Home – Últimas Notícias

Currently browsing: Home – Últimas Notícias
  • A noventa anos do suicídio de Adolf Joffé, dirigente da Oposição de Esquerda na antiga URSS

    Nesta semana, no dia 16, cumpriram-se 90 anos do suicídio de, Adolf Joffé,  um dos mais notáveis dirigentes do partido bolchevique e da revolução russa e depois da Oposição de Esquerda ligada a Leon Trotsky. Impedido por Stalin de fazer um tratamento de grave doença no exterior, o que o condenaria à morte lenta e terrível, resolveu fazer um gesto supremo unindo o sacrifício pessoal a um grito de alerta sobre a degeneração galopante da revolução russa que agora completa 100 anos. A pessoa, as ideias, a dedicação e inteligência de Joffe e seu último grito de angústia merecem ser conhecidos pelas gerações mais jovens que lutam contra o capital. Publicamos abaixo uma nota de Charles Udry, publicada no site Alencontre. Na publicação do site suíço constam dois textos de Joffé, dos quais divulgamos o segundo, a sua carta de despedida a Leon Trotsky antes de seu suicídio. (Editoria Internacional)

    Adolf Abramovitch Joffé nasceu em 10 de outubro de 1883 em Sebastopol, na Criméia, no Império russo. Já na escola secundária, adere aos social-democratas russos e, formalmente ao Partido operário social-democrata russo (POSDR, criado em 1898) em 1903.  Em 1904, é enviado a Baku no Azerbaijão, uma região petrolífera tornada capital operária. Caçado pela Okhrana, a polícia tsarista, Joffé foge e retorna a Moscou e em seguida parte no exílio. Retorna a Moscou nos inícios da revolução de 1905 para logo retornar ao exílio. Em 1906, é forçado pelas autoridades alemãs a partir do território e vai assim à Áustria  onde estuda medicina e se liga a Alfred Adler, um dos pioneiros da psicanálise. Colabora com Trotsky entre 1908 e 1912 para editar o jornal Pravda e ajudá-lo financeiramente, graças à sua família que dispunha de recursos. Seu nome de guerra, obrigatório diante da repressão do regime tsarista, se refere à sua origem: “O Crimeano” (V. Krimski). Em 1912, é preso durante 10 meses quando em visita a Odessa e em seguida “enviado” à Sibéria. O perfil de Joffé constitui exemplo da trajetória e da formação de uma “diáspora revolucionária” que se opunha, pela sua experiência e conhecimentos, à massa dos militantes da IIª Internacional, mesmo se seus militantes eram pouco numerosos e enfrentaram problemas complexos e numerosas dificuldades à partir de fevereiro 1917.

    Liberado, Joffé vai à Criméia de onde é enviado pelos social-democratas a Petrogrado. Durante o processo sociopolítico de radicalização, adere inicialmente à corrente de Trotsky, denominada Mezhraiontsy (interdistrital) – uma pequena corrente formada em 1913 que reunia, entre outros, militantes como Anatoly Lunacharski, Moisei Uritski, David Riazanov, V. Volodarski, Dmitry Manuilski e Sergey Ezhov (Tsederbaum). Entre maio e junho 1917, constituem um bloco com os bolcheviques com quem se fundem.

    Em Outubro de 1917, Joffé apoia a posição de Lenine frente às “hesitações” de Kamenev e de Zinoviev a respeito da questão do poder e do governo, quando era patente o vazio do poder institucional (governo provisório) e os efeitos negativos da guerra na tropa (camponesa) eram negativos, ao passo que a dialética revolução – contrarrevolução (interna e internacional) retomava todo o seu vigor.

    Joffé assume a presidência do Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado. Após 25-26 de outubro, compartilhará as posições de Lenin e Trotsky. Na questão da assinatura da paz de Brest-Litovski, não era favorável em fevereiro 1918 a um “tratado de paz permanente”, mas somente tinha voz consultiva. A discussão que manteve durante as negociações com o representante do Império Austro-húngaro vacilante, Ottokar Theobald Otto Maria, comte de Czernin von und zu Chudenitz, ministro das Relações Estrangeiras de 1916 de 1918, é bem reveladora. Em suas memórias, após insistir em que Joffé era judeu, o conde lhe atribui grande inteligência e uma atitude de gentleman. Joffé havia-lhe declarado, com extrema elegância: “Espero muito que sejamos capazes de estimular a revolução em seu país!”.

    Quando o governo dos “Comissários do Povo” se transferiu de Petrogrado a Moscou, Joffé permaneceu em Petrogrado. Assumiu de abril a novembro de 1918 uma função de representação diplomática na Alemanha, cujo idioma dominava, e assim assinou o tratado complementar de paz entre a Alemanha e a “Rússia dos Soviets” em agosto de 1918.

    Foi novamente expulso da Alemanha na véspera do levante de novembro 1918, acusado de organizar “um levante comunista”. Em março de 1919 não foi reeleito para o Comitê Central quando do VIII Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Após ter ocupado um posto de “comissário” na Ucrânia, assume funções diplomáticas e assina uma série de tratados de paz que deveriam, em resumo, assegurar ao “recente poder soviético” uma certa estabilidade geopolítica diante de uma ofensiva adversária tanto interna quanto internacional, num contexto de ampla crise socioeconômica.

    Ele pode examinar os mecanismos das ditas conferências de paz, como ilustrado pela Conferência de Genova em abril-maio 1922, cujo propósito para as potências dominantes consistia em “reconstruir” a Europa Central e do Leste e, dentro deste quadro, “regulamentar” as relações com o “poder bolchevique”. Publicou a este respeito um pequeno livro muito instrutivo.

    Em 1923, patrocinou um acordo entre o PC chinês e “a força nacionalista” representada pelo Kumintang, cujo dirigente indiscutível era Sun Yat Tsen. Dedicou-se em seguida a um acordo entre a URSS (formalmente criada em 1922) e o Japão, que não vingou. A doença o afetava cada vez mais intensamente. Apesar disto, em 1924 representou o governo da URSS no Reino Unido e entre 1924 e 1926, na Áustria. Sua saúde periclitante e suas divergências de fundo com a fração dominante da direção do Partido e do governo o obrigarão a renunciar a suas tarefas.

    Quando de sua criação em 1923, Joffé se filiou à oposição de esquerda, que Trotsky animava.

    A direção estalinizada do PCUS impediu que, gravemente enfermo, Joffé fosse tratado no estrangeiro. Nestas circunstâncias desoladoras, envia a Trotsky uma “carta de adeus” antes de por fim a seus dias. Esta “carta de adeus” foi capturada pela polícia política. Extratos “seletivos” foram utilizados pelos stalinistas para desacreditarem Joffé e Trotsky. Este último pronunciou seu derradeiro discurso público na URSS quando do funeral. Maria Joffé, sua esposa, foi condenada, enviada à prisão e mais tarde a um campo. Ela sobreviveu. Após sua liberação, redigiu suas memórias, um texto repleto de emoção, intitulado “Uma longa noite: uma história verdadeira”. (Ed. New Park Publications, 1978). Sua filha Nadezhda A. Joffé reuniu suas recordações num livro também emocionante: “As memórias de Nadezhda A. Joffé, publicado em inglês pela Labor Publication em 1994. Quem quer que conheça esta história e apreenda sua trágica dimensão histórica e pessoal deve, durante a presente cerimônia de homenagem a “um dos nossos”,  manter decência e discrição ao se referir ao drama complexo de Adolph Joffé. Não fazê-lo transforma este “traço” em vulgaridade. Infelizmente é assim, pois a bandidagem intelectual é frequente.

    C.A. Udry

    ___________________________________________________________

    “A Leon Trotsky

    Caro Leon Davidovitch:

    Em toda minha vida sempre pensei que o homem político deve saber ir embora a tempo, como um ator deixa a cena, e que é melhor fazê-lo cedo demais do que tarde demais.

    Adolescente, ainda verde, defendi a correção da conduta de Paul Lafargue, e sua mulher Laura Marx, quando suicidaram-se, o que tanto barulho fez nos partidos socialistas. E me lembro que repliquei asperamente a Augusto Bebel, muito revoltado por este suicídio, que só é admissível discutir-se, a idade escolhida pelos Lafargue (pois não se trata aqui dos anos mas da utilidade possível do indivíduo), não se pode em caso nenhum contestar o princípio, para um homem público de deixar a vida no momento em que tem consciência de não poder ser mais útil à causa que seria.

    Há mais de trinta anos que fiz minha esta filosofia de que a vida humana só tem sentido na medida e enquanto está a serviço de um infinito que para nós é a humanidade, porque, sendo o resto limitado, trabalhar pelo resto é desprovido de sentido.

    Se mesmo a humanidade deve ter um fim, este sobreviverá então uma época tal que, para nós, a humanidade pode ser considerada um infinito absoluto. E se tem como eu, fé no progresso, pode-se muito bem conceber que, mesmo em caso de perdição de nosso planeta, a humanidade encontre os meios de habitar outros mais jovens e prolongue por conseguinte sua existência; e então, tudo que for feito em seu bem em nosso tempo se refletirá também nos séculos longínquos, quer dizer dará a nossa existência a única significação possível.

    É nisto, e nisto somente, que sempre vi o sentido da vida; e agora, abarcando com o olhar a minha vida passada, dos quais 27 anos nas fileiras do nosso Partido, parece que tenho o direito de dizer que durante toda a minha vida consciente, permaneci fiel a esta filosofia, isto é, vivi segundo este sentido da vida; o trabalho e a luta pelo bem da humanidade.

    Mesmo os anos de prisão e de cárcere quando o homem é afastado da participação direta na luta a serviço da humanidade, não podem ser riscados da vida, com um sentido, pois, sendo anos de preparação cultural e de autodidática, contribuíram para o melhoramento do trabalho ulterior; e por esta razão podem ser confundidos com os anos de trabalho a serviço da humanidade, tendo, portanto um sentido. Creio ter o direito de afirmar que nesta acepção, nem um só dia de minha vida foi desprovido de sentido.

    Mas agora parece, chegou a hora, em que a minha vida perde o seu sentido e, por conseguinte, surge a obrigação de deixá-la, de lhe dar um termo.

    Há vários anos que a direção atual de nosso Partido, de conformidade com o seu método geral de não dar trabalho aos comunistas da oposição, não me designa nem trabalho político nem trabalho soviético, cuja envergadura e caráter me permitissem ser útil no máximo de minhas forças. No último ano, você o sabe, o Bureau Político me pôs, como oposicionista, completamente de lado de qualquer trabalho político.

    Por outro lado, provavelmente em parte devido a minha doença e em parte devido a razões melhor conhecidas de você do que de mim – não pude, este ano, participar praticamente do trabalho e da luta da oposição. Foi com um forte combate interior e, no começo, a contragosto, que me resignei a esta forma de atividade que só esperei suportar tornando-me completamente inválido: o trabalho literário, cultural e pedagógico. Embora no começo achasse penoso, me entreguei decididamente a esta tarefa, esperando que ela continuasse a dar a minha vida a necessidade e utilidade de que falei acima; só elas a meu juízo podem justificar minha existência.

    Porém minha saúde vem piorando cada vez mais. Por volta de 20 de setembro, por motivo de mim desconhecidos, a Comissão Médica do Comitê Central me convocou para um exame de professores especialistas e estes diagnosticaram um processo tuberculoso ativo nos dois pulmões, uma miocardite, uma inflação crônica da vesícula biliar, uma colite crônica, apendicite e polinevrite crônica (inflamação múltipla dos nervos). Eles me disseram que meu estado de saúde era bem pior do que eu imaginava, e que nem devia pensar em prosseguir até o fim nos meus cursos nos estabelecimentos superiores (a Universidade de Moscou e o Instituto de Orientalismo). Acrescentaram que pelo contrário seria mais razoável renunciar as estes planos e não ficar inutilmente nem um dia mais em Moscou e nem mais um hora sem tratamento e partir imediatamente para o estrangeiro, com destino a um sanatório apropriado. Como esta viagem não podia ser preparada em dois dias, me prescreveram certos remédios e tratamento. Para obtê-los tinha que ir à Policlínica do Kremlin durante algum tempo, até a minha partida.

    A minha pergunta direta: “Que possibilidade tenho de cura no estrangeiro e posso me tratar aqui na Rússia sem abandonar meu trabalho?”, os professores e os assistentes, o médico do Com. Central, camarada Abrossov, um outro médico comunista e o deão do hospital do Kremlin, A. Konseil, responderam claramente os sanatórios russos não podiam de nenhum modo curar-me e que eu devia contar com um tratamento no Ocidente, pois até então nunca me tratara mais de 2 ou 3 meses no estrangeiro; mas que agora eles insistiam justamente para que eu fizesse uma estadia de seis meses no mínimo, sem fixar o máximo. Acrescentaram que, conformando-me as prescrições deles, não duvidavam que se não me curasse radicalmente, ao menos me seria dado trabalhador por um período maior.

    Durante dois meses mais ou menos, nenhuma medida foi tomada pela Comissão médica do Comitê Central (foi ela entretanto que por sua própria iniciativa convocou a consulta em questão) relativo não somente a minha estadia no estrangeiro como do meu tratamento aqui. Ao contrário, a farmácia do Kremlin que sempre me fornecera remédios pelas receitas, ficou interdita de fazê-lo e eu fiquei, de fato, privado, de auxílio gratuito dos medicamentos que sempre usara. Fui obrigado a comprar os remédios indispensáveis nas farmácias da cidade (parece que isto se deu no momento em que o grupo dirigente do Partido começou a recorrer com os camaradas da oposição, à aplicação do método: “ferir a oposição no ventre”).

    Enquanto era suficientemente válido para trabalhar, quase não prestava atenção para isto, mas como o meu estado não parou de piorar, minha mulher começou a trabalhar junto à Comissão Médica do C. Central, pela minha ida para o estrangeiro, e pessoalmente junto a N. Semachko, que sempre publicamente quebrou lanças para realizar a sua fórmula “salvaguardar a velha guarda”. A questão era entretanto constantemente protelada e tudo o que pode obter minha mulher foi um resumo da decisão do conselho dos médicos. Neste resumo, minhas doenças crônicas eram enumerados e ficava constatado que o Conselho insistia pela minha partida para o estrangeiro “num sanatório do tipo prof. Friedlander” e por um prazo podendo se prolongar até um ano.

    No entanto, há nove dias me deitei definitivamente, devido à acuidade e à agravação (como é sempre o caso) de todas as minhas doenças crônicas e sobretudo, o mais terrível, da polinevrite inveterada que tomou de novo uma forma aguda, me constrangendo a autar um padecimento infernal, absolutamente intolerável e me tirando até a possibilidade de andar. Com efeito, há nove dias que estou privado de qualquer tratamento e a questão de minha viagem ao estrangeiro não foi examinada. Nem um só dos médicos do Com. Central me veio ver. O prof. Davidenko e o dr. Levine, chamados à minha cabeceira, me prescreveram algumas insignificâncias que não puderam me aliviar em coisa alguma; reconheceu-se então “que não se podia fazer nada” e que a viagem ao estrangeiro era indispensável e urgente.

    O dr. Levine disse a minha mulher que o negócio não andava porque a Comissão Médica pensava naturalmente que minha mulher haveria de querer fazer a viagem comigo e que “assim ficava muito caro”. (Quando os camaradas que não são da oposição ficam doentes, são enviados ao estrangeiro, e muitas vezes até com a família, acompanhados de nossos médicos ou professores, eu mesmo sei de muitos destes casos e até reconheço que quando foi de minha primeira crise de polinevrite aguda, fui mandado ao estrangeiro, em companhia de minha família, mulher e filho, e do prof. Konabi; então ainda não existiam os costumes atualmente instaurados no Partido.)

    Minha mulher respondeu que apesar do triste estado em que me encontrava ela não pretendia absolutamente que eu devesse ser acompanhado por ela ou por alguém. Então o dr. Levine garantiu que nestas condições a questão seria resolvida rapidamente.

    Meu estado foi se agravando e meus sofrimentos se tornaram tão terríveis que reclamei enfim aos médicos que dessem ao menos um alívio qualquer. O dr. Levine me repetiu hoje que os médicos nada podiam fazer e que a única porta de salvação era a partida imediata para o estrangeiro.

    Ora, à noite, o médico do C. Central, camarada Potiomkine, avisou à minha mulher que a Com. Médica decidira não me enviar ao estrangeiro e de me tratar mesmo na Rússia.

    A razão era que os professores especialistas insistiam por um tratamento prolongado no estrangeiro, julgando uma certa estadia inútil e que o Com. Central só consentia em me dar para a minha cura uma soma máxima de 1000 dólares (2000 rublos) dizendo ser impossível dar mais.

    Como você sabe, dei no passado a nosso Partido outra coisa que um milhar de dólares, em todo o caso, mais do que custei ao Partido, desde que a revolução me privou de todos os meios e que não posso mais me tratar às minhas custas.

    Mais de uma vez, editores anglo-americanos me propuseram, por pagamentos de “minhas memórias” (à minha escolha, com a única exigência que dissessem respeito ao período das negociações importantes) somas que subiam até a 20.000 dólares. O Bureau Político sabe perfeitamente que sou bastante experimentado como jornalista e como diplomata, para publicar uma só palavra sequer prejudicial ao nosso Partido e ao nosso Estado.

    Ele não ignora tampouco que fui muitas vezes censor no Comissariado dos Negócios Estrangeiros e que na qualidade de embaixador também o fui para todas as obras russas editadas nos países onde servia. Há alguns anos pedia ao Bureau Político a permissão para editar esta memórias, tomando o compromisso de entregar ao Partido todos os honorários, pois me custa aceitar do Partido dinheiro para me tratar. Em resposta, fui prevenido por uma decisão do Com. Central, nos termos da qual “é formalmente proibido aos diplomatas ou aos camaradas tendo tomado parte no estrangeiro publicar no estrangeiro suas reminiscências ou fragmentos de memórias sem exame prévio dos manuscritos pelo colégio do Comissariado dos Negócios Estrangeiros e o Bureau Político do Comitê Central”.

    Sabendo das irregularidades e dos atrasos que seriam ocasionados por esta dupla censura, resolvi em 1924 declinar de qualquer proposta. Encontrando-me recentemente no estrangeiro, recebi uma nova oferta garantindo-me 20.000 dólares de honorários.

    Sabendo, porém, como entre nós se falsifica a história de nosso Partido e da Revolução, não julguei possível emprestar o meu concurso a uma tal falsificação, não tendo dúvida de que toda a censura do Bureau Político (e os editores fazem questão do caráter pessoal das reminiscências, isto é sobre a caracterização dos personagens que nela desempenharam algum papel) consiste em não admitir uma justa apreciação dos personagens e de seus atos, nem destes nem daqueles, isto é nem dos chefes autênticos da Revolução, nem dos dirigentes atuais elevados a esta dignidade. Eu não acho possível editar memórias sem chocar de frente o Bureau Político e por conseguinte não vejo meio de me tratar sem receber dinheiro do Com. Central que, por todo o meu trabalho revolucionário de vinte e sete anos, acha razoável calcular a minha vida e a minha saúde numa soma não passando de 2.000 rublos.

    No estado em que acho atualmente me é evidentemente impossível realizar um trabalho qualquer. Se, a despeito de sofrimentos infernais, tivesse a força de continuar a série de meus cursos, uma situação desta ordem exigiria sérios cuidados, seria preciso me transportar por toda parte em “padiola”, me ajudar a procurar nas bibliotecas e nos arquivos os livros e materiais necessários, etc…

    No decorrer de minha última doença, tive a minha disposição todo o pessoal de uma embaixada: agora, segundo minha “categoria”, não tenho nem mesmo o direito a um secretário particular. Além disso, a desatenção para comigo de que se tem dado provas nestes últimos tempos, por ocasião, das minhas doenças (como agora; em que estou há dias praticamente sem socorro e em que o tratamento elétrico prescrito pelo prof. Davidenko não me é aplicado), mostra que não posso contar nem mesmo com uma coisa tão elementar como um transporte em padiola.

    Mesmo se fosse tratado, se fosse mandado ao estrangeiro, para a estadia indispensável, minha situação continuaria crítica no mais alto ponto: a última vez passei mais ou menos dois anos num estado de polinevrite aguda, sem fazer um movimento; não tinha então outra doença a não ser esta e no entanto todas as outras que contraí depois são consequências desta; agora já me descobriram seis. Mesmo se pudesse daqui por diante consagrar o tempo necessário ao tratamento, é duvidoso que possa contar com uma prolongação útil de minha vida. Agora então que se considera impossível tratar-me seriamente (pois o tratamento na Rússia e, segundo os médicos, sem esperança, e o tratamento no estrangeiro só por 2 meses também o sendo) minha vida perde todo o seu sentido, mesmo sem que se leve em conta minha filosofia esboçada acima. É duvidoso que se possa admitir como necessária uma vida passada em padecimentos incríveis, estando-se pregado numa cama sem movimento e sem possibilidade de realizar um trabalho qualquer.

    É por isto que digo que o momento chegou em que é indispensável por um termo a esta vida.

    Conheço a opinião geral do partido, contrária ao suicídio, mas suponho que todos aqueles que ficarem sabendo de minha situação não me condenarão por isto.

    Além do mais, o professor Davidenko acha que a causa da repetição da minha polinevrite aguda a emoção destes últimos tempos… Se estivesse com saúde teria achado em mim a força e a energia suficientes para lutar contra a situação criada no Partido, mas no meu estado atual, reputo insuportável uma situação em que o Partido tolera silenciosamente a sua exclusão de suas fileiras, apesar de estar absolutamente persuadido de que, cedo ou tarde, haverá no Partido uma crise que o obrigará a rejeitar aqueles que o conduziram a uma tal vergonha… Neste sentido, minha morte é um protesto contra aqueles que levaram o Partido a uma situação tal que ele não possa de nenhum modo reagir contra este opróbrio.

    Se me é permitido comparar o que é grande com o que é pequeno, direi que a importância do acontecimento histórico que é a sua exclusão e a de Zinoviev, expulsão que há de abrir inevitavelmente um período termidoriano na nossa Revolução, e o fato que me reduzem depois de 27 anos de trabalho revolucionário nos postos responsáveis do Partido, a uma situação em que nada mais me resta a fazer do que me meter uma bala na cabeça, estes 2 fatos, torno a dizer, ilustram um só e único regime do Partido.

    Talvez que os dois acontecimentos, o pequeno e o grande juntos, produzirão o abalo que acordará o Partido e o fará parar no caminho que vai dar em Termidor.

    Sentir-me-ia feliz, se pudesse acreditar, que assim será, pois saberia então que não iria morrer em vão; entretanto, mesmo tendo a firme convicção de que a hora do despertar do Partido virá, não posso estar convencido de que ela já tenha soado agora… Entretanto, não duvido apesar de tudo de que a minha morte hoje seja mais útil que do que a prolongação de minha vida.

    Caro Leon Davidovitch, estamos ligados por 10 anos de trabalho comum e, ouso, esperá-lo de amizade pessoal, e isso me dá direito de lhe dizer no momento do adeus, o que em você me parece ser fraqueza.

    Nunca duvidei da justeza do caminho traçado por você, que sabe que durante mais de 20 anos marchei com você, desde a “revolução permanente”. Mas sempre pensei que faltavam a inflexibilidade, a intransigência de Lênin sua resolução de ficar, sendo preciso, sozinho no caminho que reconheceu como certo, na previsão da maioria futura, no reconhecimento futuro, por parte de todos da exatidão desse caminho. Você sempre teve razão politicamente, a começar por 1905, e muitas vezes lhe contei ter ouvido, com os meus próprios ouvidos,  Lênin reconhecer que em 1905 não fora ele mas você que tivera razão.

    Defronte da morte não se mente e o repito agora de novo…

    No entanto muitas vezes renunciou você a sua retidão em favor de um acordo, de um compromisso que sobre-estimava. É um erro. Eu o repito, politicamente sempre você teve razão e agora mais do que nunca. Um dia, o Partido o compreenderá e a História há de reconhecê-lo.

    Assim, não receie hoje se alguém se separar de você, nem sobretudo se muitos não vêm para o seu lado tão depressa quanto nos todos o desejávamos. Você tem razão, mas a condição da vitória de sua verdade está precisamente numa estreita intransigência na mais severa rigidez, no repúdio de todo compromisso, exatamente como isto foi sempre o segredo da vítima de Illitch.

    Por diversas vezes tive vontade de lhe dizer isto, mas só agora me decide a fazê-lo na hora do adeus.

    Duas palavras pessoais. Atrás de mim ficam uma mulher, uma filha doente e um rapazola mal adaptados a uma vida independente. Sei que nada pode você fazer agora por eles. Sob este ponto não posso contar em coisa nenhuma com a direção atual do Partido.

    Mas não tenho dúvidas de que o dia não está longe em que você há de retomar o lugar que lhe é devido. Então, não se esqueça dos meus. Eu lhe desejo energia uma valentia iguais às de que tem dado provas até o presente, e a mais rápida vitória. Eu o abraço fortemente. Adeus.

    Moscou, 16 de novembro de 1927.

    A. Joffe

    Carta publicada na internet no site marxists.org, a partir da publicação feita pelo  Jornal Luta de Classe, órgão da Oposição da Esquerda no Brasil  nº 2, ano 1, junho de 1930.

    Há um pós-escrito de Jofee que somente consta do site Alencontre em que está escrito:
    ” Escrevi esta carta na noite entre 15 e 16, e, hoje 16 de novembro, Maria Mikhailovna foi à comissão médica para insistir que me enviassem ao exterior, ainda que fosse por um ou dois meses. Responderam-lhe que, segundo os especialistas, uma curta estadia no exterior seria totalmente inútil ; e lhe informaram que a comissão havia decidido me transferir imediatamente ao hospital do Kremlin. Assim eles me negaram inclusive uma curta viagem ao exterior para melhorar minha saúde, ao passo que os médicos estavam de acordo que uma cura na Rússia é inútil.
    Adeus, querido Leon Davidovitch, seja forte, é preciso sê-lo, é preciso também ser perseverante, e não guarde rancor de mim.

     

  • Não mais Charlottesvilles

    Por Keeanga-Yamahtta Taylor

    Publicado na segunda-feira, dia 14/08/2017, no site Jacobin

    Traduzido por Edmilson de Jesus Silva Júnior

    A fúria da supremacia branca em Charlottesville, Virgínia, foi o resultado previsível de agenda racista do Partido Republicano e da ascensão de Donald Trump à presidência.

    A violência racista da Extrema Direita foi liberada pela eleição de Trump. Os racistas não são apenas encorajados pelo Presidente Trump, eles têm sido estimulados pelo silêncio da administração de Trump, em meio ao crescimento dramático das organizações de supremacia branca e ataques racistas violentos.

    Ativista antiracista, Heather Heyer é apenas uma de uma lista crescente de pessoas de destaque que foram mortas por racistas brancos, desde a eleição de Trump. Há poucos meses, ativistas do “alt-Reich” assassinaram o estudante afrodescendente Richard W. Collins III. No início deste ano, Ricky John Best e Taliesin Myrddin Namkai Meche morreram de forma selvagem pelas mãos de um racista branco, quando intervieram para defender duas jovens mulheres negras, umas das quais era muçulmana e usava a hijab (véu na cabeça).

    O assassinato de Collins não provocou reação da Casa Branca ou de Trump, como também os assassinatos cruéis de Best e Meche tiveram o mesmo efeito, com uma reação amena por parte de Trump. Os comentários suaves de Trump, em resposta a atos de terrorismo racial, são um forte contraste com o estilo bombástico e virulento que ele usa, quando está discursando para sua frenética base racista.

