Juventude

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  • Polícia dificulta atividade cultural Batalha das Pistas, em Mauá, SP

    Por: Everton Bertucchi, de Mauá, SP

    A Guarda Civil Metropolitana de Mauá impediu o acesso de cidadãos ao evento cultural Batalha das Pistas, que ocorre todas as quartas-feiras, no Parque da Juventude, na cidade. O evento iniciou às 19h, mas às 21h foi fechado o portão da área pública que deveria estar aberto até as 23h. As pessoas somente podiam sair do parque, ninguém mais foi autorizado, pela GCM, a entrar.

    Vários jovens que tentavam participar da atividade cultural, foram impedidos de entrar ao Parque

    Vários jovens que tentavam participar da atividade cultural, foram impedidos de entrar no Parque

    Ao ser indagado sobre o porquê da ação, que impedia a entrada em um espaço que é público, um policial afirmou que eram orientações e que reclamações deveriam ser encaminhadas ao Ministério Público.

  • Sessão pública da juventude do MAIS irá discutir organização da juventude anticapitalista

    Da Redação

    No próximo fim de semana, em São Paulo, irá se reunir a juventude do MAIS em uma conferência nacional. Na sexta-feira, 24 de março, haverá uma sessão pública aberta aos ativistas e demais organizações da esquerda socialista. O evento ocorrerá na Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, a partir das 19h30. O Esquerda Online divulga o convite na íntegra:

    “A conferência irá debater sobre ferramentas para organização da juventude anticapitalista, sobre como organizar a resistência a tentativa de Temer de roubar nosso futuro através das reformas, e sobre o movimento estudantil, suas mudanças, características e sobre os demais movimentos de juventude. Mas, na sessão pública, queremos fazer um debate mais profundo: os caminhos da revolução brasileira.

    A complacência com o capital não solucionou nossos problemas. O capitalismo dá em Trumps e Temers mundo a fora, se radicaliza contra nós, e só com a força da juventude será possível radicalizar contra eles.

    Por outro lado, nos últimos anos a juventude mostrou ser portadora da indignação e revolta contra as mazelas do capital. Liderou os “99%” na resistência à crise econômica que se inicia em 2008, ocupando as ruas e as praças em todo o mundo. No Brasil, foi à ofensiva em junho e após o revés do golpe não se calou, resistiu às medidas de Temer desde o primeiro dia.

    A juventude brasileira é valente, enfrenta o estado policial brasileiro não só nos atos de rua, nas ocupações, mas todos os dias nas favelas e periferias do país contra o genocídio da juventude negra. Resiste para poder estudar, para poder trabalhar e para poder viver. As mulheres e LGBTs não temem mais e estão dispostos a derrubar quantos Cunhas, Felicianos e Bolsonaros atravessarem o seu caminho. Ocupa tudo se for preciso.

    Por isso é preciso pensar num programa anticapitalista junto com a juventude, é preciso encontrar caminhos para organizar os debaixo para uma verdadeira transformação social, que vá além das urnas de dois em dois anos.

    Por isso nessa conferência, queremos discutir a necessidade e os caminhos da revolução brasileira, junto àqueles que a sua maneira compartilham conosco esse sonho. Convidamos os ativistas para fazê-lo conosco em uma sessão aberta da nossa conferência, e convidamos também outras correntes da esquerda socialista para trocar ideias e pensar junto sobre esse sonho tão caro a todos nós.

    Venha contribuir com este debate, vamos pensar e elaborar juntos”.

  • 15 de março: Juventude quer trabalho, aposentadoria e direito ao futuro

    Por: Clara Saraiva, do Rio de Janeiro, RJ

    Como um verdadeiro pesadelo, a agenda do Congresso Nacional já está a todo vapor para encaminhar dois projetos que pretendem destruir o direito à aposentadoria e os direitos trabalhistas, conquistados com muita luta por gerações passadas. Muito além de afetar os trabalhadores que já estão no mercado formal, a votação dessas medidas significa impor pras novas gerações níveis de exploração e precarização das condições de vida muito altos.

    Nesta quarta-feira, dia 15 de março, haverá um forte Dia Nacional de Paralisação e Luta, convocado inicialmente pela CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), e abraçado pelas Centrais Sindicais, Frentes Nacionais, organizações políticas e movimentos sociais de todo o país. A cada dia que passa mais categorias prometem paralisar, e a juventude se organiza nas escolas, universidades e bairros para se somar aos protestos.

    Juventude sem direito ao futuro
    Quando avaliamos os impactos de projetos tão nefastos para os direitos dos trabalhadores, tais quais as reformas da previdência e trabalhista, precisamos ter um olhar mais apurado quando se trata das novas gerações e setores oprimidos. É verdade que esse pacote de medidas de austeridade quer jogar a conta da crise nas costas do conjunto da classe trabalhadora, porém segmentos mais afetados serão as mulheres negras, pobres, LGBTs, em especial os mais jovens.

    Já ocupamos os piores postos de trabalho, com contratos precários e alta rotatividade. Há uma concentração de jovens gays e lésbicas em trabalhos de call center, de jovens negras como empregadas domésticas, trabalhadoras da limpeza ou cozinha, especialmente em empresas terceirizadas. São jovens mulheres a maioria das vendedoras, secretárias, babás, professoras da rede básica, etc. Mulheres trans e travestis, que dificilmente conseguem qualquer emprego formal, acabam muitas vezes recorrendo à prostituição.

