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  • O que Sharpeville, na África do Sul, e o Brasil ainda têm em comum depois de quase 60 anos?

    Por Iris Rodrigues, de Recife, PE

    21 de março: Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial

    21 de março de 1960, segunda-feira, subúrbio de Sharpeville, província de Gauteng, Africa do Sul. Ocorria, neste dia, um protesto pacífico organizado pelo PAC Congresso Pan-Africano contra a “Lei do Passe”, documento semelhante a um passaporte no qual constavam sua cor, etnia, profissão, situação na receita federal e que limitava o acesso aos bairros brancos da cidade. Não se podia sair de casa sem esse passe, tinha-se de carregá-los sempre e apresentá-los às autoridades sempre que solicitado. Caso não apresentassem o passe, eram sumariamente apreendidos.

    Neste período, a África do Sul vivia sob o regime do Apartheid (regime de segregação racial), e a Lei do Passe concedia à polícia o direito de prender quem fosse flagrado na rua sem a caderneta de identificação. A mesma Lei do Passe, antes, controlava os escravos. Com a instauração do regime de apartheid, passou a ser instrumento do governo contra os negros.

    No dia indicado para o protesto pacifico, os africanos aderiram em massa. A orientação do PAC era que toda população deveria deixar os passes em casa e comparecer às delegacias voluntariamente para se entregarem para ser presos. A ideia era superlotar as prisões e causar um colapso no país por ausência de mão-de-obra.

    Na ocasião compareceram por volta de 20 mil pessoas às portas do Distrito Policial de Sharpeville. Os cerca de 20 soldados presentes, no ímpeto de conter a multidão, abriram fogo sem nenhum aviso prévio. Manifestantes foram recebidos com rajadas de metralhadoras. Corpos caíam a esmo, enquanto a multidão tentava se proteger como podia. Os soldados continuaram atirando covardemente pelas costas dos manifestantes. Ao fim de alguns minutos tinha-se o saldo de 69 mortos e cerca de 180 feridos, incluindo mulheres e crianças.

    O massacre antecedeu uma sequência de manifestações pelo país e detonou uma guerra entre população civil e o Estado. Três dias depois, o governo baniu qualquer aglomeração pública em toda a África do Sul. Nenhum dos policiais foi condenado pelos crimes. Muito pouco mudou para os negros no período seguinte ao massacre, a caderneta continuou a existir, e só foi oficialmente extinta em 1986 e definitivamente substituída pela carteira de identidade, pelos idos dos anos 90.

    Esta tragédia ficou mundialmente conhecida como o Massacre de Sharpeville, e abriu os olhos do mundo para o regime segregacionista, cruel e racista que vivia a África do Sul. Por este motivo, desde 1976, o 21 de março é Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial em memória das vitimas de Sharpeville.

    As mesmas balas de Sharpeville ainda abatem os nossos jovens negros, aqui mesmo em nosso país e nos dias atuais.

    Em nosso estado, na cidade de Itambé/PE, na ultima sexta-feira, 17 de março de 2017, o jovem Edvaldo Alves, de 20 anos, foi baleado pela PM durante uma manifestação – pasmem – contra a violência alarmante e crescente em que Pernambuco está mergulhado. Além de ser covardemente alvejado, o jovem ainda foi agredido, arrastado e jogado na carroceria da caminhonete da PM. Caso este que nos remete a outro bem emblemático de violência policial, o de Cláudia Ferreira, também baleada pela policia, jogada na mala da viatura e arrastada pelo asfalto da cidade do Rio de janeiro.

    Podemos continuar citando casos infinitamente: Amarildo, Candelária, Diadema, os jovens do Cabula em Salvador/BA, o menino Mário do Ibura/Recife, Matheus do Vasco, Samambaia, Douglas (DG) – a lista é enorme. As mesmas balas racistas que massacraram Sharpeville 57 anos atrás, ainda nos matam e exterminam a vida de nossos jovens negros aqui, em Baltimore, em Ferguson, na África e em vários lugares do mundo.

    Além disso, o 21 de março de 2017 no Brasil, é ainda, um dia marcado por outro massacre para a classe trabalhadora, principalmente, o povo negro. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), põe em votação hoje um projeto que libera a terceirização em todos os setores das empresas. Terceirização tem raça e gênero: as mulheres negras são a maioria dos que trabalham sob este regime. Além de ser um ataque aos direitos historicamente conquistados pela classe trabalhadora, a terceirização representa um retrocesso sem precedentes nos nossos direitos.

    Os setores oprimidos, principalmente negros e negras, já são os principais afetados pelas precárias condições de trabalho e de vida. Esse projeto só tende a piorar ainda mais essas desigualdades e aumentar a exploração da população negra.

    Por essas razões, o massacre ocorrido em Sharpeville ainda nos é muito presente. E, neste sentido, para nós, combater a discriminação racial, ainda muito presente em nossas vidas, é imperioso e urgente. Ainda temos um longo caminho a percorrer – ainda vivemos um apartheid disfarçado de democracia burguesa todos os dias. Temos a impressão de que a luta contra o racismo ainda não superou o 21 de março de 1960. Que esta data nos sirva para reafirmar a esperança na luta do combate a toda forma de racismo. Reiteramos ainda que não tem como combater o racismo sem o combate sistemático do capitalismo, uma vez que, a destruição do capitalismo é fundamental para a superação do racismo. A luta diária contra todas as expressões do racismo precisa estar combinada à estratégia classista de derrubada do sistema capitalista e de seus governos, que nos impõem desigualdades através da exploração e opressão.

    Como bem afirmou Malcom X, Não há capitalismo sem racismo.
    Vidas negras importam!

    Registro da CBS sobre o Massacre de Sharpeville: https://www.youtube.com/watch?v=n2EvZ8cYcC8⁠⁠⁠⁠

    Imagem: Peter Magubane / Bailey’s African History Archive

     

  • 21 de março: vidas negras importam

    Por: Camila Lisboa, de São Paulo, SP

    Há exatos 57 anos, o mundo olhou para a África do Sul e indignou-se. O massacre de Shaperville matou 69 negros e negras e essa ação criminosa e racista escancarou o Apartheid e a forte discriminação racial no país.

    Em uma manifestação pacífica, 20 mil protestavam contra a Lei do Passe, essa lei obrigava que negros e negras sul-africanos andassem com um caderno que controlava os locais em que podiam circular. O objetivo desta lei era consolidar a forte segregação racial que tomou conta do país, imposta pela elite branca, que conduzia o país sob uma aberta perseguição à maioria negra.

    A dureza com que a polícia sul africana enfrentou o ataque foi repudiada internacionalmente e a opinião pública internacional passou a questionar e repudiar o estado de Apartheid instalado no país. Em 1969, a própria ONU oficializou o dia 21 de março como Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial, em alusão ao ocorrido em Shaperville.

    O racismo e o preconceito ainda é muito presente no país. Apesar de a lei do Apartheid ser obsoleta em termos legais, é verdade que ainda a África do Sul vive sob forte segregação racial, que diferencia fortemente a população branca da população negra, e a maior tradução são as diferenças sociais entre negros e brancos no país.

    Em 2012, uma forte greve dos trabalhadores mineiros de Marikana, na África do Sul, escancarou essas diferenças. E os combates mortíferos que a polícia travou contra a onda grevista, de mais de 600 mineiros, seguiu revelando que a cultura do Aparthied persiste na África do Sul.

    A luta internacional dos povos contra o racismo e a discriminação segue na ordem do dia. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sustenta um discurso de ódio contra povos e raças no mundo inteiro, colocando ao mundo inteiro a possibilidade de vários retrocessos no que diz respeito aos direitos de sobrevivência, o direito de existir com uma raça, uma etnia, um povo, uma religião.

    No Brasil, o racismo não se desenvolveu sob a forma da discriminação aberta, consolidou-se através de uma formação social que superexplorou a mão de obra escrava e criou o mito de que as diferenças entre negros e brancos não existiam, quando, na verdade, até hoje os negros e negras amargam as consequências sociais de séculos de escravidão e humilhação.

    Em um contexto de forte questionamento ao racismo, em que milhares foram às ruas nos Estados Unidos, dizer que Vidas Negras Importam, e que uma parcela importante do ativismo brasileiro se indigna com a atitude racista e estúpida de um segurança do Habibs que matou uma criança negra que pedia comida na porta do estabelecimento, a memória da indignação de Shaperville deve estar em nossas bandeiras, em nossas ações e em nossa luta.

  • Clara Zetkin representa todas as mulheres trabalhadoras no 8 de Março e nos 100 anos da Revolução Russa

    Por Zuleide Queiroz, de Juazeiro do Norte, CE

    Em uma agenda do Março Lilás, e a relação da luta das mulheres com os 100 anos da Revolução Russa, não podemos deixar de revisitar o pensamento da camarada Clara Zetkin. Foi assim que realizamos a segunda edição do “Café com Elas”, atividade integrante da agenda da Frente de Mulheres do Cariri, no mês de março de 2017, promovida pelas mulheres do MAIS – Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista.

    A convidada para falar sobre esta mulher, camarada, militante, “uma das fundadoras e dirigente do Socorro Vermelho Internacional, do Partido Comunista da Alemanha e da Internacional Socialista”, foi uma importante militante feminista da região Cariri cearense, a professora Claudia Rejane.

    Foi assim, no final da tarde do sábado, do dia 18, que mulheres e homens sentaram em uma pequena Praça na cidade de Juazeiro do Norte, interior do Ceará, embaixo de uma grande árvore e rodeadas por flores, que conhecemos e revisitamos, para quem já conhecia, a vida e o pensamento da camarada Clara Zetkin.

    Nascida em 1857 na Alemanha, podemos dizer que foi uma mulher situada em seu tempo e pensando no futuro das mulheres. Em 1878 integrando o círculo de estudantes revolucionários russos, se formou professora. Em 1889, militando no movimento socialista, criou o Jornal “A Igualdade” em seu retorno para a Alemanha, depois de anos de exílio.

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    Em 1910, juntamente com a camarada Alexandra Kollontai, durante a II Conferência Internacional das Socialistas, em Copenhage, propuseram a criação do Dia Internacional da Mulher “como uma jornada anual de manifestação pelo direito de voto das mulheres, pela igualdade dos sexos e pelo socialismo”.  Sendo o primeiro Dia Internacional da mulher comemorado em 19 de março de 1911, posteriormente transferido para o dia 8 de março.

    Em 1915, organizou a Conferência Internacional Socialista das Mulheres, em Berna, momento em que mulheres dos países envolvidos na primeira guerra mundial declararam “guerra a guerra”. Foi eleita deputada na Alemanha no período de 1919–33, sendo presa no mesmo período em que assistiu a morte de Rosa Luxemburgo, sua companheira de luta e de partido.

    Sua principal tese para compreensão da luta feminista da atualidade foi esclarecer que existia uma “imensa diferença entre os participantes do movimento feminino proletário e as feministas burguesas”. Anunciava que a luta pelo voto das mulheres nos unia, mas a situação de exploração vivida pela classe trabalhadora em uma sociedade capitalista diferenciava o lugar e a pauta de luta das mulheres trabalhadoras, que neste contexto eram exploradas pelas mulheres burguesas, como domésticas, como babás, como trabalharas das fábricas dos seus maridos.

