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  • Minhas memórias do dia 20 de junho de 2013

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Hoje vamos para mais uma audiência do julgamento do Bloco de Lutas. Resolvi refletir sobre o dia que vivemos há quatro anos.

    Aquela quinta-feira foi o ápice de uma semana intensa. De quinta à quinta o Brasil acumulou uma energia política inovadora, as ruas pulsavam. Os protestos organizados por movimentos como o MPL (SP) e o Bloco de Lutas (POA) ganharam a solidariedade e a simpatia de milhões de pessoas. O editorial da Folha de São Paulo exigindo repressão impiedosa aos manifestantes no 13J foi dois dias antes do início da Copa das Confederações, já a manifestação nacional monstra do 20J ocorreu um dia depois da dupla Neymar e Jô guardar dois gols no México. É que ai a ação coletiva nas ruas já era o centro das atenções ao invés dos gramados. O pacto selado entre multinacionais e governantes foi para os ares quando irrompeu o povo jovem e trabalhador, maioria nas ruas durante as jornadas.

    Repressão na Ipiranga

    Repressão na Ipiranga

    Eu acordei cedo. Fui fazer uma panfletagem para divulgar o ato das 17h no Paço Municipal. Chovia num frio de “renguear cusco”. Sai de casa as 7h e fiquei com a mesma roupa até o final do dia. A tensão começou muito antes do ato. No início da tarde recebemos a notícia da invasão na sede da Federação Anarquista Gaúcha. Homens que diziam ser da Polícia Federal entraram e vasculharam o Ateneu Libertário pra levar materiais políticos e livros. A escalada repressiva contra o Bloco de Lutas já tinha começado em abril, mas esse fato mostrou que a perseguição ficaria mais intensa com o crescimento dos atos. Naquela noite cerca de 850 homens da Brigada Militar foram pras ruas reprimir o ato, num mega aparato que se concentrou majoritariamente em três pontos: na frente da Zero Hora, nos arredores da Matriz e, no final do ato, entre o Glênio Peres e as principais paradas de ônibus do Centro.

    Rapidamente convocamos uma coletiva de imprensa no DCE da UFRGS as 16h. Contatamos toda a imprensa local e decidimos um método pra fazer a coletiva que não focasse numa liderança específica nos microfones. Algumas pessoas se revezaram a cada parágrafo atrás de outras pessoas que seguravam faixas e cartazes. Falamos da perseguição política, mas tentamos puxar a atenção pras demandas do movimento, já que a Zero Hora divulgou pautas que não eram as nossas pra começar a operação de sequestro das manifestações, além de dizer que recebíamos treinamento de guerrilha através de movimentos internacionais (!).

    Coletiva de imprensa do bloco de lutas

    Coletiva de imprensa do bloco de lutas

    Quando chegamos no protesto uma multidão já se aglomerava entre a Esquina Democrática e a prefeitura. Chovia bastante, mas descobri a incrível sensação de marchar encharcado ao lado de milhares de pessoas. A manifestação se dividiu em duas. De um lado o Bloco de Lutas querendo ir ao Piratini, do outro pessoas que não temos como saber quem eram coordenando uma manifestação em direção a Zero Hora. Calcular quantos éramos é uma tarefa pendente que em breve vou resolver, mas as duas marchas se encontraram na João Pessoa com a Salgado Filho. A pressão para descermos até a Ipiranga venceu porque vínhamos de uma rua menor, o que nos tirava a condição de influenciar no itinerário, mas também sugere que a manifestação que encontramos era ainda maior que a nossa.
    A Brigada Militar fez subir uma cortina de gás nunca vista em Porto Alegre, foi mais de uma hora de enfrentamento na Ipiranga com a Azenha sobre uma manifestação que até então seguia pacífica e tranquila. Nessa altura do campeonato já não tínhamos domínio de fato algum, ao contrário do que pensa o Delegado. Queríamos apenas nos proteger e cuidar uns dos outros para seguir em luta. Nossos corpos eram as armas que tínhamos para batalhar pelas ideias que acreditávamos naquele Junho.

    Foi um dia emblemático. Depois do 20J, o MPL disse que não chamaria mais protestos em São Paulo e a participação das organizações de esquerda nas manifestações começava a ficar difícil em todo o país. Em POA tivemos outro ato na segunda (24J) e na quinta (27J), numa dinâmica distinta das outras metrópoles, mais articulada em torno das manifestações que organizávamos devido à existência do ciclo anterior de março e abril. Já os Marinhos agiram rapidamente e em poucas horas fizeram um Globo Repórter criando o seu perfil de movimento (branco, de classe média e verde-amarelo), no sábado veio a Veja etc. Enquanto isso, Dilma fazia seu pronunciamento em rede nacional falando de democracia e liberdade de expressão, direitos sociais, amor dos brasileiros pelo futebol e combate a violência nos atos, na impossível tarefa de agradar gregos e troianos. Foi nesse dia que prenderam o Rafael Braga.

    Quatro anos depois retomo essas lembranças tentando seguir o conselho de Walter Benjamim nas suas Teses Sobre História. Mesmo que olhando para o passado com sabor já insípido, prefiro usar da minha memória para tentar despertar “as centelhas da esperança”, por que sim, “nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. Seguimos em luta, olhando pra frente!

    Fotos de POA: Ramiro Furquim e Bernardo Jardim; RJ: autor desconhecido.

  • Três tarefas e três destinos possíveis para a Oposição de Esquerda da UNE

    Por Lucas Brito, de Brasília, DF

    Há anos, os congressos da UNE “passam batido” frente às grandes tarefas dos trabalhadores e estudantes brasileiros. O nível de contribuições desses congressos, bem como de sua entidade, foi resumido ao limite. A UNE perdeu seu brilho e seu vigor. Sob a direção do bloco majoritário liderado pela UJS/PCdoB a entidade viu sua história, sua capilaridade e referência entre os estudantes serem utilizados como instrumentos para a simples perpetuação burocrática desse setor em sua direção.

    Do ponto de vista político, essa burocracia submeteu a entidade aos mandos e desmandos dos governos de conciliação de classes encabeçados pelo PT de Lula e Dilma. Sendo assim, em nome da defesa da expansão universitária e do sonho de milhões de poder chegar ao ensino superior, a UNE se dobrou diante dos tubarões de ensino, vendo os cofres desses se multiplicar ao extremo.

    Contudo, a história guarda suas ironias e agora, diante do governo golpista de Michel Temer e o avanço das reformas que acabarão com todos os direitos dos trabalhadores e o futuro da juventude, mais uma vez a UNE se vê confrontada pelo destino, agora localizada na oposição ao atual governo. Honrará sua história mais antiga de lutas, ou seguirá empoeirada pelos fofos tapetes dos gabinetes da história mais recente?

    Até aqui, a entidade seguiu tímida, não conseguindo cumprir papel de destaque na greve geral do dia 28, ou na grande ocupação de Brasília, no dia 24. Os dois destinos possíveis aumentaram as expectativas no 55º CONUNE. Agora, depois de décadas, o Congresso da UNE volta a ser esperado e sobre ele rodeiam esperanças e exigências. Da nossa parte, assim como os coletivos da Oposição de Esquerda, temos certeza, nos preparamos para uma grande luta contra o Campo Majoritário, mas também contra o Campo Popular, para que a UNE não vacile na luta pela derrubada de Temer, pelo fim da tramitação das reformas e anulação do que já foi aprovado, e a convocação de um processo democrático de saída para a situação do Brasil,  o que acredito passar pela convocação de eleições diretas para presidente e também para o Congresso Nacional.

    As três tarefas da Oposição de Esquerda da UNE
    A juventude do MAIS recém ingressou enquanto organização política na UNE, o que foi completado pela nossa adesão ao campo político da Oposição de Esquerda da UNE. Como somos uma corrente recém-ingressante ao campo, pedimos licença para apontar aquilo que achamos ser fundamental como tarefas políticas do mesmo.

    1 – Disputar politicamente o CONUNE e toda a UNE para ser uma Frente Única das lutas

    Em primeiro lugar, esse Campo Político é o único capaz de representar hoje o passado de triunfos e coragem da UNE. Reivindicamos líderes como Honestino Guimarães e tantos outros que deram suas vidas para construir uma entidade de lutas. A UJS e seu bloco político sustentado por acordões já se demonstrou incapaz de conduzir politicamente a entidade para as lutas. Só o fará quando derrotada, provavelmente não do ponto de vista formal, pois sabemos bem das fraudes e outras formas de se perpetuar na direção da entidade, mas na arena da política. A Oposição de Esquerda deve almejar a disputa política da UNE e de todos os estudantes que resguardam referência ou esperança nessa entidade. Devemos disputar a UNE para que essa cumpra um papel de Frente Única na luta pelo Fora Temer e suas reformas.

    Isso significa a batalha cotidiana para que a UNE exista e organize os estudantes nos locais de estudo. Que coloque toda a sua estrutura a serviço das lutas, que mobilize os estudantes junto com os trabalhadores. Logo após o CONUNE, teremos um grande teste, a greve geral do dia 30 de junho. Devemos jogar todo o nosso empenho para que a UNE aprove uma série de medidas para construir uma grande greve nacional estudantil com ocupação das ruas ao lado dos trabalhadores.

    2 – Servir como uma frente de esquerda unificada na juventude, por um novo projeto político para o Brasil

    Além de imobilizar a entidade para as lutas, a direção majoritária da UNE também submeteu esta a um projeto político de conciliação de classes e de pequenas reformas, visando o enfrentamento à pobreza por meio do consumo, aprofundando ainda mais a desigualdade social. Esse projeto político encabeçado pelo PT se demonstrou incapaz de conduzir o país a uma nova agenda de desenvolvimento econômico e redução das desigualdades de fato. Verificando-se apensas um período de crescimento econômico dependente do mercado internacional, quando esse acabou, com ele também acabou nosso “desenvolvimento”. Não o estamos questionando por não terem feito revolução, o criticamos por aquilo que pretenderam fazer e, além de não fazerem, jogaram na lata do lixo todo o projeto político que encantou milhões desde as lutas do fim dos anos de 1970.

    Agora, não satisfeitos, os setores da direção majoritária e o Campo Popular propõem reeditar a história, defendendo o mesmo modelo de governo de conciliação de classes para o Brasil, em 2018. É preciso aprender com o passado, especialmente o recente, e sob o qual sofremos suas piores consequências. Um projeto político de acordões entre trabalhadores e empresários/banqueiros mostrou que quem sai ganhando é o dono do bolo, o lado de lá. Passado um ano desde o golpe parlamentar, todas as pequenas conquistas e concessões do governo estão sendo perdidas. Nas universidades, o cenário de precarização, ausência de assistência estudantil e etc são a prova da ineficiência desse modelo de políticas públicas.

    Portanto, a Oposição de Esquerda tem a tarefa política e estratégica de representar na juventude a conformação de uma frente de esquerda capaz de impulsionar a construção de um novo projeto político para o Brasil. Livre da conciliação de classes e com um projeto que se oriente pelo combate à desigualdade social, reconhecendo o papel dependente do nosso país, suas “missões” de exploração de outros países, ou seja, de gerente do imperialismo norte americano nos países vizinhos no nosso continente e no continente africano; à ditadura “velada” contra jovens negros nas periferias e ao conjunto das consequências da escravidão que ainda hoje dão base para imensos índices de superexploração da nossa classe trabalhadora, entre outros.

    Sendo assim, extrapolar os muros da UNE e do movimento estudantil e servir como uma referência política para os jovens que nutrem a coragem de construir um futuro diferente para o Brasil. Devemos ser, no Brasil, a expressão da radicalidade à esquerda enquanto saída para a situação de crise mundial que mais uma vez o capitalismo impôs à humanidade.

    3 – Servir como organizadora das lutas e dos lutadores

    Sem prejuízo à tarefa de lutar por uma UNE das lutas. O Campo da OE – UNE já mostrou que tem capacidade de organizar lutas e seus lutadores. Esse campo, para além de se organizar para disputar os fóruns da UNE, deve servir como uma referência direta para os estudantes, por meio de chamados próprios, agenda de atividades nacionais e regionais, publicações periódicas. Ou seja, servir como uma organizadora coletiva dos jovens lutadores pelo Brasil.

    Acabamos de encerrar a fase de eleição de delegados ao 55º CONUNE. Como não poderia deixar de ser, esse período é marcado por intensos conflitos e o índice de tensão vai lá para as alturas.

    O desafio da unidade às vésperas do CONUNE
    é sabido que, desde o último CONUNE, o bloco da Oposição de Esquerda da UNE veio se defrontando com os desafios próprios do repique cada vez mais acelerado da conjuntura. São várias as organizações políticas nesse bloco e, do ponto de vista tático, há importantes diferenças.

    Contudo, o nível de tensão instaurado entre os coletivos da oposição de esquerda não se explica pelas pequenas diferenças de análise, caracterização e política para a realidade. Isso não significa que não haja diferenças. Mas, por mais que possam parecer, não são suficientes para nutrir o nível de tensão atual. Desde o início dos governos do PT, esse é o maior desafio com que a esquerda radical se defronta. É natural que faça com que borboletas façam rasantes em nossos estômagos. Mas, como disse minha amiga Camila do GT Nacional do Juntos! em seu facebook: “O movimento estudantil é portador do novo, por isso nossa tarefa é fortalecer o campo dos que lutam, mas sabemos que não nos bastamos sozinhos nessa tarefa. Por isso a unidade do campo da Oposição de Esquerda é fundamental”. E como não começamos agora, sabemos bem não só as delícias, mas também as dores da construção da unidade. Essa não se faz por decreto, nem por imposição. A unidade é uma construção onde cada parte importa e que muitas vezes devemos optar por ir mais devagar para irmos juntos. E uma ótima definição sobre o método da relação entre as correntes surgiu no texto recentemente lançado pelo RUA – Juventude Anticapitalista: “a política e o respeito a posições diferentes devem ser sempre os critérios-mestres na relação entre as organizações de esquerda, balizadores de uma política democrática, assim como são entre uma diretoria e as bases de um DCE ou de um sindicato”.

    O ambiente da disputa de delegados e cargos na UNE é asfixiante. Isso, pois a estrutura dessa disputa está corrompida por anos de condução burocrática pela UJS e seu grupo de aliados. Sabemos que, por todas as fraudes, o controle da máquina e as artimanhas burocráticas, a eleição da direção da UNE abre muito pouca margem de incertezas, quase um jogo de cartas marcadas. Sendo assim, os coletivos da Oposição de Esquerda se defrontam com a ansiedade justa por disputar o melhor posicionamento possível, buscando impor, por menor que sejam, derrotas à UJS. E uma das regras básicas que vale para todos os terrenos: dividir quando se tem pouco é sempre uma sentença de conflitos. Portanto, somente compreendendo a real magnitude da nossa estratégia é que poderemos enxergar que não lutamos por alguns delegados a mais e veremos que o espaço que almejamos ocupar é muito maior que todos nós juntos. A unidade do bloco da Oposição de Esquerda depende cada vez mais da capacidade dos coletivos em compreender a importância do crescimento do conjunto do campo. As vitórias da UJR também são vitórias do MAIS, e assim também da UJC e etc. Engana-se a corrente que acredita, mesmo que por um momento, que ganha com o enfraquecimento de outra força política da OE. Para crescer o bloco, devem crescer todos os coletivos. Isso significa não se pautar pela autoconstrução apenas, mas entendendo o valor estratégico desse campo.

    A tensão sobre nós é desproporcional se insinuamos jogar no campo do inimigo e passamos a ser pressionados essencialmente pela quantidade de delegados, quando deveríamos estar utilizando todas as forças para fortalecer nossa unidade desde a construção das chapas nas universidades e trazer as batalhas para a nossa arena, a política. É aí que estamos mais fortes. Nossa disputa é, em primeira ordem, política. E o restante são nossos instrumentos para melhor dar essa batalha de forma unificada.

    Os três destinos possíveis da Oposição de Esquerda da UNE
    Tenho a impressão de que a Oposição de Esquerda está diante de um grande desafio histórico, o maior desde sua criação. E como não poderia deixar de ser, o desenvolvimento da sua história se dará em saltos. Sendo assim, vejo três destinos possíveis.

    O primeiro seria o seu fim. Nos perdermos no terreno burocratizado das disputas da UNE, sucumbirmos às pressões que os setores da Frente Popular lançam contra nós e sobrevalorizarmos as diferenças políticas táticas que existem no nosso campo. Esse destino seria um marco de derrota para o cenário do 55º CONUNE, para a luta pelo Fora Temer e contra as reformas, as também para o possível cenário político futuro. Essa seria uma derrota para a reorganização política da nossa classe no meio do seu setor mais entusiasmado, a juventude.

    O segundo destino possível é uma sobrevivência apática, por inércia. O cenário em que ninguém aceita ser o coveiro, então deixa a unidade vagando como apenas uma sombra do que foi, ou poderia ser. Nas aparências seguiríamos compondo um campo político, mas em essência já não haveria nada. Com as relações de confiança rompidas, os laços políticos esquecidos, só nos restariam algumas – poucas – agitações comuns no meio das preocupações sobre qual setor aparece mais e primeiro e etc. Esse destino não passaria de um caminho diferente que levaria, inevitavelmente, ao primeiro. Seria só uma forma de atrasar a derrota política imposta pelas disputas pequenas.

    Já o terceiro destino é o do crescimento e fortalecimento do campo da Oposição de Esquerda. Onde saibamos utilizar os dois novos ingressos, do MAIS e da UJC. Nesse CONUNE deveremos alcançar a maior delegação da nossa história, mostrando um acerto político do campo. Nesse destino, nos nutriríamos da crescente radicalidade dos setores de esquerda da sociedade e das crescentes mobilizações. A juventude de luta e que não está atrelada ao passado é a real portadora do novo. Esse destino é o do salto de qualidade positivo para a Oposição de Esquerda – UNE. Assim, assumiríamos o gigantismo das nossas tarefas políticas.

    Para tal, se faz necessário, nesse momento, deixar de lado as disputas pequenas e nos apoiar nas qualidades das correntes e nos nossos acordos, ao invés de nos centrarmos nos defeitos de cada uma e nas nossas diferenças. Pois a batalha que temos pela frente se dará em dois fronts ao mesmo tempo. De um lado, a grande luta fundamental e amplamente unitária contra Temer e os interesses diretos da burguesia com as reformas trabalhista e previdenciária; do outro lado, seguirá a batalha para impedir que a juventude e os setores mais avançados do povo trabalhador voltem mais uma vez, por medo, a embalar os projetos de conciliação de classes e de pequenas concessões experimentados nos governos do PT. O MAIS, de Norte ao Sul do país, em todos os seus setores, especialmente nossa juventude, se coloca à disposição para o destino de fortalecimento da Oposição de Esquerda da UNE.

    Vida longa à Oposição de Esquerda da UNE! Vida longa ao novo! Está na hora de virar o jogo!

  • 30 de maio: Aprovar cotas étnico – raciais na Unicamp!

    Por Luana Barbosa e Victoria Ferraro, estudantes da Unicamp, Campinas, SP

    No dia 10 de Maio de 2016 estourou uma das maiores greves da história da Unicamp. O mote dela era “Cotas Sim, Cortes Não, Contra o Golpe, por Permanência e Ampliação!”. Durante 3 meses houve uma intensa disputa pela pauta das Cotas, que foi tomada como prioritária pelo Movimento Estudantil.

    Após incessantes negociações, o movimento saiu com uma grande vitória. Foi acordado com a Reitoria a formação de um Grupo de Trabalho (GT) e a realização de três audiências públicas cujos temas seriam: Perspectiva histórica e o papel da Universidade Pública no Brasil, Experiências Nacionais e Internacionais do Projeto de Cotas e PAAIS, seus alcances e limites, e após as audiências iria para votação no Conselho Universitário (CONSU) um projeto de cotas étnico – raciais na Unicamp. Durante as discussões ficou evidente o acúmulo que o Movimento Negro possuía para disputar este projeto. Ao fim do processo das audiências o GT apresentou um projeto de cotas étnico – raciais para a Unicamp que consiste em reservar 50% das vagas para estudantes oriundos de escolas públicas e com renda per capita de até 1,5 salários mínimos, 37,2% (porcentagem de pretos e pardos no estado de SP) para pretos e pardos, e a criação de até duas vagas por curso para indígenas.

    São nesses marcos que nessa terça-feira, 30 de maio, o Conselho Universitário votará o princípio de Cotas. A Unicamp possui mais de 10 anos de atraso em relação às primeiras instituições de ensino que implementaram as ações afirmativas. Esta Universidade é historicamente branca e possui essência elitista. Durante décadas se recusou a pagar sua dívida histórica para com a população negra. Convém que não nos esqueçamos que Campinas foi a última cidade do Brasil a abolir a escravidão, convém que não nos esqueçamos que Barão Geraldo, distrito onde a Unicamp fica, foi um grande escravocrata, convém que não nos esqueçamos que a população negra só adentra o feudo que esta Universidade se tornou em funções precarizadas, convém que a branquitude construiu a “excelência” sobre as costas e sangue de negras e negros, que jamais entraram aqui e são constantemente invisibilizados. Convém que conselheiros, professores e a branquitude da Unicamp compreendam que historicamente têm tirado proveito da desigualdade social, econômica, epistemológica e política decorrentes da era escravocrata. O ambiente universitário barra através do Racismo Institucional a entrada da população negra, não garante a permanência dos poucos que passam pelo filtro social que é o vestibular, pune aqueles que lutam por melhorias e faz questão de manter sua estrutura elitista e europeia. A Universidade continua sendo feita por pessoas brancas e para elas. A única maneira de efetivamente revertemos este sistema é começarmos a pagar a dívida histórica que as Cátedras da Academia têm para com a negritude. A entrada em massa da população negra na Universidade Estadual de Campinas também atinge um ponto muito importante dentro da Academia, a disputa epistemológica. A negritude terá mais força para questionar como o conhecimento é passado, quais autores regem a produção acadêmica e a inversão de quem é o objeto de pesquisa e quem é o pesquisador. Lutamos para que negras e negros possam ter o acesso à acumulação e sistematização do conhecimento. Queremos representatividade nas cadeiras universitárias, queremos o direito de falarmos por nós mesmos e por contarmos sob a nossa ótica como é a nossa história. Nossos corpos e mentes nos espaços importam!

    Também é importante lembrar que, a Unicamp junto com a USP, as universidades de “excelência” no país, comparadas com outras universidades federais e estaduais, são retaguarda na discussão e implementação de cotas étnico – raciais. A aprovação de cotas na Unicamp no CONSU do dia 30, fortalece também a luta por cotas na USP e representa uma derrota para o governo do estado de SP que mantém nessas duas universidades redutos racistas.

    Sabemos que a aprovação do principio de cotas no CONSU é só o começo de uma luta por verdadeira inclusão. Ainda teremos que lutar pela consolidação do projeto proposto pelo Grupo de Trabalho da Frente Pró-Cotas, pelo bom recebimento e permanência da população negra que está por vir, pelo fim do Eurocentrismo acadêmico e contra o racismo e suas capilaridades. Além disso, vários estudantes que participaram da greve estão sofrendo processos disciplinares, inclusive o único processo que já resultou em uma punição (suspensão por dois semestres) é de um estudante negro, Guilherme Montenegro.

    No dia 30 de Maio de 2017, convidamos todas e todos ao Ato Nacional por Cotas na Unicamp. Ele acontecerá em frente ao Conselho Universitário da Unicamp. Que a partir deste dia a Universidade se Pinte de Povo!

    No dia 29 também ocorrerá um festival cultural que além de várias atrações, vai contar com a presença da Preta Rara e MC Linn da Quebrada!

    Confira a programação no evento:
    https://www.facebook.com/events/505210786500559/permalink/507040802984224/?ref=22&action_history=%5B%7B%22surface%22%3A%22timeline%22%2C%22mechanism%22%3A%22surface%22%2C%22extra_data%22%3A%5B%5D%7D%5D

    “Não temos tempo para abrir mão de qualquer instrumento de luta. Se os brancos podem abrir mão do conhecimento sistematizado, eles que abram mão. Não deixarei nenhum dos nossos abrir mão do que a humanidade produziu e tomar este conhecimento para transformar a sua e a nossa realidade. Eu afirmo que, em nossas mãos, o conhecimento sistematizado pode tomar uma dimensão revolucionária. É tudo nosso e nada deles!” (Pinho, 2015).

    COTAS SIM, COTAS JÁ! QUEM LUTA PELA EDUCAÇÃO NÃO MERECE PUNIÇÃO!

    Arte: Helen Aguiar

  • Minha primeira greve geral e os desafios da juventude

    Por: Priscilla Costa, de Salvador, BA

    Escrevo esse texto com um certo atraso, talvez do ponto de vista da data, mas não do peso histórico do fato. A essa altura, muitas análises e opiniões sobre a greve geral do dia 28 de abril já foram feitas por parte das mais distintas referências: centrais sindicais, a grande mídia, diversos ativistas com seus textões de facebook, sociólogos, historiadores, entre outras abordagens. O dia 28 entrou para a história e foi assunto não só no Brasil, mas também no mundo. Segundo muitas fontes, a expectativa é de que tenha sido a maior greve geral da história do país. E, pela extensão territorial brasileira, há a possibilidade de que esteja também entre uma das maiores do mundo.

    Na data, vivemos grandes manifestações em todos os estados, contabilizando protestos em 254 cidades, desde as capitais, até as pequenas cidades do Interior, o que comprova a abrangência da luta contra as reformas da Previdência e Trabalhista. É praticamente incalculável o número de trabalhadores que pararam suas funções. Além do setor de transporte, paralisaram os trabalhadores dos bancos, escolas, indústria e comércio.

    Combinado às paralisações, tiveram também os numerosos atos de rua. Escrevo de Salvador, Bahia, aonde foi expresso um dos atos de maior número. Ao todo, foram 72 mil pessoas, segundo boletim informado pela PM-BA, mesmo sem transporte público funcionando. A maior manifestação de rua na capital baiana desde as jornadas de junho de 2013.

    Para quem viveu o momento e construiu o dia não há dúvidas: entramos para os livros de história e contaremos esse dia para as próximas gerações com orgulho.

    É preciso um novo junho, à esquerda e radical
    No próximo mês, completaremos exatamente quatro anos de uma das maiores manifestações marcadas pela juventude brasileira: junho de 2013. O próximo junho virá diante de um cenário de retirada de direitos e em tempos de figuras como Trump, Bolsonaro e Temer. O atual presidente brasileiro tem o governo mais impopular da história do Brasil. As últimas pesquisas mostram que a grande maioria da população está contra Temer e suas reformas.

    Também não é novidade que ele não se importa nem um pouco com o apoio popular e tem pressa em aprovar as reformas que só favorecem a elite dominante do nosso país, como a lei da terceirização, PEC 55, entre outros exemplos.

    Junho de 2013 mostrou o potencial que as lutas têm de fazer tremerem as estruturas das classes dominantes do país. Mas, também mostrou que uma luta sem horizonte bem definido pode se dispersar e retroceder na oportunidade histórica de fazer mudanças. O dia 28 de abril trouxe uma nova lição: mostrou a importância das bandeiras que estão do lado da classe trabalhadora e da juventude, dos sindicatos, da esquerda, movimentos sociais e da unidade entre os que lutam para organizar a resistência.

    Ocupar Brasília e construir uma nova greve geral
    Estamos diante de um cenário em que muita gente se pergunta qual é o caminho para derrotar Temer. Para a nossa geração, que viveu a experiência de junho e da greve geral, é preciso apostar nas lutas e construir o novo. Não precisamos reeditar o passado. Não podemos esperar uma saída eleitoral apenas em 2018. Em 2018 será tarde demais. Hoje, a única alternativa capaz de barrar a reforma trabalhista e da previdência é a luta através da unidade e por uma saída radicalmente anticapitalista e à esquerda.

    É preciso fortalecer as lições tiradas, as urgências do momento e avançar para a construção de uma outra greve geral no país que venha a derrubar, definitivamente, as reformas de Temer e o seu governo ilegítimo. As centrais sindicais aprovaram para o dia 24 de maio uma marcha a Brasília unitária contra as reformas. Mais do que nunca, é preciso ocupar Brasília e sair de lá com uma nova data para uma greve geral de 48 horas.

    Não nos faltam motivos para lutar. Estamos diante de um novo momento, uma nova oportunidade e tarefa histórica. Não temos nada a temer.

  • Antes fosse apenas uma foto

    Por: Clara Saraiva, do Rio de Janeiro e Diogo Xavier, de Recife

    Há poucos dias, a presidenta da UNE, Carina Vitral, tirou uma foto com José Serra (PSDB) que, depois de publicada no facebook, causou um grande rebuliço. Vivemos na era da super informação, as imagens e os debates se viralizam rapidamente e multiplicam-se as polêmicas, mesmo que de forma efêmera. No caso da foto em questão, não demorou muito e a UJS recebeu uma enxurrada de críticas sobre a Carina “sorrindo e abraçada” com o golpista do Serra. Muitos de seus militantes rebateram, valorizando a “iniciativa democrática” e ridicularizando as “críticas infantis”. Diante desse cenário, vale a pena uma reflexão sobre o assunto que saia da reação espontânea e, muitas vezes, superficial, da rapidez da internet.

    O contexto da foto é a filmagem de um documentário sobre a UNE, mais especificamente sobre a sede da UNE, incendiada um dia após o golpe militar de 1964, quando José Serra era o presidente da entidade. Esse fato, do ponto de vista documental, torna natural que o ex-ministro de Temer seja entrevistado. Não se pode apagar o passado, e concordamos que é muito importante que essas histórias sejam contadas para as novas gerações. Ainda mais do papel fundamental que a UNE teve na resistência à ditadura militar. A foto, por fim, aconteceu a pedido do Serra, para postar em suas redes, registrando a entrevista. Diante disso, Carina devia ter aceitado ou não o convite? Trata-se apenas de uma foto como um registro democrático da história da entidade?

    É muito importante que a UNE tenha se posicionado contra o impeachment, apoioado os atos contra a retirada de direitos e as ocupações estudantis do fim de 2016. O problema é que a UJS, como conduz de forma burocrática e com uma política conciliatória, a impede de fazer isso impulsionando a organização democrática pela base dos estudantes e fomentando um processo de mobilização radical. Dessa forma, faz com que o potencial da UNE em ser uma entidade nacional que organiza milhares de entidades estudantis e quase a totalidade dos agrupamentos organizados de juventude se perca totalmente.

    Não é novidade o papel traidor que cumpriu a UJS quando, por exemplo, negociou o direito dos estudantes à meia-entrada, aceitando sua restrição para 40% das bilheterias em troca da volta do monopólio das carteirinhas da UNE. Ou seu apoio irrestrito e acrítico a todas as políticas dos governos do PT, combinado ao silêncio diante dos sucessivos cortes para as áreas sociais. Fizeram da UNE um aparato institucional. Mesmo depois das grandiosas Jornadas de junho de 2013, que transformaram radicalmente o movimento estudantil, ou ainda depois do golpe parlamentar, quando se localizaram na oposição ao governo federal, não mudaram esse caráter da entidade. Fazem aparições midiáticas e chamados formais à mobilização, mas não fortalecem a organização democrática de base dos estudantes.

    Carina é uma dirigente da UJS, juventude do PCdoB. Antes fosse só a fatídica foto que juntasse este partido e o PSDB. Nas últimas eleições para o governo do Maranhão, o PCdoB encabeçou com Flávio Dino uma chapa com uma ampla aliança, que incluía os golpistas do PSDB e DEM. Curiosamente, os partidos da direita tradicional têm ensaiado um distanciamento com o governo do PCdoB, buscando um alinhamento mais sintonizado com a conjuntura nacional, ou seja, com o PMDB de Temer. E é o governador do PCdoB que tem brigado para continuar a aliança. Há poucos dias, Flávio Dino deu a seguinte declaração: 

    “Podemos e devemos falar de futuro. É de minha vontade que o PSDB continue compondo chapa majoritária com o PCdoB. Estou muito feliz em estar aqui avaliando com vocês os avanços que este partido nos ajudou a construir no governo do Estado. O Brandão é um presidente eficiente. O PSDB continua em mãos eficientes e honradas. Espero que o PSDB continue crescendo em nosso estado – é um desejo sincero do meu coração – com toda minha gratidão e solidariedade”.

    Por detrás dessa postura, está a concepção e a estratégia do PCdoB. Nem depois do golpe, se furtam a construir projetos e governos junto com os golpistas. São um partido completamente adaptado ao Estado e à gerência do capitalismo, ainda que estejam atualmente no campo de oposição ao governo Temer. Outro exemplo recente é o apoio da bancada do PCdoB à eleição de Rodrigo Maia, deputado do DEM que votou a favor do impeachment de Dilma, para presidente da Câmara dos Deputados. A declaração do líder da bancada, Daniel Almeida, não deixa dúvidas da política conciliatória e pragmática: “Não se trata de uma disputa entre direita e esquerda. Não há hipótese de um candidato de oposição ganhar. Queremos o compromisso com o funcionamento regular da Casa (…)”. Casa, essa, que funcionando regularmente tem votados projetos como a lei da terceirização e a reforma trabalhista. Exemplos como esses, que infelizmente não são casos isolados, expressam que o PCdoB não aprendeu com o golpe e mantém uma conduta absorvida à institucionalidade e à velha forma de fazer política.

    Em um vídeo divulgado em abril, a UNE coloca que seria uma entidade “nem de direita, nem de esquerda”. Tentando dar um ar de “neutralidade”, busca abraçar uma parcela da juventude distante da UNE e legitimar a entrada de setores de direita que se organizam com mais força pra disputar a entidade através do MEIO – Movimento Estudantil Independente Organizado. No entanto, essa suposta neutralidade joga a favor dos nossos adversários, num contexto em que precisamos disputar a juventude para se organizar e resistir com força. Enfraquecem o caráter combativo da UNE, já tão apagado pela condução da UJS.

    Vivemos em um contexto em que é muito importante a disputa ideológica. Figuras abertamente da direita reacionária, como Dória e Bolsonaro, levam jovens a apoiar ideias preconceituosas e conservadoras. A “neutralidade” nunca foi o lugar das entidades que estão ao lado do interesse dos estudantes. A foto pode, em si, parecer pouco. Mas esconde uma concepção que tem levado a UNE para o caminho da institucionalidade e da defesa de um projeto de mediação com os interesses do capital.

    Infelizmente, é difícil construir qualquer expectativa que seja diferente disso, já que a direção majoritária da UNE trilha há muito tempo essa aproximação com os inimigos da juventude. Foi assim com Sarney, Cunha, Collor, Kátia Abreu e outras figuras bizarras da velha política brasileira. A foto é lamentável simplesmente porque reforça essa conduta. Carina, em sua página no facebook, responde as acusações afirmando: “o diálogo entre pessoas de posições divergentes ou mesmo opostas faz parte da democracia e, na verdade, é a sua essência para a construção de uma sociedade que saiba respeitar todos os seus membros”. E o que fazer diante de uma sociedade ditada por um sistema que não respeita as vidas dos trabalhadores e da juventude? Talvez nossa maior diferença esteja aí. Não respeitamos golpistas, banqueiros, grandes capitalistas e quem governa para massacrar greves, retirar direitos e tirar a vida da juventude negra nas favelas. Não há democracia para todos na sociedade em que vivemos. Por isso, precisamos escolher bem nossos aliados e identificar bem os inimigos. Resta saber se estão dispostos a entrar nessa briga.

    As reformas do governo Temer mobilizaram os trabalhadores e a juventude para resistir. Infelizmente, a participação da UNE nesse processo tem sido extremamente limitada. Até agora, por exemplo, não se posicionaram sobre a necessidade de construir uma nova Greve Geral, não impulsionam Comitês de Base nas universidades, não constróem um calendário próprio de luta do movimento estudantil.

    Junto com a Oposição de Esquerda, apostamos na intervenção no CONUNE para fazer esse debate e ganhar mais jovens para a ideia de que é preciso mudanças profundas na entidade. Não é apostando tudo nas eleições de 2018, ainda mais pra repetir experiências do passado de pacto entre as classes, que vamos resolver os problemas do país. Já passou da hora da UJS rever suas escolhas passadas. Foi um erro tirar foto com Serra? É evidente que sim; na atual conjuntura brasileira é impossível que uma imagem dessa não cause repulsa entre a juventude. O problema, porém, é bem mais de fundo… Antes fosse só uma foto.

  • Justiça suspende páginas do facebook do movimento social da USP

    Luiz Tombini, de São Paulo, SP

    Ontem, 10 de Maio,  o movimento estudantil e dos trabalhadores da USP foi surpreendido com a noticia de que algumas páginas de entidades estudantis e sindicais estavam fora do ar. Por conta dos administradores das páginas, soubemos que se tratava de uma movimentação política e judicial. Pelo menos quatro páginas de entidades foram derrubadas: DCE livre da USP, CAELL, CEUPES e Sintusp.

    Essa ação foi movida judicialmente por João Roberto Gomes de Farias, professor do curso de Letras e ex vice-diretor da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), alegando que essas páginas faziam uso indevido de sua imagem, atacando a sua moral, por conta de um episódio no ano de 2016.

    O episódio a que o professor se refere é a reunião de negociação do movimento social da universidade, que fazia uma greve por cotas e permanência, com a diretoria da FFLCH. Essa reunião havia sido chamada pela própria diretoria.

    No dia em questão esse mesmo professor grita com os manifestantes presentes, inclusive, fazendo agressões verbais à uma ativista trabalhadora da USP e pertencente ao Núcleo de Consciência Negra, que teve sua presença questionada na reunião. O ataque a sua moral seria o repúdio feito pelas páginas das entidades à sua agressão.

    A suspensão das páginas ocorreu após a sentença de 03 de abril que condena um estudante e o Facebook a pagarem uma indenização de 10 mil reais ao professor, e também o Facebook a retirar das páginas o conteúdo dos posts em relação ao episódio. Diante da sentença, o Facebook não tirou apenas os posts e sim as páginas da entidade do ar.

    Toda essa movimentação só reafirma a arbitrariedade do Poder Judiciário no nosso país. Enquanto, estudantes, trabalhadores e militantes negros são perseguidos nessa Universidade por exercer seu direito de manifestação, a burocracia universitária segue atacando nossos direitos, os espaços dos estudantes e trabalhadores e negligenciando a pauta de inclusão, reparação histórica ao povo negro e democracia nessa universidade.

    Por isso, a única saída dessa burocracia é tentar calar a nossa voz, limitando os espaços de difusão das ideias. Não querem que os estudantes saibam o que de fato acontece na Universidade, mas não vão nos intimidar. Hoje, 11 de maio, o movimento estudantil da USP fará uma Assembleia Geral às 18 horas na Prainha da ECA. Estaremos presentes mais uma vez na luta contra a repressão e a criminalização aos movimentos sociais.

  • Juventude do MAIS divulga carta sobre tarefas da juventude anticapitalista e o 55º Congresso da UNE

    Da Redação

    O Esquerda Online recebeu a contribuição da juventude do MAIS direcionada aos ativistas dos movimentos de juventude. Disponibilizamos na íntegra, a seguir:

    “Carta da Coordenação de Juventude do MAIS aos ativistas dos movimentos de juventude

    juventude

    Juventude pelo direito ao futuro

    Participamos de um dia histórico para a classe trabalhadora brasileira. O 28A mostrou a força da nossa classe quando se unifica e decide parar os motores das fábricas, dos ônibus, do trem e do metrô.

    A greve geral de 2017, cem anos depois da primeira, foi combinada com novos métodos de luta, como o trancamento de vias e rodovias das grandes cidades. E lá fomos nós – duas gerações em luta, a mais experiente, protagonista das greves da década de 80 e os jovens trabalhadores, muitas vezes sem emprego formal, estudantes – parar tudo, sim. Literalmente!

    Paramos o país inteiro, nas grandes e também nas pequenas cidades. Para o terror dos “de cima”, nesse dia nos guiamos pelos nossos interesses. Não houve pato, MBL ou Bolsonaro. Foi um dia em que fizemos história com as nossas próprias mãos.

    A batalha está longe de terminar, mas entramos no jogo. Rejeitamos o nocaute e seguem os rounds. O governo Temer e seu projeto radical de ataques, ainda não foi pra lona, mas levou um belo cruzado de esquerda. Agora contamos com a maioria, apesar do esperneio e das mentiras da mídia é evidente que a população está contra as reformas.

    Estamos moralizados e isso é fundamental na guerra. As tentativas do adversário de diminuição de nossa força foram fracassadas, botamos medo neles e não podemos dar-lhes mais trégua.

    O Governo e seus aliados, a mídia e os empresários tentam nos intimidar. Começam a intensificar a repressão, como foi em Goiás com a tentativa de assassinato do jovem Matheus, com os três presos do MTST em São Paulo e com os imigrantes palestinos presos também na capital paulista. Sem vacilar devemos fortalecer a unidade pra lutar e construir um novo dia de greve geral.

    Continuar as lutas e construir uma saída anticapitalista para o Brasil

    Que país queremos? As direções do movimento não estão à altura dos desafios de fazer diferente, de rejeitar o jogo de cartas marcadas, de reinventar o movimento sindical, o movimento estudantil e, principalmente, a política. Os governos do PT são lembrados como um mal menor. No entanto falta autocrítica sobre os anos de conciliação, a lei antiterrorismo que criminaliza os movimentos sociais e tantos outros ataques. Sabemos que a classe trabalhadora pode mais. Que necessita de um projeto ousado. Queremos discutir isso com a juventude e participar da construção do novo. Não podemos ficar reféns do passado.

    Na crise econômica de 2008 o capitalismo iniciou o desmonte das conquistas do período anterior. Na Europa piorou as condições de vida dos trabalhadores drasticamente. Sim, houve muita resistência. Os “Indignados” na Espanha, a “geração a rasca” em Portugal e a “Primavera Árabe”, além das greves gerais na Grécia que nos trouxeram grandes ensinamentos. Foi essa a nossa inspiração para ocupar as ruas em junho de 2013 pedindo mais e levantando o “gigante”.

    Ouvimos a voz daqueles que não se conformavam com o dito “possível”, com o jeitinho das negociatas de um congresso e senado corruptos. Levantaram-se aqueles que viam pingar nas suas torneiras enquanto os ricos nadavam em enxurradas de dinheiro.

    Conquistou-se muito, principalmente o aprendizado indispensável àqueles que só podem contar com suas forças. Mas não fomos ouvidos. O governo do PT preferiu dar ouvidos aos velhos Renan’s, Temer’s, Odebrecht’s, Sarney’s. E não tardou que as coisas ficassem piores. Quando veio a tempestade, a crise econômica, era hora secar a torneira pra valer. Veio um golpe dos tais aliados.

    A realidade nua e crua mostrou que a conivência com o capitalismo não amansa a fera, mas a fortalece. Tanto na Europa como no Brasil, aqueles que buscaram um capitalismo menos desigual foram engolidos por sua versão mais radical: o capitalismo deu em Trump nos EUA, em Golpe no Brasil e pode dar em Marine Le Pen na França.

    O que fazer diante da direita radical?

    Em primeiro lugar precisamos apresentar o nosso programa. E ele também deve ser radical, portanto deve ser deve ser anticapitalista!

    Não poderemos aplicá-lo do dia pra noite. Não achamos que o mundo caminha inevitavelmente para a revolução e para o socialismo. Sabemos que é preciso ganhar a maioria. Transformar as ideias em força social. Acreditamos que não chegaremos a lugar algum se antes não soubermos qual é nosso destino. Cada tática, cada ação, deve estar a serviço de um projeto. É preciso construí-lo. Lutar por ele. Ganhar as mentes e os corações da nossa poderosa juventude não só para as ações corajosas, mas também para uma saída corajosa. Para construir o novo.

    Achamos que o PT não possui mais um projeto novo, não aponta para uma saída. Mas se temos algo a aprender com a sua história é a capacidade da juventude trabalhadora de fazer diferente. Ousaram fazer algo nunca visto no Brasil até os anos de 1980: um partido de trabalhadores. Quando a ditadura fechou os sindicatos eles fizeram assembleias nas ruas. Foram se reunir nas igrejas. Não ficaram presos a miséria do possível. Agora chegou a nossa vez.

    É necessária uma grande unidade política entre as organizações socialistas no Brasil para construir a novidade e se tornar uma referência para aqueles que buscam seguir em frente. A juventude do MAIS está à serviço disso!

    Queremos apresentar algumas propostas de um programa capaz de tirar o país dessa crise. Queremos dizer aos trabalhadores e a juventude porque não devemos pagar o pato. O que poderia então ser feito para que nossas direitos não fossem retirados em tempos de crise?

    1 – Taxação do lucro das grandes fortunas. É preciso tirar do 1% para dar saúde e educação aos 99% que produzem toda a riqueza do país.

    2 – Reforma Urbana e Agrária. Já é conhecido o fato de que nas grandes cidades, em São Paulo, por exemplo existem mais imóveis desocupados, servindo para especulação, do que pessoas sem moradia

    3 – Redução da jornada de trabalho sem redução de salário. Hoje o desemprego é o principal problema do país. Na juventude a situação é dramática mesmo para aqueles que possuem escolaridade. É necessário distribuir os empregos entre todos diminuindo os lucros dos grandes empresários e não os salários

    4 – Todos falam da corrupção, mas nada se fala da punição aos corruptores que seguem em plena atividade. Nossa proposta é a estatização das empresas que roubaram o país. É necessário, sim punir os políticos que desviam dinheiro público. Mas nós também queremos o nosso dinheiro de volta. Não podemos nos iludir com a lava jato, que não passa de uma operação política, para distrair o povo, que não visa acabar com a corrupção, mas atuar no cenário político para favorecer os interesses do imperialismo.

    5 – Chega de pagar juros aos banqueiros. Por uma imediata auditoria da dívida externa que obriga o país a tirar dinheiro do povo em nome de um superávit primário que dê segurança aos grandes investidores.

    Alguns Podem dizer que este programa é radical. Eles têm razão. Temer e sua corja não vacilam em anunciar os seus planos: querem que os trabalhadores trabalhem até morrer, o fim da obrigatoriedade das leis trabalhistas, vinte anos sem investimento em saúde e educação. É pouco? Esta semana foi apresentado um Projeto de Lei que propõe que o trabalhador rural possa ser remunerado com comida e moradia! Escravidão legalizada: Isso sim é radical.

    Na luta imediata temos um programa claro: Contra as reformas! Nesse programa cabem todos os trabalhadores, sejam socialistas ou não, petistas ou não. A lição da greve geral é categórica. As paralisações se deram em grande parte pela unidade da CUT, CTB, Força Sindical, CSP-Conlutas, Frente do Povo sem Medo, Frente Brasil Popular etc. O MAIS e também a sua juventude vem lutando muito pela unidade necessária para derrotar as reformas. Os comitês unitários nas universidades, a defesa de atos unitários, apoio a todas as greves e paralisações tem sido parte de nossas obsessões.

    Sacudir a poeira no Movimento Estudantil!

    Primeiro é necessário unir todos os movimentos de juventude. Desde as Jornadas de Junho de 2013 – e até mesmo antes disso – os movimentos de juventude se ampliaram e se fortaleceram em diversas frentes, como a luta contra as opressões, movimentos de cultura, anti-proibicionismo, cyberativismo, cursinhos pré-vestibular, etc. Mesmo com esse alargamento dos movimentos de juventude, acreditamos que o Movimento Estudantil (universitário e secundarista) segue sendo sua coluna vertebral.

    O movimento está bem mais colorido: há os coletivos de mulheres, de negros, trans e demais Lgbts. Há os coletivos anti-proibicionistas e coletivos de cultura. Enfim, o movimento estudantil ficou pequeno para tantas pautas e por isso precisa ser reinventado.Agora, é ainda mais urgente uma ar

    ticulação nacional para unificas as entidades de base, entidades gerais, coletivos e movimentos no Brasil a fora para organizar as suas lutas. Um espaço que reúnas os estudantes com suas diversas correntes de opinião. Isso é o que nos jargões da esquerda é chamado de “organismo de frente única”. Na prática é o fórum que seja representativo e que, por isso, tenha o potencial de colocar nossa juventude em ação. A União Nacional dos Estudantes se propõe a ser esse fórum.

    No início do governo Lula houve um fenômeno de rupturas com a UNE no momento em que essa passou a defender os governos do PT e suas políticas, integralmente, se chocando com as lutas da época. Foi o momento onde as executivas de curso passaram a organizar muitas lutas, foram construídos inúmeros coletivos fruto dessas rupturas e nesse momento milhares de estudantes apostaram na Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL) para cumprir este papel.

    Contudo, esse processo não se desenvolveu à altura de impulsionar e consolidar outra alternativa de fórum que pudesse ser nacional, mas também reunir as entidades de base dos estudantes e suas diversas correntes de opinião e que, portanto pudesse unificar o movimento estudantil. Essas tentativas refluíram.

    Por isso, para somar forças, para nos articularmos nacionalmente, para prepararmos a resistência contra Temer e suas reformas, para lutar pelo direito ao nosso futuro que a juventude do MAIS irá participar da UNE e seus fóruns. Lá estão milhares de estudantes que querem por a baixo este governo golpista, mas que sabem que precisamos estar mais fortes, mais articulados, com objetivos corretos, que vão a este 55° CONUNE para saírem de lá mais fortes. Lá estarão os ativistas das principais entidades estudantis do país, aqueles que dia a dia constroem os CAs, DCEs, coletivos de combate às opressões. Estarão também muitos jovens que, apesar de não serem parte das entidades, estão nas lutas e buscam se articular nacionalmente, como aqueles que ocuparam as universidades contra a PEC do fim do mundo e os bravos construtores da greve geral do dia 28.

    Nós não confiamos na direção dessa entidade e o papel que esta impôs à UNE nas últimas décadas. Assim como fez quando aceitou que o direito a meia-entrada fosse restrito a quem possui a carteirinha da entidade, ou quando no dia 28 pouco moveu de sua estrutura para mobilizar pela base os estudantes para greve geral.

    Sob a condução da UJS e seus aliados, a UNE ficou empoeirada e se demonstrou incapaz de mobilizar, articular e dirigir as lutas estudantis e dos movimentos de juventude nos últimos longos anos. Contudo, ao mesmo tempo que por um lado não se confirmou uma alternativa a essa, vivemos um momento especial na história do Brasil. Para barrar os retrocessos que podem fazer com que os direitos retrocedam centenas de anos atrás, é urgente recorrermos a todos os instrumentos possíveis. Sabemos que a UNE precisa ser radicalmente diferente pra enfrentar essa situação tão drástica. É preciso romper essa institucionalidade tão fomentada pela direção majoritária da entidade nos anos de governo do PT. Isso por que não dá pra dar um “jeitinho” no sistema, como pensou PT, PCdoB e a direção da entidade. O apoio da direção majoritária aos governos de conciliação de classes custou caro. Sem mudanças estruturais, as medidas do governo Lula e Dilma que buscavam beneficiar o povo pobre, em poucos meses foram desmontadas pelo governo golpista, justamente por não serem mudanças profundas e, muitas vezes, orientadas para beneficiar os primeiros da fila: ricos empresários e banqueiros. Os inimigos estavam ali do lado, preparando o golpe, a reforma da previdência, a lava jato, o fim do FIES, do PROUNI, o fim dos investimentos em saúde e educação.

    As últimas lutas mostram também que não aceitamos mais um movimento de juventude burocrático, de tapetões, monopólio de microfone e carro de som, com discurso de palanque e falta de trabalho de base. Onde tudo se resolve no acordão e não na discussão de ideias. As ocupações mostraram que precisamos que todos os sujeitos tenham seu espaço para que a decisão seja coletiva, seja o C.A., o movimento de opressões, DCE, e também a UNE. A direção majoritária da UNE não se mostrou estar à altura da reinvenção de novas práticas.