    A falta de trabalhos formais e o aumento do número desemprego também atinge especialmente os mais jovens e oprimidos. No ano passado, a taxa de desemprego entre a população de 18 a 24 anos já era de 24,1% e mais do que o dobro da média geral de 10,9%.  O índice de desemprego já atinge mais de 13 milhões de brasileiros, sendo a maioria mulheres. No último trimestre do ano passado, de acordo com os dados mais recentes, o índice de desocupação havia chegado a 12% no Brasil. Para os homens, era de 10,7% e para as mulheres, de 13,8%. Isso sem contar os escandalosos índices de violência, que nos marcos da situação social de barbárie só tende a se agravar, fazendo do Brasil o quinto país em feminicídio do mundo, o campeão em assassinatos LGBTfóbicos e onde a juventude negra morre todos os dias nas favelas e periferias pela polícia ou lota as cadeias nas condições mais desumanas possíveis.

    Querem nos impedir de aposentar
    Um jovem brasileiro, a depender da condição social, pode demorar mais ou menos para ingressar no mercado de trabalho e na chamada (e temida) vida adulta. A grande maioria precisa abandonar cedo os estudos, sequer sonha com o ingresso numa universidade (muito menos pública) e precisa endossar as fileiras da classe trabalhadora para ajudar em casa e sobreviver. Essa juventude tem cor.

    Para uma parcela menor, que depois do ensino médio conseguem passar no ENEM com uma bolsa do PROUNI, FIES ou para a tão sonhada universidade pública, a realidade é um pouco mais favorável. Ainda assim, cada vez mais os recém-formados endossam os índices de desemprego, ou acabam em trabalhos não vinculados à sua formação profissional, simplesmente porque não há vagas disponíveis no mercado. Por todos os lados, uma triste realidade.

    O direito à aposentadoria e previdência social foi conquistado após inúmeras greves, passeatas, organização dos trabalhadores (período da formação da CUT, MST, PT), formulação de propostas e disputa institucional por categorias profissionais ligadas à saúde e aos direitos sociais. Em 1988, se cristalizou na Constituição Federal a garantia do Sistema de Seguridade Social (proteção social), composto pelo tripé saúde, assistência (até então não era considerado como política social) e previdência social. Uma das maiores conquistas para viabilizar tais direitos foi a criação de impostos específicos para a seguridade, que taxavam o capital através de uma estrutura de financiamento própria. São, portanto, impostos e contribuições (COFINS e CSLL) com a chamada “identidade”, ou seja, só podem ser gastos pelo Estado vinculado às políticas sociais dessas áreas.

    No início, a garantia ao direito previdenciário se fazia apenas pelo tempo de trabalho, onde eram precisos 3 provas testemunhais que comprovassem. Não estava relacionado ao tempo de contribuição nem de registro na carteira de trabalho – mudança realizada por FHC na primeira grande reforma da previdência, através da Emenda Constitucional 20 de 1998. O governo estabeleceu um período mínimo de contribuição para se aposentar: 35 anos para os homens e 30 para as mulheres.

    Além de outras mudanças, FHC introduziu o fator previdenciário, cálculo super complexo (quase impede que um trabalhador faça sozinho) que na prática estabelece uma idade mínima combinada com o tempo de contribuição. Significou um aumento, em média, de 7 anos a mais de contribuição. FHC tentou fixar uma idade mínima para todos os trabalhadores, mas foi derrotado.

    A segunda grande reforma da previdência foi realizada por Lula, através da Emenda Constitucional 41 de 2003. Atingiu especialmente o regime próprio de previdência social, ou seja, atacou diretamente o direito à aposentadoria dos servidores públicos, ampliando a criação dos fundos de pensão (previdência privada). Acabou com a integralidade do salário na ativa para o servidor aposentado, passou a cobrar 11% de contribuição previdenciária dos já aposentados e levou ao fim a paridade no reajuste entre ativos e inativos.

    Orientadas pelo Banco Mundial, o objetivo por detrás dessas reformas era ir, aos poucos, destruindo esse direito histórico de caráter público abrindo caminho para o desenvolvimento dos fundos de pensão e do regime complementar de previdência, vulgo privado. Um negócio altamente lucrativo ao capital, que contou com o apoio do Estado como seu primeiro sócio para ampliar sua rede de consumidores.

    A verdade é que o texto aprovado na Constituição de 1988 sobre a previdência social já foi drasticamente alterado. Ainda assim, a maior reforma da previdência está por vir, orquestrada pelas mãos do presidente ilegítimo e seu Congresso golpista, com a primeira data de votação para 28 de março.

    O que muda com a Reforma da Previdência de Temer? 

    1. Idade mínima fixa para aposentadoria: outros governos já tentaram, mas pela resistência dos trabalhadores não conseguiram. Temer quer fixar em 65 anos a idade mínima para se aposentar, igualando trabalhadores do regime próprio (funcionários públicos) e regime geral (celetistas). Isso sem falar que a expectativa de vida de muitos brasileiros, especialmente nas regiões mais pobres, é abaixo de 65 anos. Na prática, é nos tirar o direito à aposentadoria, nos obrigando a trabalhar até morrer! Engraçado que a proposta vem de um tal Michel Temer que se aposentou com 55 anos ganhando cerca de 30 mil reais.
    1. Ataque especial às mulheres: Ao estabelecer a idade mínima, Temer quer igualar a condição de aposentadoria entre homens e mulheres. Trata-se de uma medida escandalosa que ignora a dupla ou tripla jornada de trabalho feminina e o ganho salarial consideravelmente inferior aos homens, muitas vezes cumprindo uma mesma função laboral. Isto significa que as mulheres, em empregos urbanos, trabalharão mais cinco anos (hoje a idade mínima é de 60 anos); se forem servidoras públicas ou trabalhadoras rurais, trabalharão mais dez anos; se forem professoras da educação básica, trabalharão mais quinze anos!
    1. Ao menos 25 anos de contribuição: a reforma prevê um aumento de 10 anos, passando de 15 para 25, o tempo mínimo de contribuição para se aposentar recebendo 76% do salário na ativa. Há uma regra de transição para mulheres acima de 45 anos e homens acima de 50 anos, que devem contribuir 50% a mais do que o tempo restante para se aposentar.
    1. 49 de contribuição para aposentadoria integral: atualmente, a exigência é de 25 anos, quase a metade do que está sendo proposto. E reparem que não são 49 de trabalho, mas de contribuição da folha salarial! Trabalhadores sem registro na carteira ou desempregados, não contam. Para essa conta ser possível, um jovem de 16 anos precisa trabalhar ininterruptamente até os 65 sem parar, sequer um dia, de contribuir. Em tempos de crise, desemprego e precarização da vida, é simplesmente impossível!
    1. Redução da pensão por morte: será reduzido para 50% do valor, mais um adicional de 10% por dependente. Medida que também ataca principalmente as mulheres, que são as principais beneficiadas e, muitas vezes, dependem disso pra sustentar suas famílias.

    Mentira repetida pra se tornar verdade
    Um dos grandes – e falsos – argumentos que sustentam a proposta da reforma da previdência é o suposto déficit das contas. É uma das maiores mentiras institucionais propagadas por governos e grande mídia em nosso país, e é fundamental que tenhamos a desmistificação desse argumento na ponta da língua pra convencer a população que, na realidade, a previdência, como parte do sistema da Seguridade Social, é superavitária. Hoje, o povo já é roubado pelo Estado, que transfere este dinheiro sobrante para o pagamento de juros da dívida pública.

    A conta é simples: além do que se arrecada com a contribuição ao INSS dos empregados e dos empregadores, há impostos e contribuições que arrecadam para financiar as políticas de proteção social, tais como COFINS e CSLL. A Desvinculação de Receitas da União já retira automaticamente 20% desse valor arrecadado, um verdadeiro roubo descarado e ilegal, já que esses impostos possuem “identidade”, ou seja, não poderiam ser gastos para outros fins. Portanto, o que entra de recursos (já descontado a DRU!) é um valor mais alto que o gasto com a previdência.

    Ao invés de impor uma reforma que acaba com nossos direitos, o justo seria utilizar esse recurso sobrante – que em 2014 foi de 53.892 bilhões de reais – para aumentar os benefícios aos trabalhadores, investindo pesado em saúde pública, assistência social e previdência. Dos mais de 200 milhões de brasileiros, 82 milhões sobrevivem graças a 35 milhões de benefícios previdenciários. Destes, 82% são de valores entre 1 a 3 salários mínimos. É realmente dessa gente que o governo quer tirar para pagar a conta de uma crise que os grandes banqueiros e empresários criaram? Que façam uma auditoria da dívida pública e parem de escoar – ilegalmente! – os recursos da Seguridade Social para o pagamento dos juros da dívida.

    As ocupações estudantis de 2016 foram só o começo
    Se nos tiram o direito ao futuro, também nos deixam sem medo para enfrentar os gigantescos ataques que estão por vir. No ano passado, estudantes do país inteiro demonstraram a força do movimento estudantil, e ocupamos mais 1000 escolas e universidades em todo o país. Infelizmente, mesmo com esse gigantesco processo de resistência, não conseguimos barrar a PEC 241/55 que congela investimentos em saúde, educação e áreas sociais por 20 anos. Fomos à Brasília no dia da votação, mas a única resposta que tivemos foi a repressão. Do lado de dentro do Congresso Nacional, votavam sem remorso contra o futuro do país e da nossa juventude.

    Hoje, olhando pra trás, é possível perceber quais foram as principais razões para que a grande onda de ocupações estudantis não terminasse em uma vitória. O movimento, por mais forte que tenha sido, não conseguiu ultrapassar os muros das escolas e universidades e chegar até o conjunto da classe trabalhadora. Além disso, não conseguiu construir ferramentas que unificassem nossas bandeiras, fazendo com que Centrais Sindicais, Frentes Nacionais, organizações e movimentos intervissem em conjunto, numa grande Frente Única pra lutar. A oportunidade com o dia 15 é, exatamente, superar essas barreiras.

    As associações sindicais docentes e dos técnico-administrativos estão convocando paralisação das aulas em escolas e universidades. É fundamental que o movimento estudantil entre com força, que a UNE, ANEL, DCEs, Centro e Diretórios Acadêmicos, Grêmios e coletivos estudantis mobilizem cursos e escolas para promover atividades e engrossar as manifestações de rua.

    No dia 8 de março, com as mulheres à frente, tivemos o primeiro grande enfrentamento contra a Reforma da Previdência em atos massivos de norte a sul do país. É fundamental que o dia 15 aprofunde ainda mais essa resistência, e que a partir daí, transformemos a luta numa grande campanha unitária que dialogue com os trabalhadores e a juventude, nos locais de trabalho, estudo e moradia, sobre a imensa necessidade de resistir.

