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  • Todo apoio e solidariedade à greve da construção civil de Fortaleza

    Editorial 17 de julho

    Os trabalhadores da construção civil de Fortaleza estão em greve desde o dia 6 de julho. O movimento ocorre após cinco meses de campanha salarial sem os patrões atenderem às principais reivindicações da categoria, de aumento salarial com ganho real, reajuste na cesta básica e vale combustível. Apesar de a patronal cearense insistir em fechar os ouvidos aos trabalhadores e tentar de todas as formas desmobilizar a greve, a mobilização continua forte e todos os dias há protesto de peão. Agora, é o momento de encher os lutadores de solidariedade.

    O movimento enfrenta a intransigência dos patrões. A política das construtoras é de liberar os trabalhadores para que fiquem em casa e não compareçam às atividades da greve. Ainda, conseguiram, na última quinta-feira (13), um interdito proibitório que busca limitar a realização dos piquetes.

    O desespero da patronal é fácil de explicar. Apesar dos lucros que obtiveram em todos os anos anteriores, se recusam ao mínimo de maleabilidade. Insistem em apresentar um reajuste salarial inferir à inflação e se recusam a dar o vale combustível, a principal reivindicação dos grevistas. Em uma capital sem metrô e com um péssimo transporte coletivo, o uso de moto se tornou um dos meios mais populares e é através dele que grande parte da categoria se desloca até o trabalho.

    O que a patronal talvez não esperasse é que o movimento ultrapassasse os locais de trabalho. A greve vem crescendo e se estendendo para além dos canteiros de obras, ocupando praça e ruas. A categoria está alinhada também à luta nacional contra a retirada de direitos. Um importante ato foi realizado em frente à Federação das Indústrias do Ceará, com a incorporação dos eixos contra as reformas Trabalhista e da Previdência e também pelo Fora Temer.

    Setor lucrou muito nos últimos anos e volta a crescer, em Fortaleza
    A postura da patronal não está de acordo com suas afirmações no mundo empresarial. Executivos das maiores construtoras de Fortaleza admitem que projeção para 2017 é de aumento das vendas e de maiores lucros.

    Entre abril e junho deste ano, 582 unidades na Região Metropolitana de Fortaleza foram vendidas pelas maiores construtoras. Ao todo, R$ 374 milhões foi o Valor Geral de Vendas (VGV), aumento nominal de 3% em relação ao mesmo período do ano passado e 17% a mais do que os três primeiros meses de 2017. Esses dados do Flash Imobiliário foram apresentados nesta sexta-feira (14) pela Lopes Immobilis. De acordo com os especialistas, setor espera crescimento maior para o segundo semestre, podendo bater R$ 2 bilhões no ano.

    A pesquisa e a opinião das construtoras foram divulgadas durante a realização da greve dos operários, ou seja, não há justificativa alguma para não aceitar as reivindicações dos trabalhadores.

    Entre as construtoras que mais venderam em 2017 estão as BSPAR em primeiro, com VGV de R$ 59 milhões no semestre; Mota Machado, com R$ 55 milhões e Moura Dubeux, com R$ 50 milhões. No trimestre, a Mota Machado ficou em primeiro, com R$ 35 milhões, seguida pela BSPAR, com R$ 27 milhões, e Moura Dubeux, com R$ 23 milhões.

    O setor lucrou muito também em anos anteriores. Em 2009, de acordo com dados do Informativo Tributário Contábil (ITC), os investimentos na construção civil somaram mais de R$ 400 milhões no Brasil, crescendo em 30% em 2010. Esse resultado foi fruto do financiamento do Governo Federal para a produção de imóveis, da expansão das instituições aptas a financiá-los com permissão, a partir de então, para realização deste serviço por bancos privados e do aumento da oferta de créditos. Construção de edifícios, condomínios e casas movimentaram mais de R$ 58 bilhões em 2010, ainda de acordo com o ITC.

    Os principais representantes do empresariado da construção civil do Ceará e de Fortaleza, em especial, comemoraram, na época, os altos lucros e o crescimento do setor. De acordo com o sindicato da construção civil do Ceará, o Sinduscon-CE, em 2011 existiam 500 canteiros de obras no primeiro semestre, 200 a mais do que nos três anos anteriores.

    Cercar de solidariedade a greve da construção civil de Fortaleza
    Para o próximo dia 20 está marcada uma Audiência de Conciliação entre os patrões e os trabalhadores. Os operários já demonstraram que estão dispostos a continuar resistindo e, para isso, não estão sozinhos. Estão organizando uma ampla campanha de solidariedade que está rodando categorias, entidades e movimentos de todo o país, com moção de apoio e vídeos. O Esquerda Online apoia a greve e chama todos a também ampliarem a campanha.

    Chega de retirada de direitos! Todo apoio à greve da construção civil de Fortaleza!

  • Acampamento do MST sofre ataque de pistoleiros no Pará

    Por: Benedito Tavares*, de Marabá, PA
    *servidor técnico administrativo da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará,

    Cerca de 320 famílias fazem parte da ocupação Hugo Chaves, na Fazenda Santa Tereza, em Marabá, Sudeste do Pará. A fazenda pertence aos latifundiários conhecidos como irmãos Saldanha, que não conformados com a ocupação da propriedade, passaram a contar com a ajuda de pistoleiros para intimidar os trabalhadores. Segundo denúncia do MST, estre eles estariam membros da Polícia Militar do Pará.

    Na noite do último sábado (15), às 23h, um grupo de pistoleiros, em uma caminhonete, promoveu uma noite de terror aos acampados. Foram diversos ataques a tiros contra os barracos. No domingo, por volta das 13h, os pistoleiros voltaram a atacar os trabalhadores rurais, numa ação semelhante à da noite passada.

    Infelizmente, esse não é o primeiro ataque sofrido pelas famílias. Em novembro passado, um grupo de jagunços armados atacou o acampamento, promovendo a queimada de roças de mandioca e barracas, além de vários ataques a bala.

    A escalada da violência no campo vive um momento de muita tensão na região, desde a ascensão do governo ilegítimo de Temer, que vem tendo apoio da bancada ruralista na Câmara para se livrar das denúncias de corrupção. Isso em troca da Medida Provisória (MP) da grilagem, que incentiva e legaliza os grileiros e do apoio à repressão contra quem luta pelo direito à terra, que resultou no massacre de Pau D’arco. Nesse último caso, dez trabalhadores rurais foram executados durante uma mandado de reintegração de posse.

    Nesse momento, diversos sindicatos, movimentos sociais do campo e da cidade de Marabá e região promovem uma campanha de solidariedade e uma caravana até o acampamento, para impedir que ocorra um novo massacre.

