Opressões

Currently browsing: Opressões
  • Levy Fidelix e o nosso aparelho excretor

    Por Carlos Daniel – Militante LGBT do MAIS

    Com a famosa frase “Aparelho excretor não reproduz”, o então candidato a presidente, durante um debate televisivo nas eleições de 2014, destilou todo seu ódio contra às LGBTs. Numa clara demonstração de ódio conclamou a maioria da população a lutar contra às LGBTs e continuou afirmando: “Então, gente, vamos ter coragem. Nós somos a maioria, vamos enfrentar esta minoria…”

    Continuou associando nossa identidade e nossa orientação à pedofilia ao dizer que o próprio papa havia expulsado um pedófilo da igreja. O profeta do aerotrem pensou que iria sair impune de seu preconceito, mas pra nossa alegria, hoje saiu à publicação da manutenção da condenação de Levy em R$ 25 mil pela “pratica de discriminação homofóbica”. Levy ainda pode recorrer, pois se trata de uma condenação administrativa da Secretaria de Justiça e da Cidadania do estado de São Paulo, mas sem dúvida deve ser comemorada.

    Para nós a liberdade de expressão não pode ser traduzida em discurso de ódio, de fomento a nossa morte. Importante punir políticos e líderes religiosos que usam nossa identidade e orientação para destilar o ódio, fundamentar nossa exclusão, nossa invisibilidade e nossas mortes. Mesmo sabendo que a condenação não paga nem apaga as pedradas e agressões que recebemos nas ruas, Levy entenderá que nosso “aparelho excretor reproduziu” uma bela dor de cabeça pra ele.

  • A morte nas ruas de Belo Horizonte

    Por: Carlos Daniel e Olimar Silva*

    “Corpo estava sobre uma cama com um pano amarrado no pescoço”, diz a matéria do site de notícias. Com extrema transfobia até na hora da morte, o site continua: “Um garoto de programa foi encontrado morto dentro de casa, na Rua Passos (…). A vítima apresentava sinais de agressão e tinha um pano amarrado no pescoço”.

    Para nós, ativistas LGBTs, a “vítima” tinha nome, era Mirella de Carlo, ativista trans que, dentre outras coisas, construiu um lindo ato em Belo Horizonte, no último dia 29 de janeiro, por ocasião da visibilidade trans. Mirella era muito conhecida por sua aguerrida militância e luta.

    Mirella, Cristal e muitas outras travestis presentes no ato do dia 29 exigiam um simples direito, o direito às suas vidas, o direito de não serem mortas num país que é conhecido pelo ódio às LGBTs. Infelizmente, mesmo com toda a luta, o preconceito e o ódio a mataram.

    Neste dia de dor e de luto, em que enterramos mais uma de nós, neste dia em que lembramos que nossas vidas nada valem, que nossos corpos vão muitas vezes das ruas para os sacos pretos dos IMLs, além de chorar, temos que lembrar que a morte de Mirella e de tantas outras não será em vão. Por ela, por nós e por todos os oprimidos, continuaremos a lutar pelas nossas vidas, para criminalizar a LGBTfobia e calar as igrejas e os políticos que nos condenam.

    Assim Mirella viverá! Mirella de Carlo, Presente!

    *Os autores são LGBTs da organiação MAIS

  • Sobre turbantes, identidades e estratégias políticas

    Por: Douglas Santos Alves, de Erechim, RS

    Nas redes sociais, o recente debate sobre o episódio do turbante e a questão da apropriação cultural já está saturando a timeline de muitos.  Não pretendo entrar na polêmica frontal, pois acho que ela está deslocada. No entanto, o modo como está sendo travada merece atenção.

    No Brasil dos últimos anos parece haver certo reflorescimento das pautas e lutas contra o que a esquerda tem chamado de opressões (machismo, racismo e LGBTfobia). Isso, sem dúvida, é parte constitutiva da crise e polarização políticas atuais e já mostrou força em junho de 2013.

    A recente polêmica, contudo, tem mostrado posicionamentos muito essencialistas, e por vezes até maniqueístas (isso não deve ser generalizado, há também debates muito ricos e frutíferos). O que chama a atenção, e particularmente me preocupa, é a lógica de fragmentação que norteia boa parte das postagens.

    Uma das bases para isso é a atribuição de uma “homogeneidade” às identidades em questão. Com isso, pode-se traçar a famosa linha que separa de modo “radical” o Nós do Eles. O primeiro problema é que essa linha é, em boa parte, o que significa reconhecer que não totalmente, ilusória.

    O outro ponto é que ela viabiliza o maniqueísmo decorrente do simplismo no debate.  Este processo pode ser considerado parte da crise que atravessa o país e o mundo sob um aspecto mais ideológico. Ou seja, enquanto que o Estado burguês imputa às pessoas a igualdade formal, diluindo tudo e todos na forma do cidadão de direito e ocultando as reais diferenças e desigualdades, a crise que está se desenrolando desde ao menos 2007 e 2008 abriu espaço para uma rebelião contra esse sujeito necessário ao sistema. Movimentos organizados por identidades de gênero, orientação sexual, raça, e outros (mais visíveis em outros países), grupos subalternos, estão se organizando e lutando para romper essa homogeneidade e afirmar suas características e sua condição. Lutam contra a opressão.

    Ilusória? Sim. Os grupos, movimentos e sujeitos sociais não são homogêneos, e corre-se o risco de ser autoritário e opressor ao se tentar impor tal homogeneidade. Particularmente quando se busca encontrá-la na aparência dos fenômenos. Aliás, debater fenômenos desde sua aparência é fugir da raiz das coisas, de sua essência e, portanto, nunca transformar a realidade que se quer criticar. O Nós e o Eles são atravessados por diversas clivagens e cortes. Há homens e mulheres, travestis e transexuais (e intersexuais também), há gays e lésbicas, paulistas, nordestinos e também imigrantes senegaleses, haitianos e sírios (não se deve esquecer que os refugiados são hoje um grande problema social e político não só na Europa). Há evangélicos, católicos e umbandistas (e também os ateus, e como classificar os ateus???) dentro de cada um dos grupos sociais em conflito. E há, ainda, as classes sociais, atravessando de fora a fora os grupos e segmentos apontados.

    Isso não deve justificar uma postura ou resposta relativista, pois permitira cair no liberalismo (explícito ou enrustido) e afirmar que assim todos são iguais e, portanto, não há opressão (disso decorrem algumas defesas contrárias às cotas, lei contra o feminicídio ou a criminalização da homofobia). Existe, sim, violência, discriminação, preconceito e mesmo apropriação cultural. Porém, é muito comum um movimento ou grupo que luta contra a opressão também oprimir outro, e também o “outro” que está dentro do próprio grupo,  aqueles dentro de sua base que não se encaixam perfeitamente nos requisitos da identidade. Infelizmente vejo todos os dias exemplos de LGBTfobia dentro do movimento feminista e negro (e do sindical mais ainda!).

    O mesmo vale, sim, para o racismo e o machismo muito presentes no movimento LGBT. As esquerdas historicamente praticaram e ainda praticam essas formas de opressão, e há um ajuste de contas a ser feito para se poder reorganizar os movimentos socialistas em geral (ponto que falarei depois).

    Maniqueísta? Também. Ao se simplificar demasiado os problemas e se trabalhar com essa ideia de homogeneidade total dentro dos grupos em conflito, o próximo passo passa a ser a luta do bem contra o mal. Essa é a forma seguinte que adquire o Nós e o Eles. Mas aqui um alerta: a opressão tem uma raiz histórico-estrutural, porém, ela se manifesta de modo imediato nas pequenas ações individuais. E combatê-la significa, também, combater suas manifestações imediatas, ou seja, aqueles comportamentos individuais em que ela se materializa, portanto, as pessoas que oprimem.

    O fato é que essa é uma ponta do problema, e centrar a atuação de modo exclusivo nesta ponta implica em não atuar sobre a outra, aquela que é menos visível, mas que expressa como opressões diversas, por exemplo, se combinam com a exploração ou com a perpetuação de determinados grupos e classes no poder por séculos. Para não ficar na abstração basta mencionar o ajuste fiscal que o governo Temer e seu congresso corrupto estão impondo sobre os trabalhadores. Mulheres, negros e negras, LGBTs e outros segmentos estigmatizados são os primeiros a perderem seus empregos ou terem de trabalhar sob condições extremamente precárias. Enquanto isso o lucro dos grandes empresários é garantido às custas da opressão e da superexploração que nela se apoia.

    Outro efeito dessa forma de travar o debate e a luta política é o viés autoritário e excludente. E esse possui efeitos muito danosos a médio e longo prazo. Tenho testemunhado pessoas sendo desautorizadas a falar e se posicionar simplesmente por não pertencerem ao suposto grupo homogêneo: “você não pertence aos nossos, então não pode opinar” (existem exemplos mais sutis também). Há uma confusão desenfreada entre lugar de fala, protagonismo na ação e debate político e programático.

    Obviamente uma posição dentro de uma estrutura de poder determina como a pessoa vivencia a relação na qual está inserida, aliás, esse é um suposto do marxismo. Isso, sim, torna a experiência de opressão real para quem a sofre e determina o seu lugar de fala, uma vez que quem está na outra posição pode até ver, mas dificilmente irá sentir seus efeitos. Contudo, essa posição e essa experiência nela também é atravessada por outras relações, não sendo exclusiva e nem única. Porém, é essa posição na relação que define o sujeito social que combate a relação mesma, ou seja, ela determina o protagonismo e o protagonista.

    Brancos podem (e penso que devem) apoiar a luta dos negros contra o racismo, mas não podem ser sua linha de frente e direção política. Do mesmo modo, negros podem (e devem) apoiar a luta dos LGBTs contra a homofobia, mas não possuem condições de ser seu centro de elaboração programática nem ponta de lança. Já o debate político, esse sim, acredito que deve ser público, inclusive para que se possa mostrar os pontos de reprodução da opressão entre os próprios grupos oprimidos. Para que viabilize identificar os pontos comuns na luta.

    Para que se escape da dimensão mais imediata do fenômeno (o que gera corporativismo no sentido mais problemático do termo) e se avance para seus momentos menos visíveis e superficiais, lá onde residem inimigos e aliados potenciais. Inclusive o debate público é central também para que se possa localizar as contradições internas aos grupos. Será que todo gay é um aliado da causa gay? Será que toda mulher sofre de modo idêntico, e portanto é necessariamente, uma aliada das demais mulheres? Neste ponto, o recorte de classe social é absolutamente frutífero para a análise e ajuda a derrubar a ilusão de homogeneidade e essencialismo que mencionei.

    Estes elementos todos parecem estar gerando o ponto que mais me preocupa, como dito antes, a fragmentação. Assim, negros podem se voltar contra mulheres brancas que podem atacar homens gays da classe média que não dão voz às lésbicas nordestinas que podem menosprezar em suas lutas as travestis negras. Nem mencionei os indígenas, que em diversos lugares do país (de grandes obras do PAC do governo anterior até pequenas cidades do interior no sul do Brasil) sofrem uma violência brutal.

    E na lógica de “cada um no seu quadrado” o debate se perde entre argumentos de autoridade e deslegitimação dos que estão no lugar do “Eles”, os problemas tendem a ficar na superfície dos fenômenos. A força necessária para qualquer mudança se perde nas intermináveis divisões dos movimentos sociais (e dos partidos de esquerda tanto quanto). E as reformas trabalhista, previdenciária, do ensino médio, entre outras, seguem sendo implementado à toque de caixa, sacrificando direitos, serviços públicos e garantias sociais muito tímidas mas absolutamente necessárias à mulheres, negros, LGBTs, migrantes, etc.

    Por fim, sobre a esquerda. Por diversas razões históricas e políticas, a esquerda não soube dar a devida importância para estes debates, quando não, e sob a influência do estalinismo, reproduziu diretamente a opressão. Alguns rancores são, sim, legítimos e alguns balanços, necessários. Contudo, se a desigualdade social e a exploração também se fundamentam (e muito) nas diferenças, então qualquer projeto de transformação social mais duradoura precisa dar conta de ambas as questões. Isso implica no esforço, colossal e geralmente cercado de pessimismo, de aproximar movimentos que combatem a opressão e as esquerdas.

    Há que se repensar urgentemente as experiências mais antigas e recentes conduzidas sob a bandeira vermelha (do estalinismo ao governo do PT, mas também as tradições dissidentes), e há que se articular as diferentes bandeiras de negros, mulheres, LGBTs, imigrantes e migrantes, etc, em torno a um projeto capaz de viabilizar a unidade sem ocultar a especificidade a diferença. Há que se debater um programa que contemple a particularidade de cada segmento, e mais ainda, que contemple as especificidades dentro de um mesmo segmento, pois não há homogeneidade (inclusive dentro da classe trabalhadora).

    Isso implica também em localizar os pontos comuns, os inimigos comuns, as táticas que servem para um segmento isolado e as que servem para muitos. Nenhum programa de um grupo, “classe” (uso os parênteses pois está no sentido abstrato, sendo que na realidade a classe nunca é um segmento particular, mas sempre heterogêneo e atravessado por cada um dos grupos aqui mencionados) ou segmento particular pode comportar uma transformação mais ampla e duradoura por não responder à totalidade das relações sociais. E, por este mesmo motivo, também não pode ser realizado, uma vez que sem isso não construirá as alianças necessárias para se obter  força capaz de promover a mudança. A unidade é requisito essencial para se alcançar a transformação efetiva, e isso vale para movimentos, grupos e classes subalternos.

    Então, é neste ponto que a fragmentação – gerada por debates simplistas, concepções essencialistas, posturas maniqueístas e discussões onde potenciais aliados são desautorizados a falar – mostra sua verdadeira essência: a inviabilização de qualquer horizonte real de mudança, o isolamento dos grupos e movimentos no pior espírito corporativo, as disputas entre sujeitos que poderiam marchar lado à lado e, por fim, a conservação da ordem ao invés de sua mudança. Assim, muitas vezes a suposta “radicalidade” na forma (geralmente expressa pelo sectarismo) esconde conservadorismo no conteúdo, ou ao menos nos seus efeitos últimos. Enquanto isso Temer, PMDB, PSDB, grande mídia, empresas e bancos comemoram cada medida aprovada.

    Qual a saída? Se grupos, intelectuais, movimentos sociais, partidos e organizações políticas realmente acreditam que as pautas e questões defendidas têm importância (falo das bandeiras de segmentos oprimidos, mas também das bandeiras da esquerda socialista), então o melhor critério para demonstrar a importância que tais pautas merecem é o ambiente de debate respeitoso (não só o respeito diretamente pelo outro com quem se dialoga, mas antes o respeito pela pauta em si).

    Se desejar mostrar para algum ativista uma diferença de concepção e convencê-lo de minha posição (o que exige estar aberto para ser convencido), ou simplesmente se quiser mostrar o quanto o problema que me atinge importa (e é difícil fazê-lo ver essa importância uma vez que ele não a sente de modo direto como eu), é preciso antes de tudo que ambos tenham condições de debater com franqueza e honestidade os acordos e divergências sem cometer o fratricídio tão comum hoje no país. E é necessário, sob o imperativo dos ataques que estão sendo aprovados, formular respostas concretas e conjuntas contra a direita que governa hoje.

    Impedir o diálogo desautorizando aquele com quem se dialoga enfraquece a causa pela qual se luta, empobrece a causa pela qual o Outro luta e fortalece aquele que oprime e/ou explora ambos. A paciência, o respeito e a capacidade de ouvir tornaram-se elementos estratégicos.

  • Como a reforma da previdência afeta as mulheres?

    Por: Carolina Freitas

    O governo Temer demonstra a cada dia não estar preocupado com sua popularidade. Em recente pronunciamento, o presidente disse que “às vezes” é criticado porque as “pessoas confundem popularidade com populismo”. Sobre o populismo a que se refere, não há dúvidas sobre a mensagem transmitida: seu governo, de cunho autoritário e ilegítimo, não mede esforços em aplicar o projeto neoliberal de austeridade, custe o que custar, não sendo a reprovação social critério de ponderação sobre as medidas.

    Frequentemente, denunciamos que a classe trabalhadora pagará com seus direitos, conquistados a duras penas nas suas lutas históricas, o preço desse plano de contrarreformas. É importante que nossas resistências frente aos duríssimos ataques sejam assertivas e capazes de bloquear a aceleração desses processos em tramitação. Para isso, é preciso expor, com didática, simplicidade e exemplos concretos, à nossa classe (no bairro, na escola, no serviço, nas ruas, nas redes sociais) sobre o que tratam essas novas regras enviadas ao Congresso.

    Entre os segmentos da classe mais afetados pelas medidas do projeto da reforma, estão as mulheres. Encampar a luta contra a reforma é também defender um projeto feminista diante da crise. As mulheres, que figuram como protagonistas das recentes resistências país afora, sem dúvida têm motivos para encabeçar a batalha que vem com o processo de aprovação da PEC da Aposentadoria.

    A seguir exponho alguns pontos que demonstram concretamente o porquê a Reforma da Previdência atinge violentamente os setores femininos:

    1. Fixação da idade mínima de 65 anos para homens e mulheres

     Sob o pretexto de que mulheres, em média, tem uma expectativa de vida maior (sete anos a mais) do que os homens, a padronização da idade mínima é o carro-chefe do projeto. Isto significa que as mulheres, em empregos urbanos, trabalharão mais cinco anos (hoje a idade mínima é de 60 anos); se forem servidoras públicas ou trabalhadoras rurais, trabalharão mais dez anos; se forem professoras da educação básica, trabalharão mais quinze anos[1]!

    1. O projeto omite o trabalho doméstico socialmente realizado pelas mulheres

    O projeto que orientou, no período da redemocratização no Brasil, a diferenciação da idade mínima de aposentadoria para mulheres e homens, considerou, como política de equidade, a realidade de que mulheres são submetidas a muito mais horas de trabalho doméstico não remunerado (manutenção da casa e socialização dos menores) do que os homens e por essa razão foi reconhecido o direito feminino à idade mínima mais baixa.

    Dados do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2014 apontam que 88% das mulheres ocupadas com mais de 16 anos realizam trabalhos domésticos, enquanto que, em relação aos homens, a estatística é de 46%. As mulheres trabalham, de modo não remunerado, mais que o dobro dos homens quando os dados são medidos pela jornada semanal média: 20,6 horas por semana lavando, passando, limpando, cozinhando, cuidando de filhos, enquanto a população masculina gasta 9,8 horas em média para as mesmas tarefas. A soma da jornada de trabalho pago com a jornada de trabalho não pago entre as mulheres é de 56,4 horas por semana; ao mesmo tempo, a dos homens é aproximadamente cinco horas menor.

    Isto significa, portanto, uma realidade oposta às agitações que os entusiastas da Reforma vem fazendo: as mulheres trabalham mais ao longo da vida e, mesmo aposentadas, seguem cumprindo socialmente com as tarefas não pagas e omitidas nos orçamentos do Estado.

    1. O projeto ignora que mulheres são mais mal remuneradas

    A reforma da previdência torna ainda mais aguda a realidade de discriminação salarial. As mulheres inseridas no mercado formal de trabalho têm renda mensal, em média, que corresponde a 75% da renda masculina. No mercado informal de trabalho o cenário é ainda mais drástico: a renda das mulheres é de 65% da dos homens. A mulher tem renda menor, trabalha mais e terá mais dificuldades de se aposentar!

    1. As mulheres negras seguem sendo submetidas à escravização contemporânea

     As mulheres negras, a quem foram impostos séculos de escravização na história brasileira e a quem sistemicamente são relegados os piores e mais precarizados postos de trabalho no mercado, como o emprego doméstico, mal perceberam o avanço mínimo da recente mudança na legislação trabalhista e já terão que arcar com as consequências drásticas da reforma.

    Quase 6 milhões de mulheres são empregadas domésticas no Brasil (92% do setor) e mais da metade delas são negras. Entre as mulheres negras que trabalham, 17% são contratadas no serviço doméstico. A PEC que reconhece a relação de emprego é de 2015 e parece que, em prática, terá alcance encurtado pela Reforma, para além do obstáculo da tradição escravocrata que persiste em contrariar o novo reconhecimento que equipara os direitos do emprego formal.

    Até 2014, aproximadamente 70% das empregadas não tinham carteira assinada, obstruindo assim seu direito à aposentadoria. Muitas domésticas comecem a trabalhar ainda quando meninas (aos 12, 13 anos de idade), uma vida inteira de trabalho duro e altamente desvalorizado, cheio de sequelas físicas e psicológicas. Mas isto não será o bastante para que se aposentem antes dos 65 anos com a nova fixação da idade mínima, e ainda terão que contribuir com a previdência necessariamente durante 25 anos, superando, portanto, a cultura racista e sistêmica de não reconhecimento dos seus direitos ligados à carteira assinada.

    1. Os trabalhos informais e precários têm rosto de mulher

    Segundo dados do Censo IBGE de 2010, a taxa de formalização do emprego entre as mulheres é menor do que a dos homens. Entre 2000 e 2010, houve um crescimento de 9,2% da formalização do trabalho masculino e apenas 6,6% do trabalho feminino. Isso significa um crescimento menor entre as mulheres da proporção daquelas que contribuem com a Previdência Social.

    A diferença é gritante não apenas entre homens e mulheres, mas também entre trabalhadoras negras e brancas: no mesmo estudo, observa-se que 58,4% das trabalhadoras brancas têm carteira assinada e apenas 40,2% das trabalhadoras negras estão na mesma condição. De novo, a chefia do lar, as obrigações familiares e domésticas e a baixa renda, são motivos que levam às pobres e negras a se submeterem a postos de trabalho precários, informais e mais rotativos.

    1. Penalização das professoras da educação básica contra as orientações internacionais

    As mulheres ocupam cerca de 80% das vagas de professores da educação básica no Brasil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o direito à aposentadoria especial a esta categoria pelo desgaste físico e psicológico inerente à profissão e agravado pelas condições do sistema público de educação. O ataque à educação por meio das reformas educacionais e do seu desmonte e abertura à iniciativa privada vai ao encontro da reforma da previdência e da reforma trabalhista para provocar uma verdadeira explosão das condições mínimas de trabalho das mulheres professoras, que terão de trabalhar 15 anos mais para se desligarem da lida desgastante das escolas. Imaginem só como será o estado de saúde de professoras (mães, esposas, chefes de família) trabalhando até os 65 anos em sala de aula!

    1. Que os capitalistas paguem pela crise! Nenhum direito a menos para as mulheres!

    O governo, para justificar a reforma, diz que é necessário deter o “rombo” enorme que a Previdência Social representa no orçamento público. O problema é que sistematicamente esquece de falar do “elefante branco” do pagamento de juros e amortização da dívida pública. Enquanto cerca de 18% do orçamento geral da União é destinado à despesa previdenciária, impressionantes 47% são usados para a dívida (o equivalente a 3 trilhões de reais!).

    Jogando nas costas do povo as contas do ajuste, o governo Temer retrocede violentamente no direito das mulheres pobres e trabalhadoras. Num contexto mundial de levantes e mobilizações feministas, a conjuntura nacional vai requerer de nós, mulheres lutadoras, a inspiração e a força de nossas companheiras ao redor do mundo para incendiar os interesses brancos e patriarcais do capitalismo neoliberal.

    [1] Hoje, pelo Regime Geral da Previdência Social, as trabalhadoras urbanas se aposentam com idade mínima de 60 anos e 30 anos de contribuição, enquanto os homens se aposentam com 65 anos e 35 anos de contribuição; as servidoras públicas e trabalhadoras rurais se aposentam com idade mínima de 55 anos e 30 anos de contribuição, enquanto os homens se aposentam com 60 anos e 35 anos de contribuição; as professoras da educação básica se aposentam com idade mínima de 50 anos e 25 anos de contribuição, enquanto os homens se aposentam com 55 anos e 30 anos de contribuição.

  • Quanto o machismo afeta as mulheres?

    Por: Eliana Penha, de São Paulo, SP

    As mulheres por séculos vivem uma situação de opressão, em casa, pelos familiares, pai, tios, irmãos, avô e até mesmo pelas mulheres da família que reproduzem o machismo. Fora de casa a situação continua, na escola, professores, assim como os demais funcionários, agem com machismo e as professoras e demais funcionárias acompanham, reproduzindo-o. No trabalho, os chefes se utilizam da sua posição para oprimir as mulheres e, assim, mantê-las no seu devido lugar. Quando a chefe é mulher, na maioria das vezes, ela reproduz o machismo.

    É importante, no entanto, explicar que as mulheres, mesmo as de uma posição social supostamente acima, não são machistas, mas reproduzem o machismo. Isso porque não são homens, portanto não podem ser machistas diretamente.

    E as mulheres, como se sentem? Quanto o machismo é prejudicial na autoconfiança das mulheres? Quanto o machismo inibe a formação de lideranças no movimento organizado de trabalhadores/as? Quanto o machismo mina a participação ativa das mulheres em sindicatos e partidos políticos?

    Bem, somente as mulheres podem responder a estas e outras tantas perguntas. O fato é que quando uma mulher nasce, principalmente se for da classe trabalhadora, ela já carrega um fardo que herda de sua mãe, avó, bisavó, entre outros. Na infância, enquanto os meninos ganham bolas e bicicletas, a maioria das meninas ganha bonecas, panelinhas e utensílios domésticos de brinquedo. Aos meninos, bem cedo, é apresentada a rua, as brincadeiras esportivas. Às meninas, o brincar de casinha, de maquiar a si mesmas e as bonecas. Os meninos podem andar sem camisa, sentam-se da forma que acham mais confortável. As meninas andam sempre vestidas e alguém sempre as lembra de sentarem-se com as pernas fechadas.

    Quando vão à escola, as roupas usadas por meninos não sofrem críticas, enquanto as meninas são recriminadas se estão de mini-saia, calças justas, blusas curtas, ou transparentes. A alegação para tal discriminação é sempre a mesma: com esta roupa os meninos vão mexer com vocês, como se a roupa desse um passaporte livre ao corpo das meninas.

    Chegando à adolescência, meninos podem sair, namorar, passar a noite fora, transar, enfim, fazer tudo o que gostam e continuarão a ser tratados da mesma forma, ao passo que as meninas, se tiverem o mesmo comportamento, são apontadas como merecedoras de serem estupradas porque não se deram ao respeito.

    Quando começam a trabalhar fora de casa, as mulheres, que já foram oprimidas pela família, escola, igreja, passam a ser oprimidas também pelo patrão, além de serem exploradas. Daí para se rebelarem e lutarem por seus direitos é muito mais difícil do que para os homens. As mulheres não têm confiança no sindicato que é dirigido por homens e quase nunca apresentam pautas feministas, pior que isto, não se sentem confortáveis em mudar sua situação através da luta, porque foram ensinadas desde cedo que a luta fora de casa não é o seu ambiente, foram ensinadas a obedecer, a deixar pra lá, a dar graças a Deus de ainda terem um emprego.

    Mas, às vezes, esta lógica é a duríssimas penas, quebrada. A mulher se organiza, vai para o sindicato, partidos políticos e, mais uma vez, apesar do imenso esforço e coragem, se cala quando sente que não é ouvida, que sua opinião raramente é aceita, que seu medo de falar em público não é considerado, que seus companheiros não consideram toda a bagagem negativa de sofrer machismo uma vida inteira, que nada disso é levado em conta. E mais uma vez a mulher recolhe-se à sua existência e deixa de falar no assunto para não ser apontada como a vitimista, a fraca, a que quer chamar atenção, a que se utiliza do feminismo para prejudicar os companheiros, a que não se esforçou e por isso não conseguiu cumprir uma determinada tarefa e uma longa lista de exemplos.

    Isto tudo é extremamente prejudicial à classe trabalhadora como um todo. Trotski, Lênin e Marx já diziam que não existirá revolução socialista sem as mulheres, que são metade do gênero humano. Por isso, não podemos esperar que o combate efetivo contra o machismo se dê somente após a revolução socialista, é preciso travarmos uma batalha sem trégua contra este câncer que divide nossa classe e só favorece a burguesia, que se aproveita dele para nos explorar cada vez mais.

    Este combate se dá nas menores atitudes, como ouvir com atenção as companheiras, entender a carga de machismo que já sofreram por uma vida inteira, compreender que a dupla jornada é um fato real, que é muito difícil que as mulheres rompam a situação de machismo que vivem em suas relações familiares, enfim, compreender que, às vezes, até mesmo por uma questão física, como é a tensão pré-menstrual, as mulheres ficam mais sensíveis e não desempenham atividades que para os homens são muito tranqüilas, de maneira satisfatória.

    É preciso que os companheiros reflitam sobre o tema e compreendam que o que as mulheres querem é tê-los como companheiros, lutar ombro a ombro com eles, para somente assim construirmos um mundo socialista, no qual sejamos de fato iguais, sem deixar nossas especificidades de lado.

    Por: Marcelo Camargo/Arquivo/Agência Brasil

  • Apropriação cultural sob uma análise marxista

    Como parte do debate sobre o tema da apropriação cultural, o Esquerda Online reproduz o artigo da blogueira Jô Camilo, publicado originalmente no blog Modo Contra o Medo, em agosto de 2015 e cedido para publicação no nosso Portal. 

    Leia, abaixo, na íntegra:

    (Esta contribuição ao debate foi feita inicialmente como crítica a outro texto, intitulado “Apropriação cultural e marxismo”. Para quem tiver interesse, o texto em questão está disponível e também reproduzido na íntegra logo abaixo deste.)

    Escrevo esse texto para pensar sobre a questão da apropriação cultural, que tem se debatido muito no movimento negro com o qual tenho tido contato. É uma resposta ao texto do companheiro da Juventude Marxista sobre o mesmo tema. Apesar de concordar que se deve criticar, de um ponto de vista marxista, alguns conceitos de certas correntes do movimento que desconsideram a totalidade social da luta de classes, também é importante combater um marxismo vulgar e dogmático que não ajuda a esclarecer os problemas da relação entre cultura, raça e classe no Brasil hoje.

    Pretendo, portanto, fazer uma análise da questão da apropriação cultural, explicitando como o método marxista, usado corretamente, é a ferramenta para compreender a questão. Não vou entrar em todos os temas tratados no texto em questão. Pretendo apenas apontar os erros em seus pressupostos mais básicos naquilo que diz respeito ao tema da apropriação cultural, sem os quais a maior parte das ideias centrais do texto cairia.

