no julgamento iniciado pelo parlamento na terça, 25 de outubro, cujo presidente é opositor Henry Ramos Allup.

    Governo manobra, novo confronto
    O mandato de Maduro termina em 2019. Caso o referendo reivindicado pela oposição ocorra até 10 de janeiro de 2017 e Maduro for derrotado, haverá novas eleições ainda em 2017. Caso isso não se dê até esta data não haverá novas eleições e quem assumiria o governo é o vice-presidente chavista, Aritóbolo Istúriz ou alguém indicado pelo próprio Maduro. A suspensão do processo de coleta de assinaturas ajuda a manobra do governo de protelar a realização do referendo para após 10 de janeiro.

    De toda forma, do ponto de vista jurídico, é improvável que a atual iniciativa que visa caracterizar “abandono de cargo” seguido de “crime de responsabilidade” consiga prosperar. Isso porque a acusação tem que ser submetida ao Conselho Moral Republicano, formado pelo procurador-geral, o controlador-geral e o defensor do povo, todos os cargos ligados ao chavismo. Depois haveria ainda que passar pelo Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), também controlado pelo governo.

    Como reação às manifestações convocadas ontem pela oposição, o chavismo está convocando para a próxima sexta, 28 de outubro, atos em todo o país. Será um dia de grande polarização já que a data coincide com a greve geral convocada pela oposição. Ao mesmo tempo, Maduro reitera seu chamado de diálogo com a oposição. O Vaticano anunciou esta semana que mediará um encontro entre governo e oposição no domingo, 30 de outubro, na Isla Margarita.

     

     

     

  • A luta em defesa do SUS é a luta contra a PEC 241

    Por Karine Rodrigues, de Brasília, DF

    Nesta quarta-feira (26), o governo Temer aprovou, em segunda votação, na Câmara dos Deputados, a PEC 241 que prevê o congelamento de investimentos públicos em serviços públicos como saúde, educação, moradia, segurança e saneamento básico. O governo afirma que é preciso reduzir os gastos públicos, pois o PT teria causado um rombo e a quebra da economia no país com sua política assistencialista.

    A ideia que o governo do PT gastou muito e de que agora é preciso sacrifícios, apertar o cinto, retirar ou reduzir os supostos luxos concedidos por este governo ganha a consciência das pessoas diariamente. Partem da ideia que os investimentos em saúde, educação e segurança pública são exorbitantes e, em momentos de crise, não podemos nos dar ao luxo de gastar mais ou a mesma quantia que já gastamos com serviços públicos básicos.

    Afinal, o que investimos em saúde no Brasil é suficiente? Qual o real problema do SUS? Por que vivemos o caos na saúde brasileira?

    Para responder essa pergunta, primeiro temos que partir da ideia que saúde é uma necessidade básica de qualquer ser humano. Para que a humanidade continue produzindo riquezas, gerando tecnologia e desenvolvimento são necessários homens, mulheres e crianças com saúde e vitalidade.

    No Brasil, perdemos mais de 5% do PIB, anualmente, pelo impacto das doenças crônicas degenerativas como diabetes, doenças do coração, hipertensão, câncer. O mau controle dessas doenças aumenta o absenteísmo, a baixa produtividade e impõe a aposentadoria precoce. Essa perda econômica é maior que no Japão onde a população idosa cresce de forma exponencial, ou na África do Sul onde o acesso às condições de saúde são inferiores do que a do Brasil.

    Poderia reduzir essa perda econômica com um sistema de saúde que promova esporte, alimentação saudável, garanta o acesso aos medicamentos e tratamentos corretos para toda a população, independente do seu poder econômico ou região brasileira. Mas para que essa promoção de saúde seja possível é necessário dinheiro, investir na contração de diferentes profissionais de saúde que forneçam a população o apoio necessário para seguir um tratamento de controle de suas doenças. É preciso investimento em medicamentos em quantidade suficientes, insumos para que os profissionais possam realizar procedimentos para o controle e manejo das diferentes enfermidades que atinge a população brasileira.

    Muitos governantes, gestores e políticos alegam que esse investimento em saúde já existe. Afirmam que somos um país que mais investe em saúde pública, mas a corrupção e a má gestão desses recursos seriam a razão do atendimento falido e caótico do SUS. De fato, existem problemas na gestão e desvio de verbas públicas da saúde, principalmente no massivo investimento público em serviços de saúde privados, que são mais caros e com serviços inferiores aos fornecidos pelo SUS. Mas a verdade é que o investimento em saúde pública é insuficiente para atender com dignidade e efetividade toda a população brasileira.

    Os números da saúde
    Segundo a Organização Mundial de Saúde, o Brasil investe menos da média mundial em saúde pública. Enquanto a média é de R$1800 por habitante, o Brasil investe R$1468 por habitante.  Ao mesmo tempo, enquanto países com sistema universalizado, como é o caso do Brasil, investem 7,6% a 9% do PIB na saúde pública, o Brasil investe apenas 4,7% do PIB.

    Está nítido que para ter uma saúde universal de qualidade é necessário dobrar os investimentos públicos em saúde pública, caso contrário vamos continuar patinando em índices de saúde desastrosos, e levando, cada vez mais, a nossa população à situação de doenças e inatividade que poderiam ser evitadas e controladas.

    A PEC do fim da saúde
    Com a PEC 241, a perspectiva de aumentar os gastos com saúde pública está anulada. Essa ação do governo desconsidera que a população brasileira está envelhecendo, que a expectativa de vida está aumentando e, consequentemente, a incidência de doenças será crescente.

    O ministro da saúde já anunciou seus planos para a saúde pública: acabar com o sistema universal. O ministro sugeriu que é necessário que cada brasileiro tenha um plano de saúde para atender às questões mais básicas, ficando a cargo do SUS o atendimento de situações mais graves como tratamento de câncer, urgências e emergências, transplantes e demais serviços de saúde de média e alta complexidade.

    Pensar na capacidade que a população possui em pagar planos privados é largar a saúde da população à sua própria sorte. A renda média do brasileiro é de pouco mais de R$ 1100,00 por mês, esse dinheiro tem sido insuficiente para suprir as necessidades mais básicas de alimentação, transporte, moradia e educação. Caso a universalização da saúde seja descartada, possivelmente, milhares de negros, mulheres, LGBTs idosos e trabalhadores que não têm condições de pagar por planos de saúde vão ficar desassistidos. Doenças que têm tratamento e controle com ações simples vão gerar grandes complicações aumentando os gastos com saúde, as sequelas, as aposentadorias por invalidez, a inatividade por desgaste da saúde e a mortalidade.

    Não é possível reduzir mais ainda os gastos com saúde pública ou pensar em seu congelamento por 20 anos. Caso isso aconteça, o fim do SUS está dado e as consequências para a população podem ser desastrosas. A universalização da saúde é uma conquista de milhares de trabalhadores brasileiros.  Foi através dessa conquista que conseguimos uma expressiva melhora dos índices de saúde da população brasileira.

    É necessário melhorar a saúde pública e não sucatear mais do que já está. É necessário que todos os profissionais da saúde e suas entidades representativas, conselhos de saúde, mulheres, negros. LGBTe trabalhadores fortaleçam a luta contra a PEC 241. A luta em defesa do SUS é hoje a luta contra a PEC 241.

     

     

  • Desemprego atinge 12 milhões, e vai piorar mais

    A taxa de desemprego no Brasil chegou a 11,8% no terceiro trimestre de 2016, de acordo com os dados divulgados pelo IBGE nesta quinta-feira (27). Trata-se do maior patamar registrado pela série histórica do instituto (Pnad Contínua), iniciada em 2012.

    Desse modo, o país contabiliza 12,022 milhões desempregados no trimestre encerrado em setembro. Em relação ao mesmo período de 2015, houve elevação de 33,9% no número de pessoas sem emprego, o que representa 3,043 milhões de pessoas a mais procurando trabalho.

    Renda do trabalhador em queda livre
    O cenário terrível não se resume apenas aos números do desemprego. A renda do trabalhador está derretendo.

    Segundo o IBGE, a renda média real foi de R$ 2.015,00 no terceiro trimestre. O que significa uma queda de 2,1% em relação ao mesmo período de 2015. Porém, quando levamos em consideração a massa de renda real paga aos trabalhadores, isto é, a soma total dos salários reais, observa-se um tombo de 3,8%, se comparamos com o resultado de um ano atrás.

    Extermínio em massa de postos de trabalho
    Em um ano, o Brasil perdeu 1,306 milhão de vagas com carteira assinada, dados do IBGE. Por consequência, houve uma redução de 3,7% no total de trabalhadores formais no setor privado no trimestre concluído em setembro.

    A população ocupada, por sua vez, encolheu 2,4% com o fechamento de 2,255 milhões de postos de trabalho. A taxa de desemprego só não foi pior em razão do crescimento da população inativa (quem não está procurando trabalho), que aumentou em 1,9%.

    Quem ganha com isso?
    No sistema capitalista, o único “direito” sério concedido aos trabalhadores é a possibilidade de vender sua força de trabalho em troca de um salário.

    Contudo, esse “direito” mínimo – trabalhar para sobreviver-, especialmente em tempos de crise, é negado a uma parcela enorme da população. As consequências são devastadoras: milhões de mães e pais de família, colocados no olho da rua, se veem sem condições de pagar o aluguel da casa, as contas do mês, as parcelas dos empréstimos e, muitas vezes, ficam sem dinheiro até mesmo para o alimento da criança.

    A demissão em massa tem como objetivo rebaixar o salário médio, de modo a aumentar o lucro do empresário. Com o desemprego em alta, mais trabalhadores se sujeitam a trabalhar ganhando menos. Desse modo, os capitalistas diminuem os custos com os salários pagos e aumentam, em contrapartida, sua lucratividade. Transferem, assim, o peso da crise para a classe trabalhadora.