    Desde já, chamamos todas as organizações dos trabalhadores a cobrir de solidariedade o acampamento Hugo Chaves e o MST, assim como denunciar o papel nefasto que cumprem o governador do Estado do Pará, Simão Jatene (PSDB) e o governo de Temer, que apoiam a violência contra trabalhadores rurais.

  • A condenação de Lula é política, desproporcional e sem provas cabais

    Lula errou, manteve relações promíscuas com a burguesia e seus partidos e recebeu mimos e favores, mas quem deve julgar isso é o voto popular

    Por: Henrique Carneiro*, colunista do Esquerda Online

    A condenação de Lula, além da ausência de provas cabais sobre a titularidade do apartamento, tem duas enormes desproporções que ressaltam o caráter político dessa decisão de um único juiz. Os escândalos de corrupção revelados pela Lava Jato envolvem bilhões de reais desviados. As contas no exterior de Renato Duque, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral são de dezenas, ou até centenas de milhões.

    Renato Duque entregou contas no valor de mais de 20 milhões de euros. Cabral tinha 100 milhões de dólares em dez contas em cinco países. Cunha tinha mais de 2,5 milhões de francos suíços numa só das contas bloqueadas pela Suíça, além de outras duas que ele encerrou antes das investigações. No caso de Palocci, sua empresa Projeto Consultoria tinha 30 milhões em ativos financeiros. No caso de Lula, não há contas no exterior, não há propriedades de luxo, não há fazendas, nem ativos financeiros.

    Há apenas reformas num sítio de amigos e reformas num apartamento que seria destinado a venda para Lula, mas o qual ele recusou. Os valores que envolvem essas reformas são da grandeza das centenas de milhares de dólares, não de milhões.

    Desde que Lula começou a fazer palestras para a Odebrecht e outras grandes empresas, isso me pareceu algo indigno de um líder da classe trabalhadora e que isso envolvia uma relação de recebimento de dinheiro que era imoral, mesmo que não fosse ilegal. A lista das 41 empresas que pagaram para Lula palestrar é grande e inclui da Infoglobo a bancos.

    A delação da JBS citou contas usadas para Lula e Dilma no montante de 150 milhões dólares. Caso houvesse uma evidência dessas contas, seria de fato justificável uma condenação contra os seus detentores. Mas, até o momento, não houve nenhuma evidência de enriquecimento ilícito de Lula. Os pedalinhos do sítio de Atibaia, assim como foram as pedaladas fiscais atribuídas a Dilma são um pretexto mequetrefe que não enfoca o núcleo do desvio de centenas de milhões.

    O próprio Temer tem uma mala de dinheiro que vale meio apartamento e que seria apenas uma cota semanal da propina da JBS entregue para seu preposto e filmada. Aécio também teve dois milhões recebidos e flagrados. Alguns têm fazendas, aeroportos, helicópteros, até mesmo carregados de cocaína, contas no exterior declaradas ou não, ações de empresas, carros de luxo, consumo de luxo obsceno, e estão não só impunes, mas governando o país na cadeira presidencial e no Congresso Nacional.

    Essa é a primeira desproporção. A segunda é política. No momento em que o Procurador da República denunciou Temer e em que este conseguiu aprovar uma Reforma Trabalhista que ataca direitos históricos, é anunciada a condenação de Lula. A escolha da oportunidade política em que se anuncia essa decisão não é acidental. O governo está numa crise aguda. Faltam apenas 15 meses para a eleição presidencial na qual as pesquisas indicam Lula como o primeiro colocado preferido por cerca de 30% do eleitorado.

    Há um julgamento que só pode ser político. Não se pode cassar a candidatura do maior líder popular das últimas décadas por causa de algumas reformas de um apartamento cuja propriedade não se comprovou sequer ser dele.

    A trajetória de Lula é uma demonstração de que sua política de conciliação e de alianças com setores da burguesia foi um erro tão grande que lhe saiu como um tiro pela culatra. Seus próprios ex-aliados agora buscam descartá-lo. Embora não todos. Alguns, como Renan, já se lançaram a defender Lula, o que mostra que na eventualidade de uma nova candidatura sua ele deverá repetir de forma piorada o que já fez antes. Não se pode descartar até mesmo que a aliança com o PMDB venha a continuar.

    O PT precisa ser superado e Lula deve ser denunciado em tudo que fez de errado. Mas, isso só poderá ser feito pela vontade coletiva manifestada em eleições democráticas que foram violadas com o processo do impeachment e continuam a ser negadas ao povo brasileiro.

    Foto: Reprodução Globo

    *Henrique Carneiro é historiador e professor da USP

  • Vallourec: metalúrgicos rejeitam banco de horas

    Coluna Rádio Peão

    Por: Bernardo Lima, de Belo Horizonte, MG

    Nos dias 4, 5 e 6 de julho os metalúrgicos da siderúrgica francesa Vallourec (antiga Mannesmann) foram às urnas e rejeitaram uma nova proposta de banco de horas da empresa. A proposta da corporação era renovar, com cláusulas ainda piores, o acordo que permitiu a aplicação do banco de horas nos últimos anos.

    O banco de horas foi aceito pelos trabalhadores no ano retrasado, logo após demissões em massa, e sob clima de terror após o fechamento de um dos alto-fornos. A Vallourec dizia não haver alternativa e, caso a proposta não passasse, o resultado seria mais demissões e fechamento de setores inteiros. A história se repetiu semana passada, mas os trabalhadores já não estavam dispostos a se deixar intimidar.

    A experiência com o banco de horas foi suficiente para que os trabalhadores do chão de fábrica votassem maciçamente contra a proposta dessa vez. O banco de horas, diferente do prometido pela empresa, não impediu novas demissões, fez com que muitos trabalhassem por dois ou três e gerou superexploração com extensão da jornada e trabalho finais de semana.

    O resultado da votação demonstra o grau de revolta dos trabalhadores. 1372 trabalhadores votaram pela rejeição do novo acordo, 898 votaram a favor e 30 votaram em branco, nulo ou foram considerados inválidos. Existiram três pontos de votação. No Recanto, onde vota em sua maioria o setor administrativo, foram contabilizados 274 votos pela rejeição e 424 pela aprovação do acordo; na Portaria II 741 contra e 205 a favor; e na Portaria IV 357 contra e 269 a favor. Ficou demonstrada que a votação pela renovação do acordo ficou bastante concentrada no setor administrativo.

    – Recanto (majoritariamente Setor Administrativo): 424 a favor; 274 contra;
    – Portaria II (majoritariamente setor produtivo): 205 a favor; 741 contra;
    – Portaria IV (majoritariamente setor produtivo): 269 a favor; 357 contra
    – Resultado: Rejeição da proposta por 1372 a 898.