    Quando Trump finalmente fez uma declaração pública, muitas horas após o corpo a corpo em Charlottesville ter começado, foi, intencionalmente, vago: ele alegou se opor à violência “de muitos lados.”

    O comportamento de Trump é espantoso, mas dificilmente chocante. Ele tem se envolvido em um flerte obsceno com racistas violentos desde a sua campanha, em que se viu a “Ku Klux Klan”, David Duke e outros notórios supremacistas brancos o apoiando. Seu estrategista-chefe é Steve Bannon, que já havia se gabado de sua relação com o “alt-direita”. Sebastian Gorka, assistente de Trump, que estabeleceu laços com organismos fascistas na Hungria, disse, na semana passada, que “supremacistas brancos” não são um problema nos EUA.

    Se Charlottesville for apenas outro episódio de violência racista, vagamente criticado pela administração Trump, poderá representar uma escalada alarmante da violência racista organizada nos EUA. Outros assassinatos praticados por supremacistas brancos ocorridos desde a posse de Trump poderiam ser descritos como atos aleatórios de violência racista. Ao passo que os eventos de Charlottesville foram planejados com antecedência.

    Há vários meses, é sabido que os racistas brancos chegariam a Charlottesville para protestar contra a remoção de uma estátua de Robert E. Lee, de um parque local. Esta ralé das organizações racistas ensaiou protestos em torno da cidade universitária liberal durante vários meses, incluindo uma anterior já com as tochas tiki (de bambú). Esse novo símbolo da supremacia branca ressurgiu na sexta-feira à noite.

    Organizações fascistas e seus aliados da supremacia branca falaram abertamente sobre trazer armas – incluindo armas de fogo – para Charlottesville. E eles o fizeram, aparecendo com capacetes, paus, spray de pimenta, escudos de madeira e rifles de assalto. Foi um ato de intimidação racista!

    Apesar de suas alegações de que só desejam exercer a liberdade de expressão de seus direitos, os racistas brancos chegaram a Charlottesville constituindo uma multidão disposta a atacar e matar qualquer um que entrasse em seu caminho. O Southern Poverty Law Center descreveu o ato como a maior concentração de grupos de ódio nos EUA, em décadas.

    Sua mobilização revelou múltiplas realidades: eles são relativamente pequenos, desproporcionalmente violentos – e completamente amparados pelas estruturas de estado que deveriam defender a Lei. Na sexta-feira à noite, a polícia permitiu que racistas, portadores de tochas, passassem próximos a uma igreja negra, cantando “vidas brancas importam” e o slogan nazista “terra e sangue”, mesmo sem uma autorização para protestar. No dia seguinte, a polícia, passivamente, viu supremacistas brancos alinhados em formação, disparando contra outros manifestantes, e batendo nas pessoas.

    O contraste era evidente com o tratamento normalmente dado pela polícia aos protestos como o “Vidas Negras Importam”. A polícia permitiu que uma multidão racista, com a intenção de praticar violência física, simplesmente seguisse o seu caminho. Os supremacistas brancos nunca tiveram de lidar com tanques, gás lacrimogêneo, cães, canhões de água, motim ou agressão da polícia. Quando anti-racistas cantam “os policiais e a Klan andam de mãos dadas”, é sobre este acolhedor, quase fraterno, relacionamento, a que eles estão se referindo.

    A relutância de Trump para denunciar os supremacistas brancos abertamente se deve ao apoio que deram a sua candidatura e, agora, dão a sua presidência, o que constrangeu o Partido Republicano a repreender os racistas. No domingo, não foi difícil encontrar um republicano denunciando a violência da supremacia branca – com significativa exceção do Presidente dos Estados Unidos.

    O senador da Flórida, Marco Rubio, implorou a Trump que deixasse clara a sua oposição à supremacia branca. O senador de Utah, Orrin Hatch, pediu a Trump para “chamar o mal pelo seu verdadeiro nome”. O Presidente da Câmara, Paul Ryan, descreveu os ataques em Charlottesville como um exemplo de “intolerância vil.”

    O Partido Republicano está chorando lágrimas de crocodilo. Este, afinal, é o partido que deu a Trump a sua plataforma. Ele tem resistido ao longo de meses a atacar o mais vil racismo defendido na História americana moderna. Durante meses, os republicanos aceitaram a fúria racista de Trump na Casa Branca. Havia, é claro, a proibição de viagem  de muçulmanos, determinada algumas horas após a posse de Trump. Eles também ficaram impassíveis enquanto ele usou o Immigration and Customs Enforcement (ICE) para incutir terror nas comunidades de imigrantes através da arma do ataque preventivo. Republicanos celebraram a Administração Trump e seu retorno à suposta “lei e ordem”- retórica liderada por Jeff Sessions – enquanto Trump, simultaneamente, incentivava a polícia a abusar de pessoas sob custódia.

    Os pilares centrais da administração Trump, amplamente apoiados pelo Partido Republicano como um todo, são apenas o início. Nas últimas semanas, a administração Trump já sinalizou sua intenção de investigar se as pessoas brancas são vítimas de discriminação no Ensino Superior. Eles propuseram limitar o número de imigrantes que vêm para os Estados Unidos e que não falam Inglês. E ameaçaram  aumentar o número de incursões em comunidades de imigrantes, buscando especificamente os jovens imigrantes para a deportação, os quais haviam sido trazidos para o país quando eram crianças.

    Mais do que fornecer uma plataforma para o discurso de ódio racista de Trump, o Partido Republicano impulsionou sua agenda política – uma agenda que imbuiu a direita racista com a confiança de que eles podem ter sucesso em sua campanha de aterrorizar, marginalizar, e até matar aqueles que ficam em seu caminho. Isto inclui as pessoas negras e pardas, bem como os anti-racistas brancos que os desafiem. Estamos todos sob a mira. A luta contra o racismo em Charlottesville forçou os administradores públicos a, finalmente, sair e falar contra o crescimento da supremacia branca e do neonazismo. Nós, por outro lado, continuaremos a lutar contra os racistas da extrema-direita e os deteremos, antes que matem novamente.

  • Primárias argentinas: uma primeira análise

    Por: Renato Fernandes, de Campinas, SP

    Nesta terça-feira (15), o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, fez uma visita à Argentina. Em um dos seus discursos, na Bolsa de Valores, parabenizou “as reformas políticas e econômicas” do governo neoliberal do presidente Mauricio Macri  e disse que o “modelo da Argentina é o futuro” de toda a América Latina.

    Essa visita, para Macri, aconteceu numa boa hora: nas primárias disputadas no último domingo, 13, a coalizão Cambiemos do presidente ganhou em 12 das 24 províncias do país. Os emblemas dessas primárias foram a vitória do ministro da educação Esteban Bullrich (34,19%) nas eleições para o senado sobre a ex-presidenta Cristina Kirchner (34,11%) na província de Buenos Aires e a ampla vitória da lista ligada a Cambiemos e encabeçada por Lilita Carrió na capital Buenos Aires com 49,55% frente a lista de Union Porteña (peronistas ligados a Cristina) com 20,73%.

    Dois elementos são centrais para compreendermos as primárias e também o entusiasmo de Pence com a Argentina. O primeiro, e mais importante, é que o giro neoliberal no campo eleitoral parece se consolidar na Argentina e fortalece as frações políticas burguesas que defendem as políticas de austeridade e de retirada de direitos como a contrarreforma trabalhista que já está sendo discutida no país. Esse fortalecimento é regional: Temer no Brasil, a direita venezuelana, entre outras frações políticas que são expressão concreta deste giro nos governos latino-americanos. É justamente o fortalecimento desta fração política que tanto entusiasma Pence e setores da burguesia imperialista.

    O segundo elemento é que o peronismo está dividido e sem uma liderança capaz de unificá-los. Essa divisão não é de agora, porém se aprofundou nos governos Kirchner (2003-2015). Na maior parte das províncias, a maioria da população votou nos setores peronistas: a Unidade Ciudadana (Kirchner), 1País (Sergio Massa) e do Partido Justicialista (Florencio Randazzo) ganhariam as eleições. Apesar da vitória nacional de Cambiemos, a projeção realizada a partir das primárias é que a lista oficialista consiga 104 deputados enquanto o peronismo unificado conseguirá 137 do total de 257.

    É por isso que todos os setores da oposição, incluindo o peronismo, farão campanha com a ideia de que a maioria da população argentina votou contra “o governo e a austeridade”. É importante ressaltar que os setores peronistas, em determinado sentido, foram vítimas das suas próprias políticas. Tanto na Câmara de Deputados, quanto no Senado são os setores peronistas que estão garantindo a aprovação das principais medidas do governo de Macri. Esse apoio velado em nome da governabilidade do país parece ter sido castigado nas urnas e fortalecido ainda mais a coalização governamental. Porém, isso ainda são as primárias e até outubro, data das eleições oficiais, ainda tem muita coisa para acontecer.

    As eleições na esquerda socialista
    É neste marco do fortalecimento da fração política governamental e da divisão do peronismo que devemos localizar os resultados da esquerda socialista e radical: de um lado a Frente de Izquierda y de los Trabajadores (FIT), composta pelo Partido Obrero (PO), o Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS) e a Izquierda Socialista (IS) e do outro lado, a Izquierda al Frente por el Socialismo (IAF), composta pelo Nuevo MAS e o Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST).

    A FIT obteve quase 1 milhão de votos em todo o país, crescendo 30% em relação a PASO de 2015. Ao todo a FIT ou seus partidos componentes se apresentaram em 22 províncias, conseguindo em 21 dessas passar o piso proscritivo de 1,5%. Em algumas delas, como Jujuy, obteve 12,55% na lista de deputados, duplicando os resultados obtidos em 2015. Na província de Santa Cruz, governada por Alicia Kirchner, cunhada de Cristina, a FIT obteve 8,25%, colocando-se como terceira força política da província. Em Córdoba, a FIT conseguiu 4,32%, enquanto em Neuquén obteve 6,7%.

    Em Buenos Aires, os números da FIT foram mais baixos e muito próximos para garantir, se repetirem a votação em outubro, um deputado para a FIT: 3,62% na província e 3,79% na capital. Apesar deste crescimento na votação, que é importante, as projeções para a FIT não são das melhores: ao contrário do anunciado no início das eleições, a projeção atual é que a FIT consiga apenas um deputado, mantendo o mesmo número no parlamento – caso não consiga aumentar as votações entre as primárias e a eleição oficial.

    A IAF não teve o mesmo sucesso da FIT, apesar de que devemos considerar que houve um crescimento da votação dos dois partidos que compõem a frente: comparando com 2015, no qual os dois estavam separados, subiu a votação de quase 200 mil para quase 300 mil votos nacionais. No total, foram 12 províncias em que conseguiram passar o piso proscritivos se considerarmos todas as regiões nas quais a IAF ou um de seus partidos componentes participaram (sendo que na província de Santa Fé, o MST compôs a Frente Social y Popular com organizações neorreformistas).

    O principal revés da IAF aconteceu em Buenos Aires: na província, Manuela Castañera ficou com  1,14%, enquanto na capital Alejandro Bodart conseguiu quase 1% não conseguindo ultrapassar o piso proscritivo. Uma das razões dessas derrotas no terreno eleitoral está na hegemonia da FIT, que está muito mais consolidada e também a novidade que é a IAF. No entanto, algumas derrotas têm explicações particulares, como a votação em outras listas de esquerda, como a encabeçada por Luis Zamora de Autodeterminación y Libertad (AyL) que disputou na capital em Buenos Aires tendo obtido 3,69%, superando a PASO e capturando votos da esquerda socialista e radical.

    Uma primeira conclusão a se tirar é que o espaço da esquerda radical e socialista em todo país é expressivo, dado que esse espaço é ocupado por organizações que se reivindicam trotskistas. É nesse sentido que, com mais força que antes, as eleições primárias demonstraram a necessidade de maior unidade entre essa esquerda socialista e radical. A unidade de forças entre FIT e IAF poderia significar muito mais do que os quase 1,3 milhões de votos que conseguiram separadas – esse índice é de aproximadamente 5,4% do eleitorado que participou da PASO (pouco mais de 24 milhões).

    Poderiam ser uma alternativa política eleitoral para o país neste momento em que, apesar de reforçada, a direita neoliberal não detém a maioria do país e  o peronismo está dividido. Essa unidade, que para nós deve ir para além das eleições e se expressar em outras lutas políticas e sindicais, seria um grande passo em frente num momento que o imperialismo busca avançar ainda mais sobre nossas economias como declarou abertamente Mike Pence. Além disso, essa unidade mais ampla seria um grande exemplo para esquerda socialista e radical internacional que tem suas esperanças jogadas neste espaço construído e conquistado pela esquerda argentina.

  • Charlottesville é um chamado para a ação contra o fascismo

     

    Katherine Nolde, Richard Capron e Scott McLemee juntam relatos de participantes do conflito violento entre a extrema-direita e antirracistas em uma cidade na Virgínia.

    Artigo publicado em Socialist Worker (diário digital impulsionado pela ISO) em 14 de agosto de 2017

    Vigília em Oakland, Califórnia, em solidariedade com Charlottesville. (Stephen Lam | Reuters/Newscom)

    Tradução de Pedro lhullier Rosa

    A manifestação de extrema-direita em Charlottesville, Virgínia, no dia 12 de agosto – provavelmente a maior congregação em público da racista alt-right, ou “direita alternativa” – foi clara evidência das forças sanguinárias nutridas e encorajadas por Donald Trump durante os últimos dois anos.

    E teve consequências letais. Uma manifestante antifascista foi morta e mais de vinte feridos quando um terrorista neonazista acelerou seu carro para cima de uma contramanifestação liderada por organizações de esquerda, incluindo a International Socialist Organization (ISO), os Democratic Socialists of America (DSA) e os Industrial Workers of the World (IWW), entre outras.