    Há uma iniciativa nacional, impulsionada pela Auditoria Cidadã da Dívida, de realização de um Plebiscito Popular contra as reformas da previdência e trabalhista que deve ser impulsionado em todos os estados. Podemos criar comitês contra a reforma da previdência onde for possível, e transformar essa em nossa grande batalha contra Temer e seus aliados golpistas. Com muita unidade, reacendo a força dos trabalhadores e explorando o potencial de uma juventude destemida que não tem nada a perder, e já demonstrou isso com as ocupações de 2016, é possível acreditar em nossa vitória.

    Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil

  • Os desafios de ser jovem

    Rayane Silva Guedes, de Belo Horizonte

    A melhor fase da vida, a juventude, é o momento das conquistas, a época das grandes viagens, a realização de sonhos. Ou pelo menos é isso que sempre ouvimos falar. Entretanto a realidade da maioria dos jovens é bem distante deste conto de fadas mal explicado.

    Sob a angustiante tentativa de entender qual será o nosso futuro seguimos sem acertar a leitura da bola de cristal. É óbvio que os erros farão parte do caminho. Mas ainda nos cobramos muito sobre os resultados. Não obstante acordamos todos os dias nos perguntando sobre profissão, estudos e emprego. Sonhamos em ganhar o mundo, mas não sabemos o que o mundo quer de nós. Ou pior, não sabemos satisfazer o mundo, e isso está nos matando.

    Não é só nas festas de família

    – E o namorado?

    – Quando você forma?

    – E o emprego?

    Parece existir uma corrida contra o tempo. Você sempre vai se  sentir velho demais para as coisas que conquistou. Sempre vai parecer muito pouco. Talvez por isso tenho visto tantos jovens adoecendo, tendo crises de ansiedade, do pânico, cometendo suicídios.

    Outros jovens, porém, sabem seu destino certo. Não terão acesso à universidade. Trabalham como seus pais em um emprego precário, de baixo salário, com jornadas duplas ou triplas pra dar conta de por comida na mesa. Quantos ainda muito novos tiveram de sair de casa, dar conta sozinhos de uma vida que não escolheram? Há também aqueles que quando criança já sabiam direito se virar, por que desde os 10 começaram a trabalhar. Essas certezas não são menos doloridas que as dúvidas. Afinal de contas, quem não quer poder sonhar?

    É claro que existem muitas diferenças entre as gerações. A dos meus pais sonhou em dar aos filhos tudo o que eles não puderam conquistar. Lutaram e trabalharam duro para que chegássemos até aqui. A questão é: viramos adultos e nossa realidade está muito longe de estar bem melhor do que a dos nossos pais. É óbvio que as condições de vida melhoraram um pouco no país até agora, através de muita luta. E apesar dos ataques que estamos vendo aos nossos direitos conquistados, ainda existe uma ponta de esperança. Como as ocupações de escolas que tanto encheram os meus olhos de alegria em ver uma juventude que não desistiu.

    Mas a questão é que o sistema nos apresenta um modelo, cobra de nós. Mas não somos todos que temos condições de nos moldar. Não somos todos nós que queremos nos moldar. Temos planos, mas querem nos ver virar máquinas. Para um mercado de trabalho que abre e fecha suas portas conforme sua própria vontade.

    A juventude é muito diversa. Somos em maioria mulheres, negros, LGBT´s. Enfrentamos o cotidiano das incertezas, e sabemos que é mais pesaroso para nós. Iremos nos aposentar um dia? Amanhã teremos emprego? Adiantará se formar em algo? Qual a profissão devo escolher? São muitas perguntas e o peso sobre os ombros de ter de dar certo. Quantos medos nos aprisionam frente à realidade do país. Mas também frente aos nossos desafios.

    Há três anos moro fora da casa dos meus pais e todo mundo me pergunta, o que é mais difícil? Eu sempre respondo que é ter de se cobrar da maneira como seus pais faziam. Pois as contas chegam, a fome vem e você tem de dar conta sim ou com certeza. Mas pensando mais a fundo esse não é um peso só sobre os ombros de quem mora sozinho, essa é a dor do parto de uma passagem sofrida para a vida adulta. Que às vezes vem mais tardia, mas para a maioria começa cedo.

    E a gente segue na expectativa de na luta ter menos incertezas, onde os sonhos possam se concretizar. Na tentativa de ter nosso direito a juventude, arrancar alegria ao futuro.

  • A ERA OBAMA E OS LIMITES DA REPRESENTATIVIDADE

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    O governo de Barack e Michelle Obama chegaram ao fim neste 20 de janeiro de 2017.

    Entretanto, ao fazermos um balanço no que diz respeito ao debate de opressões nos EUA, o governo Obama deixou uma herança póstuma de um número gigantesco de assassinados no país, numero que supera o governo Bush. O programa de drones americanos matou milhares de inocentes, crianças não foram poupadas, a população síria também não escapou dos desmandos do ex-presidente.

    Os Estados Unidos é a maior potência capitalista da atualidade, com enormes massacres à países mais pobres e com uma gigantesca violência policial, o governo Obama representou exatamente o que concerne os limites do imperialismo norte-americano, não deixando dúvidas de que para se estar a frente de um país referência da economia mundial, os interesses a serem colocados, serão sempre os da burguesia.

    Mesmo com tantas contradições, a era Obama deixa uma movimentação de tristeza por parte de alguns movimentos sociais que aclamam a pauta da representatividade política. A autoestima da população negra dos Estados Unidos foi colocada em cheque, como se cada morte realizada pela polícia, cada assassinato e deportação de estrangeiros não tivessem o mesmo peso político.

    É importante avaliar os nossos reais interesses políticos, pensarmos no que queremos para a nossa sociedade a curto, médio e longo prazo. O quanto custa as nossas vidas, a manutenção dos interesses do capital para a população mais pobre, negra, feminina e LGBT. A guerra contra as drogas que tem matado milhares de jovens negros todos os anos na periferia que rema junto a permanência da policia militar; a não legalização do aborto que tem matado milhares de mulheres; a não criminalização da homofobia; o pouco ou nenhum espaço para a população T no mercado de trabalho.

    Todas as nossas reivindicações politicas tem andado em círculos nas ultimas décadas, e internacionalmente falando, a situação tem ficado cada dia pior, com um cerco de conservadorismo e uma crescente de discursos fascistas.

    O governo Trump nem de longe é um afago para as minorias estadunidenses, ao contrário, veio para aumentar o discurso nacionalista, branco, heterossexual e cristão, diminuir as chances da população estrangeira, restringir a liberdade civil da população negra, aumentando o ascenso do conservadorismo e discurso de ódio contra as minorias.

    É tempo de avaliarmos a representação política, escolher um candidato que jogue ao lado e atenda aos interesses da classe trabalhadora.

    A nossa representatividade deve ir além dos limites de gênero e raça, a nossa representatividade deve ser de um governo que preze pelo bem coletivo, que governe para os mais pobres, para as pessoas negras, para mulheres e LGBT.

    “Eu preferiria um candidato branco, que criticasse o capitalismo, o inter-racismo e as prisões do que um candidato negro que é do status quo” Angela Davis.

     

  • Direita Minas organiza recepção ao Bolsonaro em Aeroporto de BH

    Por: Isabela Pennini, Belo Horizonte, MG
    Nesta quinta-feira (19) Jair Bolsonaro foi recebido no saguão do aeroporto de Confins por uma legião de fãs do deputado. No vídeo postado em sua página, ele afirma que havia “uma pequena recepção, nada programado”, quando, na verdade, o grupo Direita Minas já estava articulando o evento que contou com dezenas de pessoas e uma bateria.
    O Direita Minas é o mesmo grupo que tentou forçar a reintegração de posse durante a ocupação da Escola Estadual Governador Milton Campos, também chamada de Estadual Central. O motivo da vinda do político foi a formatura de cerca de 1000 novos soldados da PM.
    Aos gritos de “Mito!”, “Viva 64!” e “Chega de direitos humanos”, Bolsonaro foi ovacionado no aeroporto onde fez um pequeno discurso em que deixou clara sua intenção de se candidatar à presidência no ano que vem. “O que o Brasil precisa é de um capitão. Por coincidência, eu sou um capitão”, disse ele.
    Militar da reserva, o deputado é formado na Academia Militar das Agulhas Negras e serviu como capitão no 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, na década de 80. Nessa época, inclusive, chegou a ser preso por escrever um artigo para a Veja em que denunciava os salários baixos dos cadetes.
    Sem dúvida, a vida no Serviço Militar contribuiu para sua guinada política à direita. Enquanto a esquerda chega à conclusão de que a legalização das drogas é a solução mais plausível para o complexo e imensurável problema do crime organizado e do tráfico no Brasil, grupos de extrema direita preferem acreditar que a solução é armar cada vez mais militares e civis, transformando favelas em cenários de guerra às drogas.
    O perfil dos seguidores do Bolsonaro é um fenômeno digno de estudo. Pelo vídeo, nota-se uma impressionante quantidade de jovens, e parcelas consideráveis de mulheres e negros. A questão é que o político foi bem sucedido nos nichos onde escolheu atuar: o meio militar e o meio religioso. Suas afirmações racistas, machistas, homóficas são bastante controversas, além de cruéis, e dividem seus seguidores.
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    Mas seu discurso apaixonado que afronta abertamente a direita tradicional e o PT, que clama pelos valores conservadores e que exalta o trabalho da polícia como “os mocinhos contra os bandidos” é o que cativa essas pessoas, principalmente jovens de população de baixa renda que sonham em ascender em uma carreira militar.
    O deputado oferece uma alternativa à direita da política tradicional do Brasil. A esquerda precisa se unir e apresentar uma alternativa à esquerda, que não cometa os mesmos erros que o PT cometeu. Bolsonaro é a alternativa que vem com apoio à tortura e hostilização contra mulheres, negros, LGBTs, indígenas e imigrantes. Nós somos seu oposto. Abraçamos as minorias e os oprimidos e oferecemos um projeto baseado na democracia e na decisão popular.
    Veja os vídeos: Video 1, Vídeo 2, Vídeo 3
    Fotos: Isabela Pennini
  • Carnaval em Porto Alegre: agoniza, mas não morre

    Por Matheus Gomes, de Porto Alegre

    O tucano Nelson Marchezan não ameaça inviabilizar os desfiles do carnaval de 2017 para priorizar investimentos em outras áreas sociais. Ainda exercendo seu mandato na Câmara dos Deputados, ele e toda a sua base aliada votaram a favor da PEC 55, que tornou o Brasil o único país do mundo a congelar por 20 anos o teto dos gastos públicos.

    Esta medida cria um efeito cascata da esfera federal para os estados e municípios, afastando qualquer possibilidade de resolução de problemas urgentes na capital, como a falta de creches, moradias e ampliação do atendimento nos postos de saúde. Mais ingênuo ainda é pensar que o desejo deles é que as escolas vivam essas dificuldades para se “reorganizarem” e “voltarem mais forte no ano que vem”.

