ESPECIAL

Especial Guerra dos Farrapos

Todo ano no mês de setembro o Rio Grande do Sul é tomado de um orgulho regional raro. Há desfiles nas cidades, há bandeiras e comemorações desde o pequeno comércio até as grandes indústrias. Nos bairros muitas pessoas se vestem “à rigor”. Em qualquer canto de qualquer cidade se formam piquetes farroupilhas. Mesmo multinacionais trocam suas marcas por logotipos com as cores da bandeira do RS. A população não importa a classe social, gênero ou raça fica embriagada com este “orgulho de ser gaúcho”. A comunidade LGBT talvez seja a única que de tanto apanhar dos “tradicionalistas” expressa alguma repulsa mais espontânea, por fora dos movimentos organizados. Aqui orgulha-se mais de cantar o hino do Rio Grande do que o hino do Brasil. As elites gaúchas através da RBS e dos CTG’s vão contar uma história sobre esta guerra e sobre o significado de ser gaúcho. Nós do Esquerda Online apresentamos este especial porque queremos contar outra.

Remando contra a maré queremos contar a história real. Queremos contar sobre a história da traição e genocídio dos lanceiros negros. A história dos Centros de Tradição Gaúcha que não aceitam LGBTS. Quais classes e interesses estavam em jogo nesta guerra. Observações sobre ideologia e o gauchismo atual. E tudo o mais que conseguirmos investigar e contribuir sobre o 20 de setembro.

O Especial contou com a indispensável colaboração de diversos ativistas dos movimentos sociais através de textos, notícias e entrevistas. Mas, é sobretudo um especial ainda em construção. Não temos uma linha editorial própria para além da defesa incondicional dos de baixo e queremos convidar todos os leitores e leitoras a também escreverem, criticarem e serem parte desse movimento de luta contra a visão burguesa alimentada pela RBS e seus satélites.

Por: Setembrino Dal Bosco

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Na região platina [Rio Grande do Sul, Argentina, Paraguai e Uruguai] um personagem polêmico ocupa lugar de destaque na historiografia sul-rio-grandense contemporânea: o gaúcho-gaucho. De consenso historiográfico, apenas a sua origem: o gaúcho teria se formado do nativo destribalizado, desgarrado, do contato do europeu com o indígena e vagueava pelos campos platinos. Nos períodos setecentista-oitocentista os trabalhadores do campo eram identificados como peões, cavaleiros, gaúchos, camiluchos, gaudérios, gauchos e changadores e considerados a ralé do Rio da Prata e Brasil. Colonos contrabandistas que comercializavam, ilegalmente, couros de gado.

Os couros eram entregues aos traficantes europeus. Viviam as margens da lei. Homens de má índole. Aproveitavam-se das guerras territoriais fronteiriças entre Portugal e Espanha para pilhar gado nas estâncias portuguesas. A caça ao gado era a principal atividade do gaucho e lhes rendia algum dinheiro e produtos como a aguardente, garantindo assim, sua sobrevivência e seu modo de vida. Donos de uma liberdade invejável com moral, gosto e costumes irrefreável pela ordem social vigente.

Eram excelentes cavaleiros e se identificavam com o cavalo. O cavalo era sua extensão. Sentia-se um homem superior no lombo de um cavalo. A pé, era “um homem ordinário”. A habilidade no cavalgar estava, em certa medida, definida antes mesmo que o gaucho tivesse condições de determiná-la. Ainda crianças, essa atividade era o principal meio de sobrevivência dos gauchos. Manuseavam com maestria a boleadeira, lança, facão e laço. Passavam as noites ao relento e se alimentavam basicamente de carne.

A maioria dos viajantes que estiveram pelo território sul-rio-grandense, no século 19, referem-se aos gauchos como um ser irresponsável, que não se apegava à família, ao trabalho, era um ladrão de gado e passava a maior parte do tempo nos bolichos-pulperias, bebendo, cantarolando e jogando cartas.

Peão de estância
O gaúcho contemporâneo idealizado e materializado no Rio Grande do Sul resulta da unificação dos modos e costumes do peão de estância, trabalhador assalariado, que vendia a sua força de trabalho ao estancieiro, com o gaucho ladrão de gado, contrabandista, sem chefe, sem lei, sem polícia e sem governo. Os peões de estância eram, na sua grande maioria, nativos guaranis. Devido as suas habilidades na montaria e domesticação do gado, sobretudo, cavalar-muar, eram muito requisitados para trabalho nas Estâncias do Rio Grande do Sul. Eram os trabalhadores das lides do campo, responsáveis pelo amansamento e vigilância dos rebanhos.

Deduz-se nos relatos dos viajantes que estiveram nos territórios do Rio Grande do Sul que os nativos, com a destruição dos sete povos em meados do século 18, acabaram se estabelecendo nas estâncias exercendo o trabalho de peão. Os gauchos se empregavam esporadicamente como peões de estância, quando estavam sem dinheiro.

O contato dos imigrantes interno e externo com os peões nativos, trabalhadores escravizados e com o gaucho nas lides campeiras aproximou costumes e modos de vida diferenciados. Os primeiros já domesticados e estabelecidos nos limites da estância. O segundo levando uma vida sem chefes, sem leis e sem polícia, mas com uma habilidade enorme em laçar, caçar, courear, cavalgar, arrebanhar, vigiar etc., permitindo a apropriação por parte dos peões das qualidades dos gaúchos.

O mito do bom gaúcho
Possivelmente, o mito do bom gaúcho tenha surgido de uma forma paralela e concomitante, acompanhando a evolução de outro mito da historiografia sul-rio-grandense: a democracia pastoril. De uma maneira geral, a historiografia tradicional do Rio Grande do Sul apresenta uma sociedade homogeneizada, onde a atividade pastoril imprime traços característicos especiais ao gaúcho, de simplicidade e igualdade. Onde todos cultivam os mesmo ideais, hábitos e costumes. Em um ambiente que não tem diferenças sociais, o esforço é o trabalho comum entre latifundiários e seus servidores. Gerando homens leais e corajosos, dispostos a qualquer ato de heroísmo ou bravura pelo bem comum.

No contexto do desenvolvimento da sociedade pastoril latifundiária do século 19, onde o fazendeiro, dono da estância, era, de acordo com o mito da democracia pastoril, benevolente até mesmo com seus trabalhadores escravizados, aos poucos, de uma forma lenta e gradual, o mito ideológico do bom gaúcho foi sendo construído, desconsiderando as características do gaucho histórico, suprimindo os seus defeitos e preservando as suas qualidades.

Decretou-se a morte do gaúcho real e, de suas cinzas, como uma fênix grega, renasceu o gaúcho sul-rio-grandense idealizado – romanceado. Um trabalhador sincero, franco, bondoso, honesto, servil, ético, patriótico, etc. um exemplo de dedicação ao estancieiro.

O gaúcho idealizado
O gaúcho apareceu, na sua feição primitiva, em terras do rio da Prata. E começou a esboçar-se, como tipo social, a partir de 1536, data da primeira fundação de Buenos Aires. Apesar de existirem traços comuns entre os gauchos que vagueavam na região platina, como o cavalo e o boi; a carne assada e o mate amargo; o couro e o sebo; o luxo dos aperos e outros apetrechos de montaria; indumentárias de uso comum – chiripá; armas – a faca, a lança e as boleadeiras – etc., a historiografia tradicional sul-rio-grandense defendeu, e defende com unhas e dentes, que naquela região existiriam três tipos de gaúchos: o argentino, o uruguaio e o rio-grandense.

Escorando-se no mito da democracia pastoril, a figura do bom gaúcho sul-rio-grandense começou a ser construída na literatura romântica, em 1868, tendo o jornalista e professor Apolinário Porto Alegre como um dos principais construtores desse mito. Apolinário foi um personagem atuante na literatura sul-rio-grandense do século 19. Foi poeta, contista, romancista, dramaturgo, ensaísta, pesquisador, crítico literário etc., e um dos principais fundadores do Partenon Literário. O Paternon literário foi fundado em 1868 por literatos liberais, republicanos e abolicionistas de Porto Alegre, entre eles Apolinário Porto Alegre e o romancista Caldre e Fião, com o objetivo de agregar intelectuais para discutir filosofia, política, cultura e comportamento e sociedade.

A tese orientadora do “bom gaúcho” provavelmente tem origem nas elaborações do tradicionalista Antônio Augusto Fagundes, por volta de 1940, que escreveu sobre os hábitos e costumes diferenciados dos gaúchos sul-rio-grandenses, em relação aos diferentes tipos de gaúchos que vagueavam pelos campos da região platina. O eixo central das elaborações apresenta o gaúcho dos pampas do Rio Grande do Sul como um homem honrado, destemido, bondoso, valente, franco, defensor da pátria, honesto, etc. Ataca ferozmente a visão pangauchista e, sobretudo, os historiadores que andam em busca do gaúcho real.

Sem chefes, sem lei, sem polícia
Enquanto os gaúchos da banda de cá eram enaltecidos pelos literatos sul-rio-grandenses como sinônimo de liberdade, honradez, valentia, bravura, hospitaleiros, responsáveis, honrados, violentos apenas quando “lhe pisavam no poncho”, o gaucho da banda de lá – Argentina, Uruguai e Paraguai – eram estereotipados como selvagens, violentos, assassinos, ladrões de gado, saqueadores, mulherengos, bêbados, jogadores, irresponsáveis etc. apesar de que, na sua origem, possuíssem as mesmas características.

Os gauchos construíram um modo de vida próprio, um grupo social que vivia sem chefes, sem leis, sem polícia. A desobediência dos gauchos das normas e regulamentações vigentes, sua relutância em se estabelecer definitivamente, despertou nos estancieiros da região platina, à vontade de enquadrá-los no modelo de organização social existente. Os estancieiros na tentativa de refrear o modo de vida dos gaúchos impunham regramentos inócuos, sem efeito prático, aos bolicheiros, como fechar o estabelecimento aos domingos, proibição dos jogos de cartas, da venda de bebidas alcoólicas.

Gaúchos diversos e difusos
Na tentativa de encontrar uma justificação plausível para diferenciar o bom gaúcho sul-rio-grandense do mau gaúcho que vagueava pelos pampas da Argentina, Uruguai e Paraguai, criou-se um processo evolutivo de gaúcho: gaudérios, guaso, gaucho, gaúcho. A figura do pré-gaúcho exerceu importante papel na construção do mito do bom gaúcho. No começo o conceito gaúcho era muito vago. Por ser vago açambarcava todos os errantes e vagos dos pampas platinos – gaudérios, changadores, guapos, gaúcho malo, gauchos e gaúchos – sob sua guarda. Em regra, os adjetivos que acompanhavam o personagem eram depreciativos.

No entanto, nos relatos dos viajantes que aqui estiveram, e presenciaram in loco o modo de vida daquele ser de disposições taciturnas e apáticas, todos eram nascidos na região platina, tocavam muito mal uma guitarra, cantavam desafinadamente, caçavam gado com suas boleadeiras e lanças, comiam carne assada, dormiam ao relento, eram bons cavaleiros, usavam botas, esporas de latão, sombrero, poncho, chiripá, ganhavam dinheiro com o contrabando de couro, não tinham patrão, não trabalhavam a terra, não sabiam o que era governo, freqüentavam bolichos-pulperias onde jogavam, bebiam aguardente e se divertiam com as mulheres.

A historiografia tradicional sul-rio-grandense tratou de diferenciar cada um deles. Os de boa índole, os bons, habitavam única e exclusivamente os pampas do Rio Grande do Sul. Os de má índole, os maus e os feios – gaudério, guapo, gaúcho malo, gaucho etc. – habitavam os territórios pampeanos do Paraguai, Uruguai e Argentina. Utilizando este expediente, sem sequer ficarem enrubescidos, nossos historiadores tradicionais determinaram que o gaúcho violento, mau caráter, ladrão de gado, eterno inimigo da sociedade, indomável, aventureiro, jogador. etc. pertencia às populações castelhanas. Por outro lado, o gaúcho do Rio Grande do Sul era sóbrio e ordeiro. Um exemplo!

Todos gaúchos platinos
Apesar dos criadores do mito do bom gaúcho sul-rio-grandense terem e continuarem se esforçando ao máximo para tentar sustentar a surrada tese, justificando esta tentativa de diferenciação em gaúchos diversos e difusos como gaudério, guapo, gaúcho malo, gaucho. todos adjetivos que identificam o gaúcho da banda de lá, ou seja, o mau gaúcho, criando, inclusive, numa concepção darwinista, a existência do pré-gaúcho, não há mais espaço para negar que o gaúcho do Rio Grande do Sul era o mesmo gaucho da região platina.

O gaucho real morreu com o cercamento dos campos em 1870. A cerca transformou o gaucho em invasor. O roubo do gado, que nas palavras do viajante francês August Saint-Hilaire, que esteve nos pampas do RS em 1820, era considerado como “cousa legítima”, passou a ser tratado como crime de abigeato passível de condenação pela justiça. O gaucho ultrapassava a cerca, caçava o gado e era preso e condenado.

Aos poucos, com a evolução da atividade pastoril latifundiária na região do Prata, a estância foi engolindo o gaucho real, reduzindo seu espaço vitalício, demarcando os pampas sul-rio-grandense e platino e, o seu lugar foi tomado pelo peão de estância, que possuía algumas características dos gaúchos como agilidade no laço, bons nas lides campeiras e no cavalo mas que não era o gaúcho histórico, pois o peão de estância aceitava de uma forma passiva e submissa a exploração da sua força de trabalho pelo latifundiário.

Acordo historiográfico há quando se trata da origem do gaúcho. Não há acordo quando se trata da possível diferenciação existente entre as características do gaucho da região platina com o gaúcho do Rio Grande do Sul. O gaúcho – gaucho era o ser errante e vago que, no lombo de um cavalo, portando apenas suas armas para caçar e se defender, campeava pelos campos da região do Prata tendo uma vastidão ao seu alcance. E as autoridades do Rio Grande do Sul insistem em enaltecer, anualmente, em setembro, durante a Semana Farroupilha, a eternização do mito.

Fontes
Fonte da foto: http://www.museopagodeloslobos.com.ar/2010/05/gauchos-frontera-de-la-civilizacion-y.html
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MAESTRI, Mário. Deus é grande o mato é maior: História, trabalho e resistência dos trabalhadores escravizados no RS. Passo Fundo: EdiUPF, 2002.
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SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul 1820-1821. Trad. Leonam de Azeredo Penna. Belo Horizonte: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1974.

Por: Hemerson Ferreira*

14218560_1073711412744403_35936030_nEm 1947, jovens folcloristas urbanos reunidos em um apartamento em Porto Alegre resolveram recriar um Movimento Tradicionalista Gaúcho. O contexto histórico era o do início da Guerra Fria. Após o fim da ditadura estadonovista de Getúlio Vargas, o presidente era o general Eurico Gaspar Dutra, um dos mais reacionários que o Brasil já conheceu.

Notório lacaio dos EUA, Dutra havia fechado a Central Geral dos Trabalhadores (CGT), tornou o PCB ilegal, rompeu ligações diplomáticas com a URSS, criou uma lei que tornava todos as atividades laborais como essenciais e por isso proibidas de fazerem greves, com raríssimas exceções, como a dos perfumistas.

É neste clima que o MTG surgia, buscando resgatar uma pretensa Era de Ouro perdida do Rio Grande do Sul. Os regionalismos deixaram de ser proibidos, como na ditadura de Vargas, e buscava-se então re-emplacar uma cultura subnacionalista chauvinista, que voltava com força.