    Agora é utilizar essa grande vitória dos trabalhadores para ampliar a organização no local de trabalho e a capacidade de mobilização dos trabalhadores contra qualquer tipo de retaliação e intimidação, engajar a categoria na luta contra as reformas e pressionar por um acordo coletivo favorável no segundo semestre.

    Foto: divulgação

  • A esperança que vem de Hamburgo

    Por: Renato Fernandes, de Campinas, SP

    Desde o dia 6 de julho, está ocorrendo em Hamburgo, na Alemanha, a cúpula do G20 – reunião dos 20 países mais ricos, incluindo o Brasil. Essa reunião pretende delimitar o papel reservado na economia e geopolítica internacional para cada um destes países e nesse sentido tem uma importância para entender o futuro da política internacional. Porém, para nós, lutadores anticapitalistas, a esperança está do outro lado da barricada: desde antes do início da reunião, grandes manifestações têm repudiado a cúpula e enfrentado a polícia conforme não víamos há anos.

    Bem-vindos ao inferno
    A escolha de Hamburgo como sede da reunião do G20 foi na prática uma afronta ao movimento anticapitalista. A cidade alemã é conhecida pela presença de fortes movimentos anticapitalistas, incluindo grandes ocupações de prédios, como a Rote Flora, teatro ocupado desde 1989 por anarquistas.

    O movimento anticapitalista, antiglobalização e internacionalista, junto a sindicatos e adeptos da tática Black Block, se organizaram há alguns meses para conseguirem realizar uma resistência a invasão policial da cidade. O Estado alemão deslocou 20 mil policiais, 3 mil veículos, 11 helicópteros, 185 cachorros e 70 cavalos para reprimir os movimentos. Os acampamentos dos militantes que se deslocaram para a cidade para protestar, foram desmantelados antes do início da cúpula, com jatos de água. Tudo isso não impediu as manifestações.

    Uma das primeiras manifestações foi intitulada “Bem-vindos ao inferno”. Ela partiu com cerca de 10 mil pessoas do bairro de Sankt Pauli, onde fica o estádio do time antinazista com o mesmo nome. Os confrontos com a polícia aconteceram rapidamente: 44 militantes foram presos, enquanto 111 policiais ficaram feridos). As manifestações continuaram no dia 7, com vários confrontos pela cidade. A polícia foi obrigada a pedir um reforço de cerca de mais de mil policiais. Apesar de não conseguirem o cancelamento da cúpula, os protestos conseguiram atrasar a presença de diversas reuniões, incluindo o impedimento de Temer de voltar ao hotel após a reunião.

    Neste sábado, 8 de julho, ocorreu a maior manifestação, com cerca de 76 mil pessoas de acordo com os organizadores. Foi uma grande manifestação com sindicatos, movimentos sociais e diversos grupos políticos que demonstrou que o espírito antiglobalização parece readquirir uma nova força.

    Do espírito de Seattle a uma necessária perspectiva estratégica
    Sem dúvida alguma é bastante animador a volta dos grandes protestos contra as cúpulas neoliberais. Em determinado sentido, o movimento altermundialista teve seu nascimento e auge na grande batalha de Seattle (EUA) contra a terceira reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1999. Diversos coletivos, grupos políticos, sindicatos e movimentos sociais organizaram uma contra-cúpula com protestos diários que conseguiu atrapalhar e cancelar eventos da reunião da OMC.

    Em determinado sentido, Hamburgo recuperou esse espírito que atravessou tantas outras reuniões como a reunião do G8 em Gênova, na Itália, em 2001 na qual a polícia assassinou o militante Carlo Giuliani e reuniões em países como França e Espanha.

    Sem dúvida alguma, a recuperação dessas manifestações é uma demonstração de que a retomada das ruas é a única maneira efetiva para se contrapor aos defensores das políticas genocidas do imperialismo e também da política neoliberal que praticamente todos os grandes líderes mundiais defendem. Assim como na virada do milênio, é importante que milhares de jovens e trabalhadores se entusiasmem com essas manifestações e repudie a política neoliberal. Isso só tende a fortalecer nossa resistência.

    Mas ao mesmo tempo, é necessário fazermos uma reflexão mais aprofundada sobre o que foi o movimento antiglobalização e sua onda de fluxos e refluxos. Essa reflexão deve se pautar por compreender quais foram os objetivos desse movimento e quais foram suas limitações, no sentido de estabelecermos uma estratégia que não só enfrente as cúpulas, mas que também que coloque em xeque a política imperialista.

    Nesse sentido, nos parece importante retornar ao debate estratégico e principalmente à questão de construir os meios para destruir o poder imperialista e construir um novo poder baseado na democracia dos trabalhadores e da juventude. Dessa forma, será possível fazer com que os ventos de esperança de Hamburgo possam não se desvanecer como aqueles que vieram de Seattle.

    Foto: Albiladdailyeng

  • Um olhar sobre o nosso primeiro CONUNE

    Por: Carol Coltro, de São Paulo, SP e Clara Saraiva, do Rio de Janeiro, RJ

    Entre os dias 14 e 18 de junho o movimento estudantil se reuniu no 55º CONUNE para discutir os rumos do Brasil e a organização das lutas da juventude. A situação do país está extremamente difícil e complexa. Um dos momentos mais importantes da nossa história está passando diante dos nossos olhos e todos buscam como intervir e mudar seus rumos. O movimento estudantil sempre foi um dos protagonistas principais nos grandes capítulos da história no Brasil, e isso não foi diferente quando sofremos o golpe. A primeira grande resposta de ampla resistência e mobilização teve como palco as universidades e escolas, em um dos maiores assensos estudantis da história do país, com as ocupações contra a PEC do Teto dos Gastos e a Marcha em Brasília do dia 29 de novembro de 2016. Infelizmente, nossa forte mobilização não conseguiu impedir a aprovação da medida.

    As grandes lutas voltaram ao cenário nacional no início de 2017: mulheres jovens e trabalhadoras estiveram à frente do 8 de março, iniciando assim uma longa jornada contra a Reforma da Previdência e Trabalhista, que teve seu ponto alto na Greve Geral do dia 28 de abril. De lá pra cá, tinha um CONUNE no caminho. Foram mais de 10 mil estudantes que se reuniram em Belo Horizonte com a expectativa de saírem mais fortes para derrubar Temer, suas reformas, construir a Greve Geral do dia 30 de junho, além de um forte e unitário calendário de lutas.

