Salve Jorge: por nós amado



Por: Paula Nunes, de São Paulo, SP

No dia 10 de agosto comemoramos o aniversário de Jorge Amado. Baiano, nascido em 1912 na Fazenda Auricídia, no Sul do estado, e crescido em Ilhéus, era filho do Coronel João Amado de Faria e de Eulália Leal, o que lhe possibilitou cursar o ensino secundário no Colégio Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga, em Salvador.

Aos 14 anos, Jorge começou a participar da vida literária da capital soteropolitana como um dos fundadores da Academia dos Rebeldes, movimento formado por jovens que questionavam as estruturas da sociedade e da própria Academia Brasileira de Letras. Movimento importante na renovação da literatura baiana.

Escreveu o primeiro livro aos 19 anos, intitulado “O país do Carnaval”, ainda na Bahia, antes de iniciar os estudos na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro.

Foi na Faculdade de Direito que começou a militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB), organização pela qual foi eleito Deputado Federal em 1945. Viveu exilado em três períodos diferentes da vida: na Argentina e no Uruguai (1941-1942); em Paris (1948-1950); e em Praga (1951-1952).

Ao todo publicou 36 títulos, com os mais diversos temas, sendo os mais famosos: Capitães da Areia (1937); Gabriela, cravo e canela (1958); A morte e a morte de Quincas Berro d’água (1959); Dona Flor e seus dois maridos (1966); Tieta do Agreste (1977), entre outros.

Jorge, amado por nós, era dono de uma sensibilidade incrível. Reivindicava o materialismo histórico, é verdade, mas se orgulhava do título de Obá de Xangô recebido no Ilê Opó Afonjá. Escreveu sobre os meninos que não tinham casa e viviam como adultos nas ruas de Salvador e sobre a mulher que batalhou para viver o amor dos dois maridos.

A obra de Amado foi reproduzida em 49 idiomas diferentes e o número de prêmios literários que recebeu já nem cabe na biografia.

No mês de aniversário do nosso escritor comunista, o mais baiano e candomblecista de todos eles, cumprimos o papel de não deixar que suas obras e sua história sejam esquecidas.

Salve Jorge da Bahia, Obá de Xangô, o nosso Jorge Amado!

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2 Comments

  • Victor Hugo Ghiorzi

    Olá!
    Penso que são inquestionáveis a qualidade e a importância da literatura de Jorge Amado. No entanto, faz parte importante de sua biografia a adesão à escola do realismo socialista, produto nefasto do stalinismo. Essa característica se mostra muito presente no culto à personalidade de Prestes em O Cavaleiro da Esperança. Mas, talvez, o melhor(!!!???) exemplo seja o romance Os Subterrâneos da Liberdade, onde demoniza os personagens que representam os dissidentes do PC que iniciaram o movimento trotskista no Brasil, em especial Hermínio Saccheta. Sugiro, a respeito, a leitura do capítulo “Epílogo para um romance à revelia do autor” do livro Combate nas Trevas, de Jacob Gorender.

  • Boris

    Estranho muito o comentário apologético sobre Jorge Amado. Trata-se de um escritor de talento, cujos inícios sugeriam que desempenharia um papel social importante, mas que a meu ver foi corrompido pelo stalinismo. O mesmo ocorreu com os atores franceses Simone Signoret e Yves Montand; abocanharam o mercado soviético, evidentemente complacente com a defesa do stalinismo que faziam. O caráter ambíguo do stalinismo, notadamente durante a guerra fria e no momento histórico do anti-imperialismo, permitiu que Amado e outros artistas e intelectuais em geral garantissem para si monopólio ideológico e ganhos substanciais. Yves Montand, mais tarde, quando o stalinismo não era mais fonte de prestígio e de divisas, mostrou a que viera: tentou uma manobra idêntica ao ator de Hollywood Ronald Reagan e pretendeu ser candidato à presidência da França, com programa liberal. Deu-se mal, a burguesia tinha outros projetos.
    .
    Já Jorge Amado passou a fazer parte da corte de Toninho Malvadeza na Bahia, utilizando seu prestígio e seu talento para prosseguir numa carreira de livros folclóricos superficiais, com a pitada de sexo malandro que o público poderia apreciar. Isto colava bem, correspondia ao populismo de Antônio Carlos Magalhães. Nada de progressista, bem ao contrário. Mais tarde, Jorge Amado tornou-se cupincha de Sarney e parte de sua corte, como os palhaços medievais na corte dos príncipes.

    Bem mais tarde ainda, tive a oportunidade de interpelar Jorge Amado publicamente, indagando quando faria sua auto-critica, ir exemplo por ter emporcalhado um homem honrado, o trotskista Saccheta,
    Apresentado como policial sob o cognomine Saquila no livro “Subterrâneos da Liberdade”.. Ele, nem conseguiu entender: achou que eu falava de auto-crítica dos restos de socialismo que lhe restara, e fugiu ao debate. Eu desejava discutir seu papel na apologia do falso socialismo; ele havia dito por exemplo, ao relatar sua viagem ao Leste europeu no livro “O mundo da Paz”, que os escritores tchecos, graças ao pseudo-socialismo, viviam melhor do que a burguesia brasileira, quando sabemos (e se sabia, bastava procurar a informação), que eram oprimidos, o processo Slansky levara a condenação deste líder comunista e a sua execução. Os escritores dos países do Leste europeu viviam aprisionados pelo mal chamado “realismo socialista” e pela exigência de uma apologia inacreditável de Stalin e de sua guarda.

    Num debate com o escritor surrealista e revolucionário André Breton, Trotsky afirmou que o escritor deve ter liberdade total, seja ele,progressista, ou reacionário.. Como Trotsky, acredito que todas opiniões literárias devem coabitar e que não cabe ao poder, inclusive socialista, ditar-lhe regras. O conceito stalinista de “engenheiro das almas”, que Stalin e seu ministro da cultura Jdanov propunham, castra os talentos. Assim, nada me parece haver a dizer contra o direito de um Jorge Amado folclorizar as lutas sociais. Não há desonra alguma em gostar de Jorge Amado, de seus livros, de seu estilo. Outra coisa é saber identificar o pensamento reacionário e combatê-lo no plano das ideias. Por isso, acredito que o blog oficial de MAIS! não deveria apresentar de forma unilateral este personagem. A liberdade intelectual que devemos defender não impede a crítica necessária, sobretudo do comportamento dos escritores, músicos etc., que sem serem “engenheiros das almas” estão em posição de influenciar a política.
    Em outro momento, pretendo desenvolver o assunto, comentando a obra de grandes escritores como Padura, Vargas Llhosa, Graham Greene e outros.

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