Voltava-se os olhares melancólicos para o passado, pretendendo recriá-lo e, se necessário, inventando o que fosse preciso para preencher as lacunas ainda desconhecidas daquela história, como confessaram os criadores do novo tradicionalismo. O termo Movimento e Tradição mostram certa contradição. Como algo pode mover-se e se conservar? Certamente era um mover-se para trás.

O tradicionalismo gaúcho é um elogio ao mundo rural, à fazenda, às lides do campo numa propriedade latifundiária. Em seus Centros de Tradição (CTGs), apresenta-se uma recriação lúdica e fantasiosa das relações patrão e empregado.

No topo da pirâmide social reina o patrão, seguido do capataz, os peões, os cavalos, os cachorros e as prendas, nesta ordem. O negro escravizado não existe, desaparece na versão caramelada da antiga fazenda gaúcha. Patrões e empregados confraternizam ao som de violas e gaitas, servindo chimarrão uns aos outros, entre histórias de valentia, com piadas machistas que incluem com orgulhoso deboche até zoofilia. Gaúcho que tinha um cavalo tinha um amigo. E quem tinha uma égua, tinha uma namorada, zomba o piadista quando uma dama não está por perto.

Alguns anos depois, o folclorista Paixão Cortes pousou para o brilhante artista Antônio Caringi na elaboração de uma estátua que acabou vencendo o prêmio de arte tradicionalista. Fez um cosplay de gaúcho, dando uma versão ao sujeito social marginalizado no passado sulista, filho bastardo do colonizador espanhol e português com a indígena americana violentada. Com os antigos campos abertos fechados pelos alambrados, o gaúcho original teve de se tornar militar, trabalhador da fazenda ou bandido. O “gaúcho” branco da estátua do Laçador na verdade é uma representação do peão de estância, também romanceada, ficcional, e em quase nada parecida com o gaúcho do passado.

Há muito tempo o trabalho rural, da lavoura ou pastoril, não representa mais as principais atividades econômicas no Rio Grande do Sul. Aqui no RS o grosso do mundo do trabalho se dá nas cidades, nas relações entre patrões e empregados assalariados. Mas o tradicionalismo é estimulado pelos governantes e pela grande imprensa local, justamente pelo seu conteúdo ideológico conservador e ‘conciliador’ de classes. Aqui nasceu também o MST, na luta dos trabalhadores, homens e mulheres do campo, por um pedaço de terra. Mas, evidentemente esta parte da nossa história não é nem um pouco celebrada pelo tradicionalismo.

No Rio Grande do Sul há uma enorme cultura urbana e operária. Terra de ricos e variados estilos e ritmos musicais, desde o samba ao funk, hip-hop, rock, metal, punk, bregas, corais, bandinhas “sertanejas” etc. Mas para o tradicionalismo música gaúcha limitar-se-ia aos estilos tocados nos CTG’s e certas estações de rádio.

O mês de setembro é o ápice dos festejos de cunho tradicionalista no Rio Grande do Sul, em comemoração à revolta de ricos criadores de gado no séc 19, que passou para a história como a ‘Revolução Farroupilha’. Algumas façanhas dos fazendeiros do passado são elogiadas pelos fazendeiros atuais, obviamente escamoteando outros feitos não tão louváveis assim de seus heróis.

Em 1992, a Estátua do Laçador foi considerada pelo poder público local como símbolo do Rio Grande do Sul. O contexto histórico agora era o do desembarque do neoliberalismo no país e no estado, onde o tradicionalismo continuaria tendo um papel ideológico fundamental.
Mas esta é uma outra história.

*Hemerson Ferreira é professor de História

Militante do movimento negro, Karen Morais fala sobre o 20 de setembro e o racismo hoje. Karen é professora de Educação Física da rede estadual. Militante do movimento negro e também do coletivo Alicerce é candidata à vereadora pelo PSOL nestas eleições municipais em POA.14192032_1386973134665346_1735118978939561383_n

Por: Francisco da Silva, de Porto Alegre, RS

“Até que os leões contem suas histórias, as histórias da caça glorificarão sempre os caçadores” Provérbio africano.

 

Francisco da Silva (FS)- Olá Karen, há uma onda ufanista percorrendo o Rio Grande do Sul. Nas empresas, no comércio e mesmo nas escolas há um movimento de orgulho da “pátria gaúcha”. As elites através da RBS e dos CTG’s estão eufóricas com o 20 de setembro aqui no estado. Qual tu achas que é a relação do movimento negro com esta data e com este ufanismo regional?
Karen Morais (KM)- O movimento negro tem muitas críticas em relação a dita Revolução Farroupilha porque foi mais um momento da história do país em que os negros foram usados como ‘bucha de canhão’ numa guerra que não fazia sentido para eles, pois não detinham posses e nem houve remuneração alguma, pelo contrário, eram escravizados que viviam as margens das decisões políticas. O lema “liberdade, igualdade e humanidade” era proclamado entre os brancos, enquanto a venda de trabalhadores negros escravizados servia para financiar a guerra.

FS – Há também o pouco conhecido episódio da Batalha de Porongos. Podes comentar sobre?
KM – Os Lanceiros Negros foram testa de ferro do exército farroupilha – negros escravizados que tinham como garantia a liberdade chegaram a ser metade da composição do exército. O Império tinha desacordo em ceder liberdade aos lanceiros negros e negociou com Davi Canabarro – comandante do destacamento de negros – de desarmar e facilitar a derrota dos lanceiros. Há inúmeras controvérsias entre historiadores e estudiosos da Revolta dos Farrapos, mas por esses argumentos de não haver liberdade para os negros nem antes de ingressarem na guerra nem após, além da denúncia de traição, que o movimento negro não comemora essa data.

FS – O Hino do Estado do Rio Grande do Sul é símbolo do orgulho regional. Milhares de pessoas cantam o hino do RS com muito mais fervor do que o hino do Brasil. Sabemos que o movimento negro critica muito alguns trechos do Hino. O que pensa sobre isso?
KM – Criticamos a parte que diz ‘Povo que não tem virtude acaba por ser escravo’. Os africanos foram sequestrados e escravizados em território nacional por quase 4 séculos, desenvolvemos a nação a partir da exploração da nossa força de trabalho, e a escravidão não foi por falta de virtude, e sim pelas táticas usadas pelos senhores de escravos para que não houvessem revoltas. Táticas como misturas de diferentes etnias de africanos com dialetos (línguas) diferentes, para dificultar a comunicação e possíveis articulações de fugas e revoltas. Castigos muitos severos aos escravizados que se rebelavam, servindo de exemplo e dominação ideológica aos outros escravizados. O hino reproduz a superioridade racial branca frente a todas as outras raças que foram colonizadas e escravizadas. Porém são fatores econômicos e bélicos que garantiram essa dominação dos povos europeus frente aos povos de África e América Latina.

FS – Mas o racismo não é só coisa de história. Está muito presente também nos dias de hoje. Como é ser mulher e negra no RS?
KM – Ser mulher e negra é ter que lidar duplamente com esses preconceitos em torno da nossa raça e sexo. Para ter destaque na vida temos que provar duas vezes mais as nossa capacidade. Pela segregação que os negros foram submetidos vivemos em periferias, onde não há acesso aos serviços públicos, e os que tem são sucateados. Há dificuldade no mercado de trabalho, ainda hoje há anúncios que pedem ‘boa aparência’, para funções de atendimento ao público. O racismo e o machismo se encontram nesse tratamento, por não sermos o padrão de beleza nacional para determinadas funções de prestígio. É muito comum vermos negras de empregadas domésticas, mas é raro vermos negras médicas, advogadas, políticas, etc. Somos hipersexualizadas pelo nosso biótipo (esteriótipo), principalmente no Carnaval – que se tornou um evento de prostituição mundial – onde a figura ‘mulata’ é vendido como produto nacional – termo esse muito depreciativo. Esse contexto também nos ajuda a entender porque as negras são mais violentadas pelos homens do que as mulheres brancas – de 2003 – 2013 cresceu 54% o número de homicídios de mulheres negras enquanto de mulheres brancas diminuiu 10% (ONU).