    O desemprego vai aumentar com as reformas de Temer
    A política econômica aplicada pelo governo Temer (PMDB) elevará o nível de desemprego no próximo período. Por exemplo, com a aprovação da PEC 241, que congela os gastos públicos por vinte anos, haverá menos investimento estatal e, portanto, redução da atividade econômica e enxugamento de postos de trabalho.

    As reformas da previdência e trabalhista, caso sejam aprovadas, também terão impacto negativo sobre o emprego. Com a elevação da idade mínima para aposentadoria, menos postos de trabalho serão abertos para os jovens que ingressam no mercado de trabalho. Já com a redução de direitos trabalhistas, que prevê o aumento da jornada de trabalho, haverá uma oferta menor de vagas, uma vez que a pessoa terá trabalhar mais tempo para manter o mesmo salário.

    Poderia ser diferente
    O desemprego não é um fato natural. Ele é produzido intencionalmente pelo sistema capitalista, que funciona a serviço dos grandes empresários e banqueiros.

    Seria plenamente possível reduzir a jornada de trabalho (para 40 horas semanais, por exemplo) sem redução de salários. Desse modo, haveria uma oferta muito maior de emprego e, ao mesmo tempo, se manteria a renda do trabalhador. A solução é simples: trabalhar menos para que todos tenham emprego.

    Porém, como sabemos, os capitalistas fogem dessa solução como o diabo da cruz. O lucro milionário do empresário não pode cair, dizem os economistas, a mídia e o governo; mas a trabalhadora pode ficar sem o emprego que sustenta a família. Assim funciona o capitalismo.

    Foto: Pedro Ventura / Agência Brasília

  • As lições de Ana Júlia

    Por Silvia Ferraro, colunista do Esquerda Online

    Com a voz embargada, o coração acelerado e nervosa diante de uma plateia hostil, a jovem Ana Júlia, secundarista de apenas 16 anos, não arrancou aplausos da maioria dos deputados e do presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, que queria lhe cortar a palavra, mas emocionou a todos que assistiram o vídeo com o seu discurso e nos deixou mais esperançosos na semana em que a PEC 241 foi aprovada pela Câmara Federal.

    Ana Júlia disse que em uma semana de ocupação ela e seus companheiros aprenderam mais do que todos os anos que ela passou nos bancos escolares. Ao mesmo tempo, podemos dizer que os dez minutos em que Ana Júlia gastou na tribuna ensinaram mais do que todos os discursos que os deputados fazem por anos naquela casa legislativa.

    As ocupações de escolas têm servido de verdadeiro aprendizado para toda uma geração. Não é o aprendizado dos livros didáticos enfadonhos, é o conhecimento mais difícil de se conseguir, pois depende da participação direta nos processos históricos. Somente algumas gerações têm o privilégio de participarem de processos como estes. Na década de 80, uma geração inteira de secundaristas viveu o ascenso das grandes manifestações pelas Diretas Já! Dentro das escolas, o clima contra a ditadura se manifestava na luta pela constituição dos grêmios livres em oposição aos centros cívicos tutelados pelas direções de escola. As grandes mobilizações operárias e estudantis se contagiavam mutuamente e resultaram na derrubada da ditadura e nas conquistas da Constituição de 1988.

    Hoje, podemos dizer que vivemos um processo oposto. Um golpe parlamentar a serviço de rasgar a constituição de 1988 congelando os gastos em saúde, educação e proteção social. Projetos conservadores como a Lei da Mordaça que pretendem, como disse Ana Júlia, criar um “exército de não pensantes” e a Reforma do Ensino Médio que vai na contramão da universalização da educação básica com o objetivo de abrir um novo mercado para as empresas explorarem.

    Duas gerações divididas pelo tempo de duas décadas, a que conquistou a constituição de 1988 e a que vê a carta sendo rasgada. Dois signos opostos na situação brasileira, mas uma mesma lição: a luta coletiva é o maior aprendizado que os explorados e oprimidos podem adquirir. Ele não se perde, ele é histórico e passa através das gerações pelo tempo. Ele semeia a terra da luta de classes e floresce depois, quando menos esperamos.

    As lições de Ana Júlia são as dessa geração, que ocupou escolas em São Paulo no ano passado e derrotou o governo Geraldo Alckmin no projeto da reorganização escolar. Também dos jovens que saíram às ruas em junho de 2013 e que derrotaram o aumento das passagens. Uma geração que nada contra a corrente, contra um avassalador projeto de recolonização do nosso país e da imposição de inúmeros retrocessos sociais e políticos.

    Mas cada geração ensina de forma diferente. As ocupações de hoje estão ensinando coisas que haviam se perdido. As decisões coletivas, as divisões de tarefas, a não reprodução das opressões no movimento, a coragem para enfrentar a repressão e tantas outras.  Ana Júlia é só um pequeno exemplo do exército que se forma nas ocupações do Paraná e nas demais escolas e universidades no país. Não é o “exército de não pensantes”, são sujeitos críticos fazendo história.

    Confira o vídeo: