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  • A luta dos de baixo e a consigna “Eleições Gerais e Diretas Já”

    Por: Bernardo Lima, de Belo Horizonte, BH

    Esse artigo tem a intenção de dialogar com toda a vanguarda engajada na luta contra as reformas, que tem feito greve e ido às ruas para derrotar o governo ilegítimo de Michel Temer e quer construir uma saída à esquerda para a crise política do país. Nós temos conseguido com nossa mobilização dificultar a aprovação das contrarreformas, e a esquerda socialista tem sido parte fundamental da construção da greve geral e das manifestações. Na próxima semana iremos à Brasília, junto com todo o movimento de massas, ocupar a capital e empurrar Temer para fora do poder.

    Um desfecho positivo para essa conjuntura polarizada de ataques e resistências depende da luta dos trabalhadores e do povo. A crise política na cúpula nos interessa única e exclusivamente por que é mais fácil derrotar a classe dominante se ela estiver dividida, porque ajuda a revelar a todo o povo o verdadeiro caráter do estado e das empresas, porque aumenta a possibilidade de uma ação verdadeiramente independe da classe trabalhadora. Consequente com isso, acreditamos que a estratégia da esquerda socialista passa centralmente pela mobilização independente das massas, pelo fortalecimento dos organismos operários e populares e pela unidade da luta da classe trabalhadora.

    A reforma da previdência vai passar? Haverá mais restrições às liberdades democráticas? Conseguiremos sair desse lamaçal de corrupção? Os ricos continuarão jogando a crise nas costas dos trabalhadores? A resposta da esquerda para essa questão é: depende do tamanho de nossa luta. Com mais greves gerais, com um presidente ilegítimo derrubado pelo povo, com a organização e consciência da classe avançando até uma política independente – o céu é o limite. Caso nossa luta retroceda, podemos esperar o pior. Nada de bom nos espera se abrirmos mão de nossa luta em prol deste ou daquele bloco burguês ou apostando em manobras parlamentares e investigações policiais.

    Colocar quem no lugar de Temer?

    O governo Temer nunca foi popular. Sua capacidade de implementar a reforma está diretamente ligada à sua insensibilidade às demandas dos trabalhadores. Ele governava porque tinha ao seu lado a maioria do Congresso e do Senado, além da sustentação da grande imprensa e da classe dominante que esperava que ele aprovasse as contrarreformas a toque de caixa. Como ele era fruto de um golpe parlamentar a imensa maioria do movimento de massas o considerou ilegítimo, se opôs à sua posse e trabalhou desde então para que caísse sob os gritos de “Fora Temer”.

    A PEC 287 da Reforma da Previdência elevou a luta a outro patamar. A maioria da população a rejeitou. Mesmo a Força Sindical, UGT e outras centrais que apoiaram o golpe foram empurradas para a luta contra Temer e uma nova conjuntura se abriu com as grandes mobilizações de rua que possibilitaram a greve geral do dia 28 de abril.

    Agora uma nova crise atinge o governo Temer, as gravações feitas pela Polícia Federal que provam que o presidente ilegítimo fazia parte de uma operação para manter Eduardo Cunha calado na cadeia minou as bases do governo. A Globo deu o furo de reportagem e pediu a renúncia do presidente, os partidos da base aliada começaram a abandonar o barco e, sem nenhum apoio popular, Temer ficou sem base para governar. Sua queda está colocada para já (ainda não esteja certa) e discute-se abertamente em todos os círculos quem será seu sucessor.

    As massas olham para todos os lados e não sabem em quem confiar. Discutem política nas fábricas, bares e igrejas e sempre surge a dúvida: quem colocar no lugar de Temer? Uns falam desesperançados. Outros reanimando suas expectativas em Lula e no PT. Tantos outros esperam resolver os problemas do país com um presidente “apolítico” como Dória ou Huck. A principal alternativa à esquerda do petismo é a Frente de Esquerda e Socialista, mas essa ainda é bem minoritária.

    Poucos enxergam uma alternativa à esquerda por fora da democracia liberal burguesa. A consciência de classe é muito pequena, abalada pelas experiências fracassadas do passado. Não existem organizações consolidadas de trabalhadores e do povo organizadas no chão das fábricas. Os sindicatos estão enfraquecidos e afastados de suas bases, quando não estão completamente corrompidos pelo burocratismo. A maior central do país ainda é ligada ao petismo. Quase não existem comitês de base nas fábricas, bancos, escolas e outros locais de trabalho.

    Como responder essa pergunta tão frequente em conjuntura tão delicada?

    Diretas x Indiretas

    Devido à divisão dos representantes da burguesia no parlamento e à incerteza do resultado de uma eleição presidencial, a principal aposta da burguesia após uma provável queda de Temer é fazer cumprir a Constituição: eleições indiretas para um mandato tampão. O que ela quer desse novo governo? Que aprove de uma vez por todas as contrarreformas. O novo governante, provavelmente um “técnico”, não viria do meio político. Tal qual Temer, não teria preocupações com popularidade, ou expectativas de reeleição e aplicaria as reformas “até o final”.

    A esquerda socialista deve ser consequente com a política do “Fora Temer” e lutar para que o povo decida através de eleições diretas, imediatamente. A burguesia não quer ir às urnas agora pois teme um descontrole do processo eleitoral e a politização das massas. Uma eleição neste momento necessariamente seria pautada pelas reformas e o povo estaria de ouvidos abertos para medidas alternativas aos ataques em curso. Uma eleição conquistada nas ruas, contra a vontade da classe dominante, não é uma eleição normal.

    Numa eleição desse tipo a esquerda socialista poderia se apresentar unificada em uma candidatura própria, com um programa oposto ao da direita e ao do PT, e batalhar por engrossar suas fileiras e ganhar setores de massas para a suspensão do pagamento da dívida, o fortalecimento da previdência, a execução das dívidas das empresas sonegadoras, a reestatização da Vale, a reversão do processo de desmonte da Petrobrás, etc.

    Eleições Gerais para derrubar o Congresso corrupto

    A consigna de “Diretas Já” apenas não é suficiente na atual conjuntura. O Congresso Nacional que implementou o golpe parlamentar e está destruindo os direitos trabalhistas a toque de caixa não tem legitimidade para terminar seu mandato. Estão quase todos envolvidos nos esquemas de corrupção, não possuem apoio popular e precisam cair junto com Temer.

    Por isso, as eleições que defendemos também se estende ao Congresso e ao Senado. Queremos o direito de opor os candidatos da esquerda socialista aos atuais corruptos. Queremos que a atual legislatura seja considerada ilegítima e indigna. Não realizar novas eleições gerais significaria trocar apenas o chefe do executivo e manter os parlamentares atuais aplicando suas contrarreformas. Seria uma vitória pela metade. Não há argumentos capazes de explicar por que Temer é ilegítimo e o congresso que o colocou lá não.

