Juventude

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  • Os desafios de ser jovem

    Rayane Silva Guedes, de Belo Horizonte

    A melhor fase da vida, a juventude, é o momento das conquistas, a época das grandes viagens, a realização de sonhos. Ou pelo menos é isso que sempre ouvimos falar. Entretanto a realidade da maioria dos jovens é bem distante deste conto de fadas mal explicado.

    Sob a angustiante tentativa de entender qual será o nosso futuro seguimos sem acertar a leitura da bola de cristal. É óbvio que os erros farão parte do caminho. Mas ainda nos cobramos muito sobre os resultados. Não obstante acordamos todos os dias nos perguntando sobre profissão, estudos e emprego. Sonhamos em ganhar o mundo, mas não sabemos o que o mundo quer de nós. Ou pior, não sabemos satisfazer o mundo, e isso está nos matando.

    Não é só nas festas de família

    – E o namorado?

    – Quando você forma?

    – E o emprego?

    Parece existir uma corrida contra o tempo. Você sempre vai se  sentir velho demais para as coisas que conquistou. Sempre vai parecer muito pouco. Talvez por isso tenho visto tantos jovens adoecendo, tendo crises de ansiedade, do pânico, cometendo suicídios.

    Outros jovens, porém, sabem seu destino certo. Não terão acesso à universidade. Trabalham como seus pais em um emprego precário, de baixo salário, com jornadas duplas ou triplas pra dar conta de por comida na mesa. Quantos ainda muito novos tiveram de sair de casa, dar conta sozinhos de uma vida que não escolheram? Há também aqueles que quando criança já sabiam direito se virar, por que desde os 10 começaram a trabalhar. Essas certezas não são menos doloridas que as dúvidas. Afinal de contas, quem não quer poder sonhar?

    É claro que existem muitas diferenças entre as gerações. A dos meus pais sonhou em dar aos filhos tudo o que eles não puderam conquistar. Lutaram e trabalharam duro para que chegássemos até aqui. A questão é: viramos adultos e nossa realidade está muito longe de estar bem melhor do que a dos nossos pais. É óbvio que as condições de vida melhoraram um pouco no país até agora, através de muita luta. E apesar dos ataques que estamos vendo aos nossos direitos conquistados, ainda existe uma ponta de esperança. Como as ocupações de escolas que tanto encheram os meus olhos de alegria em ver uma juventude que não desistiu.

    Mas a questão é que o sistema nos apresenta um modelo, cobra de nós. Mas não somos todos que temos condições de nos moldar. Não somos todos nós que queremos nos moldar. Temos planos, mas querem nos ver virar máquinas. Para um mercado de trabalho que abre e fecha suas portas conforme sua própria vontade.

    A juventude é muito diversa. Somos em maioria mulheres, negros, LGBT´s. Enfrentamos o cotidiano das incertezas, e sabemos que é mais pesaroso para nós. Iremos nos aposentar um dia? Amanhã teremos emprego? Adiantará se formar em algo? Qual a profissão devo escolher? São muitas perguntas e o peso sobre os ombros de ter de dar certo. Quantos medos nos aprisionam frente à realidade do país. Mas também frente aos nossos desafios.

    Há três anos moro fora da casa dos meus pais e todo mundo me pergunta, o que é mais difícil? Eu sempre respondo que é ter de se cobrar da maneira como seus pais faziam. Pois as contas chegam, a fome vem e você tem de dar conta sim ou com certeza. Mas pensando mais a fundo esse não é um peso só sobre os ombros de quem mora sozinho, essa é a dor do parto de uma passagem sofrida para a vida adulta. Que às vezes vem mais tardia, mas para a maioria começa cedo.

    E a gente segue na expectativa de na luta ter menos incertezas, onde os sonhos possam se concretizar. Na tentativa de ter nosso direito a juventude, arrancar alegria ao futuro.

  • A ERA OBAMA E OS LIMITES DA REPRESENTATIVIDADE

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    O governo de Barack e Michelle Obama chegaram ao fim neste 20 de janeiro de 2017.

    Entretanto, ao fazermos um balanço no que diz respeito ao debate de opressões nos EUA, o governo Obama deixou uma herança póstuma de um número gigantesco de assassinados no país, numero que supera o governo Bush. O programa de drones americanos matou milhares de inocentes, crianças não foram poupadas, a população síria também não escapou dos desmandos do ex-presidente.

    Os Estados Unidos é a maior potência capitalista da atualidade, com enormes massacres à países mais pobres e com uma gigantesca violência policial, o governo Obama representou exatamente o que concerne os limites do imperialismo norte-americano, não deixando dúvidas de que para se estar a frente de um país referência da economia mundial, os interesses a serem colocados, serão sempre os da burguesia.

    Mesmo com tantas contradições, a era Obama deixa uma movimentação de tristeza por parte de alguns movimentos sociais que aclamam a pauta da representatividade política. A autoestima da população negra dos Estados Unidos foi colocada em cheque, como se cada morte realizada pela polícia, cada assassinato e deportação de estrangeiros não tivessem o mesmo peso político.

    É importante avaliar os nossos reais interesses políticos, pensarmos no que queremos para a nossa sociedade a curto, médio e longo prazo. O quanto custa as nossas vidas, a manutenção dos interesses do capital para a população mais pobre, negra, feminina e LGBT. A guerra contra as drogas que tem matado milhares de jovens negros todos os anos na periferia que rema junto a permanência da policia militar; a não legalização do aborto que tem matado milhares de mulheres; a não criminalização da homofobia; o pouco ou nenhum espaço para a população T no mercado de trabalho.

    Todas as nossas reivindicações politicas tem andado em círculos nas ultimas décadas, e internacionalmente falando, a situação tem ficado cada dia pior, com um cerco de conservadorismo e uma crescente de discursos fascistas.

    O governo Trump nem de longe é um afago para as minorias estadunidenses, ao contrário, veio para aumentar o discurso nacionalista, branco, heterossexual e cristão, diminuir as chances da população estrangeira, restringir a liberdade civil da população negra, aumentando o ascenso do conservadorismo e discurso de ódio contra as minorias.

    É tempo de avaliarmos a representação política, escolher um candidato que jogue ao lado e atenda aos interesses da classe trabalhadora.

    A nossa representatividade deve ir além dos limites de gênero e raça, a nossa representatividade deve ser de um governo que preze pelo bem coletivo, que governe para os mais pobres, para as pessoas negras, para mulheres e LGBT.

    “Eu preferiria um candidato branco, que criticasse o capitalismo, o inter-racismo e as prisões do que um candidato negro que é do status quo” Angela Davis.

     

  • Direita Minas organiza recepção ao Bolsonaro em Aeroporto de BH

    Por: Isabela Pennini, Belo Horizonte, MG
    Nesta quinta-feira (19) Jair Bolsonaro foi recebido no saguão do aeroporto de Confins por uma legião de fãs do deputado. No vídeo postado em sua página, ele afirma que havia “uma pequena recepção, nada programado”, quando, na verdade, o grupo Direita Minas já estava articulando o evento que contou com dezenas de pessoas e uma bateria.
    O Direita Minas é o mesmo grupo que tentou forçar a reintegração de posse durante a ocupação da Escola Estadual Governador Milton Campos, também chamada de Estadual Central. O motivo da vinda do político foi a formatura de cerca de 1000 novos soldados da PM.
    Aos gritos de “Mito!”, “Viva 64!” e “Chega de direitos humanos”, Bolsonaro foi ovacionado no aeroporto onde fez um pequeno discurso em que deixou clara sua intenção de se candidatar à presidência no ano que vem. “O que o Brasil precisa é de um capitão. Por coincidência, eu sou um capitão”, disse ele.
    Militar da reserva, o deputado é formado na Academia Militar das Agulhas Negras e serviu como capitão no 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, na década de 80. Nessa época, inclusive, chegou a ser preso por escrever um artigo para a Veja em que denunciava os salários baixos dos cadetes.
    Sem dúvida, a vida no Serviço Militar contribuiu para sua guinada política à direita. Enquanto a esquerda chega à conclusão de que a legalização das drogas é a solução mais plausível para o complexo e imensurável problema do crime organizado e do tráfico no Brasil, grupos de extrema direita preferem acreditar que a solução é armar cada vez mais militares e civis, transformando favelas em cenários de guerra às drogas.
    O perfil dos seguidores do Bolsonaro é um fenômeno digno de estudo. Pelo vídeo, nota-se uma impressionante quantidade de jovens, e parcelas consideráveis de mulheres e negros. A questão é que o político foi bem sucedido nos nichos onde escolheu atuar: o meio militar e o meio religioso. Suas afirmações racistas, machistas, homóficas são bastante controversas, além de cruéis, e dividem seus seguidores.
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    Mas seu discurso apaixonado que afronta abertamente a direita tradicional e o PT, que clama pelos valores conservadores e que exalta o trabalho da polícia como “os mocinhos contra os bandidos” é o que cativa essas pessoas, principalmente jovens de população de baixa renda que sonham em ascender em uma carreira militar.
    O deputado oferece uma alternativa à direita da política tradicional do Brasil. A esquerda precisa se unir e apresentar uma alternativa à esquerda, que não cometa os mesmos erros que o PT cometeu. Bolsonaro é a alternativa que vem com apoio à tortura e hostilização contra mulheres, negros, LGBTs, indígenas e imigrantes. Nós somos seu oposto. Abraçamos as minorias e os oprimidos e oferecemos um projeto baseado na democracia e na decisão popular.
    Veja os vídeos: Video 1, Vídeo 2, Vídeo 3
    Fotos: Isabela Pennini
  • Carnaval em Porto Alegre: agoniza, mas não morre

    Por Matheus Gomes, de Porto Alegre

    O tucano Nelson Marchezan não ameaça inviabilizar os desfiles do carnaval de 2017 para priorizar investimentos em outras áreas sociais. Ainda exercendo seu mandato na Câmara dos Deputados, ele e toda a sua base aliada votaram a favor da PEC 55, que tornou o Brasil o único país do mundo a congelar por 20 anos o teto dos gastos públicos.

    Esta medida cria um efeito cascata da esfera federal para os estados e municípios, afastando qualquer possibilidade de resolução de problemas urgentes na capital, como a falta de creches, moradias e ampliação do atendimento nos postos de saúde. Mais ingênuo ainda é pensar que o desejo deles é que as escolas vivam essas dificuldades para se “reorganizarem” e “voltarem mais forte no ano que vem”.

    Porto Alegre já investe migalhas na cultura: em 2016, apenas 0,79% do orçamento da prefeitura foi para a área e a dura realidade é que 88 % dos espaços de cultura, que absorvem a maior parte dos investimentos, estão na região central, bem distantes das quadras onde pulsam as baterias o ano inteiro. O objetivo deles é enfraquecer a cultura negra e popular.

    O desprezo pelo carnaval vem de longe

    Conhecer a história ajuda a entender por que os governantes não apoiam o carnaval. Há uma conexão intrínseca entre o desprezo pelo carnaval e o processo de “higienização” sócio racial promovido pelo poder público em Porto Alegre.

    Os primeiros blocos de carnaval surgiram na “Colônia Africana”, região que hoje compreende os limites das ruas e avenidas Ramiro Barcelos, Protásio Alves e Oswaldo Aranha, Mariante e Mostardeiro.

    “Quem ri por último”“Aí vem a Marinha”“Prediletos” “Namorados da Lua” eram alguns dos blocos que no início do século XX se destacavam no bairro, formado essencialmente por trabalhadoras e trabalhadores negros que se libertaram das amarras da escravidão nas chácaras da cidade.

    Os festejos eram momentos de intensa comunhão, produção cultural e elevação da autoestima negra. A pompa das fantasias revelava uma ideia de que o negro queria e poderia, nesse novo momento histórico, ocupar um outro lugar na sociedade e ascender socialmente. Ou seja, a manifestação cultural era em si um ato de resistência, uma expressão alegre de uma luta política travada há séculos, que também tinha um caráter inclusivo e agregador.

    No Areal da Baronesa e na Ilhota, dois territórios negros que ocupavam os arredores da Cidade Baixa, antigamente conhecida como a “primeira estação da liberdade”, também fervilhava a manifestação popular. Foi nessa região que surgiu a Imperadores do Samba e viveu Lupicínio Rodrigues.

    A partir de 1954 novas legislações de urbanização começam a mudar o perfil dos bairros centrais. Já na década de 60, a prefeitura criou o projeto “Remover Para Promover”. O slogan chama a atenção pela “sinceridade”, parece que na ditadura os políticos de POA preferiam ser diretos.

    A elite e a classe média branca, vinculadas a especulação imobiliária, almejavam pintar uma nova Porto Alegre, o que exigia não ter mais como “vitrine” da cidade bairros ocupados pelos descendentes de escravizados e trabalhadores pobres, estes não tinham nada a ver com o “progresso” desejado pelo Estado, logo, deveriam ser removidos.

    Até 1971, o Departamento Municipal de Habitação removeu cerca de 13.303 famílias ou aproximadamente 61.154 pessoas da região central de Porto Alegre. A maior parte dessas famílias povoaram bairros a quilômetros da área central, como a Restinga e Lomba do Pinheiro. É importante citar que os políticos eram vinculados a ARENA e o MDB, ou seja, os antecessores diretos dos administradores de POA hoje.

    Ampliar a resistência com a força das comunidades

    Demorou três décadas para que a prefeitura conseguisse extirpar o carnaval do Centro após a retirada das comunidades. Em 2004, ainda sob a gestão do PT, iniciaram os carnavais no Porto Seco, chamado de “Complexo Cultural” apenas por quem quer fazer demagogia, pois o projeto inicial nunca foi finalizado e sequer as arquibancadas fixas existem.

    A agonia do carnaval portalegrense começou ai, quando fomos afastados do Centro, quase 20km. O 20 de setembro tornou-se a única manifestação popular abraçada pelo poder público e, convenhamos, os quase um mês de acampamento devem gerar transtornos muito maiores que os três ou quatro dias de desfile, se o argumento na época era a incompatibilidade do Centro com o carnaval, devido aos “excessos” dos foliões, que ocasionaram abaixo-assinado e mobilização da classe média, aliás, a base eleitoral de Marchezan.

    Não nos enganemos com a ideia de que “se fosse com o Melo seria diferente”. Ano passado, a essa altura do campeonato, a prefeitura ainda não tinha definido a instalação das arquibancadas e estávamos aflitos com a possibilidade de não realização dos desfiles, aliás, foi a gestão de Fortunati/Melo que negou-se a assinar o convênio que poderia garantir as verbas.

    A angústia também atinge os blocos de rua. Ainda no mês de novembro o Afrosul Odomodê foi impedido de desfilar na Semana da Consciência Negra e diversas restrições têm sido aplicadas sobre os grupos que há alguns anos retomaram as festas de massa na Cidade Baixa.

    Imagino como devem estar se sentindo os carnavalescos do Estado Maior da Restinga que serviram de estandarte num programa eleitoral do PSDB em 2016. Marchezan é contra o carnaval, ele representa a continuidade dos que queriam “remover pra promover”.

    Em meio a guerra que atinge nossas comunidades, limitar o acesso à cultura é oferecer duas alternativas aos nossos jovens: a consternação de trabalhar duro e, mesmo assim, não conseguir sobreviver ou o crime organizado e a violência. As escolas de samba em Porto Alegre precisam demonstrar sua força e se mobilizar, chega de acordos de mesa e papo furado. Nos dias de hoje, nada se consegue sem luta e resistência, façamos assim!

  • Reajuste nas tarifas de ônibus: o vandalismo do Estado contra a sociedade

    Por Will Mota, de Belém.

    O ano de 2017 começou com o anúncio de reajuste no preço das passagens de ônibus em várias capitais. Em geral são reajustes extremamente abusivos, muito acima da inflação e do poder aquisitivo da maioria da população, sobretudo num momento de grave crise econômica e social.

    Em Belém, por exemplo, a SETRANSBEL, que é a máfia dos empresários que controla a prestação do serviço, está propondo um reajuste de 26%, sendo que a inflação do período (de maio de 2015 – quando houve o último aumento – até janeiro de 2017) foi de 14%. A passagem sairia dos atuais R$ 2,70 para R$ 3,40.

    Esse tipo de reajuste representa um brutal ato de vandalismo do Estado contra a sociedade, pois depreda um direito social fundamental que é o direito ao transporte público, além de ser um ataque a liberdade constitucional elementar, que é o direito de ir e vir do povo trabalhador.

    O acesso à educação, à cultura, ao emprego e ao lazer da juventude e dos trabalhadores depende da capacidade das famílias poderem pagar as passagens no transporte coletivo. Reajustes abusivos como os que estão sendo propostos em várias capitais nesse momento significa aumento da evasão escolar e um empurrão ao mundo do crime para milhares de jovens pobres do país.

    O grande problema dos sistemas de transporte coletivos das grandes capitais reside no fato de que um direito social fundamental como o transporte público é controlado por interesses privados de um punhado de empresários que monopolizam a prestação do serviço e sequer divulgam as planilhas de custo.

    Só quem lucra com esse modelo são os empresários e os políticos que tem suas campanhas financiadas por esses mafiosos.

    Enquanto o transporte público for tratado como mercadoria, como fonte de lucro de poucos que nem se locomovem de ônibus, barcas ou metrôs, o transporte coletivo nas cidades continuará sendo um sofrimento para a maioria do povo trabalhador e um mecanismo de exclusão e negação de direitos.

    É preciso mudar essa lógica. Ao invés de ser fonte de enriquecimento de poucos, o transporte público precisa ser subsidiado pelo Estado por meio de recursos públicos, tal como ocorre com o SUS ou com a educação pública.

    Contra o vandalismo do Estado e em defesa de nosso direito de ir e vir, vamos tomar as ruas contra o aumento das passagens e em defesa de transporte público de qualidade.

    Foto: Mark Hillary

  • O menino que conquistou o mundo

    Por: Michel Silva, Blumenau, SC

    Depois de ter passado com um pequeno público pelos cinemas brasileiras, o filme O menino e o mundo ganhou alguma publicidade no país a partir de sua indicação à categoria de Melhor Animação no Oscar.

    Embora a imprensa brasileira tenha destacado principalmente essa indicação, a animação vinha de uma vitoriosa participação em prêmios e festivais em todo o mundo, como o respeitadíssimo Festival de Animação de Annecy (que, no ano anterior, havia sagrado campeão o também brasileiro Canção de amor e fúria).

    Em sua batalha no Oscar, O menino e o mundo tinha como maior desafio não o reconhecimento enquanto grande obra cinematográfica – o que havia conquistado em todo o mundo – mas uma ferrenha disputa contra o modelo predominante de cinema de animação, quase que completamente informatizado, que naquela premiação estava representado pelo filme Divertidamente.

    Com o passar dos anos, o gosto do público e da crítica parece ter incorporado certa racionalidade técnica que exige traços perfeitos a partir de um padrão estético assumido como padrão.

    Na disputa enfrentada por O menino e o mundo havia uma ironia metalinguística, afinal a técnica de animação havia passado por um processo análogo à modernização da sociedade representada no filme. O cinema de animação, a partir da década de 1990, passou a ser dominado por grandes produções que cada vez mais utilizam a computação gráfica.

    Essa forma de realizar os filmes contrasta com uma forma artesanal, como os desenhos feitos à mão ou mesmo o stop motion (que, de forma alguma, excluem o uso da informática para algumas ações básicas, como a montagem ou a sonorização, mas em doses muito menores do que a linguagem atualmente dominante).

    No público criou-se, comercialmente, a expectativa de que o cinema de animação deve conter certa perfeição, sejam nas linhas bem definidas dos cenários, nas personagens bem delineados e representados de forma realistas em alguns casos e na distribuição equilibrada de cores e objetos.

    Certamente não há problema no uso dessa técnica, afinal nas mãos de grandes artistas é possível alcançar belos resultados estéticos. O principal problema desse debate encontra-se no domínio comercial que a animação computadorizada alcançou, tornando-se em certa medida um padrão cultural forçosamente universalizado.

    E, com isso, formas de realização que fogem a esse padrão são consideras estranhas, não são assistidas ou até mesmo são consideradas ruins por não possuírem efeitos mirabolantes de computador. Esses filmes, que não exploram um grande aparato técnico, são considerados simples, infantis ou inclusive feios pelo gosto dominado pela racionalidade técnica.

    Ademais, não possuem o mesmo aparato publicitário que as grandes produções estadunidenses, fazendo com que parte do público potencial nem sequer saiba da existência daquele filme.

    Esse embate entre a racionalidade técnica e uma forma mais artesanal de produção, ao qual O menino e o mundo enfrentou ao adentrar o mundo comercial do Oscar, em grande medida é o tema do próprio filme.

    No filme, o protagonista sai de casa em busca do pai, que aparentemente saiu a procura de um melhor emprego. O menino deixa a vida numa comunidade rural e vai conhecendo o mundo. Encontra trabalhadores rurais em ambientes mecanizados, conhece cidades bastante urbanizadas e toma contato com variados equipamentos tecnológicos.

    Contraditoriamente, em paralelo, percebe a solidão e a tristeza vivida pelas pessoas, além de problemas sociais, como a violência e a pobreza. Ou seja, ao deixar sua pequena comunidade rural em que vivia, o menino toma contato com as várias facetas da modernização.

    Este mecanismo proporciona ao mesmo tanto o desenvolvimento da técnica e da urbanização, como a ampliação de diferentes formas de desigualdade e a dificuldade de acesso ou a marginalização de algumas pessoas.

    Esse mundo modernizado passa a ser uma realidade que deve ser aceita como natural pelas pessoas, afinal é considerada melhor do que formas anteriores, tidas como “antigas” ou “primitivas”.

    No discurso hegemônico, o mundo moderno é apresentado como sendo melhor, afinal garante acesso a uma infinidade de bens de consumo para as pessoas, distribuídos de acordo com o trabalho realizado por cada um. O moderno é sempre apresentado como melhor, assim como o cinema de efeitos de computador é considerado superior àquela feito utilizando técnicas “antigas”.

    Nesse sentido, ao abordar as contradições do processo de modernização vistos pelo olhar do protagonista, O menino e o mundo também reflete acerca de sua própria condição de um produto cultural em meio à sociedade do espetáculo.

    Sua situação no Oscar, disputando o prêmio com animações de elevado valor de produção e distribuição, apenas ilustra o contexto mais amplo vivenciado pelas tentativas contra hegemônicas de fazer cinema de animação, que vão ao longo dos anos se enfraquecendo (veja-se, por exemplo, a interrupção na produção dos filmes do Studio Giblin).

    Em vez de equilibrar as possibilidades de uso da técnica moderna com a subjetividade criativa de uma estética artesanal, acredita-se que o novo produzido racional e metodicamente é um modelo que deve substituir qualquer forma “primitiva”.

    Esse é em grande medida o discurso capitalista, ilustrado em O menino e o mundo, que desde o começo de sua constituição, como modo de produção dominante, procurou destruir as formas antigas de produção da vida e das subjetividades.

    Ainda que o menino do filme tenha conquistado o mundo, sua linguagem é estranha àquela naturalizada pela sociedade capitalista, como aquele balbuciar dos personagens dessa brilhante animação brasileira.

    Foto: Extraída da internet

  • TJ obriga Alckmin a recuar, mas verdadeira decisão se dará nas ruas

    Por: Arielli Tavares, juventude/MAIS, SP

    No fim da tarde desta terça-feira (10) o Tribunal de Justiça de São Paulo deu parecer favorável para a decisão de primeira instância que obriga o Governador a cancelar o aumento nos valores do transporte público.

    Logo após a decisão da justiça a assessoria de imprensa do governo divulgou nota assumindo o compromisso de voltar a cobrar o preço das tarifas anteriores ao reajuste a partir desta quarta-feira (11).

    As duas decisões judiciais sobre o assunto afirmam que os mais prejudicados com os reajustes são os usuários de transporte que moram nas regiões mais periféricas e que dependem da integração entre metrô, trem e ônibus para virem ao centro da cidade.

    O TJ afirma ainda que não há justificativas plausíveis para reajustar a tarifa em 14,8%, bem acima da inflação do período de 6,4%.

    Ajuste fiscal e direito à cidade

    Depois de um ano muito difícil para os trabalhadores, os governos começam 2017 com os mesmos objetivos: retirar nossos direitos para garantir os lucros das empresas. Apesar desses ataques terem seu primeiro reflexo em nosso bolso, com o aumento da inflação, as perdas salariais e o desemprego, ele também está presente na restrição da ocupação do espaço público e no aumento da repressão policial sob a população.

    Em uma grande cidade como São Paulo a lógica de segregação entre o centro e periferia se faz presente como muita força, uma das consequências disso é transformação em mercadoria do direito à livre circulação e, portanto, a restrição do acesso de uma parcela significativa da população ao transporte público.

    As tarifas são caras e não atendem aos interesses dos usuários, por exemplo, todas as linhas levam para o centro e não ligam as periferias entre si.

    Isso sem tocar nas constantes modificações dos trajetos das linhas e as mudanças nos terminais sem qualquer consulta pública aos trabalhadores que se utilizam diariamente do transporte.

    Os poderosos temem novos levantes contra a retirada de direitos e por isso, além da garantia do lucro das empresas de transporte, precisam intensificar o controle social da população. Sem dúvida, o modo como Alckmin e Dória planejam aumentar as tarifas revelam que seu objetivo está muito distante de garantir o melhor para a população.

    Dia 12/01 é dia de ir as ruas contra o aumento!

    Apesar das decisões judiciais favoráveis aos trabalhadores terem obrigado o Governador e o Prefeito de São Paulo a recuar nestas medidas, até o momento não devemos ter dúvida que o único meio de garantir que esse aumento seja barrado é através da mobilização popular.

    Por isso, nós, do MAIS, estaremos juntos com o MPL e todos aqueles que quiserem lutar pelo direito ao transporte e a cidade no ato solene de entrega do “Troféu Catraca”, na modalidade “aumento inovador”, na mansão do Prefeito João Dória, nesta quinta-feira (12).

    A concentração para o ato será na Pça do ciclista a partir das 17h e nos somamos ao chamado para que todos que puderem compareçam! Acompanhe as novidades aqui.

  • A locomoção em Fortaleza está se tornando cada vez mais difícil

    Por: Mario Ítalo, Fortaleza, CE

    A nova é que o prefeito Roberto Cláudio (PDT) e seu vice Moroni Torgan (DEM), em conchavos com empresários do transporte urbano, reajustaram a passagem de ônibus em 16%, ou seja, o que já custava R$ 2,75 vai passar a custar R$ 3,20.

    Um absurdo que dificulta mais ainda a locomoção da população e principalmente da juventude da periferia, que usa as linhas de ônibus para ocupação dos espaços públicos.

    Vale ressaltar que esse aumento no preço da passagem foi o maior dos últimos 14 anos, um aumento absurdo em uma cidade onde os ônibus são superlotados e com uma péssima infraestrutura na questão de mobilidade urbana.

    Esse não é o único ataque da prefeitura

    Entre 2015 e 2016 o prefeito promoveu a privatização dos terminais de integração. A vontade dos empresários de ônibus era de consolidar o aumento de 20%, mas foi feito um acordo para que fosse 16%. Mas a própria prefeitura ressalta que pode haver outro reajuste, ainda nesse ano.

    O reajuste não alterará muita coisa na meia-entrada estudantil, ela vai passar a ser R$ 1,40, aumento de dez centavos. É mais um cenário que ascende pós o golpe palaciano que se alastrou pelo Brasil, trazendo a crise política e econômica consigo, um desemprego assustador, crise no sistema penitenciário e a reforma da previdência.

    Já não bastasse todos esses ataques, os golpistas não se saciaram e promovem mais um ataque, que tem um alvo direcionado: a juventude pobre, negra e da periferia que depende do transporte urbano, para sua locomoção. Um verdadeiro caos se instaura na República do golpe.

    Tudo isso alimenta a necessidade e de organização dos trabalhadores e da juventude

    A retirada de direitos da juventude e da classe trabalhadora estão sendo pautas prioritárias nesse cenário pós-golpe. As jornadas de Junho de 2013, mostram que tem como a juventude organizar sua indignação perante ao caos instaurado.

    Em Fortaleza, a necessidade de unidade urge bem em um período complicado e sombrio. Recentemente o governador Camilo Santana (PT), projetou uma PEC no nosso estado, nos moldes na PEC do fim do mundo, de Michel Temer (PMDB).

    Frente a todos esses abusos promovidos por Roberto Cláudio e seu vice Moroni, a juventude deve promover levantes, com táticas concisas e trabalho de base que conscientize os usuários do precário transporte urbano.

    Todas as forças políticas devem construir a unidade desde já para barrar esse aumento abusivo

    É só promovendo jornadas de luta que resistiremos contra os interesses dos grandes empresários. Já se tem um ato programado para quinta-feira (12), puxado pelo Diretório Central do Estudantes da UFC, na praça do Carmo, às 13h e uma reunião aberta, na sexta-feira, no Centro de Humanidades II/UFC, na Av. da Universidade. É se organizando que podemos desorganizar.

    Foto: Gabriel Vinicius Cabral

  • Com apoio da PM, Reitoria cerca com grades sindicato dos trabalhadores e espaço estudantil

    Por: Anna Guedes e Giulia Castro, ECA-USP, SP

    A medida é parte da política de repressão e criminalização adotada pela Reitoria.

    No dia 21 de dezembro, o que se viu na Escola de Comunicações e Artes da USP foi uma súbita mudança na rotina de férias. Isso porque, a Reitoria da universidade decidiu construir uma cerca entorno do espaço de convivência, conhecido como “Prainha”.

    Ali, além de residir a sede do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP) há mais de cinco décadas, também estão duas entidades estudantis, o Centro Acadêmico Lupe Cotrim e a Atlética, ambos da ECA, uma lanchonete, bem como alguns trailers de venda de comida.

    Para mais, a “Prainha” não é apenas um espaço estudantil: é também uma praça pública, de livre circulação e convivência dentro da universidade, aberta para a comunidade acadêmica e para a população do entorno.

    A ação foi tomada sem nenhuma consulta com estudantes, trabalhadores e ainda, sem mesmo passar pelo Conselho Universitário (órgão máximo deliberativo). Funcionários de uma empresa terceirizada estavam cavando buracos para a instalação de um cerca de metal, a qual pega todo o perímetro da chamada “Prainha”, localizada atrás do prédio da Reitoria.

    Neste dia, a ação não pode ser efetivada devido à pressão de membros do Sintusp e estudantes que estavam no local, entretanto, no dia 03 de janeiro (terça-feira) a presença de policiais militares garantiu que a obra fosse iniciada efetivamente.

    No dia seguinte, quase todo espaço estava cercado, apesar das tentativas de diálogo por parte de estudantes e trabalhadores.

    Entenda o processo

    No dia 9 de dezembro, data que antecede ao próprio cercamento, o Sintusp tomou conhecimento de uma liminar de reintegração de posse de sua sede por uso de força militar. Para isso, a Reitoria usou como justificativa a solicitação do local por parte da Diretoria da ECA, instituto que abriga a sede do Sindicato, alegando que a escola o utilizaria para “fins acadêmicos”.

    Em reunião ordinária, a ECA afirmou que não estava reivindicando a desocupação do local, o que desmente a versão apresentada pela Reitoria.

    Frente ao cercamento, a Diretoria então divulgou uma nota oficial, dizendo que “reitera o posicionamento já aprovado pela Congregação em defesa da manutenção dos espaços hoje ocupados pelas entidades estudantis desta Escola”.

    Ao início da obra da cerca, uma comissão foi composta por diretores do sindicato que, após muita insistência, conseguiu se reunir com a Reitoria no dia 23 de dezembro. Mas o que se viu ali foi novamente a falta de diálogo com a comunidade que se utiliza dos espaços.

    Isso porque o atual chefe de gabinete Thiago Liporaci afirmou aos trabalhadores que não era possível assumir qualquer compromisso com o cancelamento ou suspensão da obra de cercamento. A única garantia foi o acesso ao espaço do sindicato se manter até a próxima reunião de negociação, que ocorrerá dia 26 de janeiro no Ministério Público do Trabalho.

    O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), quando abordado por trabalhadores do Sintusp na saída do Instituto Butantã, na manhã da terça-feira passada, início da obra de cercamento, disse que “não vai ter reintegração sem negociação”.

    Diante disso, quando questionada novamente sobre os motivos para o cercamento do espaço e sobre como se dará a entrada de estudantes e trabalhadores, a Reitoria da USP respondeu que a colocação das grades “faz parte do projeto de remodelação do entorno do prédio da Reitoria e já estava prevista desde a reforma do espaço”.

    No entanto, novamente, nada disso foi comunicado, muito menos discutido com o sindicato dos trabalhadores e com as entidades estudantis que ocupam o local.

    Para os membros do Sindicato, esta obra tem sido vista como uma ameaça eminente de que seu espaço seja retirado. Ainda mais quando acompanhada de um pedido de reintegração de posse da sede.

    As cercas em torno da “Prainha”, que ameaça o espaço do Sintusp e das entidades estudantis, preocupam os estudantes, que encaram a situação como mais um ataque advindo da Reitoria.

    Na última quinta-feira (5), uma Assembleia Extraordinária aconteceu para que a discussão fosse tangível a todos e ainda, se tirar medidas que evidenciem a importância do espaço para a comunidade da USP, como um calendário de atividades para esta semana.

    Histórico

    Os últimos acontecimentos apenas evidenciam a política de repressão e criminalização da Reitoria para com o Sintusp e estudantes, já que, historicamente, o que se vê é a adoção de medidas arbitrárias tomadas sem nenhum tipo de diálogo.

    Por exemplo, também se aproveitando do período de férias e consequentemente, do esvaziamento natural da universidade, no dia 22 de dezembro de 2012, o Canil – espaço utilizado por outra entidade da ECA para promover eventos festivos e atividades culturais – foi brutalmente demolido, novamente, sem diálogo com os estudantes. Fora as sindicâncias (processos internos da USP) contra os estudantes que resistem, a partir da organização de festas.

    Já no início de abril do ano passado, o sindicato recebeu um ofício da Reitoria para deixar a sede em um prazo de 30 dias. Assim, estudantes e trabalhadores da universidade deram início à uma greve que se estenderia por três meses, que dentre outras pautas, reivindicava também a defesa dos espaços estudantis. O projeto, então, acabou não sendo efetivado.

    Há de se lembrar que no início de seu mandato, o reitor em entrevista à Revista Veja afirmou que “é preciso abandonar a dinâmica de sindicalismo na vida universitária” para privilegiar o modelo de meritocracia na universidade. Contudo, sabemos que a chamada meritocracia defendida por Zago nada mais é que o indício do projeto de tornar a universidade cada vez mais elitizada.

    Dessa maneira, são adotadas políticas que impedem a manutenção do caráter público da universidade, como o cercamento dos espaços, crescimento do número de terceirizados e abertura para financiamento a partir da iniciativa privada que, em primeira instância, não serviriam para atender à população que a financia, mas, pelo contrário, serviriam para atender ao próprio capital privado.

    Assim, entende-se que o conjunto dessas medidas e o esforço para o cerceamento do local do Sintusp servem para a destruição do caráter público da universidade, além de estancar a organização tanto do movimento estudantil quanto do movimento sindical, os quais, historicamente, lutam contra o projeto de privatização da universidade.

    É de interesse desta reitoria e dos governos que se aliam a ela que estes desejam que o Sintusp se retire da sua sede, enfraquecendo as mobilizações e abrindo margem para políticas de repressão e privatização.

    Foto: Victória Damasceno

  • ELE NÃO ME BATEU, MAS…

    Por: Anônima

    No dia 26 de novembro de 2015, há mais de um ano atrás percebi que estava num relacionamento abusivo. Passados todos esses dias, ninguém além de mim percebeu.

    Foram inúmeras às vezes que tive que anotar o que acontecia. Repassar cada fala para entender o que estava acontecendo. Milhares de anotações e ainda é muito difícil explicar em poucas palavras. Talvez seja por isso que ainda é tão difícil discutir violências que não são aparentes. Ainda parecem ser muitos pontos soltos, dos furos que não deixaram marcas externas, mas que doem até hoje. Segue o meu relato:

    Se já é difícil falar de um relacionamento abusivo, imagina quando o cara não admitiu que fosse um relacionamento. Sabe como é: Você dorme todos os dias na casa dele, passam horas juntos, mas quando chegam à festa dos amigos é como se nunca tivessem nem ficado.

    Tudo começou quando ainda éramos amigos, como todo relacionamento assim. Falamos diversas vezes que não ficaríamos mais. Essa era uma decisão conjunta, apesar de nunca concretizada. A partir do momento em que me apaixonei tudo mudou. Já não eram as nossas decisões. Era sempre as dele. Sempre em favor da sua estabilidade afetiva, emocional e financeira.

    As minhas nunca interessaram. Recordo-me um dia em que ele insistiu para que eu ficasse em sua casa. Visto no dia seguinte, eu lhe pedi para ficar, a resposta não foi outra senão “Eu o incomodaria”.

    Aparentemente esta era uma questão de interesse, ele havia se envolvido um pouco menos. Mas tive de ir mais a fundo para descobrir que não se tratava disso. Ele tinha o controle da relação e deixava isso bem claro. Quando por exemplo, dizia ter se relacionado com outra pessoa em sua cama, naquele dia.

    Nessa mesma noite eu me neguei a transar com ele, mas o mesmo insistiu. Disse que gostava muito de mim, que queria um relacionamento, no outro dia me negou um beijo. Depois disse que eu havia entendido errado, porque além de controlar ele adorava dizer que eu entendia tudo errado, era a louca da relação. Mas a verdade é que ele fazia por me confundir.

    Também dizia que eu o atrapalhava a se relacionar com outras mulheres, que não por acaso eram minhas amigas. E quando eu tentava ir embora de sua casa o mesmo era categórico na chantagem: “Vai sair essa hora, sabe quantos estupros acontecem a meninas que entram em táxi de madrugada?”. Ele sabia o quanto isso era doloroso de ouvir. E quanto medo eu sentiria em ir embora.

    Foram várias vezes em que me senti aprisionada naquela casa. Sabendo ele que me faria ficar nervosa, com falta de ar e depois diria que eu só estava daquele jeito por que queria chamar atenção. “Porque queria transar com ele”.

    Eu não percebi muito fácil, eu era sincera e esperava o mesmo da parte dele. Mas parece que ele adorava mostrar o quanto ele poderia decidir. Hora me queria, hora eu estava dispensada. Como uma boneca, que se brinca a hora que quer. E depois você joga num canto qualquer.

    Assim, um dia em que me disse “não ficaremos mais”, passados cinco minutos ele estava passando a mão na minha coxa, se esfregando em mim e insistindo para que transássemos.  Não importava meus sentimentos. O furacão que passava na minha cabeça toda vez que ele fingia ir embora e depois voltava.

    Ele também mentia, disse uma vez que nossos amigos haviam discutido que não devíamos ficar mais. Tudo isso além de jogar minha autoestima no buraco. Todas as vezes sabia me humilhar, seja falando de todos os seus interesses em meninas tão lindas, tão diferentes de mim. Eram muitos elogios às outras, na frente de todos que sabiam que eu gostava dele.

    Enquanto eu tentava ajudar ele com todas as barras, foram inúmeras as suas grosserias. Sabe aquele dia em que você toma a pílula do dia seguinte e o cara não está nem aí que você está passando mal. Pois é ele conseguiu piorar esse dia. Falando que eu já podia sair da sua casa. Já que a outra havia lhe dado o bolo. E o quanto estava mal por ela não ter ido.

    Mas foram poucas as perguntas que me fez sobre como eu estava lidando com o fato de transarmos sem camisinha. Até o dia que ele perdeu o emprego. E me perguntou. “Por favor, me diga que não está grávida”.

    Tudo o que acontecia com ele era uma grande tragédia, ou uma grande festa. Já comigo era diferente. Meus parentes poderiam ficar doentes, eu poderia estar triste, mas ele não seria solidário. Algumas violências nem a gente percebe. Acreditem uma vez ele me impediu de desligar um filme e eu precisava dormir. Ele dormiu. Mas não me deixou desligar o filme porque eu havia escolhido. E agora que arcasse com a consequência.

    Eu me senti um lixo. Uma pessoa que não conseguia ter nem dignidade num relacionamento. Me afastei de quem eu era. Três situações foram categóricas.

    • Telefone

    Eu realmente pensei que estava ficando louca. Afinal de contas parece que era isso que ele queria mostrar. Eu estava cansada de tudo aquilo. Diferente dos outros dias resolvi que iria pegar um táxi. Parece coisa de outro mundo, mas acreditem o telefone do táxi chamou na casa dele. Por algum motivo seu número estava na lista de táxi. Porque havia um táxi embaixo da sua casa. Ele me chamou de louca como sempre, que estava querendo chamar atenção. Eu chorei a noite toda. Parecia um carma, não sei… Tudo me prendia àquela situação. Passados alguns dias eu novamente procurei na lista de telefones de táxi e encontrei seu número realmente lá. Pedi então que ele conferisse, queria mostrar que eu não estava louca. Mas ele se recusou. Não quis nem saber. Eu desisti de mostrá-lo. Mas a história foi parar no ouvido de todos os nossos amigos. Eu fiquei conhecida como “A Louca”.

    • Abraço

    Bom afeto era outra coisa que eu só podia demonstrar quando ele queria. Certo dia ficamos bêbados na festa de uma amigo nosso. Eu iria dormir no quarto de um dos nossos amigos. Mas ele veio novamente com as suas chantagens. Falou que se eu fosse dormir com esse amigo iria ver só. Me fez ficar, passou a mão em mim o quanto quis. E eu o abracei. Logo de manhã veio a reclamação. “Porque você estava me abraçando? Você é louca não quero nada com você. Vai cuidar da sua vida.”

    • Sumiço 

    Eu tive uma infecção alimentar. Fui parar no hospital. Liguei para ele avisando que já estava sendo medicada. Ele não se importou com o que eu estava sentindo. Tratou de me preocupar. Estava decidido a ir embora e eu nunca mais o veria. Já havia juntado as malas. Disse que sua família também não o veria. Pronto. Eu passei mal a noite toda. Mesmo assim dei um jeito de ligar para vários amigos, com medo que o pior acontecesse. Liguei para ele um dia inteiro. Até descobrir que ele estava ótimo. E estava passando alguns dias em uma cidade próxima, mas já voltaria. Sabe o quanto eu me senti louca por me importar tanto. Por ele me fazer tão mal e nunca se preocupar. E depois ainda dizer pra cuidar da minha vida, porque eu é que o atrapalhava.

    Pra finalizar preciso falar da violência financeira. Nunca imaginei que passaria por isso. Mas é, ele de uma forma ou de outra decidia sobre o meu dinheiro. Para os amigos nunca faltou grana. Ele comprava vinhos, fazia comidas diferentes. Quando eu chegava não havia dinheiro para o cigarro, para a bebida.

    Uma vez ele me pediu muito o último dinheiro que eu tinha. Achei que estava com o cartão de passagem na bolsa. Resultado. Tive que pedir dois reais a uma estranha para pagar o metrô desesperada porque tinha que trabalhar e ele não atendeu nenhum telefonema meu.

    Humilhação mesmo foi quando eu falei: Posso dormir na sua casa? E respondeu que sim, mas só se o levasse dois maços de cigarro. Ainda assim, a única vez em que foi em minha casa por que eu o pedi, falou por diversos dias e para vários amigos o quanto havia gastado com táxi. Mas nunca se preocupou com o tanto de passagem que eu pagava e as horas no ônibus que eu gastava para estar com ele, além dos meus últimos centavos que ele me fazia gastar.

    Bom, eu resolvi falar um pouco ainda que de maneira confusa sobre esse relacionamento porque acredito que precisamos avançar no debate sobre relacionamentos abusivos. E também para que mais mulheres possam sentir força para sair desse tipo de situação que nos despedaça tanto.

    O mais difícil para mim, por dar um basta, é porque chega um ponto de tal idealização do relacionamento que você não sabe mais o que está acontecendo. Foram meses para que eu pudesse entender. E depois mais alguns para não sentir mais falta de uma pessoa que não existia. Porque aquele cara só me fazia mal. E os poucos momentos tranquilos que passávamos não podiam servir para eu me sujeitar a tanto destrato.

    Espero que o movimento feminista, a esquerda de conjunto consiga elaborar mais sobre, porque a violência contra a mulher ainda têm destruído muitas vidas. E na minha ficaram muitas marcas. Mas não podemos nos calar. E este texto é uma vontade minha de que possamos parar de deixar entre quatro paredes.

    Para que possamos lutar para sermos ouvidas. Para que um dia ainda os homens possam estar ao nosso lado, nos respeitando também como companheiras. Precisamos dar um basta nos relacionamentos abusivos.

    Fotos: Extraída da internet