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  • Nova e polêmica lei da coca, na Bolivia

    Por Joana Benário, São Paulo/SP

    No domingo 19 de março, o Presidente Evo Morales apresentou a nova lei da Coca a suas bases, o setor dos produtores de coca da região do Trópico de Cochabamba, em um ato muito concorrido de milhares de pessoas. O dirigente da Central sindical camponesa nacional (CSUTCB) aproveitou a oportunidade para apresentar Evo como o seu candidato presidencial para as próximas eleições presidenciais de 2019.

     Que propõe a nova lei?

    A nova lei legaliza o cultivo de 22.000 hectares de coca no pais. Anteriormente, o limite era fixado em 12.000 Ha.  Esses hectares estão divididos entre as duas grandes regiões de cultivo, os Yungas de LaPaz e o Chapare de Cochabamba.

    Zonas de produção  ANTES   (lei 1008) AGORA  (lei 906)
    YUNGAS  8.800 Ha 14.300 Ha
    CHAPARE  3.200 Ha   7.700 Ha
    TOTAL 12.000 Ha 22.000  Ha

    Além disso, a nova lei reconhece o uso tradicional da coca na Bolívia para mastigação da folha (accullicu) e mates, medicina tradicional e usos sagrados para rituais, assim como usos culinários e em alimentos processados, bolos, shampoos, etc… Depois de várias negociações internacionais, em 2013, a ONU despenalizou a coca para uso tradicional na Bolívia, mas a folha de coca ainda continua  sendo considerada, internacionalmente, como um narcótico e não pode ser exportada legalmente.

    A principal  controvérsia em torno a essa nova lei é que legaliza mais cultivos de coca do que o consumo tradicional que a Bolívia precisa.  Apesar de não haver números exatos, estima-se que haja entre 20 e 35.000 hectares cultivados[i], segundo as fontes.  O governo boliviano reconhece o cultivo de 20.200 hectares  para uma produção de 32.500 toneladas de coca, segundo um informe da Oficina das Nações Unidas contra as Drogas e o Delito (UNODC) de 2015.

    Outro estudo financiado pela União Europeia (2012) que demorou quatro anos, estima que um milhão de pessoas na Bolívia consome folhas de coca (10 % da população) , para o qual seriam justificados o cultivo de 14.300 ha. de coca.  Como vemos, os números são muito questionáveis, mas todos mostram a existência de um grande excedente na produção de coca, ou seja, que não é absorvido pelo consumo tradicional.  Este excedente, sem dúvida, vai para o tráfico de drogas, problema antigo para a Bolivia e outros paises produtores de coca, e vai se tornar mais agudo com a nova lei. As cifras revelam também que a velha política de erradicação dos cultivos de coca (imposta e financiada pelos EUA) é um  fracasso e nunca resolveu o problema nem da produção nem do tráfico.

    Na Bolívia, o debate sobre a coca se limita à despenalização, sem entrar no enfoque da legalização geral das drogas, debate necessário e existente em outros países. A descriminalização nacional da coca, conseguida por meio da ONU, foi um passo importante. A legalização dos cultivos de coca que consta na nova lei, é uma reivindicação histórica do setor dos produtores, mas se não for acompanhada de outras medidas tais como controle estatal sobre toda a produção, preço fixo da folha de coca e a entrega ao Estado para sua comercialização oficial, acaba sendo uma medida insuficiente. Ao invés de avançar na solução do problema, colabora com a expansão da comercialização ilícita, devido ao aumento da oferta, porque a produção excedente entra no mercado do tráfico de drogas.

     Antecedentes: a poderosa Lei 1008

    Um conjunto de lei substituíram a antiga lei 1008, imposta pelos EUA em 1988, conhecida como a lei anti-droga que criminalizou produtores de coca como principais responsáveis pela produção e tráfico de cocaína. Centenas deles ainda lotam as prisões da Bolívia, muitos deles sem julgamento… Essa lei 1008 foi baseada na política norte-americana de “guerra às drogas”, com o argumento que a existência do mercado ilegal de cocaína é responsabilidade dos produtores de folhas de coca, porque no mercado global a oferta de um produto leva à demanda… justificando assim a politica imperialista de intervenção, desenvolvida pelos EUA desde a década 80.

    Essa politica da criminalização da coca foi o motor para o surgimento da organização e da luta do setor dos produtores de coca na Bolivia, com o seu líder Evo Morales, em duros enfrentamentos contra a politica imperialista. Naqueles anos, os eixos da luta dos produtores de coca, apoiados pelo movimento camponês no seu conjunto e também pela COB (Central Operária Boliviana), podiam se resumir nas suas palavras de ordem: ‘coca não é cocaína’,  ‘a coca é milenária e sagrada’  ‘Gringos, go Home’.

    No início de seu primeiro mandato, em 2008, Evo assinou vários acordos com as organizações locais de produtores de coca que permitiam maior cultivo de coca no país, atingindo a quantidade de 20.000 Ha.  A lei atual legaliza esses acordos e ainda aumenta 2000 ha., depois de protestos dos cocaleros de Yungas de LaPaz, insatisfeitos com a distribuição entre as duas regiões.  Na região dos Yungas, considerada como região tradicional de produção de coca no pais, o rendimento médio é de uma tonelada de coca por hectare; na região do Chapare, o rendimento dobra. Com  7.700 ha. permitidos, os produtores do Chapare (base social de Evo) vão legalizar a mesma produção que a região dos Yungas que era a região tradicional,  “onde a coca é mais doce” segundo o refrão popular.

    A União Europeia já mostrou sua preocupação quanto a esse aumento da produção da coca e anunciou que modificará sua cooperação com o pais. Do mesmo jeito, os Estados Unidos informaram que recriminavam a Bolívia no tema da luta contra o narcotráfico.  Retomando seus velhos discursos, Evo Morales ressaltou que a Comunidade Internacional deve entender que certas decisões são adotadas sem o consentimento dos Estados Unidos ou da Europa.

     Por trás da nova lei

    Quando ele era o líder dos pequenos produtores de coca, Evo sempre afirmou que uma tarefa central de seu governo seria a de derrubar a lei 1008. Onze anos de governo se passaram, sem mudá-la. Hoje, considerando os crescentes protestos sociais contra seu governo e a acelerada queda da sua popularidade,  ele precisa reforçar sua base social,  assegurar que os cocaleiros do Chapare seguirão seu líder até o final.  Pode-se lembrar aqui que Evo continua sendo o máximo dirigente sindical das 6 Federações do Trópico de Cochabamba; nunca deixou outros assumirem o cargo.

    No ano passado, 21 de fevereiro de 2016, o governo do Movimento ao Socialismo (MAS) organizou um referendum perguntando ao povo se estava de acordo com um quarto mandato de Evo (2020-2024), a fim de modificar a Constituição que limita a dois o número de mandatos. Apesar da grande publicidade, o governo perdeu; com 51,3% ganhou o NÃO.  Esse foi um sinal muito forte para Evo, que marcou o início do declínio de seu governo.  Este ano, naquela data, foram organizados pela oposição, atos nas principais cidades do pais, exigindo respeito àqueles resultados. Os atos do 21F foram multitudinários, juntando setores da direita e numerosos setores sociais insatisfeitos com a governo de Evo pela crescente crise econômica, a falta de emprego, a ineficiência do Estado em resolver os problemas do país e os escândalos de corrupção nas esferas do poder.  A promulgação da nova lei da coca chega no momento preciso para revalorizar a importância de manter Evo no poder ante a base do MAS.  A importância do debate sobre a legalização da coca e das drogas não pode desconsiderar os interesses políticos por trás desta nova lei.

    [i]O Departamento de Estado norte americano deu a conhecer seu relatório 2016 sobre o controle de narcóticos, onde reitera o “fracasso manifesto” da Bolívia na luta contra as drogas, e indica entre 2013 e 2014 um aumento de 30% ocorreu nos cultivos de coca, que de acordo com o relatório chegaria a 35.000 hectares. http://cd1.eju.tv/wp-content/uploads/2016/03/REPORT-INCSR.pdf

    [ii]ttps://www.unodc.org/bolivia/es/Los-cultivos-de-coca-en-Bolivia-se-estabilizaron-en-2015-reporta-el-Informe-de-Monitoreo-de-la-UNODC.html

  • Shinzo Abe segue golpeando a chamada Constituição Pacifista japonesa

    Por: Mário Aguena, de São Paulo, SP

    Artigo 9. Aspirando sinceramente a paz mundial baseada na justiça e ordem, o povo japonês renuncia para sempre o uso da guerra como direito soberano da nação ou a ameaça e uso da força como meio de se resolver disputas internacionais. Com a finalidade de cumprir o objetivo do parágrafo anterior, as forças do exército, marinha e aeronáutica, como qualquer outra força potencial de guerra, jamais será mantida. O direito a beligerância do Estado não será reconhecido. (Constituição do Japão, Capítulo II. Renúncia a Guerra, Artigo 9, 1947)

    A atual Constituição do Japão foi escrita sob supervisão das tropas americanas que ocupavam o país após a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial. A chamada cláusula pacifista visava evitar a reconstrução do poderio militar japonês e tinha amplo respaldo em uma população que tinha sofrido os horrores da guerra, dos bombardeios americanos e das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

    Nas décadas seguintes, o país recuperou seu papel como grande potência imperialista, especialmente a partir da guerra da Coreia, em 1951, quando serviu como retaguarda para as tropas americanas e teve seu crescimento estimulado pelo esforço de guerra dos EUA. Colocou-se sob a proteção de dezenas de milhares de soldados americanos e do chamado “guarda-chuva” nuclear que garantiam a sua defesa. Há anos, a direita mais nacionalista procura remover essa cláusula e há um forte processo de rearmamento do país. O Japão participou de forma indireta nas invasões americanas ao Iraque e Afeganistão, com dinheiro e missões humanitárias, mas sem tropas de combate.

    No dia 29 de março de 2016, apesar da forte oposição popular, com o apoio do primeiro-ministro Shinzo Abe, a maioria da Câmara e do Senado japoneses aprovou uma reforma militar que permite o envio de tropas do país para combater no exterior.

    Essa medida acabou com 69 anos de legislação pacifista que, expressa no artigo 9, impedia o Japão de iniciar uma guerra e de enviar tropas para combater no exterior, e derrubou o que era uma marca da política externa japonesa.

    Recentemente foi noticiado que o Japão faz os preparativos finais para uma excursão de três meses pelo Mar do Sul da China prevista para maio deste ano com o navio porta-helicópteros Izumo, em uso há dois anos. A excursão fará paradas na Indonésia, Cingapura, Filipinas e Sri Lanka. Em julho, o Izumo irá participar do exercício naval conjunto Malabar com embarcações dos EUA e da Índia. A embarcação retornará ao Japão em agosto.

    O Izumo é um navio grande da classe de destroieres porta-helicópteros, que existe apenas no Japão. Em outras partes do mundo ele seria um porta-helicópteros ou porta-aviões leve. É o maior navio de guerra do Japão desde a Segunda Guerra. É um navio especializado em operações anti-submarinas e pode operar com até 14 helicópteros. O Izumo mede 249 metros e pode acomodar 970 pessoas, incluindo a tripulação do navio e tropas.

    Esta embarcação é uma das poucas unidades navais japonesas capazes de projetar poder militar fora do contexto de defesa das fronteiras do Japão. Embora o Izumo seja designado como destroier, a Constituição Pacifista do pós-Segunda Guerra proíbe a aquisição de armas ofensivas pelo país. Ou seja, tecnicamente o Izumo é um porta-helicópteros, pois a cláusula pacifista não permite o Japão de possuir porta-aviões.

    Para o especialista militar russo Vasily Kashin, “Este passo pode ser considerado como a maior ampliação da zona de atuação da Marinha japonesa desde a Segunda Guerra Mundial”.

    Segundo especialistas militares, com ajustes, o Izumo pode potencialmente ser usado para lançar jatos de caça ou de outras aeronaves de asa fixa.

    Os conflitos do Mar do Sul da China

    O Mar do Sul da China possui uma centralidade geográfica. Mais da metade da tonelagem das marinhas mercantes do mundo, e um terço de todo o comércio marítimo mundial, circulam através dos estreitos de Malaca, Sunda, Lombok e Makassar. Aproximadamente dois terços dos suprimentos de energia da Coréia do Sul, cerca de 70% dos suprimentos de energia do Japão e de Taiwan e 80% das importações chinesas de petróleo vêm através do Mar do Sul da China. Enquanto no Golfo Pérsico somente se transporta energia, no Mar do Sul da China tem-se energia, bens acabados e bens semiacabados.

    Pelo Mar do Sul da China cerca de US$ 4 trilhões em mercadorias circulam todos os anos com destinos em todo o mundo.

    Além da centralidade geográfica, o Mar do Sul da China possui ricas áreas de pesca, gás e petróleo. Há reservas provadas de sete bilhões de barris de petróleo, e uma estimativa de novecentos trilhões de metros cúbicos de gás natural. Tais reservas petrolíferas colocam o Mar do Sul da China apenas atrás da Arábia Saudita.

    A China reivindica quase todas as águas disputadas no Mar do Sul da China. Países como Taiwan, Malásia, Vietnã, Filipinas e Brunei também reivindicam partes do mar.

    O Japão não tem qualquer reivindicação nessas águas, mas tem outra disputa marítima com a China referente ao Mar da China Oriental (as Ilhas Senkaku, que a China designa por Ilhas Diaoyu).

    A crescente presença militar da China no Mar do Sul da China tem alimentado preocupações do Japão e dos EUA que patrulham constantemente a região. As vias de comunicação significam muito para o Japão, já que depende completamente das importações de matérias-primas.

    A operação militar japonesa com o Izumo ocorre num momento em que o governo Trump parece adotar uma postura mais agressiva diante de Pequim. Washington critica a construção de ilhas artificiais e uma escalada de instalações militares que teme serem usadas para restringir a liberdade de circulação.

    O Japão no tabuleiro militar oriental

    O movimento do Izumo provocará uma reação da China. A China já tem um porta-aviões e está construindo outros dois capazes de cumprir diversas tarefas. A marinha japonesa é uma pequena parte da força naval conjunta com os EUA na parte ocidental do Pacífico, e os norte-americanos têm mais capacidades de aplicar meios aeronavais do que a China. Mas, graças ao Izumo, os EUA não precisarão de usar seus navios grandes para monitorar as vias de comunicação.

    Para o especialista militar russo Vasily Kashin, o que moveu o Japão a construir um navio da classe do Izumo foi o temor do desenvolvimento rápido da frota submarina chinesa, bem como aumentar o prestígio da frota japonesa, contribuir para a ampliação dos contatos com outras marinhas e fazer do Japão um parceiro mais desejável para os EUA.

    Com a vitória de Trump e a saída dos EUA do Acordo Trans-Pacífico, o Japão busca se relocalizar no Extremo Oriente sobre bases mais ativas e agressivas. E ao que tudo indica buscará manter firmes as alianças com os EUA.

    Com os movimentos do Izumo vemos outro passo importante na ampliação dos limites da Constituição Pacifista promovido pelo governo Abe. Porém, temos que ver como irá comportar o povo japonês diante da política belicista do governo Abe.

     

  • Holanda: uma crônica pós-eleitoral

    Por: MAS, de Portugal*

    A 15 de Março os neerlandeses foram  em massa às urnas para eleger um novo Parlamento. As expectativas e a ansiedade sobre os resultados eram enormes, pois o número de eleitores indecisos nunca tinha sido tão elevado. A maioria silenciosa era a grande incógnita e o seu voto era temido por todos os políticos com responsabilidades governativas.

    Os especialistas previam que, apesar da grande recuperação e ascensão económica, os partidos do governo, o PVdA (Partido do Trabalho) e o VVD (Partido pela Liberdade e Democracia), seriam punidos pela sua política neo-liberal e responsáveis pelo desmantelamento das políticas de apoio social nas áreas da saúde, da Educação e do trabalho.

    Juntos, e em cooperação com outros partidos social-democratas, criaram leis que simplificam os despedimentos ,introduziram os contratos flexíveis de trabalho e aumentaram a idade da reforma para os 67 anos e 3 meses para todos os trabalhadores sem exceção. O valor das reformas baixou e os subsídios de apoio social foram congelados.

    O sistema de saúde neerlandês é exclusivamente privado, pelo que cada cidadão com idade superior a 18 anos é obrigado a contrair seguros no valor médio de €110 mensais e as despesas são acrescidas pelo risco próprio de  €385 anuais por segurado, sem ter em conta os rendimentos do mesmo. A assistência a idosos e a doentes crónicos, que era exemplar, foi privatizada e, por isso, é agora quase inexistente, muito dispendiosa e de má qualidade.

    Os estudantes no ensino superior perderam as bolsas estatais, a que todos tinham direito e as propinas sobem anualmente.

    Esta política de precariedade e de ataque às camadas mais baixas e frágeis da sociedade (os jovens, os idosos, os doentes crónicos e os operários) tem gerado o descontentamento geral dessas mesmas camadas e tem agravado a dicotomia autóctone/imigrante. A xenofobia tem-se institucionalizado a todos os níveis e manifesta-se em racismo e discriminação ativa de grupos étnicos, principalmente islâmicos. Esta situação de descontentamento e de apreensão ativa tem sido canalizada  contra os muitos refugiados vindos maioritariamente da Eritreia, Síria e Somália.  Quando o fluxo de refugiados atingiu os Países Baixos, o ódio dos neerlandeses era tanto patente como latente e os atos de violência eram reais. O que fizeram os partidos regentes? Deitaram lenha para a fogueira e deixaram arder, para ter motivo para forçar a Europa a fechar as suas fronteiras, para, segundo eles, reporem a estabilidade social e económica e para defenderem os seus valores, supostamente cristãos. Resultado, o acordo entre a Grécia e a Turquia e o encerramento  das fronteiras externas do Forte Europa e o apoio ao ditador turco.

    Os descontentes, por não se reconhecerem nem serem ouvidos pelos partidos políticos regentes, encontraram um ouvido atento e interesseiro no PVV (Partido para a Liberdade), partido autocrático e populista, sem programa nem estatutos e sem militantes, criado por Geert Wilders, fascista, nacionalista e islamofóbico. Desde o início tem manipulado e canalizado esse descontentamento em ódio e intolerância. Segundo Wilders, a solução para todos os problemas é a proibição do Alcorão e a expulsão dos islâmicos. Quanto maior o descontentamento social, maior é o número de apoiantes ao PVV e a bipolarização na sociedade neerlandesa entre os neerlandeses e os muito estrangeiros que nos Países Baixos trabalham.

    As eleições de 15 de Março decorreram neste contexto sócio-político.

    Os especialistas previam a vitória de Wilders, mas o presidente turco, Erdogan , salvou o primeiro-ministro do governo anterior, ao provocar o maio conflito diplomático de que há história. Segundo alguns comentadores, Mark Rutte terá propositadamente deixado o problema escalar, para aumentar a sua popularidade no campo autóctone que receia e concorre no mundo do trabalho com os imigrantes  e para afirmar a sua autoridade a nível nacional e internacional e se consagrar como o grande defensor dos valores democráticos e para mostrar aos estrangeiros em geral e aos turcos em especial, que os seus direitos neste país são limitados e para lhes exigir lealdade absoluta e exclusiva ao Estado Neerlandês. Deste modo, entrou no campo do seu rival à direita, Geert Wilders e conseguiu roubar-lhe muitos votos, ajudado também pela má figura que Trump tem feito nos EUA. Enfim, todas as circunstâncias estavam do lado de Rutte.

    O VVD e os outros partidos social-democratas de orientação cristã e unionistas, venceram estas eleições e continuarão seguramente a política neo-liberal e de intolerância de Mark Rutte. Outro vencedor é a Esquerda Verde, que de esquerda nada tem e que já se declarou desejoso de formar governo com Mark Rutte. Numa coligação de quatro partidos irão dar continuidade à política do governo cessante. Enfim, todos se mostram impacientes em participar no governo a formar.

    O PVdA foi dizimado, pois  os milhares que nele tinham votado em eleições prévias, na sua maioria operários e imigrantes, voltaram-lhe as costas desiludidos e revoltados. Infelizmente, à falta de um partido verdadeiramente de esquerda em que confiassem, confiaram o seu descontentamento e a sua esperança a partidos populistas do centro e da direita que tudo têm feito para virar diferentes grupos da sociedade uns contra os outros: é o dividir para reinar.

    Outros, principalmente islâmicos, sentindo-se rejeitados pela sociedade em que vivem e para cuja riqueza contribuem diariamente com o seu trabalho, deram o seu voto a um partido criado por dois cidadãos de origem turca e com ideias duvidosas e que elegeu três deputados.

    Conclusão, é urgente o aparecimento de um partido de esquerda que contrarie o liberalismo institucional e que una os descontentes em torno de uma política social de unidade e de solidariedade.

    Eindhoven, 17 de Março de 2017
    Maria da Graça Orge Martins

    Cidadã do Mundo, socialista e solidária por natureza.
    Residente em Eindhoven, capital tecnológica dos Países Baixos, desde 1991, casada com um cidadão neerlandês e mãe de dois filhos luso-neerlandeses de 23 e 22 anos respectivamente e estudantes de mestrado em Economics na Universidade de Tilburg.
    Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e professora profissionalizada para o ensino de Português e Inglês para o ensino secundário e para o ensino de Língua e Cultura Portuguesas a universidades estrangeiras.
    Professora free-lancer de Português como língua estrangeira a neerlandeses.
    Desempenha atualmente as funções, à base de voluntariado, de Assistente de Língua Neerlandesa e de Assistente de Alojamento e de Administração em Vluchtelingen Werk Nederland (Associação Neerlandesa de Apoio a Refugiados), organização não-governamental que representa os requerentes de exílio, a partir do momento em que lhes é concedido o estatuto de Refugiados e os apoia, individualmente, a nível social, jurídico e educacional. VWN é o elo entre o Refugiado e a Autarquia e outras instituições estatais e privadas.

    *Respeitamos a língua de origem do artigo, português de Portugal

  • O fenômeno dos Small Trumps e a geração 4chan

    Por: Mariana Rio, do Rio de Janeiro, RJ

    A realidade de todo dia constrói um peso grande para a juventude que nasceu na era das mensagens instantâneas. Mas, a forma com a qual alguns sujeitos têm lidado com as pressões do dia dia vêm preocupando especialistas pelo mundo a fora. Recentemente, um artigo longo do escritor de quadrinhos americanos Dale Beran, publicado originalmente pela plataforma Médium, e traduzindo aqui no Brasil pela Folha de São Paulo, me chamou atenção pelo seu conteúdo revelado, que já é bem conhecido pelos usuários de fóruns de discussão espalhados pela internet: existe um fenômeno claro de idiotificação da juventude milênio.

    Focando na juventude americana usuária de fórum de discussão da internet, que até alguns anos atrás se mostrava promissoramente revoltada com o sistema no qual vivia, o autor demonstra que todo potencial dessa “galera” foi jogada no lixo e capitalizada pelo que há de pior da direita americana, para ficar mais claro, tudo começou no 4chan, que, para quem não sabe, é um dos fóruns de discussão na internet mais famosos do mundo, mas que tem sua maioria de conteúdo produzida pelos americanos. Antigamente, era um fórum de compartilhamento de piadas em imagens (os atuais memes), e conteúdo ligados à cultura pop japonesa. Nesse fórum surgiu um dos fenômenos mais interessantes dos anos 2000, os anonymous, um conjunto de jovens de diferentes lugares e ideias que se “juntavam” para fazer “ações” na internet e, algumas vezes, fora dela, ora para zombar de uma empresa ou pessoa, ora para denunciar uma conspiração, ou revindicar uma causa.

    Mas, como tudo um dia acaba, houve uma ruptura descontrolada dos “anonymous” americanos, que pouco a pouco mostrou o vaziou existencial de muitos dos seus membros. Na época, essa galera tinha dois caminhos a seguir. E, segundo o texto, essa “meninada” acabou seguindo o caminho mais torturante. Perdidos e sem referências, todo potencial de luta dessa galera, que já não era bem uma brastemp, foi capitalizado por um setor marginal da direita americana que nunca teve lugar nas grandes narrativas da política americana, e que no ano de 2016 conseguiu o inimaginável, colocar um presidente na Casa Branca.

    Como aconteceu isso? Como o 4chan, um site de compartilhamento de anime se tornou a vanguarda da extrema-direita americana? Como a esquerda deixou isso acontecer? Essas são peguntas que o artigo do Dalen Beran tenta responde.

    Para ajudar no debate, gostaria de dizer que emoções e política se misturam de uma forma radical, e cabeça vazia sempre será oficina do diabo. Por que estou dizendo isso? De todo o texto, o que mais me preocupou foi entender quem são esses jovens americanos de extrema direita. Sem entender quem são essas pessoas, não podemos fazer nenhuma análise satisfatória sobre todo esse processo comentado no texto de Beran.

    A geração NEET (Not currently engaged in Employment, Education or Training), ou seja, jovens que não têm emprego, nem estudam ou estagiam vem ser tornando um fenômeno social mundial bem preocupante. Só aqui no Brasil os “nem-nem” já são um quarto da população brasileira de jovens na faixa de 15 a 29 anos.

    Outro fenômeno que vem dando dor de cabeça para muito governos são os hikikomori, termo criado para designar pessoas com comportamento de total isolamento e exclusão social. Esse fenômeno até pouco tempo era um produto made in Japão e agora vem ser espalhado pelo mundo. No Japão, a proporção desse fenômeno é de fato alarmante. Essa juventude japonesa foi em sua maioria criada em meio a muito conforto e tecnologia, porém sem o estímulo necessário para que tivesse uma vida social saudável. Isso contribuiu para que muitos desses indivíduos acabassem com medo de enfrentar o mundo.

    Esse isolamento, o mito de vencedor, e o fracasso como membro da sociedade, vem sendo a panela de pressão que alimenta pessoas como Milo Yiannopoulos, um dos homens mais odiosos dessa nova direita que surgiu nos anos 2000, e que agora está cravando suas garras nos governos pelo mundo.

    Composto em sua maioria por homens que vêm acumulando sentimentos de perda de virilidade e status pelo acensão de minorias e mulheres ao poder, essa geração que anteriormente era de nerds inofensivos, se tornou de trolls revoltados que não conseguem sair de casa, nem namorar, vê na internet e nos games um porto seguro contra tudo e todos que roubaram suas oportunidades de sucesso.

    Esse medo e frustração vem sendo usado espertamente por essa odiosa direita, que alimentada ódio dessa galera, com mentiras, e ódio contra o politicamente correto, que na cabeça deles foi um dos culpados pela falta de oportunidade que esses meninos perdidos e homens frustrados vêm vivendo.

    E o que tem de pior em toda essa história é que a guerra cultural que a direita diz que a esquerda está fazendo contra eles não exite, porque a “esquerda” abandonou esses meninos sensíveis socialmente dos anos 2000 à sua própria sorte e, com isso, ajudou a criar esses homens raivosos e perigosos. Não quero ser dura, mas durante muito tempo, e até hoje, existe uma incompreensão e um desprezo contra as pessoas que não facilmente abraçam as ideias politicamente corretas. E isso pode ser visto em qualquer movimento de esquerda no mundo. Parece que exite um tipo de questionário moral para entrar no “clube da esquerda”. Ao invés de conquistar, a esquerda está mais preocupada em manter seu clube protegido contra invasores.

    Em todas análises, os apoiadores de Donald Trump se debruçaram inteiramente na análise dos “Babby Booners” da classe trabalhadora branca americana, que votaram nele. Mas, pensando bem, não é difícil compreende o que fez a classe trabalhadora branca votar no Trump. Promessas vazias de grandeza, melhores empregos, cansaço dos políticos tradicionais. Tudo isso, mesmo sendo vazio, tem concreticidade.

    Mas, no caso dos eleitores mais jovens, não foram as promessas vazias que atraíram esses jovens do 4chan, não existe concreticidade, mais sim, uma total desesperança e sentimento de ridículo que Trump passa para uma geração que já não tem nada e sente que votando nele está trollando o mundo que cuspiu neles.

    E isso é assustador. A esperança é uma arma das revoluções, são centenas de jovens que estão perdidos, e como um processo de retroalimentação, mais jovens vão pelo mesmo caminho. O fenômeno americano não é o único. No Brasil, na Europa, entre outros lugares, a batalha das ideias com essa geração está sendo perdida de forma geral. A internet é um ordenado da vida social de bilhões de pessoas, isso é um fato e negar isso é ser idiota. A batalha das ideias passa pelo mundo virtual.

    Gosto de trabalhar com dados macros. Se hoje um movimento de esquerda ganha um ativista off, a extrema direita capitaliza 50 jovens on para suas ideias, que se conectam com mais 50 jovens.

    Seguindo Dalen Beran, a esquerda não deve ficar paralisada e em choque diante dos deploráveis, mas sim, enxergá-los como parte do problema, sintomas de um problema maior, que deve ser resolvido. Se essa retroalimentação não for combatida, a próxima geração esta profundamente ameaçada.

    Foto: Instagram image posted by Donald Trump

  • Human Rights Watch: cabeça de águia, corpo de leão e ovos de ouro

    Por: Marcus Correia, de São Paulo, SP

    Ocupando todo o trigésimo quarto andar do suntuoso Empire State Building, na 5ª Avenida, em Nova York, está sediada uma das mais conhecidas organizações não-governamentais do mundo, a Human Rights Watch, autoproclamada de defesa dos direitos humanos. O edifício que abriga a entidade, um dos símbolos arquitetônicos máximos do capitalismo moderno, no coração de Manhattan, não poderia ser mais apropriado. Construído durante a crise de 1929, em estilo art déco, é um dos prédios mais altos do mundo, com cento e dois andares, com vista panorâmica para a cidade de Nova York e cujo nome também não poderia ser cinicamente melhor: Empire State!

    No topo de duas grandes colunas que ornam a entrada principal do edifício, ostentam-se exuberantes grifos, seres mitológicos da Antiguidade, com corpo de leão, cabeça e asas de águia, que tinham por particularidade colocarem ovos de ouro e eram considerados guardiões desse metal precioso. O edifício não é apenas um conhecido ponto turístico da cidade, um espaço físico, mas representa um lugar social, um lugar de poder, lugar do poder econômico do capitalismo estadunidense.

    É de tal lugar físico e social que os executivos da Human Rights Watch elaboram relatórios sobre violações aos direitos humanos pelo globo, que são amplamente divulgados pelos veículos de comunicação de massa, tendo o poder de provocarem sanções a países e, até mesmo, o de desestabilizarem governos e convulsionarem sociedades.

    O entra-e-sai de engravatados no Empire State Building, em Nova York, contrasta com o entra-e-sai de trabalhadores nas entradas das estações de metrô de São Paulo, onde alguns jovens, uniformizados com coletes azuis, amarelos, verdes, ganhando pouco mais de um salário mínimo, possivelmente sem registro em carteira, sem sindicalização, trabalham na arrecadação de dinheiro dos transeuntes mais apressados em favor dos “direitos humanos” na África, na Ásia e na América Latina.

    Mas, afinal, o que é a Human Rights Watch?

    Entre 1972 e 1975, a cidade de Helsinki, capital da Finlândia, sediou uma série de conferências diplomáticas, inicialmente convocadas pela URSS e que contou com a adesão dos EUA e do Canadá e de mais trinta e dois países europeus, para discutir questões internacionais candentes do período. Os debates não deixaram de expressar a polarização da Guerra Fria e foram hegemonizados por duas grandes linhas antagônicas. Enquanto o intuito da URSS era discutir e garantir a permanência de uma política de não-intervenção no seu território e nos países da sua zona de influência, os EUA utilizaram as reuniões para denunciar violações a direitos humanos no campo soviético [1].

    De Helsinki, saiu a agenda para o próximo encontro, que ocorreria em Belgrado em 1977, com o objetivo de dar prosseguimento às conferências anteriores e acompanhar os acordos firmados. Um dos impactos das conferências de Helsinki foi a abertura de várias entidades de direitos humanos e liberdade de expressão, tanto no Leste Europeu como na Europa Ocidental, promovidas por dissidentes soviéticos. Um Helsinki Watch foi aberto em Moscou e logo em seguida seus membros foram presos e condenados por “agitação e propaganda antisoviética”.

    Durante os anos em que aconteceram as conferências na Finlândia, os EUA passavam por uma profunda desmoralização na política interna e externa do país. As principais razões eram o caso Watergate, que levou à abertura do processo de impeachment contra o presidente Richard Nixon e à sua renúncia em agosto de 1974; a Guerra do Vietnã, que encerrou-se em 1975, com forte oposição de setores internos no país; e o apoio que o governo deu a regimes ditatoriais sanguinários, a exemplo dos da América Latina, cujas notícias sobre as atrocidades começaram a atingir a opinião pública, como o assassinato de Salvador Allende no Chile, em 1973. Ademais, a economia mundial abatia-se sob a crise econômica de 1973. [2]

    No campo da política externa, uma das saídas para a desmoralização veio com a formulação de um novo figurino nacional, uma nova roupagem ideológica. A mudança foi captaneada pela campanha e eleição do presidente James “Jimmy” Earl Carter, do Partido Democrata, que assumiu o cargo em janeiro de 1977. [3]

    O objetivo da nova administração seria então reestabelecer um imagem moral pós-Vietnã e pós-Watergate e se concretizaria pela extensão e intensificação (ou cooptação) da defesa dos direitos humanos no mundo. As discussões em Helsinki haviam tornado-se um instrumento tanto da oposição interna à desmoralização dos governos republicanos anteriores a Carter, nos EUA, como de oposição à URSS na política internacional. Tal agenda envolveu não apenas o aparato estatal mas também empresas e entidades da dita sociedade civil.

    No final de 1977, para as conferências de Belgrado, o presidente Jimmy Carter nomeou como representante diplomático dos EUA Arthur Joseph Goldberg. Este indivíduo era um advogado trabalhista estadunidense, filho de imigrantes ucranianos, que havia sido ministro do Trabalho do presidente John F. Kennedy (1960-62), ex-membro da Corte Suprema (1963-65) e ex-embaixador dos EUA na ONU (1965-1968)[4].

    Quando Goldberg retornou, alegando que o tema dos direitos humanos não havia sido devidamente discutido e inspirando-se na experiência européia pós-Helsinki, propôs a construção, também nos EUA, de um comitê privado unilateral de acompanhamento de violações aos direitos humanos no Leste Europeu e na URSS. [5]

    Para concretizar e obter apoio à sua idéia nos EUA, Goldberg procurou um antigo colega de governo, McGeorge Bundy, à época, presidente da Fundação Ford. McGeorge Bundy havia sido Assessor de Segurança Nacional dos presidentes John F. Kennedy e Lindon Johnson, enquanto Goldberg era ministro do Trabalho e membro da Suprema Corte. [6] Em 1978, dirigindo o expressivo orçamento da Fundação Ford, McGeorge Bundy interessou-se pelo projeto de montagem de uma estrutura burocrática privada unilateral de observação dos direitos humanos e foi capaz de levá-lo adiante. [7]

    A primeira das estruturas foi o U. S. Helsinki Watch Committee ou apenas Helsinki Watch estadunidense, cujo objeto de interesse era o campo soviético. Nos anos seguintes, foram abertos outros comitês no país: Africa Watch, America Watch, Asia Watch e Middle East Watch. Em 1988, todos foram reunidos na organização atualmente intitulada Human Rights Watch, sediada em Nova York, que possibilitou toda uma articulação centralizada da rede internacional de observatórios derivada de Helsinki.

    Porém, as biografias de Arthur J. Goldberg e McGeorge Bundy não negam que a preocupação de ambos com os direitos humanos foi circunstancial e motivada fundamentalmente pelos interesses nacionais dos EUA. Arthur J. Goldberg, por ocasião da II Guerra Mundial, em 1942, então com 34 anos de idade, ingressou no Exército estadunidense. Na Europa, foi lotado no Office of Strategic Service, o órgão precursor da CIA, tornando-se chefe de uma de suas principais seções até 1944 e chegando à patente de major. A Enclyclopedia of the Central of Intelligence Agency, publicada em 2003, traz inclusive um verbete sobre ele. [8]

    Já McGeorge Bundy, ocupando a assessoria presidencial de segurança nacional dos EUA, foi um dos responsáveis por formular a escalada militar dos EUA na Guerra do Vietnã em 1964, bem como por articular os golpes militares na América Latina, a exemplo do Brasil. Outra função sua era acompanhar as atividades secretas da CIA, como no caso da invasão da Baía dos Porcos em Cuba. Seu irmão, William Bundy era conhecido funcionário da CIA e genro de Allen Dulles, diretor da agência entre 1953 e 1961, com quem Goldberg também havia trabalhado durante a II Guerra. Os irmãos Bundy figuram em várias publicações sobre as atividades do serviço de inteligência dos EUA durante a Guerra Fria [9].

    Ocorre que, no final dos anos 1970, no início da chamada globalização, a cooptação da defesa dos direitos humanos pela política externa estadunidense, conforme a expressão de James Peck (cf. notas), em conjunto com toda sorte de entidades privadas, tornou-se um instrumento eficaz para a aplicação de uma agenda econômica para o país. Em decorrência, entre outros fatores, da crise de 1973, as transnacionais estadunidenses e européias necessitavam da expansão de mercados consumidores, somada à crescente demanda industrial por fontes energéticas, como petróleo e gás.

    O jogo econômico estava na abertura de mercados e nas privatizações de grandes empresas estatais e recursos naturais daqueles regimes considerados violadores dos direitos humanos e não-alinhados à política de “liberdades democráticas” de Washington. Portanto, a suposta reestruturação moral pós-Vietnã e pós-Watergate carregava a continuidade de uma política externa econômica imperialista dos governos anteriores.

    No mesmo período, a massificação do consumo dos produtos oriundos da revolução da microeletrônica, sobretudo, na área das telecomunicações, como a expansão da venda de rádios, de parelhos televisores, de videocassetes, do aparecimento dos primeiros aparelhos celulares e dos primeiros microcomputadores, permitiu a ampliação da circulação de informações. O que possibilitou que a nova imagem moral dos EUA tivesse grande divulgação pelo globo, auxiliada pelo complexo-industrial-audiovisual da Califórnia.

    Durante as administrações posteriores de Ronald Reagan e George H. W. Bush, o tabuleiro desdobrou-se nas chamadas Revoluções Coloridas, no Leste Europeu, no desmantelamento da URSS, bem como na “abertura” dos regimes da América Latina. [10]

    Mas, apesar do estandarte da defesa humanitária, a administração de Jimmy Carter promoveu e incentivou guerras, golpes de Estado e violações ao direito internacional e aos direitos humanos, sobretudo, na Ásia Central e no Oriente Médio. Quando assumiu o governo, Jimmy Carter convidou ninguém menos que Zigbiniew Brzezinski para ocupar o cargo de Assessor de Segurança Nacional. Zigbiniew Brzezinski é um polonês-americano, intelectual da geopolítica, que foi o grande responsável pela reformulação de uma política externa de combate antisoviético (e anticomunista), a partir do que foi definido pelos hawks como um “Green Belt”, i.e., um “cinturão verde” [11].

    A idéia central era fomentar grupos fundamentalistas anticomunistas nos países de maioria islâmica no entorno da URSS (ou dentro dela) como um meio de enfraquecimento do país. Ou seja, apoiar e subsidiar grupos fundamentalistas islâmicos dos países da Ásia Central, do Cáucaso e do Oriente Médio para fazer uma espécie de cerco geopolítico à URSS ao promover regimes semiteocráticos e anticomunistas, contra “ateus” e “infiéis”.

    Um exemplo significativo foi o financiamento dos EUA aos mujahidins, no Afeganistão, a partir de 1979, e a promoção de uma guerra por procuração, auxiliada pelos serviços secretos paquistanês e saudita em contato com Osama Bin Laden, do que, na visão do imperialismo, viria a ser o “Vietnã soviético” [12]. Além da posição estratégica do Afeganistão em face dos recursos naturais da região, o intuito era ocasionar uma desmoralização à URSS semelhante ao que ocorrera com os EUA na Guerra do Vietnã.

    É evidente que havia (e há) violações a direitos humanos em quase todos os países do globo. No entanto, o que é necessário levar em consideração é que o Estado estadunidense é responsável por toda a sorte de violações e utiliza do discurso de defesa dos direitos humanos, seja por meio da sua diplomacia seja por meio das suas organizações não-governamentais, para promover uma agenda de dominação imperialista, sobretudo, no campo econômico.

    Durante o governo de Jimmy Carter, tal cooptação da defesa dos direitos humanos pela política externa dos EUA, associado ao financiamento de grupos locais em países não-alinhados, deu o tom do chamado terceiro setor nesse campo de ativismo, tom que permanece até os dias atuais.

    Um breve pesquisa sobre o “quem-é-quem” no staff recente da Human Rights Watch pode fornecer indícios bastante significativos dessa permanência, i.e., a de que ainda na atualidade, existe uma motivação econômica no hasteamento, quando feito por Washington e por suas organizações não-governamentais, da bandeira dos direitos humanos. Assim como os “founding fathers”da entidade (Goldberg e Bundy), a maior parte dos seus quadros atuais são oriundos de grandes corporações do sistema financeiro, de think tanks, como o Council on Foreign Relations, ou do aparato estatal do país, quando, não raro, com fortes conexões com os órgãos de inteligência do país.

    Por fim, a Human Rights Watch pode ser comparada com os grifos mitológicos, que a entrada principal do Empire State Building ostenta. Com cabeça e asas de águia, a entidade enxerga do alto e bem distante; com corpo de leão, é temida pela força; porém, sua particularidade é colocar ovos de ouro e protegê-los.

    NOTAS:

    1. EVANS, Graham; NEWNHAM, Jeffrey. The Penguin Dictionary of Internacional Relations. NY/London: Penguin Books, 1998.

    2. Sobre o contexto de desmoralização Cf. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque. Rio de Janeiro: Civiliação Brasileira, 2014. (4ª edição).

    3. Idem.

    4. SHILS, Edward B. Arthur J. Goldberg: proof of the American dream. Monthly Labor Review. January, 1997.

    5. Sobre o contexto de criação do Helsinki Watch nos EUA e a relação entre Goldberg e Bundy Cf. PECK, James. Ideal Illusions: How the U.S. Government Co-Opted Human Rights. New York: Metropolitan Books, 2010.

    6. STONOR, Francis Saunders. The Cultural Cold War: the CIA and the world of arts and letters. New York/London: The New Press, 1967.; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974; BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz, op. cit., 2014.

    7. PECK, James. Op. cit., 2010.

    8. SHILS, Edward B. Op. cit; SMITH JR, W. Thomas. Encycopledia of the Central Intelligence Agency. New York: Fact on File. Inc., 2003.

    9. STONOR, Francis Saunders. The Cultural Cold War: the CIA and the world of arts and letters. New York/London: The New Press, 1967.; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974; BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz, op. cit., 2014.

    10. A exemplo desse fenômeno, vale gastar um pouco de tempo assistindo (a contrapelo) ao documentário Chuck Norris vs. Comunismo, disponível no Netflix. O filme procura mostrar como o contrabando de videocassetes e de filmes estadunidenses, em fitas VHS, na Romênia, (contrabando esse auxiliado pelos serviços secretos, conforme mostra o documentário), associado à idéia de “liberdade” difundida através dos filmes de Hollywood, contribuíram para criar um caldo cultural de contestação, com consequência na derrubada do regime.

    11. A cor verde referia-se ao Islã, conforme explica Moniz Bandeira. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria: geopolítica e dimensão estratégica dos EUA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

    12. Idem.
    LEIA TAMBÉM:

    Discutindo a Fundação Ford – 4 Partes

    http://esquerdaonline.com.br/2016/12/10/discutindo-a-fundacao-ford-parte-1-de-4/

    http://esquerdaonline.com.br/2016/12/13/discutindo-a-fundacao-ford-parte-2-de-4/

    http://esquerdaonline.com.br/2016/12/22/discutindo-a-fundacao-ford-parte-3-de-4/

    http://esquerdaonline.com.br/2017/01/22/discutindo-a-fundacao-ford-parte-4-de-4/

    Open Society: sociedade aberta para quem?

    http://blog.esquerdaonline.com/?p=7704

     

     

  • Crítica à tentativa de atentado contra o Ministério Alemão das Finanças

    Por: Eduarda Johanna Alfena, de Campinas, SP

    Conforme noticiado pelo Deutsche Welle, grande portal de notícias alemão, nesta última quarta-feira, dia 15, foi descoberto um pacote-bomba endereçado ao ministro alemão das finanças, Wolfgang Schäuble.

    Quem é Wolfgang Schäuble

    Wolfgang Schäuble, formado em direito e economia pelas Universidade de Freiburg, e Universidade de Hamburg, é filiado, desde 1965, no partido União Democrática Cristã, de Centro-Direita conservador. É ministro das finanças desde 22 de novembro de 2005, ainda no primeiro governo da chanceler Angela Merkel, até hoje, no terceiro mandato seguido dela.

    Schäuble é uma das principais figuras por trás das políticas de austeridade impostas à Grécia e aos outros países endividados da Zona do Euro (grupo de países da União Europeia que usam a moeda única, o euro).

    Sobre o ocorrido

    Às 9h30, horário de Berlin, um pacote passava, como de praxe, pelo raio-x da agência de Correios do ministério. Foram percebidos estranhos fios de metal e a polícia foi acionada. Um setor do prédio teve que ser evacuado. Foi descoberta grande quantidade de material usado em fogos de artifício, que são substâncias altamente explosivas.

    A autoria do ataque foi assumida por um grupo grego que se assume como extrema-esquerda, a Conspiração das Células de Fogo.

    O atentado não ajudaria o povo grego

    Logicamente, a agressiva política de austeridade da “Frau” Merkel e do “Herr” Schäuble é deplorável, um ataque ao povo trabalhador principalmente dos países endividados da União Europeia, em particular da Grécia. Apesar disso, é completamente errônea a tentativa de assassinato do mesmo.

    Em primeiro lugar, Schäuble é um forte agente da burguesia alemã e europeia. Entretanto, essa burguesia não seria prejudicada com a morte dele. Se ele morresse, bastaria a Chanceler Federal nomear outro ministro em seu lugar. O capitalismo deve ser destruído pela classe trabalhadora em seu conjunto e não pela morte individual de seus representantes.

    Segundo, existem trabalhadores no ministério das finanças que em nada influenciam nas decisões dele, muito menos da Merkel. A explosão desta bomba poderia ferir ou matar outras pessoas que em nada têm a ver com a política cretina que ele faz. A substância é volátil e poderia ter explodido na mão de um trabalhador do Correio, ou de uma funcionária do prédio, por exemplo.

    Terceiro, qualquer dano ao prédio só fará o governo alemão gastar mais dinheiro para reconstruir. Dinheiro que poderia ser investido em várias outras áreas mais importantes.

    Mas, o mais importante é que essa ação foi isolada, não envolvendo o proletariado grego e suas organizações.

    A Sra. Frauke Petry, presidenta do partido fascista “Alternativa” (leia-se: “Barbárie Nazista”) para a Alemanha (AFD), e seus comparsas do nazista NPD (Partido “Nacional Democrático” da Alemanha) estão dando pulos de alegria, pois isso será muito útil nas suas campanhas de demonização da esquerda.

    Isso é semelhante ao que ocorreu no antigo Império Russo, após a derrota deste na Guerra da Crimeia. O Tsar Alexandre II iniciou uma série de reformas na Rússia, inclusive um projeto de Constituição e um parlamento eleito. Assim, a Rússia deixaria de ser uma monarquia absolutista.

    Porém, o tsar foi assassinado com uma bomba e quem assumiu então, foi seu filho, que se tornou o Tsar Alexandre III, que iniciou uma violenta fase repressiva. Alexandre III imediatamente desandou todas as reformas, o que fez com que a Rússia continuasse como monarquia absolutista até 1905, no Governo de seu filho, Nicolau II. Um irmão de Lênin inclusive foi perseguido e preso por conta do assassinato de Alexandre II.

    Acredito que somente o conjunto do povo deve decidir sobre quais meios usar na Revolução, não um pequeno grupo isolado. A revolução deve ser uma luta contra a classe inimiga do proletário, que é a burguesia, e não vitimar proletários no caminho.

    Foto: http://www.sigmalive.com/en/news/greece/130658/schaeuble-denies-rift-with-merkel-over-greece

  • Relatório sem precedentes de Comissão da ONU condena Israel por racismo

    Por Waldo Mermelstein, São Paulo, SP

    Foto: Palestinos expulsos pelo mar em Jaffa, Palestina, 1948. Fotógrafo desconhecido.

     

    Neste ano se completam 70 anos da limpeza étnica da Palestina (1947-48) e cinquenta anos da ocupação da Cisjordânia e de Gaza (1967). O estado de Israel parece mais consolidado que nunca como amo e senhor de todo território da Palestina Histórica, tal como definido pelo Mandato da Liga das Nações outorgado à Grã-Bretanha em 1922.

    Como outros movimentos de colonização de povoamento, em que grupos de colonos procuram dominar uma região, fundar uma nova pátria e eliminar os habitantes nativos, o sionismo cumpriu várias etapas de acordo com sua força e essa lógica interna inexorável. Em 1947, a ONU votou a Partilha da Palestina, outorgando 51% de sua área para o estado de Israel, representando 1/3 dos habitantes, contra a posição da maioria da população. Israel aproveitou esse momento para realizar em grande medida seu objetivo, expulsando 80 % dos habitantes palestinos de suas fronteiras.
    Contou com a cumplicidade da potência imperial dominante na região até pouco depois do final da Segunda Guerra, os britânicos.
    A ocupação de toda a Palestina histórica

    Em 1967, ao conquistar todo o restante da área da Palestina do Mandato, novamente teve que conviver com uma grande população árabe palestina. E desta vez, a população tinha aprendido a lição de 1947-48 e procurou se manter em suas casas e propriedades, pois sabem que voltar é cem vezes mais difícil. Por mais que Israel tenha estabelecido uma enorme fragmentação dos territórios ocupados, ao colocar cerca de 6 milhões de palestinos sob a sua dominação criou de fato um país binacional. Mas o realizou à imagem e semelhança do regime que tinha implantado em suas fronteiras originais. Os judeus israelenses gozam de privilégios em todos os terrenos, somente possíveis pela férrea dominação militar e por meio de um complicado aparato jurídico. E, claro, a providencial ajuda do grande aliado americano que soma bilhões de dólares ao ano.

     

    A resistência e os Acordos de Oslo

    A indomável resistência palestina, em especial nos campos de refugiados, desembocou na Intifada de 1987, o que obrigou Israel a recorrer a negociações. O resultado foram os Acordos de Oslo, assinados em 1993 pela liderança palestina de Yasser Arafat, que mantiveram o domínio israelense, mas concederam uma limitada autoadministração local em áreas da Cisjordânia e de Gaza. Mas as ilusões geradas pelos Acordos se desvaneceram e Israel colonizou com centenas de milhares de colonos a Cisjordânia e não concedeu nenhum espaço real para a chamada Autoridade Palestina, mais além de exercer o papel de polícia de sua própria população. Gaza foi transformada em uma prisão a céu aberto, a maior do mundo, onde Israel pratica um macabro jogo de guerra, periodicamente, bombardeando com todo o seu povo a população. A ONU prognostica que a vida em Gaza será impossível em poucos anos.

     

    Israel começa a perder a luta pelos corações e mentes

     

    Mas esse imenso poderio veio acompanhado de uma perda dramática da aceitação e até do apoio que Israel tinha há décadas no Ocidente, fruto do impacto da tragédia realizada pelo nazismo no Holocausto. A própria vitória de 1967 contra os vários exércitos dos países árabes, as repetidas agressões ao Líbano, a repressão implacável na Cisjordânia e os massacres em Gaza começaram a virar o jogo na opinião pública ocidental, incluídos membros das comunidades judaicas do mundo.

    Em 2005, as entidades da sociedade civil palestina lançaram a iniciativa do BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) contra Israel, nos moldes do que foi feito contra o regime do apartheid sul-africano. Trata-se de uma luta auxiliar para pressionar do exterior o regime sionista. Uma luta de longo prazo. Pouco a pouco, o BDS foi ganhando corpo, não a ponto de ameaçar Israel, mas expondo seus crimes em público e causando constrangimento no ambiente acadêmico, científico e artístico.  Por essas razoes, as iniciativas para criminalizar o BDS proliferam, mas essas são também uma medida do seu êxito. A votação da resolução 2334 do Conselho de Segurança da ONU em dezembro de 2016 condenando as colônias judaicas na Cisjordânia foi uma consequência desta nova realidade.

     

    A nova ofensiva de Israel e uma declaração inédita de um organismo da ONU
    A posse de Trump deu mais ânimo para o governo israelense de aumentar suas medidas contra os palestinos, nomeadamente uma lei que legaliza assentamentos anteriormente ilegais segundo a própria lei israelense, ameaças contra Gaza, contra os apoiadores do BDS (ameaçados de não terem sua entrada autorizada no país) e o incremento da demolição de casas e da  expropriação de terras palestinas.

    Na última semana, uma decisão sem precedentes de um organismo da ONU foi adotada. Trata-se do relatório “Práticas israelenses em relação ao povo palestino e a questão do apartheid”, encomendado e adotado pela Comissão Econômica e Social da ONU para a Ásia Ocidental e publicado em Beirute.

    Os autores são críticos das políticas israelenses, Virginia Tilley, professora de ciências políticas da Universidade Southern Illinois e por Richard Falk, ex-relator especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos e professor emérito de direito internacional da Universidade de Princeton.

    A reação foi fulminante por parte do governo israelense e de seus patrocinadores, em particular do governo americano. O Secretário-Geral da ONU, Antônio Guterres, pediu a retirada do relatório. A presidente da Comissão, Rima Khalaf, dignamente, recusou-se a fazer isso e renunciou ao cargo.

    Pela relevância das conclusões do texto, adotando as posições históricas apresentadas pelo movimento e pelos historiadores palestinos, traduzimos os trechos que resumem as conclusões sobre a organização do estado de Israel, em suas fronteiras de 1948, mais além da crítica mais conhecida ao tratamento dado aos palestinos dos territórios ocupados e aos refugiados. Somente compreendendo as bases de organização do estado sionista se pode entender o tipo de regime e política de opressão e desapropriação sistemáticas nesses territórios. O segredo da política israelense encontra-se em seu próprio modelo de sociedade.

     

    Extrato do Relatório da Comissão da ONU para a Ásia Ocidental

     

    “A escolha das evidências está orientada pela Convenção sobre o Apartheid, que estabelece que o crime de apartheid consiste em atos desumanos específicos, mas que tais atos adquirem o status de crimes contra a humanidade somente se servirem intencionalmente aos propósitos de dominação racial. O Estatuto de Roma especifica em sua definição a presença de um ‘regime institucionalizado’ a serviço da ‘intenção’ de dominação racial. Já que o “proposito” e a intenção estão nos fundamentos de ambas as definições, este relatório examina fatores que ostensivamente separados da dimensão palestina – especialmente, a doutrina do Estado judaico estabelecida pelas leis e pelo desenho das instituições de estado israelenses – para estabelecer mais além de qualquer dúvida a presença de tal propósito fundamental.

    [O fato que] o o regime de Israel está desenhado para este propósito ficou evidente no corpo de leis, das quais somente algumas são discutidas no relatório por razões de escopo. Um exemplo proeminente é a política de terras. A Lei Básica de Israel (Constituição) determina que a terra controlada pelo Estado de Israel, pela Autoridade de Fomento Israelense ou pelo Fundo Nacional Judaico não poderão ser transferidas de nenhuma forma, colocando sua administração permanentemente sob sua autoridade. A Lei de Propriedade Estatal de 1951 prevê a reversão da propriedade (inclusive terras) para o Estado de todas as áreas ‘em que se aplique a lei do Estado de Israel’. A Autoridade de Terras de Israel (ILA) administra as terras do Estado, que abrangem 93 por cento das terras dentro das fronteiras internacionalmente reconhecidas de Israel e que são, por lei, vedadas ao uso, fomento ou posse por não-judeus. Essas leis refletem o conceito de ‘propósito púbico’ tal como expresso na Lei Básica. Essas leis podem ser modificadas pelo voto do Knesset (parlamento), menos a Lei Básica: o Knesset proíbe qualquer partido político de questionar esse propósito público. Efetivamente, a legislação israelense torna ilegal a oposição à dominação racial.

    A engenharia demográfica é outra área que serve à política a serviço do propósito de manter Israel como um Estado Judaico. A mais conhecida é a lei israelense que concede aos judeus de todo o mundo o direito de ingressar em Israel e obter cidadania israelense independentemente do país de origem ou possam, ou não demonstrar vínculos com Israel-Palestina, ao mesmo tempo em que recusa qualquer direito comparável dos palestinos, incluindo aqueles lares ancestrais documentados no país.  A Organização Sionista Mundial e a Agência Judaica estão investidas de autoridade legal como agências do Estado de Israel para facilitar a imigração Judaica e servem preferencialmente aos interesses dos cidadãos judaicos em temas desde uso da terra ao planejamento do desenvolvimento público e outros temas considerados vitais para a definição do estado Judaico. Algumas leis que envolvem a engenharia demográfica se expressam em uma linguagem em código, tais como aquelas que permitem que os conselhos judaicos rejeitar os pedidos de residência de cidadãos palestinos. A lei israelense em geral permite que os cônjuges de cidadãos de Israel que se modem para Israel, mas proíbe de forma singular essa opção no caso dos palestinos dos territórios ocupados ou fora de suas fronteiras. Em uma escala mais ampla, é uma questão de política de Israel rejeitar o retorno de qualquer refugiado ou exilado palestino (que totalizam cerca de seis milhões de pessoas) para o território sob o controle israelense.

    Dois atributos adicionais de um regime sistemático de dominação racial devem estar presentes para qualificar o regime como uma instância de apartheid. O primeiro envolve a identificação das pessoas oprimidas como pertencentes a um ‘grupo racial específico’. Este relatório aceita a definição de ‘discriminação racial’ feita pela Convenção Internacional para a Eliminação de Todas as  Formas de Discriminação Racial como ‘qualquer distinção exclusão, restrição ou preferência baseada na raça, cor ou origem nacional ou étnica que como propósito ou efeito o de anular ou prejudicar o reconhecimento, gozo ou exercício, em condições iguais, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos terrenos político, econômico, social, cultural ou qualquer outra área da vida pública’. Nessas bases, este relatório considera que no contexto geopolítico da Palestina, judeus e palestinos podem ser considerados ‘grupos raciais’. Além disso, a Convenção Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial é citada de forma expressa na Convenção sobre o Apartheid.

    O segundo atributo é a delimitação e o caráter desse grupo ou grupos envolvidos. O status dos palestinos como um povo com direito a exercer seu direito à autodeterminação foi juridicamente estabelecido, de forma fidedigna pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) em seu parecer consultivo de 2004 sobre as Consequências Jurídicas da Construção de um Muro no Território Ocupado Palestino. Nessas bases, o relatório examina o tratamento dado por Israel ao povo palestino como um todo, considerando as distintas circunstâncias da fragmentação geográfica e jurídica do povo palestino como uma condição imposta por Israel. ”

    Ânimo e munição jurídica e moral para o BDS

    O relatório pede ainda que os movimentos sociais devem “realizar os mais amplos esforços para as iniciativas de boicote, desinvestimento e sanções entre os atores da sociedade civil”. Claro que o relatório não tem caráter resolutivo e muito menos obrigatório, mas é um precedente muito importante para animar a luta de resistência dos palestinos pelos seus direitos, como definidos pelo BDS:

    Fim da ocupação e da colonização dos territórios palestinos e desmantelamento do Muro da Cisjordânia
    Reconhecimento dos direitos fundamentais dos cidadãos palestinos de Israel à igualdade completa
    Respeito, proteção de promoção dos direitos dos refugiados palestinos de retornar a suas casas e propriedades como estipulado pela Resolução 194 da ONU

  • França: uma campanha presidencial incerta

     

    Por Renato Fernandes, Campinas, SP

     

    Neste último sábado, 18/03, iniciou-se a campanha presidencial francesa. Vão disputar as eleições 11 candidatos que vão da extrema direita à extrema esquerda, dois a mais do que na última eleição em 2012.

    Esta será uma eleição que poderá marcar o fim de um sistema bipartidário bem particular, já que, de acordo com as últimas pesquisas, nem a direita tradicional, representada por François Fillon dos Les Republicans (LR), nem Benoît Hamon do Partido Socialista (PS) são fortes candidatos a presidente, apesar de que é difícil desprezar o peso do aparato que ainda têm os dois principais partidos franceses.

    O cenário francês é complexo: um imperialismo em decadência numa União Europeia em crise e dominada pelo imperialismo alemão; uma economia com crescimento lento nos últimos anos; uma alta do desemprego; fortes ataques sociais realizados pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy (LR) e o atual François Hollande (PS); grandes mobilizações sociais contra as reformas neoliberais e também contra a violência policial; uma presença forte de uma direita nacionalista, representada por Marine Le Pen da Front National (FN).

    Aparentemente, essa combinação entre decadência econômica e social, com fortes lutas contrárias aos projetos dos grandes partidos, é o que explica a ruptura do bipartidarismo – ruptura que é uma tendência internacional que se expressou nas eleições do Syriza na Grécia, no crescimento eleitoral do Podemos espanhol e que, parece, ter se expressado nas eleições holandesas com o crescimento da extrema direita e da esquerda anti-neoliberal.

    No campo da extrema direita, a principal candidata é Marine Le Pen. Sua família é um verdadeiro clã tradicional da política francesa: seu pai, Jean-Marie Le Pen foi fundador e presidente da FN até 2011, quando passou o bastão para sua filha. Além disso, Marion Maréchal-Le Pen, também da família, é deputada nacional pela FN. Sua candidatura expressa a extrema direita nacionalista francesa: políticas anti-imigração e pelo Frexit (saída da França da UE), utilizando-se de um discurso racista e xenófobo. Um exemplo desse nacionalismo imperialista, autárquico, aconteceu no dia 19/03, dia da independência da Argélia, no qual diversos políticos da FN, incluindo Marine Le Pen, afirmaram em redes sociais que não tinham nada a comemorar e somente que homenagear os soldados franceses mortos na Argélia enquanto essa era ainda uma colônia francesa. Apesar de estar em primeiro lugar em todas as pesquisas, variando entre 25-28%, em nenhum dos cenários Le Pen ganharia no segundo turno.

    Ainda no campo da direita, temos François Fillon que combina um conservadorismo político com uma política econômica neoliberal. Ele era o grande favorito, até que explodiu casos de corrupção e atualmente Fillon é réu num processo que envolve empregos fictícios e enriquecimento com dinheiro público. Está em terceiro na corrida presidencial, variando entre 18-20%.

    A frente de Fillon, está Emmanuel Macron. Ex-ministro de François Hollande, Macron criou um “movimento-partido” intitulado En Marche e representa uma radicalização do programa social-liberal implementado nos últimos anos pelo governo do PS. Apesar dessa continuidade programática, ex-banqueiro, responsável por grandes negócios da burguesia imperialista francesa, Macron se apoia em um perfil de “homem de negócios”, “anti-político”, para se projetar. E, por causa da crise de corrupção com Fillon, sua estratégia está conquistando simpatia e já o coloca como principal alternativa a Le Pen. Nas principais pesquisas ele apareceu com 24-25%.

    No campo da esquerda temos dois candidatos principais. O primeiro é do PS, Benoît Hamon que ganhou as primárias e representa um programa a esquerda do implementado pelo governo de Hollande. Sua campanha enfrenta uma imensa dificuldade: uma parte do PS, a ala social-liberal que perdeu as primárias, está apoiando, direta ou indiretamente, Macron, enfraquecendo sua campanha; além disso, apesar de apresentar um programa socialdemocrata, com grande ênfase em projetos ecológicos e em unidade com os Verdes, Hamon ainda é do PS, partido com o qual a maior parte da classe trabalhadora rompeu no último período, principalmente após a luta contra as mudanças da Lei do Trabalho. Hamon aparece nas pesquisas entre 13-15% das intenções de voto.

    Na esquerda está também Jean Luc Mélenchon. Ex-trotskista, ex-ministro do governo de Lionel Jospin, nos anos 90, Mélenchon iniciou sua campanha na Place de la République em Paris com uma grande demonstração de força: de acordo com dados da própria campanha, cerca de 130 mil pessoas estiveram presentes em seu comício em defesa de uma Assembleia Constituinte e da fundação de uma VI República. O programa de Mélenchon é de um nacionalismo de esquerda, com medidas de soberania como saída da OTAN e desobediência aos tratados europeus, além da garantia de alguns direitos democráticos, como a inclusão do direito ao aborto na própria constituição. O programa de Mélenchon é o da revolução cidadã feita pela mobilização nas urnas. Pode-se dizer que Mélenchon, que é apoiado pelo Partido Comunista Francês, representa a “nova esquerda europeia”, por fora da socialdemocracia clássica, como Syriza, Bloco de esquerda e Podemos. Mélenchon tem entre 11-13% de intenções de voto.

    A extrema esquerda estará representada por dois candidatos: a professora universitária Nathalie Artaud, de Lutte Ouvrière, e o operário da Ford Phillippe Poutou, do Nouveau Parti Anticapitaliste. Serão campanhas modestas, pois a intenção de votos dos dois está entre 0,5-1,5% para cada, porém serão as únicas que colocarão um programa anticapitalista para enfrentar a crise social e econômica francesa. Tanto Poutou, quanto Artaud defendem, entre outras medidas, a redução do tempo de trabalho sem redução salarial para que mais pessoas possam trabalhar, a proibição das demissões e da supressão de postos de trabalho, a defesa e a extensão dos serviços públicos e a apropriação social dos setores chaves da economia, entre outras medidas. Para nenhum dos dois as eleições são a alternativa para mudar a sociedade, mas sim parte do processo de ganhar a consciência dos trabalhadores para um projeto de uma nova sociedade.

    Ainda é muito cedo para afirmar categoricamente que o primeiro turno está decidido. Pelas próprias pesquisas de intenção de voto, parece que a única certeza do primeiro turno é a presença de Le Pen entre as duas primeiras posições. Mesmo assim, a dinâmica à esquerda, que na presença nas ruas nesses primeiros dias foi grande, principalmente de Mélenchon, pode demonstrar que a tendência à esquerda dos partidos tradicionais também é forte. Os próximos dias demonstrarão quais dessas tendências se expressarão nas eleições francesas e, aparentemente, aprofundarão as incertezas sobre quem será o próximo presidente francês.

  • Eleições na Holanda: além da derrota da extrema direita nas urnas, nada a comemorar

    Por: Victor Wolfgang Kemel Amal, de Florianópolis, SC

    Nesta quarta-feira (15) ocorreram as eleições parlamentares na Holanda que elegeram 150 deputados e que contaram com a maior participação popular desde 1986 (83% de comparecimento  às urnas). A ameaça de o partido de extrema direita nacionalista e islamofóbico (PVV) se tornar a maior força política do país, felizmente, não se confirmou. Contudo, há pouco a se comemorar: o partido conservador e de direita de Mark Rutte (VVD) irá permanecer à frente da coalizão de governo, o que significa mais austeridade e menos direitos aos refugiados. Vamos aos números.

    Em primeiro lugar, com 33 representantes parlamentares ficou o Partido Popular Liberal Democrata (VVD), do atual primeiro ministro Mark Rutte, que irá liderar a coalizão de governo pelo terceiro mandato seguido. Apesar da manutenção da liderança, o VVD perdeu 6 parlamentares em relação à eleição passada, o que demonstra a migração de parte de sua base para outros partidos, particularmente para a extrema direita.

    O PVV, do islamofóbico Geert Wilders, ficou em segundo lugar. Coincidentemente o partido obteve 20 representações parlamentares, 5 a mais do que nas eleições passadas, 1 a menos que a quantidade de representações que o VVD perdeu em relação às eleições de 2012. Ao zoológico da extrema-direita se soma o Fórum pela Democracia, uma versão local da «alt-right» americana. Obteve 2 deputados e sua campanha foi contra a “diluição do sangue holandês pelos estrangeiros” e afirmava em seus materiais que “todas as mulheres, secretamente, tem vontade de ser violadas” (sic!). Em terceiro e quarto lugar ficaram os direitistas Democratas 66 (D66) e a Democracia Cristã (CDA), ambos com 19 parlamentares. Ou seja, os 4 principais partidos da casa se encontram no espectro da direita, oscilando em níveis de radicalização e moderação.

    Em 2012 o Partido Trabalhista Social Democrata (PvdA), tradicional partido de conciliação de classes holandês, fez 24,8% dos votos e obteve 38 cadeiras no parlamento. Agora, em 2017, fez apenas 5,7% e obteve meras 9 mandatos. Foi castigado por ter sido parte ativa nas políticas neoliberais e de austeridade dos últimos 30 anos, tendo inclusive composto com o governo atual. Foi também partícipe do acordo sangrento entre Merkel e Erdogan que trancafiou 3 milhões de sírios na Turquia (sem permitir que eles vão para a Europa); como também da chantagem humilhante da União Europeia contra o povo grego no auge da sua crise econômica, em 2015.

    Com o colapso da socialdemocracia, vários partidos de esquerda herdaram sua votação, com pautas específicas e não está claro quais conseguirão se firmar. O partido Esquerda Verde, de Jesse Klaver, quadruplicou sua votação e agora tem 14 representantes e fez uma campanha defendendo os imigrantes. Isso significou um giro à esquerda de suas posições das últimas décadas, já que chegou a defender a guerra do Afeganistão e o fim das bolsas de estudo para a Universidade. Já o partido Socialistas também elegeu 14 deputados e defendeu as pautas mais históricas da socialdemocracia, abandonadas pelo PvdA (como por exemplo contra a privatização da saúde), embora tenha se abstido no tema da imigração, o que é particularmente indigno no contexto holandês e europeu atuais. Sobrou espaço para um partido que defendeu pautas ambientais com 5 deputados (O “partido em defesa dos animais”) e o Denk, que obteve 3 cadeiras com uma campanha em defesa dos imigrantes. Como aspecto pouco claro estão suas ligações com o regime de Erdogan na Turquia.

    Apesar de ser uma boa notícia o fato que o PVV, partido de Wilders, não tenha conseguido emplacar como principal força parlamentar, a direitização política na Holanda é assombrosa. A agenda política do país durante as eleições girou por completo em torno das pautas de extrema direita levantadas pelo PVV, como a deportação de muçulmanos (principalmente turcos e marroquinos), fechamento de mesquitas, entre outras medidas racistas e xenofóbicas. Este fato levou à radicalização da direita dita moderada e uma apropriação do discurso populista islamofóbico por estes partidos ditos “de centro”. O fenômeno de “direitização do centro” que ocorre na Holanda também se passa no resto da Europa, principalmente França, Alemanha e Inglaterra.

    Alguns exemplos podem ilustrar como esse fenômeno se deu na Holanda. Quando ocorreu a agudização da crise dos refugiados em 2015, o primeiro ministro Rutte fez uma política na exata contra-mão do que seria uma solução para a crise: aumentou as restrições para a entrada e legalização dos refugiados; e diminuiu o tempo de asilo para os refugiados que chegaram na Holanda, mas não tiveram seu visto aprovado. Isto além de declarações como “se os muçulmanos quiserem permanecer na Europa, eles devem aprender nossos valores”, dando a entender que a religião muçulmana é antagônica à democracia. Islamofobia nua e crua.

    Além disso, na semana passada, Rutte expulsou do país o chanceler turco Mevlut Cavusoglu e a Ministra de Alimentação e Saúde Fatma. Ambos estavam na Holanda para fazer um comício em favor do referendo promovido por Erdogan, cujo objetivo é cercear as liberdades democráticas dentro da Turquia em favor de si próprio. Por mais nefasto que seja o tal referendo, foi uma provocação aos imigrantes turcos e muçulmanos em geral e uma clara capitulação à extrema direita xenofóbica e anti-turca. Este “incidente diplomático” foi uma tática do primeiro ministro para ganhar um setor da base de Wilders, mostrando-se também um candidato “à direita”. Ou seja, por mais que o PVV não tenha se tornado a maior força política nacional, a sua mera ascensão serviu para influenciar fortemente a agenda do governo de “centro-direita”.

    Agora, Rutte terá que formar uma nova coalizão de governo, em função da diminuição estrondosa dos votos da social-democracia. O mais provável é que o VVD forme a base de sua coalizão junto à Democracia Cristã e o Democratas 66. Contudo, ainda não seria suficiente para formar uma maioria. Alguns cogitam a possibilidade de Rutte convidar a Esquerda Verde para a coalizão, o que, caso aceitem, seria uma capitulação sem tamanho dos verdes, dadas as diferenças entre ambos no terreno da imigração e dos refugiados. O líder do partido é filho de marroquinos e fez oposição ao endurecimento das leis migratórias executada por Rutte durante seu mandato. Apesar disso, o histórico de capitulações bárbaras da centro esquerda europeia faz dessa possibilidade algo não impossível. Rutte também afirmou que está fora de cogitação integrar o PVV de extrema direita no governo. Ainda assim, o futuro holandês com um terceiro governo liberal-conservador é austeridade e xenofobia certa, o que torna ainda mais urgente a resistência unificada da esquerda contra essa agenda na Holanda e em toda a Europa.

    [1] Algumas das informações deste artigo foram extraídas do site A l’encontre

  • 62 mortos no Peru: mais uma tragédia

    Por: Igor Dantas, Rio de Janeiro, RJ

    O Peru, país que faz fronteira com o Brasil, vêm sofrendo desde o início do ano com um dos maiores desastres naturais dos últimos anos. De acordo com o Instituto Nacional de Defesa Civil (Indeci) já são 62 mortos confirmados, dezenas de feridos e mais de 62 mil afetados por chuvas e inundações. Ao todo, 24 regiões do país estão sofrendo com as enchentes. A mais afetada delas é Piura, fronteira com o Equador, onde ocorreu o maior volume de chuva em 50 anos.

    Infelizmente, situações calamitosas como essa não são novidade na América do Sul, e no Brasil também, consequentemente. Os verões da região são marcados por fortes chuvas e a falta de infraestrutura para conter e prevenir desastres como esse é latente.

    Ano após ano, teme-se por um novo desastre, principalmente aqueles que moram em regiões próximas a rios, ou em encostas com riscos de desabamento. Em 2011, a Região Serrana do estado do Rio de Janeiro sofreu o maior desastre climático que se tem registro no território brasileiro. Foram 905 mortos e milhares de desalojados oficialmente. No entanto, moradores e até especialistas afirmam que os números podem ser muito maiores. Até hoje, as cidades de Nova Friburgo, Teresópolis, Petrópolis e região sofrem com consequências disso.

    Seriam essas tragédias mero acaso do destino, ou impossíveis de conter? Ou por trás desses fatos desoladores podemos apontar falta de investimentos necessários em planejamento urbano, infraestrutura, segurança e saúde públicas? Até que ponto ocorrência de mudanças climáticas causadas pela ação do homem não potencializam esses riscos?

    O capitalismo é comprovadamente um sistema que vêm exaurindo os recursos naturais e gerando mudanças climáticas, ainda que no centro do sistema, o presidente dos EUA queira negar esse fato. Além disso, países periféricos, como os latino-americanos, sofrem com a falta de investimento nas áreas supracitadas e com o completo descaso com as populações que vivem em áreas de risco, muitas vezes por não terem condições financeiras de arcar com uma mudança e o custo de vida em áreas mais habitáveis.

    Quantos terão de morrer até que se perceba a gravidade desse tema em nossa região? Aos irmãos e irmãs peruanos fica a nossa solidariedade e um desejo de força para resistir a esse desastre “natural”, nem tão natural assim. #FUERZAPERU

    Foto: Reprodução CatVEHD