    Por Um Governo dos Trabalhadores e do Povo

    No Encontro que formou o MAIS em julho do ano passado definimos que o programa para o Brasil passava pela defesa de um governo dos trabalhadores e do povo. Achamos que somente um governo de aliança entre os trabalhadores e os setores populares do campo e da cidade através de seus organismos democráticos pode levar até o final um programa socialista, revolucionário e internacionalista. Porém, essa parte de nosso programa que algumas organizações revolucionárias também defendem ainda não está colocada para a ação. Os trabalhadores ainda não criaram seus próprios organismos de poder, ainda não existe uma mobilização tão massiva nos setores populares que coloque em cheque todo o regime e, não menos importante, estamos longe de ter uma direção revolucionária a cabo de realizar esta tarefa.

    Nessas condições as palavras de ordem de governo das organizações operárias ainda são abstratas e imprecisas. “Poder popular”, “operários no poder” e “governo dos trabalhadores e do povo” servem apenas como uma declaração de intenções futuras. É o objetivo pelo qual lutamos. Quando perguntados por alguém sobre quem achamos que deveria governar o país podemos sim responder: os próprios trabalhadores. Mas estaríamos mentindo se disséssemos que está colocado substituir Michel Temer, que precisa cair já, por esse tipo de alternativa.

    A Esquerda Socialista precisa defender “Eleições Gerais e Diretas Já”

    É por isso que acreditamos que toda a esquerda socialista deveria defender a realização de “Eleições Gerais e Diretas” nas ruas, nas tribunas e nos fóruns do movimento. Essa palavra de ordem tem a capacidade de ganhar as massas de trabalhadores que desejam a queda de Temer, mas não querem a volta da Dilma, e ficam desconfiados de que as lutas que travamos agora são “coisa do PT”.

    A realização de eleições neste momento significa uma derrota para a burguesia, interrompe o golpe e permite que a esquerda socialista faça o combate programático tanto contra a direita quanto com o projeto de conciliação de classes.

    Obviamente aqueles que são marxistas sabem que as eleições, mesmo com novas regras, levarão inevitavelmente a um novo governo da classe dominante. Sabemos desde já que, vencendo Lula ou um candidato da direita, teremos que continuar lutando em defesa de nossos direitos e ganhando cada vez mais jovens e trabalhadores para a luta pelo socialismo. A tarefa de construir a direção revolucionária e impulsionar a mobilização das massas é permanente. E enquanto não tivermos um governo realmente operário e popular seguiremos lutando para que todo o poder seja transferido para os trabalhadores. Essa constatação estratégica não deve nos cegar para a importância de derrubar Temer, barrar as reformas e conquistar eleições gerais e diretas já.

    Como diz um provérbio chinês: “Uma caminhada de mil léguas começa sempre com o primeiro passo”.

    Foto: Carol Burgos | Esquerda Online

     

  • Duas saídas para a crise brasileira

    Gabriel Casoni, da Secretaria Política do MAIS

    O governo Temer acabou. Tudo agora se resume em como será a queda do golpista e seus desdobramentos imediatos. Estamos perante um momento extraordinário, de desenlaces imprevisíveis.

    A questão fundamental, no presente momento, é a luta política em torno da saída para a brutal crise instalada. Duas alternativas estão em disputa.

    Tudo indica que a linha da classe dominante é a defesa de eleições indiretas no Congresso, com a nomeação de um interino ‘técnico’, possivelmente vindo do Judiciário.

    Especula-se na grande mídia o nome da presidente do STF, Cármem Lúcia, e também do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Ambos dariam sequência às reformas que destroem direitos sociais e trabalhistas.

    Contra a saída da direita, é preciso apresentar a alternativa dos trabalhadores e da esquerda. Não podemos deixar nas mãos da burguesia e desse Congresso ilegítimo o desfecho da crise.

    Para isso, de imediato, é preciso ocupar as ruas em todo país e convocar nova Greve Geral! As centrais sindicais não podem vacilar: é necessário marcar a paralisação geral imediatamente.

    Pela força da mobilização dos trabalhadores e da juventude, é possível impor eleições diretas e gerais, já! Não podemos permitir que esse Congresso de bandidos defina o novo presidente. É hora de enterrar as Reformas da Previdência e Trabalhista, para garantir todos os direitos.

    Com o povo na rua, vamos construir uma saída pela esquerda, com um programa anticapitalista para mudar de verdade o Brasil!

    É tempo de ocupar as ruas!

    Fora Temer e suas Reformas.

    Todos à Brasília dia 24!

    Por uma nova Greve Geral Já.

    Não aceitaremos um Governo do STF.

    Eleições Gerais e Diretas, Já.

    Construir a Frente de Esquerda e Socialista!

    Por um governo dos trabalhadores e do povo!

  • Frente de Esquerda Socialista lança nota sobre próximos passos da luta contra Temer e suas reformas

    Da Redação

    Na tarde desta terça-feira (16), a aproximadamente uma semana da marcha a brasília convocada pelas centrais sindicais, a Frente de Esquerda Socialista lançou uma nota sobre o que considera os próximos passos para intensificar a luta contra o presidente Michel Temer (PMDB) e as contrarreformas apresentadas por seu governo. Divulgamos abaixo, na íntegra:

    “OCUPAR BRASÍLIA E CONSTRUIR UMA NOVA GREVE GERAL

    Declaração da Frente de Esquerda Socialista – RJ

    A greve geral do dia 28/4, marcada pelas nove centrais sindicais e três frentes de luta, foi um importante triunfo, sendo a primeira greve geral do Brasil no século XXI, uma das maiores em décadas. Diante de um cenário de grandes ataques à classe trabalhadora brasileira, como a aprovação da PEC 55, da Lei das Terceirizações e a aprovação da Reforma Política excludente no Senado, os trabalhadores desde as jornadas de março vinham protagonizando importantes lutas e greves. Com o êxito da greve geral do último dia 28, podemos afirmar que a resistência está em um novo patamar. A questão colocada, neste momento, é como dar continuidade a esse processo de luta.

    O governo foi, desde já, obrigado a mudar de discurso. Se durante o dia 28 a Presidência de forma temerária ensaiava uma narrativa de que o movimento foi um fracasso, ao final do dia contentou-se com a criminalização do mesmo, sem ser capaz de invisibilizá-lo. Fato é que a mobilização do dia 28/04 demonstrou que é possível derrotar a reforma trabalhista e a reforma previdenciária. A classe trabalhadora deu uma imensa demonstração de força e parou o país. Nem a imensa propaganda do governo e da grande mídia foram capazes de confundir as pessoas. A ampla maioria do povo apoiou a Greve e está contra essas reformas. Segundo as últimas pesquisas, o governo Temer já amarga minúsculos 4% de aprovação.

    Na falha em construir consensos que fragilizariam a resistência às reformas neoliberais do governo ilegítimo, o braço armado do Estado se intensifica na criminalização dos/as lutadores/as, como vimos nas fortes repressões aos atos na greve geral e nas prisões de militantes do MTST. O governo ilegítimo de Temer, embora fragilizado, acelerou o trâmite das reformas da Previdência e Trabalhista. A proposta de Reforma da Previdência foi aprovada na Comissão Especial que analisa o projeto por uma margem inferior ao esperado. O governo negocia com parlamentares a aprovação do projeto e as projeções indicam que ainda não há maioria.

    A Reforma Trabalhista, que muda mais de cem artigos da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) foi aprovada na Câmara na véspera da greve geral. Agora, o governo quer a aprovação em turno único no Senado. Neste momento, o projeto está tramitando em três comissões de apreciação na casa. A previsão para sua votação é no início de junho.

    Apesar de sua imensa impopularidade, Temer não pretende recuar das reformas. Não podemos, tampouco, confiar nesse Congresso majoritariamente ocupado por corruptos. Temos apenas uma oportunidade para a vitória: aumentar a mobilização que está em crescente e questionar o governo Temer e as reformas. A greve geral de 28 de abril foi um primeiro passo. A marcha a Brasília é uma manifestação também de força, mas devemos apontar, desde já, a construção imediata de uma nova data de greve geral.

    A perspectiva da Frente de Esquerda Socialista é manter unificada o conjunto da classe trabalhadora na luta contra as reformas trabalhista e da previdência, e na luta para derrubar Michel Temer. Para isso, o conjunto das centrais e frentes não podem vacilar, uma nova greve geral é necessária e pode ser ainda mais vitoriosa do que a de 28 de abril, seja ela de 24 horas ou 48 horas.

    Apoiamos a iniciativa da Marcha para Brasília, no dia 24 de maio, ao mesmo tempo em que reconhecemos que nossa maior força é e sempre será a possibilidade de parar o Brasil para pressionar o Congresso corrupto a recuar definitivamente em seu plano de acabar com a aposentadoria e toda a legislação trabalhista atual. O impacto de mais de 35 milhões de trabalhadores/as parados/as em todo o Brasil é inigualável. Mesmo assim, nós da Frente de Esquerda Socialista estamos construindo desde já a maior mobilização possível para Brasília, a partir de caravanas locais e forte mobilização de base.

    Para além desta grande mobilização nacional, fortalecemos as iniciativas de comitês de base contra as reformas, nos bairros, locais de trabalho e estudo, no sentido de impulsionar de baixo para a cima a organização de todas/os as/os exploradas/os do país na defesa de nossos direitos. Nem um direito a menos, contra as reformas neoliberais e pelo Fora Temer, rumo a uma nova greve geral no país.

    Esse cenário de crescimento das mobilizações e de fortalecimento da resistência da classe trabalhadora intensifica, também, a urgência de construir uma nova alternativa política para o país. Não confiamos que essa tarefa poderá surgir com o apoio do juiz Sergio Moro e de uma justiça que de cega não tem nada. Basta ver que, enquanto Eike Batista é libertado, Rafael Braga é condenado e permanece encarcerado como um autêntico preso político.

    Tampouco acreditamos que o projeto “Lula 2018” nos ofereça uma saída. Todos os passos do ex-presidente sinalizam sua aposta em reeditar um governo de conciliação de classes no país, um modelo que julgamos esgotado, pois significou jamais enfrentar os interesses mais de fundo de banqueiros e latifundiários.

    A crise econômica levou a classe dominante deste país a buscar implementar um programa radical de ataques aos direitos do povo pobre. Para que a classe trabalhadora dê uma resposta à altura, também no plano político, é preciso defender um programa alternativo desde uma frente de independência de classe, sem alianças com empresários e seus representantes políticos. Por essa razão, é cada vez mais urgente que partidos como o PSOL, PCB e PSTU e movimentos como o MTST, conformem uma Frente de Esquerda Socialista, a fim de oferecerem uma saída independente para a crise em que nos encontramos.

    #ForaTemer e suas contrarreformas!

    Todas e todos à Marcha a Brasília!
    Por uma nova greve geral, já!

    Chamamos o PSOL, PCB, PSTU e MTST a formarem uma Frente de Esquerda Socialista”!

  • Candido, gigante que nos fez maiores

    Por: Fernanda Lobo*

    Existem duas categorias de pessoas inteligentes e eruditas. Uma abrange aquelas pessoas que, depois de as termos encontrado(ou lido), saímos nos sentindo mais ignorantes e pequenos. A outra se trata das pessoas eruditas e inteligentes que encontramos e saímos nos sentindo maiores, mais inteligentes, mais ricos intelectual e espiritualmente.

    O segundo tipo de pessoa muito inteligente é mais raro, justamente porque talvez seja muito mais generoso se despojar voluntariamente das condecorações, penduricalhos, ruídos e plateias deslumbradas embora confusas que acompanham as sumidades que cruzam os salões, para, de maneira simples e sem jargões, construir conhecimento com o interlocutor.E o fato é que generosidade não é coisa do nosso tempo.
    Antonio Candido foi certamente esse segundo tipo de gênio.

    Como crítico literário, Candido foi uma espécie de elo espiritual, um aedo entre a substância da literatura brasileira e o próprio Brasil. Quando Candido disse, em Formação da Literatura Brasileira, que “A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas.”, ao contrário do que pode parecer, Candido não desqualificava a literatura daqui, endossando o signo da falta (com relação à literatura europeia) que sempre regeu o espírito da literatura latino-americana.

    Não, pelo contrário, ao prosseguir em sua sequência, passando pela literatura europeia e indo parar no campo do mito, no Jardim das Musas, ele dizia que, por não existir um original terreno a ser imitado, o nosso galho secundário era também digno de atenção e, mais, de amor.

    Assim, debruçou-se com amor sobre as desengonçadas façanhas brasileiras no mundo das letras, dizendo-nos que nosso destino não era apenas a emulação. Candido, que nos deu tanta coisa, nos deu também a ideia de um Brasil que deveria ter direto a escrever e a ler, coisa tão da e para a elite. Soube ler esse desejo e nos fazer desejar esse direito. Revolucionou, assim, não só a crítica literária, como também a autoimagem do Brasil.

    Sem jamais incorrer em complacência, a obra de Antonio Candido é composta por textos simples, que deixam que o leitor se aproxime sem receio e permite, quase como alquimia, a passagem da leitura de palatáveis análises à edificação de um conhecimento extremamente perspicaz e rigoroso. Coisa de gente enorme que, além de enorme, engrandece quem se aproxima. Para ele, não existe literatura destinada ao operário, ao homem rústico, porque, como declarava, cada pessoa tem sua própria literatura e todos podem – ou deveriam poder – transitar entre os muitos modos de fabulação possíveis.

    A generosidade de Candido é anticapitalista. Ao dividir seu conhecimento de maneira tão aberta, dirigindo-se com sua prosa amistosa a qualquer um, Candido se coloca do lado oposto à crítica que apenas afaga o poder e que, portanto, não é crítica, porque não é crise.

    A inteligência de Candido ensinou a respeitar a tradição sem transformá-la em grilhões, soube ver e mostrar que a tradição existe não para impor limites e ser reproduzida ad infinitum, que não deve existir como prisão, mas para que o próximo passo aconteça. Essa lição libertária é muito importante.

    E o valor da liberdade que faz da obra de Candido tão viva jamais se sobrepõe ao valor da igualdade, por que tanto preza no trato com o leitor. Candido em sua obra nos convida a partilhar da ideia de que, sendo iguais, somos sempre o outro. E nos diz com sua obra que o exercício da crítica não deve e nem pode ser polícia e nem prisão.

    Quando em “A verdade da repressão”, o crítico comenta as percepções de Balzac a respeito da polícia de Napoleão, considera que Balzac foi perspicaz ao notar, nessa formação primitiva da instituição policialesca, que sua função seria “disfarçar o arbítrio da vontade dos dirigentes por meio da simulação de legalidade”. Cita Balzac, que pontua que, naquele momento, o aparato policial não passa de dispositivo armado para a manutenção da ditadura.

    Neste ensaio, ele continua, passando pela percepção que Dostoievski traz em Crime e castigo de que a figura do policial seria uma espécie de continuum da consciência da sociedade. Fala, ainda, da importante noção trazida por Kafka, em O Processo, de que o aparato policial, em dado momento, se fundiu ao aparato judicial, um se tornou o outro e a repressão tornou-se, a partir daí, uma finalidade em si, recaindo em uma prática de constante impulso de aniquilação do outro, sem a menor necessidade de crimes, mas somente de estímulos.

    Ao final deste ensaio, que muito diz, na realidade, sobre a violência brasileira, Candido narra a cena de um filme chamado Inquérito sobre um cidadão acima de qualquer suspeita, de Elio Petri. Ali, um delegado, conhecendo a natureza autodominante da polícia, escolhe pela rua um transeunte qualquer para confessar um crime sem dizer sobre a função policial que exerce. Elege um encanador e entrega ao homem a prova do delito que ele próprio, o delegado, havia cometido: a gravata azul que usa e que foi vista no criminoso. Convence-o, então, a ir até a delegacia fazer a denúncia.

    Ao chegar à delegacia para cumprir o que havia prometido ao criminoso que atravessou seu caminho, o encanador depara com o delegado, que também é o culpado. O delegado começa a pressioná-lo violentamente para que ele diga quem é o verdadeiro assassino. O encanador, perplexo com a situação absurda e sem conseguir reagir, vai se tornando, no meio dos opressivos questionamentos e da névoa (i)lógica do momento, o culpado pelo crime, até desaparecer no corredor escuro da condenação. Em dado momento do absurdo inquérito, o delegado pergunta ao homem qual é a sua profissão, ao que responde que é “hidráulico”. O delegado esbraveja que “agora todo mundo que ser alguma coisa bonita, mas que na verdade o senhor não tem nada de hidráulico, mas que é mesmo um en-ca-na-dor”.

    Assim, subtrai ao homem toda a ficção, toda a fabulação que havia feito para si com o fim de conseguir levar de maneira mais digna a própria vida; aniquilando, portanto, a tentativa de fantasia do pobre homem, que, conduzido violentamente a seu viés, finalmente confessa o seu próprio crime: “Sim, sou encanador”.

    Nesse episódio, como em tantos outros, a polícia impõe ao ser humano um ser menor, um ser tão aniquilado, que é destituído inclusive de seu direito de fabulação. Candido, que é o Grande Mestre, o Grande Sociólogo, o Grande Homem Político, o Grande Intelectual, o Grande Crítico, em uma atitude radicalmente libertadora, aparece para nós no meio de cada uma das letras que compõem seus textos simplesmente como um professor.

    Assim, ele faz de si e de sua obra o movimento antipolicialesco, contrário ao do episódio fictício narrado. Dispensando uma fabulação engrandecedora para chegar à simples profissão de professor, aniquila a possibilidade do ensimesmamento do pensador e interdita a polícia e o amor ao poder que espreitam. Antonio Candido nos ensina, amando uma “literatura pobre e fraca, às vezes forte, mas sempre tocante”, a nos esforçarmos para nos livrar da ambiência rodeada de grades da crítica e do pensamento.

    Nosso professor, defendia ferrenhamente o caráter formador da literatura, dizia que não se sai da experiência de leitura do mesmo modo como se entrou e, tal como excelente personagem de romance, a um tempo complexo e simples, uno e múltiplo, ele próprio se nos doa em expressão máxima de liberdade para ser outro.

    *Aluna do mestrado no Programa de Literatura Hispano-americana da FFLCH-USP.

  • Mais uma vez, um ‘estado de sítio’ em Curitiba

    Por: Eric Gil Dantas, de Curitiba, PR

    A última vez que sentiu-se um ar de tamanha tensão na capital paranaense foi nos dias que antecederam o 29 de abril de 2015, quando Beto Richa atirou bomba de gás lacrimogêneo e balas de borracha por duas horas e meia em cima de professores e outros funcionários públicos estaduais para poder usurpá-los o dinheiro da ParanaPrevidência. O motivo agora é outro, o ‘duelo’ entre o ex-presidente Lula e o juiz federal Sergio Moro.

    Protesto neste 10 de maio em Curitiba

    Protesto neste 10 de maio em Curitiba

    Na última semana, não se falava de outra coisa na cidade, senão a vinda de Lula para depor. Nas redes sociais, a mesma coisa. A Gazeta do Povo, maior jornal da cidade, até abriu mão dos protocolos de pseudo-imparcialidade, sempre cobrado dos jornais, para reproduzir textos de Rodrigo Constantino e escrever matérias tão duvidosas quanto. Seu portal virou praticamente a página do MBL.

    O circo montado pela Justiça, Secretaria de Segurança e apoiadores da Lava Jato já está de pé em Curitiba. Os últimos até espalharam inúmeros outdoors pelas ruas da cidade onde estamparam uma caricatura de Lula vestido de presidiário dando “boas-vindas à República de Curitiba”. Já as forças de repressão, apoiadas pela Justiça estadual, montaram um verdadeiro aparato policialesco, impedindo a entrada de pessoas em um raio de 150 metros da Justiça Federal, que se localiza no antigo bairro do Ahú, a poucos quilômetros do Centro.

    Bloqueio policial próximo à Justiça Federal

    Bloqueio policial próximo à Justiça Federal

    Uma juíza estadual também impediu que fossem montados acampamentos, o que foi desobedecido pelo MST entre a noite de ontem e a manhã de hoje, quando acamparam em um terreno ao lado da Rodoferroviária. De forma covarde, este acampamento foi atacado por fascistas que atiraram rojões – de cima de um viaduto próximo – nos membros do MST, nesta madrugada.

    Além do MST, petroleiros se juntarão a protesto

    Além do MST, petroleiros se juntarão a protesto

    Mas, não só o MST marcará presença hoje em Curitiba. Diversos sindicatos, principalmente de base cutista (CUT), como os petroleiros do ABC paulista, que já chegaram ou estão chegando aqui também farão parte dos protestos. Os militantes do MST rumaram para um ato que já tem a adesão de algumas milhares de pessoas na praça Santos Andrade, no Centro, onde está localizado o prédio histórico da Universidade Federal do Paraná. No entanto, o ato principal ocorrerá apenas ao final da tarde, na Boca Maldita, onde esperarão a presença do ex-presidente para o seu discurso, presença ainda não confirmada.

     

     

    Nós não estaremos como organização política nestes atos, pois não acreditamos no apoio ao programa petista, mas cobriremos para que o Esquerda Online possa subsidiar os militantes da esquerda a discutirem o que realmente está ocorrendo aqui e, a partir daí, tirar conclusões sem depender dos jornais totalmente alinhados com a direita tradicional paranaense.

    Praça Santos Andrade recebe apoiadores de Lula

    Praça Santos Andrade recebe apoiadores de Lula


    Saiba Mais

    Sobre o depoimento de Lula em Curitiba

    Acampamento do MST em apoio a Lula é alvo de ataque, em Curitiba


    Fotos: Esquerda Online
    Foto de capa: Francisco Proner / Mídia NINJA

  • Dória começa a privatizar parques e coloca à venda o lazer do povo em São Paulo

    Por Carolina Freitas, de São Paulo, SP

    O prefeito de São Paulo, João Dória, iniciou hoje o processo de privatizações dos parques públicos da cidade. A partir de hoje, 14 parques estão liberados para serem concedidos à iniciativa privada, conforme anúncio da Secretaria de Desestatização e Parcerias, nesta tarde.

    A transferência do patrimônio público da cidade e dos seus moradores às empresas é, por si só, absurda, porque oposta à ideia de um espaço que todos possam usufruir. Torna-se ainda mais absurda quando observamos como Dória está construindo o processo de privatização: sem qualquer regra definida!

    A partir do lançamento desse pacote de parques, que é apenas o primeiro entre aqueles que o prefeito quer lançar para os 107 parques da cidade até o fim de 2017, a prefeitura vai analisar os projetos apresentados pelas empresas e quais serão as possibilidades de investimentos e de contrapartidas. Só depois das ofertas dos empresários é que a gestão Dória avaliará que modelo será submetido a cada parque, o que significa que deixará a cargo das empresas candidatas a sugestão de regras de gestão e exploração comercial dos espaços públicos.

    Segundo o anúncio, serão privatizados, na zona sul da capital, os parques do Ibirapuera, na Vila Mariana; Chuvisco, no Jardim Aeroporto; e Independência, no Ipiranga. Na zona oeste, foram lançados às empresas os parques Buenos Aires, em Higienópolis; Cemucam, na Raposo Tavares; e Jockey, no Butantã. Na zona norte, os parques Anhanguera, em Perus; Cidade Toronto, em Pirituba; e Vila Guilherme, no bairro de mesmo nome. Na zona leste, os parques anunciados foram o do Carmo, em Itaquera, e o da Vila Prudente. No centro, os parques da Aclimação; o Jardim da Luz, no Bom Retiro; e o Trianon, em Cerqueira César.

    A mercantilização dos parques, desde a gestão administrativa até a organização de seus eventos e serviços, implica a exclusão de seu uso pelo povo trabalhador pobre, que não será público alvo consumidor dessas empresas. Os parques são locais de lazer, confraternização e descanso para as crianças, as famílias, a juventude, os idosos; para quem trabalha a semana toda; para quem ainda pode frequentar áreas verdes comuns, em vez de shoppings e lojas de departamento; para quem tem hábito de usar, durante o fim de semana, outros lugares da cidade onde não mora nem trabalha. Esses espaços serão esvaziados de seu valor de uso. Vão se tornar, apenas e cada vez mais, empreendimentos comerciais e imobiliários.

    Dória discursa que a iniciativa privada vai cuidar melhor dos parques do que a prefeitura. Que privatização e concessão são coisas diferentes. Mas, na verdade, aproveita que os espaços e serviços públicos são ruins para deixá-los ainda pior com o corte violento de orçamento e, assim, justificar a repartição do patrimônio da cidade aos seus amigos milionários. Não podemos cair nessa armadilha!

    Reivindicar o direito de ocupar São Paulo para usos que vão além da circulação obrigatória que o trabalho impõe é, mais do que nunca, necessário. Resistir ao projeto de Dória de transformar a cidade num grande negócio é afirmar que preferimos a alegria, a brincadeira, o exercício, o encontro das pessoas em oposição ao lucro do capital. O lazer do povo não pode ser vendido.

  • Macron venceu. E agora?

    Por: Renato Fernandes, de Campinas, SP 

    Depois de meses de campanha, as eleições presidenciais francesas chegaram ao fim. Os primeiros resultados deste segundo turno são os esperados pelos mercados financeiros e a grande burguesia: a vitória do candidato de centro Emmanuel Macron, do En Marche, sobre a candidata da Frente Nacional da extrema-direita Marine Le Pen por, aproximadamente, 66% a 34%.

    Apesar de esperado, é um resultado que abalou o sistema político francês, após a derrota no primeiro turno dos dois principais partidos políticos, Republicanos (LR) e o Partido Socialista (PS). Isso implicou uma verdadeira reorganização do sistema eleitoral francês. Primeiro, porque emerge o fenômeno do crescimento do centro através da candidatura Macron; segundo, que a candidatura de Mélenchon, da França Insubmissa, obteve uma votação muito superior ao PS; terceiro, a vitória de Le Pen sobre o LR.

    Trata-se de uma reorganização, de um rearranjo do sistema político que continuará nas eleições legislativas de junho. Tal como declarou em entrevista na última sexta-feira, Macron tentará obter uma maioria parlamentar para governar através de uma unidade de setores da LR, do PS e do partido centrista Movimento Democrático (MoDem) de François Bayrou.

    O pano de fundo desse abalo é a decadência imperialista francesa: fraco crescimento econômico dos últimos anos, taxa de desemprego de aproximadamente 10%, queda da rentabilidade e da presença do capital francês no sistema econômico mundial. Além disso, há também uma perda do protagonismo político francês tanto no cenário mundial, quanto no cenário europeu, com a ascensão do imperialismo alemão.

     A votação
    Diferentemente de 2012, quando a eleição de François Hollande representou um alívio e foi considerada uma vitória para os movimentos sociais, dessa vez, há um certo ceticismo em relação a vitória de Macron.

    Com a exceção de seu movimento, En Marche, não deve haver grandes comemorações públicas de sua vitória, nem mesmo grandes reuniões “em defesa da República” contra Le Pen. O movimento liderado por Macron tem pouca base social (mesmo no patronato) e, inclusive, parlamentar.

    Além disso, esse segundo turno registrou três recordes. O primeiro foi a votação da FN. Lembremos que em 2002, quando então Jean-Marie Le Pen foi ao segundo turno contra Jacques Chirac, ele perdeu a eleição por 82% a 18%. Agora, sua filha, Marine Le Pen, praticamente conseguiu dobrar essa votação ao obter aproximadamente 11 milhões de votos. Trata-se de um claro avanço da extrema-direita: milhões de eleitores votaram por um programa nacionalista, xenófobo e anti-União Europeia.

    O segundo recorde está na abstenção eleitoral. É a mais forte desde 1969, com aproximadamente 25,4%. Por fim, o terceiro recorde são os votos em branco ou nulo: 8,6% do total de inscritos a votar. 

    O programa de Macron
    Macron se reivindica um liberal no campo econômico e no campo político. Suas propostas são uma continuidade da austeridade aplicada pelos presidentes desde a crise de 2008: corte de investimentos, redução de impostos, redução de direitos, entre outras, todas voltadas para aumentar a taxa de exploração do proletariado francês e retomar a tão falada “competitividade” da economia.

    Macron já anunciou que vai manter e aprofundar a contrarreforma trabalhista de Hollande – tanto Le Pen, quanto Mélenchon falaram em revogá-la. Essa contrarreforma permitiu que os acordos por empresa modificassem a duração do trabalho ao substituir os acordos coletivos por ramo de trabalho. Atualmente, a jornada semanal na França é de 35 horas, porém a média trabalhada é de 39h semanais (contando as horas extras). Com a nova lei é possível ampliar essa duração em acordos por empresas.

    Agora, Macron quer estender esse tipo de acordo por empresa para outros campos dos direitos trabalhistas como salários, condições de trabalho, formação, etc. Isso enfraqueceria o contrato coletivo, afetando os direitos dos trabalhadores e também sua resistência, já que fragmentaria ainda mais as lutas.

    Além disso, Macron quer reduzir as representações dos trabalhadores nas empresas, generalizando a fusão dos comitês de higiene, segurança e condições do trabalho (uma espécie de CIPA), com as representações dos trabalhadores nos comitês de empresa. Isso já pode acontecer, de maneira facultativa, desde 2015, em empresas com menos de 300 trabalhadores.

    Em relação a política fiscal, Macron tem uma velha receita neoliberal: redução de 120 mil funcionários públicos através de demissões voluntárias, aposentadorias, etc.; manutenção da aposentadoria as 62 anos (reforma de Sarkozy); modificação das condições do seguro desemprego, supressão do regime especial para trabalhadores artesãos e independentes; redução dos impostos sobre os lucros das empresas, passando de 33% para 25%; redução do imposto sobre fortunas para “aqueles que investirem na economia”, entre outras medidas.

    O objetivo de todas essas medidas não é outro senão o de continuar a política de austeridade dos últimos anos. Política defendida pela União Europeia para todo o continente.

    Em relação à Europa, a tendência é que Macron continue a aliança França-Alemanha na condução das políticas de austeridade. Entre todos os candidatos que disputaram a eleição, possivelmente Macron seja o mais pró-UE. Nesse sentido, muito das suas medidas econômicas tem como objetivo adequar a economia francesa à própria UE, tais como priorizar as compras públicas para as empresas europeias e não somente francesas. Com essa política econômica e a continuidade da aliança com a Alemanha, a tendência é que a trajetória de decadência da França enquanto país imperialista deve continuar.

    Por outro lado, com sua política de favorecimento das grandes empresas, Macron deverá enfrentar uma forte oposição social. Não é à toa que até o jornal Le Monde destaca que a continuidade da contrarreforma trabalhista pode enfrentar protestos ainda maiores dos que foram realizados em 2016.

     Eleições legislativas em plena reorganização do sistema político
    Como dissemos, no próximo mês haverá eleições legislativas. Com poucas exceções, a tendência das eleições legislativas foi sempre a de dar a maioria de deputados para o partido vencedor das eleições presidenciais. O grande problema de Macron é justamente que ele não tem esse partido. Por isso, será obrigado a se apoiar em um acordo com os grandes partidos para conseguir uma maioria.

    Nesse caminho, ele terá uma grande dificuldade que é enfrentar a extrema-direita de Marine Le Pen que já se declarou como a principal força de oposição. Em menor medida, terá que enfrentar também a força da esquerda radical de Mélenchon. A tendência é que ambos disputem a formação de governos de coabitação, quando o poder executivo é governado por um partido e o legislativo por outro. Foi isso que aconteceu entre 1997-2002, no qual o presidente era Jacques Chirac, da direita, e o primeiro-ministro era Lionel Jospin, do PS. A diferença é que agora a disputa é por fora dos partidos tradicionais, o que torna as coisas mais difíceis.

    No entanto, após a pulverização dos votos no primeiro turno e com um sistema distrital de eleição que favorece bastante os partidos majoritários, é difícil prever se Le Pen ou Mélenchon conseguirão superar os partidos tradicionais. Será necessário esperar as legislativas para saber as possibilidades que Macron terá para governar e aplicar seu programa neoliberal. Parece que a principal tendência é que, mesmo que consiga formar um governo que o apoie, sua maioria será frágil e enfrentará uma forte oposição parlamentar tanto à direita, quanto à esquerda.

    Ao mesmo tempo, a oposição social das ruas contra a continuidade do projeto neoliberal também tende a ser forte e poderá ser o local onde a sorte do governo Macron será decidida.

    Foto: AFP 

  • Marchas da Maconha em 6 de maio em todo o Brasil

    Por: Henrique Carneiro, colunista do Esquerda Online

    A proibição de certas drogas vai completar um século no Brasil e no mundo. Os tratados sobre o ópio de 1912, assinados em Haia, na Holanda, se incorporaram ao Tratado de Versalhes, ao final da Primeira Guerra Mundial, estabelecendo interdições ao uso não medicinal dos derivados do ópio e da folha de coca.

    No Brasil, em 1921, sob a inspiração das ideias racistas do eugenismo, se aprovaram decretos que estabeleciam a prisão e o internamento compulsório de consumidores de drogas e de alcoolistas, considerados como degenerados que ameaçavam a integridade nacional por meio do consumo dos chamados “venenos raciais”. Mas, foi a partir de 1932 que se incluiu explicitamente a maconha entre as substâncias proibidas e, em 1936, foi criada a CNFE (Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes), que centralizou no âmbito federal a repressão às drogas proibidas.

    A maconha, identificada com as populações negras e suas práticas culturais, foi estigmatizada como uma planta perigosa, viciante e causadora de doenças, acusada de ser o “ópio do Brasil”.

    Ao longo do século XX, se construiu uma representação ilusória sobre essa planta, usada amplamente há séculos como um medicamento de múltiplas utilidades, que se tornou cada vez mais um emblema das condições da marginalidade social.

    A droga dos escravos se tornou, assim, uma marca identitária de populações pobres, faveladas e discriminadas. O encarceramento em massa cresceu cada vez mais se constituindo num mecanismo de segregação social e no pretexto para uma coerção e vigilância acentuadas sobre as camadas mais discriminadas socialmente.

    A lei atual de 11.343, de 23 de agosto de 2006, hoje vigente, foi um nefasto legado do governo de Lula, incapaz de propor algum modelo de legalização, e que se tornou um meio de aumentar o aprisionamento de centenas de milhares de acusados por crimes de tráfico.

    A reação social ao proibicionismo e em defesa dos direitos dos consumidores se manifestou em um movimento social que passou a ocupar as ruas com as marchas da maconha. As marchas da maconha que ocorrerão novamente em dezenas de cidades brasileiras no próximo sábado, dia 6 de maio, vão mais uma vez dar visibilidade ao enorme número de usuários que revindicam seus direitos.

    Esse fato, a “saída do armário” de milhares de maconheiros e simpatizantes representa um movimento social de massas que cresceu nos últimos anos. De 2011, quando a marcha foi brutalmente reprimida, o que levou o debate ao STF, que reconheceu o direito constitucional de manifestação, até hoje, muita coisa mudou.

    O uso medicinal foi reconhecido como algo não só legítimo, mas indispensável. No sábado anterior às marchas, a matéria que abriu o Fantástico foi a respeito do uso e produção de derivados de maconha por famílias de crianças com graves doenças.

    A Anvisa foi obrigada a aceitar também no Brasil o direito ao uso de medicamentos fitoterápicos feitos com maconha e o processo internacional de ampliação do uso medicinal e de legalização plena para o uso recreativo em vários estados norte-americanos, no Uruguai e no Canadá vem ampliando a aceitação e a regularização dessa planta, que se constitui inclusive num poderoso novo mercado emergente.

    O debate sobre as formas de regulação social desses consumos diversos vem avançando cada vez mais em diversos países. No Brasil, no entanto, permanece inconclusa a discussão da descriminalização em curso no STF.

    Além do aprofundamento das pesquisas científicas, do aumento das formas de utilização medicinal, permanece em questão o direito dos cidadãos adultos poderem escolher livremente as formas de ingestão de substâncias psicoativas como uma prerrogativa central da sua autonomia e autodeterminação.

    O movimento social antiproibicionista que cresceu em diversos âmbitos sociais deve ainda conquistar os direitos políticos inalienáveis das liberdades civis dos diversos tipos de usuários.

    A realização das multitudinárias marchas da maconha vem sendo o eixo central da saída às ruas desses usuários que parece terem decidido que a libertação dos consumidores será obra dos próprios maconheiros. Mas, além dos próprios interessados diretos, essa emancipação é do interesse de toda a sociedade, atingida pelos efeitos nefastos da proibição, como a violência do crime e da polícia, a corrupção, a renda clandestina, a lavagem de dinheiro ilícito, a ausência de fiscalização e controles de qualidade do Estado sobre os produtos.

    Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

  • Greve geral em Recife: o antes e o depois

    Por: Bruna Bezerra, de Recife, PE

    As ruas vazias
    Quem estava acordado nas primeiras horas da última sexta-feira, dia 28, na Região Metropolitana do Recife, logo percebeu que aquele não seria um dia qualquer: o silêncio das ruas vazias denunciava que havia algo acontecendo. Escolas e universidades públicas e particulares, supermercados, agências de banco, restaurantes e uma parcela importante do comércio estiveram de portas fechadas. Não que isto fosse surpresa. A Greve Geral foi virando assunto de inúmeras conversas no transporte público e nos locais de trabalho, nas escolas e universidades, nos bares, nas igrejas (e até nas procissões), sem falar das correntes de “Zapzap” e do “Face”. Muitas foram às reuniões, assembleias, acordos. Milhares de panfletos foram rodados e entregues para a população.

    Quem parou
    A Greve Geral no Grande Recife teve sua dinâmica ditada pela paralisação dos trabalhadores rodoviários. Na quarta-feira (26) , a Urbana-PE, sindicato patronal, declarou que puniria os trabalhadores que paralisassem devido à Greve Geral. Na quinta (27), a Justiça determinou que, nos horários de pico, 50% da frota deveria circular e nos demais horários, deveriam ser 30%, mas o dia amanheceu e não havia ônibus nas ruas. Nas garagens das empresas de ônibus, muitos trabalhadores sequer compareceram e os que foram, não saíram. No decorrer da manhã, algumas empresas de ônibus liberaram seus trabalhadores para voltarem para casa.

    Durante a tarde, contrariando as declarações da direção do Sindicato dos Rodoviários (da Força Sindical), de que os ônibus voltariam a circular, a categoria manteve a paralisação: nenhum ônibus na região do Grande Recife durante 24h. “Aqui na nossa garagem não saiu ônibus, estão todos de braços cruzados, unidos e em defesa dos direitos dos trabalhadores. Continuaremos parados até o final do dia, não sairá nada. E conto também com o apoio de todos os trabalhadores de todas as categorias” declarou Josival Costa, motorista da empresa Transcol e ativista da categoria.

    Os metroviários também se somaram ao movimento e paralisaram suas atividades, mesmo com decisão judicial determinando o funcionamento normal do Metrô nos horários de pico. O funcionamento, em capacidade reduzida, foi mantido pela gerência, que deslocou profissionais de outras áreas para manejar os trens, comprometendo a segurança dos trabalhadores e dos próprios passageiros.

    Outras importantes categorias se uniram à luta. Canteiros de obra foram interditados já na quinta-feira à noite, pois os trabalhadores da Construção Civil também se uniram ao chamado de Greve Geral. Bancários, funcionalismo público federal, estadual e de vários municípios do estado, trabalhadores dos Correios, servidores do judiciário estadual e federal, petroleiros, metalúrgicos, policiais civis e policiais rodoviários federais, profissionais da educação básica e superior, pública e privada, aeroportuários, profissionais liberais, agentes penitenciários, trabalhadores da construção pesada e outras categorias paralisaram suas atividades.

    As ruas fechadas
    Além das paralisações, também desde a madrugada, o MTST, movimentos feministas, o MST e outros movimentos sociais também bloquearam parcial, ou completamente, as vias em diversos pontos da Região Metropolitana, como nas avenidas Conselheiro Aguiar e na Avenida Recife, que dá acesso ao aeroporto; na BR 232. próximo ao Curado e em outros pontos; em três pontos da BR 101, em Jardim São Paulo e em Ipojuca e na Avenida Caxangá; na PE 60. Cabo de Santo Agostinho, além da Avenida Norte e da Avenida Cruz Cabugá, no Centro.

    Houve bloqueios de rodovias por todo o Interior de Pernambuco. No Sertão, a BR 428  foi fechada em Santa Maria da Boa Vista, assim como a  BR 407, em Petrolina. Na região Agreste, houve bloqueio da BR 232 na altura de São Caetano, em dois pontos da BR 104 em Caruaru e em Agrestina e na BR 423 em Águas Belas. Na Zona da Mata foram trancadas a rodovia PE 90, entre Limoeiro e Bom Jardim, a PE 95, entre Limoeiro e Passira, a PE 50, entre Glória do Goitá e Vitória de Santo Antão, a BR 408. em Paudalho e entre Carpina e Timbaúba e a BR 232, em Escada e em Vitória de Santo Antão).

    As ruas lotadas
    Mesmo sem nenhum ônibus ou metrô funcionando, ocorreu um ato de rua bastante numeroso: mais de 200 sindicatos aderiram e, mesmo havendo divergência em relação à quantidade de manifestantes, a CUT-PE estima que 200 mil pessoas estiveram presentes. A partir desta estimativa, sinaliza que este seria o maior ato de rua realizado no dia de Greve Geral no país.

    O protesto teve concentração na Praça do Derby a partir das 14h e se encerrou aproximadamente às 19h30, percorrendo a Avenida Conde da Boa Vista e terminando na Avenida Guararapes. Durante a manifestação, palavras de ordem contra o governo Temer e o Hino Nacional foram entoados. Também se via cartazes com fotos e nomes dos 16 deputados federais de Pernambuco que votaram a favor da Reforma Trabalhista. O governador Paulo Câmara (PSB) também sofreu críticas.

    Em Recife, as ruas deram o tom desta Greve Geral. O apoio da população foi intenso e se expressou tanto no silêncio das ruas da cidade por conta da adesão à paralisação no início do dia, quanto nas palavras de ordem que ecoaram fortemente na manifestação massiva que tomou a Avenida Conde da Boa Vista em seu final. De fato, algo estava acontecendo: as reformas deste governo ilegítimo encontraram seus legítimos combatentes, a classe trabalhadora organizada, as mulheres, os indígenas, as LGBTs, os negros e negras. E em Recife não foi diferente.

  • Greve Geral em Salvador: se ontem foi grande, que o amanhã seja ainda maior

    Por: Jean Montezuma, de Salvador, BA

    Não adiantou a grande imprensa, nos dias que antecederam o 28 de abril, tentar esconder que iria ocorrer uma greve geral em todo Brasil. Agora, também não vai adiantar a cobertura mentirosa dos grandes jornais que vendem a falsa notícia de que a greve não contou com apoio da população e teve baixa adesão. Nada mais falso.

    Em todo o Brasil, a adesão foi enorme. Na maioria das capitais e grandes cidades, além da paralisação, vimos atos de milhares. Isso ocorreu mesmo em cidades onde o transporte público parou.

    Na Bahia não foi diferente. A greve geral contou com forte adesão de Norte a Sul do estado. Em inúmeras categorias, a paralisação foi de 100% em todo território baiano. Além disso, atos de rua ocorreram em mais de 20 cidades. No Norte, por exemplo, trabalhadores baianos e pernambucanos realizaram um ato conjunto na ponte Presidente Vargas, que liga a cidade baiana de Juazeiro à pernambucana Petrolina. Em Camaçari, houve bloqueio de estradas que parou o polo petroquímico e o complexo Ford. Ao longo da manhã, uma grande manifestação percorreu as ruas do Centro de Camaçari e garantiu o fechamento de alguns estabelecimentos que os patrões insistiam em tentar manter abertos.

    Em Salvador, um caso emblemático da força da greve geral. A adesão em todas as categorias foi avassaladora. Ontem, graças à firme posição dos rodoviários, 100% da frota dos ônibus não saíram das garagens. Ainda assim, no final da tarde, um grandioso ato tomou conta das ruas do Centro de Salvador. Ao todo, foram 72 mil pessoas, segundo boletim informado pela PM. Foi a maior manifestação de rua na capital baiana desde as jornadas de junho de 2013.

    A grande marcha que agitou Salvador foi organizada em unidade pelas centrais sindicais, movimentos sociais, partidos e organizações de esquerda. Foi um ato lindo, bastante animado, com palavras de ordem, marchinhas, muita musica e, é claro, muitos “Fora Temer” e muita denúncia do caráter nefasto das reformas Trabalhista e da Previdência.

    Na altura da Praça da Piedade, local onde foram enforcados os heróis negros da revolução dos búzios, o ato fez um momento emocionante para reivindicar liberdade para Rafael Braga e o fim da criminalização e extermínio da juventude negra.

    A certeza que tomou conta dos corações e mentes de todos é de que podemos mais. A força da classe em movimento poderá nos dar uma chance de virar o jogo, derrotar as reformas e botar para fora o governo golpista de Michel Temer. É preciso apostar todas as nossas fichas na força das ruas. Ontem foi grande, que o amanhã seja ainda maior.