     Soma ou relações dialéticas
    Em primeiro lugar, no texto está implícita uma concepção de que diferentes fatores sociais (como preconceitos em geral, racismo, opressão de classe, etc) têm origens em instâncias diferentes da vida social, independentes entre si, e, em alguns momentos, podem ou não se somar. Essa concepção aparece, por exemplo, quando ele fala em “preconceito contra os dreads somado ao RACISMO”. Ora, o marxismo é a ciência do concreto, ou seja, da totalidade, o que significa que não pensamos a realidade fragmentada dessa forma, como tanto o positivismo quanto a pós-modernidade pensam. Não podemos pensar a questão de classe, o racismo e o “preconceito contra os dreads” como três coisas separadas que podem ou não se somar. Precisamos fazer uma análise de como, em sua essência, essas três coisas se relacionam.

    Para isso, em primeiro lugar, devemos rejeitar a máxima pós-moderna (que também aparece no referido texto) de que a sociedade tem “preconceitos contra o diferente”. Não é a diferença que cria os preconceitos. Se fosse assim, como se explicaria que de algumas “diferenças” surgem preconceitos e de outras não? Como se explicaria que o preconceito que surge de algumas “diferenças” é diferente do preconceito surgido de outras “diferenças”? Não podemos dizer, por exemplo, que a diferença entre brancos e negros crie o mesmo efeito que a diferença entre homens e mulheres ou entre destros e canhotos. O efeito que cada uma dessas “diferenças” vai acarretar não tem a ver com o fato de serem “diferenças” em si, mas tem relação com como cada uma delas se enquadra no todo da realidade social, ou seja, qual o papel de cada uma delas na luta de classes. Só a partir daí podemos pensar como surgem os preconceitos.

    O “preconceito contra os dreads”, portanto, precisa ser pensado em sua origem ontológica histórico-social. Acontece que o capitalismo, de diferentes formas em diferentes momentos, utilizou uma suposta diferença entre raças para impor e fortalecer sua dominação no mundo todo[1]. No Brasil, obviamente essa estratégia tomou uma forma específica. O racismo aqui tem como um de seus aspectos fortes a desqualificação indireta do negro, que não fala explicitamente do indivíduo negro, mas ataca todos aqueles elementos que compõem sua vida e sua cultura. Quando dizem que o funk é “música ruim” ou que o RAP é “música de bandido”, quando dizem que sacrifícios de animais em rituais religiosos é uma crueldade, quando dizem que cabelo crespo e nariz largo são feios, quando colocam que as favelas são essencialmente violentas – em todas essas suposições, criadas e difundidas por uma classe dominante para garantir seu poder, se esconde o racismo. O racismo está, de fato, na essência de todas elas. Da mesma forma, o “preconceito contra os dreads” não pode se somar ao racismo porque ele é parte do racismo! A identificação do turbante com algo demoníaco não pode se somar ao racismo porque é parte do racismo!

    De fato, uma pessoa branca pode sofrer preconceito em uma entrevista de emprego se usar dreads. Esse preconceito não tem uma origem separada do racismo: ele só existe porque o dread é um símbolo negro, e é por isso identificado com coisas negativas, como sujeira, irresponsabilidade, etc. Podemos aqui repetir o que já dissemos anteriormente para completar o raciocínio: a inferiorização dos símbolos negros se insere na luta de classes como uma estratégia da classe dominante para garantir sua dominação.

    O absurdo em falar da diferença entre um negro ou um branco usando tais símbolos só pode aparecer quando se considera que os “preconceitos” têm origens independentes, não relacionadas com a totalidade da luta de classes. Enquanto que, para uma mulher branca que usa turbante, aparece certo preconceito derivado de ela usar um símbolo negro, para a mulher negra o turbante nada mais é que uma confirmação daquilo que o racismo coloca em sua essência: macumbeira, demoníaca. Da mesma forma, enquanto que em um homem branco os dreads podem remeter a ideias de sujeira e de preguiça, em um homem negro eles estariam apenas confirmando aquilo que o racismo vê como sua essência. Essa é a diferença. E, claramente, na prática da vida social, isso é uma diferença enorme! Um jovem visto como essencialmente “limpinho” em uma fase rebelde é bonitinho, muito diferente de um visto como essencialmente sujo.

    E mesmo no RAP, é clara a diferença que vemos entre o uso dessa forma de resistência por um branco ou por um negro. É só pensarmos no contraste entre Gabriel O Pensador e Racionais. O primeiro é tido, por muitos setores sociais, como um crítico; os segundos continuam fazendo, no senso comum, “música de bandido”.

    A apropriação cultural
    Sobre a questão da apropriação, também é um problema como o texto do companheiro da Juventude Marxista separa a “apropriação de TODAS AS CULTURAS DO MUNDO pelo CAPITALISMO” da apropriação de uma cultura particular em um momento particular. Como já dissemos, o marxismo é uma ciência do concreto. Não se pode falar apenas em um conceito geral de apropriação sem compreender como a apropriação se dá em seu contexto específico e qual a relação dessa apropriação com a totalidade histórica específica em que está inserida. É claro que o capitalismo se apropria de todas as culturas do mundo. Mas essa conclusão não ajuda em nada, se não compreendermos as relações concretas em que se inserem as apropriações.

    Para abordar esse problema, podemos partir de uma constatação bastante errada do texto em questão, de que a indústria da moda está (ou estava) tentando se apropriar dos dreads e do turbante e falhando. Aqui há dois erros fundamentais: um deles é pensar que a classe dominante, por sua própria vontade, tenta se apropriar de símbolos de luta da classe dominada; outro é uma incompreensão da relação entre ideologia e circulação de mercadorias. Analisemos os dois pontos.

    A classe dominante não se esforçaria para se apropriar dos símbolos dos dominados se não fosse forçada a isso pela luta de classes. Para esclarecer a questão da apropriação cultural, vou aqui abrir um parênteses e pensar dois exemplos de apropriação da burguesia, que não são no âmbito cultural, mas que ajudarão a entender alguns mecanismos sociais. Em primeiro lugar, podemos pensar na conquista de um determinado setor de mulheres[2] que não podiam trabalhar e ter autonomia financeira e, a partir de sua organização e luta, passaram a ter esse direito. A classe dominante, a princípio, não ficou satisfeita com isso, e tentou combater esse movimento[3]. Mas, quando essas mulheres tiveram sua vitória e conquistaram o direito de trabalhar fora, tal classe se apropriou de alguma forma de sua conquista e passou a usá-la para superexplorar esse setor social, submetendo-o a jornadas duplas ou triplas, a salários menores, etc. Outro exemplo que pode ser pensado é o processo de luta contra a escravidão. Por muito tempo os negros lutaram por sua liberdade e foram duramente reprimidos pela burguesia da época. Conforme sua luta dava frutos e a escravidão foi sendo minada, a classe dominante passou a tentar influenciar o processo à sua maneira: relegou aos negros uma posição de extrema marginalidade para que se pudesse criar uma ideologia de exército de reserva que permitiria uma superexploração de todos os trabalhadores, negros ou não.

    A apropriação daquilo que vem da classe dominada nunca é uma iniciativa espontânea da classe dominante. É sempre resultado de uma luta e, em alguma medida, da imposição da vontade dos setores oprimidos. Com a apropriação cultural não é diferente. É absurdo dizer que a burguesiatenta se apropriar de símbolos como os dreads ou o turbante. Antes, ela é obrigada a tal para se manter no controle das coisas. Sua intenção inicial não é de apropriação, mas de supressão desses símbolos. Ela só se apropria quando, se não o fizesse, teria prejuízos maiores. É a luta dos negros que a empurra a isso. Os diversos símbolos culturais sempre ajudaram na identificação dos oprimidos entre si e na organização para a luta. A roda de capoeira, o RAP, os dreads e as vestimentas do Candomblé, por exemplo, podem cumprir esse papel de formar bases para uma resistência contra a dominação[4], inclusive a dominação de classe. E só por isso a burguesia de apropria desses elementos: para minar a força de organização de certo setor muito importante da classe trabalhadora brasileira.

    Mas essa apropriação é malsucedida, como coloca o texto em questão? Não. Daí vem a incompreensão da relação entre ideologia e circulação de mercadorias. A burguesia não necessariamente vende apenas para si mesma, mas pelo contrário: não sobrevive se não for a classe trabalhadora massivamente que compre seus produtos. Ela não vende e lucra apenas com aquilo que a ideologia dominante considera bom. O fato de o turbante ser relacionado com algo demoníaco e os dreads serem alvo de preconceito não são, nem podem ser, provas de que a apropriação “falhou”. Novamente, o sucesso ou falha da apropriação cultural não é algo que se pode analisar em si, mas somente dentro da totalidade social e da luta de classes.

    Nessa perspectiva, precisamos nos perguntar: qual o papel dessa apropriação na luta de classes? Esse papel está sendo alcançado ou não?

    A apropriação cultural, como vimos, é uma estratégia de defesa dos interesses da classe dominante. Sua intenção é se proteger contra a identificação, organização e luta dos negros. Portanto, o sucesso dessa estratégia pode se medir a partir de quanto conseguem tirar dos diversos elementos sua característica de distinção cultural do povo negro. Mas isso não significa necessariamente tirar desses diversos elementos juízos que serão usados para propagar o racismo velado. O que quero dizer com isso? A venda de dreads ou de turbantes (ou da capoeira, ou do RAP, ou do Funk, etc, etc) como produtos que têm apenas um valor comercial abstrato e que não têm uma história, um significado, que não se identificam com um povo ou com uma cultura determinada – essa venda é o fundamental para que se configure uma apropriação cultural bem sucedida. Isso não significa que as pessoas vão desvincular os dreads dos diversos juízos negativos. E isso configura, em minha opinião, o caráter mais perverso de tal apropriação: vendem-se tais produtos para as mesmas pessoas que já o usavam antes, para os negros, mas tiram deles seu caráter de identificação cultural e de resistência, mantendo seus estigmas. O RAP e o Funk continuam sendo vendidos majoritariamente para a juventude negra e periférica, e continuam sendo consideradas “música de bandido” ou “música ruim”, mas agora têm suas letras controladas rigorosamente por um mercado cultural comandado por brancos.  A capoeira continua sendo vista como “malandragem”[5] e os dreads continuam sendo considerados “sujos”, mas agora não identificam mais a cultura negra, mas são “patrimônio de todos” em um lugar onde supostamente não existem diferenças raciais por conta da miscigenação. Mantêm-se os juízos negativos racistas, retira-se o caráter de resistência. Eis o verdadeiro sucesso da apropriação cultural dos símbolos negros.

    Os movimentos pós-modernos
    Com tudo o que foi colocado, onde estariam, então, os erros dos movimentos pós-modernos que falam da questão da apropriação cultural? Da mesma forma como critiquei o texto supostamente marxista, as leituras pós-modernas fragmentam a realidade social e tomam a análise dos fragmentos em si, ignorando suas relações essenciais com a totalidade social. A apropriação cultural, tirada do pano de fundo de defesa dos interesses da classe dominante, não pode ser vista senão como uma ação perversa de responsabilidade de alguns indivíduos brancos que, por usarem símbolos culturais negros, estariam enfraquecendo seu conteúdo cultural. Essa análise fragmentária, ao atribuir ao indivíduo o conceito de apropriação cultural, na verdade esvazia esse conceito de seu conteúdo social real: tira da essência do racismo a luta de classes e, por isso, essencializa no indivíduo branco a origem do enfraquecimento da cultura negra. Essa análise ganha credibilidade por fatores muito importantes: empiricamente, são principalmente os indivíduos brancos que encarnam e reproduzem as estratégias racistas de interesse da classe dominante, assim como é por indivíduos brancos que essa classe dominante é formada. Mas, para se compreender o conteúdo concreto da apropriação cultural e do racismo não se pode permanecer no nível empírico apenas: é necessário que se ultrapasse a aparência dada e se encontre a essência desses conceitos no todo social, o que as teorias pós-modernas não fazem.

    Assim, combate-se uma certa apropriação cultural como se se combatesse um fantasma; o sucesso dessa luta se revelaria um fracasso: os símbolos negros não se fortaleceriam, e nem estariam menos apropriados por uma dominação branca se os indivíduos brancos parassem de usá-los. Um branco usar dreads ou turbante, praticar capoeira ou participar de religiões de matriz africana – nada disso é, em si, essa apropriação cultural de que estamos falando. A apropriação cultural perversa, que tira a identidade do povo negro e enfraquece sua luta, tem sua origem na indústria que vende tais elementos como produtos, esta sim com o poder de tirar deles sua significação cultural. O uso desses produtos está, no sistema em que vivemos, submetido a essa indústria e às diversas ideologias ligadas a ela.

    Dessa forma, devemos defender as opções individuais de todas as pessoas[6] de se vestirem da forma como quiserem, e ao mesmo tempo, e algumas vezes inclusive contraditoriamente, combater a indústria que em todo momento incide e molda à sua maneira tais vontades individuais. Esse combate se dá pela reafirmação desses elementos culturais como elementos de resistência dos negros contra a dominação que lhes é imposta. Assim como tanto o racismo quanto a apropriação cultural estão, em sua essência, ligados à estrutura de classes, não se pode combatê-los sem que se intervenha na luta de classes de forma geral. É importante que, dentro dessa luta, os trabalhadores brancos se conscientizem do que significam esses símbolos, de sua história e de sua força organizativa e política para nós, seus companheiros negros, e que essa consciência trazida pela nossa luta, e não a indústria capitalista, determine a forma como cada indivíduo se relacionará com tais símbolos.

    Por último, ainda que devamos combater essa apropriação cultural da forma como se dá na sociedade hoje, movida por um interesse de lucro e de manutenção de uma ordem dominadora, exploradora e racista, não podemos transformar isso em uma bandeira contra o contato e troca cultural. Como já foi dito, não é do indivíduo branco e nem simplesmente de uma diferença abstrata entre brancos e negros que vem o racismo. O racismo não é essencial à humanidade e nem essencial ao contato entre diferentes culturas. O racismo é algo que pode se combater e se derrotar historicamente. Em uma sociedade em que for abolida a dominação de classe e em que os juízos e práticas racistas tiverem se tornado passado, não há nenhuma razão para que trabalhadores de diferentes culturas não se beneficiem da troca de conhecimentos, tradições e símbolos uns dos outros. Eis um ponto em que o texto de que falamos está certo em sua intenção – socializar e universalizar toda a cultura já produzida pela humanidade. Porém, como já mostramos, sem tomar concretamente as especificidades de como o capitalismo trata as diferentes culturas dentro da totalidade da luta de classes, não se pode armar a luta dos povos oprimidos para chegar a essa situação de igualdade e socialização.

    Apêndice 1 – uma pequena contradição
    Em grande parte, quando o companheiro da Juventude Marxista fala sobre o RAP, ele faz análises corretas, que não caem nos mesmos erros que a linha principal do texto vinha seguindo. Isso acontece porque ele usa pontos de vista diferentes e analisa aspectos diferentes quando fala, por um lado, dos dreads e dos turbantes e, por outro, do RAP. No primeiro caso, ele analisa a apropriação enquanto uso dos símbolos negros por indivíduos brancos, e o faz a partir de um ponto de vista estético. Não pensa nem a inserção social do turbante e do dread, e nem considera seu aspecto de símbolos culturais e políticos. Quando fala sobre o RAP, faz o oposto. Considera esse estilo em seu caráter político de resistência e não estético, e define a apropriação cultural como algo intrínseco da indústria e não do indivíduo. Isso faz com que a análise sobre o RAP pareça em grande parte correta, porém é falha na medida em que não admite a contradição, exposta acima, de o RAP ter diferentes avaliações conforme feito por um artista branco ou negro. Essa contrariedade de pontos de vista parciais não permite com que se analisem os diversos elementos culturais em sua complexidade e em suas diversas relações com o todo social.

    Apêndice 2 – sobre o eurocentrismo do marxismo
    Por último, sobre a questão de o marxismo ser europeu e não ter validade aqui, obviamente discordo dessa ideia da forma mecânica como é colocada por setores da pós-modernidade, mas acho que o companheiro da Juventude Marxista a contrapôs de forma não marxista porque dogmática. O método da crítica marxista tem sua força principalmente por se aplicar sobre si mesmo. A teoria sempre se constrói dentro de uma prática social concreta e a partir dela. Dentro do marxismo, não se pode manter uma mesma análise quando mudam as situações. Cada novo elemento faz com que seja necessária uma nova compreensão do todo social. A realidade com que lidamos hoje no Brasil, apesar de ter ainda os mesmos elementos fundamentais analisados por Marx (luta de classes, necessidade da revolução, etc), tem diversas diferenças e precisa ser analisada nessas diferenças. Por exemplo, o conceito de apropriação cultural talvez não fosse claramente relevante na análise da luta de classes para a classe trabalhadora européia no meio do século XIX. Porém, como já vimos anteriormente, é bastante relevante na análise da luta de classes no Brasil hoje.

    Sobre a pertinência do marxismo, termino com um pequeno diálogo que tive uma vez. A pessoa me disse:

    “O marxismo é uma teoria européia que corresponde àquele povo e não a nossa realidade.”

    Respondi:

    “Análise bastante marxista a sua.”

    Anexo: O texto do companheiro Caio Acioli, ao qual faço a crítica

    Apropriação cultural e marxismo


    Caio Acioli

    Caio é um jovem, militante do movimento negro. E este texto foi enviado por ele como sua contribuição para o debate. 

    Apropriação cultural é o que os racialistas, pan-africanistas e outros segmentos pós-modernos do movimento negro em geral inventaram para terem uso exclusivo sobre suas roupas, “cabelos e acessórios” (sim entre aspas).

    É necessário expor essa ideia como divisionista e quinta-coluna dentro da esquerda, considerando que ela é um dos elementos que o pós-modernismo tem em comum com o fascismo (que é o de querer mandar nas vestimentas dos outros).

    Os mesmos que propagam essa ideia são as pessoas que atacaram Mauro Iasi no debate na UERJ em defesa do contra-revolucionário pan-africanista Carlos Moore, o mesmo que no debate alegou que prefere o Barack Obama à Fidel Castro, porque o “Obama é preto e representa os negros”, pouco importando se a comunidade afro-americana continua numa situação pior que estava na época do Bush e anteriores, pouco importando  os crimes que esse imperador da burguesia já cometeu contra os  vários outros povos oprimidos da humanidade.

    “De acordo com sociólogos e especialistas em estudos das camadas populares na América do Norte, os índices sociais – que incluem emprego, saúde e educação – entre os afrodescendentes norte-americanos são os piores em 25 anos. Por exemplo, um homem negro que não concluiu os estudos tem mais chances de ir para prisão do que conseguir uma vaga no mercado de trabalho. Uma criança negra tem hoje menos chances de ser criada pelos seus pais que um filho de escravos no século XIX. E o dado mais assombroso: há mais negros na prisão atualmente do que escravos nos EUA em 1850, de acordo com estudo da socióloga da Universidade de Ohio, Michelle Alexander.”

    Essa é a prova que o fato de o presidente ser negro nada interfere na melhoria de vida dos negros, como no caso de Obama, que apesar de negro não está do lado destes negros oprimidos. Mas, que na verdade coloca-se contra estes, mesmo sendo negro.

    Outro ponto que essa categoria de pós-modernos tem em comum com o fascismo é a defesa dos relacionamentos e casamentos mono-raciais, muito similares a supremacistas-brancos que pregam que os homens brancos podem “se divertir” com mulheres negras, mas namorar e casar apenas com brancas.
    Outro ponto que deixa bem claro o anti-comunismo desses esquerdistas é que eles negam o marxismo como teoria revolucionária, alegando que se trata de uma “teoria branca e eurocêntrica”… Bem, quem diz isso são as mesmas pessoas que dizem pretender libertar os negros de todo mundo, mas eu não faço ideia de como eles vão fazer isso sem uma teoria revolucionária (leia-se: marxismo)… Sem uma teoria que de fato confronte a raiz de todas as opressões, portanto, a raiz do racismo. Uma teoria revolucionária que ataque os problemas do racismo não apenas em sua superfície, mas também eu seu princípio formador, que é a sociedade de classes.

    Até hoje quem mais participou da emancipação da população negra foram os lutadores marxistas (negros e não negros), seja no caso da URSS criminalizando o racismo e dando suporte às guerras de libertação nacionais africanas,seja no lendário Partido Pantera Negra para Autodefesa nos EUA. Enquanto essa condição não mudar continuarei sendo marxista e esse meu texto seguirá tendo sua relevância.

    A Apropriação Cultural e os Marxistas Negros
    Bem, antes de tudo vamos deixar bem claro que qualquer negro que seja marxista não está preocupado com a forma como determinados grupos sociais está se apropriando de símbolos atribuídos aos negros, seja o penteado dread, ou turbantes. Se há negros marxistas que defendem a noção de “apropriação” é porque não estão baseando-se na teoria filosófica e científica materialista.

