A ordem do papa Francisco

Ronald León Núñez

“Os jesuítas constituíam uma organização militante, estritamente centralizada, agressiva e perigosa não apenas para os inimigos, mas também para seus aliados. Em sua psicologia e métodos de ação, um jesuíta da época “heroica” distinguia-se do padre comum, como um guerreiro da Igreja distinguia-se de seu mercador.” (Leon Trotsky. A moral deles e a nossa.)

O fato de que Mario Bergoglio, ex-arcebispo de Buenos Aires e atual papa Francisco, seja um jesuíta é um dos elementos que desperta simpatias entre os católicos (sobretudo da América Latina) e reforça a ideia de um suposto “giro progressista” da Cúria Romana.

Isto se deve a que, em um passado recente e como ocorreu com outras congregações, alguns religiosos jesuítas estiveram unidos à resistência popular contra as ditaduras na América Latina e aderiram aos postulados da chamada “Teologia da Libertação”1.

A esta questão soma-se uma valorização equivocadamente positiva do papel que os jesuítas cumpriram durante a colonização europeia no continente americano, principalmente seu trabalho à frente das famosas “Missões Jesuíticas”, imaginariamente assentadas em princípios igualitários e nas quais “protegiam” e “educavam” os indígenas.

Tudo isto, em muitos casos, criou a visão dos jesuítas como “austeros” e praticantes coerentes de uma “opção pelos pobres”, perfil que o novo Papa pretende explorar ao máximo para melhorar a maltratada imagem da Igreja católica.

Neste sentido, como nada surge do nada e sem motivo, faz-se necessário debater estas questões e propor, ao menos de forma resumida, alguns elementos que nos ajudna conhecer e entender melhor a Ordem religiosa da qual Bergoglio provém: a Companhia de Jesus.

Os soldados do Papa

Historicamente, a Companhia de Jesus é uma das congregações católicas mais influentes e poderosas. Fundada em 1534 por Ignácio de Loyola, um militar de origem nobre, obteve o reconhecimento papal em 1540.

A Ordem surge em um contexto de profunda crise da Igreja católica, quando a cúpula do clero estava, como agora, coberto por denúncias de corrupção, como a venda descontrolada de indulgências (documento que eximia as pessoas das penas pelos pecados cometidos); esta crise causou uma ruptura tão grande que originou o que se conhece como protestantismo.

Neste contexto de luta fracional e divisão cria-se a Companhia de Jesus, e seus membros alinham-se completamente à alta hierarquia católica no combate aos protestantes. Os jesuítas passam a realizar, além dos votos comuns de qualquer religioso (obediência, pobreza e castidade),um quarto voto, de obediência total ao Papa.

Ignácio de Loyola escreve, em 1554, as constituições jesuítas, dando origem a uma organização rigidamente disciplinada, abnegada, e disposta a realizar qualquer sacrifício para defender o Papa e a Igreja como instituição.

Sua legislação fundamental, conhecida como a “Fórmula do Instituto”, estabelece os objetivos da Ordem: “Militar para Deus sob a bandeira da cruz e servir só ao Senhor e à Igreja, sua Esposa, baixo o Pontífice Romano, Vigário de Cristo na terra”. Neste marco, o próprio lema dos jesuítas – Para a maior glória de Deus – sustenta-se no princípio organizativo de ser “disciplinado como um cadáver”, nas palavras de Loyola.

Desde então, os jesuítas são conhecidos e assumem-se como os “soldados do Papa”, pois sua subordinação ao Pontífice católico é incondicional e representa um princípio sagrado para a congregação. Para termos uma ideia desta obediência cega, é ilustrativa esta regra de um dos escritos de Ignácio de Loyola: “Para estarmos sempre certos, devemos sempre sustentar que o branco que eu vejoé preto, se a Igreja Hierárquica assim o determinar”.