    A unidade necessária para enfrentar os desafios
    Em primeiro lugar, é preciso ressaltar a importância da unidade construída neste CONUNE em torno das bandeiras que devem ser, hoje, o principal guia de nossas ações. Sem uma ampla união nesse país, que envolva mesmo aqueles que tem profundas divergências estratégicas, jamais conseguiremos a força necessária para defender os direitos da juventude e da classe trabalhadora.

    Isso se expressou numa ampla unidade contra a direita e setores presentes no CONUNE que defendiam o projeto abominável do governo golpista. Expressou-se, também, na importante aprovação no Congresso da Carta de Belo Horizonte, que em seu último parágrafo sintetizou bem nossos próximos desafios:

    “Nesse sentido, convocamos todos e todas estudantes brasileiros e brasileiras à se somarem junto à União Nacional dos Estudantes em um movimento de ampla unidade para construir a greve geral do dia 30 de Junho, paralisando as universidades de todo país. Também convocamos todos a construir uma grande jornada de lutas em agosto, tendo seu ápice no dia 11 de Agosto, dia do estudante, para exigir a saída de Michel Temer do governo, combater as Reformas da Previdência e Trabalhista e qualquer retirada de direitos e defender a antecipação das eleições e as Diretas Já!”

    Para qualquer jovem, seja um ativista recém ingresso no movimento estudantil, seja um representante de Centro Acadêmico, DCE, que já interviu em diversas lutas, a participação num Congresso que reúne milhares de jovens, de diferentes sotaques e opiniões, pra debater política e votar resoluções, é uma experiência extremamente enriquecedora.

    Apesar disso, é necessário refletir que os momentos de participação ativa dos delegados e observadores presentes no congresso, como os Grupos de Discussão, são absolutamente secundarizados. Esses momentos deveriam ser priorizados e certamente enriqueceriam, e muito, a elaboração das resoluções apresentadas em plenário. A demora por começar a discussão, garantir os espaços e a falta de fluxo entre o que é debatido ali e o resultado político expresso nas resoluções apresentadas nas plenárias finais é uma expressão disso.

    A UNE é uma entidade na qual praticamente todas as correntes de opinião organizadas nas universidades fazem parte. Há um nítido desperdício do potencial da entidade causado pela política e condução burocrática da direção majoritária da UNE. Apesar disso, seu caráter de entidade de frente única, sem dúvida, é sua principal virtude. Nunca foi tão necessária uma entidade nacional que articule as lutas e que possa unificar todo o movimento estudantil. Para isso, é preciso coordenar campanhas políticas e iniciativas concretas de luta, à luz das bandeiras unitárias aprovadas, junto com DCEs, Centros e Diretórios Acadêmicos, valorizando assembleias e espaços de base do movimento estudantil. O desafio está colocado para a próxima gestão da UNE.

    O crescimento do campo majoritário e a diluição do campo popular
    Neste CONUNE houve um fortalecimento do campo majoritário da entidade a partir da diluição do campo popular e da unidade entre UJS e Levante. Sendo assim, a UNE termina seu congresso sem romper com as políticas, impostas pela direção, que afastam a entidade da base dos estudantes e a impede de ser linha de frente e articuladora nacional das ações e lutas da juventude.

    Vemos com muita preocupação esse fato, que fortalece um caminho para a UNE que, em nossa opinião, não está a altura dos desafios colocados para a apresentação de um projeto de saída para a crise brasileira. Os companheiros do Levante dizem: “é uma unidade programática para recompor o regime democrático no país neste momento de golpe, retrocessos e fortalecimento da direita”.

    O problema é que sequer o programa apresentado pela Frente Brasil Popular é aplicável sem uma ruptura com a forma de governar defendida pelo PT e PCdoB nos últimos anos, anterior ao golpe. Não há qualquer revisão pública por esses setores de como governaram na última década, mas pelo contrário, seguem fazendo o mesmo em prefeituras e governos estaduais reafirmando este mesmo caminho de conciliação. Não é possível ser conseqüente com esse programa da Frente Brasil Popular e ao mesmo tempo buscar a repactuação com a burguesia brasileira e os golpistas.

    Nesse sentido, a continuidade da direção da UNE pela UJS e seu crescimento com a diluição do campo popular, continuará sendo um obstáculo à radicalização das lutas do movimento estudantil e à construção de um projeto alternativo de país. Não há meia solução: ou os ricos, os banqueiros, os mega empresários e todos os representantes do capital pagam pela crise, ou a conta sobrará para os trabalhadores e a juventude. Para isso, é preciso enfrentamento anticapitalista.

    O Levante Popular da Juventude cometeu dois erros importantes. O primeiro, foi anterior ao congresso, durante o processo de tiragem de delegados, no qual o LPJ se apresentou em centenas de universidades como oposição à UJS. É seguro dizer que milhares de estudantes votaram no Levante e no campo popular porque eles eram oposição ao campo majoritário. Fechar com a UJS na plenária final foi desrespeitoso com esses votos.

    O outro erro do LPJ, e bem mais importante em nossa opinião, é político. A UJS luta hoje por retomar o pacto entre classes que Lula, e depois Dilma, encabeçaram na última década, entendem que esse é o caminho para defender nossos direitos. O nome que dão a isso é “Frente Ampla, com protagonismo de setores progressivos”. Não se trata aqui de um debate sobre a unidade para lutar e resistir, que sem dúvida é uma imperativa necessidade, mas sim de decidir qual projeto queremos construir: um novo e inédito projeto independente dos trabalhadores e dos jovens para o Brasil, ou repetir a fórmula da conciliação que deu em golpe?

    A construção de uma alternativa
    Como afirmamos acima, temos pleno acordo da necessidade da nossa unidade na resistência contra a ameaça ao nosso futuro através da construção de frentes únicas que impulsionem a mobilização.

    No entanto, precisamos – e com urgência – construir uma alternativa de direção para a juventude e os trabalhadores levando em conta o fracasso do projeto aplicado no período anterior, defendido pela maioria das forças que compõem a Frente Brasil Popular, que insiste em saídas que, com a aparência de “mais realistas”, acabam sendo utópicas. Precisamos de um projeto político para o país que aponte uma saída estrutural para a crise que atravessamos.

    Os ativistas que assinavam a tese Pra Virar o Jogo! estavam no Mineirinho, local da Plenária Final do CONUNE, posicionados junto com os camaradas da NOS, ao lado dos companheiros do RUA e da UJC, cercados pelos coletivos Correnteza, Juntos, Vamos à Luta, Construção, Enfrente, Liberdade e Luta, Estopim. A proximidade física não era à toa: compomos o campo da Oposição de Esquerda, porque o que nos unifica são ideias para o Brasil e para o avanço da organização dos estudantes, que passa por duras críticas à condução burocrática e a serviço de um projeto de governo de conciliação de classes.