    Vamos refutar duas frases proferidas como expressão de racismo e que supostamente expressão a dinâmica real do racismo atual:

    – “Branco usando dread é bonito e estiloso, preto usando dread é mendigo e sujo”
    – “Branca usando turbante é moderna e mente aberta, preta usando dread é macumbeira endemoniada”

    Derrubando essas duas mentiras brabas, já se confronta boa parte do que é classificado como “apropriação cultural”, e podemos partir pra ÚNICA forma de apropriação cultural que existe de verdade, que é a apropriação de TODAS AS CULTURAS DO MUNDO pelo CAPITALISMO, com o objetivo de serem usadas para fins comerciais, sempre que for interessante para a burguesia, de acordo com cada momento histórico.

    Então vamos para o primeiro exemplo, a falácia dos Dreads. Essa questão nos parece simples e óbvia. Parece-nos que essa tendência quer usar a lente racialista para tudo, e por isso, enxergam racismo em tudo, o que muitas vezes acaba confundido, e até mesmo prejudicando num trabalho mais radical de combate ao racismo.

    Com um olhar mais atento à realidade perceberemos que desde que os dreads começaram a serem mais usados no Brasil, apesar da indústria da moda TENTAR fazer os dreads virarem moda, eles falharam miseravelmente, porque nenhum branco nunca foi visto como “mais estiloso” que um negro por usar unicamente dos dreads. As pessoas que eventualmente acham os dreads bonitos, muito provavelmente vão achar bonito tanto na cabeça de um negro quanto na cabeça de um branco. E as pessoas que acham feio podem até xingar esse negro no meio da rua, assim como xingariam um usuário branco, a diferença é que o usuário negro poderá ser xingado com termo racistas, enquanto o branco não vai ser xingado de termos racistas.

    O problema mesmo está no racismo da sociedade e seus preconceitos contra o diferente, e não na “apropriação” que o branco fez.  Até mesmo porque a “apropriação” dele não salvaria ele de ser xingado em virtude de usar seus dreads. Outras coisas que refutam a falácia dos “brancos roubaram um estilo de cabelos dos negros”, é que nós conhecemos gente branca que usa dread e devido a isso as dificuldades de arrumar emprego aumentam consideravelmente comparados a quando elas não usavam. O mesmo acontece com um negro usuário de dread, a diferença é que esse terá ainda mais dificuldade de conseguir o emprego caso esteja disputando com o usuário branco, por exemplo, mas isso acontecerá porque ele vai ter que enfrentar o preconceito contra os dreads somado ao RACISMO.

    Pronto. E por ai cai a falácia de que “brancos usando dreads são bem-vistos”. Eles não são bem vistos, eles também são mal vistos, só que a cor deles nesse caso expressa um atributo a menos de ataque, fazendo com que a discriminação contra eles seja menor.

    Mais uma questão é que outros povos começaram a usar os dreads juntos ou ainda antes dos negros, o que pode até causar mal estar entre aqueles que não aceitam esse uso como sendo uma apropriação indevida.

    Então vamos para o segundo exemplo, os Turbantes:

    A análise materialista a ser utilizada no caso do turbante é bem igual à utilizada no caso dos dreads, só mudamos o objeto de análise. Nesse caso, os racialistas alegam que “brancas usando turbante são vistas como mulheres com muito estilo”.

    Será que essas pessoas saem pra rua ou eles ficam o dia inteiro dentro de casa bolando essas teoria e essas idéias? Basta sair na rua que não será difícil ver uma mulher branca sendo “xingada” de coisas como “demônia” “macumbeira”, tal como uma mulher negra receberia o mesmo tipo de inferências, com o objetivo de descriminar e subjugar.

    Não podemos afirmar que uma mulher branca será bem vista por usar turbante, pelo motivo de ser branca. A possibilidade de ser mal descriminada, do ponto de vista cultural, será a mesma possibilidade de uma negra.

    Como no exemplo dos dreads, a negra usando turbante tem tantas possibilidades de receber uma ofensa quanto a branca, só que pra ser mais preciso o turbante é ainda mais discriminado que o dread, por alguns outros motivos.

    Os racialistas alegam que “A indústria da moda está vendendo o turbante como um produto”. Eu tomo a liberdade de modificar essa frase para colocá-la de acordo com a realidade: “A indústria da moda está TENTANDO vender o turbante como um produto”. Pronto, agora sim. E se eles estão tentando ou tentaram fazer isso, eles estão falhando ou JÁ FALHARAM, porque não podemos considerar NA MODA uma peça que quem usa ela é ofendida tão só por usar essa peça. Assim, esse conceito de MODA deve ser repensado. O fato é que o turbante é ainda mais odiado pela sociedade que os dreads.

    E quanto às origens do turbante, se sabe bem que quem iniciou o seu uso foram os povos árabes, não os povos negros.

    Agora vamos falar sobre a “apropriação cultural” real que o capitalismo faz com TODAS AS CULTURAS DO MUNDO.

    O motivo de eu colocar “apropriação cultural” entre aspas, nesse caso, é porque esse termo foi utilizado pelos pós-modernos e nós marxista precisamos inventar outro para não haver confusão, mas por falta de tempo deixaremos para fazer uma distinção mais detalhada e cunhar outro conceito, deixaremos entre aspas mesmo.

    Para esse caso real, vamos utilizar o gênero musical que eu escuto desde quando me entendo por gente e tenho muita, mais muita afinidade e conhecimento, que é o RAP.

    O RAP se iniciou por volta de 1970, uns dizem que ele surgiu na Jamaica e com o tempo foi “exportado” pra Nova York e outros dizem que ele foi inventado em NY mesmo, mas tudo bem isso não importa agora.

    O RAP sempre foi utilizado pelos negros norte-americanos para denunciar todas as opressões que sofriam na sociedade burguesa norte-americana, com o tempo ele se fundiu com os outros 3 elementos (DJ – Break Dance – Grafiti) e os 4 juntos formaram a cultura Hip-Hop, expressão artística legítima e fundamental da periferia contra a opressão capitalista. Talvez a mais importante produção cultural combatente do capitalismo, apesar de incompleta e insuficiente.

    Com o passar dos tempos, lá pra 1992-1993, o capitalismo já começou a tentar se apropriar do Hip-Hop para minar essa cultura por dentro de torná-la inofensiva ao capitalismo, porém suas tentativas não obtiveram um sucesso grande, pelo menos não comparando com o que eles conseguiram no início dos anos 2000, onde eles finalmente conseguiram prostituir quase por completo a cultura Hip-Hop, injetando na indústria inúmeros artistas comerciais sem talento algum e fazendo esses grupos “explodirem nas paradas”, como eles mesmos dizem.

    Ainda bem que com o passar do tempo esses artistas começaram a cair em descrédito poucos anos após aparecerem repentinamente na mídia, enquanto o rap underground dos EUA continua forte e resistindo bravamente á essas investidas.

    Esse é um bom exemplo de apropriação cultural. Uma coisa muito importante de se notar é que quase todos esses artistas comerciais eram NEGROS, isso facilitava pra indústria inserir a ideologia burguesa na cabeça dos negros norte-americanos. Logo, se enganam aqueles que afirmam que algo só ganha grande repercussão quando seus sujeitos são pessoas de pele branca. No caso do RAP, ao menos, esta não é uma verdade, apesar de muitos tentarem fazer essa afirmação.

    Pra encerrar gostaria de deixar bem claro que nenhum marxista irá querer criar exclusividade étnico-racial para uso de roupas, apreciação e criação de obras artísticas visuais e musicais. Isso nós deixamos para as confusões dos racialistas, com suas lentes embaçadas, que só conseguem ver a história através do prisma da raça. O desejo dos marxistas é que um dia TODOS OS POVOS do mundo possam fazer um livre intercambio cultural, uma verdadeira UNIVERSALIZAÇÃO DA CULTURA, livre de influências e imposições imperialistas.

    [1] Aqui poderia se explicar melhor como o capitalismo fomenta o racismo e o usa para se manter e para garantir os interesses da classe dominante, mas há diversos textos que podem tratar do assunto de forma mais profunda do que seria o caso aqui.

    [2] Importante lembrar, apesar de não ser o tema da discussão aqui, que esse é majoritariamente um setor branco.

    [3] Ainda que algumas dessas mulheres fossem oriundas dessa classe.

    [4] Aqui é interessante pensar na discussão sobre como a simples auto-identificação como negro é um símbolo que pode organizar resistência, e por isso surge a ideologia da miscigenação, de que os negros de pele clara não são negros, mas morenos, pardos, etc.

    [5] É importante lembrar que a capoeira, particularmente, é um elemento cultural negro que se deslocou quase completamente dos espaços negros para academias predominantemente brancas.

    [6] Isso vale centralmente para as mulheres, que sofrem uma opressão muito específica relacionada com as roupas que vestem.

    Foto: Mulher negra Raul Golinelli/ SECOM BA

  • Para além da aparência: apropriação cultural no capitalismo

    Por: Lucas Vidal Silva Moraes, mestrando em Sociologia pela Universidade Estadual do Ceará

    Usar turbante sendo uma pessoa branca é um problema para a luta contra o racismo? Essa é a grande pergunta que move minha curiosidade de entender o que seria a tão discutida apropriação cultural. Além de ser um conceito aparentemente vago que se afirma pela internet em tempos recentes, acompanha o processo de difusão mercadológica de artigos vindos de outras localidades e gestados em outras culturas como as do Oriente Médio e de África.

    A circulação dentro do mercado de consumo brasileiro de turbantes, tecidos com estampas africanas, brincos e colares de penachos, entre outros, também traz consigo uma intensa discussão sobre a possibilidade de seus usos, ou não, por pessoas que não fazem parte desses grupos sociais os quais gestaram esses artigos. Alguns segmentos do movimento negro afirmam que pessoas brancas que utilizam alguns desses artigos estão se apropriando de outras culturas, contribuindo para o processo de colonização e de invisibilização de símbolos de resistência.

    Esse texto foi escrito na tentativa de compreender esse debate de uma maneira mais ampliada, partindo do pressuposto de que é tarefa do movimento negro educar e desconstruir os sujeitos não pretos sobre o preconceito racial de maneira a fortalecer nossa luta. No entanto, não é o que vemos hoje, principalmente na internet, onde a geração negra do tombamento, ao trabalhar com alguns processos anti-educativos, traz sérios problemas para outras militâncias comprometidas com o fim do racismo patriarcal que é basilar no contexto brasileiro.

    Primeiramente, é importante realizar uma velha e necessária autocrítica aos movimentos sociais como um todo. O afastamento dos debates sobre classes sociais após a queda do muro de Berlim, a fragmentação e a setorialização de algumas demandas antes esquecidas pelos movimentos revolucionários fizeram parte de um processo histórico de reação ao fato de o stalinismo ter ganhado proporções mundiais, degenerando uma das mais conhecidas tentativas de socialismo conhecidas até hoje.

    Como podemos perceber, muito tempo depois, o objetivo do stalinismo foi a criação de um Estado que, apesar de ser voltado para classes trabalhadoras, conservava valores totalmente machistas e racistas, entendendo esses problemas como secundários às demandas da revolução.

    O tom conservador do stalinismo trouxe consequências desastrosas para os movimentos socais, que são sentidas até hoje quando nos deparamos com a própria discussão sobre a apropriação cultural. A prática de perseguição racista e homofóbica de Stalin no processo russo gerou uma fragmentação profunda dos grandes movimentos revolucionários do início do século XX, onde a ebulição dessas discussões colocadas, antes concebidas como problemas secundários, dá forma ao que conhecemos como os novos movimentos sociais.

    Esses novos movimentos sociais que surgem a partir dos anos 70 partem de uma perspectiva outra, onde as classes sociais são colocadas como apenas um fator secundário diante das demandas de grupos e indivíduos. Essa “individualização” é também conhecida como fragmentação, reação a alguns problemas históricos das tentativas de construção do socialismo no mundo. Dito isso, a não relação entre racismo e capitalismo hoje traz profundos problemas e individualiza uma luta que é social, já que a apropriação cultural também está localizada em um contexto social de capitalismo.

    No pano de fundo desse processo político está também a conhecida reestruturação produtiva do capitalismo, que se inicia também por volta dos anos 60 com novas formas de acumulação que rompem com o enrijecido keynesiano-fordismo. Antes dessa reestruturação, a padronização da produção fabril exigia trabalhadores disciplinados, alinhados a uma estética branca burguesa e ligados de maneira radical aos valores conservadores da família. Para David Harvey é possível enxergar essa realidade nos filmes de época e na arquitetura moderna caracterizada por sua padronização. Esses aspectos sociais dentro do capitalismo geraram a revolta de inúmeros segmentos que eram marginalizados por sua lógica, como negros e negras, indígenas, mulheres e LGBT.

    Com a reestruturação do capitalismo, outras relações foram exigidas para a hegemonização desse processo. A criação de novas individualidades preparadas para enfrentar contratos de trabalho cada vez mais incertos se deu através da apropriação de diversas demandas que antes estavam à margem do mercado de trabalho, mas que hoje encontram seu local de visibilidade dentro desse modelo de acumulação de lucro.

    Locais onde só eram aceitas força de trabalho masculina oferecem subempregos para mulheres. LGBTs que eram criminalizados pela família hoje já têm legitimidade jurídica para a construção dessas relações e também um mercado específico para atender às suas necessidades, conhecido como mercado do Pink Money (dinheiro rosa). Negros e negras passam a ter lugares limitados para exercer cargos de importância antes impensáveis, como a presidência de uma das potências mundiais como os EUA.

    Todos os efeitos dessa reestruturação que flexibiliza as relações sociais para atender às necessidades de um modo de acumulação mais contemporâneo tornam densa a relação entre apropriação cultural e circulação mercadológica de bens de consumo. Alguns casos, como a crítica à feijoada vegana como apropriação cultural, a crítica à garota branca com câncer por usar turbante ser uma forma de apropriação cultural, a crítica a uma pessoa branca por brincar maracatu, ou samba por ser branca, diversas críticas apartadas de seu contexto, mais atrapalham do que contribuem para uma reflexão sobre o racismo. Esse deslocamento que transforma a apropriação cultural em um carimbo não leva em consideração a complexidade das contradições da sociedade em que vivemos.

    O capitalismo como um modo societário que transforma tudo em mercadoria, desde artigos culturais até mesmo relações, encontra diversas formas de se reelaborar e se expandir durante a história. Nos seus momentos de crise, os capitalistas se agarram até mesmo em coisas que antes lhe eram exóticas e marginais, na tentativa de capitalizar e manter a estrutura de relações às quais vivemos hoje.

    Um caso que não foi muito discutido recentemente na internet, mas que ilustra bem esse argumento é o do casal de brasileiros que fatura R$ 550 mil com a venda de artigos indígenas produzidos pelas etnias Krahô, Kayapó, Mehinako, Yawalapiti e Xavantes, em Nova York. Nesse caso, apesar de afirmarem reverter os lucros às tribos, pagam para seus “colaboradores” apenas R$ 500 por mês.

    O que fica evidente ao observar esse caso é que o que chamamos de apropriação cultural, na verdade é a circulação desses artigos pela indústria mercadológica do capitalismo que se configura de várias formas. Lojas bem intencionadas que vendem esses conhecidos símbolos de resistência os transformam em objetos estéticos, apagando seu significado histórico. Mas, a culpa desse fato seria dos indivíduos que acessam esses artigos, ou desses sistemas que capitalizam as produções culturais? Se o capitalismo hoje permite que troquemos informações com pessoas do Japão através da internet, não seria ele o culpado pela apropriação cultural?

    Entender essa problemática em uma visão cartesiana, ou seja, mecânica e dualista, em minha compreensão, nos distancia de um entendimento amplo sobre a apropriação cultural. O capitalismo enquanto um sistema global nos permite o contato com culturas de diversos locais do mundo e seu constante intercâmbio.

    No Brasil, encontramos diversos restaurantes de comida chinesa e japonesa, comidas de nosso dia a dia que têm origem e influência de povos africanos, tais como o acarajé e feijoada. Temos também exemplos no mundo estético, além dos supracitados turbantes e tecidos africanos, temos as calças jeans, criação norte americana muito utilizada pelas pessoas brasileiras. Em resumo, uma infinidade de artigos que são integrantes de outras culturas e que perpassam o nosso dia a dia satisfazem nossas necessidades em vários aspectos e nos dão a possibilidade de conhecer outros espaços, mesmo sem tê-los percorrido.

    Esse constante compartilhamento de elementos culturais são socializados, mas no capitalismo são apropriados pelo mercado para serem acessíveis apenas a quem pode pagar. Não se compra um turbante esteticamente bonito sem ter dinheiro para isso. Tecidos africanos cada vez mais estão em moda. Todo esse processo de circulação desses artigos convertidos em mercadorias se tornam acessíveis para pessoas pela mediação do dinheiro, ou lhe são inacessíveis pela falta dele.

    Essa estrutura de poder que perpassa as relações raciais no capitalismo encontra diversas nuances. Já que elementos culturais encontram-se socializados em todo o mundo e que o mercado os deixa acessíveis apenas a quem tem como pagar, a reivindicação em cima da apropriação cultural na verdade se trata, como afirmou Valter Magnaroli, em 2015, de uma reivindicação por exclusividade de consumo.

    A pessoa branca que utiliza o lenço na cabeça não é culpada pelo racismo que se propaga e pela constante expropriação dos bens culturais do povo negro. A condenação de outras pessoas em utilização de artigos árabes, indígenas, negros, ou outros, na verdade individualiza um problema que tem relação direta com o racismo estrutural.

    Uma jovem branca ser repudiada por usar turbante e um casal branco enriquecer às custas de artigos indígenas são bem diferentes. No primeiro caso, é preciso perceber que quando falamos de apropriação, na verdade estamos pensando em socialização e isso é um elemento importante para a resistência negra.

    Fazer com que o sujeitos não pretos vejam em artigos da cultura oriental, africana e afro-brasileira elementos de resistência e luta é fundamental para uma reeducação de toda uma sociedade que reproduz práticas racistas. No segundo caso, quando se fala em apropriação, se fala em expropriação, ou seja, a produção de artigos feitos por indígenas, que é levada ao exterior e vendida para lucro de empresários brancos. Nesse sentido, apropriação é um conceito problemático que precisa ser contextualizado para não emitirmos opiniões de culpabilização apenas dos indivíduos, mas direcionarmos nossa prática para quem realmente sustenta essa lógica: as estruturas racistas do capitalismo.

    É importante lembrar que parte da luta do movimento negro diz respeito da Lei 10.639, que ressalta a importância da cultura negra ser trabalhada nas escolas. Ora, na escola vamos escolher apenas os indivíduos negros para abordar questões raciais, ou é necessário que abordemos essas questões com todas as pessoas da comunidade escolar, sejam brancas ou negras, para o enfrentamento e desconstrução dos preconceitos pela educação? Reconhecer a beleza de nossa cultura passa longe de ser uma abordagem racista. O racismo é um ato de ódio, genocida, muito bem praticado pelos órgãos oficiais do Estado como a polícia  – grande parte composta por pessoas negras, diga-se de passagem.

    Nesse sentido, retomando a pergunta inicial: Usar turbante sendo uma pessoa branca é um problema para a luta contra o racismo? Acredito que não, assim como também ter acesso a elementos dessa cultura de maneira a respeitá-la e contribuir com sua resistência. Temos diversos casos passíveis de problematização, como a expropriação histórica de nossos bens sociais pela burguesia branca. Porém, não será recriminando uma jovem por seu uso de turbante que iremos trazer uma outra ideia de sociedade livre do preconceito racial e, principalmente, livre dessa lógica mercadológica que individualiza e atomiza uma luta que deve ser de todas as pessoas.

    Foto: Reprodução Facebook

  • Um ano da Casa Nem e a importância da manutenção do projeto no Rio

    Por: Lara Lima, do Rio de Janeiro, RJ

    Uma pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia apontou que 37% dos brasileiros não aceitariam um filho LGBT dentro de suas casas. Diante desta realidade, entendendo a situação de risco em que essas pessoas se encontram, projetos de acolhimento para LGBTs são extremamente necessários. A Casa Nem, no Rio de Janeiro, é um desses.

    A casa funciona desde fevereiro de 2016, na rua Moraes e Silva, no centro do Rio de Janeiro. Abriga pessoas LGBTs, em especial Transsexuais e Travestis, em uma casa coletiva e autogestionada. Uma casa de passagem que leva cidadania e novas oportunidades àqueles que são invisíveis para o poder público.

