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  • A noventa anos do suicídio de Adolf Joffé, dirigente da Oposição de Esquerda na antiga URSS

    Nesta semana, no dia 16, cumpriram-se 90 anos do suicídio de, Adolf Joffé,  um dos mais notáveis dirigentes do partido bolchevique e da revolução russa e depois da Oposição de Esquerda ligada a Leon Trotsky. Impedido por Stalin de fazer um tratamento de grave doença no exterior, o que o condenaria à morte lenta e terrível, resolveu fazer um gesto supremo unindo o sacrifício pessoal a um grito de alerta sobre a degeneração galopante da revolução russa que agora completa 100 anos. A pessoa, as ideias, a dedicação e inteligência de Joffe e seu último grito de angústia merecem ser conhecidos pelas gerações mais jovens que lutam contra o capital. Publicamos abaixo uma nota de Charles Udry, publicada no site Alencontre. Na publicação do site suíço constam dois textos de Joffé, dos quais divulgamos o segundo, a sua carta de despedida a Leon Trotsky antes de seu suicídio. (Editoria Internacional)

    Adolf Abramovitch Joffé nasceu em 10 de outubro de 1883 em Sebastopol, na Criméia, no Império russo. Já na escola secundária, adere aos social-democratas russos e, formalmente ao Partido operário social-democrata russo (POSDR, criado em 1898) em 1903.  Em 1904, é enviado a Baku no Azerbaijão, uma região petrolífera tornada capital operária. Caçado pela Okhrana, a polícia tsarista, Joffé foge e retorna a Moscou e em seguida parte no exílio. Retorna a Moscou nos inícios da revolução de 1905 para logo retornar ao exílio. Em 1906, é forçado pelas autoridades alemãs a partir do território e vai assim à Áustria  onde estuda medicina e se liga a Alfred Adler, um dos pioneiros da psicanálise. Colabora com Trotsky entre 1908 e 1912 para editar o jornal Pravda e ajudá-lo financeiramente, graças à sua família que dispunha de recursos. Seu nome de guerra, obrigatório diante da repressão do regime tsarista, se refere à sua origem: “O Crimeano” (V. Krimski). Em 1912, é preso durante 10 meses quando em visita a Odessa e em seguida “enviado” à Sibéria. O perfil de Joffé constitui exemplo da trajetória e da formação de uma “diáspora revolucionária” que se opunha, pela sua experiência e conhecimentos, à massa dos militantes da IIª Internacional, mesmo se seus militantes eram pouco numerosos e enfrentaram problemas complexos e numerosas dificuldades à partir de fevereiro 1917.

    Liberado, Joffé vai à Criméia de onde é enviado pelos social-democratas a Petrogrado. Durante o processo sociopolítico de radicalização, adere inicialmente à corrente de Trotsky, denominada Mezhraiontsy (interdistrital) – uma pequena corrente formada em 1913 que reunia, entre outros, militantes como Anatoly Lunacharski, Moisei Uritski, David Riazanov, V. Volodarski, Dmitry Manuilski e Sergey Ezhov (Tsederbaum). Entre maio e junho 1917, constituem um bloco com os bolcheviques com quem se fundem.

    Em Outubro de 1917, Joffé apoia a posição de Lenine frente às “hesitações” de Kamenev e de Zinoviev a respeito da questão do poder e do governo, quando era patente o vazio do poder institucional (governo provisório) e os efeitos negativos da guerra na tropa (camponesa) eram negativos, ao passo que a dialética revolução – contrarrevolução (interna e internacional) retomava todo o seu vigor.

    Joffé assume a presidência do Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado. Após 25-26 de outubro, compartilhará as posições de Lenin e Trotsky. Na questão da assinatura da paz de Brest-Litovski, não era favorável em fevereiro 1918 a um “tratado de paz permanente”, mas somente tinha voz consultiva. A discussão que manteve durante as negociações com o representante do Império Austro-húngaro vacilante, Ottokar Theobald Otto Maria, comte de Czernin von und zu Chudenitz, ministro das Relações Estrangeiras de 1916 de 1918, é bem reveladora. Em suas memórias, após insistir em que Joffé era judeu, o conde lhe atribui grande inteligência e uma atitude de gentleman. Joffé havia-lhe declarado, com extrema elegância: “Espero muito que sejamos capazes de estimular a revolução em seu país!”.

    Quando o governo dos “Comissários do Povo” se transferiu de Petrogrado a Moscou, Joffé permaneceu em Petrogrado. Assumiu de abril a novembro de 1918 uma função de representação diplomática na Alemanha, cujo idioma dominava, e assim assinou o tratado complementar de paz entre a Alemanha e a “Rússia dos Soviets” em agosto de 1918.

    Foi novamente expulso da Alemanha na véspera do levante de novembro 1918, acusado de organizar “um levante comunista”. Em março de 1919 não foi reeleito para o Comitê Central quando do VIII Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Após ter ocupado um posto de “comissário” na Ucrânia, assume funções diplomáticas e assina uma série de tratados de paz que deveriam, em resumo, assegurar ao “recente poder soviético” uma certa estabilidade geopolítica diante de uma ofensiva adversária tanto interna quanto internacional, num contexto de ampla crise socioeconômica.

    Ele pode examinar os mecanismos das ditas conferências de paz, como ilustrado pela Conferência de Genova em abril-maio 1922, cujo propósito para as potências dominantes consistia em “reconstruir” a Europa Central e do Leste e, dentro deste quadro, “regulamentar” as relações com o “poder bolchevique”. Publicou a este respeito um pequeno livro muito instrutivo.

    Em 1923, patrocinou um acordo entre o PC chinês e “a força nacionalista” representada pelo Kumintang, cujo dirigente indiscutível era Sun Yat Tsen. Dedicou-se em seguida a um acordo entre a URSS (formalmente criada em 1922) e o Japão, que não vingou. A doença o afetava cada vez mais intensamente. Apesar disto, em 1924 representou o governo da URSS no Reino Unido e entre 1924 e 1926, na Áustria. Sua saúde periclitante e suas divergências de fundo com a fração dominante da direção do Partido e do governo o obrigarão a renunciar a suas tarefas.

    Quando de sua criação em 1923, Joffé se filiou à oposição de esquerda, que Trotsky animava.

    A direção estalinizada do PCUS impediu que, gravemente enfermo, Joffé fosse tratado no estrangeiro. Nestas circunstâncias desoladoras, envia a Trotsky uma “carta de adeus” antes de por fim a seus dias. Esta “carta de adeus” foi capturada pela polícia política. Extratos “seletivos” foram utilizados pelos stalinistas para desacreditarem Joffé e Trotsky. Este último pronunciou seu derradeiro discurso público na URSS quando do funeral. Maria Joffé, sua esposa, foi condenada, enviada à prisão e mais tarde a um campo. Ela sobreviveu. Após sua liberação, redigiu suas memórias, um texto repleto de emoção, intitulado “Uma longa noite: uma história verdadeira”. (Ed. New Park Publications, 1978). Sua filha Nadezhda A. Joffé reuniu suas recordações num livro também emocionante: “As memórias de Nadezhda A. Joffé, publicado em inglês pela Labor Publication em 1994. Quem quer que conheça esta história e apreenda sua trágica dimensão histórica e pessoal deve, durante a presente cerimônia de homenagem a “um dos nossos”,  manter decência e discrição ao se referir ao drama complexo de Adolph Joffé. Não fazê-lo transforma este “traço” em vulgaridade. Infelizmente é assim, pois a bandidagem intelectual é frequente.

    C.A. Udry

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    “A Leon Trotsky

    Caro Leon Davidovitch:

    Em toda minha vida sempre pensei que o homem político deve saber ir embora a tempo, como um ator deixa a cena, e que é melhor fazê-lo cedo demais do que tarde demais.

    Adolescente, ainda verde, defendi a correção da conduta de Paul Lafargue, e sua mulher Laura Marx, quando suicidaram-se, o que tanto barulho fez nos partidos socialistas. E me lembro que repliquei asperamente a Augusto Bebel, muito revoltado por este suicídio, que só é admissível discutir-se, a idade escolhida pelos Lafargue (pois não se trata aqui dos anos mas da utilidade possível do indivíduo), não se pode em caso nenhum contestar o princípio, para um homem público de deixar a vida no momento em que tem consciência de não poder ser mais útil à causa que seria.

    Há mais de trinta anos que fiz minha esta filosofia de que a vida humana só tem sentido na medida e enquanto está a serviço de um infinito que para nós é a humanidade, porque, sendo o resto limitado, trabalhar pelo resto é desprovido de sentido.

    Se mesmo a humanidade deve ter um fim, este sobreviverá então uma época tal que, para nós, a humanidade pode ser considerada um infinito absoluto. E se tem como eu, fé no progresso, pode-se muito bem conceber que, mesmo em caso de perdição de nosso planeta, a humanidade encontre os meios de habitar outros mais jovens e prolongue por conseguinte sua existência; e então, tudo que for feito em seu bem em nosso tempo se refletirá também nos séculos longínquos, quer dizer dará a nossa existência a única significação possível.

    É nisto, e nisto somente, que sempre vi o sentido da vida; e agora, abarcando com o olhar a minha vida passada, dos quais 27 anos nas fileiras do nosso Partido, parece que tenho o direito de dizer que durante toda a minha vida consciente, permaneci fiel a esta filosofia, isto é, vivi segundo este sentido da vida; o trabalho e a luta pelo bem da humanidade.

    Mesmo os anos de prisão e de cárcere quando o homem é afastado da participação direta na luta a serviço da humanidade, não podem ser riscados da vida, com um sentido, pois, sendo anos de preparação cultural e de autodidática, contribuíram para o melhoramento do trabalho ulterior; e por esta razão podem ser confundidos com os anos de trabalho a serviço da humanidade, tendo, portanto um sentido. Creio ter o direito de afirmar que nesta acepção, nem um só dia de minha vida foi desprovido de sentido.

    Mas agora parece, chegou a hora, em que a minha vida perde o seu sentido e, por conseguinte, surge a obrigação de deixá-la, de lhe dar um termo.

    Há vários anos que a direção atual de nosso Partido, de conformidade com o seu método geral de não dar trabalho aos comunistas da oposição, não me designa nem trabalho político nem trabalho soviético, cuja envergadura e caráter me permitissem ser útil no máximo de minhas forças. No último ano, você o sabe, o Bureau Político me pôs, como oposicionista, completamente de lado de qualquer trabalho político.

    Por outro lado, provavelmente em parte devido a minha doença e em parte devido a razões melhor conhecidas de você do que de mim – não pude, este ano, participar praticamente do trabalho e da luta da oposição. Foi com um forte combate interior e, no começo, a contragosto, que me resignei a esta forma de atividade que só esperei suportar tornando-me completamente inválido: o trabalho literário, cultural e pedagógico. Embora no começo achasse penoso, me entreguei decididamente a esta tarefa, esperando que ela continuasse a dar a minha vida a necessidade e utilidade de que falei acima; só elas a meu juízo podem justificar minha existência.

    Porém minha saúde vem piorando cada vez mais. Por volta de 20 de setembro, por motivo de mim desconhecidos, a Comissão Médica do Comitê Central me convocou para um exame de professores especialistas e estes diagnosticaram um processo tuberculoso ativo nos dois pulmões, uma miocardite, uma inflação crônica da vesícula biliar, uma colite crônica, apendicite e polinevrite crônica (inflamação múltipla dos nervos). Eles me disseram que meu estado de saúde era bem pior do que eu imaginava, e que nem devia pensar em prosseguir até o fim nos meus cursos nos estabelecimentos superiores (a Universidade de Moscou e o Instituto de Orientalismo). Acrescentaram que pelo contrário seria mais razoável renunciar as estes planos e não ficar inutilmente nem um dia mais em Moscou e nem mais um hora sem tratamento e partir imediatamente para o estrangeiro, com destino a um sanatório apropriado. Como esta viagem não podia ser preparada em dois dias, me prescreveram certos remédios e tratamento. Para obtê-los tinha que ir à Policlínica do Kremlin durante algum tempo, até a minha partida.

    A minha pergunta direta: “Que possibilidade tenho de cura no estrangeiro e posso me tratar aqui na Rússia sem abandonar meu trabalho?”, os professores e os assistentes, o médico do Com. Central, camarada Abrossov, um outro médico comunista e o deão do hospital do Kremlin, A. Konseil, responderam claramente os sanatórios russos não podiam de nenhum modo curar-me e que eu devia contar com um tratamento no Ocidente, pois até então nunca me tratara mais de 2 ou 3 meses no estrangeiro; mas que agora eles insistiam justamente para que eu fizesse uma estadia de seis meses no mínimo, sem fixar o máximo. Acrescentaram que, conformando-me as prescrições deles, não duvidavam que se não me curasse radicalmente, ao menos me seria dado trabalhador por um período maior.

    Durante dois meses mais ou menos, nenhuma medida foi tomada pela Comissão médica do Comitê Central (foi ela entretanto que por sua própria iniciativa convocou a consulta em questão) relativo não somente a minha estadia no estrangeiro como do meu tratamento aqui. Ao contrário, a farmácia do Kremlin que sempre me fornecera remédios pelas receitas, ficou interdita de fazê-lo e eu fiquei, de fato, privado, de auxílio gratuito dos medicamentos que sempre usara. Fui obrigado a comprar os remédios indispensáveis nas farmácias da cidade (parece que isto se deu no momento em que o grupo dirigente do Partido começou a recorrer com os camaradas da oposição, à aplicação do método: “ferir a oposição no ventre”).

    Enquanto era suficientemente válido para trabalhar, quase não prestava atenção para isto, mas como o meu estado não parou de piorar, minha mulher começou a trabalhar junto à Comissão Médica do C. Central, pela minha ida para o estrangeiro, e pessoalmente junto a N. Semachko, que sempre publicamente quebrou lanças para realizar a sua fórmula “salvaguardar a velha guarda”. A questão era entretanto constantemente protelada e tudo o que pode obter minha mulher foi um resumo da decisão do conselho dos médicos. Neste resumo, minhas doenças crônicas eram enumerados e ficava constatado que o Conselho insistia pela minha partida para o estrangeiro “num sanatório do tipo prof. Friedlander” e por um prazo podendo se prolongar até um ano.

    No entanto, há nove dias me deitei definitivamente, devido à acuidade e à agravação (como é sempre o caso) de todas as minhas doenças crônicas e sobretudo, o mais terrível, da polinevrite inveterada que tomou de novo uma forma aguda, me constrangendo a autar um padecimento infernal, absolutamente intolerável e me tirando até a possibilidade de andar. Com efeito, há nove dias que estou privado de qualquer tratamento e a questão de minha viagem ao estrangeiro não foi examinada. Nem um só dos médicos do Com. Central me veio ver. O prof. Davidenko e o dr. Levine, chamados à minha cabeceira, me prescreveram algumas insignificâncias que não puderam me aliviar em coisa alguma; reconheceu-se então “que não se podia fazer nada” e que a viagem ao estrangeiro era indispensável e urgente.

    O dr. Levine disse a minha mulher que o negócio não andava porque a Comissão Médica pensava naturalmente que minha mulher haveria de querer fazer a viagem comigo e que “assim ficava muito caro”. (Quando os camaradas que não são da oposição ficam doentes, são enviados ao estrangeiro, e muitas vezes até com a família, acompanhados de nossos médicos ou professores, eu mesmo sei de muitos destes casos e até reconheço que quando foi de minha primeira crise de polinevrite aguda, fui mandado ao estrangeiro, em companhia de minha família, mulher e filho, e do prof. Konabi; então ainda não existiam os costumes atualmente instaurados no Partido.)

    Minha mulher respondeu que apesar do triste estado em que me encontrava ela não pretendia absolutamente que eu devesse ser acompanhado por ela ou por alguém. Então o dr. Levine garantiu que nestas condições a questão seria resolvida rapidamente.

    Meu estado foi se agravando e meus sofrimentos se tornaram tão terríveis que reclamei enfim aos médicos que dessem ao menos um alívio qualquer. O dr. Levine me repetiu hoje que os médicos nada podiam fazer e que a única porta de salvação era a partida imediata para o estrangeiro.

    Ora, à noite, o médico do C. Central, camarada Potiomkine, avisou à minha mulher que a Com. Médica decidira não me enviar ao estrangeiro e de me tratar mesmo na Rússia.

    A razão era que os professores especialistas insistiam por um tratamento prolongado no estrangeiro, julgando uma certa estadia inútil e que o Com. Central só consentia em me dar para a minha cura uma soma máxima de 1000 dólares (2000 rublos) dizendo ser impossível dar mais.

    Como você sabe, dei no passado a nosso Partido outra coisa que um milhar de dólares, em todo o caso, mais do que custei ao Partido, desde que a revolução me privou de todos os meios e que não posso mais me tratar às minhas custas.

    Mais de uma vez, editores anglo-americanos me propuseram, por pagamentos de “minhas memórias” (à minha escolha, com a única exigência que dissessem respeito ao período das negociações importantes) somas que subiam até a 20.000 dólares. O Bureau Político sabe perfeitamente que sou bastante experimentado como jornalista e como diplomata, para publicar uma só palavra sequer prejudicial ao nosso Partido e ao nosso Estado.

    Ele não ignora tampouco que fui muitas vezes censor no Comissariado dos Negócios Estrangeiros e que na qualidade de embaixador também o fui para todas as obras russas editadas nos países onde servia. Há alguns anos pedia ao Bureau Político a permissão para editar esta memórias, tomando o compromisso de entregar ao Partido todos os honorários, pois me custa aceitar do Partido dinheiro para me tratar. Em resposta, fui prevenido por uma decisão do Com. Central, nos termos da qual “é formalmente proibido aos diplomatas ou aos camaradas tendo tomado parte no estrangeiro publicar no estrangeiro suas reminiscências ou fragmentos de memórias sem exame prévio dos manuscritos pelo colégio do Comissariado dos Negócios Estrangeiros e o Bureau Político do Comitê Central”.

    Sabendo das irregularidades e dos atrasos que seriam ocasionados por esta dupla censura, resolvi em 1924 declinar de qualquer proposta. Encontrando-me recentemente no estrangeiro, recebi uma nova oferta garantindo-me 20.000 dólares de honorários.

    Sabendo, porém, como entre nós se falsifica a história de nosso Partido e da Revolução, não julguei possível emprestar o meu concurso a uma tal falsificação, não tendo dúvida de que toda a censura do Bureau Político (e os editores fazem questão do caráter pessoal das reminiscências, isto é sobre a caracterização dos personagens que nela desempenharam algum papel) consiste em não admitir uma justa apreciação dos personagens e de seus atos, nem destes nem daqueles, isto é nem dos chefes autênticos da Revolução, nem dos dirigentes atuais elevados a esta dignidade. Eu não acho possível editar memórias sem chocar de frente o Bureau Político e por conseguinte não vejo meio de me tratar sem receber dinheiro do Com. Central que, por todo o meu trabalho revolucionário de vinte e sete anos, acha razoável calcular a minha vida e a minha saúde numa soma não passando de 2.000 rublos.

    No estado em que acho atualmente me é evidentemente impossível realizar um trabalho qualquer. Se, a despeito de sofrimentos infernais, tivesse a força de continuar a série de meus cursos, uma situação desta ordem exigiria sérios cuidados, seria preciso me transportar por toda parte em “padiola”, me ajudar a procurar nas bibliotecas e nos arquivos os livros e materiais necessários, etc…

    No decorrer de minha última doença, tive a minha disposição todo o pessoal de uma embaixada: agora, segundo minha “categoria”, não tenho nem mesmo o direito a um secretário particular. Além disso, a desatenção para comigo de que se tem dado provas nestes últimos tempos, por ocasião, das minhas doenças (como agora; em que estou há dias praticamente sem socorro e em que o tratamento elétrico prescrito pelo prof. Davidenko não me é aplicado), mostra que não posso contar nem mesmo com uma coisa tão elementar como um transporte em padiola.

    Mesmo se fosse tratado, se fosse mandado ao estrangeiro, para a estadia indispensável, minha situação continuaria crítica no mais alto ponto: a última vez passei mais ou menos dois anos num estado de polinevrite aguda, sem fazer um movimento; não tinha então outra doença a não ser esta e no entanto todas as outras que contraí depois são consequências desta; agora já me descobriram seis. Mesmo se pudesse daqui por diante consagrar o tempo necessário ao tratamento, é duvidoso que possa contar com uma prolongação útil de minha vida. Agora então que se considera impossível tratar-me seriamente (pois o tratamento na Rússia e, segundo os médicos, sem esperança, e o tratamento no estrangeiro só por 2 meses também o sendo) minha vida perde todo o seu sentido, mesmo sem que se leve em conta minha filosofia esboçada acima. É duvidoso que se possa admitir como necessária uma vida passada em padecimentos incríveis, estando-se pregado numa cama sem movimento e sem possibilidade de realizar um trabalho qualquer.

    É por isto que digo que o momento chegou em que é indispensável por um termo a esta vida.

    Conheço a opinião geral do partido, contrária ao suicídio, mas suponho que todos aqueles que ficarem sabendo de minha situação não me condenarão por isto.

    Além do mais, o professor Davidenko acha que a causa da repetição da minha polinevrite aguda a emoção destes últimos tempos… Se estivesse com saúde teria achado em mim a força e a energia suficientes para lutar contra a situação criada no Partido, mas no meu estado atual, reputo insuportável uma situação em que o Partido tolera silenciosamente a sua exclusão de suas fileiras, apesar de estar absolutamente persuadido de que, cedo ou tarde, haverá no Partido uma crise que o obrigará a rejeitar aqueles que o conduziram a uma tal vergonha… Neste sentido, minha morte é um protesto contra aqueles que levaram o Partido a uma situação tal que ele não possa de nenhum modo reagir contra este opróbrio.

    Se me é permitido comparar o que é grande com o que é pequeno, direi que a importância do acontecimento histórico que é a sua exclusão e a de Zinoviev, expulsão que há de abrir inevitavelmente um período termidoriano na nossa Revolução, e o fato que me reduzem depois de 27 anos de trabalho revolucionário nos postos responsáveis do Partido, a uma situação em que nada mais me resta a fazer do que me meter uma bala na cabeça, estes 2 fatos, torno a dizer, ilustram um só e único regime do Partido.

    Talvez que os dois acontecimentos, o pequeno e o grande juntos, produzirão o abalo que acordará o Partido e o fará parar no caminho que vai dar em Termidor.

    Sentir-me-ia feliz, se pudesse acreditar, que assim será, pois saberia então que não iria morrer em vão; entretanto, mesmo tendo a firme convicção de que a hora do despertar do Partido virá, não posso estar convencido de que ela já tenha soado agora… Entretanto, não duvido apesar de tudo de que a minha morte hoje seja mais útil que do que a prolongação de minha vida.

    Caro Leon Davidovitch, estamos ligados por 10 anos de trabalho comum e, ouso, esperá-lo de amizade pessoal, e isso me dá direito de lhe dizer no momento do adeus, o que em você me parece ser fraqueza.

    Nunca duvidei da justeza do caminho traçado por você, que sabe que durante mais de 20 anos marchei com você, desde a “revolução permanente”. Mas sempre pensei que faltavam a inflexibilidade, a intransigência de Lênin sua resolução de ficar, sendo preciso, sozinho no caminho que reconheceu como certo, na previsão da maioria futura, no reconhecimento futuro, por parte de todos da exatidão desse caminho. Você sempre teve razão politicamente, a começar por 1905, e muitas vezes lhe contei ter ouvido, com os meus próprios ouvidos,  Lênin reconhecer que em 1905 não fora ele mas você que tivera razão.

    Defronte da morte não se mente e o repito agora de novo…

    No entanto muitas vezes renunciou você a sua retidão em favor de um acordo, de um compromisso que sobre-estimava. É um erro. Eu o repito, politicamente sempre você teve razão e agora mais do que nunca. Um dia, o Partido o compreenderá e a História há de reconhecê-lo.

    Assim, não receie hoje se alguém se separar de você, nem sobretudo se muitos não vêm para o seu lado tão depressa quanto nos todos o desejávamos. Você tem razão, mas a condição da vitória de sua verdade está precisamente numa estreita intransigência na mais severa rigidez, no repúdio de todo compromisso, exatamente como isto foi sempre o segredo da vítima de Illitch.

    Por diversas vezes tive vontade de lhe dizer isto, mas só agora me decide a fazê-lo na hora do adeus.

    Duas palavras pessoais. Atrás de mim ficam uma mulher, uma filha doente e um rapazola mal adaptados a uma vida independente. Sei que nada pode você fazer agora por eles. Sob este ponto não posso contar em coisa nenhuma com a direção atual do Partido.

    Mas não tenho dúvidas de que o dia não está longe em que você há de retomar o lugar que lhe é devido. Então, não se esqueça dos meus. Eu lhe desejo energia uma valentia iguais às de que tem dado provas até o presente, e a mais rápida vitória. Eu o abraço fortemente. Adeus.

    Moscou, 16 de novembro de 1927.

    A. Joffe

    Carta publicada na internet no site marxists.org, a partir da publicação feita pelo  Jornal Luta de Classe, órgão da Oposição da Esquerda no Brasil  nº 2, ano 1, junho de 1930.

    Há um pós-escrito de Jofee que somente consta do site Alencontre em que está escrito:
    ” Escrevi esta carta na noite entre 15 e 16, e, hoje 16 de novembro, Maria Mikhailovna foi à comissão médica para insistir que me enviassem ao exterior, ainda que fosse por um ou dois meses. Responderam-lhe que, segundo os especialistas, uma curta estadia no exterior seria totalmente inútil ; e lhe informaram que a comissão havia decidido me transferir imediatamente ao hospital do Kremlin. Assim eles me negaram inclusive uma curta viagem ao exterior para melhorar minha saúde, ao passo que os médicos estavam de acordo que uma cura na Rússia é inútil.
    Adeus, querido Leon Davidovitch, seja forte, é preciso sê-lo, é preciso também ser perseverante, e não guarde rancor de mim.

     

  • Ante la grave situación en Venezuela

    El Presidente de Venezuela, Nicolás Maduro, elogió a los venezolanos por la “lección de coraje” y “mayor participación histórica” en las elecciones del domingo a la Asamblea Constituyente.

     

    Editorial Esquerda Online

    5-8-2017

    Hoy, 5 de agosto, se inician los trabajos de la Asamblea Nacional Constituyente en Venezuela. Sin embargo, los principales países imperialistas no reconocen las elecciones celebradas el pasado 30 de julio. El gobierno de Trump adoptó sanciones contra el presidente Nicolás Maduro. El secretario general de la Organización de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, declaró que las elecciones son ilegítimas. El Mercosur, con Brasil de Temer y Argentina de Macri al frente, anuncian nuevas sanciones al país. La Unión Europea, con el destaque de España, tampoco reconoció la legitimidad de las elecciones. Para la izquierda socialista, eso, por sí solo, ya debería decir mucho.

    Como si eso no bastara, ayer, 4 de agosto, la alianza de la oposición de derecha MUD – Mesa de Unidad Democrática -, realizó una nueva marcha de protesta contra la toma de posesión de los diputados constituyentes. El hecho es que hoy, el cerco al país alcanzó uno de sus puntos más altos.

    Pero a decir verdad, la responsabilidad de esta situación recae en gran medida en el propio chavismo. Pasado casi 20 años desde que Hugo Chávez fue elegido por primera vez, en 1998, la llamada revolución socialista bolivariana no tomó ninguna medida seria contra el capital. Con eso, el chavismo fue incapaz de alterar la estructura económica del país.

    Venezuela continúa dependiendo de la exportación del petróleo y sigue teniendo que importar casi todo. La renta petrolera siguió siendo responsable de cerca de un tercio del PIB, el 80% de los ingresos de exportación y más de la mitad de la financiación del Estado. Sin la reanudación de la producción agropecuaria y sin un parque industrial nacional, el país siguió importando más del 90% de los productos, mercancías, bienes y servicios.

    Con la subida del precio del petróleo en la primera década del 2000, en lugar de cambios estructurales, el chavismo privilegió un acuerdo con sectores de la burguesía y la realización de políticas sociales compensatorias. Es verdad que con eso elevaron el nivel de vida, pero como no podía dejar de ser, sin cambios estructurales, ese avance fue pasajero. Con la caída del precio del petróleo, el país comenzó a venir abajo. En 2013-2014 se inició una recesión y con ella, el descontento popular. Esta es una de las principales explicaciones para la victoria del MUD en las elecciones legislativas de 2015.

    Pese a la política desastrosa del chavismo que terminó abriendo camino hacia la contraofensiva de la derecha, no se puede perder de vista que el objetivo del imperialismo es retomar el control directo del país, en particular de sus reservas de petróleo. Para ello, necesita eliminar al gobierno poniendo fin a las mediaciones.

    La ascensión del chavismo fue posible gracias a la heroica lucha del pueblo venezolano que se convirtió en un símbolo desde la famosa rebelión popular de 89, conocida como “Caracazo”. Esto permitió que Venezuela se convierta en un país políticamente más independiente del imperialismo. La ofensiva contrarrevolucionaria en curso tiene como objetivo, no solo derrotar al gobierno, sino subordinar completamente al país y, principalmente, hacer retroceder el avance de las luchas populares no solo en Venezuela, sino en todo el continente.

    Escalada de la derecha y del imperialismo

    Desde que venció las elecciones legislativas de diciembre de 2015, la MUD lanzó una contraofensiva para destituir al presidente Nicolás Maduro. Sin mayoría en la Asamblea Nacional, el gobierno pasó a apoyarse en el Poder Judicial para gobernar. En el transcurso de 2016, la oposición intentó interrumpir el mandato presidencial a través de un referéndum revocatorio. El Tribunal Supremo de Justicia (TSJ) impidió que esto ocurriera. A principios de 2017, la MUD pasó a exigir elecciones presidenciales anticipadas declarando al gobierno incompetente por abuso de poder.

    Acosado por la oposición, en lugar de recurrir al poder popular, Maduro intentó retirar el poder legislativo de la Asamblea Nacional y pasarlo al TSJ. Tres días después retrocedió e inmediatamente después, el 1 de mayo, convocó a elecciones para una Asamblea Nacional Constituyente, el 30 de julio.

    Sin embargo, esta, que podría ser una fuerte reanudación de la ofensiva contra la derecha, terminó siendo minada por el control burocrático del gobierno sobre el proceso electoral. Las fuerzas de izquierda, los grupos y activistas independientes encontraron fuertes obstáculos para legalizar sus candidaturas. Poco más de 5 mil candidatos de los 55 mil inscriptos lograron obtener su reconocimiento. La casi totalidad de los candidatos de las Comunas y del sector sindical, popular, campesino e indígena está ligada directamente al gobierno. Un proceso que no esté apoyado en una amplia democracia, impide la unidad necesaria para enfrentar a la derecha, además de disminuir la fuerza y la legitimidad de la propia Constituyente.

    La oposición, por su parte, no perdió tiempo. Decidió intensificar las movilizaciones y enfrentamientos a través de lockouts, marchas y barricadas (“guarimbas”) con miras a impedir la realización de las elecciones. Varios chavistas fueron quemados vivos y algunos candidatos llegaron a ser asesinados. El gobierno llevó a cabo marchas y manifestaciones, al mismo tiempo en que reprimía las manifestaciones de la oposición, a través de la Guardia Nacional y de los colectivos populares, haciendo nuevas víctimas. Según algunas fuentes, estos enfrentamientos ya han provocado alrededor de 120 muertos entre abril y julio de este año.

    Bajo un clima de máxima tensión, con barricadas y sin transportes, las elecciones se realizaron. Luego vinieron las denuncias de fraude. A pesar de ello, la Asamblea Nacional Constituyente se instaló y hoy inicia sus trabajos. El imperialismo aumenta el cerco, al mismo tiempo que algunos sectores ya amagan con negociaciones.

    El desafío de la izquierda socialista

    Los socialistas revolucionarios deben luchar por la construcción de una alternativa tanto al gobierno de Maduro como a la oposición de derecha. La estrategia debe ser la superación del chavismo. Para ello es necesario fortalecer las fuerzas sociales de la revolución, apoyándose tanto en la defensa de un programa clasista y socialista, como en las movilizaciones, en la autoorganización y autodefensa de las masas obreras y populares.

    Sin embargo, en este momento de extrema polarización, la construcción de esa alternativa pasa por colocarse en el frente de lucha para derrotar la ofensiva contrarrevolucionaria de la derecha, de la OEA y del imperialismo. No se construye una alternativa socialista y revolucionaria desde un tercer campo que en la práctica no existe. Hacerlo es caer en el puro abstencionismo. La unidad de acción necesaria para derrotar a la contrarrevolución no significa depositar ninguna ilusión en el gobierno de Maduro. Se trata de la misma ubicación cuando nos ponemos contra el impeachment de Dilma. Como se sabe, esto no significó apoyar la política y mucho menos el proyecto de conciliación de clase de Dilma-Lula-PT.

    Se equivocan también las fuerzas de izquierda que en este momento buscan la superación del chavismo disputando el campo de la oposición de derecha. En realidad se trata de un error mucho más grave que igualar, en este momento, al gobierno y la oposición. Al colocarse en el campo de la oposición de derecha defendiendo la caída del gobierno y el boicot a la Constituyente pierden absolutamente todo criterio de clase, confundiendo revolución con contrarrevolución. No se construye una alternativa en unidad de acción con la MUD o con el imperialismo. No es ese el campo donde debemos golpear juntos y marchar separados.

    En este momento tan dramático por el que pasa Venezuela, la izquierda latinoamericana tiene como su principal tarea ayudar a derrotar la ofensiva contrarrevolucionaria. Es urgente que se ponga en marcha y se convoque a la clase trabajadora de los países hermanos a realizar acciones de solidaridad en todos los terrenos necesarios.

    Al mismo tiempo, es necesario exigir a los diputados constituyentes que den una salida socialista para el país. Es urgente que se modifique el carácter de la actual Constitución que protege la propiedad privada y la libertad de comercio y de lucro, preceptos en los que se asientan todo tipo de explotación, opresión y desigualdad social.

    La nueva Constitución debe garantizar la adopción de medidas como la nacionalización de las empresas extranjeras, la inmediata expropiación de las empresas de la derecha golpista, una PDVSA 100% estatal bajo el control de los trabajadores.

    Es fundamental que el Estado asuma el control del comercio y de la distribución. Junto con eso es urgente la estatización del sistema financiero. Sólo así será posible realmente combatir la especulación e impedir la fuga de capitales. La suspensión del pago de la deuda externa – hasta hoy pagada puntualmente a pesar de la inmensa crisis que castiga al país- es vital para inversiones en infraestructura, vivienda, salud y educación. Finalmente, es necesaria la democratización de las Fuerzas Armadas y un Estado asentado en el poder obrero y popular.

    Tales son algunos de los principales desafíos de la izquierda socialista en Venezuela.

  • Não mais Charlottesvilles

    Por Keeanga-Yamahtta Taylor

    Publicado na segunda-feira, dia 14/08/2017, no site Jacobin

    Traduzido por Edmilson de Jesus Silva Júnior

    A fúria da supremacia branca em Charlottesville, Virgínia, foi o resultado previsível de agenda racista do Partido Republicano e da ascensão de Donald Trump à presidência.

    A violência racista da Extrema Direita foi liberada pela eleição de Trump. Os racistas não são apenas encorajados pelo Presidente Trump, eles têm sido estimulados pelo silêncio da administração de Trump, em meio ao crescimento dramático das organizações de supremacia branca e ataques racistas violentos.

    Ativista antiracista, Heather Heyer é apenas uma de uma lista crescente de pessoas de destaque que foram mortas por racistas brancos, desde a eleição de Trump. Há poucos meses, ativistas do “alt-Reich” assassinaram o estudante afrodescendente Richard W. Collins III. No início deste ano, Ricky John Best e Taliesin Myrddin Namkai Meche morreram de forma selvagem pelas mãos de um racista branco, quando intervieram para defender duas jovens mulheres negras, umas das quais era muçulmana e usava a hijab (véu na cabeça).

    O assassinato de Collins não provocou reação da Casa Branca ou de Trump, como também os assassinatos cruéis de Best e Meche tiveram o mesmo efeito, com uma reação amena por parte de Trump. Os comentários suaves de Trump, em resposta a atos de terrorismo racial, são um forte contraste com o estilo bombástico e virulento que ele usa, quando está discursando para sua frenética base racista.

    Quando Trump finalmente fez uma declaração pública, muitas horas após o corpo a corpo em Charlottesville ter começado, foi, intencionalmente, vago: ele alegou se opor à violência “de muitos lados.”

    O comportamento de Trump é espantoso, mas dificilmente chocante. Ele tem se envolvido em um flerte obsceno com racistas violentos desde a sua campanha, em que se viu a “Ku Klux Klan”, David Duke e outros notórios supremacistas brancos o apoiando. Seu estrategista-chefe é Steve Bannon, que já havia se gabado de sua relação com o “alt-direita”. Sebastian Gorka, assistente de Trump, que estabeleceu laços com organismos fascistas na Hungria, disse, na semana passada, que “supremacistas brancos” não são um problema nos EUA.

    Se Charlottesville for apenas outro episódio de violência racista, vagamente criticado pela administração Trump, poderá representar uma escalada alarmante da violência racista organizada nos EUA. Outros assassinatos praticados por supremacistas brancos ocorridos desde a posse de Trump poderiam ser descritos como atos aleatórios de violência racista. Ao passo que os eventos de Charlottesville foram planejados com antecedência.

    Há vários meses, é sabido que os racistas brancos chegariam a Charlottesville para protestar contra a remoção de uma estátua de Robert E. Lee, de um parque local. Esta ralé das organizações racistas ensaiou protestos em torno da cidade universitária liberal durante vários meses, incluindo uma anterior já com as tochas tiki (de bambú). Esse novo símbolo da supremacia branca ressurgiu na sexta-feira à noite.

    Organizações fascistas e seus aliados da supremacia branca falaram abertamente sobre trazer armas – incluindo armas de fogo – para Charlottesville. E eles o fizeram, aparecendo com capacetes, paus, spray de pimenta, escudos de madeira e rifles de assalto. Foi um ato de intimidação racista!

    Apesar de suas alegações de que só desejam exercer a liberdade de expressão de seus direitos, os racistas brancos chegaram a Charlottesville constituindo uma multidão disposta a atacar e matar qualquer um que entrasse em seu caminho. O Southern Poverty Law Center descreveu o ato como a maior concentração de grupos de ódio nos EUA, em décadas.

    Sua mobilização revelou múltiplas realidades: eles são relativamente pequenos, desproporcionalmente violentos – e completamente amparados pelas estruturas de estado que deveriam defender a Lei. Na sexta-feira à noite, a polícia permitiu que racistas, portadores de tochas, passassem próximos a uma igreja negra, cantando “vidas brancas importam” e o slogan nazista “terra e sangue”, mesmo sem uma autorização para protestar. No dia seguinte, a polícia, passivamente, viu supremacistas brancos alinhados em formação, disparando contra outros manifestantes, e batendo nas pessoas.

    O contraste era evidente com o tratamento normalmente dado pela polícia aos protestos como o “Vidas Negras Importam”. A polícia permitiu que uma multidão racista, com a intenção de praticar violência física, simplesmente seguisse o seu caminho. Os supremacistas brancos nunca tiveram de lidar com tanques, gás lacrimogêneo, cães, canhões de água, motim ou agressão da polícia. Quando anti-racistas cantam “os policiais e a Klan andam de mãos dadas”, é sobre este acolhedor, quase fraterno, relacionamento, a que eles estão se referindo.

    A relutância de Trump para denunciar os supremacistas brancos abertamente se deve ao apoio que deram a sua candidatura e, agora, dão a sua presidência, o que constrangeu o Partido Republicano a repreender os racistas. No domingo, não foi difícil encontrar um republicano denunciando a violência da supremacia branca – com significativa exceção do Presidente dos Estados Unidos.

    O senador da Flórida, Marco Rubio, implorou a Trump que deixasse clara a sua oposição à supremacia branca. O senador de Utah, Orrin Hatch, pediu a Trump para “chamar o mal pelo seu verdadeiro nome”. O Presidente da Câmara, Paul Ryan, descreveu os ataques em Charlottesville como um exemplo de “intolerância vil.”

    O Partido Republicano está chorando lágrimas de crocodilo. Este, afinal, é o partido que deu a Trump a sua plataforma. Ele tem resistido ao longo de meses a atacar o mais vil racismo defendido na História americana moderna. Durante meses, os republicanos aceitaram a fúria racista de Trump na Casa Branca. Havia, é claro, a proibição de viagem  de muçulmanos, determinada algumas horas após a posse de Trump. Eles também ficaram impassíveis enquanto ele usou o Immigration and Customs Enforcement (ICE) para incutir terror nas comunidades de imigrantes através da arma do ataque preventivo. Republicanos celebraram a Administração Trump e seu retorno à suposta “lei e ordem”- retórica liderada por Jeff Sessions – enquanto Trump, simultaneamente, incentivava a polícia a abusar de pessoas sob custódia.

    Os pilares centrais da administração Trump, amplamente apoiados pelo Partido Republicano como um todo, são apenas o início. Nas últimas semanas, a administração Trump já sinalizou sua intenção de investigar se as pessoas brancas são vítimas de discriminação no Ensino Superior. Eles propuseram limitar o número de imigrantes que vêm para os Estados Unidos e que não falam Inglês. E ameaçaram  aumentar o número de incursões em comunidades de imigrantes, buscando especificamente os jovens imigrantes para a deportação, os quais haviam sido trazidos para o país quando eram crianças.

    Mais do que fornecer uma plataforma para o discurso de ódio racista de Trump, o Partido Republicano impulsionou sua agenda política – uma agenda que imbuiu a direita racista com a confiança de que eles podem ter sucesso em sua campanha de aterrorizar, marginalizar, e até matar aqueles que ficam em seu caminho. Isto inclui as pessoas negras e pardas, bem como os anti-racistas brancos que os desafiem. Estamos todos sob a mira. A luta contra o racismo em Charlottesville forçou os administradores públicos a, finalmente, sair e falar contra o crescimento da supremacia branca e do neonazismo. Nós, por outro lado, continuaremos a lutar contra os racistas da extrema-direita e os deteremos, antes que matem novamente.

  • Primárias argentinas: uma primeira análise

    Por: Renato Fernandes, de Campinas, SP

    Nesta terça-feira (15), o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, fez uma visita à Argentina. Em um dos seus discursos, na Bolsa de Valores, parabenizou “as reformas políticas e econômicas” do governo neoliberal do presidente Mauricio Macri  e disse que o “modelo da Argentina é o futuro” de toda a América Latina.

    Essa visita, para Macri, aconteceu numa boa hora: nas primárias disputadas no último domingo, 13, a coalizão Cambiemos do presidente ganhou em 12 das 24 províncias do país. Os emblemas dessas primárias foram a vitória do ministro da educação Esteban Bullrich (34,19%) nas eleições para o senado sobre a ex-presidenta Cristina Kirchner (34,11%) na província de Buenos Aires e a ampla vitória da lista ligada a Cambiemos e encabeçada por Lilita Carrió na capital Buenos Aires com 49,55% frente a lista de Union Porteña (peronistas ligados a Cristina) com 20,73%.

    Dois elementos são centrais para compreendermos as primárias e também o entusiasmo de Pence com a Argentina. O primeiro, e mais importante, é que o giro neoliberal no campo eleitoral parece se consolidar na Argentina e fortalece as frações políticas burguesas que defendem as políticas de austeridade e de retirada de direitos como a contrarreforma trabalhista que já está sendo discutida no país. Esse fortalecimento é regional: Temer no Brasil, a direita venezuelana, entre outras frações políticas que são expressão concreta deste giro nos governos latino-americanos. É justamente o fortalecimento desta fração política que tanto entusiasma Pence e setores da burguesia imperialista.

    O segundo elemento é que o peronismo está dividido e sem uma liderança capaz de unificá-los. Essa divisão não é de agora, porém se aprofundou nos governos Kirchner (2003-2015). Na maior parte das províncias, a maioria da população votou nos setores peronistas: a Unidade Ciudadana (Kirchner), 1País (Sergio Massa) e do Partido Justicialista (Florencio Randazzo) ganhariam as eleições. Apesar da vitória nacional de Cambiemos, a projeção realizada a partir das primárias é que a lista oficialista consiga 104 deputados enquanto o peronismo unificado conseguirá 137 do total de 257.

    É por isso que todos os setores da oposição, incluindo o peronismo, farão campanha com a ideia de que a maioria da população argentina votou contra “o governo e a austeridade”. É importante ressaltar que os setores peronistas, em determinado sentido, foram vítimas das suas próprias políticas. Tanto na Câmara de Deputados, quanto no Senado são os setores peronistas que estão garantindo a aprovação das principais medidas do governo de Macri. Esse apoio velado em nome da governabilidade do país parece ter sido castigado nas urnas e fortalecido ainda mais a coalização governamental. Porém, isso ainda são as primárias e até outubro, data das eleições oficiais, ainda tem muita coisa para acontecer.

    As eleições na esquerda socialista
    É neste marco do fortalecimento da fração política governamental e da divisão do peronismo que devemos localizar os resultados da esquerda socialista e radical: de um lado a Frente de Izquierda y de los Trabajadores (FIT), composta pelo Partido Obrero (PO), o Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS) e a Izquierda Socialista (IS) e do outro lado, a Izquierda al Frente por el Socialismo (IAF), composta pelo Nuevo MAS e o Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST).

    A FIT obteve quase 1 milhão de votos em todo o país, crescendo 30% em relação a PASO de 2015. Ao todo a FIT ou seus partidos componentes se apresentaram em 22 províncias, conseguindo em 21 dessas passar o piso proscritivo de 1,5%. Em algumas delas, como Jujuy, obteve 12,55% na lista de deputados, duplicando os resultados obtidos em 2015. Na província de Santa Cruz, governada por Alicia Kirchner, cunhada de Cristina, a FIT obteve 8,25%, colocando-se como terceira força política da província. Em Córdoba, a FIT conseguiu 4,32%, enquanto em Neuquén obteve 6,7%.

    Em Buenos Aires, os números da FIT foram mais baixos e muito próximos para garantir, se repetirem a votação em outubro, um deputado para a FIT: 3,62% na província e 3,79% na capital. Apesar deste crescimento na votação, que é importante, as projeções para a FIT não são das melhores: ao contrário do anunciado no início das eleições, a projeção atual é que a FIT consiga apenas um deputado, mantendo o mesmo número no parlamento – caso não consiga aumentar as votações entre as primárias e a eleição oficial.

    A IAF não teve o mesmo sucesso da FIT, apesar de que devemos considerar que houve um crescimento da votação dos dois partidos que compõem a frente: comparando com 2015, no qual os dois estavam separados, subiu a votação de quase 200 mil para quase 300 mil votos nacionais. No total, foram 12 províncias em que conseguiram passar o piso proscritivos se considerarmos todas as regiões nas quais a IAF ou um de seus partidos componentes participaram (sendo que na província de Santa Fé, o MST compôs a Frente Social y Popular com organizações neorreformistas).

    O principal revés da IAF aconteceu em Buenos Aires: na província, Manuela Castañera ficou com  1,14%, enquanto na capital Alejandro Bodart conseguiu quase 1% não conseguindo ultrapassar o piso proscritivo. Uma das razões dessas derrotas no terreno eleitoral está na hegemonia da FIT, que está muito mais consolidada e também a novidade que é a IAF. No entanto, algumas derrotas têm explicações particulares, como a votação em outras listas de esquerda, como a encabeçada por Luis Zamora de Autodeterminación y Libertad (AyL) que disputou na capital em Buenos Aires tendo obtido 3,69%, superando a PASO e capturando votos da esquerda socialista e radical.

    Uma primeira conclusão a se tirar é que o espaço da esquerda radical e socialista em todo país é expressivo, dado que esse espaço é ocupado por organizações que se reivindicam trotskistas. É nesse sentido que, com mais força que antes, as eleições primárias demonstraram a necessidade de maior unidade entre essa esquerda socialista e radical. A unidade de forças entre FIT e IAF poderia significar muito mais do que os quase 1,3 milhões de votos que conseguiram separadas – esse índice é de aproximadamente 5,4% do eleitorado que participou da PASO (pouco mais de 24 milhões).

    Poderiam ser uma alternativa política eleitoral para o país neste momento em que, apesar de reforçada, a direita neoliberal não detém a maioria do país e  o peronismo está dividido. Essa unidade, que para nós deve ir para além das eleições e se expressar em outras lutas políticas e sindicais, seria um grande passo em frente num momento que o imperialismo busca avançar ainda mais sobre nossas economias como declarou abertamente Mike Pence. Além disso, essa unidade mais ampla seria um grande exemplo para esquerda socialista e radical internacional que tem suas esperanças jogadas neste espaço construído e conquistado pela esquerda argentina.

  • Charlottesville é um chamado para a ação contra o fascismo

     

    Katherine Nolde, Richard Capron e Scott McLemee juntam relatos de participantes do conflito violento entre a extrema-direita e antirracistas em uma cidade na Virgínia.

    Artigo publicado em Socialist Worker (diário digital impulsionado pela ISO) em 14 de agosto de 2017

    Vigília em Oakland, Califórnia, em solidariedade com Charlottesville. (Stephen Lam | Reuters/Newscom)

    Tradução de Pedro lhullier Rosa

    A manifestação de extrema-direita em Charlottesville, Virgínia, no dia 12 de agosto – provavelmente a maior congregação em público da racista alt-right, ou “direita alternativa” – foi clara evidência das forças sanguinárias nutridas e encorajadas por Donald Trump durante os últimos dois anos.

    E teve consequências letais. Uma manifestante antifascista foi morta e mais de vinte feridos quando um terrorista neonazista acelerou seu carro para cima de uma contramanifestação liderada por organizações de esquerda, incluindo a International Socialist Organization (ISO), os Democratic Socialists of America (DSA) e os Industrial Workers of the World (IWW), entre outras.

    Trump proclamou uma condenação fajuta de “ódio, intolerância e violência de muitos lados” que não enganou a ninguém – especialmente a extrema-direita. “Ele se recusou a falar qualquer coisa sobre a gente.” um site racista comemorou. “Quando os repórteres estavam gritando com ele sobre o nacionalismo branco ele simplesmente saiu da sala.”

    Então os fascistas veem Trump como um dos seus – e por bom motivo.

    Mas o ódio mostrado em Charlottesville – e promovido por quem manifesta o supremo ódio na república – está despertando as pessoas por todo o país.

    As notícias do atropelamento terrorista criaram uma onda de solidariedade – dentro de horas, haviam vigílias e protestos em dezenas de cidades, seguidos por mais no dia seguinte, e ainda mais estavam sendo organizados para os próximos dias. Ao final do domingo, as pessoas tinham adotado posições solidárias com Charlottesville em centenas de cidades.

    Estas pessoas que mandaram mensagens de protesto não apenas expressaram repulsa pelo ódio dos fascistas e horror pela sua violência, mas também entenderam a necessidade de se defrontar com essa ameaça antes que possa causar mais sofrimento e tomar mais vidas.

    Charlottesville mostrou o grave perigo que enfrentamos na forma de uma extrema-direita encorajada. Mas também está revelando o potencial de mobilizar uma oposição de massas ao seu ódio, seja este expressado nas ruas ou na Casa Branca.

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    Os milhares que se mobilizaram contra a agenda de Trump nos últimos meses estão tornando impossível para a extrema-direita dizer que representa mais que uma pequena parcela da população estadunidense.

    Quando o Ku Klux Klan veio a Charlottesville no mês passado, para protestar contra a remoção e a substituição da estátua do general confederado Robert E. Lee de uma praça pública, atraiu cerca de 50 apoiadores – e 20 vezes mais manifestantes antirracistas.

    Sentindo-se humilhados por isso, grupos de extrema-direita anunciaram outra manifestação em agosto. A prefeitura deu permissão aos organizadores da “Unite the Right” (Unir a Direita) para usarem o Emancipation Park na cidade neste último sábado – uma tentativa de último minuto de revogar a permissão foi derrubada por um juiz com base em uma apelação da American Civil Liberties Union (ACLU). Também foi dada permissão aos contramanifestantes para que se reunissem a algumas quadras de distância no Justice Park.

    A extrema-direita veio a Charlottesville atrás de uma briga, e começou suas atividades na sexta de noite com uma passeata à luz de tochas no campus da Universidade da Virgínia. Gritando “Heil Trump” e “vocês não vão nos substituir” – às vezes trocado para “os judeus não vão nos substituir”, com sonoridade parecida no inglês – alguns usaram suas tochas acesas para ameaçar o pequeno grupo de manifestantes antirracistas que os confrontaram no campus.

    Se os racistas pensaram que teriam a mesma força sobrepujante ao seu lado no próximo dia, estavam errados. Os fascistas estavam em minoria em relação a seus oponentes, que iam de contingentes Antifa e da esquerda radical a organizações antirracistas mais moderadas. Mas a vantagem antifascista não foi tão grande quanto poderia ter sido.

    Grupos de cada lado fizeram marchas na linha de visão do outro na manhã de sábado, e houveram conflitos isolados, levantando uma atmosfera de confusão e incerteza.

    Quando um grupo de militantes da ISO se aproximou da entrada sudoeste do Justice Park, onde acontecia o contraprotesto, encontraram um grupo de homens brancos jovens de guarda, com fuzis automáticos e faixas vermelhas amarradas no pescoço. O medo inicial se dissipou quando os socialistas foram recebidos com vivas e apertos de mão – estes eram membros da Redneck Revolt, um recém-formado grupo de autodefesa da classe trabalhadora do sul estadunidense.

    As polícias local e estadual estavam presentes, mas não intervieram quando os direitistas ameaçaram os contramanifestantes. De acordo com um relato do jornal ProPublica:

    “Em um desses inúmeros conflitos, uma multidão raivosa de supremacistas brancos formaram uma linha de batalha defronte a um grupo de contramanifestantes, muitos destes idosos e de cabelo grisalho, que tinham se reunido perto de um estacionamento de igreja. Quando seu líder deu o comando, os rapazes deram uma investida e agrediram sem freios seus inimigos ideológicos. Uma mulher foi jogada na calçada, e o sangue surgiu instantaneamente na sua cabeça ferida.

    Nas redondezas, uma tropa de policiais municipais e estaduais fardados com trajes de proteção observaram em silêncio por trás das suas barricadas de metal – e não fizeram nada.”

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    Quando o governador da Virgínia Terry McAuliffe declarou um estado de emergência às 11 da manhã, a Guarda Nacional entrou em cena. A polícia dispersou a extrema-direita da sua posição no Emancipation Park – mas isto levou a grupos ambulantes de racistas buscando briga nas ruas ao redor.

    Os contramanifestantes receberam a informação de que os fascistas estavam a caminho de uma parte da cidade com uma concentração de habitação pública para acossar os residentes de baixa renda.

    Uma marcha foi organizada espontaneamente em defesa da comunidade. “Os sentimentos de incerteza e vulnerabilidade mudaram imediatamente para confiança e autoridade.” disse um membro da ISO que participou do ato. “Não íamos deixar os fascistas controlarem o dia.”

    Cerca de 300 antifascistas marcharam e cantaram em formação estreita, parando logo antes de virar a esquina da rua onde as moradias estavam localizadas. Mas, ao chegar, não encontraram os direitistas. Um organizador pertencente à comunidade foi à frente da marcha e tomou o megafone, pedindo uma retirada para diminuir as chances de trazer a polícia para a região.

    O grupo fez seu caminho de volta ao centro da cidade e encontrou outro contingente de contramanifestantes tomando a rua em um humor exaltado. Os grupos se uniram e começaram a subir a lombada em direção ao Justice Park, planejando comemorar sua aparente vitória em expulsar os direitistas.

    Estavam na metade da subida quando de repente surgiu algo que soou como uma batida ou uma explosão. Corpos voavam, e pessoas gritavam. Um carro tinha atropelado a multidão a toda velocidade, e então subido a colina em marcha ré e saído de vista.

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    No caos, as pessoas fizeram o melhor que puderam para manter a compostura, tomar controle da situação e chamar os médicos que monitoravam a marcha. Tiraram os feridos da rua – para evitar o perigo de outro ataque veicular – e chamaram ambulâncias.

    O que veio no lugar delas foi um tanque policial. Um homem de farda militar subiu a escotilha com uma arma feita para atirar bombas de gás lacrimogênio. Três viaturas vieram atrás dele, junto com um batalhão de choque. A polícia fechou a área, e os manifestantes se dispersaram.

    Foi relatada depois a prisão e acusação de um homem do estado de Ohio, James Fields Jr., por homicídio doloso, três ocorrências de lesão corporal dolosa, e por não parar na cena de um acidente automobilístico resultante em óbito. Fotos anteriores daquele dia mostram o assassino brandindo um escudo com o símbolo do grupo neonazista American Vanguard.

    O carro de Fields matou a natural de Charlottesville Heather Heyer, de 32 anos, que trabalhava como paralegal e era devotada apaixonadamente à justiça social.

    Um vizinho diz que “ela viveu sua vida como o seu caminho – e foi pela justiça.” A mãe de Heather, Susan Bro, irrompeu em lágrimas ao dizer a um jornalista do HuffPost: “De alguma maneira eu quase sinto que é isto que ela nasceu para ser, um ponto focal para a mudança.”

    Mais de vinte outras pessoas foram gravemente feridas. Bill Burke, militante da ISO de Athens, Ohio, estava entre os que foram levados do local em uma ambulância, dada a preocupação de que tivesse sofrido ferimentos na espinha dorsal. Ele não tinha, mas precisou receber monitoramento para dano cerebral e foi tratado de uma concussão, além das dilacerações em seu rosto e da escoriação de seus braços e pernas.

    Burke recebeu alta do hospital no fim da tarde de domingo e espera-se que se recupere completamente. Ele mandou esta mensagem a outros militantes da ISO:

    “Aprecio o apoio e a solidariedade de todos. Espero que o que os fascistas fizeram sirva para despertar o nosso lado. Racismo, machismo, homofobia, transfobia e capacitismo: a direita representa as piores partes do sistema capitalista. Se realmente queremos impedi-los, precisamos nos organizar melhor e lutar em solidariedade contra toda a opressão. No final, precisamos de um mundo que funcione para as pessoas, não para o lucro.”

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    Que o ataque veicular foi proposital parece óbvio a todos além de tipos como Donald Trump.

    Mas qualquer um que ainda tenha dúvidas deveria considerar um meme da alt-right que surgiu meses antes do confronto em Charlottesville. Mostra o desenho de um carro atropelando três pessoas com a legenda “ALL LIVES SPLATTER” (“todas as vidas se espatifam”, um trocadilho com a palavra de ordem da direita “todas as vidas importam” – por sua vez uma reação à frase do movimento negro “vidas negras importam”). A outra legenda diz “Ninguém liga para o seu protesto. Tire sua bunda da rua”.

    Tudo isto segue o espírito do terrorismo “divertido” de Trump – com sua “piada” de oferecer o pagamento das contas jurídicas de seus apoiadores caso eles agridam manifestantes, e suas referências “irônicas” à ideia de assassinar candidatos adversários. Esta retórica tem encorajado reacionários como os portadores de tocha que, sexta à noite em Charlottesville, quiseram fazer lembrar os comícios de Nuremberg da década de 30.

    Sua violência repulsiva já trouxe uma erupção de protestos antirracistas ao redor dos EUA. Mas não podemos parar por aí. Precisamos de um movimento permanente que se mobilize a confrontar a extrema-direita com números muito maiores toda vez que tentarem aparecer – e que organize uma alternativa da esquerda radical à política fascista de desespero e bodes expiatórios.

    Como um participante dos protestos antifascistas de Charlottesville escreveu na internet:

    “Para controlar as ruas, precisamos enchê-las. Se tivéssemos pessoas cobrindo cada centímetro do centro de Charlottesville, não teríamos ficado tão vulneráveis.

    Para desmobilizar o movimento fascista, eles precisam ser postos em desvantagem numérica e expulsos com força física… isole-os, desmoralize-os.

    É de quebrar o coração que os contra-manifestantes em Cville tinham recém começado a sentir um ar de confiança e unidade de ação [antes do ataque]…. Dois contingentes, duas multidões marchando convergiram no centro e estavam a caminho do Justice Park para comemorar, finalmente tendo se organizado após terem ficado divididas entre muitos locais.

    Este é o objetivo da extrema-direita: aterrorizar, intimidar e destruir as organizações dos trabalhadores e da esquerda, e qualquer outro que eles julguem uma ameaça.

    Não podemos deixar que eles se ancoragem mais pelo que aconteceu hoje.”

    Alan Maass contribuiu a este artigo.

  • Apoie a esquerda ferida em Charlottesville

    Publicado originalmente na página da ISO (Internacional Socialist Organization) dos EUA
    Tradução: Aldo Sauda (Equipe Esquerda Online)

    Um membro da regional de Atenas, em Ohio, da Organização Socialista Internacional (International Socialist Organization, ou ISO) que participava dos protestos anti-fascistas em Charlottesville, Virginia,  no dia 12 de agosto, está entre as 20 pessoas feridas por um miliciano fascista que atirou seu carro em um contra-protesto, assassinando ao menos uma pessoa e ferindo diversas outras.

    A regional de Athenas da ISO criou uma página de doações no YouCaring para ajudar a cobrir os gastos médicos do camarada. Criou-se uma página GoFundMe para receber doações a todos os feridos em Charlottesville. Em poucas horas, ela juntou mais de $100.000 dólares.

    Outro fundo foi criado em memória a Heather Heyer, morta no ataque fascista, em apoio à sua família.

    Por favor, doe a estes fundos: o ataque a um é um ataque a todos.

  • Alguém tem que tomar um lado

    “Vários lados” não estão promovendo racismo e ódio. Um lado está. E o nosso é comprometido em pará-lo

    Por: Shuja Haider (traduzido por Gleice Barros – Equipe Esquerda Online)
    Originalmente publicado na Jacobin Magazine

    Ontem, o ato da organização Unir a direita, em Charlottesville, Virginia, reuniu grupos de supremacia branca de todo o país para exibir seu volume, em ambos sentidos da palavra. Eles trajavam figuras ridículas a principio, vestidos em calças de sarja e camisas polos, brandindo velas de citronela e gritando estranhamente.  Sua presença foi recebida por uma forte oposição, composta por representações locais de Black Lives Matters [Vidas Negras Importam], Socialistas Democratas da América, Trabalhadores Industriais do Mundo e outros grupos. Mas o ato seguiu para um caminho violento. Um jovem branco nacionalista chamado James Alex Fields Jr dirigiu sua Dodge Challenger prateada sobre a multidão de contra manifestantes, deixando muitos feridos e pelo menos uma jovem morta.

    Pouco depois, o presidente Trump fez uma declaração de seu campo de golfe em New Jersey. “Condenamos, nos mais fortes termos possíveis, esta exibição flagrante de ódio, intolerância e violência de vários lados”, disse após acrescentar novamente “de vários lados”.

    O termo “vários lados” parece descrever corretamente o sentido legitimo de vários observadores. Em um confronto entre racistas e antirracistas, cujas ações racistas resultam em mortos e feridos entre os antirracistas, a conta parece não bater quando se diz existirem múltiplos lados equivalentes.  A reticência do presidente Trump traz um viés reacionário que não é surpresa. Mas sua retórica não é exclusiva – a grande mídia e intelectuais liberais já tinham estabelecido o precedente.

    Na manhã anterior à manifestação, Mieky Eoyang, vice-presidente do Programa de Segurança Nacional da organização centrista Third Way, tuitou “Se os amigos de Bernie [Sanders] querem fazer um show de forças em defesa de valores progressivos, sábado em Charlottesville será um bom momento”.

    Neera Tanden, presidente da organização liberal Centro para o Progresso Americano, se virou com desdém para a esquerda, mais tarde, no mesmo dia. “Temos verdadeiros fascistas marchando com tochas. Talvez cada um que esteja do lado progressivo deva se focar nos inimigos do progresso à nossa frente”, tuitou. “Estamos prontos para nos juntar a Neera”, disse em resposta um jovem ativista. A resposta de Tanden foi chamá-lo a condenar “aqueles da esquerda que desejam se juntar aos fascistas”.

    Ao anoitecer, Sheyl Gay Stolberg, jornalista do New York Times que se reportava de Charlottesville, tinha tuitado “a extrema esquerda parece ter o mesmo ódio que a extrema direita”.

    Esta falácia centrista apareceu anteriormente neste ano, em um artigo de James Wolcott na Vanity Fair, em que aponta o dedo para os chamados alt-left (extrema esquerda). Wolcott também direciona seus julgamentos a vários lados.  Ele caracteriza o crescimento da esquerda radical e socialista, formalmente desprezada com um mais esclarecido apelido: amigos de Bernie, como algo mais sinistro. Existe um “parentesco”, alega, entre a extrema esquerda e a supremacia branca da ultra-direita. Elas são unidas pela “desilusão com a presidência de Obama, repúdio a Hillary Clinton, desgosto com identidades políticas e um desejo de mudança que irá abrir caminho para um futuro melhor”.

    A tocha vem sendo levada por liberais centristas desde então. Apenas uma semana antes do ato da Unidos pela Direita, o periódico Atlantic publicou um artigo de Peter Beinart criticando o “Surgimento da Violência Esquerdista”.  Beinart focou nos “antifa” que se refere a grupos táticos de ativistas de esquerda dedicados a defender a si mesmo e seus companheiros da violência fascista. “As pessoas que impedem republicanos de se reunirem em segurança nas ruas de Portland podem se considerar fortes adversários do autoritarismo crescente da direita americana” escreveu. “Na verdade, eles são os aliados mais indesejados”.

    No dia anterior a manifestação, o Wall Street Journal publicou um extrato de um livro a ser lançado de Mark Lilla, The Once and Future Liberal, que sugere que os antirracistas de esquerda criaram uma força centrifuga, causando um movimento em espiral e dissipação em facções. Mesmo que levemos em conta sua complicada metáfora, que se baseia em um conceito inexistente para a física moderna, esta o leva a perigosas conclusões.

    “Vidas Negras Importam é um exemplo escrito de como não construir solidariedade” Lilla escreve. “Não sou um motorista negro e nunca vou saber como é ser um. Se eu vou ser afetado por essa experiência, eu preciso de algum jeito de me identificar com ele, e cidadania é a única coisa que conheço que compartilhamos”.

    Isso não é apenas um fracasso da imaginação, embora com certeza seja. É um fracasso moral e estratégico também. Oferece nenhuma distinção significativa da politica de Donald Trump, que, depois da violência em Charlottesville, tuitou: “Temos que lembrar a verdade: não importa nossa cor, credo, religião ou partido politico, somos PRIMEIRO TODOS AMERICANOS”.

    A primeira declarada morta em Charlottesville foi Heather Heyer, uma advogada de 32 anos, que aparentava pela sua pagina no Facebook ser uma apoiadora de Bernie Sanders. “Se você não está indignado, você não está prestando atenção”, disse em sua ultima postagem.  A mesquinharia de ridicularizar os ‘amigos de Bernie’ ou comparar a esquerda a ultradireita se torna ainda mais ofensivo a luz da coragem de Heather e da tragédia que se sucedeu.  Olhando para circunstancias como estas e vendo “vários lados”, indistinguíveis uns dos outros, numa posição que a historia revelou nada além de covardia moral.

    Esta posição é o objetivo do romance de Graham Greene, O Americano Tranquilo, que segue Thomas Fowler, um jornalista da colonial Vietnã dos anos 1950 e que se dedica a permanecer a qualquer situação. Seu amigo um agente disfarçado da CIA chamado Alden Pyle, que defende vários políticos centristas que chama de “Terceira Força” – que se opõe tanto ao comunismo quanto ao colonialismo, vendo-os como ameaças equivalentes.  Quando Fowler descobre que Pyle estava envolvido em um ato de terrorismo em Saigon, detonando um carro bomba e matando civis, ele vai falar com um membro do partido comunista que conhece como Senhor Heng.

    “Mais cedo ou mais tarde… alguém tem que tomar um lado – se este alguém quer se manter humano”, Heng diz a ele.

    O centrismo liberal tem que prestar atenção no mesmo aviso. A fim de rejeitar os equívocos de Trump sobre “vários lados”, nós temos que escolher um.  Existe um lado que reivindica nossa humanidade comum e luta contra o fascismo, racismo e ódio. Foi representado em Charlottesville por grupos de esquerda que tomaram as ruas para enfrentar a ultradireita. O outro lado é aquele que levou vidas inocentes naquelas mesmas ruas.  As apostas são altas e temos que escolher.

  • About the critical situation in Venezuela

    Editorial Left Online, published in August, 5.

    Translation: Marcio Drumond

     

    Today, 5th August, the Venezuela’s National Constituent Assembly works start. However, the main imperialist countries do not recognize the elections held on the 30th. Donald Trump’s government has adopted sanctions against President Nicolas Maduro. The Secretary General of the Organization of American States (OAS/OEA), Luis Almagro, declared the elections are illegitimate. Mercosur, led by Brazil (Temer) and Argentina (Macri), announce new sanctions against the country. The European Union, especially Spain, did not recognize the legitimacy of the elections either. For the socialist left movement, those facts should say a lot by themselves.

    Yesterday, 4th August, the right-wing opposition alliance MUD (Democratic Unity Roundtable), held a new protest march against the inauguration of the constituent deputies. The fact is that today the siege of the country has reached one of its highest points.

    But truth be told: the responsibility for this situation largely lies with Chavism itself. Almost 20 years after Hugo Chávez was elected for the first time in 1998, the so-called Bolivarian socialist revolution did not take any serious action against capital. With that, Chavism was unable to change the country’s economic structure.

    Venezuela continues to depend on oil exports and still imports almost everything. Oil revenues continued to account for about one-third of its GDP, 80% of export revenues and more than half of state funding. Without the resumption of agricultural production and without a national industry, the country continued to import more than 90% of products, goods, and services.

    With the rise of oil prices started in the first decade of the 2000s, rather than structural changes, Chavismo favoured an agreement with sectors of the bourgeoisie and the accomplishment of compensatory social policies. It is true that they significantly raised the country’s HDI. But, predictably,, without structural changes, this advance was fleeting. With the fall in oil prices, the country began to come down. In 2013-2014 a recession began and, with that, popular discontentment. This is one of the main explanations for MUD’s victory in the 2015 legislative elections.

    Despite the disastrous policies of Chavism, which finished paving the way for the right-wing counter-offensive, we cannot forget that the aim of imperialism is to resume direct control of the country, particularly its oil reserves. To achieve that, they need to remove the government by putting an end to any mediations.

    The rise of Chavism was possible due to the heroic struggle of the Venezuelan people that has become a reference since the famous 1989 popular rebellion, known as “Caracazo.” That process allowed Venezuela to become a country politically more independent of imperialism. The counterrevolutionary offensive underway aims to not only defeat the government, but completely subordinate the country and mainly push back the advance of popular struggles, not only in Venezuela but across the whole Latin American region.

     

    The rise of the right-wing and pro-imperialist groups

    Since their victory in the December 2015 legislative elections, MUD has launched a campaign to oust President Nicolás Maduro. With no majority in the National Assembly, the government started to rely on the judiciary to govern. During 2016, the opposition tried to interrupt the presidential term by means of a recall referendum. The Supreme Court of Justice (TSJ) prevented that attempt. At the beginning of 2017, MUD began to demand the anticipation of the presidential elections declaring the government incompetent, for abuse of power.

    Hounded by the opposition, and instead of resorting to popular power, Maduro attempted to withdraw the legislative power from the National Assembly, transferring that to the TSJ. Three days later he retreated, and shortly thereafter, on 1st May, he called the elections for a National Constituent Assembly on 30th July.

    However, this initiative that could be a strong resumption of the offensive against the right-wing campaign, has been undermined by the government’s bureaucratic control over the electoral process. Left-wing forces, independent groups and activists have faced strong obstacles to nominating and legalizing their candidacies. A little bit more than 5 thousand candidates of the 55 thousand enrolled have obtained their nomination. Almost all the candidates of the Communes and the trade unions, popular, peasant and indigenous sectors are directly connected to the government. A process that is not supported by a broad democracy prevents the necessary unity to face the right-wing, besides  diminishing the strength and legitimacy of the Constituent Assembly itself.

    The opposition wasted no time. They decided to intensify the mobilizations and confrontations through lockouts, marches and barricades (“guarimbas“) to prevent the elections. There were cases of Chavists burned alive and candidates being murdered. The government carried out marches and mobilizations, while repressing the opposition demonstrations through the National Guard and the Popular Collectives, also increasing the number of victims. According to some sources, these clashes have already resulted in around 120 deaths between April and July of this year.

    In a climate of very high pressure, with barricades and without transport, the elections took place. Then came the accusations of fraud. Despite all of that, the National Constituent Assembly has been settled and today begins its work. The Imperialism increases the siege, while some sectors already wave with the possibility of negotiation.

     

    The challenge for the left socialist movement

    The revolutionary socialists must fight to build an alternative to both the Maduro government and the right-wing opposition. The strategy must be the overcoming of Chavism. To do so, it is necessary to strengthen the social forces of the revolution by relying on both the defence of a working-class and socialist program and the mobilization, self-organization and self-defence of the working class and popular masses.

    However, in this moment of extreme polarization, the construction of this alternative is put at the forefront of the struggle to defeat the counterrevolutionary offensive of the right-wing, the OAS (Organization of American States) and imperialism. A socialist and revolutionary alternative is not built from a third field that in practice does not exist. Doing so is falling into pure abstentionism. The unity of action necessary to defeat the counterrevolution does not mean to grant any illusions into Maduro’s government. It is the same political location when we stood against Dilma’s impeachment. As is well known, that did not mean supporting the policy, much less the Dilma-Lula-PT class reconciliation project.

    There are some left-wing forces that are currently seeking to overthrow Chavism struggling in the right-wing opposition terrain, and they are wrong. In fact, that is an even more serious mistake than at this time equalling government and opposition. By placing themselves in the trenches of the right-wing opposition, defending the fall of the government and boycotting the Constituent Assembly, they lose all class criteria, confusing revolution with counterrevolution. We do not build an alternative in unity of action with MUD or imperialism. This is not the case where we must strike together and march apart.

    In those dramatic times Venezuela is passing through, the Latin American left has as its main task helping to defeat the counterrevolutionary offensive. It is urgent that the working class and the sister nations act and call for solidarity actions in all the necessary ways.

     

    At the same time, it is necessary to demand from the constituent deputies a socialist solution for the country. It is urgent that the character of the current Constitution protecting private property, financial trades and profit be modified, precepts on which exploitation, oppression and social inequality are based.

    The new constitution should ensure the adoption of measures such as the nationalization of foreign companies, the immediate expropriation of the right-wing putschist companies, a 100% state PDVSA under the control of the workers. It is essential that the State assumes control of trade and distribution. Along with this is the need to nationalize the financial system. This is the only way to combat speculation and prevent capital flights. The suspension of the payment of the external debt – to date punctually paid despite the immense crisis that penalizes the country – is vital for investments in infrastructure, housing, health, and education. Finally, it is necessary to democratize the Armed Forces and a State based on workers’ and popular power.

    These are, in short, some of the main challenges of the socialist left in Venezuela

     

  • C-Star: quando o neofascismo se lança ao mar

     

     

    Renato Fernandes, Campinas (SP)

     

    Pescadores em Nasri, Tunísia, mobilizados contra o C-Star; Crédito: Fathi Nasri

     

    C-Star é um navio de porte médio, 40 metros, navegando no Mar Mediterrâneo. A bordo estão militantes da extrema direita do grupo neofascista Génération Identitaire (Geração Identitária). O objetivo deles é fazer com que os botes e barcos com imigrantes vindos da África retornem para lá, impedindo dessa forma a entrada dos mesmos em território europeu. Isso faz parte de uma missão intitulada “Defender a Europa” organizada por militantes italianos, alemães e franceses que arrecadou € 76 mil numa “vaquinha virtual” (crowdfunding). O discurso deles é humanitário, já que estariam “combatendo o tráfico humano”.

    Esses militantes da extrema direita tentam passar a ideia que eles combatem os navios e barcos das Organizações Não-governamentais (ONG), como a dos Médicos Sem Fronteiras, que prestam auxílio e ajudam os imigrantes na travessia desumana que fazem pelo Mar Mediterrâneo que muitas vezes acaba em tragédia. Um desses militantes neofascistas, em vídeo divulgado na internet, acusa as ONG’s de permitirem a entrada ilegal dos imigrantes em território europeu, sendo cúmplices do tráfico humano e dizem que a missão deles é conduzir os imigrantes “para a costa africana”.

     

    Quem é a Geração Identitária?

     

    O movimento Geração Identitária é em determinado sentido a continuação de movimentos neofascistas europeus dos anos 1990 e 2000. Criado em 2012, o movimento ganhou projeção nacional com a ocupação de uma mesquita, em outubro do mesmo ano, na região francesa de Poitiers. O local foi escolhido, pois em 732, o general Charles Martel venceu os muçulmanos na região

    A partir de então, o movimento foi aumentando como produto da crise econômica e social que atravessa a França desde 2008/9 e também como fator de crescimento das ideias dos nacionalistas de extrema direita, cuja principal expressão é o partido Front National (FN) e sua candidata Marine Le Pen que foi derrotada no segundo turno das últimas eleições presidenciais.

    Entre as principais atividades que a Geração Identitária faz estão a “Geração Solidariedade” que distribui alimentos para moradores de rua franceses (não-imigrantes) em cidades como Paris, Lyon, Flandres, entre outras. A atividade da “Geração anti-escória” (anti-racaille) é uma atividade para promover treinamento de auto-defesa contra a “falência” do Estado francês em garantir segurança, além de vigílias contra a “escória” em metrôs de grandes cidades. Realizam também protestos, como o de março de 2016 em Calais, onde bloquearam durante 3 horas a estrada que ligava a cidade de Calais, ao norte do país, com o grande acampamento de imigrantes que existia no local.

    Todas essas ações demonstram que a Geração Identitária não é um simples movimento de disputa da democracia burguesa. Suas ligações com a FN são óbvias, porém eles são um movimento independente do partido da extrema direita. O projeto deles é claramente neofascista: utilizar-se de métodos violentos e antidemocráticos para garantir uma “França para os franceses”.

     

    Um barco ilegal e a necessária resposta democrática

     

    Os pescadores de Zarsis, no sudeste da Tunísia, organizaram-se para impedir que o C-Star atracasse no porto da cidade, no dia 7 de agosto. Seguindo essa política, a principal central do país, a União Geral dos Trabalhadores Tunisianos (UGTT) lançou um apelo no mesmo dia para que nenhum trabalhador deixasse o C-Star atracar em portos do país. Desde então, a embarcação está parada nas costas tunisianas, já que a mesma não consegue atracar em nenhum porto da região.

    Conforme relata o jornal francês Le Monde, do ponto de vista do direito marítimo internacional, toda a operação do C-Star é ilegal, incluindo as manobras que realizou próximo ao navio Aquarius (ligado a ONG SOS Mediterrâneo), em 5 de agosto, que poderia ter causado um acidente marítimo.

    Mesmo que temporariamente derrotados, é necessário observar a força que esse neofascismo vem ganhando na Europa a ponto de saltar de “pequenas ações” em seus países para grandes ações nos mares por meio de uma arrecadação coletiva. Além disso, é necessário exigir a abertura das fronteiras europeias pois, ao contrário do que pensam esses neofascistas, nenhum ser humano é ilegal!

  • OPINIÃO | Com a rebelião na Venezuela, com a ditadura na Turquia

    Por: Miguel Alvarez-Peralta, da Espanha
    Tradução: Edmilson de Jesus Silva Júnior, para o Esquerda Online

    Maravilha-me comprovar a solidariedade militante de nossa Direita e de alguns jornais tradicionais quando se trata da Venezuela. De uns tempo pra cá, estes se converteram em incansáveis ativistas dos Direitos Humanos, solidários com a luta dos manifestantes da oposição caraquenha. Oxalá, estendam essa sensibilidade a outros territórios. Surpreende ver nossos conservadores, supervenientes revolucionários, apoiando um movimento cívico-militar armado que conta com barricadas nas avenidas e bombardeia as instituições com helicópteros.

    Entretanto, deixemos Caracas e vamos a Estambul. Na Segunda-feira, dia 24 de julho, começou o julgamento político de 18 jornalistas, cartunistas, advogados e editores do jornal Cumhuriyet, crítico  ao Regime (perdão, Governo) de Erdogan. Alguns estão presos há quase um ano. As acusações podem lhes custar entre 7 (sete) e 43 (quarenta e três) anos de prisão. Seu editor chefe, Can Dündar, ganhador do Prêmio Internacional a de Liberdade de Imprensa de 2016, foi sentenciado, em maio, a seis anos de prisão por “revelar segredos de Estado” em suas reportagens sobre a Síria. Hoje, eles são acusados de apoiar grupos terroristas curdos (os mesmos grupos que o Ocidente considera heróis, quando enfrentam o Estado Islâmico no Curdistão iraquiano, por sinal). A imprensa livre internacional denuncia que esta é uma desculpa: sendo uma reação dentro da onda de repressão desencadeada após a falida tentativa de golpe de Estado ocorrida na Turquia, apenas um ano atrás.

    Desde então, de acordo com o Index of Censorship, mais de 2.000 (duas mil) Escolas, Residências Universitárias e Universidades foram fechadas na Turquia e 8.000 (oito mil) professores universitários demitidos. Alguns deles passaram mais de três meses em greve de fome. Idil Eser, Diretor da Anistia Internacional na Turquia, foi preso na semana passada, também acusado de colabor com grupos terroristas. Há ainda Mandado de Prisão contra Enes Kanter, jogador turco da NBA (liga de basquetebol profissional norteamericana), também é acusado de filiação terrorista. A lista de Erdogan não termina aí, sua caça às bruxas quebra todos os recordes.

    Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, um terço dos jornalistas presos do mundo estão na Turquia (mais de 200). Foram fechados, por decreto, pelo menos, 168 meios de comunicação. O jornal digital Sendika pediu para entrar no Guinness, depois de ver o seu servidor de internet bloqueado (e liberado) 55 vezes. Enquanto escrevo estas linhas, o seu endereço já é Sendika56.org. O presidente Erdogan também bloqueou o acesso à Wikipedia. A jornalista espanhola Beatriz Yubero, colaboradora do jornal La Razón, foi presa em sua casa em Ankhara, também acusada de terrorismo, detida por 36 horas e deportada para a Espanha. Beatriz esclareceu que não foi expulsa por públicar críticas, “pois é ilegal criticar o governo Erdogan e a República”. As penalidades por difamar Erdogan, efetivamente, são cerca de 3.100 euros.

    Em outubro de 2016, o governo turco já havia cancelado 775 (setecentas e setenta e cinco)  credenciais de imprensa, de acordo com a Federação de Jornalistas Europeus, e 226 (duzentos e vinte e seis) jornalistas enfrentam a possibilidade de serem condenados a penas de prisão perpétua. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) adverte que as alegações de tortura policial a jornalistas não são investigadas e cinco já foram mortos, no exercício da profissão, nos últimos dois anos. Ao todo, mais de 50.000 (cinquenta mil) pessoas foram presas, no último ano, na Turquia, e 150.000 (cento e cinquenta mil) funcionários públicos perderam seus empregos, em uma purga política maciça. Neste panorama dantesco, devem ser adicionados os campos de refugiados, onde a Turquia mantém centenas de milhares de refugiados na fronteira com a Síria.

    Vendo este inferno, cabe a pergunta: O que é que os nossos revolucionários liberais acham desses números assustadores? A Venezuela está em outro continente, a mais de 7.000 quilômetros, a Turquia, menos da metade desta distância. Seu processo de adesão à União Europeia não foi suspenso, apesar do flerte de Erdogan com a pena de morte, é nosso parceiro na OTAN e retém um número maciço de refugiados que deveríamos estar acolhendo. Por que somos o país do mundo mais bem “informado” sobre a Venezuela, contudo, raramente, nossos Portais de Notícia falam sobre a Turquia? Convidarão também cidadãos de oposição turcos para falar no nosso Parlamento?

    Tanto Rajoy, como Albert Rivera, por exemplo, frequentemente publicam tuítes sobre atualidade venezuelana. Da Turquia, também se pronunciaram. Foi durante a tentativa de golpe de Estado, para expressar apoio ao governo de Erdogan, que Rajoy o qualificou de “aliado e amigo“. Contudo, depois, durante a repressão em massa promovida pelo governo turco, o número de vezes que os dois, Albert Rivera e Rajoy, tuitaram a palavra “Turquia”, em 2017, foi zero. O Diário Oficial das sessões parlamentares na Espanha recebeu 6 (seis) propostas não legislativas e perguntas orais do PP e cidadãos, nesta legislatura, sobre a Venezuela. Nem uma sobre a Turquia. A Venezuela é uma cortina de fumaça? Será que eles realmente se preocupam com a defesa da liberdade e dos Direitos Humanos? Ou apenas quando eles acreditam que o caso pode lhes trazer benefícios na política nacional?

    Texto originalmente Publicado no infolibre.es, sob o título “Con la rebelión en Venezuela, con la dictadura en Turquía”, por Miguel Álvarez-Peralta, em 30/07/2017.

    Autor: _miguelalvarezperalta3_7a0a3dbd*Miguel Alvarez-Peralta é professor de Comunicação Política e Estrutura do Sistema Midiático da Faculdade de Jornalismo UCLM. Doutor em Comunicação de Massas (UCM), trabalhou como responsável pela divulgação científica na UNED e pesquisador visitante na Universidade de Harvard. Como um ativista para o Direito à Informação, colaborou na criação de diversos meios de comunicação e foi Coordenador de Políticas de mídia no Podemos, durante sua primeira legislatura e membro de sua Secretaria Política.

    *Este artigo reflete a opinião do autor e, não necessariamente, a linha editorial do Esquerda Online