Com estes preceitos fundamentais, a Companhia de Jesus constituiu-se em um setor de elite, em uma força intelectual e, sobretudo, militante, dentro da Igreja. O caráter “guerreiros da Igreja”, como dizia Trotsky, é claro nesta congregação; sua estrutura interna é completamente militar, sempre pronta para atuar. Dizia Loyola: “Os nossos são como cavalos ligeiros, que têm de estar sempre prontos para fazer ataques surpresa aos inimigos e se retirar e andar sempre em escaramuças de uma parte a outra”. Para sua melhor atuação, dividem-se geograficamente em regiões conhecidas como “Assistências”. Estas Assistências contêm diversas Províncias independentes e Regiões; seu máximo líder mundial é o Superior Geral, um cargo vitalício2 eleito em uma “Congregação Geral”.

Para que não se pense que estes princípios e esta concepção organizativa pertencem ao passado, é interessante ler a descrição que Urbano Valero, ex-Provincial da Ordem no Estado espanhol fez recentemente:

“Os jesuítas têm uma longa tradição de ‘servir à Igreja sob o Pontífice Romano’, tão longa como nossa própria história. Para isso fomos fundados e nisso permanecemos sempre, mesmono período em que a Companhia de Jesus esteve formalmente suprimida pelo papa Clemente XIV. É algo que pertence ao nosso código genético, que conservamos e transmitimos zelosamente de geração em geração, o que, em expressão de S. Ignácio de Loyola, constitui nosso princípio e principal fundamento. Por isso, o empenho de ‘em tudo amar e servir à nossa santa mãe Igreja hierárquica’ tem estado, está e estará sempre vivo e ardente em nosso emprenho”.

No mesmo sentido, o Papa Paulo VI (1963-1978) descreveu os jesuítas, em verdadeiro tom de homenagem, com estas palavras: “Onde quer que na Igreja, inclusive nos campos mais difíceis ou de primeira linha, houve ou há confrontações: nos encontros de ideologias e nas trincheiras sociais, entre as exigências do homem e a mensagem cristã ali estiveram e estão os jesuítas”.

Isto significa que os jesuítas estiveram e estão ao serviço do Papa onde for, quando for e como for. Onde for necessário defender a Igreja de seus inimigos, ali estarão os ignacianos. Foi assim contra os protestantes, contra o liberalismo em defesa das monarquias, contra o “perigo comunista” em defesa do capitalismo-imperialista. Uma das últimas petições explícitas de um Pontífice à Companhia foi a de enfrentaro ateísmo, encomendada pelo próprio Paulo VI em 1965.

Em toda a crise atual, Ratzinger também encomendou missões a seus soldados. Na ocasião da renúncia de Benedito XVI, o superior Geral da Companhia de Jesus, Adolfo Nicolás, escreveu em 12 de fevereiro uma carta “a toda a Companhia” onde diz que recebeu a notícia da renúncia do Papa com “respeito” e “admiração” pela “liberdade espiritual, humildade e profundo amor que o Papa mostra à Igreja”.

Assinalou, ademais: “Sentimo-nos profundamente agradecidos pela confiança e a inspiração que o Santo Padre nos dispensou ao longo de seus anos de pontificado”. Neste sentido, na mesma carta recorda que durante a Congregação Geral 35 (2008) da Ordem, “o Papa nos manifestou sua proximidade e confiança na Companhia de Jesus, e nos lançou o desafio de ‘atingir aqueles lugares físicos e espirituais que outros não conseguem ou acham difícil fazê-lo’”. Finaliza fazendo um novo chamado de obediência e disciplina para cumprir a ordem de Ratzinger: “Seguindo o espírito do quarto voto, que vincula a Companhia de Jesus de modo muito especial com o Pontífice Romano, oremos pelo Papa Benedito XVI, e renovemos nosso compromisso com a missão que confiou à Companhia”..

Vanguarda na “evangelização”

Sua devoção pelo Papa e o compromisso com a tarefa de “levar a salvação e a perfeição aos próximos” levou-os a encabeçar tarefas de evangelização nos mais distantes lugares e nas mais difíceis condições.

