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  • O que está por trás do Distritão

    Editorial 18 de agosto

    Depois de dias de negociações às escondidas, a votação do projeto de Reforma Política foi adiada no plenário da Câmara dos Deputados. A nova data ficou para o próximo dia 22 (terça-feira). Rodrigo Maia (DEM), presidente da casa, justificou o adiamento afirmando que o quórum era muito baixo, o que aumentava o risco da medida não ser aprovada.

    A bem da verdade, estão em jogo interesses inconfessáveis de deputados e partidos comprometidos com os grandes empresários e a corrupção. Nenhum deles é de interesse do povo trabalhador.

    A mentira da modernização
    A ampla maioria da população brasileira, com razão, não confia nos políticos, nos partidos, na presidência e no Congresso. Há um justo questionamento do sistema político e das instituições. Afinal, trata-se de um sistema controlado por grandes empresários, corruptos e reacionários.

    Diante dessa crise, uma parcela da classe dominante embarcou em uma campanha hasteando hipocritamente a bandeira do combate à corrupção. O objetivo seria de “modernizar” o sistema político-partidário brasileiro. Essa “modernização”, ao invés de responder os anseios democráticos do povo, busca, na verdade, impor mais controle das cúpulas dos atuais partidos sobre o Congresso.

    Se reeleger e salvar a própria pele
    Já que a reforma política supostamente prejudicaria os partidos do dito “centrão” (um aglomerado de siglas de aluguel), por que então muitos desses apoiam a contrarreforma política?

    Pois, de imediato, esse pode ser o único bote para que muitos parlamentarem se salvem em meio às investigações da Lava Jato e depois da aprovação de medidas tão impopulares, como a Reforma Trabalhista. Se aprovado o Distritão, as chances de reeleição crescem para muitos dos atuais parlamentares.

    Junto disso, eles preparam uma grande manobra para enganar o povo. Vários partidos estão preparando uma mudança de nome, boa parte abandonando o “p” de partido para poderem se apresentar enquanto “novidade”. Por exemplo, o PMDB discute retornar ao nome de MDB. O DEM que já foi PFL agora irá mudar para MUDE (Movimento da Unidade Democrática). O PTdoB vai passar a se chamar Avante. O PTN agora é Podemos. O PSL, uma sigla comandada por neoliberais fanáticos, irá se chamar Livres. E o PEN, para receber Jair Bolsonaro, passará a se chamar Patriotas. Ou seja, os lobos, além de matar os cordeiros, estão se vestindo com suas peles.

    Impedir uma renovação política à esquerda
    Outro interesse em jogo com a Contrarreforma política é dificultar a possibilidade de que apareça uma nova alternativa à esquerda. A experiência com a aplicação de plano de austeridade fiscal na Europa fez com que a elite aprendesse. Lá as lutas contra os ataques fomentaram um processo de reorganização política à esquerda dos velhos partidos da ordem. O Podemos na Espanha é um exemplo desse fenômeno.

    Portanto, também está na conta dos poderosos as manobras necessárias para impedir qualquer crescimento de alternativas à esquerda, como um possível fortalecimento do PSOL nas próximas eleições. A candidatura de Marcelo Freixo no Rio de Janeiro, nas eleições municipais de 2016, foi uma demonstração desse potencial.

    Com os brutais ataques aos direitos e às condições de vida do povo em curso, a burguesia e os partidos da direita sabem do potencial de uma nova alternativa à esquerda. Nesse sentido, a Reforma Política em discussão no Congresso visa, entre outras coisas, bloquear essa possibilidade no âmbito eleitoral.

    Foto: 16/08/2017- Brasília- DF, Brasil- Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o relator da reforma política, Vicente Candido, em sessão plenária que discute o projeto que torna crime hediondo o porte de arma de uso restrito
    Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

  • História dos povos indígenas e quilombolas não começou em 1988

    Editorial 16 de agosto

    Nessa quarta-feira (16), iniciam quatros julgamentos decisivos para os povos indígenas e quilombolas do Brasil no Superior Tribunal Federal (STF). A primeira pauta refere-se à Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3.239, movida pelo então Partido da Frente Liberal, atual Democratas (DEM), em 2004, que defende a revisão do Decreto 4.887/2003, que institui garantias constitucionais amplas para a titulação de territórios quilombolas.

    As outras ações estão relacionadas aos territórios indígenas: a Ação Civil Originária (ACO) 361 foi ajuizada ainda na década de 80 e pede a indenização aos antigos “donos” das terras desapropriadas em 1961 para a criação do Parque Indígena do Xingú (MT); a ACO 366, ajuizada na década 90, também no estado de Mato Grosso, afirma que as terras dos povos Nambikwara e Pareci não seriam de ocupação tradicional indígena; por fim, a ACO 469, que pede a anulação dos títulos de propriedade de imóveis concedidos pelo Estado do Rio Grande do Sul sobre a Terra Indígena Ventarra, do povo Kaingang.

    O grande “X da questão” nas votações de hoje é a possibilidade da legitimação da tese jurídico-política do marco temporal, que defende o reconhecimento das terras dos povos originários vinculado à ocupação das mesmas na data de 5 de outubro de 1988, quando a atual Carta Magna foi promulgada. De forma trágico-cômica, a tese foi apresentada pela Ministra Rosa Weber em 2015, na ocasião da votação da ADI 3.239, onde ela posicionou-se contrária à ação, mas favorável ao critério temporal. Esse argumento ignora os séculos de espoliação pelo latifúndio e genocídio dos colonizadores (europeus de ontem e os autóctones pró-imperialistas de hoje), que interromperam, no caso dos indígenas, ou negaram, situação de negras e negros após a aplicação da Lei da Terra de 1850, a construção de uma relação democrática entre os povos originários e a terra no Brasil.

    Temer e a bancada ruralista querem rifar os povos originários
    Num jantar em julho com representantes da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), Temer comprometeu-se com o marco temporal, resultando no parecer 001/2017 assinado pela Advocacia Geral da União (AGU) que obriga os órgãos do Executivo a aplicar a tese. Além disso, também garantiu, posteriormente, o refinanciamento de R$ 10 bilhões em dívidas dos produtores rurais, tudo isso para comprar os votos necessários para o arquivamento da ação que poderia afastá-lo da presidência.

    A movimentação de Temer foi um ato de desespero. Desde a constituição da FPA em 2009 nenhum presidente tinha se reunido publicamente com o grupo para negociar medidas de seu interesse. No período anterior, quem ocupava o papel central eram seus intermediários, como era o caso da relação espúria entre Dilma e Kátia Abreu (PMDB), mas agora, diante da fragilidade e a necessidade de sobrevivência, é o presidente quem agencia diretamente os negócios com os 243 parlamentares signatários do grupo.

    O problema é que Temer não consegue equilibrar as contas após a compra de votos no “atacado”: dezenas de parlamentares cobram suas vagas em ministérios e estatais, as bancadas reacionárias pressionam pela aprovação de emendas e medidas de seu interesse e o ajuste fiscal, a única garantia da boa relação entre Temer e o mercado financeiro, pode paralisar pela própria incapacidade do governo em arquitetar sua engenhoca. Obviamente, quem perde com isso somos nós, que sofremos com o impacto do contingenciamento de R$ 42 bilhões em verbas que incluem saúde e educação e vamos perder ainda mais com a ampliação da rolagem dos juros da dívida pública.

    Mas os ataques não param por ai. Os ruralistas ainda querem a flexibilização das regras de licenciamento ambiental e a autorização da compra de terras brasileiras por estrangeiros. Essas medidas têm duas consequências diretas: o aumento da devastação ambiental e a ampliação do controle do imperialismo sobre o território brasileiro, o que em tempos de instabilidade e reorganização das peças no tabuleiro do Sistema Internacional de Estados é estratégico no terreno político, econômico e militar. A condução desse projeto está nas mãos de Blairo Maggi, Ministro da Agricultura e dono de uma indústria no campo que em 2015 comercializou mais de 4 milhões de toneladas de soja para exportação, as custas da transformação da floresta em pasto e da ampliação do genocídio dos povos indígenas e quilombolas.

    #MarcoTemporalNão: indígenas e quilombolas resistem
    Os primeiros meses de 2017 registraram número recorde de assassinatos nos conflitos por terra no Brasil, segundo a Comissão Pastoral da Terra. A normatização do Marco Temporal e aprovação da ADI 3.239 pelo STF darão o sinal verde para mais mortes e a ampliação da ofensiva dos latifundiários sobre os povos originários. É urgente a necessidade dos movimentos sociais e a esquerda socialista incorporarem-se a luta indígena e quilombola, o que exige, para além de ações, reconhecer sua importância na discussão programática em curso.

    A burguesia nacional é completamente vendida aos interesses imperialistas, hoje agencia descaradamente a neocolonização e o apagamento da nossa História. Entretanto, os anos de governo do PT não resultaram em avanços devido à aliança insubstituível com a FPA, que pulou do barco para dar o golpe, mas financiou as duas campanhas de Lula e também de Dilma. Um projeto estratégico para o país deve incluir a necessidade das reparações históricas aos povos originários, visando além das ações afirmativas e medidas jurídicas passíveis de contestação nas Cortes Superiores – que já deram provas de seu comprometimento com o ajuste -, medidas contundentes que ataquem a estrutura do capital.

    Nesse sentido, não temos dúvida que a garantia do acesso a terra é primordial. Repensar essa questão levando em conta o acúmulo de luta que inicia com a chegada dos colonizadores nos obriga a pensar uma política de defesa das nossas florestas e o conjunto das riquezas naturais; a refletir sobre a segurança alimentar do nosso povo; e, principalmente, uma forma de inclusão que respeite os ritmos culturais diversos desorganizados pelo genocídio. Por isso dizemos: não ao marco temporal e a ADI 3.239; revogação do Parecer 001/2017 da AGU; demarcação imediata dos territórios indígenas e quilombolas; reparações materiais aos povos originários, já.

    Foto: José Cruz/Agência Brasil

  • Um ano do Esquerda Online: preparar o lançamento do novo site

    “É um equívoco considerar que escritores e apenas eles (no sentido profissional do termo) possam contribuir plenamente para uma publicação; pelo contrário, ela será viva e viável apenas se para cada cinco jornalistas que o dirijam e escrevam de forma regular, existam 500 ou 5 mil colaboradores que não sejam escritores” Lênin

    Completamos, no dia 12 de agosto, um ano do lançamento do portal diário Esquerda Online. O portal surgiu como uma iniciativa do MAIS (Movimento Por Uma Alternativa Independente e Socialista). Tivemos 2.227.606,00 milhões de sessões e 2.884.771,00 milhões de visualizações de páginas. A média de sessões é de 6100 por dia. Foram publicados 270 editoriais e 2600 artigos durante esses 12 meses. Média de sete artigos por dia. No Facebook, chegamos às 76 mil curtidas e estamos alcançando, em média, milhares de pessoas toda semana.

    O portal esteve ligado às principais lutas contras as reformas e contra o governo Temer. As principais mobilizações foram quando tivemos exatamente picos de acessos ao site. A luta contra a PEC do fim do mundo, em 29 de novembro, as lutas contra as reformas do dia 15 e 31 de março, a greve geral no dia 28 de abril, a marcha a Brasília do dia 24 de abril e o dia nacional de luta no 30 de junho foram dias de recorde do site.

    Apesar de ter uma orientação editorial de defesa da construção de uma alternativa de esquerda ao lulismo e ao petismo, tivemos uma posição firme contra o golpe parlamentar que derrubou o governo Dilma através do Impeachment e não hesitamos em denunciar o caráter reacionário da operação Lava Jato. Enfrentamos uma conjuntura complexa e histórica para a esquerda brasileira. Combatemos a direita e a ofensiva da burguesia sem capitular ao petismo e ao fracasso do projeto de conciliação de classes. Conseguimos fazer com que o site virasse uma referência para setores importantes de vanguarda.

    Quando lançamos o portal diário, nosso objetivo era transformar o Esquerda Online em nosso “órgão central”, nosso organizador coletivo. Depois de 12 meses, podemos avaliar que escrever para o portal passou a ser uma das prioridades do ativismo que organizamos. Conseguimos envolver vários militantes, alguns inclusive muito jovens, na elaboração de notícias e análises sobre a luta de classes, política nacional e internacional.

    Seguimos a orientação de Lênin quando dizia: “… condenaram o Iskra pela precariedade de informações acerca do desemprego e pelo caráter fortuito atribuído às crônicas sobre as ocorrências mais comuns da vida rural. A condenação é merecida; no entanto, o Iskra é “culpado sem ter culpa”. Buscamos também nas aldeias “ esticar um fio de prumo”, mas no campo quase não há pedreiros e deve-se obrigatoriamente encorajar a todos que nos comuniquem até mesmo os fatos mais corriqueiros na expectativa de que isso multiplique o número de nossos colaboradores nesse terreno..” Que Fazer, Lênin

    O portal, além de ser nosso organizador coletivo, acabou por ser um instrumento de democratização da atividade política, aproximando muitos militantes e ativistas do trabalho intelectual e da elaboração política. Foi um instrumento de coesão política e reeducação militante porque, muitas vezes, publicamos análises diferentes entre os quadros em relação à conjuntura, sem prejudicar a centralização do MAIS para a ação.

    Temos orgulho do que conquistamos neste ano, mas isso é insuficiente perante os imensos desafios que a complexa situação brasileira nos oferece. Queremos avançar mais.

    Um novo site a serviço da reorganização da esquerda socialista

    Os desafios para a esquerda socialista são enormes no próximo período. Nossa batalha política é pela superação do Lulismo pela esquerda. Estando na linha de frente do combate à direita e à extrema-direita. Apostamos que não existe um divórcio indissolúvel da classe trabalhadora com as suas lideranças. A entrada do MAIS como corrente do PSOL está a serviço da construção dessa alternativa.

    Queremos construir um projeto de comunicação aberto à reorganização à esquerda do lulismo. Para isso, queremos convidar personalidades políticas, intelectuais, militantes de outras organizações deste campo político, militantes dos movimentos de opressões, ativistas das lutas da classe trabalhadora e do movimento estudantil para escrever no Esquerda Online.

    Vamos reformular o espaço de colunistas e construir um novo site mais moderno e ágil. Para isso, vamos iniciar em breve uma campanha pedindo contribuição financeira aos apoiadores, amigos e simpatizantes do Esquerda Online. A previsão de lançamento do novo site é no início de novembro. Em breve, o novo Esquerda Online vem aí.

     

  • Heather Heyer, presente: neonazismo assassina ativista de esquerda nos EUA

    EDITORIAL 14 DE AGOSTO DE 2017

    Heather Heyer foi assassinada no último sábado (12), em Charlottesville, na Virgínia, nos EUA por um ataque terrorista de neonazistas. Heather trabalhava em um escritório de advocacia, tinha 32 anos e era uma apoiadora de Bernie Sanders. Um dia antes da manifestação postou em seu perfil no facebook “Se você não está indignado, você não está prestando atenção”, um slogan que virou muito popular depois que Trump assumiu a Presidência. No momento em que foi assassinada, cantava junto aos manifestantes “Vidas Negras Importam”.

    Em primeiro lugar, nossa nossa solidariedade aos amigos, familiares e camaradas de Heather. Ela não será esquecida. Deu a sua vida pela causa do igualitarismo e da luta contra o racismo. A melhor maneira de a honrarmos é manter essa luta e intensificar a batalha por um mundo livre do racismo, da xenofobia, do machismo, da LGBTfobia, da opressão e exploração. É lutar por um mundo comunista.

    Entenda o caso
    Na última sexta-feira (11), centenas de neonazistas participaram de uma manifestação para impedir a retirada de uma estátua do general Robert E. Lee, que comandou os Estados Confederados contra o Norte abolicionista na Guerra Civil (1861-65) norte-americana. A manifestação foi convocada sob o slogan “unir a direita”, contava com tochas, símbolos da Klu Klux Klan, e tinha vários líderes de grupos neonazistas como Richard Spencer. Entre os manifestantes havia bandeiras e palavras de ordem contra negros, judeus, hispânicos, LGBTS, manifestantes de esquerda e imigrantes.

    Os movimentos sociais reagiram na hora, formando um cordão humano na estátua e convocando uma manifestação no dia seguinte. A manifestação de sábado (12) contava com milhares de pessoas que cantavam palavras de ordem contra os neonazistas e contra o racismo, até que sobreveio o atentado terrorista da extrema direita: a manifestação foi invadida por James Alex Fields Jr. com um carro, atropelando cerca de 20 pessoas, matando Heather e deixando várias outras feridas. Após este ataque terrorista, conflitos entre manifestantes de esquerda e neonazistas desataram por vários picos da cidade. A imprensa local fala de um levantamento de 46 feridos, alguns em estado grave, resultado dos confrontos.

    No mesmo dia, dois policiais morreram quando monitoravam os confrontos com um helicóptero que se chocou em árvores. A imprensa não fala sobre as causas do helicóptero ter caído.

    Neste domingo (13), havia novas manifestações em solidariedade com a luta antifascista em Charlottesville e em homenagem a Heather Heyer, convocadas pelas organizações de esquerda em várias capitais dos EUA. Mas os neonazistas também convocaram novas manifestações: o líder local de Charlottesville Jason Kessler acusa o governo de impedir seus direitos constitucionais de manifestação e diz que seguirão nas ruas para defender os direitos dos brancos.

    A tragédia de Charlottesvile causou comoção nos EUA e em boa parte do mundo. Partidos políticos de esquerda, sindicatos, celebridades artísticas e personalidades políticas, organizações de direitos humanos e de luta contra o racismo e a xenofobia se manifestaram contra os neonazistas da Virgínia.

    Entre os feridos há Bill Burke, membro da International Socialist Organization (ISO), presente através do camarada Todd Chretien no I Congresso do MAIS e também militantes do Democratic Socialist of America (DSA) e do IWW (Industrial Workers of the World). Em razão das deficiências do sistema de saúde norte-americano, há uma série de campanhas financeiras para ajudar os feridos e também a família de Heather.

    A tensão racial nos EUA atinge seu auge
    A eleição de Trump marcou um momento mais desfavorável para a luta dos oprimidos e explorados. Mas o histórico de racismo nos EUA é só comparável ao do Brasil, em que ambas sociedades foram fundadas sobre a escravidão negra. Foi durante o governo de Obama, primeiro presidente negro da história dos EUA,
    que explodiu a luta por “Vidas Negras Importam” com o assassinato de dezenas de pessoas negras pela violência policial nos EUA. E a reação com a eleição do direitista desatou um imenso movimento de protesto que teve seu ápice na marcha nacional de mulheres contra Trump.

    O movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) postou em sua página no facebook após o ocorrido que, em face do ódio da Ku Klux Klan e dos nacionalistas brancos, apoiam “as pessoas de Charlottesville que lutam contra o fascismo e o racismo” (…) “vivemos em um mundo onde os negros são alvo de morte e destruição. E em um país onde há centenas de estátuas e monumentos dedicados à confederação, não podemos nos surpreender quando momentos como esses acontecem – na verdade, Charlottesville é uma confirmação da violência que os negros precisam suportar no dia a dia”.

    A hipocrisia da imprensa capitalista norte-americana
    É espantoso perceber o tamanho da hipocrisia da imprensa capitalista norte-americana. O New York Times chegou a por no ar uma matéria falando que “protestos terminam com mortos e feridos em Virgínia”, minimizando a ação dos neonazistas e colocando a culpa nos protestos, que são ações e não pessoas, e estimulando por lógico as pessoas serem contra protestos.

    Depois, o mesmo NYT chegou ao absurdo dizendo que um carro atropelou e matou uma ativista dos movimentos sociais, tentando limpar a responsabilidade dos neonazistas, como se o objeto “carro” não dependesse de um motorista da ultra direita. Outros veículos como a BBC chamam o assassino de Virginia de suspeito e o ataque terrorista de conflito – usando um termo em inglês “clash” que insinua algo ambíguo, de certa forma acidental, usado em acidentes de veículos, por exemplo. Após muitas críticas, ao longo do sábado a grande mídia americana foi se adaptando e mudando seus textos, mas ficou nítido qual foi o primeiro impulso, expressando uma visão muito hipócrita e reacionária.

    É indignante perceber, inclusive, os dois pesos e duas medidas usados. Até o fechamento deste editorial, não tivemos conhecimento de nenhum grande jornal ou televisão ter usado expressões como “terrorismo”, “ação premeditada”, “motivos ideológicos”, como sempre usam nos casos dos ataques terroristas ligados às organizações como o autodenominado Estado Islâmico e o Talibã.

    Trump está com os neonazistas
    Muitos dos grupos neonazistas já existiam, mas depois da posse de Trump se sentiram mais à vontade e agora têm coragem de sair às ruas às centenas. Richard Spencer organizou uma manifestação com tochas em Washington, logo após a eleição de Trump, em que se chegou a levantar o lema “Heil, Trump”, em alusão ao “Heil, Hitler”.

    Durante o sábado em que Heather Hayer foi assassinada, Trump primeiro se manifestou condenando a violência em Charlottesville e pedindo a união de todos sem criticar, ou sequer fazer menção ao ataque terrorista ou aos neonazistas. Interviu sobre uma lógica “dos dois demônios”, como se não houvesse assassino e vítima, como se não houvesse racistas neonazistas e ativistas dos movimentos sociais. Depois se manifestou veementemente em solidariedade aos policiais mortos na queda do helicóptero. E após muitas críticas, inclusive de alas da burguesia que já vêm fazendo oposição a ele, se manifesta com duas frases em sua rede social com “condolências à família da jovem mulher morta hoje em Virgínia”.

    O que os trabalhadores e a esquerda devem fazer?
    Apesar de os neonazistas terem assassinado um dos nossos, as mobilizações ainda são pequenas. Embora ideológicos e coesos, por enquanto são apenas centenas. Mas, aos poucos estão formando seus líderes, suas redes de relacionamento e construção, suas finanças e seus jornais. Portanto, atenção, as causas que permitem a extrema direita sair dos porões da marginalidade estão presentes e tendem a se aprofundar. Dez anos depois da crise do Lehman Brothers, que estourou a bolha de especulação imobiliária nos EUA, a crise econômica e social nos EUA está drenando uma parte da classe trabalhadora a posições radicalizadas à direita. São a queda do nível de vida da classe trabalhadora, os planos de austeridade e a crescente desigualdade de que deles advêm que potencializam a reação de extrema direita.

    O Partido Democrata e seus satélites não têm saídas para isso, pois defendem e aplicam o mesmo modelo capitalista e excludente e não querem apoiar a luta nas ruas contra os fascistas. Não por acaso, o prefeito Democrata de Charlottesville, apesar de falar contra os racistas, apelou a que não houvesse manifestações contrárias.

    É preciso construir uma frente única com todas organizações políticas dos movimentos dos trabalhadores, os sindicatos, os movimentos de mulheres, negros, hispânicos e demais imigrantes, os grupos estudantis de esquerda, entre outros, para derrotar a extrema direita em todo o país. Essa frente única não deve confiar ao Estado a luta contra o neonazismo, o que não significa que não deva denunciar as instituições por serem omissas na luta contra os neonazistas e a extrema direita.

    A polícia norte-americana, com a cumplicidade do Poder Judiciário, é uma instituição racista que assassina centenas de negros nos EUA e Trump representa justamente o crescimento de setores radicais de direita. Nem a polícia, nem o Poder Judiciário e muito menos Trump, são aliados para enfrentar a ultra-direita. Só a classe trabalhadora e os movimentos sociais dos oprimidos e de esquerda podem caber nessa frente única.

    As lições históricas pelo mundo e nos próprios Estados Unidos nas imensas lutas pelos Direitos Civis apontam a necessidade da mais ampla unidade e mobilização nas ruas para enfrentar os fascistas e racistas. Só a força social dos de baixo, dos explorados e oprimidos poderá impedir que cresçam. E a luta recém começou.

    E como o caráter da luta contra os neonazistas nos EUA se tornou rapidamente um conflito físico, é preciso criar, desde já, grupos de autodefesa nos sindicatos, nas organizações de esquerda e no conjunto dos movimentos sociais. É preciso ter muito evidente a necessidade de agir em legítima defesa com toda força e meios necessários.

    Para ganhar peso e credibilidade, este movimento amplo e multirracial baseado nos trabalhadores e oprimidos precisa apresentar uma alternativa política à crescente desigualdade social, aos planos de austeridade e ao desespero que causam e que alimentam o crescimento da direita radical. Movimento esse que deve apontar para a luta contra os verdadeiros inimigos que enfrentam os trabalhadores e o povo: o grande capital, as instituições e os partidos políticos a seu serviço.

  • Dia do estudante: educação pede socorro, mas resiste

    Editorial 11 de agosto

    Um ano após o golpe podemos dizer que os estudantes foram alvo de Michel Temer (PMDB). A PEC do Teto de Gastos enfrentou uma incrível onda de ocupações nas universidades públicas. Mas, foi reprimida brutalmente a marcha a Brasília de 29 de novembro de 2016 e Temer e o Congresso Nacional conseguiram desferir esse golpe contra o futuro e as próximas gerações. Seus efeitos, no entanto, já são latentes. O futuro depende da resistência no presente.

    A situação é alarmante. O contingenciamento de gastos chegou a R$ 3,6 bilhões. Com isso, as 63 instituições federais não enxergam condições de arcar com água, luz, trabalhadores terceirizados, obras, bolsas e assistência estudantil.

    Os reitores já declaram que em setembro as verbas acabam. A Universidade de Brasília já demitiu 175 funcionários terceirizados e na Universidade de Santa Maria 180 trabalhadores também já foram dispensados. Agora, os cortes já afetam as moradias estudantis e as bolsas. Podemos acrescentar ao cenário a situação dramática das universidades estaduais. O maior exemplo é a luta da UERJ para continuar existindo. Há cinco meses sem salários, foi decretado o fim do ano letivo já neste mês. As universidades privadas fecham cursos presenciais e substituem por cursos a distância.

    Dramática também é a situação que envolve a vida cotidiana do estudante. O genocídio da juventude negra nas periferias é uma dura realidade. O encarceramento em massa é o que o Estado oferece aos jovens, enquanto segue sucateando e privatizando os equipamentos de cultura e lazer. Os assassinatos de LGBTs colocam nosso país como campeão em opressão. A luta pelo futuro é, para os jovens oprimidos, a luta pela vida.

    Vitória conquistada nas mobilizações de 2013, o passe livre estudantil vem sendo atacada em várias cidades, como é o caso de São Paulo e Porto Alegre. Na capital paulista, o prefeito João Dória cortou até mesmo o transporte escolar das crianças da Educação Infantil.

    As notícias realmente não são boas. Mas, é também verdade que a capacidade de sonhar presente no coração de todo estudante nunca foi separada da incrível vocação e instinto de luta pela transformação do presente. Ser estudante é ter esperança, mas essa esperança nunca foi vazia de ação e de coletividade. Por isso, não é dia de lamentar. É dia de honrar Honestino Guimarães, Alexandre Vanucchi e tantos outros que acreditaram no sonho de transformação e fizeram a história com as próprias mãos.

    Saber que o presente é difícil é necessário. Mas, hoje é dia de lembrar a razão de ter esperança. Hoje é dia do estudante.

    Foto: Rovena Rosa | EBC

  • Não existe Reforma da Previdência aceitável

    Editorial 9 de agosto

    A Reforma da Previdência está para ser votada no Congresso. O governo diz que mudou algumas propostas para não prejudicar muito os trabalhadores. Mas, as mudanças não passam de pequenos arranjos que não mudam o sentido original da proposta. Se ela for aprovada, boa parte dos brasileiros vai morrer sem se aposentar.

    Antes, o governo queria mudar a idade mínima da aposentadoria para 65 anos para homens e mulheres. Na nova proposta, a idade mínima para homens segue de 65 anos e para mulheres muda para 62 anos.

    O tempo de contribuição mínimo para se aposentar será de 25, se a reforma for aprovada. O tempo de contribuição para ganhar aposentadoria integral proposto é de 40 anos. Antes, o governo queria impor 49 anos para a aposentadoria integral.

    O governo também mudou as regras de transição na reforma para que. quem trabalha hoje, possa ter algumas pequenas vantagens na reforma. A aposentadoria poderá ser conseguida com 60 anos de idade e 20 de contribuição. Antes a proposta era de 65 anos de idade e 25 anos de contribuição.

    Quanto ao Benefício de Prestação Continuada, dado a pessoas que não contribuíram com o INSS, mas não têm condições de sustentar, a proposta mudou: o governo desistiu da desvinculação com o salário mínimo, e a idade mínima para ganhar o benefício por idade passou a ser de 68 anos, ao invés de 70.

    Agora, vamos a um exemplo prático. Seu João, que mora no Piauí e trabalha desde os 12 anos. Ele nunca parou de pegar pesado, mas só trabalhou 20 anos de carteira assinada. Chegou a 65 anos e vai ter que trabalhar até os 70 para se aposentar, pois terá que completar 25 anos de contribuição. Se quiser ganhar aposentadoria integral, ele terá que trabalhar de carteira assinada até os 85 anos. Mas, a expectativa de vida para homens no Piauí é de 66 anos. Seu João vai morrer trabalhando.

    Que empresa contrata pessoas com mais de 60 anos hoje em dia? E de carteira assinada ainda por cima? Quem trabalha no serviço mais pesado não vai conseguir se aposentar. Boa parte da classe média não vai aguentar trabalhar até depois dos 70 para ganhar a aposentadoria integral. E apesar de o governo ter reduzido de 65 pra 62 anos a proposta deidade mínima para as mulheres se aposentarem, não reduziu o tempo de contribuição exigido.

    Não podemos nos iludir com pequenos arranjos. O governo não mudou o que é essencial na reforma: fazer o brasileiro morrer trabalhando. O objetivo é gastar menos com a Previdência para pagar juros aos bancos, tendo como desculpa uma dívida que nunca passou por uma auditoria, conforme manda a Constituição.

    A aprovação não será fácil, já que as eleições de 2018 se aproximam e os deputados estão com medo de votar em medidas impopulares. Mas, temos que ir às ruas para barrar esta reforma. É literalmente por nossas vidas que estamos lutando.

  • Luta contra Reforma da Previdência deve ser pauta para ganharmos de volta as ruas

    Editorial 8 de agosto

    A conjuntura aberta pela crise com as delações da JBS se encerrou com a votação que não deu prosseguimento à denúncia de Janot contra Temer por corrupção passiva na Câmara dos Deputados. Em termos políticos, isso significa que o governo saiu de uma situação defensiva e está rearticulando a pauta de ataques contra o povo brasileiro. O arrefecimento das lutas da classe trabalhadora também é uma das marcas dessa conjuntura, diferente do primeiro semestre marcado pelas lutas de resistência. Para uma boa análise de conjuntura devemos identificar os movimentos de ofensiva dos nossos inimigos para da melhor maneira possível preparar a reação da classe trabalhadora.

    A mudança da conjuntura, onde estava colocada na ordem do dia a queda do governo, não significa a perda de importância da luta pelo Fora Temer e pelas diretas. Cabe agora buscar a melhor maneira de movimentar a classe trabalhadora para ir às ruas e colocar de novo a perspectiva de derrubar esse governo corrupto. Tudo indica que a melhor maneira de fazer isso é rearticular novamente uma forte campanha contra a Reforma da Previdência.

    Os meses de agosto, setembro e outubro serão decisivos. A orientação de Temer é colocar ao menos dois temas para votação no Congresso Nacional. Na Câmara dos Deputados, em setembro, a Reforma da Previdência em primeiro turno. No Congresso Nacional, até o final de setembro, a Reforma Política. Ambas medidas representam um grande retrocesso de direitos democráticos mínimos garantidos na constituição de 88 para a classe trabalhadora.

    A ofensiva sobre a Previdência
    No início de maio foi aprovado o texto base da reforma (PEC 287/16) na Comissão Especial da Reforma da Previdência da Câmara. Desde então, o texto está liberado para ir a plenário. Isso não ocorreu ainda por causa da crise política que foi aberta com as delações dos irmãos Batista, no dia 17 de maio.

    Um dos efeitos da crise foi a divisão da base aliada no Congresso Nacional. Somada à grande contestação das ruas sobre a reforma, fez com que houvesse uma paralisação no trâmite da PEC 287/16. O governo não tinha mais os dois teros garantidos de deputados para aprovar uma emenda constitucional e tinha medo de apresentar a reforma em plenário e, pelo seu grande grau de rejeição pelo povo, servir de combustível para mobilizações.

    A aprovação da Reforma Trabalhista e a votação do não prosseguimento da ação de corrupção contra Temer por maioria simples, tendo como consequência a mudança de conjuntura, reforçam uma mudança de ação por parte do governo. Neste momento, está em operação no Congresso Nacional uma negociação com direito a compra de votos através de emendas e negociações espúrias com os partidos da base aliada. Querem condições para conseguir de volta os dois terços de deputados para ser apresentado o projeto. Há indícios de que o governo conseguirá seu objetivo.

    Neste sentido, é fundamental a rearticulação de uma forte campanha contra a Reforma da Previdência. Temer já indicou que vai concentrar a reforma na mudança da idade mínima e na retirada de direitos dos servidores públicos, chamados pelo governo de privilegiados.

    É preciso rearticular uma grande campanha nacional contra a Reforma da Previdência, uma grande frente única nacional que movimente a classe trabalhadora para, nas ruas, barrar esse ataque.

    A Reforma Política contra os partidos ideológicos
    São dois os Projetos de Emenda à Constituição (PEC 77 e PEC 282) em trâmite no Congresso Nacional. Para valer nas próximas eleições devem ser aprovadas na Câmara e no Senado até o dia 1 de outubro.

    A PEC 282 já foi votada no Senado e sua principal proposta é criar uma cláusula de barreira. Os partidos precisam ter 2% para deputado federal em 14 estados da federação para conseguir ter acesso ao fundo partidário, liderança na Câmara e Senado e acesso a TV. Hoje são poucos partidos que conseguem esse resultado.

    É uma medida que, através da discussão de acabar com as legendas de aluguel, busca atingir partidos ideológicos como o PSOL, PSTU e PCB.

    A PEC 77, relatada pelo Deputado Vicente Cândido do PT, institui o sistema distrital misto, ou seja, 50% das vagas seriam eleitas no sistema atual e outros 50% por distritos definidos pela Justiça Eleitoral. Essa medida aumenta o personalismo na política brasileira e é contra os partidos. Uma outra medida da PEC é criar um fundo eleitoral que aumenta ainda mais o dinheiro que vai para partidos como o PMDB, PSDB e PT. Além disso, existe ainda uma negociação em curso para a volta do financiamento eleitoral empresarial.

  • Venezuela: Brasil e Mercosul a serviço do imperialismo norte-americano

    Editorial 07 de agosto

    Neste sábado, 05 de agosto, reuniram-se, na Prefeitura de São Paulo, os chanceleres da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, numa sessão do Mercosul cuja pauta mais relevante foi a segunda suspensão da Venezuela do referido bloco econômico regional.

    As decisões do Mercosul são tomadas por consenso e têm essencialmente um caráter político, apesar das alegações jurídicas, contidas na Nota 255 do Ministério de Relações Exteriores do Brasil.

    A primeira suspensão da Venezuela ocorreu sob alegações de ordens técnicas. Segundo a argumentação, o país não havia incorporado a normativa do Mercosul a sua legislação interna. Uma delas é a legislação sobre normas de propriedade intelectuais e uniformização do sistema educacional. Ocorre que o alegado se choca com a própria dinâmica do Bloco, fundado em 1991. Até mesmo os países fundadores, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai não alcançaram todas as modificações jurídicas e comerciais uniformizadoras exigidas pelos tratados multilaterais. Sendo que a Venezuela ingressou no Mercosul apenas em 2012, já tendo adaptado à sua legislação nacional 986 de 1224 normas e ratificado 16 de 57 acordos previstos no seu protocolo de adesão.

    A segunda suspensão ocorreu sob a liderança do atual Ministro de Relações Exteriores do Brasil, o Sr. Aloysio Nunes, senador pelo PSDB-SP, um dos principais dirigentes do ninho golpista antidemocrático do impeachment de 2016. O curioso é que a segunda suspensão da Venezuela ocorreu com base no alegado contido no Protocolo de Ushuaia sobre Compromisso Democrático do Mercosul, segundo o qual o governo da República Bolivariana da Venezuela teria rompido com a ordem democrática. Essa ruptura teria ocorrido após a convocação da Assembleia Nacional Constituinte e diante recusa do governo Maduro em comparecer ao Brasil para uma suposta rodada de negociação com a igualmente golpista venezuelana Mesa Unidade Democrática (MUD), sob a tutela do governo de Michel Temer (PMDB).

    Não há nenhuma razão lúcida para crer que o Mercosul seja de alguma maneira uma alternativa ao modelo da globalização neoliberal capitalista, visto que desde a sua fundação, em seus 25 anos, adotou o mesmo padrão de constituição de blocos regionais de integração para facilitar a livre circulação de capitais a serviço das grandes empresas e multinacionais.

    No caso do Brasil e Argentina, destacam-se as disputas tarifárias e comerciais das respectivas burguesias concorrentes, sócias-subalternas dos mercados dos países centrais, principalmente dos setores automotivo e do agronegócio. Ao passo que as integrações culturais e educacionais e mesmo a livre circulação de trabalhadores, na própria América do Sul, se deparam com impedimentos burocráticos, ínfimos investimentos dos Estados membros ou mesmo situações onde trabalhadores são vítimas de discriminação e até mesmo criminalização.

    Ocorre que para além de não ser modelo alternativo à integração da globalização capitalista, patrocinada pela OMC e pelos países imperialistas, o Mercosul agora, ao interferir diretamente na soberania venezuelana, passa a ser um entreposto político para os interesses diretos dos Estados Unidos no Cone Sul.

    O governo Temer e seu Chanceler tucano seriam os últimos a terem moral para alegar quebra da democracia na Venezuela quando os mesmos e seus partidos (PSDB e PMDB) comandaram o próprio golpe parlamentar no Brasil e atualmente conduzem todas as reformas neoliberais em operação no Congresso Nacional, operando a desconfiguração da Constituição de 1988 e também da CLT, na base da compra de votos e distribuição de emendas no orçamento para deputados corruptos aliados que não podem também ser acusados de democratas.

    Destaque-se que o governo dito de esquerda da Frente Ampla do Uruguai também participou e aderiu à ofensiva imperialista contra a Venezuela, neste sábado, em São Paulo.

    À esquerda socialista da América Latina cabe defender a soberania e se solidarizar com o povo venezuelano, sem nenhum apoio político ao governo Maduro, mas defendendo a derrota da escalada golpista da MUD que opera naquele país em associação direta com o imperialismo norte-americano e europeu.

    Foto: Alan Santos/PR

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  • Diante da grave situação na Venezuela

    EDITORIAL 5 DE AGOSTO |

    Hoje, 5 de agosto, iniciam-se os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte na Venezuela. No entanto, os principais países imperialistas não reconhecem as eleições realizadas no último dia 30. O governo Trump adotou sanções contra o presidente Nicolás Maduro. O secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, declarou que as eleições são ilegítimas. O Mercosul, com Brasil de Temer e Argentina de Macri à frente, anunciam novas sanções ao país. A União Europeia, com destaque para a Espanha, tampouco reconheceu a legitimidade das eleições. Para a esquerda socialista, isso por si só, já deveria dizer muito.

    Como se isso não bastasse, ontem, 4 de Agosto, a aliança da oposição de direita MUD – Mesa de Unidade Democrática -, realizou uma nova marcha de protesto contra a posse dos deputados constituintes. O fato, é que hoje o cerco ao país atingiu um de seus pontos mais altos.

    Mas verdade seja dita: a responsabilidade por essa situação em boa medida recai sobre o próprio chavismo. Passado quase 20 anos desde que Hugo Chávez foi eleito pela primeira vez, em 1998, a chamada revolução socialista bolivariano não tomou nenhuma medida séria contra o capital. Com isso o chavismo foi incapaz de alterar a estrutura econômica do país.

    A Venezuela continua dependendo da exportação do petróleo e segue tendo que importar quase tudo. A renda petroleira continuou responsável por cerca de um terço do PIB, 80% das receitas de exportação e por mais de metade do financiamento do Estado. Sem a retomada da produção agropecuária e sem um parque industrial nacional, o país seguiu importando mais de 90% dos produtos, mercadorias, bens e serviços.

    Com a subida do preço do petróleo na primeira década de 2000, ao invés de mudanças estruturais, o chavismo privilegiou um acordo com setores da burguesia e a realização de políticas sociais compensatórias. É verdade que com isso elevaram o IDH. Mas, como não podia deixar de ser, sem mudanças estruturais, esse avanço foi passageiro. Com a queda do preço do petróleo o país começou a vir abaixo. Em 2013-2014 iniciou-se uma recessão e, com ela, o descontentamento popular. Isso é uma das principais explicações para a vitória da MUD nas eleições legislativas de 2015.

    Em que pese a política desastrosa do chavismo que terminou abrindo caminho para a contra-ofensiva da direita, não se pode perder de vista que o objetivo do imperialismo é retomar o controle direto do país, em particular de suas reservas de petróleo. Para isso, necessita remover o governo pondo fim às mediações.

    A ascensão do chavismo foi possível graças à heróica luta do povo venezuelano que se tornou um símbolo desde a famosa rebelião popular de 89, conhecida como “Caracazo”. Isso permitiu que Venezuela se tornasse um país politicamente mais independente do imperialismo. A ofensiva contrarrevolucionária em curso tem como objetivo, não apenas derrotar o governo, mas subordinar completamente o país e, principalmente, retroceder o avanço das lutas populares não só na Venezuela, mas em todo o continente.

    Escalada da direita e do imperialismo

    Desde que venceu as eleições legislativas de dezembro de 2015, a MUD lançou uma contra-ofensiva para destituir o presidente Nicolás Maduro. Sem maioria na Assembleia Nacional, o governo passou a se apoiar no poder judiciário para governar. No decorrer de 2016, a oposição tentou interromper o mandato presidencial através de um referendo revogatório. O Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) impediu que isso ocorresse. No inicio de 2017, a MUD passou a exigir a antecipação das eleições presidenciais declarando o governo incompetente por abuso de poder.

    Acossado pela oposição, ao invés de recorrer ao poder popular, Maduro tentou retirar o poder legislativo da Assembleia Nacional e passá-lo ao TSJ. Três dias depois recuou e, logo em seguida, no dia 1º de maio, convocou as eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte em 30 de julho.

    Entretanto, essa que poderia ser uma forte retomada da ofensiva contra a direita, terminou sendo minada pelo controle burocrático do governo sobre o processo eleitoral. As forças de esquerda, os grupos e ativistas independentes encontraram fortes obstáculos para legalizar suas candidaturas. Pouco mais de 5 mil candidatos dos 55 mil inscritos conseguiram obter seu reconhecimento. A quase totalidade dos candidatos das Comunas e do setor sindical, popular, camponês e indígena é ligada diretamente ao governo. Um processo que não estiver apoiado numa ampla democracia impede a unidade necessária para enfrentar a direita, além de diminuir a força e a legitimidade da própria Constituinte.

    A oposição, por sua vez, não perdeu tempo. Decidiu intensificar as mobilizações e enfrentamentos através de lockouts, marchas e barricadas (“guarimbas”) visando impedir a realização das eleições. Chavistas foram queimados vivos e candidatos chegaram a ser assassinados. O governo realizou marchas e mobilizações, ao mesmo em que reprimia as manifestações opositoras através da Guarda Nacional e dos Coletivos populares, fazendo novas vítimas. De acordo com algumas fontes, esses enfrentamentos já resultaram em torno de 120 mortos entre abril e julho deste ano.

    Sob um clima de máxima tensão, com barricadas e sem transportes, as eleições se realizaram. Logo, vieram as denúncias de fraude. A despeito disso, a Assembleia Nacional Constituinte se instalou e hoje inicia seus trabalhos. O imperialismo aumenta o cerco, ao mesmo tempo em que alguns setores já acenam com negociações.

    O desafio da esquerda socialista

    Os socialistas revolucionários devem lutar pela construção de uma alternativa tanto ao governo de Maduro quanto à oposição de direita. A estratégia deve ser a superação do chavismo. Para isso é necessário fortalecer as forças sociais da revolução, apoiando-se tanto na defesa de um programa classista e socialista, quanto nas mobilizações, na auto-organização e autodefesa das massas operárias e populares.

    Entretanto, nesse momento de extrema polarização, a construção dessa alternativa passa por se colocar na linha de frente da luta para derrotar a ofensiva contrarrevolucionária da direita, da OEA e do imperialismo. Não se constrói uma alternativa socialista e revolucionária desde um terceiro campo que na prática não existe. Fazê-lo é cair no puro abstencionismo. A unidade de ação necessária para derrotar a contrarrevolução não significa depositar nenhuma ilusão no governo de Maduro. Trata-se da mesma localização quando nos colocarmos contra o impeachment de Dilma. Como se sabe, isso não significou apoiar a política e muito menos o projeto de conciliação de classe de Dilma-Lula-PT.

    Equivocam-se também as forças de esquerda que neste momento buscam a superação do chavismo disputando o campo da oposição de direita. Na verdade trata-se de um erro ainda mais grave do que igualar neste momento governo e oposição. Ao se colocarem no campo da oposição de direita defendendo a queda do governo e o boicote à Constituinte perdem todo e qualquer critério de classe, confundindo revolução com contrarrevolução. Não se constrói uma alternativa em unidade de ação com a MUD ou o com imperialismo. Não é esse o campo onde devemos golpear juntos e marchar separados.

    Neste momento tão dramático porque passa a Venezuela, a esquerda latino-americana tem como sua principal tarefa ajudar a derrotar a ofensiva contrarrevolucionária. É urgente que se coloque em marcha e conclame a classe trabalhadora e os países irmãos a realizar ações de solidariedade em todos os terrenos necessários.

    Ao mesmo tempo, é necessário exigir dos deputados constituintes uma saída socialista para o país. É urgente que se modifique o caráter da atual Constituição que protege a propriedade privada e a liberdade de comércio e do lucro, preceitos nos quais se assentam todo tipo de exploração, a opressão e a desigualdade social.

    A nova Constituição deve garantir a adoção de medidas como a nacionalização das empresas estrangeiras, a imediata expropriação das empresas da direita golpista, uma PDVSA 100% estatal sob o controle dos trabalhadores. É fundamental que o Estado assuma o controle do comércio e da distribuição. Junto com isso é urgente a estatização do sistema financeiro. Só assim será possível realmente combater especulação e impedir a fuga de capitais. A suspensão do pagamento da dívida externa – até hoje paga pontualmente apesar da imensa crise que castiga o país – é vital para investimentos em infraestrutura, moradia, saúde e educação.  É preciso, enfim, a democratização das Forças Armadas e um Estado assentado no poder operário e popular.

    Tais são, enfim, alguns dos principais desafios da esquerda socialista na Venezuela.

    Foto: Governo da Venezuela

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  • O significado da vitória de Temer

    EDITORIAL 3 DE AGOSTO |

    Foram 264 votos favoráveis a aprovação do relatório que recomendou a rejeição da denúncia de corrupção passiva feita pela Procuradoria Geral da República contra Temer. O resultado foi sendo construído no último mês, o governo liberou R$ 4,1 Bilhões de reais para emendas parlamentares entre junho e julho, mais do que todo o restante do ano. Os deputados corruptos livraram Temer de responder ao processo no Supremo Tribunal Federal.

    A situação defensiva e o peso das direções pelegas foram decisivas para fechar qualquer possibilidade de derrubada de Temer pela força das mobilizações sociais. Entre muitos foi subestimado a capacidade de Temer continuar na presidência, ignorando sua maioria de ⅔ no parlamento.

    A disputa das frações burguesas representadas pelos procuradores da lava jato, juízes e a polícia federal enfrentando a presidência da república e os deputados corruptos, parecia pender para a vitória da fração pela reforma do sistema político ocorre que se demonstrou o peso do regime presidencialista de coalizão com o governo se protegendo pela maioria sólida no parlamento.

    O ascenso da luta da classe trabalhadora com o 8 de março, os dias de luta do dia 15 e 31 de março, culminando com a greve geral do dia 28 de abril e a marcha a Brasília no 24 de maio combinado com a crise política aberta com as delações da JBS abriram uma conjuntura marcada pelo fortalecimento da classe trabalhadora e crise do governo. Uma conjuntura favorável nos marcos ainda de uma situação defensiva.

    Já existem episódios suficientes para chegarmos a conclusão que o momento mais crítico de Temer passou. A vitória no TSE, a aprovação da reforma trabalhista e a rejeição da denúncia da PGR no plenário da câmara evidenciam o fim da conjuntura do período anterior.

    Teve peso decisivo o papel das direções majoritárias no movimento de massas que cumpriram um papel de desmobilização depois da greve geral e boicotaram as mobilizações no mês de junho. Lula e o PT nao jogaram suas forças para mobilizar a classe trabalhadora. Pelo contrário no auge da crise se calaram perante a desmobilização da Força Sindical, UGT e centrais de direita no dia 30 de junho. O centro das suas atenções é a defesa de Lula perante a operação lava jato.

    Tempos de resistência

    Identificar o fim da conjuntura aberta pelo 17 de maio não significa caracterizar que estamos indo para a estabilidade política. Pelo contrário, Temer continua sendo um governo odiado por 95% da população, ainda vamos ver o conflito da ala pro lava jato e os representantes do atual sistema político e a perspectiva no próximo período é de ataque de direitos profundos como a reforma previdenciária. O que queremos dizer que o período que estava colocado a possibilidade imediata de derrubar o governo aberta pelas delações da JBS parece que terminou, Temer com as recentes vitórias se sente fortalecido.

    A necessidade de unir a classe trabalhadora para enfrentar os ataques que virão é fundamental. Neste sentido, devemos exigir do PT, CUT, Lula, Força Sindical, CTB e demais centrais sindicais, a rearticulação do fórum das centrais sindicais para organizar a luta contra a Reforma da previdência.

    Conjuntamente com isso devemos reabrir o debate da reorganização da esquerda brasileira. A frente povo sem medo vai chamar debates programáticos por todo o país para discutir o programa para o Brasil. A esquerda socialista deve participar com toda as suas forças dessa discussão, defendendo um programa alternativo ao lulismo e impulsionando um campo político alternativo ao PT. Vamos ter também o congresso da CSP-Conlutas importante espaço de reorganização do sindicalismo classista no Brasil.

    Foto: Antonio Augusto / Câmara dos Deputados