    Por isso, defendemos resoluções comuns de conjuntura, educação e movimento estudantil. Apesar da necessidade de fortalecer esse campo, que certamente está bem aquém do que poderia ser, a chapa que se apresentou para a direção da UNE sintetizou bem essa aliança, e todos os camaradas souberam defender nossas posições, apontando um caminho para o Brasil e para a UNE de construção de um projeto livre das amarras do capital, única saída para que os trabalhadores e a juventude não paguem pela crise. E por isso, a necessidade de transformar radicalmente a UNE, com propostas contra a burocratização, pela democratização e relação orgânica da direção com a base estudantil, por privilegiar a ação direta, a mobilização, e não os acordos de gabinete e as relações institucionais.

    Foram importantíssimos os espaços de debates no CONUNE que expressaram a necessidade de uma frente de esquerda e socialista. Amanda Gurgel do MAIS, assim como Chico Alencar do PSOL, são apenas alguns exemplos de figuras que defenderam essa alternativa nos painéis do CONUNE.

    Também foi bastante produtiva a atividade da Frente Povo Sem Medo com a presença de Guilherme Boulos, pelo MTST, além de representantes do RUA, Construção, UP, PCB, UJS e MAIS, onde foi levantada a importância de avançar num debate programático sobre qual a saída para os trabalhadores diante do Brasil afundado nesta crise. Essa dinâmica de debates programáticas, que se alongarão por todo o próximo semestre, foi referendada na última reunião nacional da Frente Povo Sem Medo do dia 4 de julho, e consideramos fundamental que os estudantes e a juventudesejam parte protagonista nessa construção.

    A disposição dos que foram ao CONUNE Pra Virar o Jogo! no Brasil
    Ter consciência das profundas divergências que temos não pode nos fazer vacilar com a construção da unidade. Mas também o CONUNE foi um importante espaço para que essas diferenças se expressassem, confrontando as diversas visões sobre a realidade brasileira de cada movimento e campos políticos da UNE e do projeto estratégico que devemos impulsionar a partir das lutas da juventude.

    Construímos a tese Pra Virar o Jogo! com o intuito de defender a necessária radicalização da juventude, tanto em suas ações quanto em suas ideias. Por isso, defendemos que pra virar o jogo, só com muita unidade e ousadia. Defendemos medidas anticapitalistas para os trabalhadores e a juventude não pagarem a conta da crise, como as reformas urbana, agrária, tributária, a redução da jornada de trabalho sem redução do salário, a auditoria e não pagamento da dívida, fim das privatizações e estatização das empresas envolvidas em corrupção.

    O combate intransigente contra o racismo, o machismo, a LGBTfobia, a criminalização das lutas e o ataque às liberdades democráticas. Um programa que não se constrói em aliança com quem nos golpeou, com representantes do capital ou partidos da ordem. Um programa profundamente radical e anticapitalista. Mas que só pode se desenvolver em base a um amplo processo de mobilização da juventude, dos trabalhadores e do povo pobre brasileiro.

    Estivemos no Congresso fortalecendo a Oposição de Esquerda da UNE e nos comprometemos a construí-la no cotidiano para que o movimento estudantil possa ter uma alternativa de direção, assim como um projeto de país alternativo. Ainda há muito o que avançar nesse terreno. É preciso construir reuniões e seminários da Oposição de Esquerda na base de cada universidade, que nos permita aprofundar tanto os debates e nossos projetos em comum, quanto nos permitir atuar em conjunto, intervindo nas lutas e apresentando chapas unitárias para eleições das entidades. Além disso, apostamos nessa unidade para romper com velhas práticas do movimento estudantil, fortalecendo espaços abertos de participação, como as assembleias, conselhos de entidades de base, comitês de luta contra as reformas, além de impulsionar a auto-organização dos setores oprimidos.

    Tudo isso é parte de uma construção coletiva que deve se desafiar a pensar novas práticas, absorvendo a experiência das lutas e ocupações recentes, e resgatando a história e a tradição de radicalidade e aliança com os trabalhadores do movimento estudantil brasileiro e latino-americano. Vemos com muito bons olhos a decisão de convocar uma reunião nacional da Oposição de Esquerda para logo depois da posse da nova gestão da UNE, que será no dia 11 de agosto em São Paulo.

    Nós, representantes da Tese Pra Virar o Jogo!, levamos nossas ideias e as apresentamos aos milhares de estudantes presentes no congresso. Ainda que tenham havido poucos espaços de debates, aproveitamos todos eles para fazer luta política por nossas ideias. Na sexta-feira, realizamos um Encontro Nacional da Tese, em que debatemos muito, à luz da situação dos estudantes em cada estado, e definimos ao fim pela construção de um novo movimento nacional de juventude, junto com a construção de acampamentos locais, e um nacional, nos próximos meses. Além de decidir que a escolha do nome de nosso movimento será por uma votação na internet, entre três propostas que foram as mais votadas pelos presentes.

    Frio na barriga e coragem pra construir o novo
    Seguiremos lutando por uma UNE das lutas contra a UNE dos gabinetes. O palco dessa batalha após o CONUNE se dá em cada universidade e nas mobilizações dos trabalhadores e da juventude, nas quais estaremos todos os dias na linha de frente da resistência, apostando na articulação e fortalecimento da Oposição de Esquerda como nosso instrumento e alternativa de direção nacional para o movimento estudantil.

    Neste Congresso, porém, demos um passo ainda maior. Iniciamos a construção de um novo movimento de juventude que se propõe a organizar jovens para, não só resistir e lutar dia a dia, mas enfrentar o sistema capitalista. Que não organize apenas o movimento estudantil, mas a juventude nas suas mais amplas lutas. Que tenha como protagonistas jovens trabalhadores, negros e negras, mulheres e mães, LGBTs. Que não só se preocupe em intervir nas lutas, mas que compreenda a necessidade da formação política marxista para potencializar estas, tendo como método a práxis revolucionária.

    Que não fale da boca pra fora em construir novas práticas nos movimentos de juventude, mas que esteja em permanente auto-crítica e reflexão para a aplicação de uma concepção de funcionamento democrático onde os debates, a organização e participação de todos seja o nosso combustível para a atuação cotidiana. Que compreenda a necessidade da unidade com outros movimentos e busque clarificar bem as nossas divergências, para que as disputas sejam as mais politizadas e saudáveis possíveis. Que busque não só falar em outra sociedade, mas intervir diretamente na história e na política para transformar a realidade e construir um novo futuro. Este novo projeto fez com que a galera da Tese Pra Virar o Jogo! tenha voltado do CONUNE muito feliz, disposta e esperançosa com mais este desafio.

    Foto: Thiago Mahrenholz | Esquerda Online

  • Greve geral para Centro de Brasília e atos são realizados em vários pontos da cidade

    Por: Ademar Lourenço, de Brasília, DF

    A greve geral parou a capital do país nesta sexta-feira (30). Os metroviários e rodoviários pararam todo o transporte público de Brasília. Na área central da cidade, o comércio quase não funcionou e o Eixo Monumental, principal via da cidade, ficou vazio pela manhã.

    O movimento foi convocado pelas centrais sindicais para tirar Temer da Presidência e barrar as reformas trabalhista e previdenciária.

    No Conic, espaço comercial da cidade, sindicatos e movimentos sociais se reuniram para fazer um ato. A juventude presente aproveitou a viagem e ocupou a sede do PSDB, que fica próxima ao local.

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    A sede nacional do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) também foi ocupada por servidores.

    Em Planaltina, cidade-satélite de Brasília, a principal estrada, a BR 020, foi bloqueada às 6h. Também teve protesto no campus da UnB e no Centro da cidade. Os movimentos fizeram falas em carro de som para dialogar com a população.

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    Em Taguatinga, também cidade-satélite, os professores fizeram um ato. Bancários, urbanitários e trabalhadores dos Correios aderiram à mobilização.

    Assistente Social Cristiane, no ato em Taguatinga:


    Trabalhador dos Correios Jacó fala no ato, no Centro de Planaltina:

     

    Foto: Julio, diretor do Sinasefe

  • Começou a greve geral em Fortaleza

    Por Fábio José, de Fortaleza, CE

    Desde a madrugada, os ativistas passaram a se mover para garantir a greve geral em Fortaleza. Nesse momento, milhares de pessoas estão nas ruas.

    De um lado, estão os operários da construção civil que pararam quase 100 canteiros de obra, fizeram uma grande assembleia e aderiram à greve geral. De outro, os rodoviários, que com grande apoio dos movimentos sociais, paralisaram os ônibus nos principais corredores da cidade.

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    Começou também a repressão policial. Dois militantes do MAIS foram detidos, mas os sindicatos e os advogados já estão em campo para liberá-los.

    O fato é que a greve geral irrompeu a cena política e mudou o cotidiano de Fortaleza. Professores, jovens e populares já lotam a Praça da Bandeira, ponto de convergência das manifestações de hoje na capital cearense.

  • GREVE GERAL | Ônibus vão parar em Fortaleza, nesta sexta-feira (30)

    Da Redação

    Nesta sexta-feira (30), os ônibus não vão circular em Fortaleza, no Ceará. É o que promete a categoria, que decidiu se somar à greve geral convocada pelas centrais sindicais e movimentos sociais. A decisão foi tomada em assembleia dos rodoviários de Fortaleza no sábado (24).

    De acordo com o sindicato da categoria, O Sintro, a partir desta quarta (28), data que o governo submeterá à votação a Reforma Trabalhista na Comissão de Cidadania e Justiça do Senado, será divulgada uma carta aberta à população explicando os motivos da paralisação dos motoristas e cobradores.

    “O objetivo é ganhar o apoio da população para mais este calendário nacional de luta contra as reformas da Previdência e Trabalhista”, alegaram em nota.

    A categoria é uma das mais importantes da cidade. Caso paralisem as atividades, como prometem, podem impactar fortemente o funcionamento do trabalho em toda capital cearense e fortalecer a adesão de outros trabalhadores à greve geral. Foi o que ocorreu no dia 28 de abril, data da primeira greve geral após muitos anos, no país. As imagens dos ônibus parados em Fortaleza tiveram forte repercussão, pela forte adesão ao movimento grevista.

    Além de Fortaleza, outras cidades terão paralisações, piquetes e atos de rua para pedir a saída imediata de Michel Temer (PMDB) da Presidência da República e dizer não às reformas.

    “Os rodoviários também aprovaram a luta pela saída imediata deste governo impopular e golpista e por eleições diretas já para Presidente e o Congresso”, acrescentou a nota do sindicato dos rodoviários.

    Veja fotos da assembleia que votou a paralisação

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    Foto de capa: imagem da greve do dia 28 de abril em Fortaleza

  • Venezuela: sobre a convocação da Assembleia Nacional Constituinte

    Por: Euclides de Agrela, de Fortaleza-CE

    “Convoco uma Constituinte cidadã, não uma Constituinte de partidos nem de elites, uma constituinte cidadã, operária, comunal, camponesa, uma constituinte feminista, da juventude, dos estudantes, uma constituinte indígena, sobretudo, irmãos, uma constituinte profundamente operária, decisivamente operária, profundamente comunal. Convoco aos ‘comuneros’, às ‘misiones’”.

    Com essas palavras retumbantes, reivindicando as bases da Constituição de 1999, promulgada durante o primeiro governo de Hugo Chávez, o atual presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, assinou, na noite de 1º de Maio, o decreto de convocação de uma nova Assembleia Nacional Constituinte com o objetivo de reorganizar o país diante da grave crise política e da debacle econômica e social.

    No dia 23, Maduro anunciou, através de um novo decreto presidencial, o formato definitivo das bases eleitorais para a convocação da Assembleia Constituinte. A Constituinte contará com 545 deputados. Destes, 364 serão eleitos territorialmente: um deputado constituinte para cada município do país com um número proporcional em cada estado. Os outros deputados constituintes serão eleitos setorialmente: 79 trabalhadores, 28 aposentados, 24 pelos conselhos comunais e comunas, 24 estudantes, 08 camponeses e pescadores, 08 indígenas, 05 empresários e 04 portadores de deficiência, num total de 181 constituintes.

    Em 04 de junho, a presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Tibisay Lucena, notificou que, para as eleições territoriais, se inscreveram cerca de 20 mil candidatos. Por outro lado, para as eleições setoriais, apesar de estas elegerem menos deputados constituintes, o número de candidatos inscritos foi de mais de 35 mil.

    No dia 05 de junho, os candidatos territoriais e setoriais começaram a recolher assinaturas, com o objetivo de formalizar sua inscrição junto ao CNE. Todas as candidaturas tiveram que arrecadar assinaturas para legalizar sua inscrição, na medida em que, para participar do novo processo constituinte, não bastava estar filiado e ser indicado por um determinado partido político reconhecido legalmente pelo CNE.

    A apresentação das assinaturas com o objetivo de oficializar as candidaturas à Assembleia Constituinte, prevista inicialmente para o dia 10 de junho, foi prorrogada até a meia-noite do dia 12. Aqueles candidatos que se postularam às eleições territoriais deveriam apresentar o correspondente a 3% de assinaturas dos eleitores do seu respectivo município. Já os candidatos setoriais deveriam apresentar 1000 assinaturas, no caso dos trabalhadores e estudantes, e 500 assinaturas para camponeses, pescadores, aposentados, empresários e pessoas com deficiência. Por fim, quem se postulasse pelos conselhos comunais e comunas não recolheria assinaturas, mas apenas solicitaria uma Certificação Eleitoral junto ao respectivo Conselho Comunal ou Comuna.

    Entre 11 e 15 de junho ocorreu o processo de verificação das assinaturas necessárias para oficializar os candidatos que concorrerão às eleições constituintes. Essa verificação ficou a cargo das juntas eleitorais municipais, cabendo à Junta Nacional Eleitoral publicar a admissão ou rechaço dos candidatos postulastes. Até o fechamento deste artigo, não havia nenhuma publicação oficial com o número de candidatos reconhecidos oficialmente pelo CNE.

    De 09 a 27 de julho ocorrerá a campanha eleitoral para os deputados constituintes. E no dia 30 de julho ocorrerão simultaneamente tanto as eleições territoriais quanto as setoriais para a Assembleia Nacional Constituinte por meio de voto universal, direto e secreto.

    Por que Maduro Convoca uma nova Constituinte?

    Diante da grave crise econômica e social pela qual passa o país, bem como, após o adiamento das eleições regionais e a suspensão dos poderes legislativos da atual Assembleia Nacional, composta majoritariamente pela oposição de direita, a convocação de uma nova Assembleia Nacional Constituinte aparece como um desmentido à oposição de direita de que Maduro preparava uma espécie de autogolpe militar. Ao mesmo tempo, procura aparecer também como um apelo aos trabalhadores e ao povo pobre para que participem das decisões sobre o futuro do país.

    Assim, segundo o governo, dentre os objetivos da nova Constituinte estariam: construir um sistema econômico pós-petrolífero, preparando o cenário para um novo modelo econômico; construir um Estado de Bem-Estar Social a partir das chamadas “misiones”, dando a este status constitucional; impulsionar novas formas de democracia participativa e protagonista, dando também status constitucional aos Conselhos Comunais e Comunas; garantir uma política exterior de soberania nacional.

    Entretanto, depois de quase 20 anos da chamada Revolução Bolivariana, a verdade é que Venezuela continuou sendo um Estado capitalista que se manteve completamente dependente da exportação de petróleo e da renda petrolífera, importando praticamente tudo de que necessitava, desde alimentos até papel higiênico. Não por acaso, diante da queda dos preços do petróleo no mercado mundial, a economia do país entrou em colapso.

    Assim, apesar de suas limitações e inúmeras manobras burocráticas ocorridas já no próprio curso das inscrições dos candidatos, a nova Assembleia Nacional Constituinte convocada em meio a uma aguda crise política e econômica que beira à guerra civil, não deixa de ser uma oportunidade para se debater o caráter do Estado venezuelano e apresentar uma saída socialista que mude completamente a estrutura do poder e a matriz econômica do país.

    A esquerda socialista e a Assembleia Constituinte

    A complexidade da situação venezuelana exige dos revolucionários uma firme posição de princípios e uma precisa tática política. A luta de classes no país hoje está cruzada pela disputa da renda petrolífera entre duas frações da burguesia. De um lado, a velha burguesia pró-imperialista subordinada aos interesses dos Estados Unidos. Do outro lado, a boliburguesia, ou seja, a burguesia bolivariana, formada a partir de empresários chavistas e de outros setores burgueses aliados do governo Maduro.

    A oposição de direita busca seu apoio, sobretudo, na pequena burguesia e nas chamadas classes médias. Cabe destacar que a crescente perda de apoio do governo Maduro entre os trabalhadores e o povo não se traduz direta e imediatamente numa adesão à oposição de direita. Ainda que tenha vencido a última eleição para a Assembleia Nacional, onde a Mesa de Unidade Democrática (MUD) conquistou a maioria dos deputados, isso não significou a adesão da população ao seu programa pró-imperialista, mas um voto castigo contra o chavismo por suas promessas não cumpridas.

    O governo Maduro busca ganhar essa disputa apoiando-se nos trabalhadores assalariados e no povo pobre, inclusive mobilizando-os através de organismos como os Conselhos Comunais, Comunas e Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAPs). As favelas não desceram dos morros em uma nova insurreição popular contra seu governo como ocorreu no “Caracazo” em 1989, em grande medida porque o governo tem priorizado a distribuição de alimentos subsidiados a baixo custo para os bairros pobres de Caracas e as principais cidades do país.

    Nesta luta, entre a velha burguesia pró-imperialista e a boliburguesia, travestida na disputa do Poder Executivo, representado pelo presidente Nicolas Maduro, com o Poder Legislativo, que tem como representante a MUD, desgraçadamente, os trabalhadores e o povo pobre da Venezuela não possuem uma alternativa política, de classe e de massas.

    Mas essa tamanha polarização política não deixa de colocar, de maneira dramática, a questão do poder. Pelo contrário, a exacerba. Nas atuais condições da luta de classes, a queda de Nicolás Maduro se dará pela mão da oposição de direita. Não serão os trabalhadores mobilizados como classe em seus próprios organismos, dirigidos por um partido revolucionário com influência de massas, que tomarão o poder. Tampouco chegará ao poder, através de eleições livres, uma fração da burguesia que esteja disposta a respeitar as liberdades democráticas, realizar uma política de conciliação de classes e de concessões econômicas e sociais aos trabalhadores e ao povo pobre. O setor opositor é a velha burguesia subordinada diretamente ao imperialismo estadunidense que, apesar de ter renovado seu discurso e parte de seus representantes políticos, trata-se da mesma fração burguesa golpista de 2002.

    É nesse marco que se coloca o problema da convocação da nova Assembleia Nacional Constituinte. É verdade que a nova Constituinte não é nenhuma garantia de conquistas efetivas para os trabalhadores e o povo venezuelanos, da mesma forma que qualquer eleição no marco do Estado capitalista também não é nem nunca foi. Também é verdade que tanto a inscrição dos candidatos quanto o resultado das eleições podem ser fraudados, na medida em que a presidência da República tem em suas mãos as rédeas do CNE e das juntas eleitorais territoriais e setoriais. Somos conscientes de todos os limites, contradições e riscos do significado de tal processo constituinte controlado pelo chavismo.

    Entretanto, gostemos ou não, queiramos ou não, a nova Assembleia Nacional Constituinte é um fato. Este fato, ainda que distorcido e controlado pelo poder Executivo, coloca na ordem do dia para todo o país o debate, não apenas sobre novas eleições presidenciais e parlamentares, mas sobre a questão do poder: quem, como, em que condições e com que programa deve governar o país.

    Diante disso, só há duas alternativas táticas possíveis: boicote ou participação. Neste momento, boicotar a Constituinte sem dúvida significa unir-se à oposição de direita em defesa da convocatória de eleições gerais, sem que isso coloque em xeque as bases políticas, sociais e econômicas do país através da redefinição de sua Constituição. Isso seria um grave erro político.

    Assim, a tática mais adequada não pode ser outra senão a participação na nova Assembleia Nacional Constituinte venezuelana. Isso não significa defender o governo Maduro e seu regime político. Pelo contrário, seria aproveitar o espaço aberto pelas eleições e os debates constituintes para lutar por um programa de ruptura com o capitalismo que o próprio Maduro tem se negado a realizar.

    Um programa de transição ao socialismo

    A participação dos candidatos que representem os trabalhadores e movimentos populares críticos e independentes do chavismo nas eleições constituintes, deve fazer destas um importante palanque para se colocarem à esquerda e em oposição ao governo.

    No seio das eleições e nos debates da própria Assembleia Nacional Constituinte, caberia à esquerda socialista defender um programa que apontasse uma saída para a crise e reorganizasse o país sobre novas bases econômico-sociais.

    A esquerda socialista deve dizer que para combater a presente catástrofe econômica e social é necessário, em primeiro lugar, romper com o imperialismo estadunidense e o FMI, deixar de pagar a dívida externa e interna aos bancos e especuladores privados, estatizar o sistema financeiro. Com os recursos antes destinados ao pagamento da dívida e os provenientes da renda petroleira, o governo deve colocar em marcha um Plano de Emergência para reerguer a economia nacional e colocá-la a serviço dos trabalhadores e do povo.

    Em segundo lugar, que é necessário de uma vez por todas que a PDVSA seja 100% estatal, pondo fim a todas as empresas mistas com transnacionais petrolíferas estadunidenses, chinesas, russas ou de qualquer outro país. A PDVSA deve ter toda a sua burocracia corrupta destituída e eleger um conselho gestor entre seus próprios trabalhadores com mandatos revogáveis que preste contas publicamente a toda sociedade sobre a administração da empresa. Também é necessário expropriar sem indenização as empresas privadas que sabotem a economia do país fazendo coro ao boicote imperialista.

    Em terceiro lugar, é necessário um plano econômico de emergência que garanta investimentos maciços para ampliar e diversificar a produção industrial e agrícola do país, rompendo com a matriz econômica baseada na exportação de commodities. Industrializar o país rompendo a dependência externa e garantir a soberania alimentar é central. Um primeiro passo neste sentido é estatizar sem indenização toda a indústria de alimentos e construir um grande complexo agroindustrial nacional que produza alimentos de qualidade e baratos para todo o povo. Para combater o mercado negro, deve-se estatizar ainda as redes privadas de supermercados e criar um sistema de distribuição de alimentos controlado desde baixo pelos próprios trabalhadores.

    Em quarto lugar, como parte deste plano, com o objetivo de gerar empregos e recuperar o poder aquisitivo da população, deve-se reduzir a jornada de trabalho, repor todas as perdas inflacionárias e garantir o aumento geral dos salários para que alcancem o atendimento pleno das necessidades de moradia, alimentação, saúde, educação, vestimenta, transporte e lazer das famílias dos trabalhadores.

    Em quinto lugar, a Venezuela precisa de um plano maciço de obras públicas que ponha fim ao déficit habitacional, construa escolas, hospitais, garanta o abastecimento de água e saneamento básico. Através desse plano se reduziria também drasticamente o desemprego.

    Em sexto lugar, a estatização da saúde e da educação privadas e a universalização da saúde e da educação públicas e gratuitas para todos e em todos os níveis.

    Em sétimo lugar, mas não menos importante, a garantia das mais amplas liberdades democráticas para os trabalhadores e o povo possam organizar independentemente do governo e do aparato estatal seus partidos, sindicatos, associações, manifestações e greves.

    Por um governo dos trabalhadores sem capitalistas e burocratas corruptos

    A esquerda socialista na Venezuela tampouco deve se limitar a propor a reorganização do país sobre novas bases econômicas e sociais, como apontamos acima, mas também deve propor novas bases políticas e institucionais. Para isso será necessário:

    1) Concentrar os poderes Executivo e Legislativo numa Assembleia Unicameral, pondo fim à presidência da República, fonte de medidas autoritárias. Entregar o poder aos representantes do povo eleitos nos locais de trabalho e nos bairros populares com mandatos revogáveis a qualquer momento;

    2) Instituir uma autêntica revogabilidade de mandatos e reduzir os salários de todos aqueles que exerçam funções de administração, fiscalização e controle no aparato estatal ao salário médio de um trabalhador especializado;

    3) Acabar com a intervenção da FANB na vida civil e econômica do país e extinguir suas funções repressivas contra o povo. Deve-se constituir uma Segurança Pública que tenha um caráter civil, centralmente comunitária, investigativa e preventiva a serviço da população e não um caráter militar repressivo. As forças armadas, por sua vez, devem ser constituídas sobre a base de milícias populares colocados a serviço da defesa do país e dos trabalhadores.

    Com base nas medidas acima, a esquerda socialista deve centrar seus esforços no sentido do impulso da mobilização dos explorados e oprimidos, estimulando a construção de organizações independentes do governo Maduro e da oposição de direita. A estratégia deve ser alcançar um Governo dos Trabalhadores e do Povo, sem capitalistas e burocratas corruptos, que tome em suas mãos os destinos do país e que tenha como objetivo a construção do autêntico socialismo, colocando um fim à propriedade privada e à exploração.

    Referências:

    1. Esquerda Online, 06 de abril de 2017. A esquerda socialista e o agravamento da crise na Venezuela. Fonte: http://esquerdaonline.com.br/2017/04/06/a-esquerdaa-socialista-e-o-agravamento-da-crise-na-venezuela/
    2. BBC Mundo, 2 mayo 2017. El presidente Nicolás Maduro convoca a una Asamblea Nacional Constituyente en Venezuela. Fonte: http://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-39774863
    3. Presidencia de la República Bolivariana de Venezuela. Proceso Constituyente en el país abordará nueve puntos en específicos. Prensa Mppdpsgg (Yuneidi González/01.05.17). Fonte: http://www.presidencia.gob.ve/Site/Web/Principal/paginas/classMostrarEvento3.php?id_evento=4837
    4. VTV Venezuela. Fonte: http://vtvadminweb.vtv.gob.ve/app/uploads/2017/05/Gaceta-Oficial-Extraordinaria-N%C2%B0-6.295.pdf