Os primeiros jesuítas tiveram uma atuação destacada na luta contra a reforma Protestante, no Concílio de Trento. Em toda Europa, como batismo de fogo, combateram os protestantes com vigor. No marco desta batalha, cidades como Munique ou Bonn, na Alemanha, que em princípio tiveram simpatia pelas ideias de Lutero, acabaram sendo bastiões católicos. O mesmo se passou em Portugal, onde foi o próprio monarca João III quem solicitou a Loyola o envio de missionários de sua Ordem para enfrentar a influência luterana.

Desta forma, a Ordem expandiu-se e cresceu ao compasso de cada vez mais importantes missões que lhe eram encomendadas. Foi desse modo que chegaram ao Reino do Congo (1547), ao Ceilão e ao Marrocos (1548), à China (1552), à Etiópia (1555) e ao Japão (1580). Em todos estes lugares, demonstrando uma alta capacidade para aprender as diversas línguas e adaptar-se à cultura local, criaram colégios, universidades, cumpriram missões diplomáticas ou eram diretamente educadores, conselheiros e confessores de reis e membros da nobreza europeia.

Mas foi na América, durante a conquista e colonização europeias, que os jesuítas cumpriram um de seus principais serviços à Igreja católica e as classes dominantes da época. E onde o nascente capitalismo precisou de todos seus recursos para se impor, ali estiveram os “soldados do Papa”, que desembarcaram em solo americano com a cruz em uma mão e a espada na outra.

Os jesuítas na América

Os jesuítas chegaram ao Brasil (na Bahia), encabeçados pelo sacerdote Manuel da Nóbrega em 1549, durante o generalato do próprio Loyola. Depois ingressaram na Flórida, Peru, Bolívia, México, Canadá e outras regiões.

De acordo com suas nacionalidades, os missionários jesuítas distribuíram-se nas diferentes colônias das potências europeias. Onde se instalavam ou fundavam cidades, estas se transformavam em pontos de expansão da colonização europeia, como foi o caso de São Paulo, fundada em 1554.

Os primeiros colonizadores levaram várias congregações religiosas, principalmente de franciscanos e dominicanos. Como é sabido, a chegada dos europeus foi recebida por uma resistência armada por parte das populações originárias. Finalmente, após muita luta e depois de terem sido derrotados pela superioridade militar dos europeus, milhões de indígenas foram reduzidos à condição de servos ou semiescravos através de sistemas de exploração como a Encomienda e a Mita3, que em breve lapso causaram uma horrível mortandade entre a população autóctone.

Os rumos descontrolados da conquista e a existência de um setor de indígenas que continuava combatendo o invasor fez com que monarcas como Carlos I da Espanha e Dom João III de Portugal pedissem que a “evangelização” fosse entregue aos jesuítas, relegando em certa medida as outras ordens.

Os ignacianos se jogaram, desde sua chegada, à tarefa de tentar domesticar, por meio da evangelização, os povos indígenas que não podiam ser submetidos militarmente.

No marco da missão de fazê-los dóceis à dominação dos conquistadores europeus, através do convencimento e da assimilação de todos os valores e da religião católica imperantes nas metrópoles, os jesuítas, entre outras medidas, criaram e administraram enormes complexos agrícolas, que ficaram conhecidos como as Missões jesuítas e que estavam conformadas por um sistema que abarcava “trinta aldeias indígenas”. Destas trinta “missões”, quinze estavam assentadas no atual território argentino, oito no paraguaio e sete no Brasil. Administravam a exploração de chumbo, prata e zinco nas minas de Paramillos de Uspallata (atual Argentina), com a força de trabalho indígena previamente “evangelizada”.

O sistema político dentro das Missões baseava-se na subordinação estrita às autoridades coloniais e, dentro do recinto, aos religiosos jesuítas. As Missões eram, além de centros de produção de produtos para exportação, postos avançados para a penetração europeia em solo americano, e serviram de base de operações para a fundação de dezenas de povoados em suas imediações.

Em seu momento de auge as Missões chegaram a concentrar 150 mil indígenas. Os religiosos, para converter os nativos, prometiam protegê-los das incursões dos temidos bandeirantes, que saíam de São Paulo e outros pontos com o objetivo de caçar indígenas e escravizá-los. Os jesuítas, que defendiam métodos de exploração diferentes da escravatura no estrito sentido, de fato tiveram vários confrontos com os caçadores de indígenas que várias vezes invadiram os povos das Missões. Daí a ideia do caráter “protetor” e “mais humano” de sua relação com os povos indígenas.

Mas isto não significa que os religiosos não exploravam os indígenas dentro de seus domínios. Nas Missões, a enorme massa de indígenas trabalhava duro na produção (para a exportação) de mate, couros, madeira e na criação de milhares de cabeças de gado. Durante a colheita, por exemplo, milhares de indígenas transportavam cargas bem mais pesadas que seu próprio corpo rumo aos povoados, percorrendo distâncias de mais de 100 quilômetros.

A distribuição das terras era a seguinte: as mais férteis eram do “Tupamba’e” (a Igreja); as mais pobres correspondiam ao “Tavamba’e” (propriedade comunal) e as piores ao “Avamba’e” (ao indígena individual). O indígena podia usufruir uma parte das terras para produzir o necessário para que sua família subsistisse, mas estava obrigado a pagar tributos em espécie e a trabalhar nas terras do “Tupamba’e”.

Obviamente, o indígena não era proprietário de nada, pois todas as terras, na prática, pertenciam à Igreja. Em “compensação” pelo trabalho, os religiosos garantiam comida, moradia, vestimenta e uma educação centrada no catecismo e no ensino de certos ofícios e artes, sempre dentro dos cânones católicos. Nas Missões, os jesuítas tiveram sempre o bom tino político de aprender as línguas indígenas e, até onde fosse aceitável, combinar a cultura e símbolos religiosos guaranis com os católicos.

Por seu trabalho pacificador (que, por sua vez, era muito lucrativo), durante quase dois séculos, os jesuítas obtiveram muitos direitos e mordomias da Coroa espanhola; não somente terras, mas o direito de dispor em forma exclusiva de mão de obra indígena, a isenção de impostos nos portos do Rio da Prata e o direito a possuir sua própria força militar. Isto lhes deu muita autonomia e lhes permitiu um bom acúmulo de capital.

No século XVIII, a Companhia de Jesus quase monopolizava o comércio exterior na zona das Missões, sobretudo na então Província do Paraguai, em especial o comércio de mate, principal produto de exportação. Esta situação chegou a tal ponto que começou a criar receios e oposição na incipiente oligarquia mercantil nativa, que se queixava e acusava os jesuítas ante o rei de terem a pretensão de criar um “estado independente” dentro das posses da Coroa.

No entanto, a monarquia ibérica mantinha seu respaldo aos jesuítas, que continuavam prestando valiosos serviços. Neste marco, por exemplo, estes religiosos cumpriram um papel de vanguarda no aniquilamento físico da chamada Revolução dos Comuneros, gestada no Paraguai entre 1721-1725 e 1730-1735. Esta revolução proclamava a soberania do povo sobre o monarca e, entre outras coisas, opunha-se às Missões, pois estrangulavam o desenvolvimento de um setor comercial e latifundiário local. Quando o confronto se fez físico, os jesuítas, a pedido da realeza, organizaram e encabeçaram um poderoso exército de 8.000 indígenas saídos de suas Missões, e finalmente derrotaram os revolucionários na batalha de Tavapy, ocorrida em março de 1735.

Estes são só alguns elementos que demonstram a enorme contribuição da Companhia de Jesusna colonização e no saque europeu da América, empresa da qual foram parte integrante.

Expulsão e exclusão

No entanto, a partir de disputas comerciais e políticas entre os monarcas e a Igreja na Europa, os jesuítas são expulsos da Espanha e suas colônias em 1767, e foram desterrados de Portugal em 1762 e da França em 1764. As pressões foram tais que a Ordem chegou a ser suprimida pelo Papa Clemente XIV, em 1773.

Só serão readmitidos e reabilitados ao seio da Igreja católica em 1814, durante o Congresso de Viena, coincidentemente no marco do combate que as decadentes monarquias davam contra o avanço dos preceitos liberais da Revolução Francesa e o processo independentista nas colônias americanas. Neste período, no entanto, a Ordem continuou existindo a partir do refúgio oferecido pela Czarina Catarina, a Grande, do Império Russo, bastião da reação europeia, que nunca promulgou o edital de exclusão.

A exclusão não mudou em nada a relação de obediência ao Papa, e nos principais confrontos de classe posteriores continuaram localizando-se ao lado dos opressores.

No século XX, quando começa a revolução espanhola, a Ordem dos jesuítas possuía um terço da riqueza nacional e era um importante apoio político da monarquia decadente. Devido a suas atividades contrarrevolucionárias, a Segunda República Espanhola a dissolve e apreende, através do decreto de 23 de janeiro de 19324, todos os bens da Companhia de Jesus por obedecer a um poder estrangeiro (o Papa) e conspirar ao lado dos setores monárquicos. No período final da guerra civil espanhola, durante o qual muitos sacerdotes jesuítas tomaram as armas nas fileiras de Franco, este decreta, em 3 de maio de 1938, a revogação do decreto republicano e lhes restabelece seus bens.

“Progressistas” e “defensores da modernidade”?

É todo este passado que se tenta distorcer ou esconder, no marco da eleição de Bergoglio como Papa, que, por sua vez é parte de uma política global para tirar a Igreja católica de sua crise histórica.

O interessante é que nesta campanha mundial para levantar a Igreja católica, construindo uma imagem positiva e “renovadora” do novo Papa, convergem desde os mais reacionários até os antigos membros da Teologia da Libertação.

Neste sentido, os brasileiros e ex-sacerdotes Leonardo Boff e Roberto Romano não economizaram argumentos para criar expectativas no novo Papa. Um desses argumentos é o fato dele ser membro da congregação jesuíta e sua relação com determinados movimentos “progressistas” dentro da Igreja.

Boff celebrou a eleição de Bergoglio porque “um jesuíta tem uma cabeça bem formada” para, segundo sua visão, “renovar” a cúpula católica. Romano, um filósofo de renome, também se apoiando no fato de que o novo Papa é jesuíta, afirmou que poderá “dialogar com a ciência e a modernidade”, pois os jesuítas seriam “verdadeiros guerreiros na luta pela conquista da modernidade na Igreja católica” (Folha de São Paulo).

A ênfase que os jesuítas dão à formação intelectual não foi nem poderá ser nunca um elemento que possa “iluminar” ou “modernizar” a Igreja, pois toda essa formação esteve e está ao serviço da defesa da retrógrada doutrina e da instituição católica como um todo. Os “amplos conhecimentos” dos jesuítas sempre foram uma arma para combater os inimigos do catolicismo. Neste sentido, o “estudo da ciência” nunca impediu, por exemplo, a participação jesuíta na Inquisição ou nas campanhas mais reacionárias.

Por outro lado, a participação de determinados sacerdotes jesuítas na Teologia da Libertação, em movimentos populares e até na luta armada contra as ditaduras latino-americanas, não significa que a Companhia de Jesus, como instituição, tenha apoiado esses movimentos. Como Ordem, sempre se disciplinaram ao Vaticano, que condenou essa corrente e castigou todos seus líderes. Por este motivo, enquanto alguns sacerdotes jesuítas, como os argentinos Yorio e Jalics (que nem sequer foram guerrilheiros ou algo parecido), faziam trabalho comunitário nas favelas, seu superior Provincial, o atual papa Francisco, tirou-lhes a licença sacerdotal.