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    Fundou, neste contexto, o que podemos chamar de “Feminismo Operário”, convocando as mulheres trabalhadoras a construirem o socialismo internacional e, principalmente a lutar, dentro do movimento dos trabalhadores para que a mulher tivesse seu espaço na política, na luta e na construção da sociedade livre para homens e mulheres. E anunciava que: “Apenas junto com as mulheres proletárias o socialismo será vitorioso”. Afirmou que só teremos igualdade quando um trabalhador disser: “Minha esposa!”, significando: “camarada de meus ideais, companheira em minhas batalhas e mãe dos meus filhos, para as futuras batalhas”.

    Esta mulher recebeu, em 1927, a honraria “Ordem do Estandarte Vermelho” e em 1932, a “Ordem de Lenin”, por seu destaque na educação das crianças e jovens. Sempre estudou a vida das mulheres na vida privada e pública. Discutia com as mulheres sobre sua situação de vida, de trabalho, sua sexualidade, sua relação com a família e seus companheiros. Muitas vezes debateu com Lenin e outros camaradas em defesa do direito da mulher e seu lugar no Partido. Esta mulher morreu aos 75 anos, sem nunca arredar o pé da luta em defesa das mulheres e sua inserção na construção de uma sociedade socialista.

    Sua fala, para nós, mulheres trabalhadoras, ainda é atual. Poderia sentar-se conosco hoje, falando para as mulheres do século XXI que lutam para ter o direito a vida, ao trabalho, a política e a ser livre!

    Se hoje conquistamos espaço na sociedade atual e podemos nos reunir em praças, nas escolas, em se reconhecer mulher, negra, indígena, lésbica e trabalhadora, reconhecemos que Clara Zetkin, Alexandra Kollontai, Rosa Luxemburgo e muitas, ao longo da história, ainda vivem no nosso pensamento, na nossa fala e na nossa luta!

    Fotos: Edson Xavier.

     

  • 15M no RIO: Feministas organizam creche socialista para pais e mães participarem do ato contra a reforma da previdência

    Por Anna Carolina e Patricia Vale, do Rio de Janeiro, RJ

    A força do 8M tem impulsionado as mulheres a buscarem unidade feminista para seguir nas ruas lutando contra o governo Temer e sua bizarra reforma da previdência. As mulheres que são mães representam parte desta força! Ter slings, “cangurus”, carrinhos e crianças nos ombros em manifestações, já é uma característica do ativismo aqui no Rio. E como é revolucionária a participação das mães com suas crianças nos atos! É a recusa da submissão ao lugar que o machismo reservou a maternidade. É a mulherada se auto organizando pra romper o conservadorismo e mostrar que lugar de mãe é na luta!

    Neste 15 de março, quando trabalhadoras do Brasil inteiro foram para as ruas gritar Fora Temer e resistir a implementação da Reforma da Previdência, aqui no Rio, as mulheres mostraram que feminismo é revolução, garantindo uma creche socialista! As feministas deste estrondoso 8M se organizaram e estão fazendo história com essa iniciativa, que significa uma mudança de padrões, muito além do 8M ou do 15M.

    Durante o ato, mais de 50 crianças – que antes não se conheciam – ficaram sob os cuidados de profissionais e ativistas do movimento feminista, segurança e conforto que garantiram a participação de mães e pais nas ruas, lutando.

    Na creche, crianças de diferentes idades lancharam, leram livros, jogaram, confeccionaram cartazes e desenhos conectados com a luta das ruas e ficaram muito felizes neste espaço coletivo!

    Que daqui por diante, as atividades dos movimentos sociais, sindical e estudantil sejam influenciadas por este maravilhoso exemplo e as necessidades das mulheres não sejam mais ignoradas. Que essa creche socialista nos fortaleça para acreditar que não temos nada a temer! Que juntas somos mais e que podemos arrancar alegria ao futuro!

  • O efeito da Reforma da Previdência nas mulheres

    Por Karen Capelesso e Eric Gil, de Curitiba, PR

    Os efeitos negativos da Reforma da Previdência (PEC 287) atingirão a todos os trabalhadores. Piorarão as vidas de homens e mulheres, operários e agricultores, jovens e idosos. No entanto, as mulheres estarão entre os setores mais prejudicados com essa reforma. Não é a toa que os atos do 08 de março, dia internacional da mulher, teve com uma das pautas centrais nas manifestações de norte a sul do país a defesa do direito a aposentadoria.

    Primeiramente temos que, segundo o Anuário Estatístico da Previdência Social de 2015 (a edição mais recente, disponível no site da Previdência), os benefícios pagos para homens representaram 50,8% da quantidade e 57,7% do valor total, o que fez com que o valor médio masculinos fosse 32% maior do que o feminino, respectivamente R$ 1.260,41 e R$ 954,78.

    Além disto, segundo o IBGE, no 4º trimestre de 2016, a taxa de desemprego foi de 10,7% para os homens e 13,8% para as mulheres, sendo a taxa total para este período de 12%. Ou seja, as mulheres sofrem mais com o desemprego do que os homens e isso tem uma relação direta com a questão da previdência, pois quanto maior o tempo de desemprego, mais tempo elas ficam sem contribuir o que leva elas demorem mais para conseguir o tempo de serviço necessário para aposentadoria.

    Em terceiro lugar, temos que a mulher trabalha muito mais do que o homem. Pesquisa do Ipea – a partir de dados da Pnad, do IBGE – demonstrou que as mulheres, por conta da dupla jornada, trabalhavam 7,5h a mais do que os homens por semana. Bem, vamos fazer alguns cálculos simples. Considerando 7,5h a mais por semana, teríamos que em 11 meses (considerando um mês de férias, que nem sempre é verdade), então um ano de trabalho, as mulheres trabalhariam 359,5h a mais do que os homens. Considerando isto, em 49 anos de contribuição previdenciária (que será o mínimo para ganhar a integralidade), a mulher teria trabalhado 17,6 mil horas a mais do que os homens. Isto equivale a 2.202 dias a mais de jornada de trabalho (de 8h diárias e de 5 dias por semana), o que quer dizer que a mulher teve 3,06 anos a mais de trabalho do que o homem. Além disto, temos que considerar que o trabalho é mais intenso, pois é feito em um espaço de tempo menor, o que deteriora ainda mais o corpo e a mente de qualquer ser humano.

    A combinação da opressão machista e da exploração capitalista torna a vida da mulher trabalhadora ainda mais dura. Portanto, ataques como a reforma da previdência, que praticamente acaba com o direito da aposentadoria para todos trabalhadores, para as mulheres é muito mais grave. Se no 08 de março milhares de mulheres foram as ruas, no dia 15 retornarão com o recado em alto e bom som: Aposentadoria fica, Temer sai!

     

  • 15 de março: Pela vida das mulheres e para derrotar as Reformas de Temer!

    Por Silvia Ferraro, Colunista do Esquerda Online

    Rosângela, 35 anos. Trabalha na colheita da laranja desde os 14 no interior do estado de São Paulo, mas só passou a contribuir com a previdência a partir dos 20. Tem 3 filhos pequenos, o mais novo tem 2 anos. Rosângela é casada com Pedro, também trabalhador rural. Provavelmente Pedro irá falecer antes de Rosângela. A expectativa de vida dos trabalhadores rurais é mais baixa do que dos trabalhadores urbanos, pelas mais penosas rotinas de trabalho e condições de vida. Pelas novas regras do projeto da Reforma da Previdência, Rosângela se aposentará aos 65 anos e quando isso acontecer, irá perder o benefício que recebia pelo falecimento do seu marido. Rosângela morrerá aos 70, terá trabalhado 51 anos e terá direito a apenas 5 anos de aposentadoria e ainda não será com o salário integral, pois não completou 49 anos de contribuição.

    Patrícia é uma jovem professora em Belo Horizonte. Começou a lecionar aos 23 anos. E agora está com 30 e já teve sua primeira filha. Patrícia leciona em dois empregos para sustentar a família, pois seu companheiro metalúrgico, faz parte dos 12 milhões de pessoas desempregadas no Brasil. Patrícia, que iria se aposentar aos 55 anos, agora só conseguirá se aposentar aos 65. Irá trabalhar 10 anos a mais e mesmo assim não conseguirá que seja com o salário integral, pois ao todo terá contribuído por 42 anos e não 49. Patrícia, apesar de ter trabalhado toda a sua vida em dois cargos como professora e contribuído pelos dois, só irá conseguir se aposentar em um único cargo.

    Júlia, 18 anos. Trabalha como vendedora no Rio de Janeiro. Conseguiu uma bolsa para cursar faculdade à noite pois seu sonho é ser professora de crianças. Mas Júlia engravidou e com a filha pequena, teve que deixar a faculdade. Júlia vai trabalhar a vida toda como vendedora, e ficará desempregada em vários momentos, pois é um emprego com muita rotatividade. Júlia só vai conseguir se aposentar aos 65 anos, mas vai receber apenas 70% do seu salário pois só contribuiu por 40 anos ao todo.

    Dolores, 44 anos. Mora na Cidade Tiradentes, zona leste de SP. Ela é diarista, não consegue emprego formal. A expectativa de vida para as pessoas que moram na cidade Tiradentes é de 54 anos. Dolores começou a pagar o INSS como autônoma para ter direito a aposentadoria por idade quando completar 60 anos. Com as novas regras da Reforma, Dolores só conseguirá se aposentar aos 70, mas o seu benefício não chegará a um salário mínimo, pois o BCP (Benefício de Proteção Continuada) será desvinculado do valor do salário mínimo. Dolores se aposentará aos 70, recebendo 500,00, mas morrerá aos 71. Sua neta, de 10 anos que morava com ela, terá que ir morar com uma tia no Maranhão, terra natal de Dolores.

    Michel Temer, 76 anos, filho de cafeicultor, se aposentou aos 55 anos pelos cargos políticos que ocupou, recebendo o “benefício” de 30 mil reais. Sua proposta de Reforma da Previdência vai retirar de 5 a 15 anos de aposentadoria das mulheres trabalhadoras rurais e empregadas domésticas, em sua imensa maioria mulheres negras, que trabalham desde muito pequenas. As mulheres trabalhadoras, que já recebem em média 30% a menos do que os homens, e trabalham 8 horas a mais por semana, estão recebendo o maior ataque a um direito histórico de gênero. Além disso, Temer, no 08 de março, disse que o lugar das mulheres é fazendo compra nos supermercados e cuidando do lar.

    Por todas as Dolores, marcharemos dia 15, para derrotar as Reformas de Temer!

  • Cinco anos sem Domitila Chungara: líder do movimento de mulheres que impulsionou queda da ditadura boliviana

    Por: Tais Zapalla, de São Paulo, SP

    Há cinco anos, morria Domitila Chungara, a líder de um dos movimentos de mulheres mais importantes e inspiradores do século XX. Domitila organizou centenas de donas de casa mineiras na Bolívia, durante a ditadura militar, após ser torturada grávida até perder seu filho pela mão dos militares.

    Em 1977, quatro donas de casas bolivianas começaram uma greve de fome para exigir eleições gerais e anistia política aos exilados. Milhares de bolivianos se somaram ao movimento liderado por Chungara, até derrubarem o governo ditatorial de Hugo Bánzer. Historiadores afirmam que este movimento foi o principal pressionador para que a ditadura fosse derrotada anos depois.

    A líder feminina de um dos principais movimentos contra ditadura da segunda metade do século XX tinha muita convicção do papel das mulheres dona-de-casa e esposas dos mineiros. Ela sabia que o trabalho doméstico que realizavam era uma extensão do trabalho que seus maridos faziam nas minas, e que igualmente estavam sendo exploradas ao, através daquele trabalho não pago, criar as condições para que seu companheiros e filhos voltassem às minas no dia seguinte. Também por isso, afirmava que os homens não eram seus inimigos, mas sim os governos e aqueles que exploram.

    Domitila foi mais uma mulher, ainda que não por sua vontade, mas porque a vida lhe obrigou, que precisou da força.
    A força que ela usou não foi a violência criminosa que muitas mulheres, nos governos ou a serviço dos grandes grupos financeiros, utilizam. A força de Domitila nasceu para que pudesse suportar as privações que uma Bolívia mineira lhe impôs.

    Sua força veio da crença que as mulheres, donas de casa bolivianas, tinham tanto ou mais a reivindicar que seus maridos, os mineiros. Que era preciso unir homens e mulheres trabalhadoras, camponeses, operários, que era preciso se organizar. A força de Domitila era sua marca. O movimento que organizou, a imensa luta contra a ditadura e a exploração não morreram consigo, permanecem acesos nos corações e mentes daqueles que acreditam que é possível ter um sonho e que, sobretudo, podemos realizá-lo.

    Domitila explica, no silêncio de sua morte, por que mulheres são fortes.
    Domitila, presente!

    Foto: Source: http://www.comibol.gob.bo/noticia/201-A_la_memoria_revolucionaria_de_Domitila_Chungara

  • Mulheres apontam o caminho

     

    Por Silvia Ferraro

    Um 08 de março como há muito tempo não víamos. Acho realmente que as mulheres deram uma lição aos movimentos sociais no processo de construção deste 8M. Primeiro porque partiu de um chamado internacional. Mais de um milhão de mulheres nos EUA um dia depois da posse de Trump, levou a que feministas históricas e combativas, tendo à frente Ângela Davis, escrevessem um manifesto inspirador para mulheres ativistas de vários países que aderiram prontamente à convocação.

    O caráter internacional deste chamado estava calcado em processos recentes de luta feminista pelo mundo, como as massivas manifestações contra o feminicídio do “Ni Una a Menos” na Argentina, a greve vitoriosa de mulheres na Polônia contra a criminalização do aborto e a Marcha de Mulheres contra Trump.

    Porém, o manifesto foi muito além, e cumpriu o papel de questionar o próprio feminismo liberal de Hilary Clinton quando afirmou que “não basta se opor a Trump e suas políticas agressivamente misóginas, homofóbicas, transfóbicas e racistas. Também precisamos alvejar o ataque neoliberal em curso sobre os direitos sociais e trabalhistas”. O chamado cumpriu o papel de unir a luta anti-racista com a luta anti-imperialista e a luta anti-heterossexista com a luta anti-neoliberal, e colocou o feminismo anti-capitalista em cena, fazendo a conexão da luta de gênero, raça e classe.

    Greve de Mulheres?

    Um dos instrumentos deste 8M foi, para além das manifestações de rua, que as mulheres paralisassem suas atividades profissionais. Esta foi uma política ousada e talvez mais simbólica do que efetiva. Não houve nenhum país ou nem mesmo estados inteiros em que se concretizou uma greve de mulheres. Em algumas categorias profissionais, compostas majoritariamente por mulheres, conseguiu-se organização suficiente para parar de forma coletiva, como foi o caso das professoras da Virgínia e de Maryland nos EUA, ou as professoras aqui do Estado e da prefeitura de São Paulo. Ou então, em alguns casos raros, estabelecimentos nos EUA em que a dona “liberou” as mulheres que quisessem aderir ao movimento, se é que podemos chamar isso de greve.

    Mas é muito difícil que as mulheres individualmente decidam não ir trabalhar como forma de protesto. A opressão às mulheres é muito forte no trabalho, com assédio moral e muitas vezes sem direitos trabalhistas. As mulheres estão na maioria dos postos de trabalho precários e desafiar isso individualmente significa a demissão.  Por isso não tem como existir uma greve de mulheres sem existir uma organização sindical que a convoque e a greve acabou tendo um caráter mais simbólico do que concreto, com exceções onde existiu uma organização coletiva.

    No Brasil, um 8M contra a Reforma da Previdência

    Atender ao chamado internacional de lutar contra os ataques neoliberais significava aqui no Brasil, colocar o movimento de mulheres nas ruas contra a Reforma da Previdência proposta por Temer. Esta reforma irá acabar com um direito histórico das mulheres que era se aposentar com 5 anos a menos do que os homens. Comprovadamente as mulheres trabalhadoras brasileiras trabalham 8 horas a mais por semana do que os homens, devido ao peso do trabalho doméstico. Se a Reforma passar, será o maior ataque aos direitos das mulheres já visto. Por isso, foi corretíssimo que na maioria dos locais o eixo da mobilização fosse contra a Reforma da Previdência do golpista Temer.

    Em São Paulo, a manifestação que reuniu a maioria das organizações de mulheres na Praça da Sé, teve como eixo “Aposentadoria fica, Temer sai. Paramos pela vida das mulheres”. A Marcha das mulheres em São Paulo também se unificou com as passeatas de professores tanto da rede estadual quanto municipal que paralisaram no dia, reunindo mais de 20 mil mulheres.

    Não existe possibilidade de derrotarmos a Reforma da Previdência e também os projetos de flexibilização da legislação trabalhista sem a máxima unidade de todos os movimentos. Não existe espaço para posturas divisionistas. Por isso os atos unitários e a unificação com as categorias foi uma demonstração madura do movimento de mulheres de que a luta das mulheres hoje no Brasil passa pela luta unificada com o conjunto dos explorados e oprimidos em uma só luta para derrotar os ataques neoliberais como convocava o manifesto de Ângela Davis.

    Ao mesmo tempo, o movimento sindical tradicional há que reconhecer que a marca das mulheres nos atos deste dia 08 foi essencial para serem vitoriosos. Manifestações mais horizontais, um verdadeiro encontro de inúmeros coletivos e agrupamentos feministas, com suas baterias e megafones circulando, com as mulheres negras, indígenas e LGBT’s à frente, sem o peso sufocante dos grandes aparatos burocráticos, deve indicar que é necessário que o movimento sindical também repense suas práticas se quiser ter uma participação maior das mulheres nas próximas manifestações contra a reforma da previdência, como a que está marcada para este dia 15.

    O machismo mata, e o feminismo que liberta é aquele que não abaixa a cabeça para o capital!

    Mas dentro da unidade necessária, as frentes e blocos de esquerda também tiveram papel fundamental. Assim como o feminismo liberal de Hilary Clinton não é saída para as mulheres norte-americanas, aqui no Brasil, ter tido uma mulher na presidência que ficou refém da conciliação de classes com os banqueiros, com os grandes empresários e o agronegócio, assim como as alianças com as bancadas fundamentalistas no congresso nacional, demonstrou que esta não pode ser a saída para as mulheres trabalhadoras, negras, indígenas e LGBTs brasileiras. Por isso, experiências como o lançamento da Frente Feminista de Esquerda em São Paulo, provam de que existe espaço real para traçarmos uma estratégia de independência de classes e anticapitalista para o movimento feminista no Brasil.

  • Sobre o 8M em Natal, RN

    Por: Luana Soares e Rielda Alves, de Natal, RN

    As imagens dos atos do 8 de março do mundo inteiro estão colorindo as redes sociais e enchendo nossos olhos de esperança. Diante da crise econômica mundial, de grandes ataques aos trabalhadores e, em especial, aos setores oprimidos, as mulheres tomam em suas próprias mãos a tarefa da luta contra os planos econômicos de austeridade dos governos, acompanhados do aumento de posições e alternativas conservadoras e reacionárias. Milhares foram às ruas nos Estados Unidos, na Argentina, no Uruguai e na Europa, em uma histórica ação coordenada de mulheres.

    No Brasil, as imagens também nos enchem os olhos. Enquanto no Palácio do Planalto o presidente ilegítimo deixava escapar todo o seu machismo em frases que remetem ao papel da mulher no trabalho doméstico, as mulheres na rua mostraram que toparam a parada e nem uma está sozinha. Em São Paulo, em Brasília, no Rio de Janeiro, Salvador e Fortaleza foram alguns dos maiores atos, com lindas imagens. Provamos novamente que é possível resistir ao pacote de maldades do governo e dos deputados corruptos.

    Na maioria dos locais, só foi possível termos imagens assim porque os movimentos, coletivos de mulheres e partidos e organizações da nossa classe construíram atos unitários, tendo como pautas centrais o combate à violência e à Reforma da Previdência de Temer. 

    O 8M em Natal
    Em Natal a organização do 8 de março começou com antecedência, com diversas organizações e movimentos que, apesar das divergências, buscavam construir a luta nas ruas contra a Reforma da Previdência, em defesa dos direitos das mulheres. Apesar disso, infelizmente, não foi possível construir um único ato em Natal. Acabaram sendo convocados dois atos com o mesmo tema e com horários diferentes, contrariando a dinâmica de unidade que deu o tom em outros atos pelo país a fora.

    Consideramos um equívoco que o movimento de mulheres tenha se dividido, justamente num período duro de contrarreformas trabalhistas, previdenciária e políticas, que representa um retrocesso de muitos direitos conquistados pelas trabalhadoras e trabalhadores. O momento exigia a mais ampla unidade contra tudo isso. Essa é a maior tarefa para a esquerda. O ato convocado para a manhã foi plural, construído por diferentes entidades sindicais, movimentos sociais, coletivos autonomistas, movimento pela humanização do parto, partidos políticos e mandatos. O ato da tarde tinha o mesmo caráter e mesma pauta, mas, de forma precipitada e equivocada, foi marcado e anunciado como um evento apenas da Frente Brasil Popular.

    Diante do caminho da divisão, nós, mulheres do MAIS, juntamente com companheiras da LSR, tivemos a iniciativa de escrevermos uma carta para a Frente Brasil Popular, em nome destas organizações, propondo que o ato passasse a ter uma convocação mais ampla, para além das organizações que compõem a FBP, e que fossem incorporadas as organizações que se dispusessem a fazê-la, que fosse aberta para que qualquer organização pudesse intervir, fazerem falas, levarem seus materiais de agitação, mesmo que isso implicasse na exposição das divergências políticas.

    Foi um chamado sincero, de quem acreditava de que era possível ainda resgatar a unidade e, assim como dezenas de ativistas da cidade, se recusava a aceitar uma divisão em um momento como esse. A FBP respondeu positivamente a nossa proposta, chegando, inclusive, a modificar a convocação e organização do ato, que passaram a ser feitos pelos “Movimentos de mulheres do campo e da cidade”. Um passo importante das companheiras e que possibilitaria a participação e a convocação por parte de outros setores, inclusive do conjunto da CSP-Conlutas.

    Nós participamos e convocamos os dois atos, sendo consequentes na busca da unidade para lutar. Não encontramos motivos para não participarmos e estivemos presentes nas ruas de Natal o dia inteiro fortalecendo a luta contra a Reforma, Michel Temer e em defesa das mulheres, da mesma forma que muitas companheiras.

    O 8 de março em Natal deve servir como um exemplo a não se repetir no dia 15. Se depender do MAIS, organização da qual as duas autoras do texto fazem parte, estaremos todos juntos ocupando as ruas de Natal, num grande ato com os movimentos sociais, centrais sindicais, partidos de esquerda, construindo a paralisação nacional contra as reformas do governo.

  • Mais de quinze mil participam de ato unitário do 8 de março, no Rio

    Da Redação

    Nesta quarta-feira,  mais de 15 mil pessoas participaram de uma histórica manifestação unitária do 8 de março, Da Internacional da Mulher, no Rio de Janeiro. Entidades, coletivos, movimentos sociais somaram ao chamado internacional e levantaram as bandeiras contra a Reforma da Previdência, por Nem Uma a Menos, pelo Fora Temer e várias outras pautas estampadas em cartazes, faixas, vozes. Com concentração na Candelária, saíram em caminhada até a Praça XV, onde fecharam o dia com intervenções artísticas protagonizadas por mulheres.

    8 março

    Concentração na Candelária

    Desde a concentração, às 16h, era possível ver a diversidade e riqueza do que seria a manifestação. Enquanto mulheres falavam no carro de som, aconteciam oficinas de confecção de materiais, da bateria unitária, um espaço era organizado para as filhas e filhos, chamadas crias. Falaram os partidos de esquerda, movimentos de mulheres, sem terras, trabalhadora da Cedae, entre outras representações, como as Hermanas, mulheres latinas que marcaram o caráter internacionalista da manifestação.

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    Petroleiras realizaram atividade no prédio da Petrobras como parte do Dia Internacional da Mulher

    Aos poucos, todo o espaço em frente à Candelária foi sendo tomado por quem vinha chegando. Muitas mulheres já tinham realizado ações em seus locais de trabalho e estudo, que chegaram a reunir centenas durante todo o dia, a exemplo de petroleiras, bancárias, estudantes da UERJ e UFRJ, que organizaram atividades e depois se somaram ao ato. Algumas vinham das cidades vizinhas, como as mulheres de Niterói, que marcaram concentração no município e vieram conjuntamente para se somar à atividade no Rio.

    Às 18h, era hora de sair em caminhada. À frente, as mães e as crianças envoltas por um gigante cordão humano, para que pudessem participar com tranquilidade. Logo em seguida, uma bateria só de mulheres e cheia de garra construída de forma unitária. Músicas, palavras de ordem criativas e políticas eram entoadas e davam o ritmo do ato. Atrás, centenas de mulheres, trans, gays, lésbicas, negras, homens levantaram suas mais diversas bandeiras relacionadas às lutas das mulheres.

    Durante o ato foi lido o manifesto das mulheres que construiu o 8 de março no Rio. “Hoje, neste histórico 8 de março, nós paramos nossas atividades e ocupamos as ruas da nossa cidade. Olhamos para os lados e nos reconhecemos umas nas outras. Não somos dez, não somos cem, não somos mil. Somos mais! Somos muitas! Somos aquelas que mantemos vivas as lutas das nossas mães, das nossas avós, das operárias russas que iniciaram uma revolução há um século. Nós Paramos para manifestar nossa indignação com o sofrimento causado pela violência machista que mata a nós, nossas filhas e irmãs, contra o assassinato de nossas irmãs negras e LGBTs, contra toda desigualdade a que estamos submetidas no trabalho, nas ruas e em casa, contra a Reforma da Previdência e Trabalhista e todo o retrocesso promovido pelos governos e parlamentos conservadores”, iniciava o texto.

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    Grupo Maria Vem com as Outras

    Ao chegar na Praça XV, diversos grupos culturais de mulheres finalizaram a manifestação com mais criatividade e luta. Os últimos a tocar foram o bloco feminista Maria Vem com a Outras, com músicas de Elza Soares e outros temas que retratam a luta das mulheres e o Maracatu Baque Mulher. Um grande círculo foi formado na Praça com a música popular de letra “Companheira me ajude, que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”, seguida do grito geral de “Fora Temer”.

     

    Abaixo, na íntegra, o manifesto das mulheres para o 8 de março no Rio de Janeiro

    MANIFESTO 8 DE MARÇO DE 2017

    Rio de Janeiro

    Hoje, neste histórico 8 de março, nós paramos nossas atividades e ocupamos as ruas da nossa cidade. Olhamos para os lados e nos reconhecemos umas nas outras. Não somos dez, não somos cem, não somos mil. Somos mais! Somos muitas! Somos aquelas que mantemos vivas as lutas das nossas mães, das nossas avós, das operárias russas que iniciaram uma revolução há um século!

    Nós Paramos para manifestar nossa indignação com o sofrimento causado pela violência machista que mata a nós, nossas filhas e irmãs, contra o assassinato de nossas irmãs negras e LGBTs, contra toda desigualdade a que estamos submetidas no trabalho, nas ruas e em casa, contra a Reforma da Previdência e Trabalhista e todo o retrocesso promovido pelos governos e parlamentos conservadores.

    Nós paramos para denunciar o quanto o capitalismo produz desigualdades econômicas e sociais das quais nós, mulheres, somos as maiores vítimas. Somos aquelas que sofrem mais com o desemprego, com o trabalho precarizado, informal, inseguro, pouco protegido pela lei e com os menores salários. Apesar de cada vez mais acumularmos a função de chefes de família, recebemos, em média 25% a menos que os homens, mesmo ocupando os mesmos cargos.

    Nós paramos contra a desigual divisão das tarefas domésticas e por elas não serem reconhecidas como trabalho – por conta disso, nós mulheres trabalhamos, por semana, 7,5 horas a mais que os homens. Lutamos por creches e serviços públicos de qualidade que nos permitam trabalhar, estudar e viver.

    Nós paramos contra toda violência machista que tem no feminicídio (assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher) sua expressão mais brutal. O Brasil ocupa hoje a vergonhosa quinta posição na quantidade de homicídios de mulheres, em um ranking com 83 países. Lembramos daquelas que hoje estão ausentes, vítimas dessa verdadeira barbárie. São Elisas, Eloás, Amandas, Claudias, Dandaras, Anas, Carolines e muitas outras, infelizmente.

    Nós paramos porque não aceitaremos “nem uma a menos!”.
    Nós paramos porque “vivas nos queremos! “.
    Nós paramos contra a cultura do estupro, que ameaça a integridade física e psicológica de meninas e mulheres e contra a ideia de que a vítima é culpada pela violência que sofre. Lutamos contra o papel da mídia na sexualização das meninas e na transformação dos nossos corpos em mercadoria e objetos.

    Nós paramos porque para nós, mulheres negras, as violências de gênero e de raça se combinam para nos discriminar e nos oprimir ainda mais. Lutar contra o machismo e o racismo é vital e necessário. Combatemos os estereótipos construídos por uma sociedade racista, sexista e misógina que massacra as mulheres negras com o seu padrão de beleza europeizado e que, por outro lado, insiste em ver nossos corpos como objeto e coisificação. Perdemos nossos filhos pela violência do Estado, pela ausência de políticas sociais para a população negra e fruto da violência policial, que reproduz o racismo e a criminalização da pobreza.

    Nós paramos por Dandara e por todas as mulheres trans que sofrem cotidianamente com a violência transfóbica, que as mata e marginaliza. Dados da agência de pesquisa Transgender Europe mostram que no ano de 2016, 144 travestis e transexuais foram assassinadas no Brasil. No ano de 2015 foram cerca de 123. Estes números, no entanto, são apenas a ponta do iceberg já que se trata apenas de dados noticiados na imprensa. Mesmo assim, tornam o Brasil o país que de longe mais mata mulheres trans e é responsável por metade de todos os assassinatos de pessoas trans do planeta.

    Nós paramos por todas as mulheres lésbicas e bissexuais, que são vítimas da violência, dos estupros corretivos e da invisibilidade a que são condenadas suas demandas e necessidades.

    Nós paramos pela legalização do aborto, para que tenhamos o direito de decidir sobre nossos corpos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 1 milhão de mulheres no Brasil se submetem a abortos clandestinos anualmente. A cada dois dias, uma mulher morre no país, vítima de aborto clandestino. A maioria das vítimas é de mulheres pobres que não têm dinheiro para pagar clínicas clandestinas caras e acabam utilizando métodos inseguros. Somente com o aborto legal, seguro e gratuito, garantido pelo SUS, é possível mudar essa bárbara realidade.

    É pela vida das mulheres!

    Nós paramos para que as mulheres sejam livres para escolher se querem ou não ser mães. A maternidade é uma escolha e não uma obrigação ou um destino das mulheres. Que aquelas que desejam, tenham direito a um parto respeitoso e seguro, sem violência obstétrica. E que o Estado garanta educação e saúde públicas, gratuitas e de qualidade, para que todas possam criar e educar seus filhos.

    Nós paramos por justiça ambiental e contra a ganância capitalista que nos rouba e esgota os recursos naturais fundamentais à vida. Lutamos pela soberania alimentar dos povos e em defesa do território, da história e memória das populações caiçaras, indígenas e quilombolas.

    Nós paramos pelos direitos da Natureza, com as espécies, rios e florestas que a integram, porque somos parte dela.
    Nós paramos contra as fronteiras, contra todos os muros que queiram construir no México, na Palestina, na Europa e em cada uma de nossas cidades e países, onde os muros sãos os muros da desigualdade, da pobreza e da exclusão social.

    Nós paramos porque como imigrantes continuamos sendo consideradas cidadãs de segunda, cumprindo as tarefas mais precarizadas, em condição de intensa exploração e sem reconhecimento do nosso direito e o de nossas famílias de migrar e residir onde quisermos.

    Nós paramos aqui, na Guatemala, na Colômbia, em Honduras, na Argentina, em Puerto Rico, na Venezuela, no Chile, no México, no Equador, em Cuba, na Costa Rica, no Panamá, em muitos lugares da América Latina e do mundo! Nós paramos certas de que a América Latina vai ser toda feminista!

    Nós paramos contra o projeto “escola sem partido” e contra o avanço do conservadorismo que tenta nos impor um lugar de submissão, sem voz e sem direitos. A nova “caça às bruxas”, que agora persegue o que nomeia como “ideologia de gênero”, tenta justamente combater e neutralizar nossa força e quebrar nossa vontade. Resistiremos! Não permitiremos!

    Nós paramos contra as medidas de ajuste fiscal que os governos tentam nos impor, com a intenção de que paguemos a conta de uma crise econômica que não é responsabilidade nossa.

    Nós paramos hoje, em especial, contra a Reforma da Previdência machista do governo Temer, que tenta nos impor a igualdade de idade e tempo de aposentadoria com os homens sem que avancemos na igualdade na divisão do trabalho doméstico e dos cuidados com a família.

    Nós paramos pelo FORA TEMER!
    Nós paramos em defesa dos serviços públicos estaduais, sucateados pelos seguidos governos corruptos. Marchamos pelo nosso direito à água e contra a privatização da CEDAE! O acesso à água está ligado ao direito fundamental à vida. Sabemos que a lógica privada do lucro é incompatível com a universalização de qualquer direito. A água é nossa! A CEDAE é nossa! Nós paramos pelo FORA PEZÃO!

    Nós paramos inspiradas pelas tecelãs russas, que há 100 anos iniciaram uma greve que se transformou no estopim de uma revolução que pela primeira vez na história da humanidade libertou trabalhadoras e trabalhadores da exploração e da opressão. Aquela experiência levou a avanços históricos para as mulheres e mudou a nossa condição para sempre.

    Estamos aqui, mais unidas do que nunca, fazendo do tempo presente a ferramenta para a construção de um novo futuro, sem opressão e sem exploração!
    É só o começo!

    Foto: Mídia NINJA