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  • Uma interpretação do carnaval

    Por Bernardo Pilotto, de Curitiba.

    Para adoradores, isentões e para quem não gosta, saber qual é a data do carnaval é uma pergunta importante. Afinal de contas, são 4 (em alguns casos até 5) dias de feriado que marcam o fim do verão e o início de fato do ano.

    E a forma que é “escolhida” a data do carnaval mostra muito das suas origens: a terça-feira de carnaval é sempre 40 dias antes da Páscoa. Neste período, chamado de Quaresma, a tradição católica colocava a necessidade de jejum, orações, enfim, de uma preparação para a Páscoa. Por conta disso, foi criada uma festa para anteceder este período de provações. E esta festa é o carnaval.

    O carnaval é, portanto, uma anti-festa. É o momento de fazer aquilo que é proibido no restante do ano, afinal, você vai ter 40 dias para pagar seus pecados após os festejos. É o momento de tirar a fantasia do cotidiano e colocar a de pirata, rei, colombina, arlequim e tantas outras que a nossa criatividade alcançar.

    E a influência cristã no carnaval não é apenas na data: a ideia de um desfile está intimamente ligada a rituais religiosos, como as procissões. Antes do carnaval, já haviam manifestações populares de formato processional, como os festejos da Senhora do Rosário e os ternos de Santos Reis. Esse formato também era visto nas religiões de matriz africana, como no caso dos afoxés vinculados ao candomblé.

    Os ranchos surgiram a partir de comunidades baianas no Rio de Janeiro e desfilavam no dia 06 de janeiro, dia de Santos Reis. Até que Hilário Jovino Ferreira teve a ideia de transferir este desfile para os dias de carnaval. A ideia pegou e os ranchos acabaram aceitos também pelas elites cariocas.

    Até então, nas camadas mais ricas da população, desde meados do Século XIX, se destacavam, no período do carnaval, os desfiles das chamadas Grandes Sociedades. Já as camadas populares preferiam a diversão em blocos improvisados, especialmente os ranchos, que são um dos núcleos fundadores das futuras escolas de samba.

    A partir do começo do século XX, os ranchos foram se afastando de sua origem popular, buscando a aceitação das elites. Buscavam o afastamento dos cordões e blocos, que tinham sua imagem ligada a bagunças e arruaças. Vale lembrar que, durante a República Velha (1894-1930), as manifestações populares, especialmente de cultura negra, eram oficialmente proibidas e reprimidas.

    De lá pra cá, o carnaval sempre sintetizou as disputas pelo uso do espaço público da cidade e refletiu as contradições da nossa sociedade.

    Ainda hoje, a origem do nosso carnaval ainda se faz presente e não apenas na definição na data. As disputas pela aceitação da festa, por exemplo, continuam. E o seu caráter popular também, se renovando e reinventando a cada ano.

    Em tempos de ajuste fiscal e de poderes ocupados quase 100% por setores conservadores, o carnaval tem sido colocado como um inimigo do bom funcionamento da sociedade. Em várias cidades, prefeitos e vereadores ameaçam retirar as verbas públicas para a festa, limitam a venda de bebidas alcoólicas e privatizam a festa (através de parcerias com as grandes cervejarias).

    Essas decisões são hipócritas e elitistas. Do ponto de vista fiscal, o gasto com carnaval representa um valor muito pequeno perto do que as Prefeituras gastam com propaganda, dívidas indevidas e injustas (e que precisam ser auditadas) e remuneração de serviços privados. Ainda nesse campo, é preciso registrar que parte do gasto com os festejos é revertido por conta da maior arrecadação de impostos devido ao incremento de comércio, hotéis, etc. Mas, sinceramente, isso é o que menos importa.

    O mais relevante é que o cancelamento do carnaval esconde uma visão elitista do papel do poder público em relação à cultura. Isso porque o carnaval de rua é uma festa bastante popular e para muitos é a única acessível. É também, como dissemos acima, uma festa transgressora. E isso incomoda muita gente.

    Além de tudo isso, a ausência do poder público favorece a privatização (e consequente elitização) da festa. Em algumas cidades, como Curitiba e Rio de Janeiro, as Prefeituras fizeram acordos com uma cervejaria e aí só se pode vender uma marca de cerveja durante os eventos. Quem ousa vender outra marca, é reprimido.

    A ausência do poder público também impacta naquilo que se ouve durante o carnaval. Isso porque apenas os grandes blocos (normalmente ligados a artistas já consagrados e que muitas vezes procuram inovar o carnaval sem muito critério) conseguem apoio do setor privado para efetivar seus desfiles. Sem o poder público, blocos tradicionais tendem a ter ainda mais dificuldade em resistir e existir.

    Por fim, é preciso dizer com todas as letras: é sim possível fazer festa em tempos de crise. Eu diria que é ainda mais necessário. Se, nesta sociedade bruta em que vivemos, não pudermos ter nossos dias de extravaso, vamos todos acabar confinados e deprimidos.

    *Uma versão reduzida deste texto foi publicada no Jornal Batucada, de Curitiba.

    Imagem: Cena de Carnaval, Debret
  • Manifestação em Barcelona leva centenas de milhares às ruas pela abertura das fronteiras aos imigrantes!

    Manifestação em Barcelona com a “sem mais desculpas, vamos acolher agora!” Foto: JOSEP LAGO / AFP

    Por Victor Wolfgang Kemel Amal, de Florianópolis(SC)

     

    No dia 18 de fevereiro, em Barcelona, cerca de meio milhão protestaram em favor de um maior acolhimento dos refugiados advindos do Oriente Médio e África na Europa. Ecoando as palavras de ordem Não mais mortos! Abramos as fronteiras! e Queremos Acolher! Nenhum ser humano é ilegal, os catalães protagonizaram o maior protesto do continente em defesa da entrada de refugiados. O ato foi organizado pela “Casa Nostra, Casa Vostra”, uma frente de partidos e movimentos sociais em favor da causa. Mais de 200 entidades participaram da marcha e todos os partidos catalães apoiaram a manifestação (à exceção do direitista Partido Popular [PP], que é o partido do governo nacional).

    Entre as principais pautas do ato, estava o cumprimento por parte do governo da Espanha e do estado da Catalunha em receber a cota mínima acordada com os demais países da União Europeia. Em 2016, eram para ter entrado 17 mil refugiados no território espanhol, sendo que só entraram 609. No estado catalão foi votado o recebimento de 4.500, sendo que apenas chegaram 200. Contudo, este era o programa mínimo e imediato do ato. As pautas defendidas entre os manifestantes incluem programas de resgate os refugiados que morrem no mar Mediterrâneo tentando chegar na Europa; o fim dos campos em que os imigrantes vivem em condições sub-humanas; a legalização do visto dos que já chegaram; entre outras.

    Contudo, existiam limites claros na direção do movimento e no Manifesto publicado pelo “Casa nostra, Casa vostra”. Está certo que critica, sim, a repressão e o endurecimento na acolhida de refugiados promovida pelo governo do PP. Entretanto, além de não denunciar enfaticamente a política da União Europeia que estipula uma reduzida porção de refugiados à serem recebidos por cada país, ínfima em comparação com a dimensão da crise; tampouco incluí à revisão total da Lei de Estrangeiros, lei que dificulta e muitas vezes impossibilita a legalização dos refugiados que vêm tentando entrar na Espanha.

    Existe hoje, principalmente nos países centrais do capitalismo, uma onda de extrema direita, nacionalista e islamofóbica. Esta onda se apresenta através da vitória de Donald Trump nos EUA; no favoritismo de Marine LePen para as eleições francesas deste ano; os movimentos anti-refugiados como o Pegida na Alemanha; etc. Todavia, a resistência apresentada pelos catalães neste estrondoso ato de meio milhão de pessoas mostra que os trabalhadores e a juventude não foram ganhos para a extrema direita e que existe sim amplo setor na Europa que defende a entrada de refugiados. Basta saber o quão forte se sucederá o movimento na luta contra as políticas repressoras e xenofóbicas da União Europeia e seus governos.

  • Trump volta à carga contra os imigrantes

    Por Gleice Barros do ABC, SP

     

    Ao começo de seu mandato, Trump anunciou um decreto para impedir a entrada de imigrantes de sete países árabes aos Estados Unidos, mas foi parcialmente derrotado pela ampla mobilização popular e pela decisão judicial que anulou a medida.

    Nesta terça-feira, 21, voltou à carga por intermédio do Departamento de Segurança Doméstica e anunciou ações para aumentar as restrições e facilitar a deportação de imigrantes ilegais do país.

    As deportações que antes poderiam acontecer para imigrantes ilegais com até duas semanas de permanência sem explicação e, principalmente para aqueles que tivessem cometidos crimes graves, como homicídios, estupros e fraudes, agora deverão ser realizadas para aqueles que não comprovem permanência constante no país nos últimos dois anos e que tenham sido acusados (não condenados) de ter cometido qualquer tipo de crime como, por exemplo, uma infração de trânsito.

    Isso na prática aumenta exponencialmente o número de imigrantes que correm o risco de serem deportados sumariamente sem processo legal do país pela chamada remoção expressa.

    A ideia é enviar todos os imigrantes para a fronteira com o México, onde aguardariam o andamento de seus processos. Este procedimento também é diferente do que vinha sendo adotado até aqui. Durante governo Obama, os imigrantes que faziam travessias ilegais eram acolhidos e aguardavam o processo dentro dos EUA.

    A ideia do governo Trump é aumentar o investimento para contratação de milhares de agentes de imigração e fiscalização de fronteiras, além de avançar no projeto de construção do muro na fronteira com o México em três estados (Califórnia, Arizona e Texas).

     

    Os imigrantes nos EUA

     

    Números de 2015 apontam a existência de 42,1 milhões de imigrantes nos EUA, sendo a maioria de origem mexicana e latino-americana, desses 11 milhões estariam sem documentação. Donald Trump já expressou desejo de deportar entre 2 e 3 milhões, que seriam aqueles que teriam cometido algum tipo de crime. Porém este número somaria também imigrantes com documentação em dia.

    Somente em 2016, 58% dos pouco mais de 240 mil deportados tinham cometido algum tipo de crime. Apoiadores de Trump e sua política dizem que a medida impede que os imigrantes continuem a ocupar vagas de trabalho que são de americanos, drenem os recursos públicos, além de impedir que burlem as etapas para emissão de vistos.

     

    O que pensam os imigrantes?

     

    Os reflexos dessa nova política federal já são sentidos nas comunidades hispânicas por todo o país. De acordo com matéria publicada no The New York Times já existe uma movimentação dos hispânicos para se esconderem, tirarem os filhos das escolas – em algumas áreas da Califórnia, 75% dos filhos de imigrantes foram retirados das escolas –  e evitarem sair às ruas para buscar assistência médica ou comprar alimentos.

    A primeira reação de muitos imigrantes ilegais ou não foi a de se esconder dentro de suas casas, com muito receio de que os agentes de imigração cheguem a suas portas para expulsá-los do país.

    A maior preocupação é com os filhos trazidos ao país ainda muito pequenos. Muitos pais têm procurado assistência jurídica para saber o que vai acontecer aos filhos e quais medidas adotar para impedir que sejam mandados para orfanatos e assistência social, caso os pais sejam deportados.

    Existem também os chamados dreamers, os imigrantes trazidos ao país ainda muito jovens que hoje são adultos. Para todos estes jovens e dreamers, Trump afirma que ainda vai pensar o que fazer exatamente com eles e que vai cuidar “muito, muito bem” deles. Mas pelas repercussões do tema e pelas reações desde a eleição de Trump é muito possível que haja um outro momento de resistência organizada contra os ataques.

     

    Reação mexicana

     

    Nesta quarta-feira (22), o ministro de relações exteriores mexicano, Luis Videragay, afirmou, horas antes de receber o secretário de Segurança Doméstica Americana, que o México não aceitará “decisões impostas de forma unilateral por um governo a outro”. Uma clara referência ao anúncio realizado sobre o tema da imigração. Aparentemente a preocupação mexicana é sobre o que irá ocorrer caso haja deportação de não mexicanos para o país.

    Em resposta, o próprio secretário americano, John Kelly, afirmou nesta quinta (23) que não haverá deportação em massa e que as forças armadas americanas não participarão das deportações. Por fim, completou que todo o procedimento era realizado de maneira “legal com respeito aos direitos humanos”.

    Ainda na quarta-feira (22), a Anistia Internacional divulgou relatório em que afirma que vários líderes são considerados perigosos para os direitos humanos, dentre eles, o presidente Donald Trump. Segundo relatório, “a retórica de campanha venenosa de Donald Trump exemplifica uma tendência global em direção a uma política mais sectária e raivosa”.

     

    O ataque frontal de Trump aos imigrantes poderá gerar uma reação muito grande, pois atinge milhões de pessoas. E as mobilizações desde a eleição de Trump mostraram que há um grande apelo pelo tema. Em particular na Califórnia que possui um grande percentual de imigrantes latinos. E no México as repercussões serão muito amplas também, ainda mais que o país já vive uma grande crise econômica e política.

     

     

     

  • Demissão de Michael Flynn, conselheiro de segurança nacional, é uma dura derrota de Trump

    Por Victor Wolfgang Kemel Amal, de Florianópolis (SC)

     

    Michael Flynn, ex-conselheiro de segurança nacional do governo Trump (alto cargo do círculo militar estadunidense) pediu demissão no dia 13 de fevereiro, antes de completar um mês no cargo. Antecipando uma demissão advinda do próprio Trump, Flynn decidiu deixar o cargo devido à revelação de uma conversa entre ele e o diplomata russo Serkei Kislyak que ocorreu antes do início do novo governo, em dezembro de 2016.

    Nessa conversa Flynn disse que iria rever as sanções impostas pelos EUA contra a Rússia a partir de 2014 por causa da guerra da Ucrânia, assim como a expulsão dos 35 diplomatas russos por Obama final de 2016. Em função dessa negociação, o Departamento de Justiça e o FBI acusaram Flynn de não respeitar a Logan Act, que proíbe “cidadãos comuns” de negociarem a política externa da nação.  De fato, Trump ainda não havia tomado posse e, portanto, Flynn ainda não estava no governo.

    Nesta semana, Trump anunciou o substituto para o cargo de conselheiro de segurança nacional: o General H. R. McMaster. Diferente de Flynn, que participou do comitê de campanha do presidente, McMaster não tem ligações com Trump e também não partilha de suas posições ideológicas sobre política internacional. McMaster é fortemente alinhado ao establishment do partido republicano, o chamado Great Old Party (GOP, que significa Grande e Antigo Partido). O lobby para sua indicação veio diretamente deste segmento político, a exemplo do senador John McCain, que fez e ainda faz ferrenha oposição às políticas de Trump.

     

    Trump e a Rússia

     

    Desde o começo dos debates presidenciais norte-americanos do ano passado, muito se falava sobre uma possível ligação entre Donald Trump e a Rússia. Ao contrário do partido democrata e até do partido republicano, Trump defendia uma política de enfraquecimento da OTAN e contrária à União Europeia. Além disso, defendia que as sanções econômicas contra a Rússia deveriam acabar e que os Estados Unidos reconhecessem o direito legal da Rússia sobre a propriedade da Crimeia, na Ucrânia, anexada pelos russos em 2014, fato gerador das sanções. O conjunto destas políticas, somadas a outras como a anulação do TPP (Tratado do Trans-Pacífico), convergem diretamente com a política externa e as ambições geopolíticas de Vladimir Putin. Contudo, nenhum fato ou evidência de uma ligação concreta havia vindo à tona.
    Ainda no fim de 2016, Barack Obama anunciou que as forças de inteligência estadunidenses chegaram à conclusão de que a Rússia utilizou seu serviço secreto para ajudar a eleger Donald Trump. Durante as eleições do ano passado, diversos e-mails do partido democrata e da então candidata Hillary Clinton foram liberados pelo WikiLeaks. Julian Assange, responsável pelos vazamentos, teria recebido esse material da FSB (aparelho de espionagem russo que substituiu a KGB após a queda da URSS), e que os obteve através de ataques cibernéticos. Por isso, Obama expulsou 35 diplomatas russos dos Estados Unidos como forma de retaliação à interferência estrangeira nas eleições.

    Depois, em janeiro deste ano, o blog Buzzfeed publicou um relatório do serviço de inteligência norte-americana que mostra que um ex-agente de espionagem inglês, do MI-6, construiu um dossiê sobre o Trump para setores do partido republicano que não queriam ver o milionário na Casa Branca. Neste relatório consta que Trump foi chantageado pela FSB através de filmagens do atual presidente em orgias e “atos sexuais pervertidos” praticados no hotel Ritz, em Moscou.

     

    Flynn versus GOP

     

    Sendo ou não verdadeira essa versão de espionagem que remonta à Guerra Fria, pode-se afirmar com segurança que existe, no mínimo, uma estratégia de política externa por parte de Trump de aproximação política com a Rússia. Michael Flynn, que ocupava cargo chave na segurança nacional, era um dos principais responsáveis por desenvolver esta estratégia em seu governo.

    Entretanto, essa política de aproximação com a Rússia não é a linha do setor tradicional do partido republicano, o GOP. Durante as eleições, os candidatos do establishment republicano como Jeb Bush e Marc Rubio criticaram duramente a postura de Trump com os russos, principalmente no que se refere ao fim das sanções econômicas e ao enfraquecimento da OTAN.

    Uma característica fundamental para se compreender o atual governo dos EUA é a barganha, e também queda de braço, entre a fração política ligada à Trump contra o GOP. As nomeações do presidente para o governo demonstram um equilíbrio entre estas duas forças, com peso considerável do GOP. Ou seja: Trump não pode fazer o que quer, e a linha de política externa é a que está menos suscetível a mudanças.

    Em função dessa disputa de forças interna ao governo é que provavelmente ocorreu a demissão de Michael Flynn do cargo de conselheiro de segurança nacional. Apesar de a negociação prévia feita por Flynn com Kislyak ser de fato restrita a “cidadãos comuns”, Flynn tinha assumido há menos de um mês o cargo no novo governo. O próprio Barak Obama, na sua primeira campanha presidencial, visitou diversos países e discutiu os rumos da política internacional com diversos chefes de Estado ainda na posição de “cidadão comum”, sem que a Logan Act fosse ativada.

    Portanto, muitos entendem que a invocação dessa lei como forma de induzir a demissão da Flynn se tratou mais de uma manobra jurídica para expulsar um político indesejado para o GOP, que queria alguém mais alinhado ao seu próprio espectro político no cargo de conselheiro de segurança nacional. Um indício dessa disputa de forças que vem ocorrendo nos bastidores da Casa Branca é que Flynn desafiou de forma ousada o establishment político norte-americano ao propor a subordinação da CIA e a Junta de Chefes do Estado Maior ao presidente da república através do Conselho de Segurança Nacional, comandado por Flynn. A indicação do novo conselheiro esta semana, o General McMaster, indica a pressão feita pelo GOP sobre Trump na nomeação para o cargo.

    A demissão do ex-conselheiro foi uma dura derrota de Trump, a maior desde o início de seu governo. Isso debilita ainda mais a possibilidade de ele aplicar de fato a política externa prometida durante a campanha. Uma vitória para o establishment republicano e democrata, que defendem a manutenção de uma política ofensiva contra a Rússia.

     

     

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  • Solidariedade a Comunidade Nelson Mandela em Campinas

    Por Isabel Laurito, de Campinas, SP

    Ontem (21), moradores da Comunidade Nelson Mandela, no Jardim Capivari, saíram em ato desde cedo pela cidade, contra a ordem de despejo que foi anunciada na última terça feira. Há 40 anos a área estava abandonada, mas com o início da ocupação o dono da área entrou na justiça, exigindo a desocupação do terreno. Pela manhã, os moradores estiveram em reunião com o Secretário de Habitação da cidade, que não deu nenhuma resposta e garantia para as 900 famílias que moram na comunidade. São cerca de 2500 pessoas que moram hoje na região ocupada, 145 crianças de até 7 anos, 30 gestantes e centenas de idosos.

    Depois da reunião com o Secretário de Habitação os moradores seguiram em ato até a prefeitura da cidade, exigindo uma reunião com o prefeito Jonas Donizette. Depois de passarem a tarde toda em frente à prefeitura, os moradores foram informados pela Guarda Municipal (GM) que deveriam se retirar do local, caso contrário a GM estava autorizada a utilizar bombas de gás contra os manifestantes, para que dispersassem.

    Após a ameaça da GM, o secretário do prefeito se reuniu com alguns representantes do movimento e garantiu que, após o carnaval, haverá uma reunião oficial entre os representantes da ocupação, o secretário e a Cohab. Os moradores da Comunidade Nelson Mandela seguem em resistência contra a reintegração de posse do terreno.

    Foto: simple.wikipedia.org/wiki/Favelas#/media/

  • Em qual instituição devemos confiar?

    Por Ademar Lourenço, de Brasília, DF

    Alexandre de Moraes foi aprovado ontem na sabatina do Senado sobre sua indicação ao Supremo Tribunal Federal. Foram 19 votos contra 7 na Comissão de Constituição e Justiça da casa. Sua indicação segue agora para o plenário do Senado, onde certamente será aprovado. O que isto quer dizer?

    O chefe do Poder Executivo, Michel Temer, indicou para o STF seu ministro, que fez favores pessoais a ele no caso do hacker que roubou dados do celular de sua esposa. Temer é investigado na operação Lava-Jato, que será tema de julgamento no Supremo. O chefe do Poder Legislativo, Eunício de Oliveira, que também está envolvido na Lava-Jato, coordenou a sabatina.  Agora Alexandre de Moraes passa pelo plenário do Senado, cheio de corruptos, e vai ser parte da corte mais importantes do Poder Judiciário.

    Alexandre de Moraes será um retrocesso. E o caminho dele ao STF mostra como os três poderes no Brasil funcionam. Os favores pessoais, os interesses empresariais e a politicagem é quem manda nos gabinetes chiques de Brasília. O interesse do povo passa longe. Além do Poder Executivo totalmente ilegítimo com Temer na presidência, não podemos esperar muita coisa do Legislativo e do Judiciário.

    No meio dessa sujeira, em qual instituição devemos confiar? Vivemos dias difíceis. A previsão de crescimento da economia do Brasil para 2017 será de apenas 0,5%, segundo o Banco Mundial. E a instituição tem sido otimista. No ano passado, ela previu queda de 2,5%, mas o tombo deve passar dos 4%. Se nenhum dos três poderes fazem nada, quem poderá nos salvar?

    Na internet a gente vê de tudo. Tem gente defendendo a volta da ditadura, volta da monarquia, gente querendo separar estados do Brasil e todo tipo de bobagem. O deputado Jair Bolsonaro, com sua diarreia verbal, desvia as esperanças de muitos para caminhos sombrios. Até Lula, que parecia morto, é visto por alguns como uma oportunidade para tempos melhores.

    Para nós, a saída é a mobilização da classe trabalhadora. Não existe solução mágica nem salvador da pátria. Também não podemos confiar nas instituições deste regime político. Aquelas e aqueles que vivem de seu trabalho devem confiar apenas nas suas forças. Na história sempre foi assim. Todos os direitos que temos foram conquistados.

    As instituições atuais estão a serviço da classe dominante. São os donos do dinheiro que dão as cartas no Executivo, no Legislativo e também no Judiciário. Foi a burguesia que criou o atual regime político. Ele só favorece a classe trabalhadora se for pressionado pela mobilização.

    Quem aponta a solução são as mulheres que vão ás ruas contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. São os servidores do Rio de Janeiro, que estão nas ruas contra as maldades do governador. São os estudantes que ocuparam escolas no ano passado. Cada trabalhador e cada trabalhadora é parte da solução. E parte do problema.

    Parece difícil hoje organizar os trabalhadores por seus direitos. Mas não é impossível. As lutas surgem, é necessário que elas se unifiquem e que as direções dos movimentos sociais articulem essa unidade. Para isso, as organizações de esquerda cumprem um papel essencial. E o conjunto da militância, independente de ser ou não de uma organização, deve fazer sua parte.

    Março será um mês de lutas. É hora de fazer trabalho de base e mobilização. Boa parte da população ainda tem ilusões nas instituições e em salvadores. Há muito o que fazer.

    Foto: pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_de_Moraes

  • França: Chamado unitário à mobilização no 8 de março

    COMUNICADO DE IMPRENSA

     

    Elas foram mais de 300 mil para se manifestar na Polônia pelo direito ao aborto.

    Elas estavam em greve na Islândia para obter a igualdade de salários.

    Elas estavam em greve na Argentina contra as violências.

    Elas eram milhões contra Donald Trump.

    Na França, elas foram dezenas de milhares para manifestar

    contra a Lei  El Khomi, logo na ação do 7 de novembro passado às 16h34

    por a igualdade de salários;

    em todos os lugares,

    ELAS CONTINUAM A LUTAR POR SUAS CONDIÇÕES DE TRABALHO.

     

    CHAMAMOS A AÇÃO E A GREVE

    PELOS DIREITOS DAS MULHERES NO 8 DE MARÇO

     

    A jornada do 8 de março não se comemora com um presente ou uma flor no local de trabalho.

    Como jornada internacional pelos direitos das mulheres, é uma jornada de luta pela igualdade.

    Em 2017, o contexto político e social, internacional como nacional, não oferece descanso para todas e todos os que  trabalham por mais igualdade e justiça social.  A banalização das ideias da extrema direita, o avanço dos conservadores nas eleições (no EUA mas também em vários países de Europa) são sinais preocupantes para os direitos das mulheres e para os direitos das populações que devem fugir das guerras, da tirania, da homofobia ou simplesmente da miséria.

     

    Na França, o contexto político e social com as últimas leis (Reforma Trabalhista, Lei Macron, Lei Rebsamen…), a represão aos movimentos sociais, assim como a banalização das ideias da extrema direita obrigam nossas organizações sindicais e feministas a se juntar para se opor à propaganda mentirosa e à retirada de direitos sociais para os assalariados, desempregados, precários, estudantes e aposentados/das.

     

    A igualdade entre mulheres e homens é para nós obrigatória porque ela é parte do progresso social. Deixar perdurar as desigualdades entre mulheres e homens e continuar as violências contra as mulheres, é ser responsável pelo avanço de ideias retrógradas e dos partidos que as propagam. Medidas ambiciosas com recursos específicos devem ser realizadas de forma urgente.  Mobilizações amplas, combativas e solidárias permitirão impô-las.

     

    Em 2017, queremos pôr fim às desigualdades no trabalho, em quanto a salários, acesso a emprego, carreira, tempo de trabalho. Queremos igualdade salarial e revalorização dos salários nas categorias de maioria feminina.

    Em 2017, queremos que seja garantido  o direito ao aborto, à contracepção, cuja legitimidade é constantemente questionada.  Queremos um acesso igual à saúde e serviços públicos com igualdade de tratamento para todos e todas.

    Em 2017, queremos que acabem as violências sexuais e sexistas contra as mulheres: nos lugares de trabalho, no espaço público e em casa.

    Em 2017, queremos políticas fortes contra os esterótipos de gênero: nas escolas, nos meios de comunicação, na vida pública e privada.

    Em 2017,  queremos a divisão de tarefas domésticas,  dos serviços públicos responsáveis pela primeira infância, pessoas com deficiência e os idosos.

     

    As mulheres continuam a serem pagas, em média, 25% a menos que os homens. Então significa que a cada dia, elas trabalham gratuitamente a partir das 15h40.

    Portanto, chamamos para o dia 8 de março um dia de mobilizações e greves pelos direitos das mulheres.

    Para rejeitar o trabalho gratuito e exigir a igualdade profissional, chamamos à paralisação no trabalho a partir das 15h40, na França e no mundo inteiro.

     

    Vamos mostrar que as nossas lutas são necessárias e indispensáveis para a emancipação das mulheres e dos povos. Vamos mostrar que todas e todos nós devemos permanecer solidários, vigilantes e combativos para fortalecer nossos direitos adquiridos e obter novos.

     

    8 DE MARÇO ÀS 15H40 : TODAS NA AÇÃO, TODAS EM GREVE

     

    Primeiras assinaturas:

    CGT, Colectiff Nacional Droits de Femmes, Femen, Femmes Egalité,  FSU, Les Efronté-es, Oser le Féminisme, Planning Familial, Union Sindicale SOLIDAIRES, UNEF, …

     

     

     

     

     

  • Ni Una a Menos: Chamado à manifestação de 8 de março na Argentina

    Respostas políticas a reivindicações políticas. No 8 de março #NosotrasParamos

     

    Como forma de dar visibilidade ao chamado internacional do 8 de março, reproduzimos abaixo o texto construído a partir do Coletivo Ni Una Menos da Argentina e outros movimentos sociais e partidos políticos como forma de garantir a paralisação na Argentina.

     

    Às centrais de trabalhadoras e trabalhadores da Argentina:

     

    Reunidas em assembleia multitudinária, conformada por um heterogêneo conjunto de mulheres autoconvocadas e organizadas em diferentes âmbitos sindicais, sociais, estudantis e políticos, exigimos às centrais sindicais que garantam a paralisação de mulheres, lésbicas, transsexuais e travestis, convocada para o 8 de março, em comemoração do Dia Internacional da Mulher Trabalhadora e num contexto de políticas de ajuste contra nossos direitos e nossas vidas. Pedimos que se inclua a agenda do movimento de mulheres em negociações coletivas e nos conflitos sindicais e sociais.

    O movimento de mulheres se pronuncia de modo unitário para exigir que não excluam nem tornem invisíveis nossas demandas. O recrudescimento da violência machista deve ser combatido em todos os espaços e situações. É um problema de todas e de todos.

    Exigimos que as centrais sindicais chamem à paralisação de mulheres que está convocada internacionalmente e garantam o direito de greve e os modos de organização que se dão em cada lugar de trabalho para consolidar essa medida.

    Nenhuma a menos. Vivas queremos permanecer.

     

    Aderem a este chamado: Pts/Fit, Pan y Rosas, Plenario de Trabajadoras – Partido Obrero, Unión Ferroviaria Seccional Oeste Mujeres de Izquierda, Socialista Ingrid Urrutia (Delegada de Género Junta Interna ATE INCAA), Cientificas y Universitarias Autoconvocadas – Buenos Aires (CyUA-BsAs), Solidaridad + Igualdad CABA, Comisión de género de Aeronavegantes, ADIUNGS (Asociación Docentes de la Universidad Nacional de General Sarmiento), Aúlla (Mujeres Artistas), Juntas y a la izquierda, Colectivo Yo No Fui, Myriam Bregman (ex diputada Fit Pts), Estefanía Pozzo (periodista), Seamos Libres, Frente de Mujeres del Movimiento Evita, Radio Futurock, Organización Las Bases, Micromachismos, Equipo de género y diversidad de la UNDAV, ANDUNA (Asociación No Docentes Universidad Nacional de Avellaneda), ADUNA – Asociación de Docentes Universidad Nacional de Avellaneda, CESOC – Centro de Estudiantes Departamento de Sociales UNDAV- CESAF – Centro de Estudiantes Departamento de Salud y Actividad Física UNDAV-, CEHA – Centro de Estudiantes Departamento de Humanidades y Artes UNDAV, Agrupación Estudiantil Unidos por la UNDAV, Agrupación Estudiantil El Puente Cultural UNDAV, Agrupación Estudiantil La Rodolfo UNDAV, Ammar CTA, Comutra (Coalición de mujeres trabajadoras), Manifiesta (Cooperativa de comunicación feminista), Movimiento Popular La Dignidad, Revbeladas Cine (Colectiva de cine feminista), Asamblea Popular Feminista, Juliana Di Tullio (diputada FPV), Teresa García (diputada FPV), Mara Brawer (Secretaria de la mujer – PJ-CABA), Diplomatura en géneros, políticas y participación de la UNGS, Radio La Uni UNGS, Centro Comunitario Gallo Rojo, Conurbanas, La Barriada, La Plata, Mesa NiUnaMenos Salta, Ni Una Menos Rosario, Ni Una Menos Córdoba, Ni Una Menos Tucumán, Ni Una Menos Resistencia, Frente de Géneros de La Poderosa, Foro de Mujeres por la igualdad de Oportunidades Salta, Ratt Argentina, Mala Junta-Patria Grande, Mujeres de Pie-Chubut, Mujeres en Lucha – Las piqueteras, Artistas para la libertad, Frente Universitario Nacional y Popular (FUNYP) UNGS, Comisión de la Memoria del Barrio Manuelita, San Miguel, Sociedad de Fomento UFO-San Miguel-, Colectivo de Mujeres Osadía, Madres de Plaza de Mayo Línea Fundadora, Instituto de Altos Estudios Sociales – IDAES / UNSAM, Colectiva Feminista La Revuelta – (Neuquén), Frente de Mujeres del Partido Solidario, Unidad Popular, Federación Universitaria de Buenos Aires (FUBA), Campaña Nacional por el Derecho al aborto Legal, Seguro y Gratuito, Izquierda Revolucionaria, OP Hombre Nuevo, Red Internacional de Periodistas con Visión de Género (RIPVG) Argentina, colectivo Emergente,Tenemos Patria, Mesa Reconquista de José León Suárez, partido de San Martín, CUSAM, sede de la UNSAM en el penal N 48 de José León Suárez, Programa contra la Violencia de Género de la Universidad de San Martín, Agrupación Pingüinos, Grupo Matamba, Red de Mujeres Afropolíticas, La Mandrágora (Espacio popular de género y diversidad), Corriente Peronista Descamisados. Malvinas Argentinas, ELA – Equipo Latinoamericano de Justicia y Género-, Mujeres del Frente popular San Miguel, Colectiva Artivista en lo abierto, Nosotras Humanistas, Comedor y Centro Comunitario “Sin fronteras”, Coalición por un Estado Laico (CAEL), Mutual Primavera de José C. Paz, Sindicato Unido de Trabajadores y Empleados del PAMi-Secretaria de Genero-, Paro Internacional de Mujeres (PIM), Red de Mujeres, Asamblea Lésbica Permanente, Asociación del Personal No Docente de la UNGS, Católicas por el derecho a decidir,Noelia Barbeito (senadora provincial en Mendoza PTS-FIT, Laura Vilches (diputada provincial Cordoba PTS-FIT), Secretaría de DDHH de Udocba, Frente Ciudadano Somos Patria, Desde el Fuego (Colectiva Disidente y Antipatriarcal), Red de Profesionales de Salud por el Derecho a Decidir, Linea Aborto más información menos riesgos.

     

    Texto disponível: https://www.facebook.com/notes/ni-una-menos/respuestas-pol%C3%ADticas-a-reclamos-pol%C3%ADticos-el-8-de-marzo-nosotrasparamos/593989180792268

  • Plataforma da greve internacional das mulheres (Estados Unidos)

    Esta é a plataforma de convocação da greve internacional das mulheres, publicado originalmente pela coalizão International Women’s Strike/US e traduzida por Daniela Mussi para o blog Junho, de onde republicamos.

    A greve das mulheres do 8 de março será um dia de ação internacional planejado e organizado por mulheres em 30 países do Norte e do Sul do Mundo. Em um espírito de solidariedade e internacionalismo, nos Estados Unidos queremos que o dia 8 de março seja um dia de ação organizado por e para mulheres empobrecidas e silenciadas por décadas de neoliberalismo, predominantemente as mulheres trabalhadoras, mulheres com deficiência, mulheres de cor, mulheres nativas, mulheres imigrantes, mulheres muçulmanas e árabes, mulheres lésbicas, queer e trans.

    Queremos que o 8 de março seja o início de um movimento feminista renovado que organize resistência não apenas contra Donald Trump e suas políticas misóginas, mas também contra as condições que produziram Trump, ou seja, as décadas de desigualdade econômica, violência racial e sexual, assalto colonial aos povos nativos e guerras imperiais no exterior.

    Celebramos a diversidade dos muitos grupos sociais que se juntaram para o 8 de março. Viemos de muitas tradições políticas e estamos unidas em torno dos seguintes princípios comuns:

    O fim da violência de gênero
    Todas as mulheres merecem uma vida livre de violência, tanto doméstica como institucional. Mulheres trabalhadoras, mulheres trans e mulheres de cor enfrentam os piores aspectos da violência individual e institucional direta, seja sob a forma de estupro e violência doméstica, brutalidade policial, cercos contra imigrantes ou sob a forma da lenta da violência promovida por políticas estatais que criam e consolidam a pobreza em nossas comunidades. Contra toda essa violência, estatal e individual, exigimos que nossa vida e trabalho sejam tratados com dignidade, pois formam a base da sociedade.

    Justiça reprodutiva para todas
    Defendemos a plena justiça reprodutiva para todas as mulheres, cis e trans. Queremos uma completa autonomia sobre nossos corpos e plena liberdade reprodutiva. Exigimos o aborto livre sob demanda e assistência universal para todas, independentemente de renda, raça ou status de cidadania. A história da esterilização de mulheres de cor neste país vai de mãos dadas com o ataque ao direito ao aborto. Por conseguinte, a justiça reprodutiva para nós significa a liberdade de escolher querer ter ou não filhos, tê-los no momento da nossa escolha e o direito ao apoio financeiro e outras formas de suporte para mães e crianças para que sejam socialmente valorizadas e protegidas.

    Direitos trabalhistas
    Os direitos trabalhistas são direitos das mulheres porque o trabalho remunerado das mulheres no local de trabalho e o trabalho não remunerado em casa são a base da riqueza em nossa sociedade. Em todo o mundo, as mulheres atuam como cuidadoras de todos, jovens e idosos, com ou sem deficiência. No entanto, as mulheres são o sexo mais pobre em todos os lugares, empobrecido em vez de recompensado por esta jornada dupla ou tripla de trabalho em funções vitais. Na média, 46% dos ativistas sindicais nos Estados Unidos são mulheres e a maioria delas são mulheres de cor.

    Todas as mulheres, independentemente do status de cidadania, sexualidade ou raça, devem ter salário igual por trabalho igual, ter um salário mínimo de 15 dólares por hora garantido, incluindo as cuidadoras, além de acesso universal e gratuito às creches, licença maternidade remunerada, licença familiar remunerada, licença por doença e liberdade para organizar sindicatos combativos nos locais de trabalho. Como mulheres trabalhadoras que “carregam metade do céu” nas costas, recusamo-nos a ser divididas quanto ao tipo de trabalho que realizamos, seja qualificado ou não qualificado, remunerado ou não remunerado, formal ou informal, trabalho sexual ou trabalho doméstico.

    Assistência social completa
    Décadas de políticas neoliberais levaram ao violento desmantelamento da assistência social que afetou todas as mulheres. Enquanto as nossas vidas no trabalho tem se tornado cada vez mais precárias, os dispositivos sociais que poderiam proporcionar uma rede de segurança contra uma exploração tão dura da mão-de-obra foram atacados ou removidos completamente. Contra estes ataques, exigimos uma reestruturação completa do sistema de bem-estar social para atender às necessidades da maioria, como os cuidados universais de saúde, um sistema robusto de seguro-desemprego, além de segurança social e educação gratuita para todos. Exigimos que o sistema de bem-estar trabalhe para eliminar a pobreza e apoiar nossas vidas em vez de nos fazer sentir vergonha sempre que precisamos acessar nossos direitos.

    Por um feminismo antirracista e antimperialista
    Contra os supremacistas brancos no atual governo, na extrema-direita e os antissemitas que eles encorajam, defendemos um feminismo irredutivelmente antirracista, anticolonial e anti-ocupacionista. Isso significa que movimentos como NoDAPL, Black Lives Matter, de luta contra a brutalidade policial e o encarceramento em massa, de exigência de fronteiras abertas, pelos direitos dos imigrantes e de luta por justiça para a Palestina são para nós o coração palpitante do novo movimento feminista que nasce. Queremos desmantelar todas as muralhas, das prisões, passando pelo México até a Palestina.

    Justiça ambiental para todas
    Acreditamos que a desigualdade social e a degradação ambiental são ambas devidas a um sistema econômico que coloca o lucro acima das pessoas. Exigimos, em vez disso, que os recursos naturais da Terra sejam preservados e usados para dar sustento às nossas vidas e de nossas filhas e filhos. A luta dosProtetores da Água em Standing Rock contra a Dakota Access Pipe Line e de todas e todos que, ao redor do mundo, se levantam contra a contaminação do solo e da água pelas corporações nos inspira. A emancipação das mulheres e a emancipação do planeta devem andar de mãos dadas.

  • Eleições nacionais no Equador: a prova de Rafael Correa

    Por David Cavalcante, Recife (PE)

     

    Neste domingo, 19 de fevereiro, haverá eleições gerais no Equador. Aproximadamente 12,8 milhões de eleitores, aptos a votarem, escolherão o Presidente e Vice-Presidente da República, os 137 deputados da Assembleia Nacional Legislativa unicameral, para um mandato de 4 anos, além dos cinco parlamentares da Comunidade Andina que congrega Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru.

    As eleições de 2017 no Equador encerram uma turbulenta etapa da política nacional iniciada em 2000. Naquele contexto, ante uma ofensiva neoliberal no continente, no mês de janeiro, ocorre uma marcha nacional popular-indígena dirigida pela Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador-CONAIE – cujo ápice foi a derrubada do então Presidente Jamil Mahuad. Este havia imposto um desastroso e repudiado pacote econômico congelando os depósitos bancários e extinguindo a moeda nacional, o Sucre, que havia sido a moeda corrente daquele país, entre 1884 e 2000. A partir daí o país teve sua economia totalmente dolarizada.

    Mahuad havia deixado um saldo de prejuízos bilionários no orçamento público para salvar o sistema financeiro, altas taxas de inflação, dolarização após a desvalorização progressiva do Sucre. A isso se somou a recessão e o aumento drástico do desemprego que chegou a 29% para os seguimentos mais populares. Houve um aumento drástico da pobreza e as finanças públicas foram esgarçadas, ao mesmo tempo em que progrediram as dívidas interna e externa. O resultado foi a extinção da soberania monetária, o aumento da degradação social e da emigração dos trabalhadores para Espanha e Itália.

    A liderança que se projetou em 21 de janeiro de 2000 foi o Coronel Lúcio Gutiérrez, que liderou um setor da média oficialidade e apoiou o Levante, deslocando um setor das forças armadas para apoiar a rebelião popular. Gutiérrez, após capitular à cúpula dos generais das Forças Armadas e da Corte Suprema de Justiça, garantindo a posse do Vice de Mahuad, foi preso por 120 dias. Pouco tempo depois perante o clamor popular, foi anistiado pelo Congresso e passou a organizar seu partido, o Partido Sociedade Patriótica 21 de Janeiro, pelo qual ganhou a Presidência em 2002. Montou um governo de Frente Popular com o Pachakutik (partido indigenista apoiado pela CONAIE) e com o MPD (partido legal dirigido pelo stalinista Partido Comunista Marxista-Leninista do Equador -PCMLE) e a quase totalidade das organizações de esquerda do país.

     

    O levante que derrubou o governo de Lúcio Gutiérrez

     

    O governo Lúcio foi pouco a pouco girando à direita, implementando medidas neoliberais, atacando movimentos sociais e intervindo de forma explícita no Poder Judiciário para mudar a correlação de forças ao seu favor, o que o obrigou a se aliar com os partidos de direita mais odiados do país.

    Lúcio Gutiérrez foi derrubado por um novo levante popular, num cenário de forte crise política entre os meses de fevereiro e abril daquele memorável ano de 2005. Dessa vez, o levante foi mais urbano e espontâneo e mais concentrado na capital do país, Quito, e ficou conhecido como a Rebelião dos Foragidos (nome que havia dado o Presidente Lúcio aos manifestantes contra seu governo).

    A Rebelião dos Foragidos, ante a paralisia e crise das principais organizações de esquerda do Equador que antes apoiaram e participaram do Governo Lúcio, foi coordenada por um até então desconhecido radialista, chamado Paco Velasco. Este, a partir da sua saudosa rádio alternativa, Rádio La Luna, convocava diariamente as crescentes manifestações de rua, pela noite, com as panelas que passaram a ressoar cada vez mais em toda a cidade. La Luna se converteu por uma semana no QG da Rebelião. Dali se escutavam os debates, denúncias públicas e convocatórias. A sede da rádio passou a ser um dos pontos de maior concentração do ativismo social e político da cidade.

    A auto-organização popular nos bairros, universidades, escolas e locais de trabalho já começava a se desenvolver, quando após uma semana de protestos iniciados numa noite de quarta-feira, 13 de abril, se avolumaram diariamente numa concentração unificada de toda a cidade que confluiu até o parque da Carolina. De lá, mais de 200 mil pessoas marcharam rumo ao Palácio Carondelet, no dia 19 de abril. O Congresso Nacional e em seguida o Palácio presidencial ficaram cercados e inacessíveis, devido às barricadas humanas e das chamas do fogo que se colocava em tudo o que se pudesse trazer de restos de madeira e de tralhas. Foi do histórico Carondelet de onde Gutiérrez fugiu de helicóptero até o aeroporto e seu avião não conseguiu decolar, pois o povo enfurecido já havia tomado a pista de pouso e bloqueado o funcionamento do aeroporto. Lúcio voltou ao seu helicóptero de fuga, ainda tropeçou subindo as escadas da aeronave, e somente reapareceu dias depois na casa do Embaixador do Brasil.

     

    O período de governo de Rafael Correa

     

    O atual Presidente Rafael Correa surge com força no cenário equatoriano, como uma saída eleitoral após a Rebelião dos Foragidos de 2005. Tinha sido Ministro da Economia de Alfredo Palácios, Vice-Presidente, que assumiu após a caída de Lúcio Gutierrez. Rompeu com o Presidente por não assegurar sua defesa na negociação da dívida externa para que a Venezuela passasse a ser a principal titular dos ativos da dívida em troca de negócios petroleiros. Assim, Correa sai do governo como um nacionalista que enfrentou o poder dos Estados Unidos na região, que sofria a ofensiva dos Tratados de Livre Comércio-TLCs e para implantação da ALCA.

    Correa constituiu uma nova Frente Popular, através da Aliança PAIS (Aliança Pátria Altiva e Soberana), com apoio nos movimentos indígenas, MPD, ID, Pachakutik, Partido Socialista-Frente Ampla, entre outros. Ganhou as eleições de 2006 e tomou posse em 2007, denominando seu governo “Revolução Cidadã”. Depois foi reeleito em 2013. No primeiro mandato, convocou a Assembleia Constituinte que era uma das principais reivindicações dos movimentos indigenistas, urbanos e grupos de esquerda. No âmbito internacional se alinhou de forma enfática com a ALBA e os governos de Evo Morales e Hugo Chavez, somando-se ao chamado “bolivarianismo”.

    No entanto, após 10 anos de governo, há muitas críticas a Correa com relação a não implementação de grandes reivindicações dos movimentos sociais como, por exemplo, o fim da dolarização que ele havia combatido antes da primeira eleição e também a relação de subserviência com as empresas petroleiras e mineradoras estrangeiras, na exploração intensiva de blocos de petróleo e jazidas minerais em reservas ambientais e indígenas, aprofundando o modelo extrativista de exportação de commodities. Da mesma forma, a dinâmica bonapartista que foi assumindo seu governo ao restringir a liberdade de opinião e criminalizando lideranças críticas e dos movimentos sociais. Destacam-se nessa linha a oposição pela esquerda de expoentes como o economista Alberto Acosta, que foi um dos redatores originais do Programa da Revolução Cidadã de Aliança PAIS e ex-Presidente da Assembleia Constituinte, quando rompeu com Correa.

    A grande marca das atuais eleições equatorianas é a disputa muito fragmentada se comparada com as de 2013, onde Correa venceu no primeiro turno com 57% dos votos válidos. São 8 candidatos presidenciais, em que a esquerda social e reformista se dividiu entre o candidato do governo, Lênin Moreno (Alianza País) e Paco Mocayo (Esquerda Democrática-ID). Nesse cenário, não há candidaturas a Presidente que expressem um programa da esquerda socialista ou anticapitalista, cujos grupos são muito pequenos no país.

    A direita está representada por 2 candidaturas de peso:  Guillermo Lasso, o liberal, ex-banqueiro e reacionário, supostamente integrante da Opus Dei, e Cynthia Viteri, representando o arqui-conservador Partido Social Cristão-PSC, vinculado aos agroexportadores de Guayaquil que, desta vez, apresenta um rosto mais moderado de uma mulher, apresentadora de TV e jornalista do Canal Telesistema. De forma que o 1º turno mais se parece com uma primária para que a direita escolha entre eles quem vai disputa com o correísmo.

    As pesquisas eleitorais, mesmo que não sejam totalmente confiáveis, indicam uma apertada disputa para a sucessão de Rafael Correa (Alianza País) e o segundo turno é quase certo entre  Lênin Moreno (vice de Correa entre 2007 e 2013) e Guilhermo Lasso, que já se manifestou até mesmo contra o uso de “camisinhas”.

    Os grandes temas na disputa presidencial estão cruzados por denúncias de corrupção envolvendo o Vice de Lênin Moreno e contratos da Petro-Equador, o crescimento do desemprego que chegou a 419 mil trabalhadores desempregados, em setembro de 2016 (em uma população economicamente ativa de 8,1 milhões, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censo-INEC). Além disso, as expressões dos impactos negativos da queda do valor do barril de petróleo no mercado internacional que impactaram negativamente a renda petrolífera, atingindo um setor das classes médias e diminuindo a margem de manobras para políticas sociais compensatórias. O provável segundo turno aumentará o debate sobre esses assuntos e a polarização política no país.