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  • Comitê da Praia Vermelha: é possível construir a Greve Geral pela base

    Por: Diego Correia, do Rio de Janeiro, RJ

    Em meio a uma crise política profunda e uma série de ataques brutais realizados pelo Governo Federal a direitos básicos como a Previdência e a CLT, no fim de março uma reunião entre as Centrais Sindicais definiu para o dia 28 de abril o dia da greve geral. O fato, bastante animador, surge como uma importante ferramenta para derrotar a contrarreforma de Temer.

    Mas há que se questionar: quantas trabalhadoras, trabalhadores e estudantes estão sabendo disso? Infelizmente, para a definição desse dia, não houve uma discussão prévia nas bases das categorias dos sindicatos, locais de estudo e bairros. Se houvesse, poderíamos estar em condições mais favoráveis para uma mobilização histórica para o dia 28. Podemos e devemos construir a greve geral, e há tempo para isso, mas a construção desse dia tem que ser pela base e amplamente democrática. Uma importante ferramenta tem sido a criação de Comitês de Construção da Greve Geral. Tentarei descrever um pouco das experiências do Comitê da Praia Vermelha (PV), um dos campus da UFRJ, do qual participo.

    Contando já com duas reuniões, o Comitê da PV vem conseguindo importantes acúmulos políticos e de mobilização. Tem sido um espaço amplamente democrático, onde a base constrói e define os rumos do espaço, bastante divulgado e aberto à participação de todas as categorias. A unificação dos debates políticos com as necessárias tarefas para construção do dia 28 têm sido muito ricas.

    O espaço tem sido educativo, não só pelo caráter de formação política, mas também no trato às diferenças apresentadas pelos que constroem: todas se mantém no âmbito exclusivamente político, fortalecendo a construção de sínteses. Essa postura, infelizmente rara nos espaços de debate, sem dúvida tem sido um importante impulsionador do Comitê.

    É dessa forma que estão sendo planejadas e realizadas diversas atividades, como aulas públicas e debates; diálogo com a população para além dos muros da UFRJ; confecção de panfletos, cartazes e faixas; panfletagens e convocações diárias nas salas de aula, além das divulgações das atividades pelas redes sociais.

    Nessa semana mesmo, quarta-feira, dia 19, já teremos uma aula pública com o professor do Serviço Social, Mauro Iasi, discutindo a complexa conjuntura que vivemos no Brasil e América Latina. E na quinta-feira, dia 20, às 17 horas teremos mais uma reunião do Comitê. As mobilizações e a conscientização da construção para o dia 28 estão crescendo no campus da PV a cada dia. No dia em que escrevo este texto, as e os estudantes do curso de Relações Internacionais, localizado na PV, decidiram em assembléia pela adesão à greve geral, sendo o primeiro curso da UFRJ a ter esta iniciativa.

    Não restam dúvidas de que podemos construir uma poderosa greve geral, não só indo às ruas, mas também fortalecendo a consciência nos locais de estudo, trabalho e bairros, perante o tamanho do desafio que temos pela frente e da necessidade de mobilização. Para além destas imensas tarefas, há um aspecto fundamental que a construção do dia 28 poderá fortalecer, a confiança das trabalhadoras(es) e estudantes em sua própria força. Ou seja, podemos derrotar as contrarreformas e derrubar o governo através de nossa organização e mobilização.

    A luta dura que teremos que travar não irá se encerrar no dia marcado para a greve geral. É preciso continuar, mas sem dúvida, este pode ser o dia da virada do jogo. O legado das construções de comitês e suas continuidades para além do dia 28 serão decisivas para nossa vitória.

    Acompanhe o calendário de atividades realizadas pelo Comitê da PV

  • Na Zona Leste de São Paulo, secundaristas se organizam para desorganizar

    Por: Caetano dos Santos, de São Paulo, SP

    Na Zona Leste e Extremo Leste de São Paulo os estudantes secundarista e jovens trabalhadores se reúnem com ânimo, saindo das reuniões vão aos pontos de ônibus e saída de estações de trem dialogar com os trabalhadores e com a juventude sobre a necessidade da Greve geral e a necessidade da derrubada do governo anti-popular de Michel “Fora” Temer. Em nós, a ousadia e a coragem. Em nós, a confiança e certeza de que só a aliança entre a classe trabalhadora e a juventude conseguirá as mudanças e a defesa dos nossos direitos. Em nós, o germinal do novo amanhecer.

    O comando dos estudantes secundaristas em luta de São Paulo surgiu em 2015, quando explodiu o processo de ocupação de escolas contra a reorganização das escolas estaduais apresentada pelo governo tucano de Geraldo Alckimin (PSDB). O comando serviu para a unificação das escolas em luta e para que este processo não fosse aparelhado pelas direções burocráticas do movimento estudantil (UJS e satélites juvenis do PT, que aparelham a direção da UPES e UBES há décadas).

    O comando fez com que aquele processo desse uma única paulada no governo, organizou os estudantes e conseguimos a vitória que foi a derrubada do secretário da educação, Herman Voorwald, e do projeto de reorganização. Passados dois anos daquele movimento explosivo, que abalou São Paulo e o Brasil, os estudantes tem mais uma desafio à vista: derrotar o governo Temer com suas reformas anti-populares que nos impõe trabalhar até morrer, rasga a CLT, permite a terceirização irrestrita e ainda sucateia a educação pública com a reforma do ensino médio, tirando matérias essenciais para o desenvolvimento crítico dos estudantes. Contudo, temos a consciência de que não faremos isso sozinhos, mas sim em aliança com os trabalhadores, esta aí nossa grande obsessão: a aliança entre a juventude e a classe trabalhadora.

    O Subcomando da Zona Leste de São Paulo voltou à ativa, agrupando ativistas de alguns coletivos, correntes e estudantes independentes e autônomos, com a discussão de que é preciso reagrupar aquela geração de lutadores formada no processo de ocupações e agrupar aqueles que se despontam agora para as lutas sociais.

    São dezenas de secundaristas da periferia de SP que, nas atividades, fazem a contagem de dinheiro para garantir a passagem de amigos para que estes possam participar das atividades, que contam as moedas para comprar uma pipoca para acompanhar um cine-debate, enfim, filhos de trabalhadores e futuros trabalhadores, muitos participando pela primeira vez de reuniões e ações do tipo, muitos despontando para o início da vida consciente.

    Desde o subcomando da Zona Leste, as ações realizadas partem da compreensão de que a classe trabalhadora é quem move tudo no Brasil e no mundo. É quem produz toda riqueza do mundo, que age coletivamente para a produção dessa riqueza e sua coesão e força, através de suas mobilizações e organização, faz o que quiser. Os trabalhadores não precisam de “seus” patrões, os patrões precisam dos trabalhadores.

    O poder de uma greve geral é grande, pois significa parar os meios de produção, as obras e tudo o que for. Só assim a burguesia perceberá a força que temos. Apenas com métodos de luta dos trabalhadores os patrões e os governos percebem a força de mobilização e recuam. A Juventude leva o ânimo e a esperança nas mudanças, afinal, temos todo um mundo novo a ver, temos todo um mundo velho a destruir. Pra nós, sobra a ousadia, a esperança e o ânimo. Se aliar com os trabalhadores é levar a ousadia da juventude com o peso e firmeza dos trabalhadores. Assim, a vitória será uma grande possibilidade.

    O Subcomando dos Secundaristas em Luta da Zona Leste e Extremo Leste aposta todas suas fichas nisso. É com esta confiança que entramos nos trens e metrôs agitando e tentando levar coragem aos trabalhadores. É assim que vamos às escolas dialogar com estudantes e falar que só a luta vai mudar as nossas vidas. No dia 28, levaremos nosso bloco às ruas e permaneceremos organizados, pois os ataques são permanentes, independente do governo, e se os ataques são permanentes, a organização e a luta também devem ser.

    Assista ao vídeo

  • A juventude quer mais direitos e a não restrição da meia-entrada

    Por: Priscila Costa, Victor Marinho, Gustavo Mascarenhas e Gabriela Mota, de Salvador, BA

    Imagina que louco se o direito histórico da meia-entrada fosse vendido? Se as bilheterias reduzissem os ingressos para os estudantes em apenas 40% e o controle de quando acabaria a porcentagem ficasse apenas na mão dos empresários? Se, para que pudéssemos ter acesso a um direito histórico, a gente precisasse pagar pra ter uma carteira e o nosso comprovante de matrícula não valesse mais de nada? Bizarro, né? Infelizmente, a partir da última semana, foi assim que as coisas começaram a funcionar para todas e todos estudantes do Brasil e essa já é uma realidade nas filas de cinemas, shows, teatros, entre outros espaços.

    A partir da última semana, começou a valer a Lei n° 12.933, que foi aprovada em 2013. Essa lei torna obrigatória a posse de uma carteirinha emitida por uma entidade estudantil como critério para a efetivação do direito à meia-entrada. A lei, que foi elaborada em acordo com entidades que deveriam representar as e os estudantes, como a Uniao Nacional dos Estudantes (UNE), também definiu que só teriam direito à meia-entrada os estudantes que possuem filiação oficial à entidade. Muitos jovens estão indignados com essa arbitrariedade e sobram razões e motivos para isso, já que a lei busca restringir o acesso à cultura e ao lazer.

    Para adquirir a carteira da UNE, por exemplo, os estudantes precisam pagar cerca de R$ 40 para aquisição e ainda uma taxa anual no mesmo valor para revalidação. Esse é um preço abusivo, principalmente para a realidade da juventude em um cenário de desemprego e crise econômica.

    “A gente quer comida, diversão e arte”

    Segundo pesquisa sobre “Gasto e Consumo das Famílias Brasileiras”, do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), as dificuldades com o acesso à cultura, enfrentadas pelas famílias brasileiras, figuram em primeiro lugar entre os fatores causadores da desigualdade social em nosso país. O investimento público na área da cultural nunca passou de reles 0,07% dos gastos públicos, o que torna seu acesso quase que um privilégio para os ricos. Sabemos, inclusive, que o Ministério da Cultura foi um dos primeiros a sofrer ataques do governo golpista de Temer, quando a juventude em luta ocupou seus espaços contra seu desmantelamento.

    É uma vergonha que a entidade que foi protagonista pela conquista desse direito seja aquela que hoje esteja o entregando ao aprovar uma medida que vai justamente de encontro aos interesses da juventude. Os únicos interesses que a restrição à meia-entrada atende são dos ricos e dos grandes empresários que tentam controlar a cultura do país. Esses empresários são uma expressão do projeto político neoliberal que segue exatamente a mesma lógica do governo Temer e da direita golpista: o de elitização da cultura.

    Direitos não se negociam
    Ninguém aguenta mais a retirada de direitos. O problema do monopólio das carteirinhas da UNE é a venda de um direito histórico em nome de um monopólio nacional negociado pela entidade. Compreendemos que as carteirinhas, para diversas entidades estudantis são uma fonte de financiamento legítima e importante, porém hoje a direção majoritária da UNE utiliza a venda das carteirinhas como uma verdadeira fonte de dependência com o Estado burguês e suas institucionalidades. Consequentemente, afasta os ativista e impede que outras carteirinhas sejam tiradas.

    Queremos que a carteirinha da nossa faculdade valha, ou qualquer documento de identificação estudantil, como o comprovante de matrícula, o que já era uma realidade antes da aprovação dessa lei. Esta medida também atinge o direito de livre associação e organização. Não há nenhum problema em entidades estudantis emitirem suas carteiras como meio de financiamento pela independência do movimento estudantil. Mas entendemos que a adesão deve ser feita de forma voluntária, ganhos politicamente, como demonstração de apoio e reconhecimento pelos estudantes, entendendo a importância da independência financeira, e nunca de forma obrigatória. Não é o governo, por meio de uma lei, que deve dizer quais entidades podem, ou não, emitir carteiras estudantis, tornando-as “oficiais” e obrigando os estudantes a se associarem a ela, para garantir um direito.

    O cenário que estamos vivendo no país hoje exige coragem e firmeza dos movimentos sociais e não vacilações. Essa postura da direção majoritária da UNE (UJS, Kizomba, ParaTodos) não contribui para fortalecer a nossa luta e nossa unidade. Para se enfrentar, de fato, com a direita golpista, é preciso radicalizar nas ações e na política, algo que o campo do lulo-petismo e entidades que são dirigidas por esses setores precisa urgentemente relembrar, da luta ombro a ombro com entre juventude e classe trabalhadora, sem conciliação com os inimigos, pois só derrotaremos os golpes de cima, unificando os de baixo. O que a juventude e o povo brasileiro precisam hoje é de uma alternativa combativa que esteja a serviço de mudanças, a favor da classe trabalhadora e da juventude, por nenhum direito a menos.

  • UFRJ nos mesmos rumos da UERJ?

    Para onde caminham as universidades públicas brasileiras?

    Por: Diego Correia, do Rio de Janeiro, RJ

    A crise da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) vem se arrastando nos últimos anos e ganhando contornos trágicos. Reconhecida nacionalmente e internacionalmente por sua excelência acadêmica, a UERJ é retrato do ataque do governo estadual do PMDB. A universidade agoniza, pois não há repasse da verba destinada a salários, bolsas e verbas de custeio. Não há previsão nenhuma do pagamento de salários a partir de fevereiro, nem o 13º salário respectivo de 2016. Faltam condições básicas de limpeza, segurança e o bandejão se encontra fechado.

    O início do segundo semestre letivo de 2016 foi iniciado nesta semana, após vários adiamentos, de forma arbitrária pela Reitoria, pois não há nenhum compromisso firmado com o governo do repasse de verba. Infelizmente, a situação por que passa a UERJ está longe de ser exceção. Não só as universidades estaduais, mas também as universidades federais estão sob sério risco. Os cortes bilionários na educação, que já tinham começado no governo Dilma (PT), ganham proporções ainda maiores junto com novos ataques, como a aprovação da PEC do teto de gastos.

    É nesta situação que o Pró-Reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Gambine, emitiu uma nota no dia 7 de abril.

    O documento revelava uma situação extremamente preocupante da situação financeira da UFRJ. Em janeiro deste ano, apenas 1/18 do orçamento aprovado foi repassado, gerando uma série de dificuldades de planejamento, pois o esperado era que fosse liberado 1/12 da verba. Ou seja, houve uma redução de quase 34% do esperado. Após passar três meses nesta difícil situação, era esperado que o restante da verba fosse liberada em abril. No dia 6 deste mês, o Governo Federal, além de anunciar que não há previsão para o repasse da verba, também informou que manteria o corte de 34% no total do orçamento destinado à UFRJ.

    Nesta situação, atividades básicas estão ameaçadas, desde pagamento dos salários de terceirizados, pagamento de bolsas estudantis, alimentação dos restaurantes universitários e atividades básicas acadêmicas, atingindo especialmente os cotistas. A situação de muitos estudantes já é de grande fragilidade sócio-econômica, dependendo do recebimento de bolsas para permanência na universidade e, mesmo assim, em condições difíceis. Não são raros os casos de estudantes sem condições básicas, ou de extrema precariedade, como alimentação, moradia e transporte, lembrando que não há bilhete universitário intermunicipal.

    Como se já não bastasse os ataques do Governo Federal, a Prefeitura, a mando de Crivella, ataca direitos fundamentais como o Bilhete Universitário, através de cancelamentos arbitrários e uma verdadeira jornada burocrática para cadastramento. A cidade do Rio de Janeiro, uma das mais caras do mundo para se viver, junto com a grande demanda por políticas de permanência, vai se tornando um desafio quase impossível para diversos estudantes conquistarem o diploma de ensino superior.

    O golpe vai além do desmonte da Educação
    A contínua política de corte orçamentário na educação, que já vinha do governo Dilma, ganha ainda maiores proporções após o golpe, tornando cada vez mais insustentável a manutenção do ensino superior público, gratuito e de qualidade. Há uma série de ataques que estão diretamente relacionados com o desmonte das universidades públicas e com a impossibilidade da permanência estudantil. A terceirização ampla e irrestrita, a contrarreforma da previdência e tantos outros ataques influenciaram na vida dos estudantes, que já trabalham, ou não, e dos que em breve irão entrar no mercado de trabalho. O que está em jogo são perdas de direitos trabalhistas históricos, que nos fariam retroceder a condições anteriores às da década de 30.

    O que fazer para resistir a tamanho ataque?
    O dia 28 de abril foi o dia marcado pelas Centrais Sindicais, entre elas CUT, CTB, CSP-Conlutas, entre outras, para uma grande greve geral, com intuito de derrubar as contrarreformas do governo. É provável que muitos que estejam lendo essa notícia não saibam, até o momento, deste fato. Ou que achem a data distante, ou ainda que a greve geral não vai, de fato, vingar. Infelizmente, a definição desse dia se deu basicamente sem nenhuma discussão nos locais de trabalho, passando totalmente sem discussão na base das trabalhadoras e trabalhadores. Esse é um fato que indiscutivelmente atrapalha, e muito, as necessárias mobilizações para a resistência. Mas, apesar da burocracia e falta de democracia de base que é marca das grandes Centrais Sindicais, abriu-se uma oportunidade histórica para a realização de uma forte mobilização de resistência.

    Primeiro, é preciso entender que a greve geral não é um fim em si mesma. Ou seja, não será suficiente apenas ir para as ruas e fazer uma greve no dia 28. É preciso construir, desde já, esse processo, conscientizando e mobilizando para esta necessidade em cada local de trabalho, estudo, bairro, etc. Só o convencimento da necessidade de lutar por seus direitos é que trará a força necessária para transformarmos em um poderoso contra-golpe. Além disso, todo este processo não terminará dia 28, ele terá que continuar e ainda mais forte. Assim, como os dias 8, 15 e 31 de março foram importantíssimos para que o dia 28 fosse possível, trouxeram centenas de milhares às ruas.

    Fica claro que se não for um movimento construído pela base da forma mais democrática e politizadora possível, o dia 28 não será tão forte quanto precisamos. Uma das alternativas que estão impulsionando a construção da greve geral são os comitês de construção da greve geral e resistência aos ataques de Temer. A cada semana surgem mais comitês em vários locais de estudo, trabalho e bairros2 pelo Brasil. A tarefa urgente é construir e fortalecer estes espaços com ampla democracia de base. É preciso organizar nossa indignação e revolta em fortes mobilizações que garantam e ampliem nossos direitos. A tarefa é grandiosa, tão grande quanto se mostrou historicamente a força de estudantes e trabalhadores unidos e nas ruas.

    Referências:

    1 – Confira o Dossiê do Esquerda Online sobre crise e retirada de direitos

    2 – A página da Frente de Esquerda Socialista está compartilhando através de sua página diversas reuniões e atividades dos comitês aqui no Rio

  • Habeas Resistência

    Por: Paula Farias, de Fortaleza, CE

    Habeas, do latim ‘ter’, pode soar estranho somado à palavra resistência. Mas, é um trocadilho com o nome de um time de futebol de alunos do curso de direito de uma universidade particular de Fortaleza: Habeas Pernas.

    Alguns pensarão: trata-se de um jargão futebolístico. Mas, não foi.

    O Centro Acadêmico (CAAT) do curso de Direito da Uni-7 resolveu promover um campeonato de futebol para “promover o companheirismo, a descontração” entre os estudantes do curso, nas palavras do CAAT. Um grupo de alunos se reuniu e pensou em tudo: nome, brasão e até hino. A imagem do brasão é muito reveladora e afasta completamente a hipótese do jargão futebolístico: o corpo de uma mulher de pernas abertas. O que estes estudantes esqueceram foi que na mesma universidade as mulheres estavam atentas. A indignação por parte delas foi imediata e ganhou as redes sociais.

    O CAAT, no dia do jogo, pediu educadamente que o brasão fosse coberto por fita adesiva (o time acatou a sugestão do CAAT) que, por sua vez, não resistiu às partidas do campeonato (óbvio né!). Isso é o que informa a nota do centro acadêmico, reforçando ainda a ideia de que não podiam fazer nada de maneira apressada, ou que cancelasse o evento.

    Por sua vez, a direção da universidade lançou um comunicado na segunda, dia 10 de abril, cujo título é “Habeas Respeito”, o que provocou o título desta opinião que agora vocês leem. Nela, a direção trata o tema da seguinte forma: “Diante dos fatos e após ouvir o CAAT, a UNI7 iniciou os procedimentos acadêmicos previstos em seu regimento interno. A Instituição valoriza as manifestações dos alunos no debate sobre a questão do respeito nas relações Sociais”. “Habeas Paciência” para esperar a atitude da direção!

    As estudantes começaram a se organizar. Primeiro, denunciando, nas redes sociais, na qual foram alvos de comentários misóginos e muito ofensivos de pessoas, tanto homens e também mulheres, poucas, é verdade, de fora da instituição e até de outros estados. E, na última segunda-feira (10), organizaram dois atos de repúdio à atitude dos estudantes. A mobilização foi forte e chamou atenção.

    As mulheres, na esteira do que vem ocorrendo nas últimas semanas, estão resistindo. Cada pequena vitória significa um fortalecimento de que não somos o segundo sexo. Significa as mulheres em transformação e os homens em crise, tontos, perdidos, porque não podem mais comportar-se como brutos, desumanos, superiores com as mulheres.

    Estamos perdendo o nosso medo. E o homem tem medo da mulher sem medo, como disse Eduardo Galeano. E a sua resposta ao medo que sente é nos calar de qualquer maneira, invisibilizar-nos, tratar de maneira machista, violenta, para, com essa atitude, tentar impedir nosso avanço na sociedade. Não queremos estar nem na frente, nem atrás de vocês. Queremos marchar lado a lado.

    Não queremos uma guerra entre os sexos. Os homens podem, sim, ser nossos aliados nessa luta contra o machismo, contra a violência gratuita às mulheres. Para isso, é preciso reconhecer seus erros e estar dispostos a mudar suas atitudes diante de casos desse tipo.

    A direção da universidade deve tomar uma atitude que ultrapassou os muros da universidade. Queremos que estes estudantes sejam suspensos e que façam uma carta pública se retratando. É, no mínimo, inadmissível que estudantes de Direito de uma universidade, futuros advogados, juízes, promotores, defensores, só consigam pensar um nome e símbolo que objetifica a mulher, navegando na contramão dos últimos acontecimentos na qual as mulheres, com resistência, arrancaram pequenas vitórias. É inadmissível que a organização estudantil limite-se a tirar de si a responsabilidade sobre os acontecimentos. É preciso uma nova nota autocrítica e um evento que trate sobre violência às mulheres organizada pelo CAAT.

    Estamos atentas e seguiremos resistindo. E cada pequena vitória nos deixa mais fortes.

    Habeas Resistência!

  • Estudantes de São Bernardo do Campo paralisam aulas para protestar contra reformas de Temer

    Por: Moises Correa, de São Bernardo do Campo, SP

    O último dia 31 de março de 2017 foi marcado por diversas manifestações pelo país, que tinham como pauta o fim do projeto de terceirização do trabalho e contra as reformas da Previdência e Trabalhista. Todos, projetos do governo Michel Temer.

    Temer e seus aliados, percebendo a mobilização unificada d@s trabalhador@s, vêm mudando constantemente a agenda de votações dessas reformas no Congresso, ou seja, adiam as votações na tentativa de esfriar e desmobilizar @s trabalhador@s. Com isso, várias centrais sindicais e movimentos sociais se preparam para, no dia 28 de abril, ter um dia de greve geral no país e, por consequência, a greve geral por tempo irrestrito.

    Inspirando-se nesses exemplos e nos professores do Estado de São Paulo, que ficaram em greve do dia 28 ao dia 31 de março, os estudantes da escola estadual Diplomata Sergio Vieira de Mello, em São Bernardo do Campo, realizaram um debate sobre esses projetos e, logo após, saíram em passeata pelas ruas do bairro demonstrando sua insatisfação.

    Cerca de 80 estudantes se reuniram na porta da escola, localizada na Estrada dos Alvarengas, 4.100, bairro Assunção com cartazes e cartas abertas contra os projetos de Temer. Na porta da escola, o espaço foi livre para que professor@s e alunos pudessem expor seus pontos de vista, poemas foram lidos em forma de jogral e logo em seguida saíram em caminhada pelos bairros até chegarem na porta de outra escola estadual (E.E. Santa Olímpia) e convidarem outros estudantes para se juntarem ao movimento.

    Nossa Equipe entrou em contato com uma das organizadoras do protesto, a estudante Brenda, que nos respondeu algumas perguntas.

    EO – Quais foram os motivos que levaram vocês a organizar essa manifestação?

    “ Decidimos fazer porque os estudantes ficaram sabendo da greve dos professor@s e, em apoio a greve eles começaram a faltar nas aulas, mas pensei que isso poderia nos prejudicar, pois na nossa escola poucos professores estavam em greve e meu medo era que os professores passassem lição e os estudantes que não estavam indo ficassem sem nota. Sendo assim, conversei com a Maria Érica (outra estudante) sobre essa ideia de nos manifestarmos e depois disso conversamos com outros estudantes e o sonho foi se tornando realidade aos poucos. ”

    EO – Vocês se inspiraram em alguém ou em algum movimento estudantil?

    “ A nossa maior inspiração foram os professores que estavam em greve, mas eu também pesquisei sobre movimentos estudantis que ocuparam as escolas em São Paulo no ano de 2015. ”

    EO – Contra o que vocês estavam se manifestando?

    “ Nós estávamos lutando contra a reforma da previdência, o projeto de terceirização, reforma trabalhista, reforma do ensino médio e também para que os estudantes da nossa escola tenham mais voz dentro da escola, pois não recebemos muito apoio. “

    EO – Como foi o processo de construção do movimento dentro da escola?

    “Foi muito tranquilo, pois no ano passado eu comecei a conscientizar meus colegas de escola sobre essas questões. Esse ano nós falamos com a diretora sobre a manifestação, e para nossa surpresa ela apoiou, mas mesmo que ela não tivesse “liberado” faríamos a manifestação do mesmo jeito. ”

    EO – Houve apoio dos estudantes? Quantos?

    “No começo faltava apoio, pois falei apenas com meus amigos e tínhamos medo da diretora, mas isso foi se espalhando e decidimos fazer assembleias nos horários do intervalo da escola e com isso conseguimos o apoio de mais de 120 estudantes em um abaixo assinado”.

  • Pelo direito ao pão, à poesia e a um futuro digno

    “Por isso cuidado meu bem
    Há perigo na esquina
    Eles venceram e o sinal
    Está fechado pra nós
    Que somos jovens…”

    Belchior

    Por: Gabriel Santos, de Maceió, AL

    Grandes marxistas do século passado como Trotsky, Gramsci e Cannon costumavam dizer que na política o tempo é o crucial. Afinal, o tempo é um grande mistério, e falar sobre ele é falar sobre transformação. Sobre aquilo que hoje é, ontem foi e amanhã pode ser, ou não ser. O presente é consequência de ações passadas, enquanto o futuro é consequência das ações do presente.

    Falar sobre tempo, em especial sobre o futuro, hoje é falar sobre incerteza. Ainda mais para nós que somos jovens. Vivemos em tempos difíceis. Tempos de golpe parlamentar, retirada de direitos, avanço do conservadorismo e da direita. O futuro é cada vez mais uma incógnita.

    Normalmente definem a juventude como aquela fase da vida na qual começamos a caminhar em busca de nossos projetos de vida. Uma época de conquistas e sonhos. Porém, a realidade é bem mais cruel. Ser jovem hoje no Brasil é caminhar numa trilha incerta. Acordamos diariamente e nos cobramos, por que, afinal, não seremos jovens para sempre, e a sociedade nos cobra. Temos que ter respostas. Que emprego seguir? Que faculdade fazer? Será que vai valer à pena? Será que vou me formar? Temos desejos, mas muitas vezes não temos tempo para sonhar. Temos que dar respostas e resultados a um mundo que não nos responde nada e nos apresenta cada vez menos perspectivas.

    A aprovação da terceirização e o projeto da reforma da previdência são uma mostra de que para a nossa geração o direito ao futuro vem sendo roubado. Hoje, mais de 24% da juventude se encontra desempregada. E se hoje em dia a situação é complicada, imagina daqui a vinte anos, com a vigência da PEC dos tetos dos gatos, com a terceirização rolando solta, sem os direitos trabalhistas e sem perspectivas de aposentadoria. Tudo pode ser pior.

    A burguesia está vindo com tudo. Quer passar por cima da classe trabalhadora como um trator, e de quebra, esmagar o nosso futuro. Porém, a mesma incerteza que nos amedronta, também pesa a nosso favor. Pois o futuro é algo incerto. Ele é construído através do presente. Sendo assim, podemos mudá-lo. Karl Marx já dizia: “Os homens fazem sua história, mas não a fazem como a querem, e sim, de acordo com o que foi herdado de gerações anteriores”.

    O direito ao futuro está na balança. De um lado, os ricos e poderosos querendo saqueá-lo. Do outro, nós, jovens, querendo defendê-lo. E é porque queremos o direito ao futuro que a juventude brasileira tem dado inúmeros exemplos de resistência. Ocupando os locais de estudo de todo o país, como fizemos ano passado. E agora, ocupando as ruas, contra Temer e suas medidas. Não nos serve esperar o futuro, nós queremos construí-lo a partir do presente.

    O recado que a juventude vem dando é que não vamos assistir parados enquanto nosso direito ao futuro é jogado no lixo, nós vamos à luta, à resistência, vamos organizar nossa indignação.

    Para os marxistas, a fé no futuro é algo fundamental. Na prática, é o que nos move. É a crença num outro tipo de sociedade, uma sociedade futura, que rompa com a sociedade atual e seus problemas. Uma sociedade mais igualitária, mais justa, livre de preconceitos e exploração. Uma sociedade sem exploração. Uma sociedade socialista. Tudo isto pode ser simplificado em um trecho da letra da música da Internacional Comunista: “o futuro nos pertence”. Mas, para alcançarmos este futuro, é preciso começar a construí-lo desde agora. É mais do que preciso se organizar num projeto coletivo de superação do atual modelo de sociedade.

    A juventude não quer mais as péssimas condições de emprego. As mulheres jovens estão dizendo um basta ao machismo. As LGBTs estão lutando pelo direito à vida, de ser quem realmente são, sem temer. Os jovens negros e negras da periferia estão resistindo ao genocídio que este sistema realiza, afirmando sua negritude. A juventude não quer mais este sistema que nos mata e explora. A juventude que luta e sonha quer tocar fogo no sistema atual e construir um novo. Queremos fazer anticapitalismo, queremos fazer revolução.

    ”O tempo é escasso, mãos à obra.
    Primeiro é preciso transformar a vida,
    para cantá-la em seguida.
    (…)
    É preciso arrancar alegria ao futuro.”

    Maiakovski

    Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

  • Polícia dificulta atividade cultural Batalha das Pistas, em Mauá, SP

    Por: Everton Bertucchi, de Mauá, SP

    A Guarda Civil Metropolitana de Mauá impediu o acesso de cidadãos ao evento cultural Batalha das Pistas, que ocorre todas as quartas-feiras, no Parque da Juventude, na cidade. O evento iniciou às 19h, mas às 21h foi fechado o portão da área pública que deveria estar aberto até as 23h. As pessoas somente podiam sair do parque, ninguém mais foi autorizado, pela GCM, a entrar.

    Vários jovens que tentavam participar da atividade cultural, foram impedidos de entrar ao Parque

    Vários jovens que tentavam participar da atividade cultural, foram impedidos de entrar no Parque

    Ao ser indagado sobre o porquê da ação, que impedia a entrada em um espaço que é público, um policial afirmou que eram orientações e que reclamações deveriam ser encaminhadas ao Ministério Público.

  • Sessão pública da juventude do MAIS irá discutir organização da juventude anticapitalista

    Da Redação

    No próximo fim de semana, em São Paulo, irá se reunir a juventude do MAIS em uma conferência nacional. Na sexta-feira, 24 de março, haverá uma sessão pública aberta aos ativistas e demais organizações da esquerda socialista. O evento ocorrerá na Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, a partir das 19h30. O Esquerda Online divulga o convite na íntegra:

    “A conferência irá debater sobre ferramentas para organização da juventude anticapitalista, sobre como organizar a resistência a tentativa de Temer de roubar nosso futuro através das reformas, e sobre o movimento estudantil, suas mudanças, características e sobre os demais movimentos de juventude. Mas, na sessão pública, queremos fazer um debate mais profundo: os caminhos da revolução brasileira.

    A complacência com o capital não solucionou nossos problemas. O capitalismo dá em Trumps e Temers mundo a fora, se radicaliza contra nós, e só com a força da juventude será possível radicalizar contra eles.

    Por outro lado, nos últimos anos a juventude mostrou ser portadora da indignação e revolta contra as mazelas do capital. Liderou os “99%” na resistência à crise econômica que se inicia em 2008, ocupando as ruas e as praças em todo o mundo. No Brasil, foi à ofensiva em junho e após o revés do golpe não se calou, resistiu às medidas de Temer desde o primeiro dia.

    A juventude brasileira é valente, enfrenta o estado policial brasileiro não só nos atos de rua, nas ocupações, mas todos os dias nas favelas e periferias do país contra o genocídio da juventude negra. Resiste para poder estudar, para poder trabalhar e para poder viver. As mulheres e LGBTs não temem mais e estão dispostos a derrubar quantos Cunhas, Felicianos e Bolsonaros atravessarem o seu caminho. Ocupa tudo se for preciso.

    Por isso é preciso pensar num programa anticapitalista junto com a juventude, é preciso encontrar caminhos para organizar os debaixo para uma verdadeira transformação social, que vá além das urnas de dois em dois anos.

    Por isso nessa conferência, queremos discutir a necessidade e os caminhos da revolução brasileira, junto àqueles que a sua maneira compartilham conosco esse sonho. Convidamos os ativistas para fazê-lo conosco em uma sessão aberta da nossa conferência, e convidamos também outras correntes da esquerda socialista para trocar ideias e pensar junto sobre esse sonho tão caro a todos nós.

    Venha contribuir com este debate, vamos pensar e elaborar juntos”.

  • 15 de março: Juventude quer trabalho, aposentadoria e direito ao futuro

    Por: Clara Saraiva, do Rio de Janeiro, RJ

    Como um verdadeiro pesadelo, a agenda do Congresso Nacional já está a todo vapor para encaminhar dois projetos que pretendem destruir o direito à aposentadoria e os direitos trabalhistas, conquistados com muita luta por gerações passadas. Muito além de afetar os trabalhadores que já estão no mercado formal, a votação dessas medidas significa impor pras novas gerações níveis de exploração e precarização das condições de vida muito altos.

    Nesta quarta-feira, dia 15 de março, haverá um forte Dia Nacional de Paralisação e Luta, convocado inicialmente pela CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), e abraçado pelas Centrais Sindicais, Frentes Nacionais, organizações políticas e movimentos sociais de todo o país. A cada dia que passa mais categorias prometem paralisar, e a juventude se organiza nas escolas, universidades e bairros para se somar aos protestos.

    Juventude sem direito ao futuro
    Quando avaliamos os impactos de projetos tão nefastos para os direitos dos trabalhadores, tais quais as reformas da previdência e trabalhista, precisamos ter um olhar mais apurado quando se trata das novas gerações e setores oprimidos. É verdade que esse pacote de medidas de austeridade quer jogar a conta da crise nas costas do conjunto da classe trabalhadora, porém segmentos mais afetados serão as mulheres negras, pobres, LGBTs, em especial os mais jovens.

