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  • Pré-estreia do curta “Nós, Carolinas”: um filme sobre as mulheres da periferia, sem estereótipos, para assistir no dia 8 de março

    Leandro Olimpio, de Santos.

    Mais de trinta anos atrás, os documentários brasileiros que buscavam retratar as desigualdade sociais do país e as mazelas do povo pobre receberam uma dura crítica de Jean-Claude Bernardet – um dos principais estudiosos do cinema nacional. Para ele, a maioria das produções realizadas até o início da década de 1980 poderia ser classificadas como de modelo sociológico”.

    Por muitos anos, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, prevaleceu entre os documentaristas brasileiros a utilização de personagens das periferias como uma amostragem daquilo que o cineasta acredita ser justo ideologicamente. Isso também se estendeu aos trabalhadores do campo, aos nordestinos e à classe trabalhadora industrial. E por melhor que fosse a intenção do diretor, por mais à esquerda que fosse sua ideologia, ainda assim era autoritária e unilateral. Talvez venha daí a repulsa de Eduardo Coutinho, maior cineasta brasileiro do real, por filmes ideológicos.

    Na Galeria Olido, que fica na capital paulista, acontecerá no dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher – a pré-estreia de um documentário que simboliza o esforço uma nova geração de cineastas de superar essa característica dos primeiros documentários nacionais.

    Consciente ou não desta definição de Bernardet, preocupado ou não com este debate, o filme Nós, Carolinas– realizado pelo coletivo Nós, mulheres da periferia – tem como proposta subverter este tipo de cinema. Um cinema que, nas palavras do crítico, usa os entrevistados para chancelar a autenticidade de sua visão de mundo. Nesses filmes, o que dizem os entrevistados terá que se encaixar no universo delimitado pelo cineasta. O que não se encaixa é descartado, as contradições são anuladas.

    O filme nasceu de um projeto que combate justamente essa abordagem. As mulheres escolhidas como personagens fizeram parte do projeto Desconstruindo Estereótipos, realizado pelo coletivo em 2015, durante oficinas sobre a representação das mulheres moradoras das periferias na grande mídia. No final do mesmo ano, o coletivo lançou no Centro Cultural da Juventude (CCJ) a exposição multimídia Quem Somos [Por Nós], que incluiu uma série de entrevistas, a partir das quais, como uma segunda etapa deste projeto, foi criado o documentário.

    Este é o primeiro documentário realizado pelo grupo e apresenta vivências de mulheres moradoras de quatro regiões diferentes da capital paulista. Ao assistir o filme, o público irá transitar entre bairros e experiências de vidas relatadas em primeira pessoa. Racismo, solidão, maternidade e a busca da autoestima são alguns dos temas levantados sobre as condições de ser mulher, negra e periférica. As entrevistadas, que têm entre 18 e 93 anos, embora possuam trajetórias diferentes, estão conectadas por elementos cotidianos, como os impactos do machismo e desigualdades raciais e sociais ainda presentes no Brasil.  

    A nossa proposta foi de ouvir e partilhar histórias pessoais que são ignoradas ou desvalorizadas. Para nós, o processo de empoderamento passa necessariamente pela ocupação do lugar de fala. E a nossa busca é não nos acomodar em rótulos, estereótipos, reconhecendo  a diversidade do universo feminino nas periferias, explica Bianca Pedrina, jornalista e cofundadora do Coletivo Nós, mulheres da periferia.

    Ou seja, não se trata, portanto, de adotar uma postura aparentemente imparcial diante dos relatos, um simples registro do verbo. Pelo contrário, absorver as contradições que colocam abaixo qualquer tipo de enquadramento ideológico é uma escolha política.

    O nome Nós, Carolinashomenageia Dona Carolina, uma das entrevistadas e personagem do documentário, e faz menção honrosa à escritora Carolina Maria de Jesus, autora do célebre livro Quarto de Despejo o Diário de uma Favelada.

    Após a pré-estreia, o coletivo realizará um circuito de exibição do documentário em diferentes regiões da cidade, incluindo Cidade Tiradentes e Guaianases, na zona leste, Parque Santo Antônio, na zona Sul; Jova Rural, zona norte e Perus, região noroeste, os bairros das protagonistas Carolina Augusta, Joana Ferreira, Renata Ellen Soares e Tarcila Pinheiro.

    Serviço:

    Pré-estreia do documentário Nós, Carolinas

    Data: 8/3, às 19h.

    Local: Galeria Olido –  Av. São João, 473 Centro, São Paulo

    Circuito

    11/3 Centro de Formação Cultural da Cidade Tiradentes Cidade Tiradentes

    16/3 CIEJA Campo Limpo Parque Santo Antônio.

    18/3 –  Biblioteca Cora Coralina Guaianases

    24/3 Biblioteca Padre José de Anchieta Perus

  • Carnaval de SP: apesar de Dória, os blocos estão na rua

    Por Gleice Barros, ABC, SP

    E começou o carnaval na capital paulista. O último fim de semana foi marcado pela presença de milhares de pessoas nas ruas da cidade de São Paulo para acompanhar os blocos de rua, que tem se tornado cada vez mais populares.

    Apesar da política do governo municipal de João Dória (PSDB), a cidade entrou no clima de carnaval com mais blocos cadastrados neste ano (391), em comparação com 2016 (306). O prefeito declarou dias antes que os blocos deveriam se organizar para ter limite de 20 mil pessoas e festejos até às 20hs. Nada mais contraditório com o clima em que a cidade foi envolta neste fim de semana. Segundo declarações do próprio prefeito, somente na região de Pinheiros, na zona oeste, foram estimadas a presença de cerca 700 mil pessoas.

    Os blocos de Alceu Valença e Me fode que sou produção reuniram milhares na região central dá cidade. O Bloco soviético encheu as ruas da região da Rua Augusta. Para aqueles que estavam na região do Anhangabaú ainda foi possível aproveitar o divertido Bloco Clandestino.

    Nesta segunda (20), Dória afirmou que houve falhas na logística da prefeitura com relação ao trânsito provocado e a limpeza da cidade. Totalmente compreensível para quem planeja uma cidade que só existe na sua própria cabeça.

    Apesar de a maioria dos blocos estarem inscritos para acontecem no último sábado (18), os paulistanos consideram o último fim de semana como o pré-carnaval. Então podemos esperar mais gente, folia e alegria no próximo fim de semana.

    Blocos, como Itu Oba de Min, Sai Hetero e Tarado ni você (em homenagem a Caetano Veloso), acontecem no próximo fim semana, entre outros. A semana toda conta com programação de blocos todos os dias.

    Os blocos de rua em São Paulo tem se tornado cada vez mais populares e contrastam com o carnaval que ocorre tradicionalmente no sambódromo. Apesar de ter cada vez mais intervenção de patrocinadores privados, como marca de cervejas, a cidade tem recebido mais e mais pessoas participantes de blocos com os mais diversos temas e estilos. Só escolher e aproveitar a festa.

     

  • Documentário Pixo: o alfabeto da disputa espacial na cidade e suas origens

    Por: Carolina Freitas, de São Paulo, SP

    O documentário ‘Pixo’, dirigido por João Wainer, é uma arma crítica contra as empreitadas que João Dória vem promovendo contra os muros da cidade. O filme conta as origens da pichação, sobre como se tornou uma expressão urbana típica da metrópole paulistana desde os tempos de ditadura civil-militar.

    Em meio à discussão estéril a respeito do pixo ser, ou não ser arte, o filme é preciso sobre a sua questão principal, escondida pelas polêmicas produzidas pelos grandes meios de comunicação e pelo governo: afinal, do que se trata o pixo enquanto fenômeno social?

    Com uma pesquisa fiel, que retoma as pichações políticas na ditadura, as propagandas inovadoras do comércio popular com escritos e gravuras nas paredes da cidade, até chegar na pichação como prática ligada ao punk, ao hip hop e a outras manifestações da cultura do proletariado jovem de São Paulo, o documentário vai desenhando sua verdadeira gênese: a luta de classes na sua dimensão espacial.

    Fica evidente, no filme, como o processo de urbanização e de formação das periferias metropolitanas, entre os anos 80 e 90, em São Paulo, determinou o pixo como grito de jovens e trabalhadores excluídos da cidade. A organização em grupos de pichadores, os desafios de pichar muros e paredes de prédios altos, a elaboração das assinaturas, as competições e as festas do universo do pixo compuseram os elementos lúdicos de um jogo de táticas espaciais que confrontaram e confrontam, com cada vez mais força, os sintomas da propriedade privada e sua vocação de “morte” da cidade à juventude e aos trabalhadores periféricos.

    A perseguição e a violência policial, o preconceito de classe, os ataques de toda ordem da opinião pública fabricada, foram, até hoje, apesar de duros, completamente insuficientes para barrar a manifestação da pichação, consolidada já como resistência sistêmica à ordem espacial de segregação produzida pelo capital.

    O prefeito alimenta a polêmica falseada do pixo ser um problema estético urbano, enquanto que os pichadores compreendem nitidamente contra quem estão pichando: a propriedade privada. Nas escrituras e nos registros de imóveis, a cidade pertence aos proprietários. Na rua, nos muros, nos andares mais altos, o pixo ri da segurança jurídica e assina, para qualquer um ver, que as injustiças espaciais não podem dormir tranquilas com o pesadelo de a cidade um dia ser retomada.

    Documentário ‘PIXO’:

    PIXO from TX on Vimeo.

  • Tripla resistência das minas: Roda Cultural da Brasil

    Por: Elber Almeida, do ABC paulista

    Apenas em sua segunda edição, a Roda Cultural da Brasil, batalha das minas, em São Bernardo do Campo, mostra a que veio: resistir

    Na praça Brasil, ponto de encontro de skatistas da cidade, próximo ao Terminal Ferrazópolis, iniciou a roda que acontecerá toda sexta-feira à noite trazendo música ao local. A roda promete trazer atrações do Rap Nacional gratuitas, para além das batalhas, especialmente atrações femininas.

    A batalha é só de minas. Alguns podem chamar isso de segregação, mas, além da Batalha das Minas que a organização da Batalha da Matrix promove de tempos em tempos, as mulheres têm pouco espaço nas batalhas também no ABC paulista. O mic está aberto, só que na cultura machista em que vivemos elas são ensinadas a não se expressarem. Além disso, sofrem vários ataques verbais machistas nas rinhas, incluso quando não estão rimando.

    Desta vez, a Guarda Civil Municipal (GCM) tentou impedir o evento, querendo reprimi-lo. Porém, as minas resistiram com apoio de organizadores da Batalha da Matrix que estavam no local e possuem larga experiência em lidar com abusos policiais. A batalha foi até o fim, apesar dos guardas de terem convencido o pessoal do posto de gasolina local a desconectar a energia que haviam emprestado para alimentar as caixas.

    A resistência das batalhas de rap no Brasil faz parte da resistência de uma camada de maioria de jovens trabalhadores que enfrentam poucas perspectivas de futuro no sistema capitalista. A cada três jovens brasileiros, um está desempregado. Esse índice aumenta quando falamos de negros e de mulheres.

    Essa rapa enfrenta não só desemprego, falta de vagas nas universidades, educação e transporte público destruídos, mas até perseguição ao direito mínimo à liberdade de expressão e ocupação dos espaços públicos. Um exemplo é o que ocorre na repressão às batalhas. Assim, essa juventude encara três resistências: a de fazer parte de uma nova geração de trabalhadores com poucos direitos garantidos, de ser uma maioria de negros que enfrentam o racismo e, no caso das minas, de sofrerem com o machismo até mesmo no Hip Hop.

    O rap feminino se fortalece com a ascensão de novas MC’s no cenário nacional. Outro exemplo de sua força é a batalha Dominação, que ocorre toda segunda-feira à noite próximo à estação São Bento do metrô em São Paulo. A Roda Cultural da Brasil também promete por ser um espaço de expressão artística de alguns dos setores mais oprimidos da sociedade. Toda sexta-feira, 19horas, Praça Brasil, São Bernardo do Campo. Veja o recado da página da organização:

    “Salve Salve manos e manas do A.B.C.D.M.R 7
    Como muitos ainda não sabem, desde o dia 27/01/2017, toda sexta feira, ás 19:00 horas
    na praça Brasil , no centro de São Bernardo do Campo … rola a Roda Cultural!”

    A batalha das minas é um projeto voltado aos elementos da cultura hip hop e fora dele em prol de empoderar, ainda mais, as mina na cena. O movimento é novo, mas consiste numa antiga luta!!!

    Liberdade de expressão e igualdade perante os seres humanos!!!

    No último dia 03 rolou a segunda edição. Logo após a final, fomos abordados pela Guarda Civil Municipal (GCM) e ouvimos ameaças contra o movimento e repressão. Eles disseram que ali não se estabeleceria nenhum movimento de cultura sem haver um ofício da prefeitura. Mas a nossa Constituição nos diz no artigo 5°, parágrafo 9: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, cientifica e de comunicação, independente de censura ou licença”. E a liberdade de expressão pode ser exercida em qualquer momento e lugar, desde que não interfira na integridade física ou mental dos cidadãos. Fica explicito também na Constituição, no artigo 5°, parágrafo 16: ”Todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao publico, independente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso á autoridade competente”. Não necessitamos de pedido de permissão e sim de comunicação. E as devidas providencias quanto a isso já foram tomadas!!

    Não podemos ser reprimidos e oprimidos por executar nosso direito de liberdade de expressão, por pessoas que nem ao menos entendem que também lutamos pelos direitos delas!!

    Podem vestir fardas, mas não podem discernir o que um movimento cultural representa para a sociedade inferior, que vive nos bairros afastados do centro e na podridão que é o próprio centro. Esperamos e contamos com a participação de todos, para que nessa sexta feira, não seja nada diferente dos dias anteriores. Contamos com muita gente, muito barulho e muito axé para esse evento maravilhoso acontecer!!

    Manas e manos convidem a família tragam as crianças, vamos festejar a vida e sua liberdade de informar !!!

    Minas, vamos chegar com força no bagulho, o evento é pra todos, mas principalmente para vocês. Não é atoa que a batalha é feminina, quem apresenta é uma mina, quem põe o som para rolar é uma mina. Então, nada mais certo do que as minas chegarem em peso. Gratidão àqueles que reservaram um pouco do tempo para dar uma atenção, agradecendo ainda mais, quem abraçou a ideia e vai ta chegando para a gente formar uma grande família que o sistema teme.

    A familia C.U.S.P.I. (Coletivo Unificado Social Político Informativo) agradece!!!

    Leia também:

    #0 Cultura e resistência no ABC paulista

    1# Batalha da Pistinha

    2# Batalha da Praça

    3# Batalha da Vila Luzita

    4# Batalha da Galeria

    5# Batalha da Palavra

    6# Resiste Batalha do Carrefa!

    7# A Batalha do Cooperativa

    Mapa das batalhas de rap no ABC

  • ‘Entre Rios’: A história da urbanização de São Paulo contada pelos rios

    Por: Carolina Freitas, de São Paulo, SP

    ‘Entre Rios’, mini documentário produzido pelo Coletivo Madeira, conta a história da urbanização da metrópole paulistana a partir das violentas modificações dos cursos naturais dos rios que por aqui passavam até o século XIX. Reificações, canalizações, aterragens são algumas das obras que o capital industrial e imobiliário da cidade promoveu, como no caso do Rio Tamanduateí, para que fossem “criadas” novas terras e lotes para arrendamento.

    Às vezes, temos a impressão de que a urbanização é um desenvolvimento quase natural da sociedade. O filme, ao explorar justamente um ente da natureza – as águas na antiga Vila de São Paulo de Piratininga –, demonstra que esse processo de natural não tem nada. Pelo contrário, é fruto do planejamento estatal aliado ao empresariado, para extrair riqueza do meio urbano e fazer de São Paulo uma autêntica cidade de propriedades privadas e automóveis.

    Do mesmo modo, ainda falamos das enchentes típicas do verão como se fossem consequência do excesso de chuva – noção que o filme também aponta como produto das escolhas e obras feitas no século passado, “erros” voluntários dos dirigentes da cidade, que se repetem continuamente até hoje.

    Os 25 minutos de história sobre São Paulo, recheados de depoimentos de arquitetos, geógrafos, historiadores e engenheiros, são valiosos como ilustração de como uma metrópole desigual, poluída, interditada de carros, com problemas seríssimos de enchente, foi construída para o propósito do lucro, independentemente dos impactos trazidos à natureza e à qualidade de vida da maioria de sua população.

    ‘Entre Rios’

    Foto: Reprodução Entre Rios

  • O espelho que nos reflete

    Por: Michel Silva, de Blumenau, SC

    Possivelmente uma das séries mais comentadas e elogiadas recentemente tem sido Black Mirror. Essa série tem um princípio bastante simples: mostrar os efeitos da tecnologia sobre a sociedade em um futuro (bastante) próximo. A maior parte dos treze episódios exibidos até o momento está centrada nos efeitos do “espelho negro” – que pode ser interpretado como uma tela de celular ou mesmo uma tela de televisão – sobre a vida das pessoas. Contudo, os episódios da série não são um elogio à tecnologia, mas uma crítica ao caráter deletério que provoca na convivência em sociedade e na vida das pessoas.

    Os temas abordados são os mais variados. No primeiro episódio da série, uma princesa é sequestrada e exige-se um bizarro pagamento de resgate: o primeiro-ministro britânico deveria manter relações sexuais com um porco, e o ato transmitido ao vivo pela televisão. Embora o governo se esforce para manter o máximo de sigilo acerca do sequestro e do pedido de resgate, a mídia não apenas divulga todos os detalhes, como constrói uma narrativa sensacionalista. Quanto à população, aguarda ansiosamente pela execução do bizarro pagamento, em frente à televisão, deixando inclusive as ruas completamente vazias. Contudo, esse mesmo público, em frente à televisão, se mostra enojado quando a condição do pagamento do resgate é cumprida pela primeira-ministra.

    O controle do “espelho negro” sobre a vida das pessoas também se expressa na relação com as aparências que se busca manter. Nesse aspecto, o primeiro episódio da terceira temporada acaba assumindo um tom cômico por lembrar muito o cotidiano atual das pessoas nas redes sociais. No episódio, todas as pessoas passam a maior parte do tempo fixadas em seus celulares, atribuindo notas de um a cinco para todas as pessoas com quem interagem. O que se vê é uma competição de popularidade em tempo real, onde as maiores notas garantem o acesso a uma série de bens de consumo e privilégios.

    Contudo, os debates podem ser maiores do que apenas o “espelho negro”. No primeiro episódio da segunda temporada, uma jovem busca na tecnologia formas de suprir a ausência do namorado recentemente morto. Começa com uma espécie de bate-papo, em que textos escritos em vida pelo jovem morto servem como parâmetro para que sejam elaboradas, por uma espécie de inteligência artificial, as respostas mais prováveis em um diálogo. Contudo, essa tecnologia que permite o diálogo com um ser artificial arquivado em uma “nuvem” virtual avança até que seja possível reviver uma réplica do jovem morto em um androide, que não apenas fala e exterioriza sentimentos, mas que até mesmo faz sexo. Ele seria um ser artificialmente criado que aparentemente poderia substituir o ente morto. Contudo, como fica demonstrado na parte final do episódio, o androide não tem como ser a mesma pessoa, afinal é um ser criado com rotinas mecânicas e definidas e que não tem a autenticidade imperfeita de uma pessoa real.

    Outro tema que aparece em diferentes episódios é o que poderia ser chamado de uso da tecnologia para promover formas paralelas de justiça. No segundo episódio da segunda temporada, acompanhamos uma jovem sem memória que por uma razão desconhecida por ela é perseguida e atacada por pessoas mascaradas. Ao mesmo tempo que alguns tentam matá-la, outras pessoas permanecem fixas em seus celulares, gravando as imagens da perseguição. No final descobre-se que a mulher perseguida foi cúmplice no sequestro e assassinato de uma criança, e que a perseguição diária é sua punição, teatralizada dia a dia por aquelas mesmas pessoas.

    Essas formas de punição também aparecem no terceiro episódio da terceira temporada, no qual um conjunto de pessoas que tiveram vídeos e imagens íntimos acessados pela internet se vê obrigado a executar tarefas a mando de um desconhecido, que entra em contato apenas por mensagens de textos, e que os ameaça com o vazamento das imagens e a exposição de seus “podres”. Contudo, mesmo após o cumprimento das tarefas, todas as imagens e vídeos são divulgadas, e então o espectador descobre que as personagens pelas quais nutriram simpatia e até compaixão durante o episódio têm nos materiais vazados crimes como pedofilia e racismo, entre outros. No caso dos dois episódios, trata-se de punições que ocorrem de forma imediata, por meio de tortura psicológica, tendo pessoas comuns como juízes.

    Portanto, há na série um conjunto de críticas, que passam pelo uso da presença exagerada e controladora da tecnologia na sociedade. Por outro lado, diante de todo o pessimismo que impregna os episódios, não se apresentam possíveis saídas para a solução dos problemas, ou melhor, naquela sociedade entra-se em um círculo cujas alternativas já estão controladas. Sabe-se que a tecnologia é dominada por alguém, possivelmente com recursos financeiras e se materializa em empresas, mas a crítica expressa na série acaba sendo muito mais para as consequências do que para possíveis causas. Em função disso, a crítica expressa nos episódios acaba sendo muito mais uma forma emocional e imediata do que a construção de um projeto alternativo. Existem alguns exemplos significativos disso.

    No segundo episódio da primeira temporada, um grupo de jovens passa os dias pedalando em bicicletas e assistindo a todo tipo de vídeos, entre jogos, desenhos, eróticos, entretenimento e outros. Esse trabalho é recompensado com pontos que permitem a eles viver naquele espaço, uma vida limitada a assistir a programas de televisão e se alimentar. Um dos grandes sonhos expressos por alguns deles é poder deixar a bicicleta e se tornarem estrelas, inspirados nas celebridades que admiram das telas. O jovem protagonista acaba se apaixonando por uma das garotas e doa sua pontuação para que ela participe do teste de um programa de talentos. Ela, apesar da belíssima voz e excelente execução da música, não é considerada uma extraordinária cantora pelos jurados, mas, devido a sua beleza, é convidada a se tornar atriz em filmes eróticos. Embora hesitando no começo, acaba por aceitar o convite.

    O jovem protagonista, enraivecido, se joga a conquistar todos os pontos possíveis para poder chegar a participar do programa de talentos e tentar se vingar do sistema que havia cooptado sua grande paixão. Para tanto, passa horas e mais horas sobre a bicicleta. Deixa de comer para não gastar seus pontos. Ele acaba por conseguir a pontuação necessária para se entrar no programa e executa uma apresentação de dança, mas sua atuação principal é uma denúncia do sistema de imagens falso que predomina naquela sociedade.

    Ele afirma, ameaçando se suicidar, segurando um pedaço de vidro no pescoço: “Estamos tão loucos de desespero que não conhecemos nada melhor. Só objetos falsos e coisas para comprar. É como nos comunicamos, como nos expressamos. Compramos coisas”. Apesar do susto inicial, para surpresa do protagonista, os jurados do programa não apenas afirmam concordar com o discurso raivoso do jovem, como o convidam para fazer participações em um programa para dizer “verdades” sobre a sociedade. A raiva sem projeto político acaba por ser cooptada pela sociedade do espetáculo, tornando-se também um produto rentável.

    A ausência de projeto político também se expressa em outro episódio em que se discute alternativas para a sociedade, ou melhor, mostra-se que em realidade não existem alternativas. Nesse episódio, é colocado em cena um ursinho azul criado por computador, chamado Waldo. Conhecido por seu sarcasmo e pelos muitos palavrões que fala, o ursinho acaba sendo colocado como candidato em uma eleição parlamentar local. Nos debates e em sua propaganda, ele se limita basicamente a “queimar” os demais candidatos e desqualificar qualquer proposta política que se apresente. Com isso, acaba não apenas caindo nas graças do público, mas se tornando favorito na eleição.

    O comediante que dá vida ao Waldo, que tem um envolvimento pessoal com a candidata trabalhista, acaba por se arrepender dos rumos que as coisas vão tomando, ainda que tardiamente e sem a possibilidade de consertar o estrago que havia feito com Waldo. Mesmo perdendo a eleição, ficando atrás somente do candidato conservador, Waldo é exportado para o mundo. Essa forma de fazer a política desprovida de conteúdo acaba por ser levada a sério pelas pessoas, que se sentem cansadas do discurso dos partidos tradicionais e das promessas não cumpridas pelos “políticos”.

    Esse esgotamento da política e esvaziamento de conteúdo do debate leva parte considerável das pessoas a passarem a não levar a sério mesmo projetos políticos consistentes, abrindo espaço para as alternativas de direita. São experiências recentes desse esvaziamento da política as desastrosas experiências com Donald Trump, nos Estados Unidos, e Beppe Grillo, na Itália.

    Black Mirror apresenta um quadro pessimista não apenas de um futuro próximo, mas também da nossa própria sociedade. Os elementos abordados permitem perceber a urgência de se repensar a forma como estamos organizando nossas sociedades e que temos a necessidade urgente de questionar as raízes desses problemas. Se a série não apresenta uma crítica radical da sociedade do capital, pelo menos aponta um conjunto de elementos que permitem avançar em muitas análises e propor a construção de alternativas que estejam no mundo real. Para superarmos a atual forma de produção da vida, não há a necessidade de quebrar os espelhos que nos reflete, mas de olharmos para além deles e enxergar a sociedade real que nos cerca.

  • Negrume: a face da resistência

    Por: Laís Santos Domingo e Lucas Vidal Silva Moraes, Brincantes dos Maracatus Nação Fortaleza e Nação Axé de Oxossi.

    O maracatu é uma reelaboração da cultura Congo-angolana, que no Ceará tem anos de história e diversas peculiaridades. Muitos pensam haver Maracatu apenas em Pernambuco, por vezes utilizando de suas características para afirmar que no Ceará não há Maracatu. O texto vem elucidar um pouco sobre essa afirmativa, que não é verdadeira.

    Mesmo antes da criação do Maracatu Az de Ouro, maracatu mais antigo ainda em atividade, já haviam relatos da brincadeira na década de 80 do século XIX em Fortaleza. Esse resgate foi possível através do trabalho de cronistas da época, que relatavam as festas populares que aconteciam na velha Fortaleza, tais como Otacílio de Azevedo (1992), José Tupinambá de Frota (1974), Rodolfo Teófilo (1974) Gustavo Barroso (1988), João Nogueira (1981) e Gustavo Barroso (1988). Já nesse período, os autores descreviam os brincantes com seus saiotes, dançando, cantando com seus rostos e corpos pintados de preto.

    De acordo com relatos trazidos por Pedrina de Deus corroborando com Mario Henrique Thé Mota Carneiro (2007), Janote Pire Marques (2008), Ana Cláudia Rodrigues da Silva (2004), Danielle Cruz (2011), o Maracatu descende da procissão que culmina na coroação simbólica do Rei (Henrique Cariongo) e Rainha (Ginga) do Congo, que os negros escravizados de diversas cidades brasileiras faziam sob a proteção dos santos pretos na Igreja do Rosário dos Homens Pretos.

    Pedrina também destaca que entre os séculos XVIII e XIIX havia coroação em diversos lugares de Fortaleza e em outras cidades, como Santa Quitéria, Quixeramobim, Barbalha, Icó, Crato e Aracati. Em uma mistura de religiosidade, cortejo e batuque, a corte negra sai pelas ruas da cidade parando em algumas casas a caminho da igreja onde ocorria o ponto alto da festa, quando os monarcas seriam coroados. Nesse dia via-se a ordem social se transfigurar, os negros aqui tratados como escravos e subalternos vestiam-se com todo o luxo e pompa para a ocasião, relembrando as histórias dos grandes reinos da África e ao som de batuques e dança eram coroados nas igrejas.

    Com o processo de romanização do clero, movimento reformador que buscava aproximar o catolicismo brasileiro das diretrizes de Roma, as confrarias passaram a ser alvo de críticas da igreja, que as viam como um “desvio” das práticas católicas. Aliado a isso, Fortaleza passava por mudanças sociais e físicas, como a reurbanização de alguns setores da cidade, como o de transportes, clubes, comunicação e o plano urbanístico elaborado nas décadas de 1870 e 1880 por Adolfo Herbster, onde entre os intelectuais fortalezenses circulavam ideias de “modernidade”, “progresso” e “civilização”. Percebe-se, particularmente na década de 1870, a intenção de um maior controle social e também “moral” sobre a população, provocada não apenas pelo crescimento da cidade, mas por outros fatores como a idéia de “modernidade” presente na intelectualidade fortalezense e a atuação de um clero romanizado (conservador em relação aos costumes).

    Também devem ser consideradas as intensas migrações em direção a Fortaleza, provocadas pela seca de 1877-79 que, segundo “denúncias” de jornais da época, provocaram o aumento de casos de roubos, vadiagem e prostituição. (MARQUES, 2008). Nesse contexto de controle e contenção, as irmandades passam a perder força, sendo proibidos de serem realizados os festejos dentro das igrejas. Contudo, essa proibição não impediu que os irmãos continuassem com a festa, migrando para outros lugares da cidade, passando a acontecer nas ruas, praças e terrenos baldios no ciclo natalino, ou no período do Carnaval.

    Ao saírem das Igrejas, essas manifestações passam a ser fortemente criminalizadas, como exemplo, trazido também por Pedrina de Deus, a Resolução número 1278 de 11 de novembro de 1879 (presente no Museu do Ceará), como Ato Legislativo no mesmo ano em Fortaleza, a partir do qual “ficam proibidos os batuques nas ruas desta cidade e povoações de seu território. O dono da casa onde eles tiverem lugar será multado em 5 contos de reis ou 5 dias de prisão….”

    Dentro desse contexto, o Código de Postura da cidade aprovado também em 1879 contém algumas observações destacadas por Pedrina, como o “Capítulo 6, dos Jogos e Reunião ilícitas – item 107”, que diz: “é proibida a reunião de escravos, filhos, família ou criados nas lojas, travessas e calçadas por mais de 15 minutos, para qualquer fim, sob pena de 2 mil reis de multa”. A Coroação e a Congada (origem do Maracatu) sofriam um rude golpe com objetivo de extermínio e passaram à clandestinidade.

    Para Pedrina de Deus a pintura tradicional Maracatu do Ceará é o símbolo da astúcia e resistência dos negros daqui desde 11 de novembro de 1879. Quando o Código de Postura do Município de Fortaleza se transformou na Lei número 1278, proibiu os negros ou não de fazerem batuques e sambas nas ruas sob pena de cadeia, bordoadas e multa de 2 mil reis (Artigo 17). Para escapar da Lei, eles saiam no Cortejo do Rei do Congo e batucavam nas calçadas com o rosto pintado para dificultar/confundir a identificação e não, como diz uma elite cearense, “porque aqui não tinha negros”.

    Segundo Marques (2008), o negrume também seria desdobramento de manifestações como o Boi e o Pastoril, dando novo sentido ao brinquedo, incorporando nele histórias da memória do povo negro, canto e dança, mas mantendo o mesmo cerne dos autos de um cortejo em homenagem aos reis africanos. Todos esses brinquedos tendo como marcas o uso do negrume, tinta preta feita de óleo mineral, vaselina, talco sem cheiro e pigmento preto que se faz presente na maioria dos maracatus da cidade de Fortaleza.

    Mesmo não se tendo um consenso sobre como se iniciou o uso do negrume, alguns pesquisadores defendem que usá-lo é uma forma de resistência à falácia de que no Ceará não há negros. Há também aqueles que veem um maracatu como um brinquedo de máscara, onde o negrume assume o mesmo sentido das máscaras africanas. Seja qual for sua origem, nenhuma delas está ligada a um sentido negativo, como é a blackface. Pelo contrário, o negrume vem como uma forma de enaltecer e de marcar a presença desses povos no Ceará.

    O blackface, tradução literal do inglês, significa “rosto preto”, surge nos Estados Unidos no começo do século XIX, quando atores brancos utilizavam carvão e outras pigmentações para pintar seus rostos de preto com a intenção de representar personagens afro-americanos. Contudo, essa “representação” era feita de modo a ridicularizar e bestializar o povo negro, trazendo para suas características fenotípicas, como boca, nariz e cabelos, uma conotação pejorativa, onde a representação retratavam-nos como ignorantes, ladrões, bêbados e vadios.

    No Brasil, onde as questões raciais nos atingem objetiva e subjetivamente, é comum no período carnavalesco vermos pessoas utilizarem o blackface sobre a prerrogativa de estarem fantasiados. Os “personagens” retratados por essas pessoas, em sua maioria esmagadora brancas, são empregadas domésticas, negras malucas, baianas. Contudo, todas trazem em comum o tom de escárnio e zombaria.

    O blackface é uma prática racista que busca desqualificar e inferiorizar a população negra e precisa ser combatida com força, pois naturaliza a opressão como forma de brincadeira. O negrume se diferencia ontologicamente do blackface, mesmo sendo associado a ele erroneamente por algumas pessoas. O ponto fundamental que dissocia totalmente o negrume à prática do blackface é a intensão. Enquanto a segunda é uma prática racista que desqualifica, a primeira enaltece a presença o povo negro. O negrume não vem como uma mímica, uma imitação vazia do outro, mas em uma forma de reverência, afirmação, consagração.

    Muitas vezes somos interpelados por pesquisadores e estudantes universitárixs que não fazem parte da brincadeira quanto ao negrume. É importante deixar evidente que os questionamentos são saudáveis em qualquer processo cultural, mas igualar o negrume ao blackface é uma atitude colonizadora e fascista. Primeiro por igualar coisas tão distintas sem conhecer suas peculiaridades, tomando uma prática desenvolvida nos EUA como baliza para todas as outras. Segundo, pela sensação de que pintar o rosto de negro tenha que ter necessariamente uma conotação ruim, pois estar associada ao negro, a única carga que pode ter seria negativa.

    O negrume deve ser, assim como afirma Pedrina de Deus, fortalecido, defendido, resgatado e estudado como um dado que desconstrói a versão de que o negro cearense foi passivo na sua luta cultural. As lutas e resistências que aqui se fizeram não podem ser relativizadas com falácias impositivas. Apenas um dos maracatus de Fortaleza não pinta o rosto de preto, todos os demais maracatus que também se localizam dentro de zonas periféricas de Fortaleza pintam seu rosto. Para os brincantes, isso não é uma ofensa, mas sim um resgate de suas raízes.

    Esses parâmetros colonizadores nos quais medimos e julgamos a nossa cultura, além de ser fruto de uma visão branqueadora da vivência cotidiana dos brinquedores populares, deturpa elementos que são de matrizes africanas e indígenas, buscando desenraizá-los. Dentro do nosso estado é esse discurso que corrobora com a falácia de que no Ceará não há negros. Descontextualizar o negrume de suas questões históricas e de resistência dentro da cidade é perigoso e constitui uma visão colonial. Devemos debater o negrume e o maracatu em todas as suas nuances, mas a partir também da visão de quem vive e quem compõe a brincadeira. Viva ao maracatu cearense! Viva ao negrume, máscara de resistência!

  • Pequeno comentário sobre ‘La La Land – Cantando Estações’

    Por: Paula Farias, de Fortaleza, CE

    Consegui assistir ao filme ‘La La Land’, que vem devorando muitos prêmios e é um dos grandes indicados para o Oscar deste ano. Fui assistir sem grandes expectativas, ou euforia. Fui porque gosto de cinema (ainda que não seja um francês). Em se tratando de uma homenagem ao gênero ‘musical’, quase desisto de ficar até o fim nos primeiros cinco minutos de filme. A música ‘Another Day of Sun’ na abertura foi como se John Travolta de ‘Grease’ dissesse: ‘eu estou aqui’. Bem, ele não estava, mas Grease está junto a tantas outras referências aos musicais clássicos do cinema. Não desisti e saí satisfeita com o que vi e ouvi.

    Não espere sair do cinema com reflexões nas alturas
    A ideia do filme é simples e bem Hollywood. Um romance entre um jovem casal, Mia e Sebastian, dividido em estações do ano: Inverno, Primavera, Verão, Outono e Inverno. Ela sonha em ser uma atriz bem sucedida. Ele sonha em abrir um club de jazz. Mas, como milhões de jovens no mundo todo, estão presos em vidas que ainda não decolaram. Nem só de sonhos sobrevivem os jovens subempregados em Hollywood. Então Mia trabalha em um café e Sebastian não tem um trabalho fixo. Aí aparece uma importante mensagem: a dúvida que paira entre jovens na escolha de uma carreira, as idas e vindas para chegar ao sucesso que em tempos de crise e retirada de direitos está cada vez mais longe.

    Calma aí que eu não estou dizendo que o filme é ‘esquerdista’, ou faz uma crítica ao capital, ou à indústria cinematográfica. O que quero dizer é que o drama aparece e que a grande saída é adaptar-se. No filme aparece como a grande transformação dos personagens ou o amadurecimento dos jovens. Não espere sair do cinema com reflexões nas alturas. Os personagens aceitam os destinos que lhes são impostos em nome do sucesso.

    Não deixe o jazz morrer, ou como ser revolucionário sem ser tradicionalista
    Mas, quero falar aqui das músicas e da paixão pelo jazz do jovem Sebastian, o que me fascinou. Sebs é um apaixonado pelo jazz, um virtuose do piano, que só vê beleza no ‘jazz puro’; no jazz tradicional de ícones como Miles Davis, Coltrane, Charlie Paker, entre outros.

    A angústia de Sebs é que diversos clubs dedicados ao gênero estão sendo fechados e o público que gosta do gênero cada vez mais restrito, mais velho. Talvez uma das cenas mais marcantes do filme seja quando Sebs vai explicar para Mia o que é jazz e porque não podemos deixá-lo morrer. Mia não gostava de jazz até então. “Jazz é revolucionário, é o futuro da música”, define Sebs. É uma cena bonita.

    O diálogo entre um músico de ‘jazz moderno’ convencendo Sebs a assinar com sua banda também é um momento marcante. A frase marca: “O Jazz está morrendo por causa de pessoas como você [Sebastian]! Como você vai ser revolucionário sendo um tradicionalista?”

    Como não deixar o jazz morrer? Essa é uma boa questão para os amantes do jazz. Como conquistar um público jovem? É necessário adequar-se à contemporaneidade para não deixá-lo morrer? Como ser revolucionário no jazz sem ser tradicionalista?

    Reparem no céu de La La Land
    Tem outras coisas que devemos prestar atenção no filme. De fato, tem belas fotografias, tem efeitos de luz que deslocam os personagens e dão um ar de sonho ao filme. Llembrem-se: é um musical. Mas, há cenas belas como a do cinema com ‘Juventude Transviada’; no planetário; no parque. Reparem no céu do filme, é muito lindo.

    Há um fluxo permanente entre ‘novo’ e ‘antigo’. Um número de sapateado interrompido por causa do toque do celular é um exemplo. Muitas referências de filmes antigos como Juventude Transviada, Levada da Breca, Grease, Cantando na Chuva, Casablanca e outras tantas.

    Também nota-se uma transformação nos valores traduzidos por cada época. Nos musicais dos anos 1940-1950 o amor era mais relevante que o sucesso, por exemplo. Por amor, abria-se mão até do sucesso. Em La La Land, a felicidade pode ser a realização do outro; pode ser a realização profissional individual. O amor, nesse caso, transforma-se.

    Esse é o terceiro filme de Chazelle, um jovem diretor. É dele o filme ‘Whiplash – em busca da perfeição’ sobre um baterista que busca atingir a perfeição no jazz. Revela que Chazelle é um apaixonado pelo gênero.

    La La Land me interessou por ser uma homenagem aos musicais e uma defesa (por minha conta e risco) dos sonhos e do jazz. E também por marcar a necessidade das mudanças e que tudo se transforma. Até o amor.

    Assistam!

  • Artistas protestam contra Trump e defendem imigrantes em prêmio SAG Awards

    Da Redação

    Protestos contra medidas de Donald Trump marcam 23ª edição do prêmio do Sindicato dos Atores dos Estados Unidos (SAG Awards), que aconteceu neste domingo (29), em Los Angeles. A decisão de proibir a entrada de imigrantes de sete países foi alvo de protesto entre os artistas.

    A atriz de ‘La la land: Cantando estações’, Emma Stone, afirmou serem as coisas hoje nos EUA “intoleráveis e apavorantes” e, segundo ela, “requerem ação”.

    Entre os artistas também se colocou a atriz da série ‘Veep’ Julia Louis-Dreyfus. Seu pai foi procurar abrigo nos EUA após perseguição religiosa no seu país de origem, a França, que, à época, se encontrava ocupada por nazistas. “Quero que saibam que eu sou filha de um imigrante”, disse. Julia se disse horrorizada com o veto aos imigrantes, o qual considerou “uma falha” e um ato “antiamericano”. “Eu sou uma americana patriota, amo este país, e por amar este país estou horrorizada com suas falhas”.

    Também se colocou o ator Mahershala Ali, ao dizer que o que mais aprendeu com ‘Miinlight: Sob a luz o luar’ foi “o que acontece quando se perseguem pessoas”. “A minha mãe é uma sacerdotisa evangélica. Eu sou muçulmano. Ela não ficou contente quando lhe disse que havia me convertido, há 17 anos. Mas, digo-vos hoje: pusemos isso de lado e conseguimos estar juntos, amamo-nos. Esse amor cresceu e a questão da religião não é assim tão importante”, considerou.

    No tapete vermelho, o ator de ‘The Big Bang Theory’ Simon Helberg apareceu com uma placa com os dizeres “refugiados bem-vindos”. Sua mulher, Jocelyn Towne, com a frase escrita no colo, “deixe-os entrar”.

    Entre os principais vencedores da noite esteve a série “Stranger things”, prêmio muito comemorado pelo elenco. Um dos discursos mais empolgante foi do ator David Harbour, que interpreta o xerife Jim Hopper. “Vamos abrigar os estranhos e marginalizados, nós vamos caçar os monstros”, afirmou. “Quando estivermos perdidos em meio à hipocrisia e à violência de certos indivíduos e certas instituições, assim como o xerife Hopper, vamos socar a cara de algumas pessoas quando elas tentarem destruir os fracos, os sem-direitos e os marginalizados”, completou.

    O vídeo foi reproduzido pela página Quebrando Tabu, a seguir:


    Também a série ‘Orange is the New Black’. Em comemoração ao melhor elenco de série cômica, Taylor Schilling afirmou: “Gostaríamos de dizer, sobretudo, que estamos aqui a representar um grupo heterogêneo de pessoas, que representam gerações de famílias que vieram até aqui à procura de uma vida melhor. De lugares como a Nigéria, República Dominicana, Porto Rico, Colômbia, Irlanda. Sabemos que cabe a nós e a todos vós continuar a contar histórias que mostram que aquilo que nos une é mais forte do que as forças que procuram separar-nos”.

    O protesto dos artistas americanos lembrou a iniciativa da equipe do filme brasileiro ‘Aquarius’, que protestou contra o impeachment e o governo ilegítimo de Michel Temer, durante o festival de Cannes.

     

    Foto: reprodução sic

  • A Batalha do Cooperativa

    Esta é a primeira edição do ano da série sobre as batalhas de rap no ABC paulista. Acompanhe

    Por: Elber Almeida, do ABC paulista

    Uma das mais jovens batalhas do ABC, a Batalha do Coopera mostra mais uma vez o potencial que o Hip Hop tem na produção da cultura e de sua resistência. Numa pracinha localizada no bairro, próxima ao ponto final dos ônibus que vão a ele, as rimas acontecem, faça chuva ou faça sol.

    O coopera é um bairro antigo de São Bernardo do Campo, conhecido pela grande concentração de indústria de médio porte. Nele, está localizado o conjunto habitacional Três Marias, onde se reúnem moradores que foram removidos de áreas de riscos localizados em várias partes da cidade. É um bairro de periferia e de operários.

    A primeira edição da Batalha do Coopera em 2017 sofreu com uma chuva e um frio que surpreenderam no verão, mas que não foram suficientes para impedir que a batalha ocorresse. A cada rima, os presentes podiam esquecer do mau tempo. Era a 23ª edição e o campeão foi o MC MGO. Ele e Raul Conrado são organizadores de outra batalha próxima, a Batalha do Remp, na Vila Ferreira, mas fortalecem a organização da Batalha do Cooperativa, estando presentes com frequência. Raul fez o beatbox da 23ª edição da batalha, que ocorreu mesmo sem a caixa de som.

    Na 24ª edição, também sob chuva, a caixa de som chegou e foi ligada numa tomada de um barzinho de esquina. Depois da batalha ter iniciado com o beatbox, agora o som já ecoava com mais facilidade.

    MGO foi novamente o vencedor. Mas, como na maioria das batalhas, a rivalidade fica na roda de rimas e os MC’s e público comemoram juntos o final da verdadeira batalha, a da resistência pela produção de cultura gratuita e de qualidade sem apoio do poder público.

    A Batalha do Coopera ocorre às quintas-feiras, e começa a concentrar-se às 19 horas, na praça do bairro que fica próxima ao ponto final dos ônibus 7n, 17 e 10 de SBC. Outro ponto de referência é o CEU Celso Augusto Daniel.

    0# Cultura e resistência no ABC paulista

    1# Batalha da Pistinha

    2# Batalha da Praça

    3# Batalha da Vila Luzita

    4# Batalha da Galeria

     5# Batalha da Palavra

     6# Resiste Batalha do Carrefa!

    Mapa das batalhas de rap no ABC: