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  • Primeiro turno na França: abalo e reorganização do sistema partidário-eleitoral

    Imagem: AFP

     

    Por Renato Fernandes (Campinas/SP)

     

    No último domingo, 23, ocorreram as eleições francesas. Como previam muitos analistas, essas eleições foram altamente polarizadas: a diferença entre o primeiro candidato, Emmanuel Macron (24,01%), e o quarto, Jean-Luc Mélenchon (19,58%), foi de apenas 4,43% dos votos. Porém, para além dessa polarização, há um verdadeiro abalo do sistema político e uma recomposição do mesmo: os dois principais partidos que tinham elegido todos os presidentes da V República, fundada em 1958, estão fora do segundo turno. Os Republicanos (LR em francês) ficaram com o terceiro lugar, com François Fillon (20,01%) e o Partido Socialista (PS) ficou com o quinto lugar – pior resultado da história do partido, com Benoît Hamon com 6,36% dos votos.

    Uma análise mais detalhada dos votos revela alguns dados interessantes. Por exemplo, Le Pen, que teve no total 21,30%, obteve votações muito fracas em grandes cidades (Paris 4,99% e Lyon 8,86%), com exceção de Marselha (23,66%). Entretanto, ganhou em diversos territórios do interior da França e também nas colônias francesas, considerando todos os territórios: 21,9% para Le Pen, contra 20,8% de Mélenchon, 20,7% Fillon e 20,4% de Macron. Ao mesmo tempo, a abstenção nas colônias foi bastante alta (53%).

    Outro elemento interessante foi a votação de Mélenchon que ganhou em dois departamentos, Dordogne (22,97%) e Ariège (26,77%) e em algumas cidades, como Marselha, na qual ficou em primeiro com 24,82% dos votos. Em Lyon (22,84%) e Paris (19,56%) ficou em terceiro, mas teve uma boa votação. Além disso, ganhou em duas colônias: na Guiana Francesa, com 24,72%, ficando pouco à frente de Le Pen (24,29%) – Philippe  Poutou teve também uma boa votação na Guiana, 5,24%. Mélenchon ganhou também na Ilha da Reunião, na costa africana, ficando com 24,53% contra 23,46% de Le Pen.

    Considerando o espectro político em centro (Macron), direita (Fillon, Le Pen e outros) e esquerda (Hamon, Mélenchon, Poutou e Arthaud), podemos dizer que há uma queda muito grande da esquerda em comparação com 2012: 27,7% agora contra 43,8% cinco anos atrás. Isso demonstra que a falência do governo do PS, com seu programa neoliberal, afetou de conjunto a esquerda e abriu espaço, principalmente, para o centro (23,8% – em 2012, 9,1%), enquanto a direita se manteve estável (48,3%, 2012 46,9%). Porém, é no interior de cada espectro político que houve um processo de reorganização.

     

    Reorganização do sistema político

     

    O fator inusitado deste segundo turno está justamente no deslocamento e na recomposição política entre os partidos. Macron e seu movimento En Marche (Em Marcha) podem ser classificados no espectro político como um movimento de centro que tem o apoio de setores do PS e setores dos LR. De fato, ele assumiu o lugar que havia sido ocupado pelo deputado e também político de centro François Bayrou, do Movimento Democrata (MoDem): em 2007, Bayrou obteve 18,57% dos votos nas presidenciais, enquanto em 2012, tinha ficado com apenas 9,13%. Bayrou já foi ministro em governos da direita, LR, e, nessas eleições, foi um dos principais cabos eleitorais de Macron, depois que seu candidato Alain Juppé perdeu as primárias da direita para François Fillon. Provavelmente, Bayrou será um homem forte do governo de Macron. Parece-nos que a crise dos grandes partidos está se desdobrando numa recomposição, ao menos nas presidenciais, pelos partidos de centro.

    De acordo com alguns analistas, foi a presidência de Nicolas Sarkozy (2007-2012) que abriu espaço para esse “centro” político: Sarkozy, assim como Fillon, representavam as alas mais conservadoras em termos de imigração, identidade nacional e segurança na direita tradicional. Seus discursos se aproximaram bastante da extrema direita e se afastaram dos eleitores de centro. Dessa forma, abriu espaço para esse centro que defende uma política mais “democrática”, ainda que um programa econômico neoliberal muito semelhante a essa direita.

    Na direita, o fato inédito foi a vitória da Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen sobre a direita tradicional. É a segunda vez que a FN vai para o segundo turno, repetindo o feito de 2002, quando o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen ficou em segundo, atrás do direitista Jacques Chirac. Apesar de passar para o segundo turno, Marine teve uma conquista amarga, já que no início da campanha todas as projeções a colocavam como a grande vitoriosa do primeiro turno. Aos poucos, Macron foi crescendo e ocupou o primeiro lugar. O deslocamento de Sarkozy-Fillon para temas comuns com a extrema direita acabou por favorecer esse setor, principalmente após os golpes que Fillon sofreu com os casos de corrupção. Le Pen também foi afetada por denúncias de corrupção, porém isso não abalou muito sua campanha.

    Porém, é importante localizar que o crescimento de Le Pen não é um fenômeno apenas “francês”: tem suas particularidades francesas, mas é parte do crescimento dos setores da extrema direita nacionalista, autárquica e protecionista, aos quais poderíamos incluir facilmente Donald Trump nos EUA e Geert Wilders na Holanda, entre outros. Le Pen é a materialização de um projeto de setores chauvinistas da burguesia imperialista para construir outra saída para a crise e a decadência econômica que atravessa a França. Infelizmente, este projeto está tendo o apoio eleitoral de setores proletários e pequeno-burgueses que sofrem as consequências de anos de políticas neoliberais.

    Na esquerda, o processo de recomposição política é ainda mais forte. Assim como na direita, foi a primeira vez que o PS perdeu para outro partido da esquerda, a França Insubmissa de Mélenchon. Porém, se considerarmos todas as eleições desde 1969, esta foi a eleição na qual a esquerda como um todo (do PS até a LO) teve o menor índice de votação, 27,7%. Só para ter uma ideia: nas eleições de 2012, François Hollande, do PS, obteve 28,63%, o que significa uma votação maior do que os quatro candidatos de esquerda deste ano.

    É ainda muito cedo para prevermos a reorganização que se dará na esquerda, porém, existem algumas hipóteses. Com a provável vitória de Macron, existe uma grande chance do PS ser o principal partido da base aliada, já que boa parte dos apoios de Macron saíram deste partido. O PS disputará essa base aliada com os LR que, apesar da derrota, devem sair muito menos divididos que o PS. Já o espectro à esquerda fora do PS, sem dúvida nenhuma, terá em Mélenchon a grande figura política. Isso indica também que está aberta uma grande chance para a esquerda se reorganizar perante os ataques que vão seguir contra a classe trabalhadora.

     

    Um segundo turno inédito

     

    Esse abalo no sistema político terá seu próximo capítulo no segundo turno das presidenciais que ocorrerá no dia 7 de maio. Na disputa entre o ex-banqueiro Macron e a líder da extrema direita, Marine Le Pen, estará em jogo uma disputa entre dois projetos diferentes da burguesia francesa: o primeiro é pró-União Europeia (UE) e de continuidade neoliberal e, o segundo, de um nacionalismo autárquico, protecionista e xenófobo anti-UE. Ao que tudo indica, a maioria da burguesia apoia acentuar a ofensiva neoliberal realizada pela direita clássica (LR) e pela esquerda do sistema (PS). As primeiras pesquisas dão uma alta diferença entre os dois: Macron 62,8% contra 37,2% de Le Pen.

    Entre os candidatos derrotados, François Fillon foi um dos primeiros a declarar voto em Macron, já no domingo. Hamon, do PS, também chamou o voto em Macron, assim como o atual presidente François Hollande (PS). Entre os principais candidatos, a diferença está em Jean-Luc Mélenchon: ao invés de já se posicionar sobre o voto, preferiu fazer uma consulta ao seu próprio movimento para determinar qual será sua posição no segundo turno. As possíveis posições são voto em Macron, nulo/branco ou abstenção.

    A esquerda anticapitalista teve como candidatos Philippe Poutou pelo Novo Partido Anticapitalista (NPA) com 1,09% (8º) e Nathalie Artaud do Luta Operária (LO) com 0,64% (10º). O NPA está chamando “contra a extrema direita e os políticos liberais”, enquanto a LO está chamando voto em branco para “rejeitar Le Pen sem apoiar Macron”.

    As duas principais centrais sindicais também já se posicionaram. A CFDT está chamando voto em Macron, enquanto a CGT (maior central) chama voto para “barrar a extrema direita” o que significa, indiretamente, votar em Macron.

    Sem dúvida alguma, após o segundo turno das eleições presidenciais, todo o sistema político francês tentará se reorganizar para dar o mínimo de estabilidade governamental. Essa estabilização dependerá do processo de alianças que se realizará para as eleições legislativas em junho de 2017 que demonstrará sobre quais blocos políticos governará o próximo presidente francês. Para a esquerda radical, será importante acompanhar até onde as forças eleitorais da esquerda fora do PS conseguirão chegar enquanto uma alternativa política ao decadente sistema político francês e a um dos seus principais defensores no último período, o PS.

  • Por uma Guiana Livre

    Desde março um grande movimento social explodiu na Guiana Francesa com bloqueios, barricadas e grandes protestos nas principais cidades do país. Após mais de um mês de paralisação nacional, parte do movimento e o governo francês chegaram a um acordo no último dia 21/04. O acordo garantiu cerca de 1,1 bilhões de € imediatamente e mais 2,1 bilhões de € para medidas suplementares exigidos pelas autoridades locais para satisfazer demandas em saúde, educação, segurança e infraestrutura. O acordo também garantiu que nenhum manifestante será punido por ter participado desta grande mobilização vitoriosa que colocou em questão o domínio imperialista francês e realizou um salto na organização dos movimentos sociais que saíram mais fortalecidos para lutar pelos seus direitos (Editoria Internacional).

     

    A Guiana Francesa tomou as ruas para protestar contra décadas de sub-investimento e negligência.

    Por Françoise Vergès, publicado em Jacobin, 19/04/2017

     

    Em março, os sindicatos e associações organizaram um chamado coletivo “Pou La Gwiyann dékolé”, o que significa “pela separação da Guiana” na língua crioula da Guiana  (Pou Lagwiyann Dékolé significa Para a Guiana decolar e não pela “separação”: ver o ponto 7 em francês – N. da Tradução ao português). De lá para cá, os ativistas realizaram protestos, bloquearam rodovias, fecharam cidades e o comércio marítimo, organizaram uma greve geral, e realizaram marchas que reuniram amplas camadas da população, de estudantes do ensino médio e advogados à camponeses, agricultores e à população indígena.

     

    Eles apresentaram um memorando de 40 páginas com as reivindicações aos ministros, entre elas saúde, educação, agricultura, desenvolvimento e segurança. Eles denunciaram como os sucessivos governos franceses têm tratado a Guiana, citando a dilapidação da infraestrutura em algumas regiões, a falta de segurança e desenvolvimento, o crescimento da desigualdade e da discriminação, e o desrespeito generalizado. Os manifestantes repetidamente gritam “determinados(as)!” e “Nou bom ké sa” (Basta! Não mais!). Eles carregam a bandeira da Guiana e cantam pelo seu país: Guiana.

     

    O sucesso do coletivo tem sido extraordinário. O bloqueio de rodovias, as ocupações, manifestações, e o fechamento da capital Caiena atraiu milhares de pessoas, permanecendo inteiramente pacíficas. Os e as porta-vozes do coletivo mantiveram a multidão informada durante as conversações com o governo. Em 2 de abril, eles rejeitaram a oferta do governo de desembolsar pouco mais de 1 bilhão de euros. No dia seguinte, o primeiro-ministro declarou que a demanda coletiva por 2,5 bilhões de euros era “irreal”.

     

    O coletivo Pou La Gwiyann dékolé (Pela Separação da Guiana) prometeu continuar e no dia 4 de abril milhares marcharam à base aeroespacial europeia de Kourou. Ocuparam a entrada do centro e 30 pessoas – incluindo os funcionários eleitos que o coletivo tinha anteriormente excluído – ocuparam o local. No dia seguinte o governo reiterou a oferta de 1.086 bilhões de euros.

     

    A ocupação terminou na esteira da resposta decepcionante do estado. Os ativistas expressaram sua frustração, denunciaram a contínua falta de respeito do governo e falaram da unidade da Guiana e do endurecimento do movimento. Na quinta-feira, o coletivo manteve seus bloqueios e começou a discutir novas estratégias.

    Em maio, a França elegerá um novo presidente, e um novo parlamento virá em junho. Mas Pou La Gwiyann dékolé se recusa a ser refém da política francesa. Em cada barreira, em cada marcha e manifestação, eles gritam o que se tornou seu lema “determinados(as)!”

     

    O movimento levantou questões típicas: que tipo de república reivindica o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” enquanto ainda governa sobre tantas ex-colônias? Que tipo de poder imperial está sendo empregado agora? Muitos políticos na França continental repetem o clichê de que essas áreas são “território esquecido”, uma frase que implica amnésia. Em vez disso, não deveríamos discutir as escolhas políticas que criaram o esquecimento e a dependência?

     

    Quando as notícias de um dos treze territórios ultramarinos franceses que são habitados chegam a Paris, os meios de comunicação franceses respondem com surpresa, o público com ignorância, e os políticos com velhas e gastas promessas de se lembrar melhor dessas regiões. Essas respostas desempenharam papéis essenciais na reconfiguração do espaço republicano francês, transformando o que resta do império francês em um mapa mutilado de controle imperial.

     

    O movimento de resistência guianense está desenvolvendo novas estratégias para conquistar a autodeterminação. O sucesso ou não em trazer a tão necessária democracia e desenvolvimento para a Guiana está ainda por se ver, mas sua luta pode nos ajudar a compreender como a história colonial da França continua a moldar a vida dos seus povos súditos em todo o mundo.

     

    A União Francesa do pós-guerra

    Apesar do fato de que Paris ainda governa territórios no Pacífico, no Oceano Índico, no Caribe e na América do Sul, as pessoas que vivem na França continental compartilham a convicção de que, após 1962, seu país abandonou qualquer forma de colonialismo. Os territórios ultramarinos desapareceram da consciência e este véu de ignorância impediu os franceses de se perguntarem por que tantas áreas supostamente descolonizadas ainda vivem sob o domínio imperial.

     

    Lembrar a existência dessas regiões desencadeia uma de duas respostas. Alguns afirmam ter “amor e afeto eternos” aos territórios e suas populações, enquanto outros apelam para o discurso familiar da dependência, descrevendo seus concidadãos como preguiçosos, amargos, inconsequentes e irrealistas.

    Em ambos os lados, os fatos permanecem vagos. Os ativistas devem sempre repetir informações geográficas, sociais e políticas; os cidadãos franceses parecem incapazes de acumular esse conhecimento, não importa quantas vezes eles o ouvem. Sua ignorância, no entanto, realmente não importa: a verdade sempre pode ser acessada quando as sociedades ultramarinas estão em causa.

     

    Para entender o descontentamento coletivo na Guiana, devemos retraçar rapidamente a reconfiguração do Estado francês durante o século XX. Depois da Segunda Guerra Mundial – como o racismo era universalmente condenado, os movimentos de luta anticolonial estavam crescendo e a própria natureza do capital estava se transformando – a França revisou seu vocabulário oficial, renunciou a suas práticas imperiais e sugeriu a parceria – e não o domínio – às suas antigas colônias. Eles chamaram a nova configuração de União Francesa, ligando a França continental – agora chamada de “Hexágono” – às suas ex-colônias como parceiros iguais, com Paris como guia.

     

    Paris reconheceu que precisava de suas colônias. Seus recursos seriam essenciais para a reconstrução do pós-guerra, e sua associação manteve o status da França como uma potência global. Apesar de o Estado ter investido dinheiro em estradas, portos e outras obras de infraestrutura, pouco fez para acabar com a dependência, o poder assimétrico ou o racismo. No primeiro programa de desenvolvimento da França pós-guerra (1947-1954), afirmou que o desenvolvimento era impossível em partes de seu antigo império: Ilha de Reunião, Guadalupe, Guiana e Martinica (que se tornaram departamentos em 1946), Mayotte, Nova Caledônia e Polinésia Francesa. Para garantir que essa análise se concretizasse o Estado implementou duas políticas: emigração e controle de natalidade.

     

    Durante a década de 1950, a França implementou essas políticas de “desenvolvimento impossível”. Destruiu a indústria local, aumentando o desemprego e a dependência. Milhares de jovens foram à França todos os anos para trabalhar em fábricas ou empregos públicos de baixa qualificação, onde enfrentaram formas metropolitanas de discriminação. Em casa, mulheres negras e pobres sofreram aborto, esterilização e contracepção forçadas.

     

    O Estado reprimiu os movimentos anticolonialistas e dos trabalhadores. A polícia francesa, o exército e as milícias privadas espancaram, prenderam e assassinaram líderes da resistência. O Estado rejeitou sistematicamente, reprimiu e condenou as demandas de autonomia ou independência e subjugou línguas, religiões e culturas não europeias. A fraude eleitoral garantiu que os conservadores leais permanecessem no poder. A França apresentou incansavelmente duas mensagens: “O futuro está em outro lugar” e “Não há alternativa à dependência”.

     

    No final dos anos 1950, a França tinha preservado sua União, mas a guerra na Argélia exigiu uma segunda reconfiguração da República Francesa. Agora, a França seria totalmente europeia – apenas o “Hexágono” – e deixaria seu colonialismo no passado.

     

    No entanto, nem um ano se passou sem revoltas, greves e manifestações contra a censura e a fraude. O povo se levantou na Martinica em 1959, na Ilha da Reunião em 1962, 1991 e 2012, em Guadalupe, em 1967, e na Nova Caledônia, em 1988, provando que a pacificação nunca teve êxito total. Os programas governamentais lançados em resposta a essas lutas, destinados a enfraquecer a desigualdade e aliviar o descontentamento, não produziram desenvolvimento econômico. Em vez disso, serviram para manter o controle francês e dar ao capital novos lugares para explorar.

     

    Em 1999, a taxa de pobreza em todos os territórios ultramarinos era mais elevada do que em qualquer região francesa. Quase a metade dos jovens com menos de vinte e cinco anos não tinha diploma (em comparação com um quinto na França). Na Guiana, 50% da população abandonava a escola no nível primário. Em Martinica a percentagem de crianças que viviam abaixo do nível de pobreza era quase o dobro da França (13 por cento a 8 por cento, respectivamente), enquanto na Guiana, 32 por cento – quatro vezes o número no Hexágono – não poderiam pagar suas necessidades básicas.

     

    Apesar desta pobreza desenfreada, o custo de vida disparou, subindo entre 12 e 30 por cento mais do que em Paris, em parte porque mais de 80 por cento dos produtos são importados da França (mesmo o café cultivado no Brasil deve viajar para a França antes de voltar para a América do Sul). Enquanto isso, os testes nucleares, o uso de pesticidas proibidos na Europa, a mineração de níquel, bem como a mineração ilegal de ouro e a infra-estrutura de estilo europeu devastaram a terra e a saúde da população.

     

    Em todos os territórios ultramarinos, o racismo dividiu a população. As prisões estavam superpovoadas; Negros e indígenas foram mantidos na base da pirâmide da sociedade. Os funcionários públicos estatais – que tendem a ser brancos da França – recebem salários mais elevados do que na França e pagam menos impostos. Esses burocratas locais lideravam greves no início da década de 1950 para conquistar esses privilégios coloniais: salários mais altos, menos impostos e outras regalias financeiras, como uma viagem para sua família à “pátria”. Apresentavam suas reivindicações como reparação do colonialismo, mas os seus privilégios criaram uma assimetria duradoura entre a população local e os funcionários públicos de classe média.

     

    A propriedade da terra está em conflito em toda parte, resultado de séculos de colonialismo. Os descendentes de proprietários de escravos foram liberados a manter suas terras após a abolição da escravidão em 1848, quando as receberam como compensação pela perda de sua propriedade escravizada. Os libertos não tinham acesso à terra e o Estado francês impunha direitos sobre direitos sobre a terra que despojavam os nativos, reforçavam os privilégios dos grandes proprietários de terras e favoreciam os colonizadores brancos. Na Guiana o Estado detém 80 por cento da terra e não paga impostos sobre a propriedade. Em 2017, o desemprego, a dependência, o analfabetismo e o subdesenvolvimento continuam a definir os territórios ultramarinos.

     

    Os políticos do Hexágono reclamam regularmente que os territórios ultramarinos “custam” ao povo francês. Os benefícios oferecidos às multinacionais francesas e o fato de que o dinheiro público é reciclado para as empresas francesas e não para a indústria local desmente essas afirmações. Mesmo para o Estado francês, a continuação da propriedade dessas terras paga dividendos. Os territórios ultramarinos asseguram o seu estatuto de potência marítima global, garantem a sua presença em todas as instituições regionais, fornecem terrenos para bases militares, vigilância por satélite, investigação científica e abrem novos mercados para os produtos franceses

     

    Simplificando, longe de se esquecer dos seus territórios ultramarinos, o Estado francês concebeu a sua configuração espacial e a sua economia com eles em mente. Paris tem trabalhado para manter a dependência, ao mesmo tempo em que concedeu alguns direitos de discussão e decisão à população local após intensa luta. Este limitado poder local colocou conselhos locais como responsáveis pelo desenvolvimento, libertando a França continental de qualquer responsabilidade.

     

    O racismo colonial persiste, mas o Estado não é o único culpado. A esquerda francesa e os movimentos progressistas não se descolonizaram com êxito. Em 1956, Aimé Césaire renunciou ao Partido Comunista Francês citando o fato de que o racismo colonial inevitavelmente contamina a sociedade colonizadora com uma crença na superioridade europeia, tornando-os incapazes de entender as demandas dos povos colonizados. Sua visão ainda é relevante.

     

    Além disso, as políticas de Estado não poderiam ter sido implementadas sem proponentes locais, que acenassem seu status como cidadãos europeus e seus privilégios associados contra seus vizinhos indígenas. Não apenas os funcionários públicos, este grupo também inclui trabalhadores sociais, professores, líderes políticos e artistas.

     

    Mais recentemente, a xenofobia aumentou nos territórios ultramarinos. Em Mayotte, na Reunião, nas Antilhas e na Guiana, os habitantes locais associam novos migrantes a uma maior criminalidade, a tirar proveito dos benefícios sociais e não trabalhar, não sendo “como nós”. Em Mayotte, os “estrangeiros” – frequentemente da ilha de Comores  – são expulsos em maior número do que na França. Os habitantes de Mayotte – denominados mahorais – até organizaram a destruição de suas casas. Em outras palavras, a fabricação local do consentimento não pode ser ignorada. Na Guiana, enquanto alguns membros do colectivo Pou La Gwiyann dékolé pediram penas mais duras e até mesmo a expulsão de prisioneiros estrangeiros, nunca denunciaram ou atacaram migrantes.

     

    A Guiana no Mundo

    O movimento guianense representa um momento histórico. A capacidade do coletivo para mobilizar, organizar e reagir a eventos em desenvolvimento tem sido impressionante. Ao se recusar a incluir oficiais eleitos, comunicar os resultados das negociações à multidão, permitir os meios de comunicação na maioria de suas reuniões, e falar em crioulo guianês, os membros da Pou La Gwiyann dékolé estão inventando uma nova forma de deliberação e intervenção.

     

    O coletivo inclui uma série de povos indígenas e Bushinenge (NdT: é uma etnia com origem no Suriname trazida para trabalhar nas plantações. São conhecidos como “marrons”). O grupo que domina o coletivo – os “quinhentos irmãos” – formou-se para protestar contra a crescente taxa de assassinatos e exigir a expulsão de prisioneiros não-guianenses, bem como a construção de mais prisões, tribunais e delegacias. Eles imediatamente atraíram a atenção da mídia, pois seus líderes falam eloquentemente sobre a situação na Guiana e até agora mantiveram a unidade entre os diferentes grupos do coletivo.

     

    Algumas de suas perguntas, entretanto, permanecem não apenas sem resposta, mas também sem sequer serem feitas: o que causa a criminalidade? Que posição toma o coletivo em relação aos migrantes e seus filhos nascidos na Guiana, que são cidadãos franceses? Que política de prevenção do crime eles imaginam? Mais policiais e mais deportações não apagarão a fronteira de setecentos quilômetros com o Brasil ou a fronteira de quinhentos quilômetros com o Suriname ou o aumento da pobreza que o capitalismo produziu. Embora haja, obviamente, um problema “franco-guianês”, a emancipação também deve ser imaginada com o contexto regional e global em mente. Os territórios ultramarinos franceses não existem no vácuo nem em relação exclusiva à França. A política e a economia regionais e globais devem ser consideradas.

     

    No dia 2 de abril, os membros do coletivo acrescentaram um novo item às suas demandas: uma discussão sobre o status administrativo da Guiana. Com isso, reapareceu a velha pergunta: como deveria a república francesa se relacionar com seus territórios ultramarinos? As demandas de autonomia ou independência nas décadas de 1960 e 1970 foram brutalmente reprimidas, e a possibilidade de imaginar outra estrutura administrativa foi excluída. No entanto, o posterior emprego da hegemonia cultural e da pacificação não apagou as lembranças dessas lutas.

     

    Movimentos anticoloniais naquele período fizeram uso de lutadores ícones – marrons, rebeldes e artistas revolucionários – cujas memórias foram reativadas através de canções e poemas. O movimento atual também se baseia em referências revolucionárias e vernáculas, como louvar os espíritos de dois elementos essenciais: terra e água. Eles também apresentam sua luta no contexto de movimentos passados. Durante a Marcha de Terça-Feira a Kourou, os manifestantes inauguraram um monumento celebrando Martin Luther King Jr (que foi assassinado naquele dia em 1968) e em honra de John Carlos e Tommie Smith (que levantaram os punhos nos Jogos Olímpicos de 1968).

     

    A mídia tende a prestar atenção apenas à discriminação racial na França continental, mas os movimentos políticos, sociais e culturais nos territórios ultramarinos, desde os primeiros anos da descolonização até hoje, tornam visível o colonialismo da república francesa. Embora historica e culturalmente situadas em todo o mundo, as colônias restantes da França pertencem ao Sul Global, todos ligados a um Estado europeu com um passado longo imperial e uma violenta história de descolonização.

     

    Tradução de Lucas Fogaça.

     

  • Presidenciais francesas: algumas tendências que incidem sobre uma eleição indefinida

    Por Renato Fernandes, Campinas/SP

    No próximo domingo, 23/4, ocorrerão as eleições francesas. De acordo com as pesquisas o cenário ainda continua indefinido. A última pesquisa publicada nesta sexta-feira, 21, confirmou que o ex-banqueiro Emmanuel Macron (24%) e a candidata da extrema direita, Marine Le Pen (22,5%), estão na frente e são os que têm maiores chances de chegarem ao segundo turno. Porém, eles estão sendo seguidos de perto pelo candidato da direita conservadora e neoliberal François Fillon (19,5%) e o nacionalista de esquerda Jean-Luc Mélenchon (18,4%). Este último teve um crescimento impressionante, já que tinha 9% das intenções de voto em 1º de fevereiro.

    Ao mesmo tempo, o índice de indecisos é bastante alto: 26% dos eleitores declaram que podem mudar sua escolha até domingo. A abstenção também tende a ser alta: 27%, ou seja, maior do que a de 2012 (20,52%) e a de 2007 (16,33%). Porém, essa alta taxa de indecisos e de abstenção pode modificar o cenário e colocar, qualquer um dos quatro primeiros candidatos, no segundo turno. Para além dos dados, existem processos e tendências que embolam ainda mais esse cenário indefinido.

    A crise da União Europeia e a decadência do imperialismo francês

    Desde a crise de 2008, a União Europeia (UE) encontra-se em uma tendência de concentração de poder no imperialismo alemão e de decadência de potências mais fracas, como Grécia, Espanha e Portugal. As imposições draconianas da troika (Banco Central Europeu, União Europeia e FMI) nos planos de austeridade fortaleceram o topo da pirâmide. É nesse cenário que ocorreu o Brexit, com a saída do Reino Unido do bloco, o que o enfraqueceu de conjunto.

    Nesse sistema, a França acabou entrando como um país importante na imposição às potências menores, mas como subordinado à política europeia alemã. A decadência da economia francesa, frente à alemã, é um processo objetivo que gera contradições que precisam ser resolvidas. Não é à toa que um dos pontos centrais da discussão foi a UE.
    Marine Le Pen defende o “Frexit” como forma de fortalecer a economia francesa, expressando uma tendência ao nacionalismo autárquico e conservador que foi parte importante do discurso vitorioso de Trump nos EUA. Em entrevista, afirmou que após a saída da França da UE, o país poderá partir para “conquistar o mundo”. Por outro lado, temos a proposta de Mélenchon: desobedecer alguns tratados europeus e renegociar novos marcos para a UE, não descartando a possibilidade da ruptura e da criação de uma outra união entre os Estados Europeus.

    Os atentados reforçam as políticas da direita

    Na noite do dia 20/4, durante o programa de entrevista ao vivo com todos os 11 candidatos a presidente, ocorreu um atentado na Champs Élysées (tradicional avenida de Paris): um homem atirou contra policiais que estavam patrulhando o local. Um policial e o atirador morreram, outros dois ficaram feridos e uma turista machucou-se com os estilhaços. O Estado Islâmico assumiu a autoria dos ataques. Nesta mesma semana, dois suspeitos foram presos em Marselha, no sul da França, acusados de prepararem atentados para os dias das eleições.

    Nos últimos cinco anos, em razão das intervenções militares francesas, principalmente contra o Estado Islâmico na Síria, a França foi alvo de diversos atentados, como o de Nice (julho de 2016) e o da boate Bataclan (novembro de 2015). Em determinado sentido, estes atentados fortaleceram o aparelho de Estado francês e o frágil governo de François Hollande do PS. Esse fortalecimento serviu para melhor reprimir os imigrantes e também os movimentos sociais.

    Em determinado sentido, os atentados acabam fortalecendo aqueles candidatos que têm propostas mais à direita e conservadoras, como Marine Le Pen e François Fillon. Não à toa que foram os primeiros a levantarem medidas para barrar a imigração e reforçar o Estado policial, como se esses fossem os problemas que acabariam com os atentados.

    A decadência do sistema político bipartidário

    Em boa parte dos países europeus, após o final da segunda guerra mundial, se desenvolveu um sistema político bipartidarista de alternância de poder: por um lado, partidos socialdemocratas; por outro, partidos conservadores ou liberais de direita. Na França, houve um bipartidarismo com hegemonia clara da direita. Se considerarmos a Vª República, criada em 1958, dos 7 presidentes eleitos (em 10 mandatos), 5 foram dos partidos de direita (o mesmo partido que modificou de nome ao longo da história) e dois presidentes do Partido Socialista (François Mitterrand, que governou por 14 anos, e François Hollande).

    Porém, estas eleições poderão marcar o fim da hegemonia bipartidária, já que dos quatro primeiros candidatos, três são de partidos que eram minoritários (ou inexistentes) nas outras eleições: Marine Le Pen da Front National, extrema direita; Macron do En Marche, movimento de centro, de conciliação entre a direita e a esquerda tradicionais; Mélenchon da France Insoumisse, composta por partidos à esquerda do PS.

    A decadência do bipartidarismo parece uma tendência que afeta todo o continente, ainda que de maneira bastante desigual: na Grécia possibilitou a vitória do Syriza; em Portugal, por mais que o PS governe, necessita dos partidos mais à esquerda para governar. Na Alemanha também há um processo de recomposição nos extremos, ainda que os principais partidos mantenham a hegemonia.

    As lutas sociais também se fazem presente na disputa

    Nos últimos anos, a França foi palco de grandes lutas sociais. A primeira delas, em 2010, contra a reforma da previdência que, entre outras propostas, aumentou para 62 anos a idade mínima de aposentadoria, foi uma luta massiva com greve geral e manifestação de centenas de milhares. A mobilização foi derrotada, porém foi o processo fundamental que permitiu a derrota de Nicolas Sarkozy, presidente conservador de direita, para François Hollande em 2012.

    A última grande mobilização foi contra a reforma trabalhista, em 2016. Novamente, uma grande mobilização, com centenas de milhares, greves gerais, ocupações de refinarias. Uma luta bastante grande que foi novamente derrotada: utilizando-se de um dispositivo autoritário da Constituição Francesa, Hollande aprovou a reforma trabalhista sem votação no parlamento. Porém, o desgaste com o governo do PS foi tão grande que o candidato de Hollande, Manuel Valls foi derrotado nas primárias do partido para um novato: Benoît Hamon. A vitória de Hamon dividiu o PS: boa parte dos deputados e líderes do partido estão apoiando Macron e não o candidato do PS. Essa ruptura massiva e a passagem de boa parte dos dirigentes do PS para o lado do social-liberalismo é o que explica a fraqueza da candidatura Hamon, que amarga o 5º lugar com 7% das intenções de voto.

    Ao mesmo tempo este processo ajuda a entender a alta de Mélenchon. Ele é o candidato que afirmou que irá revogar a reforma trabalhista, reestabelecer a aposentadoria aos 60 anos e tem o apoio de diversos dirigentes sindicais que estiveram a frente das últimas mobilizações.

    A esquerda anticapitalista presente, porém fraca

    A esquerda anticapitalista, que defende um processo de transformação radical, tem dois candidatos: Philippe Poutou do Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA) e Nathalie Arthaud do Lutte Ouvrière (LO). Apesar de Poutou conseguir alguma projeção, depois do debate do último dia 4 de abril sua intenção de voto é de 1,5%. Isso significa pouca diferença em relação às eleições de 2012 (1,15%) e muito longe do que a LCR, partido predecessor do NPA, havia obtido nas eleições de 2007 (4,25%). O mesmo para Arthaud que tem 0,5% de intenção dos votos. Assim repete o resultado das eleições de 2012 (0,56%), porém muito longe dos 5,72% obtidos pela candidata Arlette Languiller da LO, em 2002.

    A explicação da queda da influência eleitoral da esquerda anticapitalista se deve, desde o ponto de vista de uma revolução social e política, aos limites da radicalidade das lutas anti-capitalistas; e desde o ponto de vista tático, se deve, principalmente, ao crescimento de Mélenchon: em 2002 e 2007, o espaço à esquerda do PS foi ocupado pela esquerda anti-capitalista e também pelo Partido Comunista Francês (PCF). Com o surgimento de Mélenchon, ex-senador do PS, essa extrema esquerda perdeu bastante espaço e terá uma votação bastante reduzida.

    Imprevisibilidade e voto útil

    Essas seis questões acima apontadas são tendências que cruzam a atual disputa eleitoral que até às vésperas segue indefinida. Como as distintas candidaturas vão capitalizar cada uma dessas tendências nestes últimos minutos é impossível de se prever. Neste sentido, o voto útil que permitiria a vitória entre esquerda e direita sem dúvida poderá jogar um papel decisivo.

  • Michel Lowy: entrevista sobre o primeiro turno das eleições na França

    Publicamos a entrevista realizada pelo site Subverta.org  com Michel Löwy, às vésperas das eleições francesas, que serão realizadas neste domingo, com um resultado completamente indefinido em relação a quais candidatos irão para o segundo turno. Como explica o site, “Löwy, nascido no Brasil, formado na USP e hoje radicado na França, é uma referência importante nas ciências sociais e um militante do ecossocialismo, tendo contribuído para a história da luta emancipatória no Brasil, na França(…)”. (Editoria Internacional)

    Subverta: Agradecemos desde já a disponibilidade de conceder esta entrevista para o subverta.org. O que está em jogo, que você destacaria, nas eleições francesas? Você poderia nos descrever, brevemente, cada uma das candidaturas?

    Muito brevemente: da direita para a esquerda. Temos uma candidata da extrema direita,  racista,  xenofóbica,  com traços autoritários e um passado fascista: Marine Le Pen.  Um candidato da direita “tradicional”, ultra-reacionário, neoliberal fanático e católico fundamentalista: François Fillon. Um candidato do “extremo centro”, ex-ministro de François Hollande, antigo banqueiro, homem do capital financeiro e do neoliberalismo: Emmanuel Macron. Um candidato social-democrata de esquerda, Benoit Hamon, com boas intenções mas prisioneiro do aparelho de seu partido (PS). Um candidato da esquerda radical,  anti-neoliberal, com um discurso nacionalista de esquerda: Jean-Luc Mélanchon. Uma candidata trotskista, do partido Lutte Ouvrière, a professora Nathalie Arthaud. E um candidato operário, anti-capitalista, anti-institucional: Philippe Poutou. Estes dois últimos são bem próximos sobre questões sociais mas Poutou inclui no seu programa a ecologia e o feminismo. Há outros candidatos pequenos, mas sem importância.

    As sondagens atribuem uns 23% à Le Pen e Macron, uns 20% à Mélenchon e Fillon,  menos de 10% à Hamon, e cerca de 1% à Arthaud e Poutou. Marine Le Pen muito provavelmente irá ao segundo turno. Seu adversário pode ser Macron, Mélenchon ou Fillon. Os três ganhariam dela no segundo turno. Fillon com menor margem devido a seus problemas com a justiça (corrupção!). Esta é a primeira eleição desde 1969 em que a social-democracia e a direita “republicana” não estão na frente, e também a primeira em que a esquerda radical ganha de longe da social-democracia.

    Subverta: A esquerda mundial tinha poucas esperanças nas eleições francesas, inclusive com possibilidades reais de eleição de Marine Le Pen e sua Frente Nacional. No entanto, criou-se uma grande expectativa acerca do crescimento e da possibilidade eleitoral de Mélenchon no pleito. Existe motivos para entusiasmo? Mélenchon se propõe a algum tipo de ruptura com a burguesia ou faria um governo de conciliação de classes? Qual seria o potencial desta construção para ampliar a mobilização da classe e capitanear um processo de mudanças no país?

    Mélenchon sem dúvidas conseguiu suscitar um amplo movimento de apoio popular entusiasta.  É um personagem complexo, com muitas qualidades e grandes defeitos.  Entre as qualidades:  uma ruptura com o neoliberalismo, uma dura crítica ao social-liberalismo  (Hollande) e à política reacionária da União Europeia, um programa avançado de reformas “keynesianas de esquerda”, uma proposta de “planificação ecológica”.  E os defeitos:  nacionalismo francês – por exemplo, substituiu a Internacional pela Marselhesa e a bandeira vermelha pela tricolor – defesa da arma nuclear e da indústria militar francesa; estilo personalista, apresentando-se como salvador da pátria acima dos partidos; discurso “populista” se proclamando porta-voz do “povo” e não dos trabalhadores.  

    A burguesia francesa, as forças de direita e do centro, os sociais-liberais (Hollande),  a mídia, detestam Mélanchon. O acusam de Jacobino, Chavista, e mesmo “revolucionário comunista”. As duas primeiras caracterizações são acertadas, a última (infelizmente) não…

    Mélenchon se separou da Frente de Esquerda que o havia apoiado em 2012 e criou um movimento, França Insubmissa,  unicamente em torno de sua pessôa. Mas os partidos da Frente de Esquerda acabaram o apoiando, inclusive o PC Francês e “Ensemble!” (Juntos), onde se encontram muitos companheiros simpatizantes da Quarta (que saíram do NPA há alguns anos).

    Não se pode excluir que Mélanchon vá ao segundo turno e neste caso ganhe as eleições, embora não seja a variável mais provável. É difícil prever o que faria no governo,  que compromissos faria para ter uma maioria no Parlamento, que concessões faria à União Europeia etc. Mas sem dúvida seria uma virada política importante na França e na Europa.

    Subverta: De onde vem a força da esquerda radical? Há um processo mais amplo d/e lutas e mobilizações que escoram as candidaturas radicais? Quais grupos sociais sustentam as candidaturas de Philippe Poutou e Jean-Luc Mélenchon?

    Houve, no ano passado, uma grande mobilização social com greves e massivas manifestações de rua, ocupações de empresas  etc., contra a “Lei Trabalho” neoliberal do governo Hollande-Valls. Apesar de ter a simpatia da grande maioria da população, o movimento foi derrotado. O apoio à Mélenchon é a expressão política da decepção com Hollande e da raiva de amplos setores populares contra o social-liberalismo. O apoio à Mélenchon vem de várias camadas mas ele é popular sobretudo na juventude.

    Philippe Poutou,  o candidato do Novo Partido Anticapitalista –  que eu estou apoiando – é o único com um programa claramente anticapitalista, internacionalista,  feminista e ecossocialista. Ele  conseguiu se tornar bastante popular graças à um debate na televisão com os outros candidatos no qual ele foi o único a atacar o capitalismo e a denunciar o envolvimento com corrupção dos candidatos de direita  (Fillon e Le Pen). Há muita simpatia entre operários e juventude por Poutou, mas é pouco provável que isto se traduza num voto significativo nas eleições.

    Subverta: Enfrentamos no Brasil uma grande crise institucional que tem como um de seus eixos principais o sistema político e o método de financiamento eleitoral, com graves denúncias acerca de recebimento de propinas não contabilizadas para candidatos da ordem que defendem os interesses de empreiteiras, bancos e grandes empresas. Como se dá o financiamento eleitoral na França? Considerando que um dos quatro candidatos com chances reais de eleição é um ex-banqueiro, de que forma a sociedade francesa enxerga essa situação?

    O sistema eleitoral na França tem uma qualidade  “republicana”,  conquista de muitas lutas: cada candidato tem direito a um cartaz eleitoral na entrada dos centros de votação, e um tempo de participação na mídia igual. Se o candidato tiver um mínimo de 3% dos votos, o Estado subvenciona sua campanha eleitoral.

    Macron, o banqueiro candidato, que defende o capital financeiro, conseguiu se projetar, menos por ter mais despesas do que os outros, mas porque conseguiu projetar uma imagem falsa e superficial de “modernidade”, “progresso”, “juventude”, “acima dos partidos”, “nem de esquerda nem de direita”. O apoio dele vem também do argumento que ele é quem tem mais chances de derrotar Marine Le Pen no segundo turno.

    Subverta: Como a pauta ecológica aparece na eleição francesa? Que candidaturas, em alguma medida, enfatizam os temas ambientais e com qual abordagem? O debate sobre o ecossocialismo tem conseguido chegar ao debate eleitoral?

    O único candidato que fala em ecossocialismo é o Poutou, embora não seja um tema central de sua campanha. Tanto Mélanchon como Hamon dão bastante peso à ecologia mas não falam de socialismo… Mélanchon, há uns três anos atrás, publicou um Manifesto ecossocialista, mas nesta campanha a palavra “socialismo” sumiu… Os candidatos de direita ignoram a ecologia. O Partido Verde decidiu retirar seu candidato e apoiar Hamon, com o qual assinaram um programa com medidas ecológicas avançadas.

    Subverta: A União Européia está completa e irreversivelmente tomada pelo neoliberalismo? Qual é a abordagem que as candidaturas fazem desse tema?

    Marine Le Pen denuncia a Europa em nome do nacionalismo francês, e da luta contra a imigração estrangeira. Fillon e Macron defendem sem restrições a União europeia neoliberal. Mélenchon critica duramente as políticas neoliberais da União Europeia e propõe renegociar os tratados europeus, com a ameaça de uma saída da França. Poutou – e também Nathalie Arthaud –  rejeitam a União Europeia neoliberal mas com uma posição internacionalista. Poutou propõe lutar junto com os trabalhadores dos outros países por uma outra Europa, social e ecológica.

    Subverta: Quando países como Grécia e Espanha trouxeram para os holofotes o debate da resistência à Troika e a saída pela esquerda da União Europeia houve um grande apoio da esquerda mundial. No entanto, após o rompimento majoritariamente conservador no Reino Unido (Brexit), existe espaço para rediscutir este tema de uma perspectiva de esquerda?

    A grande maioria da esquerda radical na Espanha, em Portugal e na Grécia não está propondo, no momento, a “saída pela esquerda” da União Europeia, embora não exclua esta possibilidade. Esta é também, com alguns matizes, a posição de

    Subverta: O vendaval que empurra o anjo de Klee, na imagem do Walter Benjamin, parece que retomou força total. O que tens pensado sobre a escalada bélica, os enormes contingentes de refugiados e a reconstrução dos nacionalismos, com um ponto de apoio importante com a eleição de Trump? A França parece estar cada vez mais implicada, não?

    Com efeito, a conjuntura tem favorecido a extrema direita nacionalista, xenófoba,  racista, que já governa em alguns países europeus como a Hungria e tem muita força na maioria dos outros. As exceções são os países periféricos: Grécia, Espanha e Portugal;  onde a extrema direita é fraca e a esquerda radical mobiliza o protesto anti-neoliberal. E na Inglaterra, apesar da vitória dos conservadores, o apoio da juventude e dos sindicalistas à Jeremy Corbyn é uma elemento de esperança. Para parafrasear Walter Benjamin: cada segundo é a porta estreita pela qual pode surgir à revolução…

     

  • 80 anos do massacre de Guernica

    Por: Lucas Fogaça, de Porto Alegre, RS.

    Em 26 de Abril de 1937 em meio a guerra civil espanhola a pequena cidade de Guernica no País Basco foi alvo de um imenso bombardeio. O bombardeio foi realizado pela Legião Condor – grupo aéreo especial da aviação nazista – em acordo com o governo nacionalista espanhol de Franco e a Legião de Aviação Fascista Italiana (em tradução livre) de Mussolini. O ataque foi uma variante aérea da tática conhecida como Blitzkrieg. A ação conhecida como Blitzkrieg ainda estava sendo pensada e desenvolvida e foi testada pela primeira vez na Guerra Civil Espanhola, mas seria largamente utilizada pelas forças armadas nazistas durante a 2ª Guerra Mundial.

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    O bombardeio nazista em Guernica despejou entre 40 e 50 toneladas de bombas com alto conteúdo explosivo e incendiário numa ação que recebeu o nome de “Operação Rugen” e levou a destruição da cidade que contava com 5 ou 7 mil habitantes. Até hoje pairam dúvidas sobre quantos mortos. O Governo Basco reportou na época 1654, em sua maioria civis. O massacre ganharia repercussão mundial e hoje é muito lembrado em razão da obra Guernica, homenagem do pintor Pablo Picasso às vítimas.

     

    Por que Hitler, Franco e Mussolini bombardearam Guernica?

    Há duas hipóteses. A primeira sustentada por exemplo pelo professor norte americano James Corum da Escola Aérea de Guerra das Forças Armadas dos EUA (1). Ele afirma que “Guernica tinha uma ponte e uma importante rodovia que era vital para a movimentação dos mais de 23 batalhões bascos localizados à leste de Guernica e próximas de Bilbao.” Para ele o ataque de Guernica tinha um cunho essencialmente militar. A outra hipótese é que fosse uma ação de propaganda de guerra já que 50 toneladas de explosivos numa cidade de pouco mais de 5 mil habitantes é algo desproporcional. E Franco queria e precisava de uma solução rápida para tomar o governo da região e desencorajar o povo basco.

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    O ataque poderia ser também uma combinação das duas hipóteses , difícil saber. De qualquer forma, o episódio foi amplamente utilizado pelo governo nazista alemão como propaganda de sua superioridade militar e da vitória eminente de Franco e do fascismo contra o que chamava de marxismo (incluindo aí todos os opositores ao fascismo espanhol, não só os marxistas). O então chefe da força aérea nazista Hermann Göring anos mais tarde durante os processos de Nuremberg afirmaria (2)

    Eu tentei convencer ele (Adolf Hitler) de apoiar Franco sob quaisquer circunstâncias. Em primeiro lugar para prevenir a propagação do comunismo naquela região. Depois para testar minha jovem Luftwaffe (Força Aérea Nazista) nessa oportunidade”.

    Propaganda na guerra

    A questão da propaganda é decisiva na luta de classes. E não diminui quando a luta de classes ganha contornos militares. Foi o general prussiano Carl von Clausewitz que formulou a célebre frase apropriada pelo marxismo revolucionário “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Trata-se de combinar ações militares com ações de propaganda, estimulando o medo ou mesmo a coragem dos soldados em romper com seus chefes nas forças inimigas e aumentando a moral das tropas aliadas. Em resumo, mesmo em condições de enfrentamento militar segue necessário investir muita energia em explicar, persuadir, convencer. Essa é uma lição muita válida para os dias atuais aqui no Brasil, em que mesmo sem enfrentamento militar uma parte abundante da esquerda investe pouco ou nada de seu tempo e energia militante buscando explicar e convencer a classe trabalhadora.

    O recentes ataques de Trump no Oriente Médio reacendem as discussões sobre a intervenção imperialista na região. Uma parte da discussão é qual o real objetivo de Trump. No dia 6 de abril foram 59 mísseis lançados contra uma base militar na Síria. Este ataque matou 6 ou 7 pessoas, mas deixou a pista de pouso e vários aviões intactos. No dia 13 de abril os EUA lançaram pela primeira vez a MOAB apelidada de Mãe de Todas as Bombas. Com 10 toneladas é o explosivo não nuclear mais poderoso dos EUA. Atingiu o leste do Afeganistão matando segundo o governo norte-americano 36 membros do Estado Islâmico.

    Parece existir uma desproporção entre o tamanho dos ataques e os resultados militares. Se afastarmos a possibilidade dos yankees quererem causar um estrago maior mas que tiveram fracasso, podemos talvez pensar que essas duas ações militares tenham cunho essencialmente de propaganda. O governo Trump enviando uma mensagem ao mundo, sobretudo à Coreia do Norte, China e Rússia de que está disposto a ir muito mais longe do que Obama. E que os EUA seguem sendo a maior potência militar do planeta. É também uma forma de erguer sua influência dentro dos EUA encurralando os opositores democratas e até republicanos, que apoiaram suas ações. Trump até então era o governo mais impopular em início de mandato da história dos EUA. E também importante é servir como lobista das empresas norte americanas no mercado mundial bélico. As ações das empresas de equipamentos militares subiram na bolsa de valores após os ataques na Síria e Afeganistão.

    Lembrar Guernica

    Lembramos Guernica para não esquecer dos massacrados, mortos e mutilados. Lembramos Guernica para lembrar do que a burguesia é capaz de fazer para salvar o capitalismo. Nas horas decisivas não há meias medidas. Não importa a lei. Não importa o que diz a Constituição, o Judiciário, o Parlamento e o Executivo. Se for preciso e a burguesia conseguir, ela passa como um trator pela democracia eleitoral. Lembramos Guernica porque não temos o privilégio de abdicar da violência para derrotar o capitalismo. A burguesia avançará sobre nós com tanques e aviões. E nós teremos de responder.
    1 – Corum, James S. «Inflated by Air Common Perceptions of Civilian Casualties from Bombing (.pdf)» (PDF). Thesis. Maxwell Air Force Base, Alabama: Air War College. Air University. p. 10. Consultado em 15 de abril de 2017.
    2 – See Testimony of Göring, Trial of the Major War Criminals, International Military Tribunal, Nuremberg, November 14, – October 1, 1946, Volume IX. Available via Avalon Project. NOTE: Frequently misquoted along the lines of: “The Spanish Civil War gave me an opportunity to put my young air force to the test, and a means for my men to gain experience.” or other permutations.

     

  • Nathalie Arthaud, candidata de Lutte Ouvrière

    Por: Editoria Internacional

    Nathalie Arthaud é a candidata presidencial de Lutte Ouvrière (Luta Operária). Ela é professora universitária na região metropolitana de Paris. Desde 2007, é a principal figura pública da organização. Disputa sua segunda eleição presidencial. Em 2012, obteve 0,56%, pouco mais de 200 mil votos. Em sua campanha, Nathalie Arthaud se apresenta como a “única candidata comunista”.

    A entrevista que transcrevemos foi produzida por estudantes do Centre de Formation des Journalistes (CFJ). Como é uma transcrição da entrevista, a tradução foi tanto da língua, como da oralidade presente no vídeo, a partir do qual adaptamos algumas frases.

    (…) Quem é você, Nathalie Arthaud?

    É verdade que Lutte Ouvrière é principalmente um símbolo. Pode ser que se lembrem ainda de Arlette Laguiller pois ela encarnou verdadeiramente nossa corrente, ela é bem mais conhecida do que eu, ela se apresentou em seis campanhas presidenciais e para aqueles que são um pouco mais velhos, penso que ela representa bastante claramente nossa organização, que é efetivamente uma pequena corrente, é uma pequena organização, nós somos minoritários. Ao mesmo tempo, nós estamos presentes em numerosas empresas onde difundimos um panfleto por empresa a cada quinze dias, portanto nós somos bastante conhecidos no meio operário.

    Qual livro te formou politicamente?

    Eu escolhi um poema de Jacques Prévert. Eu não posso dizer que ele me formou, mas sua irreverência, seu anticonformismo, sua proximidade com o mundo operário, com os de baixo, me tocou profundamente. Eu tenho decorado o poema “O tempo perdido”, que é um operário que está entrando na fábrica e para: “Diante da porta da fábrica / O trabalhador súbito para / O dia lindo o puxa pela roupa / E como ele se volta / E olha o sol / Tão rubro tão redondo / Sorrindo no seu céu de chumbo / Dá uma piscada / Familiar / Diz então, camarada Sol / Não achas que é / Uma grande idiotice / Dar um dia como este / A um patrão? ” Eu compartilho frequentemente este sentimento de não querer ir trabalhar quando faz sol e de querer desfrutá-lo. (…)

    Se você fosse presidente durante uma hora, qual medida você adotaria?

    Isso é completamente uma ficção científica, portanto, minha política consistiria em chamar aos trabalhadores para pedir para se reunirem em todos os lugares, nas empresas privadas ou públicas, e fazer a exigência de quais empregos criar, porque a realidade é que hoje podemos amplamente repartir o trabalho e isto é uma necessidade para todos aqueles que tem um trabalho e para todos os que sonham em ter um.

    Após duas presidências de Nathalie Arthaud, ao que se pareceria a França?

    Eu não imagino chegar no poder, de toda maneira eu vejo isto de forma coletiva, sem um levante, sem uma explosão social e uma mobilização e eu posso te dizer que, neste contexto, não há necessidade de dez ou vinte anos para transformar a sociedade. De fato, em alguns meses podemos transformar boa parte das coisas. Se eu sou revolucionária e se eu quero mudar a sociedade é porque essa sociedade capitalista é ultraviolenta, é a violência social das desigualdades, é o fato de ver hoje essas riquezas acumuladas de um lado, as extravagâncias, este incrível luxo e do outro lado, as mulheres e os homens que dormem na rua. Essa é uma violência: olhar pessoas condenadas ao desemprego e a miséria, é uma violência. Destrói tudo, é então uma desumanização. Eu moro em Seine-Saint-Denis, eu trabalho em Aubervilliers [regiões da periferia de Paris], eu vejo a miséria, a violência cotidiana nas relações humanas também e, em seguida, há a violência física ainda, a violência das armas. Esta sociedade capitalista carrega a guerra em seu seio. E, ao mesmo tempo, eu não sou ingênua. Eu sei que aqueles que hoje dominam utilizam a violência contra aqueles que se revoltam. Essa é a realidade. Portanto, eu digo aos trabalhadores que no dia em que haja revoltas, seremos confrontados à violência do Estado, seremos confrontados ao exército. Eu estou convencida que deveremos enfrentar isto. É necessário saber e estar pronto a dizer que se é necessário mudar esta sociedade, será necessário enfrentá-la.

    Entre essas três medidas dos outros candidatos, qual você adotaria: renda universal, o desarmamento da polícia ou o sorteio na política?

    Uau!…. francamente nenhuma… para mim, é necessário lutar pelo emprego universal, isto é, o acesso ao emprego. Um emprego não é somente um salário, é também a dignidade, é também participar na vida coletiva, estar integrado a sociedade. Hoje, nesta economia, há 250 multinacionais que concentram o essencial da atividade: um terço da atividade econômica, a metade das exportações, dos investimentos e que dominam as pequenas empresas. Para mim, o que eu quero é que esses Conselhos de Administração, que são compostos atualmente pela grande burguesia, aqueles que ganham os capitais, ou seus representantes, sejam compostos pelos trabalhadores desses grandes grupos, pela população e pelos consumidores, daí poderemos fazer o sorteio de quem dirigirá a empresa.

    Entre essas três tendências, qual te preocupa mais: a uberização, as informações identitárias ou a abstenção?

    As afirmações identitárias. Para mim, existe uma ascensão de ideias reacionárias extremamente preocupante. É a expressão de uma marcha-ré bastante grave. Meu combate é dizer que nossa identidade é a de pertencer a classe dos explorados, é de sermos trabalhadores. Temos diferenças, claro, diferenças de sexo, temos homens, mulheres, mas para além dessas diferenças, estamos todos no mesmo barco, temos um destino comum, um destino comum de trabalhadores para enfrentar esse poder, efetivamente, a esta ditadura que se impõe acima de nós, esse poder do capital. Meu combate é dizer que “temos uma identidade comum fundamental” pela qual devemos lutar coletivamente e se lutamos por ela, encontraremos o caminho para o progresso de todos. Seguramente, não é se fechando em comunidades, erguendo muros entre nós – já existem fronteiras: fronteiras nacionais, geográficas, elas são artificiais, mas eles querem implantar-nos mais uma fronteira em nossas cabeças. É necessário não aceitar isso. Desde que eu tenho 15 anos, lembro-me bem de dizer, frente as informações televisivas, frente aquelas crianças que morriam na Etiópia, houve uma grande fome na Etiópia em 1986, eu lembro de me dizer: “o que fez com que eu não nascesce nesse país? Que sorte foi essa?” Desde que eu tenho um pouco de consciência, eu sempre senti que eu fazia parte da humanidade. Portanto, meu combate é que tenha novamente jovens e pessoas mais novas que digam: “minha pátria é a humanidade”. E isto é um combate fundamental.

    Qual figura histórica te inspirou?

    Poderia ser Robespierre. É um revolucionário que permitiu à Revolução francesa avançar e não recuar. Ele teve a audácia de se apoiar sobre a energia revolucionária dos – sans-culottes, para que a Revolução não fosse estrangulada simplesmente. E Robespierre não é somente a guilhotina, é também a limitação dos preços, é também permitir a população de sobreviver num momento que ela estava faminta, sitiada, etc. Isso permitiu à Revolução viver, em primeiro lugar. Meu campo é dos oprimidos que tentam mudar seus destinos e de transformar a sociedade. E, eu penso efetivamente, que com Robespierre, a Revolução virou uma página importante, que ela liberou os oprimidos. Caso contrário, tudo teria que ser refeito. Para mim, isto faz parte dos momentos importantes que puseram fim a nobreza – agora há uma outra, que é evidentemente a grande burguesia. Eu sou, com certeza, solidária aos revolucionários.

    Pelo que você gostaria de ser lembrada?

    Eu gostaria que se lembrasse de mim como participante das grandes mobilizações, de grandes lutas que ajudou a mudar as condições de vida dos operários.

  • Gilbert Achcar: O “incrivelmente pequeno” ataque de Donald Trump à Síria

    Artigo publicado no site Jadalyyya no dia 10/04/2017

    Gilbert Achcar

    Poucas vezes um ataque americano tão limitado, como aquele feito por mísseis Tomahawk à base aérea síria de Shayrat, causou tanto barulho. Donald Trump autorizou o ataque na tarde da terça-feira, 6 de abril, pouco antes de jantar com Xi Jinping, chefe de estado chinês, em seu próprio condomínio em Mar-a-Lago, na Florida. Tudo indica ter sido a opção mínima que Barak Obama projetou quando o regime sírio cruzou sua “linha vermelha” em agosto de 2013. Em uma de suas memoráveis declarações, John Kerry descreveu tal opção como “muito limitada, muito focada, de muito curto prazo”, e que seria “incrivelmente pequena”.

     

    Que o Pentágono tenha se utilizado deste velho plano corrobora com a declaração do Ministério da Defesa russo, cujo porta-voz descreveu o bombardeio nos seguintes termos: “No dia 7 de abril, entre 3.42 e 3.56 (Horário de Moscou), dois destróieres da marinha dos EUA (USS Ross e USS Porter) fizeram um ataque massivo com 59 mísseis Tomahawk lançados de área próxima à Ilha de Creta (Mar do Mediterrâneo) contra a base aérea de Shayrat (província de Homs). Segundo o monitoramento objetivo de dados, 23 mísseis atingiram a base aérea… portanto, a eficiência de combate do ataque à base aérea foi extremamente baixa. Hoje é óbvio que o ataque massivo de mísseis foi planejado longamente antes deste evento. É necessário [normalmente, anterior ao ataque] a condução de operações de reconhecimento de território, para planejar e preparar os caminhos da trajetória do míssil, e entrar em alerta total de combate. Está claro para qualquer especialista que a decisão de atacar a Síria foi tomada muito antes dos eventos em Khan Sheikhoun, que se tornaram apenas uma razão formal para o ataque. A utilização de poder militar deu-se apenas por preocupações de política doméstica.”

    O ataque foi tão “incrivelmente pequeno” e sua força destrutiva tão limitada que a força aérea síria retomou os bombardeios a Khan Sheikhun no dia seguinte, enquanto se iniciavam os reparos na base aérea de Shayrat. Ao contrário de intermináveis falas sobre o milagre que teria ocorrido caso Barak Obama tivesse aplicado um ataque similar em 2013, o mais provável é que ele não teria mudado muito o curso da guerra síria. Apenas um ataque em escala muito maior poderia ter gerado pânico nas fileiras do regime Assad. Tivesse o ex-presidente aplicado sua “linha vermelha” em 2013 com um ataque “muito limitado”, assim como aquele lançado por Trump, poderia no máximo ter impedido as mortes por armas químicas das oitenta e seis vítimas em Khan Sheikhoun – de um universo marcado por quase meio milhão de sírios mortos por armas “convencionais” desde o início da guerra.

    A “linha vermelha” de Obama, por si só, era profundamente imoral. Era como dizer: “mate o quanto quiser com armas convencionais, mas não utilize armas químicas que podem se espalhar para o outro lado da fronteira.” Segundo afirmação de Obama dia 20 de agosto, tais armas foram proibidas por serem ”um tema que não remete apenas a Síria; é preocupação de nossos aliados mais próximos na região, incluindo Israel.” Quanto às lágrimas de crocodilo de Trump pelos “belos bebês” massacrados por bombas de gás, elas são inacreditavelmente hipócritas. Seria bastante difícil acreditar que o presidente americano anteriormente não tivesse visto bebês sírios mortos e mutilados na Fox News, canal que ele considera a única “fonte segura” de informação. Sua autorização ao ataque “incrivelmente pequeno” elaborado por seu antecessor foi tudo menos um ato espontâneo de indignação moral. Apressado militarmente, o ataque foi uma decisão política bem pensada. Seu impacto foi de fato inacreditavelmente grande. Luke Harding resumiu de forma sagaz seus efeitos, no jornal Guardian:

    Para a Casa Branca, a terceira-feira trouxe óbvios lucros. Depois de um período caótico, em que o governo se encontrava sob pressão por suas supostas relações com o Kremlin, o noticiário girou de forma decisiva. Por meses, Trump tinha sido incapaz de livrar-se das acusações que havia se articulado com Putin antes das eleições americanas. Agora o presidente agia publicamente contra os interesses estratégicos da Rússia. Ou pelos menos faz parecer.”

    Alguns de seus críticos republicanos mais duros – como os senadores John McCain e Lindsey Graham – aplaudiram as ações. Horas antes do ataque, Hillary Clinton dizia que apoiava a intervenção. As pesquisas indicavam que Trump possuía aprovação negativa recorde. Imagina-se que ela agora irá subir.

     Porém há muito mais nesta história que “preocupações de política doméstica”, como o porta-voz militar russo havia mencionado. O ataque a Shayrat é, na verdade, o primeiro disparo na estratégia global de Trump. Ela se encaixa perfeitamente na doutrina de política externa que Josh Rogin resumiu bem no Washington Post do dia 19 de março, dias antes do ataque a Shayat, com o lema “escalada para uma desescalada”. Seu artigo merece atenção pois pode servir como pano de fundo para compreendermos as semanas por vir. O ataque a Shayrat pode ser a escalada que era indispensável para a já propagandeada desescalada com a Rússia e acomodação com Bashar Al Assad, enquanto ao mesmo tempo pode ser visto como mensagem ao Irã, taxado de arqui-inimigo pelo governo Trump.

     

    Tendo ocorrido no jantar com Xi Jinping, ele também era – provavelmente acima de tudo – uma mensagem à China e à Coreia do Norte. Trump, que havia ridicularizado a “linha vermelha” na Síria, desenhou sua própria demarcação com a Coreia do Norte ao “notificar” Pyongyang no início de janeiro, antes mesmo de sua posse presidencial. Portanto, o ataque a Shayrat pode muito bem ter sido uma amostra em um alvo mais fácil da disposição de Trump para atacar a Coreia do Norte, caso o país venha a desenvolver seu míssil balístico intercontinental: a mensagem para Xi Jinping não deve ter passado desapercebida.

    Qualquer um que acredite que o ataque a Shayrat era prova de que Trump moveu-se por sentimentos humanos, e afinal das contas emitiu sinais de uma melhora na política externa norte-americana, precisa repensar seus parâmetros. Este novo ataque deve ser visto como razão seríssima adicional para preocupações profundas sobre o comportamento errático do novo governo no mundo.

     

  • Philippe Poutou: ‘As eleições não mudam a vida, são necessárias lutas sociais’

    Por: Editorial Internacional

    Philippe Poutou, operário da Ford de Blanquefort, é o candidato do Novo Partido Anticapitalista (NPA) na França. Militante sindical, representante da CGT em sua região, iniciou sua militância no movimento estudantil nos anos 1980. Militou por dois anos no Lutte Ouvrière (Luta Operária), entre 1995-97, e somente em 2000 entrou na Liga Comunista Revolucionária (LCR), organização trotskista predecessora do NPA. Ele disputa as eleições pela segunda vez – em 2012 teve 1,15% dos votos (411 mil votos).

    Poutou estava passando desapercebido, boicotado pela mídia, porém depois do debate na televisão, no último 4 de abril, com a presença dos 11 candidatos presidenciais, sua candidatura conseguiu um maior espaço de divulgação. Principalmente por suas tiradas contra Marine Le Pen, candidata da extrema direita, e François Fillon, candidato da direita conservadora.

    Divulgamos, abaixo, entrevista realizada por Aurélie Delmas e publicada no jornal Libération no último dia 13.
    Ver no link

    Liberation: Você teve 1,15% dos votos em 2012. Você não tem a intenção de tornar-se chefe de Estado e quer mesmo suprimir a presidência da República. Por que você é candidato?

    Não é porque você não está de acordo com o funcionamento da sociedade que não deve estar ali quando há um compromisso político. Pois há um fracasso total de todas as ideias e de todas as políticas liberais, com as quais nós temos um profundo desacordo, e consideramos legítimo que outras ideias sejam defendidas. Nós desejamos que as pessoas façam a política por elas mesmas, que elas tenham confiança na sua força coletiva. A história mostra: sem luta social, sem intervenção da população, sem relação de forças entre os campos sociais, nada muda de verdade. A imagem é a de “retomar as ruas”, mas é necessário também retomar o controle sobre a economia e, portanto, das empresas e dos bancos. Não há nenhuma razão de submeter-se e calar-se. Por que a redução do tempo de trabalho e a proibição das demissões estariam fora do debate? Isso é tão importante quanto o resto! Nós temos todas as razões para participar e para defender uma outra maneira de enxergar a sociedade.

    Liberation: Você marcou o debate, o New York Times chegou a escrever que você “explodiu a bolha política francesa”. Você conseguiu ser escutado?

    É fabuloso, mesmo em relação ao fim da campanha de 2012, quando nós pudemos ser um pouco escutados. Eu vi que há hostilidade e raiva nos tweets. Mas na rua, felizmente, eu me saí bem. As pessoas vêm nos dizer “obrigado” ou “bravo, é necessário continuar”. O fato de ter dito na cara de Fillon e Le Pen, ao vivo na TV, nos permite ver que há uma verdadeira cólera e uma satisfação de ter dito aquilo que ninguém podia ou não sabia falar.

    Liberation: Suas proposições são escutadas?

    Sim, as pessoas não lembram apenas a imunidade operária. Elas esperam também a solidariedade com a Guiana, o fim das intervenções militares na Síria ou a proibição das demissões, uma ideia que é amplamente aceita porque há mais de 6 milhões de pessoas na merda. Estes não são apenas números, algo está preste a explodir. E isso vai continuar. Esta cólera não vai embora. Nossas ideias e nossa mensagem passam. Gostaríamos que isso se traduzisse em votos, pois pode ser importante ter um discurso anticapitalista um pouco radical que emerja desta eleição e ouvir outra mensagem [diferente] que “Le Pen ao segundo turno”.

    Liberation: Além do NPA, quem são seus eleitores potenciais?

    Militamos em meios mais abstencionistas, ao lado de manifestantes zadistes [que ocupam lugares para barrar projetos empresariais ou governamentais], libertários, em que alguns poderão votar. Além disso, sabemos que podemos desgarrar alguns eleitores da Front National. Isso seria bom, porque há bastantes trabalhadores, desempregados, pessoas que estão na merda que votarão Le Pen. Depois, vemos pessoas que estão diretamente de acordo com o que falamos, mas que vão votar Mélenchon porque ele está numa dinâmica boa e é quem poderia chegar ao segundo turno.

    Liberation: Você disse que Mélenchon não é teu adversário. Sobre quais pontos vocês estão em desacordo?

    Ele não é um adversário porque o meio que vota em Mélenchon são camaradas de luta com quem nos encontraremos amanhã nas batalhas sociais. Temos reivindicações comuns como a redução do tempo de trabalho ou parar as demissões. Mas como obter isto, é hipernebuloso com Jean-Luc Mélenchon. Ele está na linha do PS de Miterrand, na linha de Jospin, ele jamais negou isso. Nos anos 80, ele nos explicou que era necessário calar-se, que era necessário votar pelo PS. Ele diz que é necessário que fiquemos quietos e que é necessário votar por ele. Para nós, as eleições não mudam a vida, são necessárias verdadeiras lutas sociais, é necessário se enfrentar com o sistema capitalista. Além disso, temos um desacordo enorme com ele sobre o aspecto “chauvinista”: as bandeiras azul-branca-vermelha [francesa], não existirão entre nós. Nós não nos endereçamos aos Franceses e às Francesas, mas à população, portanto, também aos imigrantes e estrangeiros. Não podemos estar com Mélenchon desde o primeiro turno, pois queremos falar da liberdade de circulação, da abertura das fronteiras, do acolhimento de todos os imigrantes e da regularização de todos os sem-papéis.

    Liberation: O que diferencia suas propostas das de Nathalie Arthaud?

    Há diferenças programáticas, eu não vou listar, pois elas são fáceis de ver. Isto não é uma novidade, já faz quase quarenta anos que há duas candidaturas da extrema esquerda e isso não é preocupante. Há nove políticos profissionais dos onze candidatos e somente dois trabalhadores e somos nós que deveríamos explicar por que estamos lá?

    Liberation: Em seu programa, a preocupação principal é com o trabalho. Como pensa, por exemplo, proibir as demissões?

    Infelizmente, é o que se destaca, mas a questão ambiental, aquelas do antirracismo, das violências policias ou da igualdade de direitos são tão importantes quanto a questão do emprego. Como proibir as demissões? Da mesma maneira que hoje as demissões são impostas pelo alto, queremos impor o inverso por baixo. Não é mais complicado do que isso. Nós temos o direito de ter nosso próprio emprego e é necessário impedir a remoção dos meios de vida de qualquer pessoa. Se isso parece surpreendente ou anormal, diz bastante sobre a violência da sociedade na qual estamos.

    Liberation: Podemos taxar suas propostas de irrealistas ou utópicas…

    Sim. Mas há cem anos, férias pagas eram completamente utópicas. O progresso social nunca veio do alto. Os patrões jamais falaram: “Mas é claro que é bizarro que as crianças trabalhem”. Na Guiana, deve ter havido muitas pessoas que pensavam que era impossível e utópico. Mas, em determinado momento, a cólera explodiu, se generalizou e a população disse: “Parem, estamos cansados. O desemprego é alto, não há escolas e nem bastantes colégios, nem hospitais, tudo isto não é normal”. Veremos até onde isso pode ir, mas quando a população luta, há possibilidades de desbloqueio.

    Liberation: Por que você não é escutado pelos temas ambientais?

    Por que nós nunca fomos questionados sobre isso. Isto não é porque não me importo ou porque não conheço nada. Eu estive várias vezes em Notre-Dame-des-Landes. Sivens, nós militamos lá. Bure [local de despejo de lixo radioativo a ser construído em Meuse], os camaradas estão militando na ocupação da floresta. Eu posso falar horas sobre o tema, mas não me perguntam sobre: o fim da utilização da energia nuclear, dos gases do efeito estufa, das pesquisas sobre o gás de xisto, do produtivismo na agricultura, fungicidas, fertilizantes, de tudo que é destruidor, sobre todos os temas, que comemos mal e que morremos devido ao que comemos. A questão ambiental está ligada à questão social. Não é justo as árvores que morrem, as florestas que desaparecem, matas que se desvanecem. Há um mundo que está sendo destruído.

    Liberation: Você votou [no segundo turno] por Hollande em 2012. Você já sabe o que vai fazer no segundo turno?

    Não, não sabemos. As sondagens nos anunciam Macron-Le Pen, mas as coisas mudam. Evidentemente, se for Fillon-Le Pen, não votamos; se for Mélenchon-Le Pen, votamos Mélenchon. Mas a batalha contra a extrema direita, não é só no segundo turno das eleições, pode não ser necessário acordar nesse dia… Para o NPA, podemos, ao menos, reivindicar a participação na batalha contra a extrema direita e o racismo ao longo de todo ano.

    Liberation: Vocês apresentarão candidaturas as legislativas?

    Claro. Mas não estaremos presentes em todos os locais. Há candidaturas do movimento social que se somam e nós não nos apresentaremos nesses locais. Há debates com zadistas, com François Ruffin, mas não com Mélenchon.

    Liberation: Você tem notícia da acusação de Fillon contra você?

    Não, nenhuma novidade. Mas acho que não vai prosseguir. Ele já tem uma agenda judiciária bastante carregada.

  • Entrevista com Jean Luc Melènchon, candidato de França Insubmissa à presidência francesa

    Por: Editoria Internacional

    A principal surpresa, nessa última semana da campanha eleitoral francesa é, sem dúvida, Jean Luc Mélenchon, o candidato da France Insoumise (França Insubmissa) com o apoio do Partido Comunista Francês. A chance de Mélenchon chegar ao segundo turno é grande, já que as pesquisas apontam empate técnico entre os quatro primeiros candidatos. Hoje fez um comício em Dijon e a novidade foi que houve uma réplica por holograma em seis outras cidades.

    Mélencho, que foi militante trotskista, da corrente lambertista na França, ministro durante o governo de Lionel Jospin nos anos 1990, rompeu com o PS para formar o Parti de Gauche (Partido de Esquerda) em 2009. Participou nas eleições presidenciais de 2012, ficando em quarto, com 11,1% (quase 4 milhões de votos).

    A entrevista que traduzimos foi realizada com eleitores selecionados pelo jornal Le Parisien. Reproduzimos as principais questões e respostas dadas pelo autor. A entrevista completa pode ser encontrada aqui.

    MARTINE BERTRAND. Eu fui sindicalista durante trinta anos, sempre votei na esquerda e em você em 2012. Porém estou decepcionada com a esquerda. Como você pensa que pode convencer os indecisos como eu para votar em você?

    Jean-Luc Mélenchon. Você diz que está decepcionada com a esquerda…. Mas eu não chamo isso mais de esquerda. No poder, ela se negou, traiu de todas as maneiras possíveis. Desgastaram-se consideravelmente frente a pessoas que sempre lhes deram confiança. Isso gerou uma angústia, um desgosto, e as pessoas não querem mais ir votar. Eu tento virar a página, mas fazendo outra coisa: não juntando os pequenos e os grandes grupos de esquerda, mas organizando o povo. A prova de que não estou errado são as pesquisas que me dão 20% de intenção de votos.

    SOPHIA GHARNOUTI. Você se lamenta de não ter feito aliança com Benoît Hamon?

    Eu estou, sobretudo, bastante contente de não a ter feito! Veja onde ele está…. Benoît Hamon não é a causa, ele é um rapaz interessante e simpático. O problema é o PS. Eu não me sinto capaz de ver e lhes dizer: eu vou apoiá-los, mas numa embalagem diferente.

    MATTHIEU MARCAIRE. Mas não há uma parte de ego na sua recusa?

    Ter saído do PS, organizado a France Insoumise, seria só uma questão de ego? Não, são problemas políticos de fundo: Hamon quer fazer uma maioria presidencial com deputados que votaram o contrário do que está escrito em nosso programa. Eu não posso considerar concebível a revogação da Lei El Khomri com a Ministra El Khomri! Esse governo enganou as pessoas, martirizou os pobres.

    MARTINE BERTRAND. Se no próximo domingo, Macron e Le Pen forem para o segundo turno, você dará uma consigna de voto?

    Isso não vai acontecer. Eu estarei no segundo turno.

    Frente a frente, você quer verdadeiramente ser presidente?

    Essa é uma questão engraçada. Eu não sou da cultura da minoria permanente. Quando eu me apresento numa eleição, é para ganhar. Eu me comporto como um homem que está pronto para governar. Eu conheço bem meus dossiês, se eu for eleito presidente, eu saberia exatamente pelo que começar. Isso nunca esteve tão perto de se realizar, o que seria um acontecimento mundial. Eu escuto ou leio que me retrataram como alguém da extrema esquerda. Se este for o caso, eu pergunto o que é Poutou [candidato do Nova Partido Anticapitalista]…. Não, eu não sou da extrema esquerda.

    ÉRIC ANGIBOUST. Com quem você governará?

    Haverá eleições legislativas e logicamente os franceses me darão uma maioria. Governarei com aqueles que quiserem participar, mas sobre um programa a ser aplicado. Eu tenho o suficiente para montar cinco, seis governos com pessoas de todas as áreas e perfeitamente capazes de dirigir o Estado.

    (…)

    OPÉLIE MENDES. Eu sou estudante, mulher, de uma minoria étnica…

    Que é uma minoria na República?

    Eu sou uma mulher negra, afrodescendente e isso é um obstáculo para conseguir um emprego… O que você pensa em fazer para os jovens diplomados ou sem diploma, precarizados, que buscam um emprego?

    A primeira condição é de retomar a geração de emprego. Quando há trabalho, os pedidos estão cheios e o empregador contrata. Mas é necessário também penalizar o trabalho precário. Encorajá-lo significa reduzir as pessoas à condição de escravos. Eu proibirei os postos precários em todos os lugares onde for possível. No serviço público estatal, eu desejo tornar permanentes todos os contratos precários, notadamente na saúde. No setor privado, eu limitarei o trabalho precário a 5% nas grandes empresas e a 10% nas menores. Enfim, lamento que os jovens sejam obrigados a trabalhar ao mesmo tempo em que estudam. É por isso que implementarei um seguro de autonomia de 800 € para os universitários como teste. Salvo para os jovens, o ensino profissionalizante, de que poderão todos se beneficiar a partir dos 16 anos: eu não aceito mais que a metade da juventude da França que está como aprendiz ou no ensino tecnológico seja mal paga ou trabalhe no domingo ao invés de estudar.

    ANISSA BEKKAÏ. Você irá suprimir a Lei El Khomri ?

    Sim, pois ela destruiu a ordem pública. O acordo de empresa pode revogar o acordo coletivo e a lei trabalhista em condições que ele seja mais favorável. Não deve se deixar tudo para a negociação nas empresas: isso faria com que se tivesse um código de trabalho por empresa. É o que propõem Macron e Fillon. Veja o que se passou na Conti: eles negociaram o rebaixamento dos salários e o aumento da jornada de trabalho. E quando eles tinham chupado muito sangue, eles disseram: fecharemos! Eu digo ainda que a Lei El Khomri contém medidas brutais como o tempo do aviso prévio, que reduz para três dias a mudança dos horários [nos acordos que modificam a jornada de trabalho]. Esta lei retira as mulheres do mercado de trabalho. Ela deve ser revogada.

    ÉRIC ANGIBOUST. Os sindicatos politizados não representam mais que 7% dos trabalhadores. Nós, empresários, não conseguimos discutir com sindicalistas que defendem seus interesses, mas apenas com aqueles que defendem seus mandatos. O que propõem você para melhorar o diálogo social?

    Os sindicalistas são tratados duramente em nosso país. São os únicos que são objetos de condenação à prisão fechada. Sobre a representatividade, o Medef [principal sindicato patronal] sempre fala que eles representam todas as empresas da França, mas isto não é verdadeiro: representam somente 12% das empresas. Não há eleição para validar a representatividade dos patrões. Se eu for eleito, haverá novamente eleições sindicais patronais. Todas as organizações patronais poderão concorrer e aqueles que obtiverem o nível de representatividade poderão assinar as convenções coletivas. O Medef pode dizer adeus a sua onipotência. Eu abolirei sua monarquia.

    DAVID FIÈVRE. Qual é o seu projeto em relação aos impostos?

    Aqueles que ganham menos de 4000 € por mês, verão seus impostos baixar e, evidentemente, aqueles que estão no outro lado, pagarão. Eu criarei 14 níveis de impostos para repartir a arrecadação e parar de jogar tudo sobre as costas da classe média. Sim, eu sou pela redistribuição da riqueza. E ela terá lugar se votarem por mim. Não esperem que eu possa me assustar ou que tremerei a mão no momento de decidir.

    ANISSA BEKKAÏ. Como financiará a aposentadoria aos 60 anos?

    Antes de fazer as contas, é necessário pensar no mecanismo econômico global. Nós temos necessidade de duas vezes menos tempo de trabalho que em 1870 para produzir trinta vezes mais de riquezas. A baixa do tempo de trabalho é um fato objetivo. Devemos reduzir o tempo de trabalho de cada um para trabalharmos todos. É necessário reduzir na semana e eu sou a favor do retorno às 35 horas reais. É necessário reduzir no ano e eu proponho de generalizar a sexta semana de férias pagas pois ela já existe em vários ramos econômicos. E é necessário reduzir o tempo de trabalho na vida. Eu penso que há um momento onde devemos parar de trabalhar e digo que é aos 60 anos. Parar de trabalhar significa parar com o trabalho assalariado, isso não quer dizer que vão parar de fazer tudo, que ficarão trancados em casa. Se ocuparão de seus netos, de seu jardim… ou farão política.

    (…)

    OPÉLIE MENDES. Houve o caso Adama Traoré, o caso Théo… Que pensa fazer contra as violências policiais, que afetam as minorias, da qual eu faço parte?

    Jean-Luc Mélenchon. Eu queria dizer que corta meu coração de ver uma jovem francesa se pensar enquanto uma minoria. Eu estou consciente do que você descreve, mas essa não é minha ideia da França. Suas origens, não é meu tema. Trocamos canções, receitas de cozinha… Ainda você, que deve ser da geração McDo…

    Opélie Mendes (cortando-lhe) : não, eu sou vegetariana, quase vegana!

    Oh diabo, eu poderia não saber (risos)! Quando tinha 20 anos, era trotskista. E eles, veganos! Eles são revolucionários, como nós éramos, pois eles queriam mudar o mundo banindo o sofrimento animal. Mas, voltando a sua questão: os casos de violência que se repetem não podem mais continuar. Há franceses que têm medo da polícia. Nós estamos num grande país, podemos fazer melhor que isto, não? Começamos por nos perguntar por que determinados comportamentos são criminosos, como de enfiar um cassetete no ânus de um jovem. Eu lamento a política absurda dos números. Eu quero dissolver as equipes especiais de terreno, como os BAC (brigadas anti-criminalidade) que estão impregnadas com uma mentalidade de cowboys. Eu quero também estabelecer a polícia de proximidade… você sabe, aqueles guardas da paz que Sarkozy tirou sarro dizendo que eles eram pagos para jogar futebol com os jovens enquanto eles estava lá gratuitamente. Graça ao reforço dos recrutas (NdT: Mélenchon defende o serviço cívico obrigatório), a polícia estará mais junta a população e você verá que as relações não serão mais as mesmas. Enfim, eu eliminarei o controle de identidade por motivos raciais: se você é branco como eu, jamais será enquadrado. Um jovem da periferia será quatro ou cinco vezes, à força, e ele fica furioso. Todo mundo deveria ficar furioso.

    (…)

    DAVID FIÈVRE. Sobre a Europa, você pensa numa saída estúpida como Frexit ou numa reconstrução europeia? E como convencerá os parceiros em modificar as regras?