    Já ocupamos os piores postos de trabalho, com contratos precários e alta rotatividade. Há uma concentração de jovens gays e lésbicas em trabalhos de call center, de jovens negras como empregadas domésticas, trabalhadoras da limpeza ou cozinha, especialmente em empresas terceirizadas. São jovens mulheres a maioria das vendedoras, secretárias, babás, professoras da rede básica, etc. Mulheres trans e travestis, que dificilmente conseguem qualquer emprego formal, acabam muitas vezes recorrendo à prostituição.

    A falta de trabalhos formais e o aumento do número desemprego também atinge especialmente os mais jovens e oprimidos. No ano passado, a taxa de desemprego entre a população de 18 a 24 anos já era de 24,1% e mais do que o dobro da média geral de 10,9%.  O índice de desemprego já atinge mais de 13 milhões de brasileiros, sendo a maioria mulheres. No último trimestre do ano passado, de acordo com os dados mais recentes, o índice de desocupação havia chegado a 12% no Brasil. Para os homens, era de 10,7% e para as mulheres, de 13,8%. Isso sem contar os escandalosos índices de violência, que nos marcos da situação social de barbárie só tende a se agravar, fazendo do Brasil o quinto país em feminicídio do mundo, o campeão em assassinatos LGBTfóbicos e onde a juventude negra morre todos os dias nas favelas e periferias pela polícia ou lota as cadeias nas condições mais desumanas possíveis.

    Querem nos impedir de aposentar
    Um jovem brasileiro, a depender da condição social, pode demorar mais ou menos para ingressar no mercado de trabalho e na chamada (e temida) vida adulta. A grande maioria precisa abandonar cedo os estudos, sequer sonha com o ingresso numa universidade (muito menos pública) e precisa endossar as fileiras da classe trabalhadora para ajudar em casa e sobreviver. Essa juventude tem cor.

    Para uma parcela menor, que depois do ensino médio conseguem passar no ENEM com uma bolsa do PROUNI, FIES ou para a tão sonhada universidade pública, a realidade é um pouco mais favorável. Ainda assim, cada vez mais os recém-formados endossam os índices de desemprego, ou acabam em trabalhos não vinculados à sua formação profissional, simplesmente porque não há vagas disponíveis no mercado. Por todos os lados, uma triste realidade.

    O direito à aposentadoria e previdência social foi conquistado após inúmeras greves, passeatas, organização dos trabalhadores (período da formação da CUT, MST, PT), formulação de propostas e disputa institucional por categorias profissionais ligadas à saúde e aos direitos sociais. Em 1988, se cristalizou na Constituição Federal a garantia do Sistema de Seguridade Social (proteção social), composto pelo tripé saúde, assistência (até então não era considerado como política social) e previdência social. Uma das maiores conquistas para viabilizar tais direitos foi a criação de impostos específicos para a seguridade, que taxavam o capital através de uma estrutura de financiamento própria. São, portanto, impostos e contribuições (COFINS e CSLL) com a chamada “identidade”, ou seja, só podem ser gastos pelo Estado vinculado às políticas sociais dessas áreas.

    No início, a garantia ao direito previdenciário se fazia apenas pelo tempo de trabalho, onde eram precisos 3 provas testemunhais que comprovassem. Não estava relacionado ao tempo de contribuição nem de registro na carteira de trabalho – mudança realizada por FHC na primeira grande reforma da previdência, através da Emenda Constitucional 20 de 1998. O governo estabeleceu um período mínimo de contribuição para se aposentar: 35 anos para os homens e 30 para as mulheres.

    Além de outras mudanças, FHC introduziu o fator previdenciário, cálculo super complexo (quase impede que um trabalhador faça sozinho) que na prática estabelece uma idade mínima combinada com o tempo de contribuição. Significou um aumento, em média, de 7 anos a mais de contribuição. FHC tentou fixar uma idade mínima para todos os trabalhadores, mas foi derrotado.

    A segunda grande reforma da previdência foi realizada por Lula, através da Emenda Constitucional 41 de 2003. Atingiu especialmente o regime próprio de previdência social, ou seja, atacou diretamente o direito à aposentadoria dos servidores públicos, ampliando a criação dos fundos de pensão (previdência privada). Acabou com a integralidade do salário na ativa para o servidor aposentado, passou a cobrar 11% de contribuição previdenciária dos já aposentados e levou ao fim a paridade no reajuste entre ativos e inativos.

    Orientadas pelo Banco Mundial, o objetivo por detrás dessas reformas era ir, aos poucos, destruindo esse direito histórico de caráter público abrindo caminho para o desenvolvimento dos fundos de pensão e do regime complementar de previdência, vulgo privado. Um negócio altamente lucrativo ao capital, que contou com o apoio do Estado como seu primeiro sócio para ampliar sua rede de consumidores.

    A verdade é que o texto aprovado na Constituição de 1988 sobre a previdência social já foi drasticamente alterado. Ainda assim, a maior reforma da previdência está por vir, orquestrada pelas mãos do presidente ilegítimo e seu Congresso golpista, com a primeira data de votação para 28 de março.

    O que muda com a Reforma da Previdência de Temer? 