    Vamos para o CONUNE, pois a juventude precisa se organizar nacionalmente, precisa se articular, organizar as lutas, especialmente agora diante do governo Temer, suas reformas e a ofensiva da classe dos exploradores. Vamos porque precisamos virar o jogo.

    Ou seja, defendemos que é necessário e urgente que a UNE experimente uma nova direção. É assim que melhor poderemos testar a capacidade de mobilização dessa entidade e virar o jogo também dentro dessa. Sendo assim, acreditamos que é hora de todos os campos políticos de oposição à atual direção da entidade se colocar sob esse objetivo de derrotar a UJS e seus aliados.

    Nós da juventude do MAIS nos colocamos à serviço da construção da Oposição de Esquerda da entidade. Este bloco é estratégico para lutarmos por uma UNE das lutas com um projeto e práticas radicalmente oposta ao que dirige a entidade ultimamente.

    Mas a disputa por um Movimento Estudantil e uma UNE combativa está além da disputa pela sua direção. A OE já se mostrou preparada para ser parte da construção de uma nova proposta política para o país e apresentar um novo programa que guie a UNE em sentido oposto ao apoio das alternativas que querem reeditar os erros do passado apostando novamente na conciliação de classes e em um programa que não atinja as raízes dos nossos problemas fingindo equilibrar os interesses dos governos e dos patrões.

    Nesse sentido queremos dialogar com o Campo Popular que também faz oposição à direção da entidade: que saída apresentaremos aos estudantes para além da necessária unidade pra derrotar Temer. Que projeto de país iremos defender? Pensamos que apostar que a saída venha do “velho” é um erro. Precisamos de um novo projeto. A condução burocrática da UNE, muito além de servir para que a UJS se perpetue e se alimente no “poder” da entidade, está submetido à uma estratégia política desse setor. Uma UNE paralisada é melhor para quem quer submeter o movimento à uma política de conciliação de classes e administração do governo dos ricos e poderosos. Portanto, é necessário um balanço não só da forma como vem sendo conduzida a entidade, mas do conteúdo político que sua direção impôs aos estudantes e que a realidade escancara como uma grande derrota.

    Portanto iremos ao 55° CONUNE na condição de observadores, somar forças, observar este grande fórum com uma comissão representativa de delegados eleitos nas bases, buscando também convocar e mobilizar o máximo possível de estudantes para juntos fazermos um Congresso que possa ser um marco na luta que estamos travando contra esse governo golpista, e que possa ser também um marco na história desta entidade que precisa voltar a ser perigosa para os inimigos da juventude e do povo brasileiro.

  • Uma década de lutas desde a Ocupação da USP: memórias

    Por: Bruno Terribas, de Belém do Pará

    Há exatamente 10 anos estive entre as centenas de estudantes que, numa decisão audaz para o cotidiano do movimento estudantil de então, ocuparam o prédio da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) – a tomada anterior a esta datava de 1982.

    A maior parte deles se envolvia pela primeira vez numa atividade política de relevância nacional. Ainda que naquele momento poucos pudessem imaginar que seria essa a proporção que aquele movimento viria a tomar. Da cobrança por um posicionamento da reitora Suely Vilela em relação a decretos do governo do Estado de São Paulo que feriam a autonomia universitária, passamos a uma disputa política direta com José Serra (PSDB), então à frente do Palácio dos Bandeirantes. Tudo isso sob forte ataque da mídia corporativa, que como regra criminaliza e tenta desmoralizar as mais diversas lutas.

    Entre minhas primeiras recordações particulares, lembro de ter ligado em casa para avisar que não dormiria lá aquela noite, para preocupação da minha mãe, e do banco duro de madeira em que tentei descansar algumas horas. Que foram poucas, após a adrenalina da assembleia da noite, que seria a primeira de dezenas, muitas intermináveis, na qual discutíamos de questões mais imediatas a resoluções sobre a conjuntura nacional, internacional e talvez intergaláticas.

    Durante aqueles 51 dias participamos de uma intensiva formação política e humana. Na USP estão representadas praticamente todas as organizações partidárias (eleitorais ou não) e libertárias da esquerda no país. Diariamente fazíamos avaliações e votávamos resoluções a partir das propostas das dezenas de legendas, coletivos, correntes, etc. As assembleias gerais em frente à reitoria reuniam milhares de estudantes. O Diretório Central dos Estudantes, dirigido então pelo PT e PC do B, foi logo varrido do movimento ao tentar negociar em nome da ocupa sem autorização.

    A integração entre a ocupa da USP e os movimentos aliados nas outras duas universidades estaduais paulistas (Unicamp e as dezenas de campus da Unesp) era intensa e fortalecia reciprocamente as ações. Foram realizados diversos atos conjuntos de rua, que chegaram a reunir dez mil estudantes. A palavra de ordem mais me marcou quando gritávamos a plenos pulmões ao som de percussão de maracatu era: “trabalhador, desempregado, estudante/ contra o governo, decreto e reitoria: adiante, adiante, adiante!”.

    Por todo o estado pipocavam atos e ocupações de campus universitários. Assembleias de cursos e das demais categorias da comunidade acadêmica (professores e funcionários) votavam massivamente a greve “até a derrubada dos decretos”. Professores que apoiavam o movimento como Luizito (ECA), Carneiro, Coggiolla, Mussi (FFLCH), Ortellado (USP Leste) – entre outros que cometo o pecado de não mencionar neste momento, davam aulas públicas de suas disciplinas dentro da reitoria ocupada. Os sindicalistas do Sintusp Brandão, Neli, Magno e Aníbal, para citar alguns, contribuíam com a sagacidade organizativa de sua longa experiência de lutas.

    Naquele universo particular que havia se tornado o “bloco K” (o prédio da reitoria havia sido planejado inicialmente para servir de moradia no Conjunto Residencial da USP – Crusp), nos organizávamos em comissões executivas das tarefas necessárias. Comunicação – a mais disputada pelas organizações políticas, Alimentação, Limpeza, Segurança e Cultura eram algumas delas.

    Eu, que chegava na USP após o trabalho, me incorporei à de segurança. Que na prática fazia o controle de acesso à ocupação e o serviço de “olheiros” no topo do edifício. O frio nessa época na capital paulista já era intenso, e contávamos com nossos cobertores e o abastecimento constante de café para cumprirmos nosso “turno”. O temor de uma invasão policial repentina estava sempre presente, mas fortalecia a relação de confiança com aqueles desconhecidos com quem dividíamos os postos em duplas. Verdadeiras amizades nasceram a partir destas jornadas de observação.

    As atividades da greve e da ocupação se multiplicavam. Sopão do pessoal da Nutrição, pocket show do Tom Zé, oficinas dos mais diversos tipos, além dos atos simbólicos como a troca das bandeiras da universidade por “reitoria ocupada” no teto do prédio e o dia que foi estendida da enorme faixa com os dizeres “Universidade Livre” na Torre do Relógio. Aquele nosso maio de 1968 permitia realizar tudo que nosso impulso criativo-militante-juvenil permitia projetar. Em frente à entrada principal, uma fogueira foi mantida acesa de maneira ininterrupta por semanas, aquecendo conversas e encontros com pessoas dos mais variados perfis e militâncias (ou não). A barricada permanente de pneus, enfeitada com faixas e cartazes, mais do que proteger, simbolizava a disposição de resistir a qualquer investida.

    A guilhotina da repressão ameaçou descer sobre nossas cabeças três semanas depois do início do movimento, quando passamos uma madrugada bastante tensa. O governo do Estado havia marcado para 24 de maio a “desocupação pacífica” (sic) da reitoria com uso da PM. As organizações e militantes passaram a madrugada toda discutindo como seria a resistência. Venceu a tática não-violenta, o que incluiu tomarmos (eu e um amigo) uma advertência por armarmos uma linha de mangueiras de incêndio para serem acionadas caso a polícia entrasse no prédio. Felizmente, o governo não sentiu condições políticas de fazer a reintegração. Logo no início da manhã se reuniram centenas de apoiadores da ocupação, entre eles professores, parlamentares, artistas e ativistas de diversos setores que deram um bonito e emocionante abraço ao nosso Palácio de Inverno estudantil.

    Uma semana depois, enfraquecido pela repercussão nacional negativa e pelo apoio da opinião pública ao movimento dos estudantes, o então governador Serra publicaria um “decreto declaratório”, que na prática revogava suas medidas iniciais. A maior parte do movimento ainda não viu o recuo como vitória definitiva, o que manteve o impasse e levou a ocupação três semanas mais adiante. Um setor da ocupação inclusive propunha a tomada do prédio de forma permanente, para que ele retornasse à condição de moradia estudantil como originalmente planejado.

    A assembleia do 50º dia decidiu o encerramento da ocupação, após a negociação de alguns avanços de pautas locais junto à reitoria da USP. Foi um momento bastante emocionante para aqueles que conviveram por tanto tempo juntos naquelas condições especiais. Como não poderia deixar de ser num movimento dessa característica, fizemos uma bela festa de “despedida” e no dia seguinte saímos do prédio para ocupar novos terrenos políticos.

    Ainda hoje sinto um grande laço de solidariedade política com muitos dos que dividimos aqueles dias de luta e esperança. Hoje em dia vejo e encontro muitos atuando em várias frentes dos movimentos sociais. Nas jornadas de junho de 2013 e noutras diversas greves, protestos e atos voltei a ver aqueles rostos conhecidos. Lembrando-nos ou não do nome uns dos outros ao encontrarmo-nos, sentimos a satisfação de sabemos que seguimos mesmo lado, o da mudança.

     

  • Comitê da Praia Vermelha: é possível construir a Greve Geral pela base

    Por: Diego Correia, do Rio de Janeiro, RJ

    Em meio a uma crise política profunda e uma série de ataques brutais realizados pelo Governo Federal a direitos básicos como a Previdência e a CLT, no fim de março uma reunião entre as Centrais Sindicais definiu para o dia 28 de abril o dia da greve geral. O fato, bastante animador, surge como uma importante ferramenta para derrotar a contrarreforma de Temer.

    Mas há que se questionar: quantas trabalhadoras, trabalhadores e estudantes estão sabendo disso? Infelizmente, para a definição desse dia, não houve uma discussão prévia nas bases das categorias dos sindicatos, locais de estudo e bairros. Se houvesse, poderíamos estar em condições mais favoráveis para uma mobilização histórica para o dia 28. Podemos e devemos construir a greve geral, e há tempo para isso, mas a construção desse dia tem que ser pela base e amplamente democrática. Uma importante ferramenta tem sido a criação de Comitês de Construção da Greve Geral. Tentarei descrever um pouco das experiências do Comitê da Praia Vermelha (PV), um dos campus da UFRJ, do qual participo.

    Contando já com duas reuniões, o Comitê da PV vem conseguindo importantes acúmulos políticos e de mobilização. Tem sido um espaço amplamente democrático, onde a base constrói e define os rumos do espaço, bastante divulgado e aberto à participação de todas as categorias. A unificação dos debates políticos com as necessárias tarefas para construção do dia 28 têm sido muito ricas.

    O espaço tem sido educativo, não só pelo caráter de formação política, mas também no trato às diferenças apresentadas pelos que constroem: todas se mantém no âmbito exclusivamente político, fortalecendo a construção de sínteses. Essa postura, infelizmente rara nos espaços de debate, sem dúvida tem sido um importante impulsionador do Comitê.

    É dessa forma que estão sendo planejadas e realizadas diversas atividades, como aulas públicas e debates; diálogo com a população para além dos muros da UFRJ; confecção de panfletos, cartazes e faixas; panfletagens e convocações diárias nas salas de aula, além das divulgações das atividades pelas redes sociais.

    Nessa semana mesmo, quarta-feira, dia 19, já teremos uma aula pública com o professor do Serviço Social, Mauro Iasi, discutindo a complexa conjuntura que vivemos no Brasil e América Latina. E na quinta-feira, dia 20, às 17 horas teremos mais uma reunião do Comitê. As mobilizações e a conscientização da construção para o dia 28 estão crescendo no campus da PV a cada dia. No dia em que escrevo este texto, as e os estudantes do curso de Relações Internacionais, localizado na PV, decidiram em assembléia pela adesão à greve geral, sendo o primeiro curso da UFRJ a ter esta iniciativa.

    Não restam dúvidas de que podemos construir uma poderosa greve geral, não só indo às ruas, mas também fortalecendo a consciência nos locais de estudo, trabalho e bairros, perante o tamanho do desafio que temos pela frente e da necessidade de mobilização. Para além destas imensas tarefas, há um aspecto fundamental que a construção do dia 28 poderá fortalecer, a confiança das trabalhadoras(es) e estudantes em sua própria força. Ou seja, podemos derrotar as contrarreformas e derrubar o governo através de nossa organização e mobilização.

    A luta dura que teremos que travar não irá se encerrar no dia marcado para a greve geral. É preciso continuar, mas sem dúvida, este pode ser o dia da virada do jogo. O legado das construções de comitês e suas continuidades para além do dia 28 serão decisivas para nossa vitória.

    Acompanhe o calendário de atividades realizadas pelo Comitê da PV

  • Na Zona Leste de São Paulo, secundaristas se organizam para desorganizar

    Por: Caetano dos Santos, de São Paulo, SP

    Na Zona Leste e Extremo Leste de São Paulo os estudantes secundarista e jovens trabalhadores se reúnem com ânimo, saindo das reuniões vão aos pontos de ônibus e saída de estações de trem dialogar com os trabalhadores e com a juventude sobre a necessidade da Greve geral e a necessidade da derrubada do governo anti-popular de Michel “Fora” Temer. Em nós, a ousadia e a coragem. Em nós, a confiança e certeza de que só a aliança entre a classe trabalhadora e a juventude conseguirá as mudanças e a defesa dos nossos direitos. Em nós, o germinal do novo amanhecer.

    O comando dos estudantes secundaristas em luta de São Paulo surgiu em 2015, quando explodiu o processo de ocupação de escolas contra a reorganização das escolas estaduais apresentada pelo governo tucano de Geraldo Alckimin (PSDB). O comando serviu para a unificação das escolas em luta e para que este processo não fosse aparelhado pelas direções burocráticas do movimento estudantil (UJS e satélites juvenis do PT, que aparelham a direção da UPES e UBES há décadas).

    O comando fez com que aquele processo desse uma única paulada no governo, organizou os estudantes e conseguimos a vitória que foi a derrubada do secretário da educação, Herman Voorwald, e do projeto de reorganização. Passados dois anos daquele movimento explosivo, que abalou São Paulo e o Brasil, os estudantes tem mais uma desafio à vista: derrotar o governo Temer com suas reformas anti-populares que nos impõe trabalhar até morrer, rasga a CLT, permite a terceirização irrestrita e ainda sucateia a educação pública com a reforma do ensino médio, tirando matérias essenciais para o desenvolvimento crítico dos estudantes. Contudo, temos a consciência de que não faremos isso sozinhos, mas sim em aliança com os trabalhadores, esta aí nossa grande obsessão: a aliança entre a juventude e a classe trabalhadora.

    O Subcomando da Zona Leste de São Paulo voltou à ativa, agrupando ativistas de alguns coletivos, correntes e estudantes independentes e autônomos, com a discussão de que é preciso reagrupar aquela geração de lutadores formada no processo de ocupações e agrupar aqueles que se despontam agora para as lutas sociais.

    São dezenas de secundaristas da periferia de SP que, nas atividades, fazem a contagem de dinheiro para garantir a passagem de amigos para que estes possam participar das atividades, que contam as moedas para comprar uma pipoca para acompanhar um cine-debate, enfim, filhos de trabalhadores e futuros trabalhadores, muitos participando pela primeira vez de reuniões e ações do tipo, muitos despontando para o início da vida consciente.

    Desde o subcomando da Zona Leste, as ações realizadas partem da compreensão de que a classe trabalhadora é quem move tudo no Brasil e no mundo. É quem produz toda riqueza do mundo, que age coletivamente para a produção dessa riqueza e sua coesão e força, através de suas mobilizações e organização, faz o que quiser. Os trabalhadores não precisam de “seus” patrões, os patrões precisam dos trabalhadores.

    O poder de uma greve geral é grande, pois significa parar os meios de produção, as obras e tudo o que for. Só assim a burguesia perceberá a força que temos. Apenas com métodos de luta dos trabalhadores os patrões e os governos percebem a força de mobilização e recuam. A Juventude leva o ânimo e a esperança nas mudanças, afinal, temos todo um mundo novo a ver, temos todo um mundo velho a destruir. Pra nós, sobra a ousadia, a esperança e o ânimo. Se aliar com os trabalhadores é levar a ousadia da juventude com o peso e firmeza dos trabalhadores. Assim, a vitória será uma grande possibilidade.

    O Subcomando dos Secundaristas em Luta da Zona Leste e Extremo Leste aposta todas suas fichas nisso. É com esta confiança que entramos nos trens e metrôs agitando e tentando levar coragem aos trabalhadores. É assim que vamos às escolas dialogar com estudantes e falar que só a luta vai mudar as nossas vidas. No dia 28, levaremos nosso bloco às ruas e permaneceremos organizados, pois os ataques são permanentes, independente do governo, e se os ataques são permanentes, a organização e a luta também devem ser.

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