    Trump proclamou uma condenação fajuta de “ódio, intolerância e violência de muitos lados” que não enganou a ninguém – especialmente a extrema-direita. “Ele se recusou a falar qualquer coisa sobre a gente.” um site racista comemorou. “Quando os repórteres estavam gritando com ele sobre o nacionalismo branco ele simplesmente saiu da sala.”

    Então os fascistas veem Trump como um dos seus – e por bom motivo.

    Mas o ódio mostrado em Charlottesville – e promovido por quem manifesta o supremo ódio na república – está despertando as pessoas por todo o país.

    As notícias do atropelamento terrorista criaram uma onda de solidariedade – dentro de horas, haviam vigílias e protestos em dezenas de cidades, seguidos por mais no dia seguinte, e ainda mais estavam sendo organizados para os próximos dias. Ao final do domingo, as pessoas tinham adotado posições solidárias com Charlottesville em centenas de cidades.

    Estas pessoas que mandaram mensagens de protesto não apenas expressaram repulsa pelo ódio dos fascistas e horror pela sua violência, mas também entenderam a necessidade de se defrontar com essa ameaça antes que possa causar mais sofrimento e tomar mais vidas.

    Charlottesville mostrou o grave perigo que enfrentamos na forma de uma extrema-direita encorajada. Mas também está revelando o potencial de mobilizar uma oposição de massas ao seu ódio, seja este expressado nas ruas ou na Casa Branca.

    – – – – – – – – – – – – – – – –

    Os milhares que se mobilizaram contra a agenda de Trump nos últimos meses estão tornando impossível para a extrema-direita dizer que representa mais que uma pequena parcela da população estadunidense.

    Quando o Ku Klux Klan veio a Charlottesville no mês passado, para protestar contra a remoção e a substituição da estátua do general confederado Robert E. Lee de uma praça pública, atraiu cerca de 50 apoiadores – e 20 vezes mais manifestantes antirracistas.

    Sentindo-se humilhados por isso, grupos de extrema-direita anunciaram outra manifestação em agosto. A prefeitura deu permissão aos organizadores da “Unite the Right” (Unir a Direita) para usarem o Emancipation Park na cidade neste último sábado – uma tentativa de último minuto de revogar a permissão foi derrubada por um juiz com base em uma apelação da American Civil Liberties Union (ACLU). Também foi dada permissão aos contramanifestantes para que se reunissem a algumas quadras de distância no Justice Park.

    A extrema-direita veio a Charlottesville atrás de uma briga, e começou suas atividades na sexta de noite com uma passeata à luz de tochas no campus da Universidade da Virgínia. Gritando “Heil Trump” e “vocês não vão nos substituir” – às vezes trocado para “os judeus não vão nos substituir”, com sonoridade parecida no inglês – alguns usaram suas tochas acesas para ameaçar o pequeno grupo de manifestantes antirracistas que os confrontaram no campus.

    Se os racistas pensaram que teriam a mesma força sobrepujante ao seu lado no próximo dia, estavam errados. Os fascistas estavam em minoria em relação a seus oponentes, que iam de contingentes Antifa e da esquerda radical a organizações antirracistas mais moderadas. Mas a vantagem antifascista não foi tão grande quanto poderia ter sido.

    Grupos de cada lado fizeram marchas na linha de visão do outro na manhã de sábado, e houveram conflitos isolados, levantando uma atmosfera de confusão e incerteza.

    Quando um grupo de militantes da ISO se aproximou da entrada sudoeste do Justice Park, onde acontecia o contraprotesto, encontraram um grupo de homens brancos jovens de guarda, com fuzis automáticos e faixas vermelhas amarradas no pescoço. O medo inicial se dissipou quando os socialistas foram recebidos com vivas e apertos de mão – estes eram membros da Redneck Revolt, um recém-formado grupo de autodefesa da classe trabalhadora do sul estadunidense.

    As polícias local e estadual estavam presentes, mas não intervieram quando os direitistas ameaçaram os contramanifestantes. De acordo com um relato do jornal ProPublica:

    “Em um desses inúmeros conflitos, uma multidão raivosa de supremacistas brancos formaram uma linha de batalha defronte a um grupo de contramanifestantes, muitos destes idosos e de cabelo grisalho, que tinham se reunido perto de um estacionamento de igreja. Quando seu líder deu o comando, os rapazes deram uma investida e agrediram sem freios seus inimigos ideológicos. Uma mulher foi jogada na calçada, e o sangue surgiu instantaneamente na sua cabeça ferida.

    Nas redondezas, uma tropa de policiais municipais e estaduais fardados com trajes de proteção observaram em silêncio por trás das suas barricadas de metal – e não fizeram nada.”

    – – – – – – – – – – – – – – – –

    Quando o governador da Virgínia Terry McAuliffe declarou um estado de emergência às 11 da manhã, a Guarda Nacional entrou em cena. A polícia dispersou a extrema-direita da sua posição no Emancipation Park – mas isto levou a grupos ambulantes de racistas buscando briga nas ruas ao redor.

    Os contramanifestantes receberam a informação de que os fascistas estavam a caminho de uma parte da cidade com uma concentração de habitação pública para acossar os residentes de baixa renda.

    Uma marcha foi organizada espontaneamente em defesa da comunidade. “Os sentimentos de incerteza e vulnerabilidade mudaram imediatamente para confiança e autoridade.” disse um membro da ISO que participou do ato. “Não íamos deixar os fascistas controlarem o dia.”

    Cerca de 300 antifascistas marcharam e cantaram em formação estreita, parando logo antes de virar a esquina da rua onde as moradias estavam localizadas. Mas, ao chegar, não encontraram os direitistas. Um organizador pertencente à comunidade foi à frente da marcha e tomou o megafone, pedindo uma retirada para diminuir as chances de trazer a polícia para a região.

    O grupo fez seu caminho de volta ao centro da cidade e encontrou outro contingente de contramanifestantes tomando a rua em um humor exaltado. Os grupos se uniram e começaram a subir a lombada em direção ao Justice Park, planejando comemorar sua aparente vitória em expulsar os direitistas.

    Estavam na metade da subida quando de repente surgiu algo que soou como uma batida ou uma explosão. Corpos voavam, e pessoas gritavam. Um carro tinha atropelado a multidão a toda velocidade, e então subido a colina em marcha ré e saído de vista.

    – – – – – – – – – – – – – – – –

    No caos, as pessoas fizeram o melhor que puderam para manter a compostura, tomar controle da situação e chamar os médicos que monitoravam a marcha. Tiraram os feridos da rua – para evitar o perigo de outro ataque veicular – e chamaram ambulâncias.

    O que veio no lugar delas foi um tanque policial. Um homem de farda militar subiu a escotilha com uma arma feita para atirar bombas de gás lacrimogênio. Três viaturas vieram atrás dele, junto com um batalhão de choque. A polícia fechou a área, e os manifestantes se dispersaram.

    Foi relatada depois a prisão e acusação de um homem do estado de Ohio, James Fields Jr., por homicídio doloso, três ocorrências de lesão corporal dolosa, e por não parar na cena de um acidente automobilístico resultante em óbito. Fotos anteriores daquele dia mostram o assassino brandindo um escudo com o símbolo do grupo neonazista American Vanguard.

    O carro de Fields matou a natural de Charlottesville Heather Heyer, de 32 anos, que trabalhava como paralegal e era devotada apaixonadamente à justiça social.

    Um vizinho diz que “ela viveu sua vida como o seu caminho – e foi pela justiça.” A mãe de Heather, Susan Bro, irrompeu em lágrimas ao dizer a um jornalista do HuffPost: “De alguma maneira eu quase sinto que é isto que ela nasceu para ser, um ponto focal para a mudança.”

    Mais de vinte outras pessoas foram gravemente feridas. Bill Burke, militante da ISO de Athens, Ohio, estava entre os que foram levados do local em uma ambulância, dada a preocupação de que tivesse sofrido ferimentos na espinha dorsal. Ele não tinha, mas precisou receber monitoramento para dano cerebral e foi tratado de uma concussão, além das dilacerações em seu rosto e da escoriação de seus braços e pernas.

    Burke recebeu alta do hospital no fim da tarde de domingo e espera-se que se recupere completamente. Ele mandou esta mensagem a outros militantes da ISO:

    “Aprecio o apoio e a solidariedade de todos. Espero que o que os fascistas fizeram sirva para despertar o nosso lado. Racismo, machismo, homofobia, transfobia e capacitismo: a direita representa as piores partes do sistema capitalista. Se realmente queremos impedi-los, precisamos nos organizar melhor e lutar em solidariedade contra toda a opressão. No final, precisamos de um mundo que funcione para as pessoas, não para o lucro.”

    – – – – – – – – – – – – – – – –

    Que o ataque veicular foi proposital parece óbvio a todos além de tipos como Donald Trump.

    Mas qualquer um que ainda tenha dúvidas deveria considerar um meme da alt-right que surgiu meses antes do confronto em Charlottesville. Mostra o desenho de um carro atropelando três pessoas com a legenda “ALL LIVES SPLATTER” (“todas as vidas se espatifam”, um trocadilho com a palavra de ordem da direita “todas as vidas importam” – por sua vez uma reação à frase do movimento negro “vidas negras importam”). A outra legenda diz “Ninguém liga para o seu protesto. Tire sua bunda da rua”.

    Tudo isto segue o espírito do terrorismo “divertido” de Trump – com sua “piada” de oferecer o pagamento das contas jurídicas de seus apoiadores caso eles agridam manifestantes, e suas referências “irônicas” à ideia de assassinar candidatos adversários. Esta retórica tem encorajado reacionários como os portadores de tocha que, sexta à noite em Charlottesville, quiseram fazer lembrar os comícios de Nuremberg da década de 30.

    Sua violência repulsiva já trouxe uma erupção de protestos antirracistas ao redor dos EUA. Mas não podemos parar por aí. Precisamos de um movimento permanente que se mobilize a confrontar a extrema-direita com números muito maiores toda vez que tentarem aparecer – e que organize uma alternativa da esquerda radical à política fascista de desespero e bodes expiatórios.

    Como um participante dos protestos antifascistas de Charlottesville escreveu na internet:

    “Para controlar as ruas, precisamos enchê-las. Se tivéssemos pessoas cobrindo cada centímetro do centro de Charlottesville, não teríamos ficado tão vulneráveis.

    Para desmobilizar o movimento fascista, eles precisam ser postos em desvantagem numérica e expulsos com força física… isole-os, desmoralize-os.

    É de quebrar o coração que os contra-manifestantes em Cville tinham recém começado a sentir um ar de confiança e unidade de ação [antes do ataque]…. Dois contingentes, duas multidões marchando convergiram no centro e estavam a caminho do Justice Park para comemorar, finalmente tendo se organizado após terem ficado divididas entre muitos locais.

    Este é o objetivo da extrema-direita: aterrorizar, intimidar e destruir as organizações dos trabalhadores e da esquerda, e qualquer outro que eles julguem uma ameaça.

    Não podemos deixar que eles se ancoragem mais pelo que aconteceu hoje.”

    Alan Maass contribuiu a este artigo.

  • About the critical situation in Venezuela

    Editorial Left Online, published in August, 5.

    Translation: Marcio Drumond

     

    Today, 5th August, the Venezuela’s National Constituent Assembly works start. However, the main imperialist countries do not recognize the elections held on the 30th. Donald Trump’s government has adopted sanctions against President Nicolas Maduro. The Secretary General of the Organization of American States (OAS/OEA), Luis Almagro, declared the elections are illegitimate. Mercosur, led by Brazil (Temer) and Argentina (Macri), announce new sanctions against the country. The European Union, especially Spain, did not recognize the legitimacy of the elections either. For the socialist left movement, those facts should say a lot by themselves.

    Yesterday, 4th August, the right-wing opposition alliance MUD (Democratic Unity Roundtable), held a new protest march against the inauguration of the constituent deputies. The fact is that today the siege of the country has reached one of its highest points.

    But truth be told: the responsibility for this situation largely lies with Chavism itself. Almost 20 years after Hugo Chávez was elected for the first time in 1998, the so-called Bolivarian socialist revolution did not take any serious action against capital. With that, Chavism was unable to change the country’s economic structure.

    Venezuela continues to depend on oil exports and still imports almost everything. Oil revenues continued to account for about one-third of its GDP, 80% of export revenues and more than half of state funding. Without the resumption of agricultural production and without a national industry, the country continued to import more than 90% of products, goods, and services.

    With the rise of oil prices started in the first decade of the 2000s, rather than structural changes, Chavismo favoured an agreement with sectors of the bourgeoisie and the accomplishment of compensatory social policies. It is true that they significantly raised the country’s HDI. But, predictably,, without structural changes, this advance was fleeting. With the fall in oil prices, the country began to come down. In 2013-2014 a recession began and, with that, popular discontentment. This is one of the main explanations for MUD’s victory in the 2015 legislative elections.

    Despite the disastrous policies of Chavism, which finished paving the way for the right-wing counter-offensive, we cannot forget that the aim of imperialism is to resume direct control of the country, particularly its oil reserves. To achieve that, they need to remove the government by putting an end to any mediations.

    The rise of Chavism was possible due to the heroic struggle of the Venezuelan people that has become a reference since the famous 1989 popular rebellion, known as “Caracazo.” That process allowed Venezuela to become a country politically more independent of imperialism. The counterrevolutionary offensive underway aims to not only defeat the government, but completely subordinate the country and mainly push back the advance of popular struggles, not only in Venezuela but across the whole Latin American region.

     

    The rise of the right-wing and pro-imperialist groups

    Since their victory in the December 2015 legislative elections, MUD has launched a campaign to oust President Nicolás Maduro. With no majority in the National Assembly, the government started to rely on the judiciary to govern. During 2016, the opposition tried to interrupt the presidential term by means of a recall referendum. The Supreme Court of Justice (TSJ) prevented that attempt. At the beginning of 2017, MUD began to demand the anticipation of the presidential elections declaring the government incompetent, for abuse of power.

    Hounded by the opposition, and instead of resorting to popular power, Maduro attempted to withdraw the legislative power from the National Assembly, transferring that to the TSJ. Three days later he retreated, and shortly thereafter, on 1st May, he called the elections for a National Constituent Assembly on 30th July.

    However, this initiative that could be a strong resumption of the offensive against the right-wing campaign, has been undermined by the government’s bureaucratic control over the electoral process. Left-wing forces, independent groups and activists have faced strong obstacles to nominating and legalizing their candidacies. A little bit more than 5 thousand candidates of the 55 thousand enrolled have obtained their nomination. Almost all the candidates of the Communes and the trade unions, popular, peasant and indigenous sectors are directly connected to the government. A process that is not supported by a broad democracy prevents the necessary unity to face the right-wing, besides  diminishing the strength and legitimacy of the Constituent Assembly itself.

    The opposition wasted no time. They decided to intensify the mobilizations and confrontations through lockouts, marches and barricades (“guarimbas“) to prevent the elections. There were cases of Chavists burned alive and candidates being murdered. The government carried out marches and mobilizations, while repressing the opposition demonstrations through the National Guard and the Popular Collectives, also increasing the number of victims. According to some sources, these clashes have already resulted in around 120 deaths between April and July of this year.

    In a climate of very high pressure, with barricades and without transport, the elections took place. Then came the accusations of fraud. Despite all of that, the National Constituent Assembly has been settled and today begins its work. The Imperialism increases the siege, while some sectors already wave with the possibility of negotiation.

     

    The challenge for the left socialist movement

    The revolutionary socialists must fight to build an alternative to both the Maduro government and the right-wing opposition. The strategy must be the overcoming of Chavism. To do so, it is necessary to strengthen the social forces of the revolution by relying on both the defence of a working-class and socialist program and the mobilization, self-organization and self-defence of the working class and popular masses.

    However, in this moment of extreme polarization, the construction of this alternative is put at the forefront of the struggle to defeat the counterrevolutionary offensive of the right-wing, the OAS (Organization of American States) and imperialism. A socialist and revolutionary alternative is not built from a third field that in practice does not exist. Doing so is falling into pure abstentionism. The unity of action necessary to defeat the counterrevolution does not mean to grant any illusions into Maduro’s government. It is the same political location when we stood against Dilma’s impeachment. As is well known, that did not mean supporting the policy, much less the Dilma-Lula-PT class reconciliation project.

    There are some left-wing forces that are currently seeking to overthrow Chavism struggling in the right-wing opposition terrain, and they are wrong. In fact, that is an even more serious mistake than at this time equalling government and opposition. By placing themselves in the trenches of the right-wing opposition, defending the fall of the government and boycotting the Constituent Assembly, they lose all class criteria, confusing revolution with counterrevolution. We do not build an alternative in unity of action with MUD or imperialism. This is not the case where we must strike together and march apart.

    In those dramatic times Venezuela is passing through, the Latin American left has as its main task helping to defeat the counterrevolutionary offensive. It is urgent that the working class and the sister nations act and call for solidarity actions in all the necessary ways.

     

    At the same time, it is necessary to demand from the constituent deputies a socialist solution for the country. It is urgent that the character of the current Constitution protecting private property, financial trades and profit be modified, precepts on which exploitation, oppression and social inequality are based.

    The new constitution should ensure the adoption of measures such as the nationalization of foreign companies, the immediate expropriation of the right-wing putschist companies, a 100% state PDVSA under the control of the workers. It is essential that the State assumes control of trade and distribution. Along with this is the need to nationalize the financial system. This is the only way to combat speculation and prevent capital flights. The suspension of the payment of the external debt – to date punctually paid despite the immense crisis that penalizes the country – is vital for investments in infrastructure, housing, health, and education. Finally, it is necessary to democratize the Armed Forces and a State based on workers’ and popular power.

    These are, in short, some of the main challenges of the socialist left in Venezuela

     

  • C-Star: quando o neofascismo se lança ao mar

     

     

    Renato Fernandes, Campinas (SP)

     

    Pescadores em Nasri, Tunísia, mobilizados contra o C-Star; Crédito: Fathi Nasri

     

    C-Star é um navio de porte médio, 40 metros, navegando no Mar Mediterrâneo. A bordo estão militantes da extrema direita do grupo neofascista Génération Identitaire (Geração Identitária). O objetivo deles é fazer com que os botes e barcos com imigrantes vindos da África retornem para lá, impedindo dessa forma a entrada dos mesmos em território europeu. Isso faz parte de uma missão intitulada “Defender a Europa” organizada por militantes italianos, alemães e franceses que arrecadou € 76 mil numa “vaquinha virtual” (crowdfunding). O discurso deles é humanitário, já que estariam “combatendo o tráfico humano”.

    Esses militantes da extrema direita tentam passar a ideia que eles combatem os navios e barcos das Organizações Não-governamentais (ONG), como a dos Médicos Sem Fronteiras, que prestam auxílio e ajudam os imigrantes na travessia desumana que fazem pelo Mar Mediterrâneo que muitas vezes acaba em tragédia. Um desses militantes neofascistas, em vídeo divulgado na internet, acusa as ONG’s de permitirem a entrada ilegal dos imigrantes em território europeu, sendo cúmplices do tráfico humano e dizem que a missão deles é conduzir os imigrantes “para a costa africana”.

     

    Quem é a Geração Identitária?

     

    O movimento Geração Identitária é em determinado sentido a continuação de movimentos neofascistas europeus dos anos 1990 e 2000. Criado em 2012, o movimento ganhou projeção nacional com a ocupação de uma mesquita, em outubro do mesmo ano, na região francesa de Poitiers. O local foi escolhido, pois em 732, o general Charles Martel venceu os muçulmanos na região

    A partir de então, o movimento foi aumentando como produto da crise econômica e social que atravessa a França desde 2008/9 e também como fator de crescimento das ideias dos nacionalistas de extrema direita, cuja principal expressão é o partido Front National (FN) e sua candidata Marine Le Pen que foi derrotada no segundo turno das últimas eleições presidenciais.

    Entre as principais atividades que a Geração Identitária faz estão a “Geração Solidariedade” que distribui alimentos para moradores de rua franceses (não-imigrantes) em cidades como Paris, Lyon, Flandres, entre outras. A atividade da “Geração anti-escória” (anti-racaille) é uma atividade para promover treinamento de auto-defesa contra a “falência” do Estado francês em garantir segurança, além de vigílias contra a “escória” em metrôs de grandes cidades. Realizam também protestos, como o de março de 2016 em Calais, onde bloquearam durante 3 horas a estrada que ligava a cidade de Calais, ao norte do país, com o grande acampamento de imigrantes que existia no local.

    Todas essas ações demonstram que a Geração Identitária não é um simples movimento de disputa da democracia burguesa. Suas ligações com a FN são óbvias, porém eles são um movimento independente do partido da extrema direita. O projeto deles é claramente neofascista: utilizar-se de métodos violentos e antidemocráticos para garantir uma “França para os franceses”.

     

    Um barco ilegal e a necessária resposta democrática

     

    Os pescadores de Zarsis, no sudeste da Tunísia, organizaram-se para impedir que o C-Star atracasse no porto da cidade, no dia 7 de agosto. Seguindo essa política, a principal central do país, a União Geral dos Trabalhadores Tunisianos (UGTT) lançou um apelo no mesmo dia para que nenhum trabalhador deixasse o C-Star atracar em portos do país. Desde então, a embarcação está parada nas costas tunisianas, já que a mesma não consegue atracar em nenhum porto da região.

    Conforme relata o jornal francês Le Monde, do ponto de vista do direito marítimo internacional, toda a operação do C-Star é ilegal, incluindo as manobras que realizou próximo ao navio Aquarius (ligado a ONG SOS Mediterrâneo), em 5 de agosto, que poderia ter causado um acidente marítimo.

    Mesmo que temporariamente derrotados, é necessário observar a força que esse neofascismo vem ganhando na Europa a ponto de saltar de “pequenas ações” em seus países para grandes ações nos mares por meio de uma arrecadação coletiva. Além disso, é necessário exigir a abertura das fronteiras europeias pois, ao contrário do que pensam esses neofascistas, nenhum ser humano é ilegal!

  • PASO: as eleições primárias na Argentina

     

     Por Renato Fernandes, Campinas, SP

     

    Cristina, Bullrich, Massa, Randazzo. Os principais candidatos na Província de Buenos Aires. Foto: https://www.clarin.com/politica/dicen-ultimas-encuestas-provincia-buenos-aires_0_ryp7oEBmW.html

     

     

    No próximo domingo, 13/8, irão ocorrer as PASO: primárias abertas simultâneas obrigatórias. Nessas eleições serão eleitos 127 de 257 membros da Câmara de Deputados e 24 de 72 membros para o Senado. Como são primárias, as PASO são uma forma dos eleitores escolherem quem encabeçará cada lista e pode ser utilizada para a disputa interna das listas: em 2015, por exemplo, a Frente de Izquierda y de los Trabalhadores (FIT) escolheu seu candidato presidencial por meio das PASO, nas quais acabou ganhando Nicolás Del Caño do Partido de los Trabajadores Socialista (PTS) frente a Jorge Altamira do Partido Obrero (PO).

    O objetivo inicial das PASO era o de criar uma “cláusula de barreira” para impedir a participação dos pequenos partidos nas eleições e americanizar a disputa política. Ou seja, pretendiam reduzir o número de listas e de partidos competidores, principalmente com os da esquerda socialista radical e concentrar as disputas nos grandes partidos. Para que uma lista possa participar nas eleições é necessário que ela alcance 1,5% nessas primárias.

    Este ano, as PASO estão sendo questionadas por todos os partidos, principalmente pela aliança Cambiemos de Mauricio Macri, presidente do país. O problema levantado são os custos e a paralisia do sistema político para duas eleições, já que após as primárias, teremos eleições legislativas em 22 de outubro. Porém, este é um questionamento tipicamente reacionário, já que procura outras formas de barrar a participação dos pequenos partidos.

    Podemos dizer que nas eleições da Argentina há a disputa de dois campos principais: o campo peronista que está altamente dividido e o campo de Cambiemos que está no Governo Federal. Além desses há diversas listas, nacionais ou regionais, da qual destacaremos as duas principais da esquerda socialista radical: a Frente de Izquierda de los Trabajadores (FIT) e a Izquierda al Frente (IAF).

     

    As eleições regionais e a centralidade de Buenos Aires

     

    Em algumas províncias já ocorreram as PASO regionais e também algumas eleições legislativas regionais. Elas medem um pouco a “temperatura” de cada local para as eleições nacionais. Nas eleições em Chaco, província ao norte, próxima ao Paraguai, os peronistas com 46,2% ganharam do Cambiemos, 34,1%. A surpresa foi a eleição da FIT que conseguiu 5,7% e elegeu o trabalhador da construção civil e militante do Partido Obrero Aurelio Díaz como deputado da província.

    Em outra província, La Rioja, na disputa regional das PASO, ao noroeste do país, também houve triunfo do peronismo frente a Cambiemos: em duas listas diferentes, o peronismo obteve o primeiro e o segundo lugar, com 25,01% e 19,60% (44,61% no total), enquanto Cambiemos obteve 19,15%. Nesta província, a IAF ficou com 1,91% e a FIT com 1,61%.

    Dada a formação social argentina, as eleições mais importantes são as da província de Buenos Aires (BsAs) que concentra a maior parte da economia e da população do país. Nas eleições nacionais estão em disputa dois cargos de senadores e 35 deputados nacionais.

    Na província de BsAs, o peronismo está dividido em três alas: 1País encabeçada por Sergio Massa (ex-ministro nos governos Kirchner), a Frente Justicialista encabeçada por Florencio Randazzo (também ex-ministro) e a Unidad Ciudadana encabeçada pela ex-presidente Cristina Kirchner. É importante ressaltar que Cristina está sendo alvo de investigações sobre corrupção em seu governo, o que embaralha ainda mais a disputa política. Massa, Randazzo e Cristina são candidatos a senadores por BsAs. O governo federal está unido na campanha com seu ex-ministro da educação e esportes, Esteban Bullrich, por Cambiemos. Nas primárias para Senador na Argentina, Cristina Kirchner aparece com 32,1% das intenções de voto, enquanto Bullrich aparece com 30,1%, seguido por Massa com 20,8% e Randazzo com 6,4%.

    Esse cenário demonstra, de certa maneira, o rechaço ao governo de Macri e a dificuldade que ele terá para enfrentar a oposição peronista (se esta sair unificada) nas próximas eleições presidenciais – cenário improvável também. Porém, a novidade nestas PASO, seja para Senador, seja para deputados, é justamente a localização da esquerda, principalmente da FIT. Para Senador de Buenos Aires, por exemplo, a FIT está com 4,8% das intenções de voto.

     

    O espaço da esquerda socialista radical

     

    A FIT e a IAF são duas frentes eleitorais que representam a política da esquerda socialista radical. A primeira já tem uma determinada tradição: foi formada em 2011 pelo PTS, o PO e a Izquierda Socialista (IS) como uma maneira de superar as PASO. A FIT se consolidou como principal frente política nacional da esquerda socialista. Desde seu início foi uma frente eleitoral que, ainda que incorporasse outros partidos, como o PSTU Argentino (que não tem representação legal), foi ferreamente controlada pelas três principais organizações.

    Considerando o período em que vivemos, a tática de frente eleitoral foi um grande acerto da FIT. Ela permitiu que essas organizações começassem a quebrar a marginalidade a que a maior parte da esquerda socialista radical internacional ainda está submetida. Atualmente a FIT tem 4 deputados no parlamento argentino e alguns deputados nas províncias. Combinado a esse processo eleitoral, como foi demonstrado no ato de 20 de novembro no estádio do Atlanta em Buenos Aires, os partidos da FIT ampliaram sua influência no movimento estudantil, operário e popular do país. A luta da PepsiCo é mais um capítulo que expressa o crescimento da esquerda socialista radical do país.

    Entretanto, a FIT se recusou a entrar em um acordo com o Nuevo Movimiento al Socialismo (MAS) e, posteriormente, com o Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST), outros dois partidos da esquerda radical. Frente a isso, o MAS e o MST anunciaram, em novembro do ano passado, a formação de uma nova frente socialista, a Izquierda al Frente que disputa eleições a nível nacional também.

    Numa pesquisa publicada no dia 2 de julho, as intenções de votos para a lista de deputados da FIT, encabeçada por Nicolás del Caño do PTS, era de 6,1%, enquanto a lista encabeçada por Manuela Castañeira do MAS tinha 3,9%. Em outras localidades, como na província de Santa Fé, a FIT chegou a ter 15,2% da intenção de votos. Essas pesquisas demonstram que um setor de massas, ainda que minoritário, busca uma saída socialista e radical nas eleições.

    A FIT entrou na justiça exigindo a troca de nome da IAF, devido as “semelhanças” entre os dois, já que as cores são as mesmas (vermelho e preto). Uma briga que aprofunda ainda mais a divisão da esquerda quando ela está diante de uma grande oportunidade de se apresentar enquanto uma alternativa mais consistente para a crise do país.

    Apesar desses problemas, a política de frentes eleitorais da esquerda socialista radical nos parece extremamente correta como forma de romper as marginalidades de nossas organizações. O correto seria a unidade entre as duas frentes, como a IAF corretamente defende. Além disso, uma frente da esquerda socialista e radical que fosse para além das eleições e que disputasse o conjunto dos movimentos sociais da influência do peronismo, poderia ser a catalizadora que aproveitaria esse giro minoritário de um setor das massas no plano eleitoral e possibilitaria a apresentação de uma real alternativa política socialista e radical.

     

  • O G20-2017 e a atual situação política mundial

    Por: Victor Wolfgang Kegel Amal, de Florianópolis, SC    

    Nos dias 7 e 8 de julho, na cidade de Hamburgo, Alemanha, ocorreu a reunião do G20 de 2017. O grupo é constituído pelas maiores potencias econômicas do mundo: Austrália, África do Sul, Argentina, Alemanha, Brasil, China, Canadá, Coréia do Sul, Estados Unidos, Inglaterra, Índia, Indonésia, Itália Turquia e União Europeia. Juntos, representam 85% do Produto Interno Bruto (PIB) global.

    O G20 foi criado em 1999, após as sucessivas crises financeiras da década de 1990. Inicialmente ele era constituído pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais dos países. Entretanto, a partir da reunião de 14-15 de novembro de 2008, depois da crise de 2007-2008, passou a ser formado pelos chefes de Estado ou de governo. Isso representou uma mudança significativa no papel do G-20, que passou a assumir a centralidade como fórum de discussão sobre governança internacional antes ocupada pelo G7.

    As tensões que cercaram o fórum de Hamburgo
    Muitas expectativas e incertezas sobre a condução da ordem mundial foram geradas em relação ao encontro deste ano, principalmente devido ao turbulento contexto atual: interferência russa nas eleições norte-americanas, o Brexit e a divisão intra-europeia, o aumento do conflito na península da Coréia, a retirada dos EUA do Acordo de Paris, a crise entre Arábia Saudita e Catar. Os dias que antecederam a reunião já expressavam essas novas tensões da situação mundial.

    No dia 4, a Coreia do Norte dobrou a aposta e realizou com sucesso o primeiro teste com um míssil balístico intercontinental. Com alcance de 5.550 km, esse ICBM pode alcançar o Alasca. Em resposta à provocação de Pyongyang, EUA e Coréia do Sul realizaram múltiplos lançamentos de mísseis no Mar do Japão, entre eles o modelo balístico sulcoreano Hyunmoo-21 e o tático estadounidense ATACMS. O secretário de estado dos EUA, Rex Tyllerson, alertou para o aumento da escalada armamentista norte-coreana e voltou a pressionar a China para atuar de forma mais contundente na busca de uma saída negociada para o desarmamento nuclear do país.

    Já no dia 6 ocorreu a visita de Trump à Polônia, governada desde 2015 por um dos maiores representantes da extrema direita no país, Andrzej Duda, ex-membro do Partido Lei e Justiça e agora independente. Durante sua passagem, Trump discursou na Praça de Varsóvia, símbolo da resistência aos nazis, onde exaltou as medidas restritivas à entrada de imigrantes na Polônia e afirmou também estar trabalhando para “proteger as fronteiras” dos EUA. Além disso, elogiou o fato do país cumprir com sua contribuição de 2% do PIB para o fundo da OTAN, um recado às principais potências europeias, em especial a Alemanha, às quais Trump critica a baixa participação nos gastos da Aliança.

    A visita de Trump à Polônia não foi casual. Esse país tem o interesse de converter-se num centro logístico de gás liquefeito exportado dos EUA a partir de investimentos norte-americanos, como é o caso da construção de um porto na sua costa setentrional. Isso conflita com o projeto de construção do gasoduto Nord Stream 2 que abasteceria a Europa com gás vindo da Rússia para a Alemanha, cruzando o Mar Báltico. Esse projeto permite desviar o gás siberiano dos gasodutos terrestres o que prejudicaria os interesses econômicos da Europa Oriental e Central. A Ucrânia ficaria mais suscetível às chantagens da Rússia. Por outro lado, os principais países europeus viram com preocupação o fato de o Congresso norte-americano ter decidido ampliar as sanções à Rússia, particularmente porque ele prevê uma cláusula que pode ser utilizada contra as empresas que participam do consórcio do gasoduto: além da Gazpron russa, a francesa Engie, a anglo-holandesa Shell, OMV de Austria e as alemãs Uniper y Wintershall (BASF).

    No mesmo dia 6, foi realizado um “acordo de princípio” para a criação de uma área de livre-comércio entre a União Europeia e o Japão, a segunda maior economia da Ásia. A assinatura definitiva do Jefta, como é chamado o Japan-EU Free-Trade Agreement, está prevista ainda para este verão. Para entrar em vigor, o tratado precisa ser confirmado pelos Parlamentos nacionais da UE. O novo acordo, sem dúvida, é uma resposta às iniciativas bilaterais e protecionistas de Trump, especialmente a retirada dos EUA do Tratado de Livre-Comércio Transpacífico (TPP). “É extremamente importante que Japão e União Europeia defendam o livre-comércio em um momento no qual o mundo enfrenta tendências protecionistas”, afirmou Abe. Da parte de Bruxelas, a ideia foi transmitir a imagem de líder mundial do livre-comércio. “Enviamos juntos um sinal forte ao mundo em favor do comércio aberto e equilibrado. Não há proteção no protecionismo”, disse o presidente da Comissão Européia, Jean-Claude Juncker.

    A retomada das mobilizações anti-globalização
    Outro episódio simbólico não se relaciona aos conflitos entre as potencias imperialistas, mas entre estas e os movimentos sociais, uma luta entre os “de cima” e os “de baixo”. No mesmo dia 6, Hamburgo foi palco de grandes protestos contra o G20-17. Manifestações anti-capitalistas em encontros internacionais já possuem bastante tradição, como os 200 mil contra o G8 na Itália, em 2001, e os atos radicalizados no G20 de Toronto, em 2010, que levaram a prisão em massa de 1.100 pessoas. Desta vez, na segunda maior cidade da Alemanha, as maiores manifestações anticapitalistas das últimas décadas iniciaram na quinta-feira e se estenderam até o fim do encontro, no sábado.

    Os principais motes das manifestações foram a abertura de fronteiras aos refugiados e contra o aquecimento global. Marcadas por forte repressão, desde seu primeiro dia, em torno de 150 pessoas foram presas durante as manifestações e 120, preventivamente. Um novo contingente de 20 mil policiais foi enviado depois da queima de viaturas na quinta-feira. Sábado, o ato em Hamburgo contava com mais de 50 mil e protestos se espalharam por outras cidades do país.

    g202

    Créditos: Boris Roessler/DPA/Zuma Press/TNS

    As pautas do G20
    Como não podia deixar de ser, o G20-2017 demonstrou as fissuras existentes na ordem capitalista atual. Quatro foram os principais pontos de tensão entre as potências: crise climática, comércio internacional, migrações e terrorismo. Apesar de muitos líderes terem afirmado que a produção de um comunicado final unânime foi uma vitória, as divisões internas ao grupo estavam mais uma vez bastante explícitas, embora por momentos tentou-se dissimulá-las.

    Em relação ao Acordo de Paris, os 19 membros estiveram unidos contra a posição dos Estados Unidos de anular o acordo. Apesar da China e a Índia- hoje os maiores poluidores do planeta – terem manifestado firmemente a favor da aplicação das metas estabelecidas em Paris, o presidente da Turquia Recep Tayyip Erdogan afirmou que não tem intenção de ratificar o acordo no congresso de seu país. Não está claro se isso de fato irá ocorrer, mas o fato indica que o discurso anti-meio ambiente de Donald Trump poderá ressoar em outros países.

    Já no tema relativo ao comércio internacional, as posições estavam muito mais fragmentadas. Esta pauta sofreu bastante influência dos interesses norte-americanos, principalmente sobre dois pontos: combustíveis fósseis e aço. Em relação ao primeiro, os EUA conseguiram tirar do comunicado final uma parte relativa à redução na produção de combustíveis que se chocava com sua intenção de se retirar do Acordo de Paris. Quanto ao aço, Trump vem afirmando que a indústria norte-americana está sendo marginalizada pela produção estrangeira e, provavelmente, deverá impor um aumento de tarifas para importação do produto no país. No comunicado final, ficou acordado o objetivo de redução na produção de aço como forma de reduzir seu preço internacional, postergando assim uma provável guerra comercial em alguns meses, quando aprovado o aumento tarifário.

    Em relação às migrações, mais uma vez os olhares estavam direcionados aos Estados Unidos. Desde as eleições de 2016, Trump vem prometendo aumentar o número de deportações de imigrantes sem documentos, reduzir a entrada de refugiados e construir um muro na fronteira com o México. Isso ocorre em meio à maior crise de refugiados da história desde a Segunda Guerra Mundial. Uma das principais iniciativas dos grupos pró-direitos humanos no encontro foi endurecer o combate aos chamados “traficantes de refugiados”, que construíram um negócio bilionário no norte da África e já chegaram a controlar partes do território líbio. Contudo, tanto esta iniciativa quanto outras não tiveram absolutamente nenhum progresso.

    Por último, o tema do terrorismo também teve grande centralidade devido aos recentes ataques ocorridos na Europa, principalmente Ingalterra. Logo no primeiro dia foi escrita uma declaração conjunta sobre o combate ao terror com ênfase na prevenção, principalmente no que concerne à troca de informações de inteligência e fiscalização da internet e redes sociais. O presidente da Índia aproveitou para ressaltar a presença de grupos terroristas em conluio com o Exército Islâmico e Al-Qaeda que atuam em seu vizinho, Paquistão, e reivindicou esforço internacional para combatê-los.

    União Europeia e os EUA
    Angela Merkel e Emmanuel Macron, da Alemanha e França, foram os principais opositores de Trump no encontro. Ressaltaram o caminho de isolamento que os EUA estavam trilhando ao anunciarem a não permanência no Acordo de Paris sobre o clima, e que qualquer posição contrária ao multilateralismo não iria contar com a participação de ambos.

    Apesar de Macron ter dito que acreditava que os EUA poderiam voltar atrás em relação ao acordo climático, Merkel afirmou não compartilhar do mesmo otimismo do francês e outros líderes do G20, demonstrando ainda mais vigor na oposição à Trump. A recente declaração do ministro das relações exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, contra o boicote do Conselho de Cooperação do Golfo ao Catar (apoiado pelos EUA) indica a ampliação das diferenças.

    Na verdade, desde o último G7, em maio, a chanceler alemã vem tentando se estabelecer como porta-voz da oposição ao presidente norte-americano. Trump apoia abertamente o Brexit, e manifestou um apoio velado à candidata xenofóbica e anti-União Europeia Marine Le Pen nas eleições francesas deste ano. Como o poder da Alemanha no continente depende da unidade da União Europeia, qualquer ameaça a essa instituição vai na contramão de seus interesses geopolíticos vitais. Por ser anfitriã, Merkel coordenou a pauta do encontro e propositalmente colocou como eixo os temas do aquecimento global, comércio internacional e migrações para constranger Trump politicamente.

    A vitória de Macron contra Le Pen e a recuperação de Merkel nas eleições municipais passadas permitiram a retomada da afirmação do eixo franco-alemão na UE, deixando de lado, por ora, as alternativas tanto à direita quanto à esquerda. Num certo sentido o próprio debilitamento de Teresa May nas eleições britânicas enfraquece o Brexit e fortalece a União Europeia.

    O distanciamento entre Trump e Merkel, mais que um conflito entre ambos, revela um distanciamento entre a Europa e os EUA. Logo depois do G7, Merkel afirmou que havia acabado o tempo em que a Europa podia depender de nações estrangeiras para garantir sua segurança, reavivando rumores sobre possíveis iniciativas de militarização do bloco europeu, tal qual a Política Europeia de Defesa e Segurança de 1999, boicotada na ocasião pelos EUA.

    Estados Unidos e Rússia
    Um dos momentos mais esperados do G20-2017 foi o primeiro encontro de Donald Trump desde que assumiu a presidência com Vladimir Putin. As relações entre Estados Unidos e Rússia haviam chegado ao seu patamar mais baixo desde o fim da Guerra Fria durante o segundo governo Obama, principalmente em função das guerras na Síria e Ucrânia. Durante a campanha de 2016, Trump propôs modificar essa relação defendendo como um dos eixos de sua política externa uma aproximação entre Washington e Moscou.

    Entretanto, desde que foi eleito, Trump vem sofrendo fortes ataques contra essa orientação. Isso já lhe custou sérios reveses. Neste momento ele está sendo investigado pelo FBI por uma suposta participação de seu comitê de campanha na interferência da Rússia nas eleições norte-americanas de 2016, fato que pode lhe custar o impeachment de acordo com alguns democratas. Frente a essas pressões, e como forma de amenizar as investigações, nos últimos 6 meses o presidente norte-americano vem aplicando uma política dura em relação à Rússia, contrariando seu discurso de campanha. Ele tem se alinhado ao Grand Old Party (GOP) republicano e se afastado do seu estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon, defensor de uma aproximação com a Rússia. Na Polônia, Trump chegou a exigir que os russos parassem de desestabilizar a Ucrânia, bem como se aliar a regimes ditatoriais como Síria e Irã.

    Entretanto, o diálogo entre Putin e Trump no G20 não foi conflituoso como era de se esperar. Putin afirmou que o presidente norte-americano aceitou sua versão de que os russos não interferiram nas eleições de 2016, ainda que que o secretário de estado, Rex Tylerson, tenha admitido o contrário em entrevista coletiva de imprensa. A própria embaixadora dos EUA na ONU, Nikky Hailey, confirmou que a Rússia interveio nas eleições e que Putin estava negando apenas para encobrir sua culpa. Mesmo assim, a tônica da conversa entre ambos presidentes foi de que os problemas passados deveriam ser esquecidos.

    O conflito Sírio
    O principal tópico discutido entre Trump e Putin acabou sendo a questão Síria. Na ocasião, anunciou-se um acordo de cessar fogo na região sudoeste do país, próxima à Jordânia, cujo representante nas negociações declarou ter sido um acordo tripartite entre EUA-Rússia-Jordânia, apesar de ter também contado com a participação de Israel.

    Tyllerson aproveitou o momento para retomar a ideia sobre as possibilidades reais de cooperação entre EUA e Rússia no cenário internacional. Suas diferenças, segundo ele, é que os Estados Unidos, ao contrário dos russos, não enxergam possibilidade de manutenção do regime de Assad a longo prazo. Alertou que as outras zonas de conflito na Síria não têm condições para um cessar fogo o que implicaria numa continuidade de um conflito que já dura 6 anos.

    Apesar das partes terem procurado dar um ar amistoso à conversa, é difícil crer que as relações entre EUA e Rússia irão de fato melhorar. A realidade é que as contradições são muitas: a situação na Síria está longe de ser resolvida; não existe nenhum acordo entre ambos em relação à situação na Ucrânia, onde se ampliam as sanções econômicas contra os russos; em relação à Coréia do Norte, a Rússia está alinhada à política da China na busca de uma solução pacífica; etc.

    Algumas conclusões
    A tentativa de Trump de colocar os interesses da América em primeiro lugar (“America Comes First”) está levando ao afastamento dos EUA da Europa e ameaça descontruir a aliança transatlântica, peça chave na sustentação da ordem mundial do pós-guerra. Como alternativa, Merkel se vê forçada a se mover no sentido de uma Alemanha e União Europeia mais independente. Os acordos como a Ceta (UE-Canadá) e o Jefta (UE-Japão), além de suas recentes reuniões com o presidente da China, e o primeiro-ministro da Índia, e mesmo sua viagem à Argentina e ao México, indicam isso.

    Por outro lado, sob influência do establishment republicano, Trump não consegue se reaproximar da Rússia. Pelo contrário, apesar das relações aparentemente cordiais no G20-17, os fatos indicam um aumento dos conflitos entre os dois países. Ao mesmo tempo, os EUA seguem com dificuldades para estabilizar as relações com a China na perspectiva da estratégia de defender seus interesses em primeiro lugar. Entretanto, segue perseguindo seu objetivo de fortalecer suas relações bilaterais como é o caso do acordo da venda de armas para a Arábia Saudita e do gás para a Polônia.

    Esses fatos expressam o aumento dos conflitos entre as frações da burguesia imperialista em cada país, bem como entre as próprias potencias imperialistas. O pano de fundo deste conflito crescente de interesses deve-se ao fato de que, passada quase uma década, a economia mundial ainda não conseguiu entrar em um novo ciclo de crescimento superando definitivamente a crise econômica de 2007-2008. A incapacidade para reverter esse quadro indica um esgotamento do projeto da globalização neoliberal e leva a um questionamento da atual ordem mundial, alimentando saídas cada vez mais protecionistas e mesmo autárquicas.

    Esse quadro marca um novo momento na situação mundial, dando um novo caráter aos atuais conflitos, o que os tornam cada vez mais intensos. Ao mesmo tempo, as grandes e radicalizadas manifestações ocorridas durante o G20 de Hamburgo expressam uma maior polarização da luta entre as classes dominantes e os movimentos sociais. Em vários países e regiões, a exemplo da América Latina, a classe trabalhadora entra cada vez mais em cena.

    Em 2018, o G20 irá acontecer na Argentina. É tarefa de todas as lutadoras e lutadores da América do Sul se engajarem em uma resposta ainda maior que a dada em Hamburgo e avançar na luta anti-capitalista em nosso continente.

     Foto: FT

  • Bolívia vive protestos e COB convoca paralisação nacional

    Por: Joana Benário, de São Paulo, SP 

    O mês de julho se inicia com protestos na Bolívia contra um aumento nas tarifas do serviço eléctrico e bloqueios dos produtores de coca contra a polêmica nova lei da coca. Estão previstas também manifestações dos 200 petroleiros demitidos da YPFB, a agência Nacional de Hidrocarbonetos. Além disso, A Central Obrera Boliviana (COB) anuncia uma paralisação de 24 horas para o dia 12 de julho e bloqueios em nível nacional.

    As mobilizações em marcha indicam um crescente descontentamento com o governo alimentado pelas denúncias permanentes de escândalos e de corrupção, em um ambiente de estagnação econômica nacional.

    Cocaleiros mobilizados
    Os produtores de coca na região subtropical de Yungas de La Paz, organizados em ADEPCOCA, apresentaram uma petição de inconstitucionalidade contra a Lei Geral da Coca (Lei nº. 906). Isto porque os artigos 16 e 18 dessa lei reconhecem a folha de coca do Chapare, região de Cochabamba, como cultura originária, quando, de fato, apenas a produção na região de Yungas é cultura ancestral.

    Isso aumenta significativamente a quantidade de cultura de coca permitida. Só a região do Chapare tem 7.000 ha antes considerados produção “excedente”, devendo por isso ser controlada e gradualmente eliminada. Ocorre que essa é a principal base social do governo de Evo Morales.

    Os produtores estão em estado de emergência e o ministro do Desenvolvimento Rural, César Cocaricon e nenhuma outra autoridade podem entrar na região dos Yungas.  A semana passada, quando tentava socializar a aplicação da lei com comunidades da região, teve que ser removido da área por helicóptero.

    Como aceitar que um governo que se diz popular e socialista, aumente significativamente a produção de coca supostamente legal, quando é evidente para todos que a grande maioria da coca vai para o tráfico de drogas, um setor informal e 100% de economia privada, que além de tudo não dá mesmo um centavo de imposto para o país? Onde estão as alternativas para iniciativas estatais de industrialização e comercialização da coca e de outras culturas no Chapare e Yungas?

    Os produtores organizaram um protesto na cidade de Sucre, a sede do Tribunal Constitucional, em 9 de julho, transportando mais de 100 ônibus com produtores de coca para aquela cidade, exigindo dos juízes a retificação de que a única folha de coca nativa é a cultivada na região de Yungas de La Paz. A sua demanda foi aceita pelo Tribunal Constitucional, que vai analisar o caso. Os produtores então retornaram a sua região, anunciando ficar em emergência.

     Protestos contra o aumento das tarifas de energia elétrica
    Na Bolívia, a geração e distribuição de energia são, na maior parte, privatizada e descentralizada. A “Autoridad de Electricidad” (AE)[1] autorizou mediante a resolução 280/2017, o incremento de 3% das tarifas ao usuário final. Mas em outros Departamentos (estados) o aumento será ainda maior. A “Cooperativa Rural de Electrificación” (CRE) de Santa Cruz, por exemplo, indicou um aumento que chega a 3,5%. Nas palavras de um pesquisador da ONG de pesquisas CEDLA “as variações de acréscimo ocorrem porque a legislação boliviana garante as vantagens das empresas geradoras, distribuidoras e comercializadoras de eletricidade”.

    O aumento de tarifas do serviço de eletricidade terá um efeito multiplicador negativo na economia, apesar de ser menor que o aumento dos salários que é, em média, de 8% por ano. Recai sobre o conjunto de preços dos bens (em constante aumento) afetando o padrão de vida da população. Não por acaso, os próprios empresários privados exigiram uma reunião com o governo para saber a explicação para os aumentos e apresentar suas propostas.

    Embora a Bolívia seja um país onde há uma abundância de alternativas para geração de energia com baixos investimentos, durante seus 11 anos de governo, Evo Morales não foi capaz de desenvolver alternativas produtivas e serviços confiáveis nas mãos do Estado. O governo prometeu transformar o país em um grande exportador de eletricidade que seria gerada por megaprojetos. Mas, ao final, estes não vieram à luz por várias razões: mau desempenho da economia, inviabilidade técnica de projetos e/ou rejeição das regiões onde eles tiveram que ser implementados, a exemplo da resistência dos povos indígenas ao megaprojeto El Bala em Rurrenabaque, na entrada da região amazônica. O resultado é que o governo mantém altas tarifas elétricas se comparado com outros países da América Latina, especialmente na área rural.

    Por isso, no fim de junho, já houve marchas e protestos nas cidades de El Alto, Cochabamba, Santa Cruz, y Tarija, organizadas principalmente pelas associações de vizinhos. A Confederação de Associações de Vizinhos da Bolívia (Confederación de Juntas Vecinales de Bolivia – Conajuve), próxima ao partido do governo, se viu obrigada por sua base a chamar mobilizações para esta semana.

    Contaminada por esse clima, nesta terça 11 de julho, a organização dos vizinhos de El Alto anunciou mobilizações e bloqueios contra o prefeito da cidade de La Paz (opositor ao governo), agora por outros motivos: contra as novas normas municipais relativas aos impostos sobre transações de imóveis.

    COB convoca paralisação de 24 horas
    A Central Obrera Boliviana (COB) decidiu na sua última assembleia de 29 de junho uma paralisação de 24 horas e bloqueios em nível nacional para 12 de julho. As duas principais reivindicações são o rechaço ao aumento da tarefa da eletricidade e a anulação do regulamento sobre penalização da greve no setor operacional da saúde. Neste mesmo dia os professores vão parar em defesa do direito de greve. O secretário-geral da federação dos mineiros da Bolívia (FSTMB) anunciou que o setor também vai participar da paralisação porque o aumento de tarifa da luz afetará a empresa nacional minera Huanuni.

    É necessário que os dirigentes sindicais, na maioria pertencentes ao partido do governo, o MAS, não recuem e realizem um forte trabalho na base para garantir que as mobilizações sejam massivas. Só assim será possível fazer com as lutas em curso sejam vitoriosas.

    [1] Autoridad de Electricidad (AE): Instituição Nacional da Energia que regula procedimentos e fixa preços.

  • Venezuela: a contrarrevolução se intensifica

    Por: Editoria Internacional

    A situação venezuelana se torna cada vez mais tensa e polarizada, o governo Maduro segue um curso cada vez mais bonapartista e a direita apoiada pelo imperialismo e seus lacaios na América Latina (os Temer, Macris, etc) aposta cada vez mais na via de confrontação sangrenta. É decisiva a construção de uma saída pela esquerda à degeneração do governo, que combine a luta contra a direita opositora com uma opção socialista, revolucionária e democrática, para dar uma saída positiva à crise dramática do capitalismo naquele país. O artigo que publicamos foi escrito por socialistas venezuelanos – Izquierda Revolucionária – e reflete sobre essas questões. Segue a íntegra:

    Autor: William Sanabria, do Izquierda Revolucionaria, Venezuela
    Tradução: Sueli Corvacho

    Em 27 de junho, um policial, simpatizante da autodenominada Mesa de Unidade Democrática (MUD), que agrupa a oposição de direita e de extrema-direita da Venezuela, chocou a população do centro de Caracas ao disparar, a partir de um helicóptero, contra o Supremo Tribunal de Justiça (TSJ) e o Ministério do Interior. Alguns dias antes, partidários da MUD organizaram um ataque contra a base militar de La Carlota (leste de Caracas) com granadas caseiras e coquetéis-molotovs.

    Deste ato terrorista, resultou a morte de um jovem atacante de 19 anos, que está sendo usada para agitar ainda mais os ânimos das bases contra-revolucionárias e intensificar a campanha exigindo sanções e intervenção por parte dos organismos imperialistas, como ONU, OEA e outros.

    A estratégia golpista da direita venezuelana
    A mídia burguesa, a direita e grande parte dos dirigentes da social-democracia internacional apresentam essa ofensiva armada da reação contra-revolucionária como respostas de jovens indignados que lutam pela “democracia”. No entanto, o que aconteceu em Altamira (Caracas) e Barquisimeto (Estado de Lara), onde partidários da MUD, armados e encapuzados, lincharam e tentaram queimar vivos três jovens pelo simples fato de se declararem chavistas mostra do que estamos realmente falando. Trata-se de bandos fascistas cuja atuação integra uma estratégia cuidadosamente organizada. O objetivo é o mesmo buscado há mais de um ano: gerar uma situação de crise na cúpula do Estado para empurrar um setor da alta oficialidade militar (que até o momento – ao menos publicamente – tem mostrado seu apoio a Maduro) para derrubar o governo.