    Evidentemente que nós temos necessidade da Europa. A construção europeia está na matriz da esquerda há um século. Mas nós somos dirigidos por ideólogos iluminados, num liberalismo absoluto. Todo mundo compreendeu que a Europa estava no caminho do fracasso. Comigo, o governo alemão terá a surpresa da sua vida: eles verão um francês que lhe diz não. Merkel é racional, mas os presidentes franceses não o são. Schäuble (Ministro alemão da Economia) sabe muito bem que eu não sou Alexis Tsipras: não ficarei dezessete horas num escritório com alguém que me insulta. Eu represento a França, vamos, portanto, discutir. Serei o iconoclasta que destrói tudo? A discussão de um novo tratado já está na ordem do dia. Juncker (o presidente da Comissão) fez quatro propostas. Haverá uma a mais: mudar os tratados, criar critérios de convergência pela harmonização social e fiscal. Eu diria que nós somos a segunda potência da Europa e que sem nós, não há Europa. Esta é minha arma. Os alemães não têm nenhum meio de nos dizer não. Os espanhóis, os italianos, os portugueses, os poloneses, toda uma série de países começam a se cansar! Se os alemães não querem mudar, eu digo que o plano B seria sair com aqueles que estão de acordo para fazer uma refundação.

    MATTHIEU MARCAIRE. Você prevê sair da OTAN, de fato da UE, para se juntar à Aliança Bolivariana. Eu não compreendo!

    Está é uma invenção pura e simples, fabricadas por um jornalista que precisa publicar sobre a campanha. De início, nem o Irã, nem a Rússia estão na ALBA (Aliança bolivariana para as Américas). Como se pode tomar a sério um imbecil que fala que deixaríamos a UE para entrar na ALBA? Eu proponho que a França se posicione enquanto nação universal: nós estamos instalados sobre os cinco continentes, nós temos o segundo maior território marítimo do mundo. Então falemos sobre as ações. No Caribe e na América Latina, se perguntamos onde está a França, em particular a Guiana Francesa e as Antilhas. Em nenhuma parte! É uma vergonha! Daí o interesse de entrar na ALBA, uma simples aliança de cooperação. É necessário parar de semear o medo! Os mesmos [jornalistas] não disseram uma palavra quando Hollande participou ao conselho de cooperação do Golfo com a Arábia Saudita e o Catar.

    A Venezuela é um modelo para você? A imprensa, os sindicatos não são respeitados….

    Sim, eu conheço toda a propaganda sobre o tema.

    Se trata de propaganda?

    Sim. Eu não tenho modelo, a França é bastante grande para isso! Porém eu tenho parceiros. Eu discutirei com o diabo se for necessário para o meu país. Essa sempre foi a política de De Gaulle [comandou parte da resistência francesa durante a segunda Guerra e foi presidente do país] e Mitterrand [ex-presidente pelo PS entre 1981-1995]: não discutimos com os regimes, mas com os países. Pouco nos importa quem os dirige.

  • Referendo na Turquia: Erdogan vence, mas país está dividido

    Por Waldo Mermelstein, de São Paulo, SP

    Neste domingo, o referendo convocado na Turquia aprovou alterações profundas na Constituição, que se constituíram numa verdadeira mudança de regime político no país, em direção a um presidencialismo altamente centralizado e com traços bonapartistas. No entanto, o resultado foi apertado – 51% a 49%, especialmente levando em conta a necessidade de legitimidade diante da magnitude das alterações.

    Apoiaram o Sim, o partido do presidente Erdogan, o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), o direitista Partido do Movimento Nacionalista (MHP) e um grupo curdo dissidente. O principal argumento que utilizaram foi o de que eram necessárias para acabar com a instabilidade política e as ameaças representadas pela insurgência curda e pelo autodenominado Estado Islâmico.

    Os principais partidos que propunham votar Não eram o Partido Democrático dos Povos (HDP), pró-curdo, e os republicanos laicos do Partido Republicano do Povo (CHP), aos que se somaram setores muçulmanos, bem como grupos feministas e a central sindical dissidente DISK. As diferenças ideológicas e a divisão sobre o tema curdo, entre outros fatores, resultaram em campanhas separadas pelo Não.

    Um debate antidemocrático
    Como geralmente ocorre, os referendos são determinados por quem faz as perguntas. Além disso, foi realizado sob a vigência do estado de emergência e com grandes restrições ao livre debate. Em vez de outorgar o mesmo tempo para os defensores do Sim e do Não, o tempo de TV foi dividido entre os partidos representados no Parlamento, o que deu maioria folgada para os partidários do Sim. Erdogan também utilizou seu cargo para fazer uma agressiva campanha pela aprovação das medidas.

    Entre os emigrados turcos na Europa (cerca de 5 milhões), o governo fez campanha intensiva, o que é proibido pela lei da Turquia, mas lhe garantiu uma importante diferença, particularmente na Alemanha.

    A maioria dos meios de imprensa de oposição foram fechados pelo governo após a tentativa de golpe do ano passado. Em várias regiões, os partidários do Não foram duramente reprimidos durante a campanha. Somente em Istambul houve alguma condição para os partidários do Não se pronunciarem.

    Em Istambul, que tem cerca de 15 dos 80 milhões de habitantes do país, na capital, Ankara, em Izimr, a terceira cidade do país em termos de população, e nas regiões curdas, o governo perdeu. Foi a primeira derrota do AKP em Istambul e Ankara.

    A oposição acusa fraudes na votação e pediu a sua anulação. Em particular, reclamou das cédulas sem o carimbo da Alta Autoridade Eleitoral, responsável por supervisionar o referendo.

    O que muda com o referendo
    As principais alterações aprovadas significam uma verdadeira mudança no regime parlamentar em direção a uma presidência fortemente centralizada, que passa a ter novos poderes:

    – Acumulará as funções de chefe de estado e de governo.

    – Nomeará os ministros e o Parlamento perderá o poder de destituí-los, a não ser com maioria qualificada de três quintos.

    – Proporá o orçamento e nomeará todos os altos postos da burocracia do Estado.

    – Escolherá a maioria dos juízes da Suprema Corte.

    – Poderá emitir decretos com força de lei, cuja constitucionalidade será examinada pelo Tribunal Constitucional, cuja maioria de membros escolherá.

    – Controlará o Colégio da Magistratura e da Procuradoria que supervisiona o poder judiciário e a promotoria pública.

    – Terá poderes exclusivos para decretar o estado de emergência e dissolver o parlamento.

    – Terá maior poder de veto a leis aprovadas pelo Parlamento, que só poderá ser derrubado com maioria absoluta de votos.

    – As eleições parlamentares e presidenciais serão simultâneas e a cada cinco anos.

    Instabilidade crônica
    O AKP governa o país desde 2003, tendo se beneficiado de um alto crescimento econômico, com base em investimentos externos, 80% dos quais da União Europeia, atraídos pelas vantagens oferecidas pelo governo e pelos baixos salários dos trabalhadores turcos. A partir de 2013, a estabilidade do país tem sido questionada. O marco disso foi o massivo levante em Istambul em torno à defesa do parque Gezi, no centro da cidade, contra sua transformação em shoppings e uma mesquita.

    A instabilidade se agravou com a tentativa de golpe militar em julho de 2016. Em um episódio pouco esclarecido até agora (se foi um autogolpe, se o governo tinha conhecimento prévio, ou alguma combinação dessas circunstâncias), Erdogan aproveitou para instaurar o estado de emergência no país e fazer uma imensa ofensiva repressiva contra todo tipo de oposição. Foram 134 mil demissões de funcionários públicos (entre os quais 12 mil professores curdos), mais de 100 mil presos, fechamento de mais de duas mil escolas, residências universitárias e universidades, demissão de mais de 7 mil professores universitários, fechamento de 149 meios de informação e prisão de 200 jornalistas.

    O eterno inimigo interno curdo
    Como é tradicional na política do estado turco, o alvo principal são os representantes da minoria curda (cerca de 15 milhões no país de 80 milhões de habitantes) que luta por seu direito de autodeterminação.

    Após um curto período de negociações, em 2015, o governo turco rompeu a trégua e retomou a ofensiva militar contra as cidades de maioria curda no Sul do país, com tropas terrestres e bombardeios aéreos, com o resultado de milhares de mortos e refugiados.

    Na região (Irã, Iraque, Síria e Turquia), os curdos são cerca de 28 milhões e cerca de 1,5 são expatriados, em particular na Europa. O HDP foi e é um dos principais alvos e doze deputados da legenda estão presos, inclusive seus máximos dirigentes. Diga-se de passagem, que ainda antes do golpe de julho de 2016, Erdogan tinha conseguido que o Parlamento retirasse a imunidade dos deputados pelos seus atos políticos. Por outro lado, cerca de oitenta prefeitos eleitos pelo HDP na região de maioria curda foram sumariamente destituídos.

    A agenda de Erdogan com relação aos curdos não se limita ao país: em agosto do ano passado, tropas turcas entraram na Síria, com o claro objetivo de impedir que os curdos daquele país estabelecessem um território autônomo contínuo no norte sírio. Um dos complicadores para esse projeto foi que as tropas curdas sírias do YPG (Unidades de Proteção Popular) são as principais forças terrestres no plano elaborado pelos EUA para atacar a cidade de Raqqa, o maior reduto do autodenominado Estado Islâmico (EI) na Síria. Tão conflitivo é o tema que tropas especiais americanas se estabeleceram pela primeira vez de forma oficial no território sírio na cidade de Manbij para separar os curdos do YPG e as tropas turcas. Humilhados, os turcos tiveram que declarar encerradas suas operações na Síria e se retirar. O bombardeio da Síria pelos mísseis americanos reacendeu a esperança de Erdogan de poder desempenhar um papel no país vizinho e na região.

    E agora?
    Muitas das mudanças refletem a forma como o país vem funcionando nos últimos anos, em particular a partir do ano passado. Tudo indica que, mesmo com a apertada votação para temas tão transcendentais, o governo seguirá na ofensiva em todos os terrenos, mesmo antes de as alterações constitucionais entrarem em vigor.

    No próprio dia do referendo, houve inúmeras agressões contra os partidários do Não, inclusive o assassinato de um ativista pela milícia do AKP na região curda. A vitória no referendo significa que Erdogan ganhou alguma margem para seguir a sua política repressiva e tentar sair da crise política quase permanente em que o país vive. Em 2019, as mudanças terão efeito e ele poderá candidatar-se duas vezes a um mandato de cinco anos, o que significa que poderá governar até 2029. Em seu discurso de vitória ontem demonstrou que quer seguir a marcha bonapartista:   anunciou que uma de suas prioridades é a implantação da pena de morte.

    Claro que nada assegura que poderá ter tranquilidade sequer para a primeira etapa até o final de seu mandato. Em um país com esse grau de conflitos, com metade da população contra a mudança, mesmo com todo peso repressivo do estado para aprová-la, com a oposição ativa da minoria curda, o previsível é que seu padrão ofensivo faça com que a instabilidade continue ou mesmo aumente.

    Embora não haja uma crise econômica, vários índices mostram os limites do atual modelo econômico: a dívida externa do pais chegou a quase 50% do PIB (e a de curto prazo atinge 10%) , o endividamento das famílias para manter o nível de vida aumentou exponencialmente de 7,4% dos salários em 2003 para 55,2% em 2015, o desemprego atingiu 12,7% em Dezembro de 2016 (e 19,1% por cento, se contado de forma mais realista).

    O impacto da guerra interna e externa contra os curdos, a presença de cerca de três milhões de refugiados sírios, a diminuição de 30% do turismo, que representa 20% das receitas em divisas do país colocam mais problemas para o governo.

    No plano geopolítico, o governo Erdogan ensaia uma relocalização, deixando seu papel de aliado quase incondicional das potências ocidentais. Aumentaram os choques com vários governos europeus e abriu negociações com a Rússia e seus aliados, sem, no entanto, adotar ainda uma definição mais clara. Afinal, o país ainda faz parte da OTAN e formalmente pleiteia sua entrada na União Europeia. A ambiguidade relativa do tema pode ser exemplificada pelo telefonema de Trump a Erdogan ontem, parabenizando-o pelo resultado e agradecendo pelo apoio ao bombardeio à Síria, ao mesmo tempo em que o presidente turco ameaça deixar as negociações para ingressar na União Europeia.

    Não se sabe como será a reação da oposição de esquerda, dos sindicatos, da juventude e dos curdos frente ao resultado relativamente positivo frente à máquina de propaganda e repressão utilizada pelo governo e sua evidente falta de legitimidade para seguir em seu curso. Desse conjunto de fatores depende o curso que tomará a situação política do país após o referendo.