    1. Idade mínima fixa para aposentadoria: outros governos já tentaram, mas pela resistência dos trabalhadores não conseguiram. Temer quer fixar em 65 anos a idade mínima para se aposentar, igualando trabalhadores do regime próprio (funcionários públicos) e regime geral (celetistas). Isso sem falar que a expectativa de vida de muitos brasileiros, especialmente nas regiões mais pobres, é abaixo de 65 anos. Na prática, é nos tirar o direito à aposentadoria, nos obrigando a trabalhar até morrer! Engraçado que a proposta vem de um tal Michel Temer que se aposentou com 55 anos ganhando cerca de 30 mil reais.
    1. Ataque especial às mulheres: Ao estabelecer a idade mínima, Temer quer igualar a condição de aposentadoria entre homens e mulheres. Trata-se de uma medida escandalosa que ignora a dupla ou tripla jornada de trabalho feminina e o ganho salarial consideravelmente inferior aos homens, muitas vezes cumprindo uma mesma função laboral. Isto significa que as mulheres, em empregos urbanos, trabalharão mais cinco anos (hoje a idade mínima é de 60 anos); se forem servidoras públicas ou trabalhadoras rurais, trabalharão mais dez anos; se forem professoras da educação básica, trabalharão mais quinze anos!
    1. Ao menos 25 anos de contribuição: a reforma prevê um aumento de 10 anos, passando de 15 para 25, o tempo mínimo de contribuição para se aposentar recebendo 76% do salário na ativa. Há uma regra de transição para mulheres acima de 45 anos e homens acima de 50 anos, que devem contribuir 50% a mais do que o tempo restante para se aposentar.
    1. 49 de contribuição para aposentadoria integral: atualmente, a exigência é de 25 anos, quase a metade do que está sendo proposto. E reparem que não são 49 de trabalho, mas de contribuição da folha salarial! Trabalhadores sem registro na carteira ou desempregados, não contam. Para essa conta ser possível, um jovem de 16 anos precisa trabalhar ininterruptamente até os 65 sem parar, sequer um dia, de contribuir. Em tempos de crise, desemprego e precarização da vida, é simplesmente impossível!
    1. Redução da pensão por morte: será reduzido para 50% do valor, mais um adicional de 10% por dependente. Medida que também ataca principalmente as mulheres, que são as principais beneficiadas e, muitas vezes, dependem disso pra sustentar suas famílias.

    Mentira repetida pra se tornar verdade
    Um dos grandes – e falsos – argumentos que sustentam a proposta da reforma da previdência é o suposto déficit das contas. É uma das maiores mentiras institucionais propagadas por governos e grande mídia em nosso país, e é fundamental que tenhamos a desmistificação desse argumento na ponta da língua pra convencer a população que, na realidade, a previdência, como parte do sistema da Seguridade Social, é superavitária. Hoje, o povo já é roubado pelo Estado, que transfere este dinheiro sobrante para o pagamento de juros da dívida pública.

    A conta é simples: além do que se arrecada com a contribuição ao INSS dos empregados e dos empregadores, há impostos e contribuições que arrecadam para financiar as políticas de proteção social, tais como COFINS e CSLL. A Desvinculação de Receitas da União já retira automaticamente 20% desse valor arrecadado, um verdadeiro roubo descarado e ilegal, já que esses impostos possuem “identidade”, ou seja, não poderiam ser gastos para outros fins. Portanto, o que entra de recursos (já descontado a DRU!) é um valor mais alto que o gasto com a previdência.

    Ao invés de impor uma reforma que acaba com nossos direitos, o justo seria utilizar esse recurso sobrante – que em 2014 foi de 53.892 bilhões de reais – para aumentar os benefícios aos trabalhadores, investindo pesado em saúde pública, assistência social e previdência. Dos mais de 200 milhões de brasileiros, 82 milhões sobrevivem graças a 35 milhões de benefícios previdenciários. Destes, 82% são de valores entre 1 a 3 salários mínimos. É realmente dessa gente que o governo quer tirar para pagar a conta de uma crise que os grandes banqueiros e empresários criaram? Que façam uma auditoria da dívida pública e parem de escoar – ilegalmente! – os recursos da Seguridade Social para o pagamento dos juros da dívida.

    As ocupações estudantis de 2016 foram só o começo
    Se nos tiram o direito ao futuro, também nos deixam sem medo para enfrentar os gigantescos ataques que estão por vir. No ano passado, estudantes do país inteiro demonstraram a força do movimento estudantil, e ocupamos mais 1000 escolas e universidades em todo o país. Infelizmente, mesmo com esse gigantesco processo de resistência, não conseguimos barrar a PEC 241/55 que congela investimentos em saúde, educação e áreas sociais por 20 anos. Fomos à Brasília no dia da votação, mas a única resposta que tivemos foi a repressão. Do lado de dentro do Congresso Nacional, votavam sem remorso contra o futuro do país e da nossa juventude.

    Hoje, olhando pra trás, é possível perceber quais foram as principais razões para que a grande onda de ocupações estudantis não terminasse em uma vitória. O movimento, por mais forte que tenha sido, não conseguiu ultrapassar os muros das escolas e universidades e chegar até o conjunto da classe trabalhadora. Além disso, não conseguiu construir ferramentas que unificassem nossas bandeiras, fazendo com que Centrais Sindicais, Frentes Nacionais, organizações e movimentos intervissem em conjunto, numa grande Frente Única pra lutar. A oportunidade com o dia 15 é, exatamente, superar essas barreiras.

    As associações sindicais docentes e dos técnico-administrativos estão convocando paralisação das aulas em escolas e universidades. É fundamental que o movimento estudantil entre com força, que a UNE, ANEL, DCEs, Centro e Diretórios Acadêmicos, Grêmios e coletivos estudantis mobilizem cursos e escolas para promover atividades e engrossar as manifestações de rua.

    No dia 8 de março, com as mulheres à frente, tivemos o primeiro grande enfrentamento contra a Reforma da Previdência em atos massivos de norte a sul do país. É fundamental que o dia 15 aprofunde ainda mais essa resistência, e que a partir daí, transformemos a luta numa grande campanha unitária que dialogue com os trabalhadores e a juventude, nos locais de trabalho, estudo e moradia, sobre a imensa necessidade de resistir.

    Há uma iniciativa nacional, impulsionada pela Auditoria Cidadã da Dívida, de realização de um Plebiscito Popular contra as reformas da previdência e trabalhista que deve ser impulsionado em todos os estados. Podemos criar comitês contra a reforma da previdência onde for possível, e transformar essa em nossa grande batalha contra Temer e seus aliados golpistas. Com muita unidade, reacendo a força dos trabalhadores e explorando o potencial de uma juventude destemida que não tem nada a perder, e já demonstrou isso com as ocupações de 2016, é possível acreditar em nossa vitória.

    Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil