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  • O rosto borrado da juventude brasileira

    Comentário sobre a Websérie “O Filho dos Outros” que estreou nesta quarta-feira na internet

    Por: Paulinho Tó*, de São Paulo, SP

    Sem dúvida, um dos elementos mais relevantes da conjuntura política brasileira atual é o crescimento da extrema direita. Essa direita, que até pouco tempo andava de cabeça baixa, envergonhada dos crimes cometidos pela ditadura militar, recoloca em pauta, com o peito cheio, a discussão sobre a redução da maioridade penal. A consequência objetiva disso é o projeto de lei que tramita atualmente no parlamento, com grandes possibilidades de ser aprovado. Imerso nesse contexto de polarização política, a Websérie documental “O Filho dos Outros” é concebida pelo Coletivo Rebento e estreou nesta quarta-feira, dia 22 de março, na internet.

    Dividida em quatro episódios, a obra mergulha nas condições das casas de “reabilitação”, na realidade do jovem infrator, no sofrimento de seus familiares, no mercado do crime e no universo cultural do adolescente das periferias brasileiras. Logo de cara, o público é introduzido à dura realidade das casas “socioeducativos” no Brasil, em que, muitas vezes, os jovens são agredidos e torturados sistematicamente e que, em alguns casos (como no Estado do Ceará), essas instituições funcionam de maneira quase idêntica ao sistema carcerário. E essa tem sido a tendência das casas em todo o Brasil, o que significa que o encarceramento de menores já acontece, na prática. O primeiro episódio, “Pea”, mostra a falência desse sistema, comprovada pela altíssima reincidência do jovem liberto no crime.

    Enquanto a direita militante da redução da maioridade penal, munida de todo tipo de preconceito, se esforça em retirar a humanidade desses jovens, em reduzi-los ao conceito mistificador de “bandido”, apagando, com isso, qualquer possibilidade de empatia com ele, o segundo episódio de “O Filho dos Outros” nos aproxima da realidade de alguns desses jovens, em entrevistas concedidas pelas mães e por ex-internos da antiga Febem, atual Fundação Casa. Ouvimos as histórias de sofrimento e as consequências psicológicas e emocionais da internação para esses jovens, bem como a agonia vivida por seus familiares do lado de fora.

    Os relatos continuam no episódio seguinte, “Ovelha Negra”, que procura mostrar como esses jovens entram no mundo do crime – as circunstâncias de suas vidas e suas motivações. A dinâmica desses relatos, sempre intercaladas por entrevistas de estudiosos no assunto, é bastante esclarecedora. A entrada desses jovens na criminalidade é observada na perspectiva do mercado bilionário do crime, sobretudo o do tráfico de drogas, que, como qualquer setor econômico, atrai mão-de-obra de jovens periféricos em massa para executar seus serviços. Vemos que, a partir dos anos 1990, o mercado ilegal se fortalece com o a política de encarceramento, que, no limite, estimula a formação do PCC. Nesse sentido, o episódio pendula nossa atenção entre as razões, demasiadamente humanas, que levam determinados jovens a entrar para o mercado ilegal e a lucrativa “indústria” do crime.

    Por fim, em “Roda Gigante”, quarto e último episódio, entramos em contato com o universo cultural do adolescente da periferia. Através de relatos dos próprios adolescentes, o documentário nos aproxima das músicas, das roupas, das danças e da cultura do funk. Todos esses elementos culturais são geralmente utilizados pelas autoridades de forma preconceituosa para identificação de “suspeitos” – vide o caso dos “rolezinhos” em Shopping Centers de classe alta de São Paulo. No documentário, os jovens comentam esses eventos, marcados pelas redes sociais, reprimidos pela polícia e recriminados por diversos veículos da grande mídia.

    Em resumo, “O Filho dos Outros” discute, com inteligência e sensibilidade, os principais pontos da argumentação favorável à redução da maioridade: a sua ineficiência na reabilitação do jovem infrator; a falsa ideia de que a sua aplicação reduziria a criminalidade; a desmistificação da pecha de “bandido”; e o entendimento das razões objetivas que levam o jovem ao crime.

    A redução da maioridade é uma proposta populista da direita e tem encontrado ecos relevantes na sociedade brasileira. Por isso, “O Filho dos Outros” é uma obra corajosa e necessária pros nossos dias.

    Canais de exibição:
    YouTube (/ofilhodosoutros)
    Facebook (@ofilhodosoutros)

    ¬ Cronograma de divulgação

    1o ep – 22/03 (qua) – Pea
    2o ep – 24/03 (qui) – Salmo 121
    3o ep – 28/03 (ter) – Ovelha Negra
    4o ep – 30/03 (qui) – Roda Gigante

    *Paulinho Tó é músico, compositor e pesquisador de canção brasileira. Atualmente lançou seu segundo álbum de canções autorais, De cara no asfalto.

    Foto: Reprodução Youtube

  • Jogo privado de espelhos é um relato cru sobre um futuro bem próximo

    Por: Náthalia Lucia Gonçalves[1], de Santo André, SP

    Jogo Privado de Espelhos de Lucas Silva é um livro de ficção política que mostra um futuro que está a poucos anos de acontecer. Sua trama não linear e cheia de suspense coloca personagens distintos em um ambiente que reina a dúvida se esse futuro já não está ocorrendo.

    São Paulo foi divida territorialmente entre a iniciativa publica e privada, sendo as áreas de Fragilidade Econômica os locais aonde são postos sob os cuidados das empresa privadas. A parte que é conhecida como o centro velho (Brás, Anhangabaú, Luz, etc) está sob os cuidados de um conglomerado de várias empresas conhecido como a Repartição. Esse grupo terceirizou e “quarteirizou” os serviços básicos para outros grupos menores, nacionais e internacionais.

    Essa São Paulo do futuro é um pouco fria e sem esperança. Lucas Silva recorre a uma visão de futuro próxima de autores como Ignácio de Loiola Brandão, William Gibson e Philip K. Dick, para tornar os poucos avanços tecnológicos e econômicos desse mundo mais palpáveis para o nosso presente, como por exemplo, os trajes sonoros que jovens de periferia usam, que mudam de cor conforme o tom da musica.

    Nesse ambiente a trama de Jogo Privado de Espelhos acontece. Ela tem dois fatores importantes: Uma tentativa de um desvio de milhões de reais que acabou por não dar certo e o sequestro de uma criança, filha de um famoso empresário.

    Lucas Silva usa de interessantes ideias para contar sua história. Ele brinca com a proposta de uma São Paulo privatizada, para com isso “terceirizar” a trama do livro. Há um uso de metalinguagem de que a história principal é fragmentada em sete contos, passados dentro de uma semana, que mostram pontos de vista pessoal de cada personagem.

    Mas isso não torna a trama complexa, ela existe entre as histórias de cada personagem. Claro que sua proposta é fazer com que o leitor vá a recolhendo aos poucos. Por isso não existe uma linearidade na narrativa, os dias da semana não estão em uma ordem cronológica. Só que como a trama de Pulp Fiction, vemos as coisas se encaixando, personagens que acompanhamos a morte sendo peças relevantes do conjunto principal do livro, retornando para fazer parte de outras histórias.

    Em Jogo Privado de Espelhos, Lucas Silva teve como objetivo quebrar um pouco a rotina das narrativas mais lineares, sem com isso perder o sentido da história, que leva o leitor a conhecer muitos personagens e histórias fascinantes, desprezíveis, normais e peculiares.

    Jogo Privado de Espelhos foi lançado pelo Site Colunas Tortas em formato digital (e-book)

    Link para a compra do livro Jogo Privado de Espelhos

    [1] Nathália Lucia Gonçalves é formada em letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André em 2012. E trabalha como revisora ortográfica e redatora publicitária freelancer.

  • Grupo lança Websérie de quatro episódios sobre a redução da maioridade penal

    O Coletivo Rebento, formado por jornalistas, documentaristas e artistas, iniciou em 2015 a produção da websérie “O Filho dos Outros” com o objetivo de ajudar a qualificar o debate público sobre a redução da maioridade penal a partir da voz da juventude e de pesquisadores que estão debruçados sobre o tema e suas várias vertentes. Em dezembro de 2016, a websérie foi indicada a melhor roteiro documental pelo Rio WebFest, principal festival destinado à produção audiovisual para internet.

    Contando basicamente com os recursos obtidos por meio de campanha de financiamento coletivo do Catarse foram produzidos quatro episódios, com duração de 13 a 18 minutos, que serão amplamente divulgados pelos canais do YouTube (/ofilhodosoutros) e Facebook (@ofilhodosoutros), sempre às 10h, a partir do dia 22 de março.

    Antes do lançamento virtual, no entanto, será realizada a pré-estreia em São Paulo no dia 21/03, Dia Internacional contra a Discriminação Racial, a céu aberto, no teatro de contêiner da Cia Mungunzá, recentemente inaugurado no centro da cidade.

    Na ocasião haverá projeção dos quatro episódios, seguida por uma roda de conversa com debatedores convidados (a confirmar) e produtores da websérie. Também haverá a entrega das recompensas para aqueles que contribuíram pelo Catarse, e uma exposição da galeria de fotos e das obras confeccionadas pelo artista Guilherme Augusto GAFI, responsável pela identidade da websérie.

    ¬ Pré-estreia: “O FILHO DOS OUTROS”

    Quando? 21/03/2017, terça-feira, das 18h30 às 23h.
    Onde? Cia Mungunzá de Teatro, Rua dos Gusmões, 43 – Centro, São Paulo.
    Quanto? Entrada gratuita.
    Na ocasião serão vendidos comes e bebes.

    Mais detalhes no evento do Facebook. Confirme sua presença e venha confraternizar conosco: https://www.facebook.com/events/1224394894262563/

    ¬ Sinopse dos episódios

    Trailer: www.youtube.com/embed/gIr8VUCU6nY

    Episódio 1: “Pea”
    Parte do Coletivo Rebento acompanhou a situação do sistema socioeducativo do Ceará marcado por rebeliões, denúncias de torturas e maus tratos contra os adolescentes internos. Entrevistamos especialistas, entidades de proteção à criança e ao adolescente e outras que acompanham a situação de perto. Entramos em algumas unidades mostrando uma situação degradante e a necessidade de se repensar o modo de funcionamento do sistema.

    Episódio 2: “Salmo 121”
    No segundo episódio acompanhamos a história de mães e ex-internos que passaram pela antiga Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem), atual Fundação Casa, e que contam a experiência da internação e os impactos sociais e psicológicos desse processo na vida dos jovens e de suas famílias.

    Episódio 3: “Ovelha negra”
    Este episódio discute a entrada de jovens e adolescente no mundo do crime explorando as razões que levem eles a trilhar tais caminhos. Ao mesmo tempo em que contamos essas histórias por meio de história de ex-internos, abordamos o processo de formação e expansão do Primeiro Comando da Capital (PCC) que atualmente domina um percentual importante dos presídios no Brasil.

    Episódio 4: “Roda Gigante”
    Este episódio é uma imersão no universo da juventude de periferia que se encontra em rolezinhos, bailes funks e redes sociais e afirma sua identidade na produção cultural e seus modos de comportamento. Porém, apesar da sociedade consumir suas músicas e seus signos culturais que essa juventude produz estes jovens são alvo de preconceito e criminalização.

    ¬ Cronograma de divulgação

    1o ep – 22/03 (qua) – Pea
    2o ep – 24/03 (qui) – Salmo 121
    3o ep – 28/03 (ter) – Ovelha Negra
    4o ep – 30/03 (qui) – Roda Gigante

     

  • Mateluna e os ecos da luta política no Chile: Passado e presente da esquerda chilena é colocado em cena em peça com dramaturgia e direção de Guillermo Calderón

    Por Mariana Mayor*

    No último sábado, dia 18/03, estreou a peça “Mateluna” dentro da programação da 4ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Com elenco de 6 atores e direção e dramaturgia de Guillermo Calderón, a peça chilena coloca em cena a relação do grupo de teatro com o ex-guerrilheiro Jorge Mateluna, militante da Frente Patriótica Manuel Rodríguez, organizada pelo Partido Comunista Chileno, em 1983, em plena ditadura militar. Mateluna foi preso no passado por 12 anos pelo seu envolvimento com a guerrilha e, em 2014, foi novamente preso pelo crime de roubo de banco na cidade chilena de Pudahuel.

    Calderón e seus atores conheceram Jorge Mateluna através do processo de criação do espetáculo Escuela, de 2013, apresentado inclusive na 1ª MIT-SP. Essa peça tratava da formação de guerrilheiros na ditadura militar chilena e Mateluna, formado por essas escolas de guerrilha, foi convidado por um dos atores a participar do processo de criação para contar sua história pessoal. A partir de então se inicia a relação entre os artistas e o ex-guerrilheiro.

    No espetáculo “Mateluna”, acompanhamos através da perspectiva do grupo, o desenvolvimento dessa relação. A peça começa com uma atriz explicando para o público quem é Mateluna e o por quê de se fazer uma peça sobre o ex-guerrilheiro. Sua fala inicial está longe de ser um informe objetivo: em suas palavras nos é revelada as angústias, dúvidas, admiração e medos dos artistas em relação à Mateluna.

    Ao longo das cenas os atores, vestidos como guerrilheiros, apresentam os capítulos dessa relação pessoal e política e também de como transformaram essa matéria viva e cheia de contradições em cena. O fazer teatral aqui é colocado como uma forma de entendimento sobre a questão Mateluna: o ex-guerrilheiro é ou não culpado por sua segunda prisão? Por que um homem comunista que lutou toda sua vida contra um regime autoritário depois de casado e com filhos tentaria roubar um banco? Qual seria a justificativa plausível para suas ações que parecem mesquinhas diante de um passado e talvez presente de utopia revolucionária?

    A peça torna-se então a investigação dos artistas para descobrir alguma verdade sobre a segunda prisão de Jorge Mateluna. O espetáculo também é uma denúncia, uma espécie de agit-prop em forma de épico-documentário, onde os atores nos revelam detalhes da investigação. Mateluna pode ter sido vítima de um sistema judiciário que se diz democrático, mas que defende interesses de classe. Há fortes evidências de que tenha ocorrido um erro judicial, que Jorge Mateluna não se envolveu com o roubo, que apenas estava próximo do local de fuga dos assaltantes – por mera coincidência ou azar. Por fim nos é sugerido sutilmente que talvez Mateluna tenha sido condenado por seu passado na guerrilha.

    Ao mesmo tempo, as discussões feitas pelos atores em cena ultrapassam o possível crime de roubo do banco. O espetáculo é uma investigação sobre a figura de Jorge Mateluna guerrilheiro e revolucionário. A todo instante aparece no palco a discussão sobre a guerrilha urbana, as estratégias utilizadas pelos movimentos da esquerda revolucionária latino-americana, e os resultados e limites de suas ações. Antes de qualquer juízo de valor, há sempre as perguntas de subtexto: por que a esquerda falhou? Como poderia ter sido diferente? O que pode ser feito a partir de agora?

    Nesse sentido, a peça constrói inúmeras conexões históricas entre o passado recente da ditadura militar chilena e o presente democrático neo-liberal. Ao mesmo tempo, a peça ressalta como ainda é viva a memória da guerrilha urbana e como a realidade histórica se modificou. Em uma das cenas, uma atriz narra um trecho de uma carta que Mateluna enviou para os atores. Ele escreve que em sua primeira prisão sempre se ouvia o músico cubano Sílvio Rodríguez, e que agora terá que aturar por 16 anos (tempo da sua condenação), o estilo musical “Reggaeton”. As imagens são simples, mas simbólicas: algo se perdeu nesses 20 anos de redemocratização.

    Não há solução fácil no palco. Através de denúncia, de reflexão histórica e de provocação política, a peça nos leva a pensar sobre o lado de fora do teatro.

    Mateluna está em cartaz no Teatro João Caetano, Vila Mariana, São Paulo, em mais duas sessões nos dias 20/03 e 21/03 às 21h dentro da programação da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo.

    Ingressos: 20 reais inteira/ 10 reais meia-entrada.

    Mais informações: http://mitsp.org/2017/mateluna/

    Foto: http://www.escenasdocambio.org/en/eventos/gal-mateluna/

    *Mariana Mayor é dramaturga, atriz e professora de história do teatro brasileiro. Foi professora substituta de História do Teatro Brasileiro no IA/UNESP nos anos de 2015 e 2016. Foi prefessora conferencista de História do Teatro Mundial II na ECA/USP. Integrou os grupos pH2: estado de teatro, UnaLuna e Os Fofos Encenam nas funções de atriz, dramaturgista e assistente de direção. Ganhou, em 2014, o prêmio IBERESCENA de dramaturgia. Atualmente é doutoranda em Teoria e Prática do Teatro pelo PPGAC/USP e é integrante do LITS – Laboratório de Teatro e Sociedade, coordenado pelo prof. Dr. Sérgio de Carvalho. É diretora do espetáculo musical DE CARA NO ASFALTO, do cantor e compositor paulista, Paulinho Tó. Dirigiu no final de 2016, a leitura dramática e musical da peça “Arena conta Zumbi”, de Boal e Guarnieri no projeto “Sankofa”, do Sesc Vila Mariana.

  • Mais duas garras de prosa sobre Logan

    Por: Gustavo Leão*, de Maceió, AL

    Eu cresci acompanhando histórias de super-heróis. Foi na infância que tive o primeiro contato com os X-men, através do desenho animado exibido no Brasil nos anos 90 e através de quadrinhos que comprava ocasionalmente (quando conseguia juntar algum dinheiro). No entanto, foi já na adolescência que passei a acompanhar, com muito mais frequência, as histórias em quadrinhos dos mutantes da Marvel.

    É interessante tentar pensar no porquê de minha predileção pelos X-men em meio ao panteão super-heróico. Talvez seja porque, diferente dos demais super-heróis, os X-men não se dedicavam a combater o crime, mas a lutar por tolerância e aceitação.

    À época em que anunciaram o primeiro filme do grupo, lançado em 2000, lembro da ansiedade, lembro de acompanhar notícias que diziam que a existência de outras adaptações cinematográficas de personagens Marvel, como Homem-aranha e Vingadores (que só passou a ser cogitado anos depois), dependeria do sucesso desse projeto. Até porque, o último filme do gênero, Batman & Robin, dirigido por Joel Schumacher, havia sido lançado em 1997 e tinha sido fracasso de público e crítica, colocando o que parecia ser a última pá de terra sobre os filmes de super-herói.

    Dezessete anos após o lançamento de X-men: o filme (Bryan Singer), depois de adaptações milionárias, como o já mencionado Vingadores, e de mais nove filmes da franquia X-men – contando com Deadpool – é impossível não perceber o quanto o projeto foi bem sucedido e a sua importância para a história do cinema e aquilo que se convencionou chamar de cultura pop (talvez por falta de um termo mais apropriado).

    Assim chegamos a Logan, filme dirigido por James Mangold (Os Indomáveis) e que traz Hugh Jackman pela última vez no papel de Wolverine. A história do filme se passa no ano de 2029 e mostra um Logan abatido, trabalhando como motorista de aplicativo, vivendo próximo à fronteira dos EUA com o México e cuidando de um Professor Xavier idoso e transtornado.

    Essa rotina muda drasticamente com a chegada de uma garota misteriosa que está sendo perseguida por uma organização poderosa. A partir daí, o filme vira uma espécie de road movie com elementos de perseguição, alta carga dramática e muita, mas muita, violência. Nesse quesito, é preciso salientar que há um sentido para a violência gráfica da película, afinal de contas, a personagem principal possui garras que cortam praticamente qualquer coisa e é preciso mostrar os efeitos disso no corpo humano.

    É tudo aquilo que os fãs de X-men sempre quiseram ver no cinema, mas ao mesmo tempo, a extrema violência e a crueza das cenas de luta não são muito agradáveis, o que é bom. Em alguns momentos a trilha sonora é suspensa e tudo o que ouvimos são gemidos, grunhidos e o gorgolejar de bocas cheias de sangue. A frase icônica do Wolverine (“Sou o melhor no que faço, mas o que eu faço melhor não é nada agradável”), imortalizada na HQ Eu, Wolverine, de Chris Claremont e Frank Miller, nunca fez tanto sentido para a personagem no cinema como nesse filme.

    Isso, claro, muito embora o Wolverine retratado na história de Logan seja um Wolverine velho, debilitado e carregado de cicatrizes físicas e psicológicas. A passagem do tempo deixou marcas que nem o fator regenerativo do mutante conseguiu curar, o que é passado para o espectador através de uma ótima performance de Hugh Jackman, que, em um  momento de extrema comoção do filme, nem precisa dizer nada: a câmera se aproxima de seu rosto e vemos suas feições desabarem emocionalmente.

    Há referências diretas ao clássico do faroeste Os brutos também amam (Shane, no original), de 1953, dirigido por George Stevens. Na história do filme estrelado por Alan Ladd, um forasteiro, o Shane do título original, chega a uma pequena cidade fugindo de um passado conturbado e passa a trabalhar na construção da fazenda de uma família, mas as coisas começam a mudar quando os moradores da cidade vão ficando cada vez mais acuados e sendo mais explorados pelo fazendeiro mais rico da região.

    A partir de então, Shane se vê obrigado a revisitar seu passado como assassino para proteger aqueles que aprendeu a amar. Percebe-se que os dois momentos em que o filme é diretamente citado em Logan não são gratuitos. Outra obra-prima do faroeste, Os imperdoáveis, de 1992, dirigido e estrelado por Clint Eastwood, que retrata um cowboy ex-assassino aposentado tendo que voltar à ativa, certamente também serviu como referência para Logan.

    Patrick Stewart também entrega um Xavier, assim como Logan, fragilizado, que alterna entre momentos de insanidade e lucidez, mas que não abandona a característica essencial da personagem de sonhador esperançoso, mesmo diante de uma realidade difícil. Diferente de X-men: dias de um futuro esquecido (Bryan Singer), de 2014, o futuro aqui mostrado não chega a ser uma distopia feita nos moldes dos quadrinhos de super-herói, mas mostra um 2029 perturbadoramente semelhante à nossa realidade e, principalmente, muito próximo da realidade atual dos EUA.

    Logan leva uma vida difícil junto com Xavier e Caliban (Stephen Merchant). Os mutantes já não são mais numerosos como antes. A intolerância parece ter vencido a batalha antes travada pelos X-men. É interessante ver como aqueles que perseguem e torturam os mutantes se veem como os verdadeiros heróis, como é o caso de Donald Pierce, interpretado por um convincente Boyd Holbrook (Narcos). Pode-se dizer que a grande ameaça do filme é, na verdade, uma empresa estadunidense que, dentre outras coisas, explora a mão-de-obra latina[1].

    Em determinado momento, surge uma família negra de fazendeiros que é explorada por fazendeiros brancos. Tudo isso somado ao fato de que a história se passa na fronteira dos EUA com o México, transmite uma mensagem relevante para os EUA e para o mundo da era Trump. No entanto, o principal antagonista do filme não deixa de ser o próprio Logan e seu passado como Arma X, o que é tratado de forma interessante por Mangold (discordo de algumas críticas que disseram que essa decisão resgata o que havia de pior nos quadrinhos dos anos 90, até porque, nesse filme, isso ganha dimensões totalmente diferentes).

    Aliás, o filme consegue ser superior à HQ na qual é bem livremente baseado, Velho Logan, de Mark Millar e Steve McNiven. O quadrinho, que tem uma proposta interessante, muitas vezes deixa a desejar na execução. Apesar de exibir trechos de extrema violência, o que joga para cima a classificação etária de seu público alvo, possui trechos desnecessariamente didáticos, com diálogos expositivos roteiro previsível.

    Já o filme consegue se desvencilhar de tudo isso, sendo muitas vezes pouco didático e nada expositivo, como quando se trata do que aconteceu aos X-men. Tudo fica na base da inferência, o que é uma escolha ainda mais intrigante, uma vez que o que aconteceu foi tão intenso e pesado, que as personagens evitam a todo tempo tocar no assunto.

    O filme fala sobre fim, morte e velhice, mas também fala sobre o novo, o começo, a juventude e a esperança[2], que são personificados, principalmente, na personagem Laura (ou X-23 para os mais íntimos).

    A atriz Dafne Keen, que interpreta a personagem, consegue transmitir a sensação do perigo que representa, através de um olhar ameaçador e dos seus movimentos nas cenas de luta. O desenvolvimento da relação dela com o Wolverine é um dos pontos mais tocantes do filme, que envolve paternidade e transmissão de legado, como evidencia a última cena do filme, em que aquilo que é mostrado em primeiro plano de certa forma contrasta com o que acontece ao fundo.

    Logan não é um filme para todas as idades (sua classificação no Brasil é 16 anos), mas é um filme sobre todas as idades. Sobre o velho e novo. Sobre o fim de um ciclo e o começo de outro. É, sobretudo, o respiro renovador de que as adaptações de quadrinhos de super-herói para o cinema precisavam e é interessante que isso tenha acontecido na franquia que deu origem a tudo.

    Notas

    [1] Texto de Alessandra Fahl Cordeiro que também trata da crítica anticapitalista subentendida no filme: http://esquerdaonline.com.br/2017/03/05/logan-muito-alem-de-uma-ficcao/

    [2] Texto de Henrique Canary sobre Logan que também toca nos pontos da velhice e da juventude: http://esquerdaonline.com.br/2017/03/09/o-que-aprendi-com-logan/. Texto de João Paulo da Silva, camarada do PSTU, que também traz reflexões nesse sentido:  http://www.pstu.org.br/logan-o-filme-que-chegou-ao-coracao-do-wolverine/

    *doutorando em Letras e militante do MAIS Alagoas

    Foto: Divulgação

  • O que aprendi com Logan

    Por Henrique Canary, Colunista do Esquerda Online

    (Não contém spoilers)

    A última aparição de Hugh Jackman como Wolverine nos cinemas era, sem dúvida, um dos eventos mais esperados do ano. E valeu a pena! Inspirado no arco de HQ’s “Velho Logan”, Logan, dirigido por James Mangold (Wolverine – Imortal, 2013) é, de longe, o melhor filme de toda a franquia X-Men, faz justiça ao talento de Jackman, ao seu incrível crescimento como ator nestes 16 anos em que interpretou o Wolverine, e à grandeza de sua personagem. O filme é simplesmente fantástico. Ótima fotografia, roteiro bem amarrado, ritmo certo. Logan é, também, o filme mais realista da franquia. Praticamente um drama. Para melhorar, é um “road movie” (algo absolutamente incomum – talvez único – para um filme de super-herói), embalado pela voz arrastada e o violão inconfundível de Johnny Cash.

    O roteiro dialoga com a HQ, mas segue um caminho próprio. Em um não tão longínquo 2029, os mutantes foram praticamente extintos, e James “Logan” Howlett vive recluso em uma fábrica abandonada na fronteira do México com os Estados Unidos, trabalhando como motorista para um aplicativo, e cuidando de seu velho mestre e amigo, Charles Xavier, que a esta altura já passa dos 90 anos, e sofre de constantes e perturbadoras convulsões. Aquele que foi “o cérebro mais perigoso do mundo” agora delira quase todo o tempo, e depende de remédios para continuar funcionando. Mas também para Logan as coisas não estão boas. A pobreza escancarada, a humilhação pelos clientes, a solidão, as lembranças do passado. Logan agora manca, suas feridas não cicatrizam como antes, suas garras não funcionam tão bem, seu corpo se enche de cicatrizes das velhas batalhas e o poderoso herói degenera a olhos vistos a cada minuto do filme. Nestas condições, ele precisa levar uma pequena mutante conhecida nos quadrinhos como X-23, para um lugar seguro do outro lado do país. X-23, ou Laura, é uma mutante extremamente poderosa: tem garras de metal que lhe saem das mãos, é agressiva, quieta e, quando acuada, se comporta como um animal. “Ela não lhe lembra ninguém?”, pergunta Xavier a Logan…

    Logan é um filme sobre doença, velhice e a fragilidade da vida. Mas é também uma ode às novas gerações, aos mais jovens, àqueles que hoje erram e agem por impulso, mas que certamente aprenderão a ser melhores do que nós, àqueles a quem o futuro pertence. Logan nos ensina que o tempo é implacável, que até os mais poderosos heróis envelhecem, se tornam carentes e doentes. Nessas condições, não há outra saída a não ser confiar nas novas gerações. A vida tem que seguir adiante, a despeito dos indivíduos. “A morte é uma impiedosa vitória da espécie sobre o indivíduo”, disse Marx nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos, de 1844. Que profundo e inspirador! Não é preciso ter o “fator de cura” para enganar a morte. Há outros meios. Entregar o bastão aos mais jovens e deixar a vida seguir seu curso é um deles.

    “Não seja aquilo que eles fizeram de você”, diz Logan para X-23 a certa altura do filme. Para aqueles que sonham e lutam por um mundo melhor, este também é um bom conselho. Talvez o mais importante de todos! Ninguém colocou garras de adamantium em nós, nem nos submeteu a experimentos bizarros para nos transformar em máquinas assassinas. Mas a sociedade em que vivemos de alguma maneira “nos fez”. Ou tenta nos fazer. Quer que sejamos individualistas, que não sejamos solidários, que sejamos indiferentes, que nos preocupemos apenas com nós mesmos. É preciso resistir. Não ser aquilo que eles querem fazer de nós. Assim, ainda que não sejamos imortais, a causa a que servimos poderá viver para sempre. E nós viveremos nela.

    Essas foram algumas lições que aprendi assistindo Logan.

  • Um bom lugar na quebrada: a batalha do Remp

    Por Elber Almeida, do ABC Paulista

    Há mais de dois anos iniciou uma batalha numa das quebradas de São Bernardo do Campo. A Vila Ferreira e o Parque Esmeralda são hoje duas vilas com conjuntos habitacionais e barracos de alvenaria, mas no passado já foram favelas de barraco de pau. Enquanto ainda havia poucas batalhas no ABC e a maioria era no centro, o movimento dessa quebrada decidiu fazer seu próprio corre.

    A Batalha do Remp ocorre numa pracinha sem iluminação que fica entre três bairros de SBC: além dos dois citados, o conjunto habitacional Três Marias. Os organizadores se viram com uma lâmpada improvisada e puxam a energia de uma das casas que recebe uma taxa para o uso desta pela batalha. Com essa energia também ligam uma caixa de som. As rimas podem começar.

    O aniversário de dois anos foi especial. Quando começou ainda era à tarde em São Bernardo e só terminou às 10 da noite. Nele rolaram algumas atrações do rap local, do ABC, assim como o grupo que já vai se destacando no Rap Nacional, Síntese, que ajudou a fortalecer o evento.

    Quem já viu o famoso clipe da música “Um bom Lugar” de Sabotage poderia comparar os momentos finais deste, em que Sandrão canta com Sabota para uma plateia da quebrada, com o que aconteceu no Remp em seu aniversário. O Hip Hop, mesmo em só um de seus elementos, constrói bons lugares na quebrada anos depois do famoso som do maestro do canão.

    Que outro evento traria uma conexão de São José dos Campos aos ABC, por meio da arte de um grupo como o Síntese, totalmente 0800, ainda mais na quebrada? As apresentações dos grupos ocorreram entre as batalhas de MC’s. Neste dia vieram MC’s de várias partes do ABC, com destaque para Diadema. O campeão foi Drewan, um MC vindo de Macaé, no Rio de Janeiro. Conexões. O Hip Hop traz às ruas a cultura que é negada pelos governos ao povo pobre e preto da periferia.

    MGO e Raul, que fazem parte da organização, destacam a importância social do movimento, que coloca uma perspectiva de evolução da periferia através da cultura, fugindo dos caminhos que o Rap sempre denunciou, como os que levam ao crime. Numa cidade como São Bernardo do Campo, fortemente atingida pela crise que gerou a maior taxa de desemprego na região dos últimos onze anos – segundo fundação SEADE – de mais de 16%, e onde não existem alternativas gratuitas de cultura para sua população, ainda mais agora com o  desmonte do Centro de Áudio Visual (CAV) e Centro Livre de Artes Cênicas (CLAC), e o fim da Coordenadoria de Ações para a Juventude (Cajuv) algo assim mostra sua importância.

    Após o aniversário da batalha aconteceu uma edição de disputa entre o Remp e a Batalha do Kaleman, em Diadema. A organização das duas batalhas frisa que a disputa é puramente no freestyle, e o objetivo final é a união através das batalhas. O Hip Hop, que unificava os guettos nos EUA também faz pontes de colaboração entre as vilas da periferia brasileira.

    Sem dúvidas a Batalha do Remp ainda terá muitas histórias para contar.

    #0 Cultura e resistência no ABC paulista: http://esquerdaonline.com.br/2016/10/20/cultura-e-resistencia-no-abc-paulista-sobre-batalhas-de-rap-na-regiao/

    1# Batalha da Pistinha: http://esquerdaonline.com.br/2016/11/01/cultura-na-periferia-do-abc-paulista-a-batalha-da-pistinha/

    2# Batalha da Praça: http://esquerdaonline.com.br/2016/11/07/entre-a-industria-e-a-quebrada-a-batalha-da-praca-no-silvina/

    3# Batalha da Vila Luzita: http://esquerdaonline.com.br/2016/11/17/a-batalha-da-vila-luzita-a-igreja-e-o-terminal/

    4# Batalha da Galeria: http://esquerdaonline.com.br/2016/11/20/o-contraste-na-cidade-a-batalha-da-galeria/

     5# Batalha da Palavra: http://esquerdaonline.com.br/2016/12/08/a-palavra-rimada-no-centro-de-santo-andre/

     6# Resiste Batalha do Carrefa!: http://esquerdaonline.com.br/2017/01/02/resiste-batalha-do-carrefa/

     7# A Batalha do Cooperativa: http://esquerdaonline.com.br/2017/01/27/a-batalha-do-cooperativa/

    8# A Tripla Resistência das Minas: Roda Cultural da Brasil: http://esquerdaonline.com.br/2017/02/09/apenas-em-sua-segunda-edicao-a-roda-cultural-da-brasil-batalha-das-minas-em-sao-bernardo-do-campo-mostra-a-que-veio-resistir/

    Mapa das batalhas de rap no ABC:

    https://www.google.com/maps/d/viewer?mid=1KX9xOI7W1Ks9jmhSX2JNTIPiHLM&hl=pt-BR

     

  • “Logan”: Muito além de uma ficção

    Por: Alessandra Fahl Cordeiro, de São Bernardo do Campo, SP

    *este texto pode conter alguns leves “spoilers”, porém sem revelações de desfechos

    Fui assistir “Logan” no cinema com uma boa expectativa – trailer bem feito e com trilha sonora interpretada por Johnny Cash (diga – se de passagem, um defensor dos direitos humanos), coisas que causaram boas impressões. Mas estas foram superadas a cada minuto do filme. Apesar de não ser uma fã de carteirinha de ficção ou HQ´s, a história de Wolverine e dos X – Men sempre me causaram certa simpatia.

    O filme se passa em 2029, com “Logan” doente, dependente de bebidas alcoólicas, e motorista de um aplicativo. Escondido, explorado, e sem ter a quem recorrer ajuda.

    Mas o mais importante do filme são as plausíveis críticas anticapitalistas. O próprio personagem principal teve sua condição genética usada contra a sua vontade para ser transformado em uma arma – o que mudou para sempre os rumos da sua vida.

    Tudo corre desta forma, até ele descobrir novas experiências realizadas com seres humanos, movidas por interesses meramente lucrativos. Não existem como objetivos curas de doenças, mas a criação de exércitos obedientes que não questionem ordens. E quando esta nova experiência é considerada como um “prejuízo” – esta palavra é claramente pronunciada por um dos personagens – a ordem é de “descarte” imediato, a partir do momento em que uma outra experiência, ” sem alma”, tem resultado aceito como muito mais eficaz. Uma pergunta fica no ar: pesquisas médicas geneticistas pra quem, servindo à quem e à quais interesses?

    Logan também foi usado em experiências obscuras, mas não perdeu a capacidade de sentir, opinar e escolher. Assim como Charles Xavier, é considerado “um perigo” por estes motivos. Existe algo mais atual do que isso, em tempos de golpes maquiados e manipulação explícita de opinião pública com uso de ameaças das mais variadas, criminalização de protestos e perseguição cada vez maior aos que destoam do considerado “comportamento padrão”?

    Outro ponto marcante é a perseverança na luta. Em meio a todas as adversidades, Logan não desiste do que passa a acreditar no crepúsculo da vida. Abraça finalmente uma causa militante, e não abre mão dessa luta, custe o que custar. Nem da solidariedade, outro aspecto marcante do filme. Muito pertinente, em tempos de individualismo cada vez mais acirrado, reflexo, como diria Marx, da desconfiança que o capitalismo incute entre os indivíduos nas sociedades em que concorrer e ganhar individualmente é mais importante do que colaborar e buscar soluções que beneficiem coletivos.
    Vale ressaltar a atuação da atriz Dafne Keen, de apenas 11 anos, que trabalhou uma expressividade inesquecível ao lado dos veteranos Hugh Jackman e Patrick Stewart – todos impecáveis em seus papéis.

    Recomendo o filme para fãs e não fãs de Wolverine, Marvel e X – Men. Recomendo para todos que desejam assistir uma produção cinematográfica bem produzida, atual, e permeada de elementos ficcionais não tão ficcionais assim, que aborda um futuro cada vez mais presente.

  • Pré-estreia do curta “Nós, Carolinas”: um filme sobre as mulheres da periferia, sem estereótipos, para assistir no dia 8 de março

    Leandro Olimpio, de Santos.

    Mais de trinta anos atrás, os documentários brasileiros que buscavam retratar as desigualdade sociais do país e as mazelas do povo pobre receberam uma dura crítica de Jean-Claude Bernardet – um dos principais estudiosos do cinema nacional. Para ele, a maioria das produções realizadas até o início da década de 1980 poderia ser classificadas como de modelo sociológico”.

    Por muitos anos, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, prevaleceu entre os documentaristas brasileiros a utilização de personagens das periferias como uma amostragem daquilo que o cineasta acredita ser justo ideologicamente. Isso também se estendeu aos trabalhadores do campo, aos nordestinos e à classe trabalhadora industrial. E por melhor que fosse a intenção do diretor, por mais à esquerda que fosse sua ideologia, ainda assim era autoritária e unilateral. Talvez venha daí a repulsa de Eduardo Coutinho, maior cineasta brasileiro do real, por filmes ideológicos.

    Na Galeria Olido, que fica na capital paulista, acontecerá no dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher – a pré-estreia de um documentário que simboliza o esforço uma nova geração de cineastas de superar essa característica dos primeiros documentários nacionais.

    Consciente ou não desta definição de Bernardet, preocupado ou não com este debate, o filme Nós, Carolinas– realizado pelo coletivo Nós, mulheres da periferia – tem como proposta subverter este tipo de cinema. Um cinema que, nas palavras do crítico, usa os entrevistados para chancelar a autenticidade de sua visão de mundo. Nesses filmes, o que dizem os entrevistados terá que se encaixar no universo delimitado pelo cineasta. O que não se encaixa é descartado, as contradições são anuladas.

    O filme nasceu de um projeto que combate justamente essa abordagem. As mulheres escolhidas como personagens fizeram parte do projeto Desconstruindo Estereótipos, realizado pelo coletivo em 2015, durante oficinas sobre a representação das mulheres moradoras das periferias na grande mídia. No final do mesmo ano, o coletivo lançou no Centro Cultural da Juventude (CCJ) a exposição multimídia Quem Somos [Por Nós], que incluiu uma série de entrevistas, a partir das quais, como uma segunda etapa deste projeto, foi criado o documentário.

    Este é o primeiro documentário realizado pelo grupo e apresenta vivências de mulheres moradoras de quatro regiões diferentes da capital paulista. Ao assistir o filme, o público irá transitar entre bairros e experiências de vidas relatadas em primeira pessoa. Racismo, solidão, maternidade e a busca da autoestima são alguns dos temas levantados sobre as condições de ser mulher, negra e periférica. As entrevistadas, que têm entre 18 e 93 anos, embora possuam trajetórias diferentes, estão conectadas por elementos cotidianos, como os impactos do machismo e desigualdades raciais e sociais ainda presentes no Brasil.  

    A nossa proposta foi de ouvir e partilhar histórias pessoais que são ignoradas ou desvalorizadas. Para nós, o processo de empoderamento passa necessariamente pela ocupação do lugar de fala. E a nossa busca é não nos acomodar em rótulos, estereótipos, reconhecendo  a diversidade do universo feminino nas periferias, explica Bianca Pedrina, jornalista e cofundadora do Coletivo Nós, mulheres da periferia.

    Ou seja, não se trata, portanto, de adotar uma postura aparentemente imparcial diante dos relatos, um simples registro do verbo. Pelo contrário, absorver as contradições que colocam abaixo qualquer tipo de enquadramento ideológico é uma escolha política.

    O nome Nós, Carolinashomenageia Dona Carolina, uma das entrevistadas e personagem do documentário, e faz menção honrosa à escritora Carolina Maria de Jesus, autora do célebre livro Quarto de Despejo o Diário de uma Favelada.

    Após a pré-estreia, o coletivo realizará um circuito de exibição do documentário em diferentes regiões da cidade, incluindo Cidade Tiradentes e Guaianases, na zona leste, Parque Santo Antônio, na zona Sul; Jova Rural, zona norte e Perus, região noroeste, os bairros das protagonistas Carolina Augusta, Joana Ferreira, Renata Ellen Soares e Tarcila Pinheiro.

    Serviço:

    Pré-estreia do documentário Nós, Carolinas

    Data: 8/3, às 19h.

    Local: Galeria Olido –  Av. São João, 473 Centro, São Paulo

    Circuito

    11/3 Centro de Formação Cultural da Cidade Tiradentes Cidade Tiradentes

    16/3 CIEJA Campo Limpo Parque Santo Antônio.

    18/3 –  Biblioteca Cora Coralina Guaianases

    24/3 Biblioteca Padre José de Anchieta Perus

  • Carnaval de SP: apesar de Dória, os blocos estão na rua

    Por Gleice Barros, ABC, SP

    E começou o carnaval na capital paulista. O último fim de semana foi marcado pela presença de milhares de pessoas nas ruas da cidade de São Paulo para acompanhar os blocos de rua, que tem se tornado cada vez mais populares.

    Apesar da política do governo municipal de João Dória (PSDB), a cidade entrou no clima de carnaval com mais blocos cadastrados neste ano (391), em comparação com 2016 (306). O prefeito declarou dias antes que os blocos deveriam se organizar para ter limite de 20 mil pessoas e festejos até às 20hs. Nada mais contraditório com o clima em que a cidade foi envolta neste fim de semana. Segundo declarações do próprio prefeito, somente na região de Pinheiros, na zona oeste, foram estimadas a presença de cerca 700 mil pessoas.

    Os blocos de Alceu Valença e Me fode que sou produção reuniram milhares na região central dá cidade. O Bloco soviético encheu as ruas da região da Rua Augusta. Para aqueles que estavam na região do Anhangabaú ainda foi possível aproveitar o divertido Bloco Clandestino.

    Nesta segunda (20), Dória afirmou que houve falhas na logística da prefeitura com relação ao trânsito provocado e a limpeza da cidade. Totalmente compreensível para quem planeja uma cidade que só existe na sua própria cabeça.

    Apesar de a maioria dos blocos estarem inscritos para acontecem no último sábado (18), os paulistanos consideram o último fim de semana como o pré-carnaval. Então podemos esperar mais gente, folia e alegria no próximo fim de semana.

    Blocos, como Itu Oba de Min, Sai Hetero e Tarado ni você (em homenagem a Caetano Veloso), acontecem no próximo fim semana, entre outros. A semana toda conta com programação de blocos todos os dias.

    Os blocos de rua em São Paulo tem se tornado cada vez mais populares e contrastam com o carnaval que ocorre tradicionalmente no sambódromo. Apesar de ter cada vez mais intervenção de patrocinadores privados, como marca de cervejas, a cidade tem recebido mais e mais pessoas participantes de blocos com os mais diversos temas e estilos. Só escolher e aproveitar a festa.