Não existe estupro sem estuprador



Por Gleide Davis, de Salvador, BA.

Nessa última semana foi publicado pelo Datafolha que um terço da população brasileira acredita que a culpa do estupro é da mulher. Diante disto, fica muito claro a predominância do senso comum no que diz respeito ao feminicídio e a cultura do estupro na sociedade. Se configura como estupro qualquer violação física não consentida, podendo ter penetração ou não. Isto posto, dificilmente encontraremos alguma mulher que já não tenha passado por essa situação.

A cultura do estupro
A mulher é subalterna ao homem, o seu papel social é o de serventia. A mulher que não se adequa a essa realidade é portanto imoral e promíscua, não merece respeito e nem dignidade, por isso a ela qualquer tipo de punição é necessária para que ela se enquadre ao “recatada e do lar”.

É com essa linha de pensamento que a sociedade se firma com a ideologia de gênero. É necessário que entendamos que é pela subjugação de gênero que nasce a cultura do estupro e é por ela que se firma a ideia de que a mulher é e sempre será culpada por ser estuprada.

A cultura do estupro normaliza a violência sexual cometida contra a mulher, buscando vias de justificação para aquela violência, seja no seu passado, seja na conduta moral cristã ao qual estamos submetidos, recomendando à pessoas do gênero feminino que não saiam só a noite, que não andem desacompanhadas e que não se vistam de forma que mostrem seus corpos.

Todas essas ações revelam portanto o que seria a cultura do estupro, a ideia de que a culpa do crime é sempre da vítima. Não é. O protagonista do estupro é o estuprador. Sem estuprador não há violência sexual.

A realidade social das mulheres brasileiras
Cerca de 80% dos crimes de violência sexual ocorrem dentro de casa, 24% dos agressores são pais e padrastos da vítima, 32% são amigos da família, 70% contra adolescentes, 90% das vítimas são mulheres, 50% delas possuem menos de 13 anos, mais da metade são negras, a maioria dos casos ocorrem entre a classe C e D.

As mulheres em maior vulnerabilidade em relação a violência sexual são portanto, adolescentes, negras, de classe desfavorecida e que possuem um parente homem dentro de suas casas que acreditam que elas são propriedade sexual deles.

Não são raros também os casos de violência sexual denunciados por mulheres que já tiveram algum tipo de envolvimento amoroso com seus agressores. O perfil do estuprador mais comum é aquele que conhece a casa, a família e a própria vítima muito bem, sabendo também que haverá proteção de pessoas conhecidas em caso de denúncia, dificultando a ação direta da vítima em relação a agressão.

A cultura do estupro é machista e precisa acabar
A manutenção do estupro se dá pelo machismo. É o machismo quem garante que a moral e a reputação do estuprador serão garantidas. É o machismo quem determina que o homem tem capacidade moral de esquivar de suas acusações pois é garantido a ele a posição de poder microssocial que põe a mulher na posição de louca, que está inventando coisas por não aceitar um “não”.

Mas a violência sexual não é só uma relação de poder, é também uma relação fundamentada sistematicamente. O estupro existe e é exposto cientificamente todos os anos com dados reais a respeito do assunto.

É necessário se articular de maneira ostensiva contra a normatização do comportamento agressor masculino. É necessário o incentivo à denúncia pra que menos mulheres se calem. E é mais do que necessário cobrar políticas sociais voltadas a prevenção do estupro com educação para os homens, porque mais do que encorajar mulheres a se proteger, precisamos urgentemente ensinar aos homens que a culpa do estupro é de quem estupra.

Não ensinem só as mulheres a como se proteger, ensinem aos homens a NÃO estuprar.

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