Além disso, a adesão de um setor de sacerdotes latino-americanos à chamada Teologia da Libertação não foi um fenômeno que envolveu só os jesuítas, mas quase todas as ordens com algum contato com setores populares, como os franciscanos, dominicanos, etc.

Os jesuítas hoje

Atualmente, a Companhia de Jesus é parte da crise global da Igreja católica. Embora continuem administrando numerosos colégios e universidades em vários países (só no Brasil dirigem cerca de 200 universidades e 180 colégios), é notória uma diminuição em suas fileiras.

Quando Bergoglio, atual Papa, assumiu o cargo de Provincial da Argentina, em 1973, existiam 30 mil jesuítas em todo o mundo (a Ordem chega a seu auge em 1965, com 36 mil). Passados 40 anos, são menos de 18 mil.

Sem dúvidas, também são afetados pela chamada “crise de vocação” da Igreja, que se expressa em uma queda do número de sacerdotes jesuítas ou em preparação para o sacerdócio. A idade média dos jesuítas hoje é de 57 anos e toda esta redução tem motivado a unificação de Províncias e o fechamento de várias obras missionárias.

Não obstante, continuam sendo a maior Ordem religiosa da Igreja católica, com presença em 127 países de todos os continentes e contam com seis cardeais. Com toda certeza, tentarão capitalizar a chegada de um dos seus ao máximo cargo no Vaticano. O superior geral dos jesuítas, Adolfo Nicolás, relatando sua visita ao papa Francisco, expressou: “Ofereci-lhe todos os recursos de que dispõe a Companhia, já que, em sua nova situação, sentirá necessidade de pessoas, grupos de conselho e reflexão” .

Após um breve percurso pela história e analisando o papel exercido pela Ordem dos jesuítas, sempre convocados em tempos de crises e perigo da Igreja católica, resulta pouco surpreendente a designação de um ignaciano à frente da tão questionada última monarquia absoluta do mundo. Também não é possível duvidar de que, talvez mais que nunca, continuarão cumprindo com sua missão histórica: ser os “soldados do Papa”.

Notas:

1 A Teologia da Libertação é um corrente que surge no seio da Igreja católica na década de 1960, com o fim de dar uma explicação teológica (e tentando desviar) ao ascenso revolucionário do movimento de massas ena América Latina. Para conter o rumo de um setor de massas e da vanguarda social para posições revolucionárias, esta corrente incorporou certa linguagem “marxista” e reivindicou como justa a luta contra as injustiças, propondo questões como: “Como conseguir que a fé não seja alienante, mas libertadora?”. A Igreja católica, com João Paulo II e Ratzinger à cabeça, combateu e condenou a teologia da libertação, argumentando que “suas origens marxistas não são compatíveis com o Evangelho”.

2 A exemplo do Papa, pois a maioria das demais ordens religiosas têm prazos definidos para a duração dos principais mandatos, em alguns casos com possibilidade de reeleição.

3Encomienda e Mita: sistemas de colonização indígena na América espanhola, principalmente no Peru e México. A Encomienda – pela qual nobres espanhóis recebiam terras para colonizá-las – pode ser comparada às Capitanias Hereditárias no Brasil e a Mita ao trabalho escravo.

4 Diz o texto inicial do decreto: “O artigo 26 da Constituição da República espanhola declara dissolvidas as Ordens religiosas que estatutariamente imponham, além dos três votos canônicos, outro especial de obediência a outra autoridade, além da legítima do Estado, devendo ser nacionalizados seus bens e afetados a fins benéficos e docentes. (…) a Companhia de Jesus distingue-se de todas as demais Ordens religiosas pela obediência especial à Santa Sé, como o demonstram, entre inumeráveis documentos, a Bula de Paulo III, que serve de fundamento canônico à instituição da Companhia e as próprias Constituições desta, que de modo eminente a consagram ao serviço da Sede Apostólica (…)”