    Porto Alegre já investe migalhas na cultura: em 2016, apenas 0,79% do orçamento da prefeitura foi para a área e a dura realidade é que 88 % dos espaços de cultura, que absorvem a maior parte dos investimentos, estão na região central, bem distantes das quadras onde pulsam as baterias o ano inteiro. O objetivo deles é enfraquecer a cultura negra e popular.

    O desprezo pelo carnaval vem de longe

    Conhecer a história ajuda a entender por que os governantes não apoiam o carnaval. Há uma conexão intrínseca entre o desprezo pelo carnaval e o processo de “higienização” sócio racial promovido pelo poder público em Porto Alegre.

    Os primeiros blocos de carnaval surgiram na “Colônia Africana”, região que hoje compreende os limites das ruas e avenidas Ramiro Barcelos, Protásio Alves e Oswaldo Aranha, Mariante e Mostardeiro.

    “Quem ri por último”“Aí vem a Marinha”“Prediletos” “Namorados da Lua” eram alguns dos blocos que no início do século XX se destacavam no bairro, formado essencialmente por trabalhadoras e trabalhadores negros que se libertaram das amarras da escravidão nas chácaras da cidade.

    Os festejos eram momentos de intensa comunhão, produção cultural e elevação da autoestima negra. A pompa das fantasias revelava uma ideia de que o negro queria e poderia, nesse novo momento histórico, ocupar um outro lugar na sociedade e ascender socialmente. Ou seja, a manifestação cultural era em si um ato de resistência, uma expressão alegre de uma luta política travada há séculos, que também tinha um caráter inclusivo e agregador.

    No Areal da Baronesa e na Ilhota, dois territórios negros que ocupavam os arredores da Cidade Baixa, antigamente conhecida como a “primeira estação da liberdade”, também fervilhava a manifestação popular. Foi nessa região que surgiu a Imperadores do Samba e viveu Lupicínio Rodrigues.

    A partir de 1954 novas legislações de urbanização começam a mudar o perfil dos bairros centrais. Já na década de 60, a prefeitura criou o projeto “Remover Para Promover”. O slogan chama a atenção pela “sinceridade”, parece que na ditadura os políticos de POA preferiam ser diretos.

    A elite e a classe média branca, vinculadas a especulação imobiliária, almejavam pintar uma nova Porto Alegre, o que exigia não ter mais como “vitrine” da cidade bairros ocupados pelos descendentes de escravizados e trabalhadores pobres, estes não tinham nada a ver com o “progresso” desejado pelo Estado, logo, deveriam ser removidos.

    Até 1971, o Departamento Municipal de Habitação removeu cerca de 13.303 famílias ou aproximadamente 61.154 pessoas da região central de Porto Alegre. A maior parte dessas famílias povoaram bairros a quilômetros da área central, como a Restinga e Lomba do Pinheiro. É importante citar que os políticos eram vinculados a ARENA e o MDB, ou seja, os antecessores diretos dos administradores de POA hoje.

    Ampliar a resistência com a força das comunidades

    Demorou três décadas para que a prefeitura conseguisse extirpar o carnaval do Centro após a retirada das comunidades. Em 2004, ainda sob a gestão do PT, iniciaram os carnavais no Porto Seco, chamado de “Complexo Cultural” apenas por quem quer fazer demagogia, pois o projeto inicial nunca foi finalizado e sequer as arquibancadas fixas existem.

    A agonia do carnaval portalegrense começou ai, quando fomos afastados do Centro, quase 20km. O 20 de setembro tornou-se a única manifestação popular abraçada pelo poder público e, convenhamos, os quase um mês de acampamento devem gerar transtornos muito maiores que os três ou quatro dias de desfile, se o argumento na época era a incompatibilidade do Centro com o carnaval, devido aos “excessos” dos foliões, que ocasionaram abaixo-assinado e mobilização da classe média, aliás, a base eleitoral de Marchezan.

    Não nos enganemos com a ideia de que “se fosse com o Melo seria diferente”. Ano passado, a essa altura do campeonato, a prefeitura ainda não tinha definido a instalação das arquibancadas e estávamos aflitos com a possibilidade de não realização dos desfiles, aliás, foi a gestão de Fortunati/Melo que negou-se a assinar o convênio que poderia garantir as verbas.

    A angústia também atinge os blocos de rua. Ainda no mês de novembro o Afrosul Odomodê foi impedido de desfilar na Semana da Consciência Negra e diversas restrições têm sido aplicadas sobre os grupos que há alguns anos retomaram as festas de massa na Cidade Baixa.

    Imagino como devem estar se sentindo os carnavalescos do Estado Maior da Restinga que serviram de estandarte num programa eleitoral do PSDB em 2016. Marchezan é contra o carnaval, ele representa a continuidade dos que queriam “remover pra promover”.

    Em meio a guerra que atinge nossas comunidades, limitar o acesso à cultura é oferecer duas alternativas aos nossos jovens: a consternação de trabalhar duro e, mesmo assim, não conseguir sobreviver ou o crime organizado e a violência. As escolas de samba em Porto Alegre precisam demonstrar sua força e se mobilizar, chega de acordos de mesa e papo furado. Nos dias de hoje, nada se consegue sem luta e resistência, façamos assim!

  • Reajuste nas tarifas de ônibus: o vandalismo do Estado contra a sociedade

    Por Will Mota, de Belém.

    O ano de 2017 começou com o anúncio de reajuste no preço das passagens de ônibus em várias capitais. Em geral são reajustes extremamente abusivos, muito acima da inflação e do poder aquisitivo da maioria da população, sobretudo num momento de grave crise econômica e social.

    Em Belém, por exemplo, a SETRANSBEL, que é a máfia dos empresários que controla a prestação do serviço, está propondo um reajuste de 26%, sendo que a inflação do período (de maio de 2015 – quando houve o último aumento – até janeiro de 2017) foi de 14%. A passagem sairia dos atuais R$ 2,70 para R$ 3,40.

    Esse tipo de reajuste representa um brutal ato de vandalismo do Estado contra a sociedade, pois depreda um direito social fundamental que é o direito ao transporte público, além de ser um ataque a liberdade constitucional elementar, que é o direito de ir e vir do povo trabalhador.

    O acesso à educação, à cultura, ao emprego e ao lazer da juventude e dos trabalhadores depende da capacidade das famílias poderem pagar as passagens no transporte coletivo. Reajustes abusivos como os que estão sendo propostos em várias capitais nesse momento significa aumento da evasão escolar e um empurrão ao mundo do crime para milhares de jovens pobres do país.

    O grande problema dos sistemas de transporte coletivos das grandes capitais reside no fato de que um direito social fundamental como o transporte público é controlado por interesses privados de um punhado de empresários que monopolizam a prestação do serviço e sequer divulgam as planilhas de custo.

    Só quem lucra com esse modelo são os empresários e os políticos que tem suas campanhas financiadas por esses mafiosos.

    Enquanto o transporte público for tratado como mercadoria, como fonte de lucro de poucos que nem se locomovem de ônibus, barcas ou metrôs, o transporte coletivo nas cidades continuará sendo um sofrimento para a maioria do povo trabalhador e um mecanismo de exclusão e negação de direitos.

    É preciso mudar essa lógica. Ao invés de ser fonte de enriquecimento de poucos, o transporte público precisa ser subsidiado pelo Estado por meio de recursos públicos, tal como ocorre com o SUS ou com a educação pública.

    Contra o vandalismo do Estado e em defesa de nosso direito de ir e vir, vamos tomar as ruas contra o aumento das passagens e em defesa de transporte público de qualidade.

    Foto: Mark Hillary

  • O menino que conquistou o mundo

    Por: Michel Silva, Blumenau, SC

    Depois de ter passado com um pequeno público pelos cinemas brasileiras, o filme O menino e o mundo ganhou alguma publicidade no país a partir de sua indicação à categoria de Melhor Animação no Oscar.

    Embora a imprensa brasileira tenha destacado principalmente essa indicação, a animação vinha de uma vitoriosa participação em prêmios e festivais em todo o mundo, como o respeitadíssimo Festival de Animação de Annecy (que, no ano anterior, havia sagrado campeão o também brasileiro Canção de amor e fúria).

    Em sua batalha no Oscar, O menino e o mundo tinha como maior desafio não o reconhecimento enquanto grande obra cinematográfica – o que havia conquistado em todo o mundo – mas uma ferrenha disputa contra o modelo predominante de cinema de animação, quase que completamente informatizado, que naquela premiação estava representado pelo filme Divertidamente.

    Com o passar dos anos, o gosto do público e da crítica parece ter incorporado certa racionalidade técnica que exige traços perfeitos a partir de um padrão estético assumido como padrão.

    Na disputa enfrentada por O menino e o mundo havia uma ironia metalinguística, afinal a técnica de animação havia passado por um processo análogo à modernização da sociedade representada no filme. O cinema de animação, a partir da década de 1990, passou a ser dominado por grandes produções que cada vez mais utilizam a computação gráfica.

    Essa forma de realizar os filmes contrasta com uma forma artesanal, como os desenhos feitos à mão ou mesmo o stop motion (que, de forma alguma, excluem o uso da informática para algumas ações básicas, como a montagem ou a sonorização, mas em doses muito menores do que a linguagem atualmente dominante).

    No público criou-se, comercialmente, a expectativa de que o cinema de animação deve conter certa perfeição, sejam nas linhas bem definidas dos cenários, nas personagens bem delineados e representados de forma realistas em alguns casos e na distribuição equilibrada de cores e objetos.

    Certamente não há problema no uso dessa técnica, afinal nas mãos de grandes artistas é possível alcançar belos resultados estéticos. O principal problema desse debate encontra-se no domínio comercial que a animação computadorizada alcançou, tornando-se em certa medida um padrão cultural forçosamente universalizado.

    E, com isso, formas de realização que fogem a esse padrão são consideras estranhas, não são assistidas ou até mesmo são consideradas ruins por não possuírem efeitos mirabolantes de computador. Esses filmes, que não exploram um grande aparato técnico, são considerados simples, infantis ou inclusive feios pelo gosto dominado pela racionalidade técnica.

    Ademais, não possuem o mesmo aparato publicitário que as grandes produções estadunidenses, fazendo com que parte do público potencial nem sequer saiba da existência daquele filme.

    Esse embate entre a racionalidade técnica e uma forma mais artesanal de produção, ao qual O menino e o mundo enfrentou ao adentrar o mundo comercial do Oscar, em grande medida é o tema do próprio filme.

    No filme, o protagonista sai de casa em busca do pai, que aparentemente saiu a procura de um melhor emprego. O menino deixa a vida numa comunidade rural e vai conhecendo o mundo. Encontra trabalhadores rurais em ambientes mecanizados, conhece cidades bastante urbanizadas e toma contato com variados equipamentos tecnológicos.

    Contraditoriamente, em paralelo, percebe a solidão e a tristeza vivida pelas pessoas, além de problemas sociais, como a violência e a pobreza. Ou seja, ao deixar sua pequena comunidade rural em que vivia, o menino toma contato com as várias facetas da modernização.

    Este mecanismo proporciona ao mesmo tanto o desenvolvimento da técnica e da urbanização, como a ampliação de diferentes formas de desigualdade e a dificuldade de acesso ou a marginalização de algumas pessoas.

    Esse mundo modernizado passa a ser uma realidade que deve ser aceita como natural pelas pessoas, afinal é considerada melhor do que formas anteriores, tidas como “antigas” ou “primitivas”.

    No discurso hegemônico, o mundo moderno é apresentado como sendo melhor, afinal garante acesso a uma infinidade de bens de consumo para as pessoas, distribuídos de acordo com o trabalho realizado por cada um. O moderno é sempre apresentado como melhor, assim como o cinema de efeitos de computador é considerado superior àquela feito utilizando técnicas “antigas”.

    Nesse sentido, ao abordar as contradições do processo de modernização vistos pelo olhar do protagonista, O menino e o mundo também reflete acerca de sua própria condição de um produto cultural em meio à sociedade do espetáculo.

    Sua situação no Oscar, disputando o prêmio com animações de elevado valor de produção e distribuição, apenas ilustra o contexto mais amplo vivenciado pelas tentativas contra hegemônicas de fazer cinema de animação, que vão ao longo dos anos se enfraquecendo (veja-se, por exemplo, a interrupção na produção dos filmes do Studio Giblin).

    Em vez de equilibrar as possibilidades de uso da técnica moderna com a subjetividade criativa de uma estética artesanal, acredita-se que o novo produzido racional e metodicamente é um modelo que deve substituir qualquer forma “primitiva”.

    Esse é em grande medida o discurso capitalista, ilustrado em O menino e o mundo, que desde o começo de sua constituição, como modo de produção dominante, procurou destruir as formas antigas de produção da vida e das subjetividades.

    Ainda que o menino do filme tenha conquistado o mundo, sua linguagem é estranha àquela naturalizada pela sociedade capitalista, como aquele balbuciar dos personagens dessa brilhante animação brasileira.

    Foto: Extraída da internet

  • TJ obriga Alckmin a recuar, mas verdadeira decisão se dará nas ruas

    Por: Arielli Tavares, juventude/MAIS, SP

    No fim da tarde desta terça-feira (10) o Tribunal de Justiça de São Paulo deu parecer favorável para a decisão de primeira instância que obriga o Governador a cancelar o aumento nos valores do transporte público.

    Logo após a decisão da justiça a assessoria de imprensa do governo divulgou nota assumindo o compromisso de voltar a cobrar o preço das tarifas anteriores ao reajuste a partir desta quarta-feira (11).

    As duas decisões judiciais sobre o assunto afirmam que os mais prejudicados com os reajustes são os usuários de transporte que moram nas regiões mais periféricas e que dependem da integração entre metrô, trem e ônibus para virem ao centro da cidade.

    O TJ afirma ainda que não há justificativas plausíveis para reajustar a tarifa em 14,8%, bem acima da inflação do período de 6,4%.

    Ajuste fiscal e direito à cidade

    Depois de um ano muito difícil para os trabalhadores, os governos começam 2017 com os mesmos objetivos: retirar nossos direitos para garantir os lucros das empresas. Apesar desses ataques terem seu primeiro reflexo em nosso bolso, com o aumento da inflação, as perdas salariais e o desemprego, ele também está presente na restrição da ocupação do espaço público e no aumento da repressão policial sob a população.

    Em uma grande cidade como São Paulo a lógica de segregação entre o centro e periferia se faz presente como muita força, uma das consequências disso é transformação em mercadoria do direito à livre circulação e, portanto, a restrição do acesso de uma parcela significativa da população ao transporte público.

    As tarifas são caras e não atendem aos interesses dos usuários, por exemplo, todas as linhas levam para o centro e não ligam as periferias entre si.

    Isso sem tocar nas constantes modificações dos trajetos das linhas e as mudanças nos terminais sem qualquer consulta pública aos trabalhadores que se utilizam diariamente do transporte.

    Os poderosos temem novos levantes contra a retirada de direitos e por isso, além da garantia do lucro das empresas de transporte, precisam intensificar o controle social da população. Sem dúvida, o modo como Alckmin e Dória planejam aumentar as tarifas revelam que seu objetivo está muito distante de garantir o melhor para a população.

    Dia 12/01 é dia de ir as ruas contra o aumento!

    Apesar das decisões judiciais favoráveis aos trabalhadores terem obrigado o Governador e o Prefeito de São Paulo a recuar nestas medidas, até o momento não devemos ter dúvida que o único meio de garantir que esse aumento seja barrado é através da mobilização popular.

    Por isso, nós, do MAIS, estaremos juntos com o MPL e todos aqueles que quiserem lutar pelo direito ao transporte e a cidade no ato solene de entrega do “Troféu Catraca”, na modalidade “aumento inovador”, na mansão do Prefeito João Dória, nesta quinta-feira (12).

    A concentração para o ato será na Pça do ciclista a partir das 17h e nos somamos ao chamado para que todos que puderem compareçam! Acompanhe as novidades aqui.