    Desde o começo das atividades, o foco da casa é, além de dar abrigo, proporcionar meios para que as pessoas assistidas consigam dar prosseguimento aos estudos e entrar no mercado de trabalho. Projetos como o PreparaNem, um pré-vestibular para LGBTQIs com prioridades para travestis, transexuais e transgeneres, que já tem modelo replicado na Zona Oeste do Rio, em Niterói e na Maré, fazem parte das oportunidades oferecidas na casa.

    Infelizmente, devido a dificuldades de levantamento de verbas, a Casa Nem corre o risco de fechar, botando de volta às ruas 30 pessoas que nela habitam. Com o objetivo de arrecadar fundos para conseguir uma nova casa e dar continuidade ao projeto, elas fizeram uma vaquinha na internet. O objetivo era arrecadar R$ 30 mil, necessários para a reestruturação da casa e o planejamento dos projetos para o ano de 2017.

    Por que é importante colaborar?
    A Casa Nem é a primeira casa de acolhimento para LGBTIQs totalmente independente de órgãos governamentais no Estado do Rio de Janeiro. Pessoas transsexuais de diversos lugares do país largaram sua cidade natal e vieram para o Rio contribuir com a construção da casa. A maioria delas não tem outro lugar para ir, caso a casa feche.

    Além de todos os projetos voltados para as pessoas que nela vivem, a Casa Nem, neste um ano de funcionamento, tornou-se referência da cultura LGBT no Rio de Janeiro, cedendo seu espaço para festas, debates e oficinas. Um local seguro de encontro para pessoas que têm acesso negado à cultura e à educação.

    Colaborar com a Casa Nem é colaborar para uma sociedade inclusiva, sem preconceitos e que respeita a diversidade.

    Página da Casa Nem no Facebook
    Link para colaborar com a Casa Nem

    Vídeo

  • Feministas convocam greve internacional para o 8 de março

    Por: Bruna Quinsan, de São Carlos, SP

    Sete feministas, entre elas Angela Davis e Nancy Fraser, assinaram uma convocação para uma greve internacional no 8 de março. No texto, elas apresentam novos movimentos de mulheres que estão surgindo pelo mundo. Esses movimentos se colocam na luta contra a violência contra as mulheres, ao mesmo tempo em que combatem o racismo, a LGBTfobia, a xenofobia, o imperialismo e o neoliberalismo. As autoras pretendem mobilizar mulheres e seus apoiadores de todo o mundo em um dia de greves e grandes marchas contra a violência masculina e na defesa dos direitos reprodutivos.

    Motivos para as mulheres brasileiras se somarem a essa greve não faltam, afinal, treze de nós são assassinadas por dia e a cada onze minutos uma de nós é estuprada no país. Além disso, somos nós as mais atingidas com os ataques de Michel Temer (PMDB), como a Reforma da Previdência e a indicação de Alexandre de Moraes ao STF, que para além de ser o advogado de Eduardo Cunha, deu uma declaração após uma mulher ser estuprada no metrô de São Paulo dizendo que o espaço é seguro, pois o cofre não foi roubado.

    Faltando pouco menos de um mês para esse dia internacional de luta, chega a hora de convocar todas as mulheres que pudermos para ocuparmos as ruas. Mulheres negras, trans, lésbicas, bissexuais e trabalhadoras das mais diversas categorias juntas em marcha contra a violência e os retrocessos em curso.

    Além do ‘faça acontecer’: para um feminismo dos 99% e uma greve internacional militante em 8 de março

    Linda Martín Alcoff, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya, Nancy Fraser, Keeanga­Yamahtta Taylor, Rasmea Yousef Odeh e Angela Davis

    (Tradução de Daniela Mussi para o Blog Junho)

    As grandes marchas de mulheres de 21 de janeiro [nos Estados Unidos] podem marcar o início de uma nova onda de luta feminista militante. Mas qual será exatamente seu foco? Em nossa opinião, não basta se opor a Trump e suas políticas agressivamente misóginas, homofóbicas, transfóbicas e racistas. Também precisamos alvejar o ataque neoliberal em curso sobre os direitos sociais e trabalhistas. Enquanto a misoginia flagrante de Trump foi o gatilho imediato para a resposta maciça em 21 de janeiro, o ataque às mulheres (e todos os trabalhadores) há muito antecede a sua administração. As condições de vida das mulheres, especialmente as das mulheres de cor e as trabalhadoras, desempregadas e migrantes, têm­se deteriorado de forma constante nos últimos 30 anos, graças à financeirização e à globalização empresarial. O feminismo do “faça acontecer”[1] e outras variantes do feminismo empresarial falharam para a esmagadora maioria de nós, que não têm acesso à autopromoção e ao avanço individual e cujas condições de vida só podem ser melhoradas através de políticas que defendam a reprodução social, a justiça reprodutiva segura e garanta direitos trabalhistas. Como vemos, a nova onda de mobilização das mulheres deve abordar todas essas preocupações de forma frontal. Deve ser um feminismo para 99% das pessoas.

    O tipo de feminismo que buscamos já está emergindo internacionalmente, em lutas em todo o mundo: desde a greve das mulheres na Polônia contra a proibição do aborto até as greves e marchas de mulheres na América Latina contra a violência masculina; da grande manifestação das mulheres de novembro passado na Itália aos protestos e greve das mulheres em defesa dos direitos reprodutivos na Coréia do Sul e na Irlanda. O que é impressionante nessas mobilizações é que várias delas combinaram lutas contra a violência masculina com oposição à informalização do trabalho e à desigualdade salarial, ao mesmo tempo em que se opõem as políticas de homofobia, transfobia e xenofobia. Juntas, eles anunciam um novo movimento feminista internacional com uma agenda expandida – ao mesmo tempo anti­racista, anti­imperialista, anti­heterossexista e anti­neoliberal.

    Queremos contribuir para o desenvolvimento deste novo movimento feminista mais expansivo.

    Como primeiro passo, propomos ajudar a construir uma greve internacional contra a violência masculina e na defesa dos direitos reprodutivos no dia 8 de março. Nisto, nós nos juntamos com grupos feministas de cerca de trinta países que têm convocado tal greve. A ideia é mobilizar mulheres, incluindo mulheres trans, e todos os que as apoiam num dia internacional de luta – um dia de greves, marchas e bloqueios de estradas, pontes e praças; abstenção do trabalho doméstico, de cuidados e sexual; boicote e denuncia de políticos e empresas misóginas, greves em instituições educacionais. Essas ações visam visibilizar as necessidades e aspirações que o feminismo do “faça acontecer” ignora: as mulheres no mercado de trabalho formal, as que trabalham na esfera da reprodução social e dos cuidados e as desempregadas e precárias.

    Ao abraçar um feminismo para os 99%, inspiramo­nos na coalizão argentina Ni Una Menos. A violência contra as mulheres, como elas a definem, tem muitas facetas: é a violência doméstica, mas também a violência do mercado, da dívida, das relações de propriedade capitalistas e do Estado; a violência das políticas discriminatórias contra as mulheres lésbicas, trans e queer, a violência da criminalização estatal dos movimentos migratórios, a violência do encarceramento em massa e a violência institucional contra os corpos das mulheres através da proibição do aborto e da falta de acesso a cuidados de saúde e aborto gratuitos. Sua perspectiva informa a nossa determinação de opormo­nos aos ataques institucionais, políticos, culturais e econômicos contra mulheres muçulmanas e migrantes, contra as mulheres de cor e as mulheres trabalhadoras e desempregadas, contra mulheres lésbicas, gênero não­binário e trans­mulheres.

    As marchas de mulheres de 21 de janeiro mostraram que nos Estados Unidos também um novo movimento feminista pode estar em construção. É importante não perder impulso. Juntemo­nos em 8 de março para fazer greves, atos, marchas e protestos. Usemos a ocasião deste dia internacional de ação para acertar as contas com o feminismo do “faça acontecer” e construir em seu lugar um feminismo para os 99%, um feminismo de base, anticapitalista; um feminismo solidário com as trabalhadoras, suas famílias e aliados em todo o mundo.

    (Publicado originalmente em Viewpoint Magazine.)

    Nota:

    [1] “Faça acontecer” é uma referência ao movimento inspirado no livro de Sheryl

    Sandberg, Lean in: Women, work, and the will to lead (New York: Random House,

    2013. Versão em português Faça acontecer: mulheres, trabalho e a vontade de liderar. São Paulo: Companhia das Letras, 2013). A principal característica do movimento é a ênfase no empreendedorismo feminino (N. Da T.).

    Foto: Angela-Davis-Mar-28-2006.2.jpg

  • Ato em defesa do mandato de Jean Wyllys (PSOL) lotado de solidariedade

    Por: Lara Lima*, do Rio de Janeiro, RJ

    Uma noite de afeto e resistência aconteceu nesta segunda-feira (6) no Clube Municipal, no Rio de Janeiro. O ato em defesa do mandato do deputado Jean Wyllys (PSOL) lotou o auditório do quarto andar do clube, na Tijuca, Zona Norte da cidade.

    16425925_816741138484033_3066017960789934670_n

    Com o apoio de diversos movimentos sociais, militantes organizados e independentes, pessoas LGBTIQs, drags e artistas que lotaram o auditório do clube, Jean Wyllys deu seu recado para toda a sociedade, reafirmando compromisso com a luta dos trabalhadores e de todas as pessoas que são oprimidas pelo sistema.

    16387877_816741158484031_1360036510501980593_nSabemos o momento histórico que vivemos e nós entendemos que os ataques de natureza LGBTfóbica contra o mandato do Jean representam uma ofensiva contra a esquerda combativa e contra os setores mais marginalizados de nossa sociedade. Bolsonaro se utiliza da homofobia para silenciar o único parlamentar eleito três vezes seguidas como melhor deputado pelo Congresso em Foco.

    A punição a Jean pelo famoso caso do cuspe não representa o estabelecimento da ordem, como querem fazer parecer setores da sociedade. Esta punição, nunca antes vista pelo Conselho de Ética, representa a manutenção dos privilégios de homens cisgêneros, brancos e corruptos, que não querem ter que abrir mão de seus privilégios e esquemas.

    Acreditamos ter sido uma grande vitória do movimento LGBTIQ. Saímos todos fortalecidos e organizados para enfrentar o avanço do conservadorismo. Eles não vão conseguir calar um de nós. LGBTfóbicos não passarão.

    #QueremCalarUmDeNós

    *Lara Lima faz parte do MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista)

    Fotos: Mídia Ninja