    Em 12 de junho, o líder fascista Leopoldo López insistia para que os militares dessem um golpe de estado. O governo do PP e os meios de comunicação espanhóis apresentam Lopez como um “democrata” e um “preso político”, mas, na verdade, ele foi julgado e preso por organizar, em 2014, uma campanha de violência similar à atual (embora menos longa no tempo) que causou 43 mortes.

    Paradoxalmente, dirigentes da Ahora Madrid, como Manuela Carmena ou Rita Maestre, em vez de explicar quem é Leopoldo López, aceitam conceder-lhe o status de “preso político” e votam com o PP e Ciudadanos as resoluções exigindo sua libertação. Estes dirigentes da esquerda devem corrigir isso com urgência. Independentemente de quais sejam suas intenções, a campanha apresentando Leopoldo López como um mártir só procura disfarçar com o invólucro atrativo da “luta pelas liberdades” os planos em andamento para organizar um golpe de estado na Venezuela. Um golpe que afogaria o país em sangue massacrando milhares de ativistas de esquerda.

    Paralelamente ao chamado de Lopez, a Assembleia Nacional (AN), controlada pela MUD, decidiu, em 20 de junho, desconhecer o Presidente Nicolás Maduro invocando o artigo 350 da Constituição. Este artigo trata do direito dos cidadãos a se rebelar se o governo viola os direitos humanos e a própria Constituição.

    Não há dúvida de que estamos diante de uma estratégia do terror que visa a derrubar o governo de Maduro. Desde 30 de março, quando o Tribunal Superior de Justiça (TSJ) decidiu assumir várias funções da AN (decisão posteriormente retificada por Nicolás Maduro) a contra-revolução manteve seus partidários na rua, combinando mobilizações de massas com ações violentas que causaram cerca de cem mortos.

    Nas últimas semanas, diante das dificuldades para incorporar mais setores da população às suas manifestações, a estratégia da direita contra-revolucionária se concentrou em intensificar as ações armadas (buscando quantos mais mortos melhor) e chamar os “trancaços”, interrupções de trânsito por várias horas,  com as que pretendem paralisar a atividade econômica, algo que, até agora, as paralisações convocadas não conseguiram realizar.

    Divisões na cúpula do Estado
    Pela primeira vez, desde 2002, os contra-revolucionários conseguiram abrir uma brecha dentro da cúpula do Estado. A procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega Díaz, que rejeitou a decisão do TSJ de 30 de março, declarou recentemente que a Venezuela “se converteu em um Estado policial.” Além disso, responsabilizou o governo pela atual violência (qualificando a atuação de “terrorismo de Estado”) e o desafiou abertamente ao entrar com um recurso para anular a convocação de eleições à Assembleia Constituinte de 30 de julho. Deste modo,  Ortega se une às declarações de dirigentes da MUD afirmando que a convocação de uma Constituinte representa um auto-golpe do governo e uma ruptura da ordem constitucional. Na prática, esta posição da Procuradoria Geral do Estado significa chamar o exército e a população à desobediência civil.

    Os dirigentes da MUD e um setor do imperialismo compreenderam a importância da brecha que se abriu no aparelho de Estado e converteram Ortega Diaz (que até recentemente era uma das figuras do chavismo mais odiada por eles) em heroína nacional. Tentam ampliar a brecha e, em torno da procuradora-geral, cristalizar uma oposição institucional ao governo que sirva de ante-sala ao desejado golpe militar há muito aguardado. No momento, Ortega Díaz recebeu o apoio do ex-secretário do Conselho de Defesa da Nação (CODENA) e ex-chefe da Casa Militar, o ex-comandante do Exército Alexis López, assim como do ex-ministro do Interior do governo do próprio Maduro (e ex-militar também) Miguel Rodríguez Torres. Rodriguez Torres já vem enfrentando o governo há meses. Lopez renunciou ao seu cargo em 13 de junho por estar em desacordo com a convocação da Assembléia Constituinte.

    Por enquanto são figuras procedentes da cúpula do Estado, mas, neste momento, desvinculadas dela. No entanto, a situação é tão crítica que é bastante provável que haja mais setores dentro da alta oficialidade, ocupando posições decisivas neste momento, que tenham opiniões semelhantes e estejam esperando o momento adequado para agir.

    A deterioração da situação econômica e das medidas do governo
    Este momento já pode estar chegando. A crise política se combina com uma crise econômica que não desaparece; ao contrário, torna-se cada vez mais insuportável para os estratos mais pobres da população. Recentemente, o governo aceitou um novo aumento de preços. O quilo de arroz, para citar um dos produtos mais utilizados, passou a custar 12.000 bolívares. Este montante equivale ao salário de uma semana para um trabalhador de uma empresa média do setor alimentício como Super S (Edo. Anzoategui).

    Nos últimos dias, voltaram a ocorrer saques em áreas populares. Em Maracay (cidade industrial da tradição chavista) esses incidentes envolveram um número considerável de pessoas. Em Caracas, a Guarda Nacional Bolivariana foi deslocada a algumas regiões da zona oeste da capital e não apenas a áreas residenciais de classe média ou alta dominada pela direita, como de costume quando ações violentas ocorrem. É verdade que não se trata (ainda) redutos tradicionais do chavismo, pois é uma área predominantemente de classe média baixa como El Paraíso e outra que tem camadas inferiores da classe média com  setores populares como La Vega; no entanto, é uma advertência clara de que direção as coisas estão evoluindo.

    Reconhecendo a gravidade da situação, Nicolás Maduro, em discurso pronunciado em 27 de junho, antes do ataque do helicóptero contra o Ministério do Interior, disse: “Eu digo ao mundo, ouçam isso, e aspiro a que o mundo ouça, depois de 90 dias de violência, de destruição e de morte, se a Venezuela estivesse mergulhada no caos e na violência, e fosse destruída a revolução bolivariana, nós iríamos combater, nós nunca nos renderíamos, e o que não pudéssemos com os votos, faríamos com as armas, libertaríamos nossa pátria com as armas”.

    Mas só há um modo de evitar a derrota da revolução bolivariana. A economia e o Estado devem ser controlados de fato pelos trabalhadores e não pelos capitalistas e pelos burocratas, como acontece atualmente. A solução é que a classe operária, à frente das camadas oprimidas da Venezuela, tomem todo o poder político e econômico, realizem medidas socialistas enérgicas, nacionalizando os bancos, a terra e as principais empresas, e coloquem tudo sob seu controle democrático para planejar e usar os recursos da economia com base nas necessidades sociais.

    Desta maneira, com um Estado baseado na democracia operária e nos órgãos reais de poder dos trabalhadores, eleitos e revogáveis democraticamente, se poderia lutar imediatamente e de forma eficaz contra a inflação, o desabastecimento, a corrupção burocrática e a sabotagem capitalista. Devemos derrubar uma vez por todas o capitalismo, expropriar a burguesia e acabar com a quinta-coluna burocrática.

    A Assembleia Constituinte. Giro à esquerda ou à direita?
    Mas o governo bolivariano está fazendo o oposto. A convocação da Assembléia Constituinte foi vista por um setor da base chavista como uma oportunidade de girar à esquerda, giro há tempos reivindicado, e enfrentar esta grave situação com medidas revolucionárias. Organizações que apóiam desde o início o processo revolucionário como o Partido Comunista da Venezuela (PCV) e outros propuseram lutar por uma Constituinte Revolucionária que aplicasse medidas socialistas.

    Milhares de lutadores operários e populares viam na Constituinte a oportunidade de substituir muitos dos atuais dirigentes, que se burocratizaram e favorecem, com suas políticas, a ousadia da contra-revolução. Mas a burocracia estatal e o aparelho do PSUV utilizaram seu poder de tal modo que a imensa maioria dos candidatos são os mesmos deputados, ministros e dirigentes, os quais são responsabilizados pela atual situação por setores cada vez mais amplos das massas. A tática do governo para responder à ofensiva da direita continua sendo procurar uma aliança com um setor da burguesia e inclusive do imperialismo.

    Ou, ainda, adotar medidas que deixem os oficiais das Forças Armadas Nacional Bolivariana (FANB) contentes ou, no mínimo, menos insatisfeitos do que o resto da população: mais promoções e mais rápidas, concessões econômicas especiais, etc. Enquanto a grande maioria de medidas progressivas que em seu tempo Chávez adotou e que serviu para reduzir a pobreza e reforçar o apoio à revolução, estão sendo minadas e eliminadas. Certamente, um dos problemas que a MUD teve, até o momento, é que não conseguiram que suas convocações para paralisações e greves gerais tivessem o resultado desejado.

    Uma razão é que, apesar da crise econômica e do descontentamento que existe entre os trabalhadores, nenhum setor decisivo da classe operária as seguiu. Mas, ao lado disso, outro fator bem mais surpreendente é que Fedecâmaras e Conindustria, as mesmas organizações empresariais que, em 2002, organizaram a greve patronal (e inclusive chegaram a pagar trabalhadores de muitas empresas, enquanto mantinham as fábricas fechadas) não apostaram até agora de maneira clara e decidida nessas paralisações, ou não foram capazes de garantir que seus membros os acompanhassem.

    Os reformistas estão convencidos de que este é o resultado de sua estratégia de fazer concessões aos empresários e aceitar algumas de suas exigências. Mas o que estão conseguindo com esta política é desmoralizar os trabalhadores e o povo, que vê como, enquanto eles sofrem o desabastecimento, os empresários enchem os bolsos especulando e vivem como reis.

    Enquanto o povo sofre o desabastecimento, os capitalistas continuam acumulando riqueza e poder
    Há um ano, o empresário basco Agustín Otxotorena, simpatizante da revolução bolivariana, denunciou no jornal chavista “Correo del Orinoco” que era mentira que na Venezuela falta tudo. Uma minoria da população formada por empresários, especuladores e oligarcas têm tudo o que desejam: “Se tem dinheiro, há whisky 18 anos, requintado rum venezuelano, champanhe francês, vodka russa ou sueca, chocolates belgas, carnes saborosas, lagosta, roupas de grife , restaurantes exclusivos, discotecas espetaculares, praias com iates, clubes de golfe, de equitação, tênis, futebol, é todo um país dentro de outro país onde não há pobres; as mulheres e as crianças são loiras, vão a escolas exclusivas, universidades exclusivas, e se divertem na Ilha Tortuga ou no Arquipélago de Los Roques, onde os únicos negros ou pobres são os garçons, os serviçais ou os seguranças. O universo da (Lilian) Tintori (esposa de Leopoldo López) e de seus coroinhas não é de escassez certamente”.

    O incrível é que estas denúncias foram saudados por ministros e dirigentes do PSUV, mas, longe de fazer qualquer coisa a respeito, mantiveram e intensificaram a política de fazer concessões a um setor da burguesia em troca de, supostamente, não apoiar abertamente os planos de desestabilização da MUD. Na verdade, o que está ocorrendo é que, enquanto os agentes diretos da MUD conseguem a força suficiente para forçar uma mudança de governo, esse setor da burguesia financeira e industrial está aproveitando os dólares e concessões oferecidos pelo governo para fazer grandes negócios.

    Paralelamente, continua contribuindo para o desgaste do governo.  Há um setor capitalista (também do imperialismo) que teme que a tentativa de derrubar prematuramente Maduro provoque uma reação das massas que, ainda que tenham muitas críticas com relação às políticas implementadas pelo governo, continuam defendendo a revolução. Também não têm urgência de tomar o poder, pois o governo bolivariano está lhes fazendo concessões e abandonou muitas das políticas aplicadas por Chávez.

    Além disso, dadas as medidas de ajuste contra os trabalhadores que um governo da MUD deveria tomar (ainda que no primeiro momento pudesse contar com “ajuda” internacional para se estabilizar) poderiam encontrar uma resposta social maior do que se estas mesmas medidas continuem sendo implementadas pelo PSUV. Isso também lhes permite desgastar o governo e desmoralizar as massas identificando as filas, aumentos de preços e desabastecimento com socialismo e revolução.

    Quanto tempo pode esta situação continuar? Até que o agravamento da crise econômica, a erosão do apoio ao governo e, vinculado a isso, a correlação de forças na direção do exército e do Estado, os aconselhe a se unirem de forma mais decidida na ofensiva final que a MUD está  lançando. Contudo, esse momento, como dissemos anteriormente, poderia estar chegando. A situação é extremamente volátil e está mudando dia a dia. Um novo incidente, mais mortos, um choque aberto dentro do próprio aparelho de Estado pode precipitar tudo e fazer com que a situação saia do controle. 

    Por uma revolução dentro da revolução que acabe com o capitalismo e com a burocracia
    Uma coisa está clara: se esse momento chegar, esses mesmos empresários que hoje os reformistas dizem que estão dispostos a chegar a acordos para aumentar a produção e que se reúnem com eles e chamam à paz e ao acordo nacional, serão os primeiros a exigir medidas selvagens contra a classe operária e pedir à MUD para acabar com tudo o que cheira a revolução. Só há uma maneira para evitar esse desenlace: que os jovens, trabalhadores, camponeses e soldados revolucionários nos organizemos de forma independente em nossos locais de trabalho, bairros e quartéis, e nos reagrupemos sob uma bandeira clara, com um programa que unifique todas as reivindicações operárias e populares. Devemos fazer uma revolução dentro da revolução para acabar de uma vez por todas com o poder dos capitalistas e burocratas e pôr a direção da economia e do Estado nas mãos da classe operária e do povo pobre. Apenas o povo salva o povo.

    Derrotemos a ofensiva contra-revolucionária com a mobilização operária e popular!

    Acabemos com a corrupção, sabotagem e saque dos recursos do Estado pelos capitalistas e burocratas!

    Todo o poder político e econômico para a classe operária e para os setores oprimidos!