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  • As campanhas salariais devem se transformar em uma verdadeira guerra em defesa dos direitos dos trabalhadores

    Por: André Freire, colunista do Esquerda Online

    Nos meses de setembro, outubro e novembro, importantes categorias nacionais da classe trabalhadora brasileira estarão em campanha salarial, petroleiros, trabalhadores dos Correios, metalúrgicos em algumas regiões, entre outros. Os funcionários públicos também seguem em luta em defesa de direitos.

    As categorias, que neste ano terão renovação dos seus acordos coletivos de trabalho, enfrentarão uma verdadeira guerra em defesa dos seus direitos trabalhistas. Por exemplo, já na semana passada, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos já cancelou vários direitos adquiridos e conquistados pelos seus trabalhadores, em anos seguidos de lutas e greves.

    Estas campanhas salariais vão ocorrer num momento onde os patrões e seus governos querem ir para cima para ampliar o arrocho salarial e retirar direitos históricos da nossa classe. Na esteira da aprovação das reformas reacionárias propostas pelo governo ilegítimo de Temer, vão querer impor agora novos ataques aos trabalhadores.

    Querem seguir o exemplo nefasto da famigerada reforma trabalhista e da lei que prevê a ampliação da terceirização para as atividades fins das empresas, aprovadas por este Congresso Nacional de maioria corrupta e reacionária.
    A Federação das Indústrias de SP – FIESP já aumenta seu lobby para flexibilizar ainda mais os direitos trabalhistas. Infelizmente, contando para isso com o apoio velado de dirigentes de várias centrais sindicais, tais como a Força Sindical, CTB e UGT. É um gravíssimo erro negociar rebaixamento de direitos. A hora é de ampliar a resistência dos trabalhadores.

    Frente única por nem um direito a menos
    Nosso movimento deve repudiar desde já qualquer negociação de redução de direitos com os patrões e governos. Rebaixar direitos não garante os empregos, a única saída é apostar cada vez mais na mobilização.
    Diante deste quadro de ataques dos patões e governos e de resistência dos trabalhadores, a saída é buscar a mobilização direta em defesa dos direitos e pelo justo reajuste dos salários.

    O último dia de luta, em 14 de setembro, deve ser considerado apenas um primeiro passo. Os próprios limites deste dia de luta demonstram, mais uma vez, que os sindicatos e as centrais sindicais devem buscar cada vez mais a unidade de ação. É preciso romper também com o corporativismo de cada categoria. Só com a unidade do conjunto dos trabalhadores em luta, poderemos frear esta onde de ataques aos direitos e conquistar nossas reivindicações.
    Na construção da unidade não devemos cair em disputas equivocadas de protagonismos entre as direções sindicais, o fundamental é fortalecer as lutas e ampliar a mobilização.

    Por isso, as centrais sindicais e os sindicatos destas categorias que entrarão em luta neste momento devem marcar um novo dia nacional de lutas e paralisações, para acumularmos forças para a defesa dos nossos direitos e conquista do reajuste dos salários.

    Unir os lutadores e lutadoras da classe trabalhadora e da juventude
    Nas próximas semanas, se reúne o importante Congresso Nacional da CSP-Conlutas, entidade sindical e popular que buscou se construir como uma alternativa de luta e democrática às direções das demais centrais sindicais.

    Esse Congresso deve tomar a iniciativa de propor ao conjunto dos movimentos da classe trabalhadora, da juventude, movimentos populares urbanos e do campo, movimentos de luta contra as opressões, a construção de um Grande Encontro Nacional, para debater uma alternativa do povo trabalhador frente à crise política, econômica e social em que vive nosso país e definir um plano de ação emergencial que busque impedir a retirada de direitos.

    Em 2007, há exatos dez anos, se realizou um encontro como este, unindo a Conlutas, a Intersindical, a MST, o MTST e a Cobap, entre outras entidades, contando com cerca de seis mil presentes, em São Paulo. Ele definiu uma agenda de lutas contra as reformas neoliberais e, mesmo com todas as dificuldades, conseguiu derrotar ataques importantes do ex-governo Lula e do Congresso Nacional.

    Os ataques atuais são ainda mais graves e a hora é repetir exemplos com estes. Neste momento, precisamos de uma unidade ainda mais ampla, buscando todas as entidades e movimentos que estão contra estes terríveis ataques e que se negam a entregar os direitos trabalhistas, independente de suas origens e direções políticas.
    A tarefa fundamental é batalhar cada vez mais pelo fortalecimento das lutas da nossa classe, construindo uma verdadeira frente única dos trabalhadores e do povo contra os patrões e seus governos.

  • Nota da Executiva e deputados do PSOL aponta desafios da conjuntura e construção de alternativa política

    Da Redação

    A Executiva Nacional e a bancada de deputados do PSOL na Câmara divulgaram, nesta quinta-feira (14), uma resolução onde analisam a conjuntura brasileira e apontam os próximos passos que julgam fundamentais para superá-la. Com o título “Derrotar a ofensiva golpista sobre os direitos: por uma alternativa democrática, popular e socialista para o Brasil”, tratam sobre a necessidade de, diante dos ataques aos trabalhadores, apontar uma nova perspectiva com a construção de um projeto alternativo, que impulsione um processo de reorganização à esquerda e apresente um novo programa para 2018.

    “A esquerda precisa apresentar um projeto alternativo que reconheça a necessidade de superação dos limites do lulismo em favor de outro modelo econômico que, preservando as conquistas das últimas décadas, amplie direitos, defenda a soberania nacional, rompa a dependência em relação ao capital financeiro e monopolista, revogando todas as medidas implementadas pelo governo golpista”, diz a nota que reafirma a posição do partido de apresentar candidatura própria no próximo ano e aponta a construção de algumas lutas fundamentais, como o Fora Temer, revogação das contrarreformas, entre outras.

    Confira a íntegra da resolução:

    RESOLUÇÃO DA EXECUTIVA NACIONAL E BANCADA DO PSOL NA CÂMARA DOS DEPUTADOS

    DERROTAR A OFENSIVA GOLPISTA SOBRE OS DIREITOS: POR UMA ALTERNATIVA DEMOCRÁTICA, POPULAR E SOCIALISTA PARA O BRASIL

    1. A ofensiva contra os direitos, aprofundada pelo golpe parlamentar de abril de 2016, entrou em nova fase. Após congelar os investimentos públicos por vinte anos, retroceder em relação ao marco exploratório do Pré-Sal e destruir os direitos assegurados na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), os golpistas buscam agora destruir a soberania nacional, com a entrega da Amazônia aos mega empreendimentos de mineração, a venda de preciosos ativos estatais (Casa da Moeda, Eletrobrás, aeroportos, dentre outros), a tentativa de retomar a votação dos retrocessos na previdência que buscam extinguir o direito à aposentadoria e os ataques ao funcionalismo público e às universidades federais.

    2. Essa nova ofensiva busca aprofundar e consolidar os interesses da elite econômica nacional e internacional, de quem o mandato ilegítimo de Temer é o instrumento principal, e que o utiliza para aprovar o mais rapidamente possível as contrarreformas. Quanto mais avançam as investigações da Polícia Federal e Ministério Público, mais patente o envolvimento do Palácio do Planalto e da cúpula do PMDB em escandalosos esquemas de corrupção. Após se livrar da denúncia de corrupção passiva na Câmara dos Deputados, novos fatos como a delação de Lúcio Funaro, a apreensão das malas de Geddel Vieira Lima e o inquérito da Polícia Federal, que reitera a condição de organização criminosa imputada à cúpula peemedebista ampliam a pressão sobre as forças golpistas.

    3. Paralelamente, essas mesmas forças buscam promover, no Congresso Nacional, alterações constitucionais que pretendem manter intocado o condomínio do poder nas próximas eleições. As propostas de alteração das regras do sistema eleitoral – que têm sido chamadas de “reforma política” – não democratizam a política nem corrigem as distorções do atual sistema. Buscam, ao contrário, assegurar a reeleição de parlamentares investigados na Lava Jato, manter o padrão milionário das campanhas eleitorais e interditar a possibilidade de que novos atores – como o PSOL – possam se credenciar como alternativa em meio à crise do atual sistema político. Por essa razão, caracterizamos a maiorias das medidas em discussão no âmbito da “reforma política” como insuficientes e orientadas pela lógica da salvação das grandes siglas, envolvidas, em sua maioria, em denúncias de corrupção.

    4. A ofensiva contra os direitos e a democracia não tem encontrado, por parte dos movimentos sociais e partidos de esquerda, a necessária resistência. Diferente do primeiro semestre, quando a construção de uma ampla frente social logrou construir datas nacionais de mobilização, incluindo duas importantes greves gerais, temos vivido um contexto de iniciativas isoladas, pouca unidade e dificuldades político-organizativas. Defendemos a retomada do diálogo entre as frentes de mobilização com vistas a combater a retirada de direitos imposta por Temer.

    5. No plano da crise política, a operação Lava Jato enfrenta questionamentos e dificuldades. Apesar de ter revelado a dinâmica das relações espúrias entre agentes públicos, partidos e setor privado, a operação vive um momento crítico. Ao enredar o Ministério Público e o próprio Supremo Tribunal Federal, a corrupção demonstra que não existem instituições imunes a seus efeitos. Defendemos julgamento justo, transparente e rigoroso de todos empresários ou políticos que o envolvimento seja comprovado. Porém, defendemos que a saída para a prolongada crise que o país atravessa não se encontra no Poder Judiciário, marcado por uma tradição elitista e punitivista, mas na mobilização popular em defesa de um projeto alternativo para o país e da ampliação da democracia. É, portanto, uma saída por meio da política e da organização do povo para a construção de uma nova política, perpassada pela ética do interesse das maiorias.

    6. Consideramos que as informações envolvendo o ex-presidente Lula apresentadas por Antônio Palocci em seu depoimento, buscando assegurar um acordo de colaboração com o Judiciário, precisam ser comprovadas através de provas materiais. É fato que o ex-ministro mantinha estreita relação com o capital financeiro e a mídia monopolista, expressando as relações dos governos liderados pelo PT com essas frações do capital. As informações envolvendo esses setores precisam vir à tona. Ao mesmo tempo, exigimos tratamento isonômico com amplo direito de defesa a todos os implicados num eventual acordo de delação premiada que venha a ser firmado com o ex-ministro.

    7. A esquerda precisa apresentar um projeto alternativo que reconheça a necessidade de superação dos limites do lulismo em favor de outro modelo econômico que, preservando as conquistas das últimas décadas, amplie direitos, defenda a soberania nacional, rompa a dependência em relação ao capital financeiro e monopolista, revogando todas as medidas implementadas pelo governo golpista. Consideramos que Lula deve ter assegurado o direito de concorrer às eleições presidenciais de 2018, mas o PSOL apresentará um nome que possa encarnar esse projeto, sem alianças com partidos ou nomes ligados ao golpe de 2016.

    8. Consideramos, ainda, que a grave crise que o país atravessa deve servir para impulsionar um amplo processo de reorganização da esquerda brasileira. Iniciativas como o Vamos, liderado pela Frente Povo Sem Medo, cumprem papel extremamente positivo. Pensar um programa e uma candidatura que represente o acúmulo das lutas do passado e a necessidade de atualizar nosso olhar sobre a realidade – dando a devida centralidade à luta ecossocialista, das mulheres, negros e negras, comunidade LGBT, dentre outras – é parte desse desafio. Ademais, é parte indispensável do esforço de unidade contra os ataques de Temer aos direitos do povo brasileiro.

    9. Por fim, apontamos consignas das quais não abriremos mão no processo de luta contra Temer e seu projeto de saque das riquezas nacionais. Estas consignas deverão, também, alimentar as discussões em torno do processo de reorganização da esquerda e da construção de uma candidatura do PSOL em nosso processo congressual. São elas:

    – Fora Temer: pela convocação de eleições diretas já;
    – Revogação das contrarreformas e todas as medidas lesivas ao povo brasileiro aprovadas pelo governo Temer e pelo Congresso Nacional;
    – Fim da repressão policial e da criminalização das lutas sociais; revogação da lei antiterror oriunda do governo Dilma e utilizada brutalmente pelos golpistas;
    – Por outro modelo político, econômico e social, baseado na democratização dos meios de governar, na justiça social, na tolerância e que enfrente os monopólios, o latifúndio, o rentismo, o imperialismo e a destruição do meio ambiente;
    – Unidade dos setores sociais que defendem um Brasil justo, soberano, igualitário: todo apoio à plataforma Vamos e outras iniciativas semelhantes.

    Executiva Nacional do PSOL

    Bancada do PSOL na Câmara dos Deputados:

    Glauber Braga, Ivan Valente, Chico Alencar, Luiza Erundina, Jean Wyllys e Edmilson Rodrigues

    Foto: PSOL

  • O impasse político brasileiro

    Editorial 6 de setembro

    Um paradoxo marcou o primeiro semestre de 2017. O Governo Temer se enfraqueceu muitíssimo, enfrentou uma forte onda de lutas em março e abril.  A partir dos escândalos da JBS, foi bombardeado pela operação Lava Jato e pela Rede Globo. Apesar disso, manteve-se no governo, ganhou a votação no Congresso pelo arquivamento da denúncia de Janot e reforçou suas relações com a burguesia aprovando a Reforma Trabalhista e uma avalanche de privatizações.

    O novo áudio entregue, supostamente por engano, pela defesa da JBS, e que pode comprometer a delação dos irmãos Batista, amplia a desmoralização política da denúncia, enfraquece Janot. E ainda que juridicamente as provas possam ser usadas, fortalece a defesa de Temer.

    O primeiro semestre de 2017 parece ter indicado que o grande tema capaz de mobilizar a classe trabalhadora é a luta contra as reformas, mais concretamente a Reforma da Previdência. O Fora Temer e a bandeira das Diretas Já, apesar das pesquisas de opinião indicarem imensa rejeição do presidente e a simpatia de mais de 80% da população pelas eleições diretas, não demonstraram poder de levar milhares de brasileiros para as ruas. Não é um bom sinal, mas tentemos analisar a realidade como ela é e não como gostaríamos que fosse.

    No entanto, apesar de não haver mobilizações massivas para a retirada do presidente golpista, a onda de rejeição de Temer cresce a cada nova pesquisa. Divulgada no dia 26 de agosto pelo Estadão, uma pesquisa feita pelo Instituto Ipsos revela que a desaprovação do presidente atingiu 93%. A popularidade nunca foi o ponto forte de Temer, já em agosto de 2016 logo após ter assumido o cargo sua desaprovação era de 68%. Mas é inegável que o crescimento foi galopante.

    A questão é que ele não está sozinho, a mesma pesquisa também indica uma onda de rejeição que atinge todos os políticos. O instituto avaliou 26 autoridades de distintas esferas, incluindo o poder judiciário e possíveis apostas da nova direita, como o apresentador Luciano Huck.  Quase todos estão mais desaprovados do que aprovados.  Sergio Moro, Joaquim Barbosa e o referido apresentador são os únicos que mantêm sua aprovação maior que 50%.

    O judiciário, que veio se fortalecendo nos últimos dois anos, também começa a enfrentar sinais de desgaste, a taxa de desaprovação dos Ministros do STF caiu, mesmo considerando as figuras mais ligadas à Lava Jato como o Edson Fachin e Carmem Lúcia. O procurador Deltan Dallagnol e o Procurador Geral da República Rodrigo Janot também ampliaram sua taxa de rejeição.

    Crises, escândalos e descrédito definirão o futuro?
    O Brasil enfrenta uma crise de distintas dimensões, econômica, política e social. Para fazer uma análise marxista da conjuntura brasileira é preciso ir além das crises institucionais, das alas em disputa a cada novo escândalo e avaliar a correlação de forças entre as classes sociais.

    A burguesia está unificada na batalha das reformas, do ajuste fiscal e das privatizações. A constituição de 88 está sendo desfigurada a cada dia. Mas, há muita diferença sobre o que fazer com o sistema de partidos e o funcionamento peculiar do atual regime político. Neste terreno, a crise interburguesa é feroz. O setor mais ligado ao poder judiciário e à Lava Jato quer uma reforma política à fórceps, não batalham pelo fim das relações entre o Estado e o mercado, mas querem estabelecer outro tipo de relação, mais moderna e institucionalizada. Já o Congresso Nacional e a Presidência da República buscam conservar o atual modelo, ainda que para dar uma resposta à crise de representatividade estejam buscando aprovar uma reforma política mais restritiva e antidemocrática.

    A classe trabalhadora mostrou sua força política na greve do dia 28 de abril, o proletariado brasileiro é um gigante social, sua potência é inquestionável. Mas para isso precisa entrar em movimento e infelizmente o que temos assistido nos últimos meses é o crescimento da apatia nos locais de trabalho e estudo.

    Os trabalhadores sabem do ataque a que estão submetidos, as pesquisas indicam claramente que as reformas previdenciária e trabalhista são amplamente rejeitadas, a nova lei das terceirizações é vista pela maioria como benéfica aos empregadores. Os negros e negras, as mulheres e as pessoas LGBTs sentem na pele, em um patamar superior, as consequências do desmonte dos direitos dos trabalhadores. Estão entre os primeiros a serem demitidos, ganham os piores salários, ocupam os postos mais precários. Na medida em que a crise econômica avança, também aumentam os elementos de degeneração social, casos de agressão física e sexual fazem parte do dia a dia da vida de milhares de pessoas oprimidas. O fortalecimento da extrema direita vem acompanhado do crescimento do alcance de ideias reacionárias e da ocorrência de crimes de ódio.

    Inúmeros fatores estão pesando para que, até agora, a paralisia tenha vencido a indignação. Estão entre eles a repressão da patronal nos locais de trabalho, o desemprego, o papel das direções burocráticas e a ausência de uma alternativa política capaz de inspirar confiança no futuro.

    Entre os ativistas e os setores politicamente mais ativos da classe trabalhadora inúmeras e complexas questões dividem as opiniões políticas. Há aqueles que percebem a ofensiva burguesa, enxergam o peso crescente da extrema direita, são conscientes da necessidade de unificar todas as forças possíveis para a resistência. Eles estão corretos, o compromisso com a unidade da classe para lutar deve ser incondicional.

    Não haverá nenhum desfecho positivo sem a mobilização da classe trabalhadora
    Não esperamos nada dos agentes da polícia federal, dos juízes e procuradores, nenhum desfecho positivo vai ocorrer sem a mobilização da classe trabalhadora organizada. A grande maioria dos sindicatos e dos movimentos sociais organizados tem forte influência petista.  Lula, o PT e a CUT deve jogar todo seu prestígio político e peso no movimento social para construir uma resistência nacional e unificada contra a reforma da previdência. Este é o caminho mais eficaz para deter o avanço da direita.

    É muito importante a articulação das lutas ao redor do dia 14 de setembro, entretanto vemos com preocupação a pulverização do calendário de mobilização. Pelo menos no dia 15 e no dia 19 estão agendados outros dias de luta locais ou de categorias. O melhor caminho é concentrarmos forças numa data unificada, este foi um dos componentes que explicam o sucesso das mobilizações de março e abril: unidade.

    No terreno da construção de uma alternativa política da classe trabalhadora, os desafios são ainda maiores. Sem mobilização também este elemento é mais atrasado. A extrema direita está em campanha para 2018, Bolsonaro gira as capitais em busca de aliados. A nova direita ensaia seus líderes, João Dória e Luciano Huck já aparecem nas pesquisas. Lula e o PT estão também em movimento para 2018. Em nossa opinião, o PSOL deve apresentar seu candidato, e ao mesmo tempo estar aberto ao diálogo para a construção de uma Frente com outros partidos, como o PSTU e o PCB, além de movimentos sociais e milhares de ativistas independentes.  As plenárias do Vamos serão um momento de debate e de reflexão programática, apostamos na construção coletiva de uma alternativa dos trabalhadores. Compreender os desafios e as nossas tarefas para transformar a realidade atual, eis o nosso desafio.

  • Lula e os coronéis

    Editorial de 29 de agosto,

    A caravana de Lula pelo nordeste vem revelando, além do apelo popular do ex-presidente na região, a estratégia do PT para as eleições presidenciais de 2018.

    Em suas passagens pelas cidades nordestinas, o petista perfila um discurso de contundente oposição ao governo Temer, de críticas às contra-reformas e defesa de medidas em benefício dos mais pobres. O ex-metalúrgico faz questão de relembrar, em todas falas, os anos de crescimento econômico e as políticas sociais do PT.

    Ao produzir imagens de contraste, quando compara a época de seus governos com o atual cenário desolador, provoca sentimentos de esperança. A mensagem transmitida é simples: com Lula presidente o Brasil voltará a crescer com justiça social.

    Mas há outro objetivo com a caravana: costurar alianças com as velhas oligarquias.

    Lula desfilou ao lado de Renan Calheiros em Alagoas. Estendeu as mãos à candidatura da ruralista Kátia Abreu ao governo do Tocantins. E não perdeu a oportunidade para elogiar Sarney, do Maranhão. Em Sergipe, dividiu o palanque com o governador do PMDB, Jackson Barreto. E, em Pernambuco, buscou aproximação com a família Campos, do PSB.

    A intenção do petista é compor uma aliança com setores das elites nordestinas, tendo em vista as próximas eleições. Lula oferece às velhas raposas o prestígio junto ao povo e recebe, em troca, a máquina eleitoral dos coronéis.

    O “x” da questão

    Perante o mal estar gerado na esquerda, o ex-presidente não fugiu da polêmica e justificou a formação de alianças com setores da direita e lideranças golpistas em nome da conhecida “governabilidade”.

    Em entrevista coletiva, Lula afirmou: “Quando um partido como o PT procura fazer alianças políticas, só procura fazer essas alianças porque tem clareza de que, sozinho, não ganha as eleições, e, se ganhar, não tem como governar se não tiver maioria no Congresso Nacional”.

    O petista tem, em certo sentido, razão. No atual regime político, sem maioria parlamentar não se governa. É necessário se aliar a partidos de direita, uma vez que a esquerda não  faz maioria em eleições controladas pela força do dinheiro.

    E como o próprio ex-presidente diz, é preciso costurar também alianças com grandes empresários, para conformação de um pacto social para governar o Brasil.

    Assim, chegamos a um círculo vicioso. Os ricos ficam cada vez mais ricos explorando e oprimindo os trabalhadores, retirando direitos sociais e se apropriando do patrimônio público, além de contaminar o estado com o vírus da corrupção. Porém, para vencer as eleições, é preciso se aliar a eles. Mas se aliando a setores da direita, como mudar de verdade o Brasil?

    Não é por acaso que Lula, até agora, não assumiu o compromisso de revogar as contra-reformas e as privatizações de Temer. Não pode fazê-lo sem romper com a estratégia de conciliação de classes que tanto persegue. Não o fará, pois não quer assustar o “andar de cima” e, desse modo, inviabilizar acordos com a direita.

    Sem ruptura, não há esperança 

    Lula e o PT não aprenderam nada com o golpe parlamentar, e nem mesmo com a real possibilidade de prisão ou perda de direitos políticos do ex-presidente. Querem repetir o mesmo caminho de conciliação que levou ao desastre que estamos vendo agora.

    Não é possível mudar de verdade o Brasil sem enfrentar a dominação burguesa e imperialista que prende o país ao atraso, à pobreza e à brutal desigualdade social. As mudanças estruturais não virão de cima, por meio de  alianças com banqueiros, latifundiários, corruptos e partidos da direita. Não virão por meio desse Congresso dominado por empresários, bandidos e reacionários. Não virão de eleições controladas pelo poder econômico. Enfim, não virão por dentro deste regime apodrecido.

    A mudança real só poderá surgir das ruas, da organização e união dos explorados e dos oprimidos. Mas para isso é preciso uma esquerda com uma estratégia anticapitalista, isto é, uma esquerda que assuma o desafio do enfrentamento com os ricos e poderosos. Uma esquerda socialista que reencante os trabalhadores com um programa de transformação democrática, social e econômica. Um programa que desperte esperança, um programa de ruptura. Para tanto, é necessário dar o primeiro passo nesse sentido: superar o projeto de colaboração de classes do lulismo.

     

  • Algumas lições dos primeiros dias da visita de Lula ao Nordeste

    Por: Carlos Zacarias de Sena Júnior, colunista do Esquerda Online

    Primeira lição: Lula continua sendo uma grande liderança popular
    Começou no último dia 17, em Salvador, a caravana de Lula pelo Nordeste do Brasil. Prevista para ser encerrada no início de setembro, a caravana, que percorrerá os nove estados da região e mais de duas dezenas de municípios, pretende ser um teste de popularidade da principal liderança petista do país numa região que, proporcionalmente, mais ofereceu votos ao PT em todas as eleições.

    O início da caravana foi marcado por tumultos em função de uma liminar expedida pelo juiz Evandro dos Reis, que acatou recurso do vereador soteropolitano Alexandre Aleluia (DEM) solicitando que fosse suspensa a concessão do título de doutor Honoris Causa a Lula pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). O resultado dessa contenda que revelou, mais uma vez, a miséria da nossa Justiça e a incompetência do vereador que apresentou projetos de lei em torno do projeto Escola sem Partido, foi que a liminar repercutiu em diversos setores, especialmente nas universidades, que condenaram veementemente a decisão da Justiça, que feria o artigo 207 da Constituição, que versa sobre a autonomia universitária.

    Diante de toda a repercussão negativa, e também pelo fato de que o petista e seus aliados souberam tirar proveito da situação, uma cerimônia que devia ser algo relativamente simples, na medida em que alguma coisa que envolva Lula pode ser considerado simples, se transformou num enorme ato político de desagravo ao líder petista, de defesa da autonomia universitária e de repúdio à decisão da Justiça e à atitude mesquinha e burra do vereador do DEM. Por conta disso, milhares de pessoas partiram para a pequena cidade de Cruz das Almas, no Recôncavo baiano, onde fica a reitoria da UFRB, uma universidade criada por Lula, para assistir o dirigente petista discursar e para lhe prestar apoio.

    O fato de que milhares de pessoas se reuniram para ver e ouvir Lula é demonstração inconteste de que o ex-presidente continua sendo uma grande liderança popular e qualquer um que não reconheça isso em seus cálculos políticos está condenado a fracassar em suas análises. Da mesma forma, deve-se reconhecer que parte considerável dos apoiadores de Lula acreditam que todos os problemas serão resolvidos com o retorno deste à presidência, o que significa que as tarefas da esquerda socialista serão bastante difíceis e deve ser enfrentada com toda paciência.

    Segunda lição: Lula e o PT não aprenderam quase nada com a derrota de 2016
    Saindo de Salvador, Lula passou por Feira de Santana, a segunda cidade mais importante da Bahia, seguindo depois para Aracaju. Na capital sergipana, no dia 21, Lula recebeu seu 29º título de doutor Honoris Causa concedido pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Em sua agenda no Nordeste, pelo menos outros três títulos da mesma natureza estão previstos.

    Quando do recebimento do título na UFS, Lula fez o que mais sabe: acusou as “elites” do país de serem contra a expansão do ensino público. Obviamente que todos que acompanham a política educacional do governo Temer devem reconhecer que o projeto de destruição da universidade pública foi retomado com todo vigor com o golpista, que conta com o apoio maciço do Congresso, composto por dezenas de deputados envolvidos com o ensino privado. O problema, contudo, é que o discurso de Lula, embora consiga registrar o papel cumprido por setores da burguesia que conspiram há décadas contra a educação pública, esconde que nos governos petistas, se a educação pública se expandiu, isto se deu com insuficiente aporte de verbas para fazer frente a expansão, o que resultou em precarização e dificuldades para docentes, discentes e servidores técnico-administrativos. Da mesma forma, o ensino privado também cresceu e alcançou fatias cada vez maiores do público habilitado ao ensino superior, não sem ajuda e incentivos dos governos petistas.

    Foi, contudo, no dia seguinte, enquanto discursava para militantes e simpatizantes ao lado do governador Jackson Barreto, do PMDB, que Lula colheu os primeiros dissabores, quando um setor da CUT se afastou do ato e lançou nota criticando a presença do governador peemedebista nos palanques do PT. Para a CUT, “não cabem os traidores ou os que lavaram as mãos ante ao processo mais desastroso da recente história brasileira, que foi o impeachment da presidente Dilma [Rousseff]”. Ainda segundo a central sindical, “A presença de Jackson Barreto no palanque de Lula tem o único objetivo do governo estadual de acumular força para continuar massacrando os trabalhadores”.

    O que parecia ser apenas um mal entendido registrado em Sergipe, que ocasionou, inclusive, mal-estar com correntes petistas no estado, em Alagoas ganhou ares de farsa, já que os anfitriões de Lula foram Renan Calheiros, então presidente do senado quando do golpe do impeachment em 2016, e seu filho, atual governador do estado. Em seus discursos na cidade de Penedo, onde Lula foi recebido por Renan pai e filho, houve troca de elogios e uma clara sinalização de que um setor do PMDB pretende se reaproximar do PT. Este partido, por sua vez, parece estar disposto a esquecer o passado e receber de braços abertos figuras que há pouco mais de um ano conspiraram para a deposição da presidente Dilma e até algumas semanas atrás estavam no governo de Michel Temer.

    Em que pesem as manifestações de descontentamento de muitos petistas, especialmente daqueles que vivem sob governos do PMDB e que não esquecem que Michel Temer é deste partido, seria impossível dizer hoje que o destino desses setores seja romper com o partido e com o lulismo.

    Terceira lição: não há vazio na política
    Para qualquer bom entendedor, parece óbvio que o recuo nas manifestações contra as reformas e, de conjunto, na resistência ao golpe, atendeu muito bem às expectativas dos setores petistas mais alinhados ao ex-presidente que optaram por seguir em caravana pelo país, repetindo o movimento de inícios da década de 1990, com a Caravana da Cidadania. Para refrescar a memória, naquela altura, após ser derrotado nas eleições presidenciais de 1989, o PT e Lula apostaram todas as fichas no projeto eleitoral de 1994. Nem mesmo o impeachment de Collor impediu de seguirem essa miragem, pois foi o setor hegemônico do PT que garantiu a posse de Itamar e, depois, a governabilidade até as eleições, que terminaram com a derrota do petistas para FHC ainda no primeiro turno.

    Para os setores dos movimentos sociais e qualquer trabalhador ou trabalhadora que tenha saído às ruas para lutar contra as reformas e pelo Fora Temer nos últimos meses, seria difícil imaginar a realização da caravana de Lula caso houvesse o empenho das centrais em construir as lutas, especialmente as greves. Em vista disso, parece ser ainda mais necessário se cobrar da CUT as responsabilidades na retomada da agenda de lutas, que não pode ser inviabilizada em função dos interesses eleitorais remetidos para 2018.

    Na semana em que a plataforma “Vamos” será lançada, por iniciativa da Frente do Povo sem Medo, que envolve o PSOL, o MTST e várias organizações de esquerda e movimentos sociais do país, além de intento anunciado de ser um polo alternativo à política de conciliação de classes do lulismo, a plataforma deve ser, também, um espaço de construção de lutas contra o ilegítimo governo Temer e suas reformas.

    Parece ser necessário para a esquerda socialista começar a ocupar os espaços junto aos setores combativos dos movimentos populares, da cidade e do campo. Combatendo os mitos, porque estes nunca ajudaram a construir alterativas, os trabalhadores e as trabalhadoras não podem esquecer que a obra de construção da emancipação deverá ser feita pelos próprios subalternos. Do contrário estaremos condenados a ainda mais retrocessos, de onde não se descarta que uma eventual candidatura de Lula, caso se concretize, terá muitas dificuldades de emplacar num cenário de campanha eleitoral, onde as acusações vão descer aos níveis mais baixos da política.

    Por tudo isso, e muito mais pela necessidade de enfrentarmos as ilusões de que o único caminho para tirar o país do atoleiro é reeditar os governos Lula nas mesmas condições em que eles existiram, a esquerda socialista deve tomar a si o desafio de debater a sério, e com toda paciência, a necessidade de uma saída radicalmente anticapitalista para o país.

    Foto: Lula na Travessia do Rio São Francisco entre Sergipe e Alagoas. | Ricardo Stuckert

  • Coletivo Resistência Petroleira é lançado durante Congresso da FNP

    Por Natália Russo, diretora do Sindpetro/RJ

    Em uma reunião com mais de 40 petroleiros de várias partes do país, na Sexta- feira (18), foi fundado o Coletivo Resistência Petroleira, durante o XI Congresso da Federação Nacional dos Petroleiros – FNP, ocorrido entre 17 e 20 de Agosto.

    Um acalourado debate sobre os desafios da luta contra o desmonte e privatização da Petrobras e a luta contra as reformas de Temer envolveu os presentes. Ao final, foram definidos os eixos de atuação do Resistência Petroleira ao longo do Congresso, em base ao manifesto lançado também durante o Congresso.

    Uma pauta para mobilizar os petroleiros e a luta pela unidade

    Os petroleiros que se organizaram no Coletivo defenderam uma pauta de luta consequente com os desafios do presente. Essa pauta estaria a serviço de mobilizar a categoria petroleira e impulsionar a mais ampla unidade dos 18 Sindipetros, além das centrais e movimentos populares para lutar contra Temer e Pedro Parente(presidente da Petrobrás).

    A luta pela unidade também deve estar presente na busca de um  programa e de uma alternativa política que se enfrente com a direita privatista, e que ao mesmo tempo não caia no erro de tentar conciliar o crescimento da Petrobras com os interesses das gigantes do petróleo, como ocorreu nos governos de Lula e Dilma.

    Campanha Salarial se aproxima e promete grandes enfrentamentos

    A campanha salarial dos petroleiros está prestes a começar e será necessário muita luta para impedir a retirada dos direitos da categoria, o que pode acelerar ainda mais o programa de privatização.

    Portanto, a Resistência Petroleira se coloca desde já na linha de frente junto à FNP na busca de uma unidade ampla com a FUP e todos os 18 Sindipetros, para impedir o retrocesso que querem nos impor. Acompanhe a #ResistênciaPetroleira na página (https://www.facebook.com/ResistenciaPetroleira/).

    Veja abaixo a Pauta de Luta 2017, defendida também pela Resistência Petroleira, e aprovada na plenária final:

    Pauta de LUTAS 2017

    Este ano, a FNP apresenta para a negociação dez pontos, que incorporam as principais demandas aprovadas no seu Congresso, tendo como referência a pauta histórica construída pela categoria petroleira;

    1 – Contra a venda de ativos e o desmonte do Sistema Petrobras, garantindo a manutenção de todas as atividades atuais da empresa e os investimentos para garantir a integridade, a segurança dos trabalhadores e também a continuidade na produção de energias renováveis.

    2 – Garantia dos direitos históricos conquistados: Manutenção do acordo coletivo 2015-2017, com os ajustes de redação nas cláusulas aprovados no Congresso Paulista da FNP, conforme anexo;

    3 – Reajuste no Salário Base de 8,4%* estendendo aos Benefícios e Vantagens. (maior índice de inflação, ganho real de 2 %, reposição de 2,97%, referente às perdas dos últimos dez anos, desde que foi implementada a RMNR e 0,37% de perda no aditivo de 2016).

    4 – Cancelamento da redução de efetivo baseado no estudo de O&M, estabelecimento de número mínimo em acordo com sindicatos em todos os locais e reposição do efetivo perdido com PIDV e aposentadorias através de concurso púbico;

    5 – Garantia de emprego: Supressão da Cláusula 80 (Dispensa sem justa causa) e inclusão de cláusula para formação de comissão em caso de dispensa com justa causa, com participação do sindicato, com direito a ampla defesa do empregado e ao contraditório;

    6 – Fim da política de consequências, dos padrões punitivos, assédio moral e toda forma de violência psicológica aos trabalhadores. Contra a subnotificação de acidentes e a garantia da participação da CIPA nas investigações de acidentes somente com cipeiro eleito;

    7 – Garantir em forma de cláusulas que as perdas da reforma trabalhista sejam impedidas no Sistema Petrobras, tais como a Garantia da representatividade dos sindicatos. Garantir em forma de cláusula a primeirização das atividades fins e também as essenciais à segurança e a vida dos trabalhadores e a integridade dos equipamentos;

    8 – Equiparar as cláusulas do ACT das subsidiárias e empresas do Sistema Petrobras às cláusulas de melhor vantagem aos trabalhadores, inclusive a implantação da AMS, Benefício Farmácia e adicionais aos trabalhadores das Termoelétricas Tambaqui e Jaraqui;

    9 – Extensão do Auxílio-acompanhante para os pais, estender o abono para acompanhamento de dependentes até 10 dias por ano com apresentação de atestado, e garantia do impedimento de grávidas e lactantes, próprias ou terceirizadas, de trabalhar em ambiente insalubre;

    10 – Em defesa dos direitos dos aposentados, da AMS, Benefício Farmácia e Petros. Garantir o pagamento da dívida da PETROS, repasse dos níveis salariais, fim da tabela congelada e todas as discriminações.

    Confira o Manifesto defendido pela Resistência Petroleira:

    Manifesto pg 1Manifesto pg 2 manifesto pg. 3 Manifesto pg 4

    Vídeos:


    (Pedro da Oposição Petroleira de São Paulo)


    (Landal e Edson, da Oposição do Sindipetro-RS falam sobre o XI Congresso da FNP.)


    (Luciano, o Zé Maravilha diretor do Sindipetro AL/SE, fala sobre o Congresso da FNP.)


    (Natália Russo, da direção do Sindpetro/RJ)

  • As jornadas de julho

    Os bolcheviques queriam evitar o destino da Comuna de Paris. Foi por essa razão que eles não tomaram o poder em julho de 1917

    Manifestação política em 18 de junho de 1917, em Petrogrado. No banner à esquerda lê-se: "Paz para todos - Todo o Poder ao Povo - Toda Terra para o Povo" e no banner à direita lê-se: "Fora os ministros-capitalistas"; estas eram palavras de ordem Bolcheviques.

    Manifestação política em 18 de junho de 1917, em Petrogrado. No banner à esquerda lê-se: “Paz para todos – Todo o Poder ao Povo – Toda Terra para o Povo” e no banner à direita lê-se: “Fora os ministros-capitalistas”; estas eram palavras de ordem Bolcheviques.

    Por: Daniel Gaido, pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (Conicet), Argentina.

    Publicado originalmente na Jacobin

    Tradução: Wilma Olmo Corrêa

    Em 1917, a Rússia tinha mais de 165 milhões de cidadãos, dos quais apenas 2,7 milhões moravam em Petrogrado. A capital tinha 390 mil trabalhadores de fábrica – um terço eram mulheres – 215.000 a 300.000 soldados como tropas aquarteladas, e cerca de 30 mil marinheiros e soldados estacionados na base naval de Kronstadt.

    Após a Revolução de fevereiro e a abdicação do Czar Nicolau II, os sovietes, liderados pelos mencheviques e os socialistas revolucionários, cederam o poder a um governo provisório não eleito que se inclinava a continuar com o envolvimento da Rússia na Primeira Guerra Mundial e a atrasar a reforma agrária até as eleições da Assembleia Constituinte, cuja data foi logo em seguida adiada indefinidamente.

    Esses mesmos sovietes também haviam exigido a criação de Comitês de Soldados e os instruíram a desobedecer quaisquer ordens oficiais contrárias às ordens e decretos dos Representantes do Soviete dos Trabalhadores e dos Soldados.

    Essas decisões contraditórias produziram uma estrutura de poder dual e instável marcada por crises regulares do governo.

    A primeira dessas crises estourou em abril de 1917 durante a guerra e terminou depois que os principais líderes políticos burgueses – Pavel Milyukov do Partido cadete (Partido Democrático Constitucional) e Alexander Guchkov do Partido Outubrista – foram expulsos. Além disso, revelou a impotência do governo na guarnição de Petrogrado: as tropas respondiam ao Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado e não ao então comandante, o General Lavr Kornilov.

    Ordem número 1 do Soviete de Petrogrado, emitida em 14 de março de 1917. Este documento exorta às unidades a elegerem comitês de soldados, a enviarem representantes para o Soviete e a obedecerem seus oficiais e o Governo Provisório somente se suas ordens não contradissessem as ordens e decretos do Soviete de Petrogrado. Todas as armas deveriam ser entregues a esses comitês "e, de forma alguma serem entregues aos oficiais, mesmo sob pedido".

    Ordem número 1 do Soviete de Petrogrado, emitida em 14 de março de 1917. Este documento exorta às unidades a elegerem comitês de soldados, a enviarem representantes para o Soviete e a obedecerem seus oficiais e o Governo Provisório somente se suas ordens não contradissessem as ordens e decretos do Soviete de Petrogrado. Todas as armas deveriam ser entregues a esses comitês “e, de forma alguma serem entregues aos oficiais, mesmo sob pedido”.

    O governo de coalizão que emergiu desta crise incluiu nove ministros dos partidos burgueses e seis dos chamados partidos socialistas. O príncipe Georgy Lvov permaneceu Primeiro Ministro e Ministro do Interior, mas o Ministro da Guerra e da Marinha Alexander Kerensky, membro do Partido Socialista Revolucionário, logo se tornou uma estrela em ascensão no governo. O gabinete também incluiu o menchevique Irakli Tsereteli como ministro dos Correios e Telégrafos e Matvey Skobelev como ministro do Trabalho. Os revolucionários socialistas Viktor Chernov e Pavel Pereverzev também se juntaram à coalizão como Ministro da Agricultura e ministro da Justiça, respectivamente.

    O Partido Bolchevique no Verão de 1917
    Os Bolcheviques lutaram durante a primeira metade de 1917. Eles inicialmente se opuseram à manifestação do Dia Internacional da Mulher, que levou à Revolução de Fevereiro. O Partido Bolchevique experimentou, em seguida, uma forte guinada à direta em meados de março, quando Lev Kamenev, Josef Stalin e M. K. Muranov retornaram da Sibéria e assumiram o órgão de comunicação do partido, o Pravda. Sob o controle deles, o jornal defendia o apoio crítico ao Governo Provisório, rejeitava o slogan “Abaixo a guerra” e pedia o fim das atividades desorganizadoras no front.

    Essas posições contrastavam fortemente com as visões que Lenin expressava em suas “Cartas de Longe”, por isso não é surpresa que o Pravda publicasse apenas a primeira dessas Cartas, com  inúmeras exclusões. De acordo com o testemunho de Alexander Shlyapnikov:

    O dia da publicação do primeiro número do “Novo Pravda”, 15 de março, foi um dia de triunfo para os “defensistas”. Todo o Palácio Tauride, desde os membros do Comitê da Duma até o Comitê Executivo, o coração da democracia revolucionária, estava repleto com uma notícia – a vitória dos bolcheviques moderados e razoáveis sobre os extremistas. No próprio Comitê Executivo, fomos recebidos com sorrisos venenosos.

    Esses pontos de vista prevaleceram entre os líderes bolcheviques em Petrogrado quando, em 3 de abril, Lenin chegou à Estação Finlândia. No dia seguinte, ele apresentou as suas famosas “Teses de Abril” aos delegados bolcheviques na Conferência dos Sovietes de Toda a Rússia. Em contraste com Kamenev e Stalin, Lenin reafirmou seu repúdio total ao “defensismo revolucionário” e defendeu a fraternidade no front. Ele também adotou a perspectiva de Leon Trotsky, caracterizando o “momento atual” como uma transição entre o primeiro estágio “burguês-liberal” da revolução e o segundo estágio “socialista”, durante o qual o poder seria transferido para as mãos do proletariado.

    Lenin se opôs ao “apoio crítico” de Stalin e Kamenev ao Governo Provisório, e solicitou a rejeição total a tal Governo bem como a dissipação da noção de que os bolcheviques e os mencheviques menos radicais poderiam se reunificar. Daí em diante, os bolcheviques chamaram à transferência de todo o poder aos Sovietes, que passariam então a armar o povo, abolir a polícia, o exército e a burocracia estatal, bem como confiscar todos os latifundiários e transferir o controle de produção e distribuição aos trabalhadores.

    Na Sétima (abril) Conferência do Partido Bolchevique de toda a Rússia, realizada em Petrogrado de 24 a 29 de abril, as posições de Lênin sobre a guerra e o Governo Provisório ganharam o apoio da maioria.

    A primeira página das "Teses de Abril" de Lenin, como originalmente publicada no Pravda.

    A primeira página das “Teses de Abril” de Lenin, como originalmente publicada no Pravda.

    O partido bolchevique permaneceu pequeno no início de 1917, com apenas cerca de dois mil membros em Petrogrado, constituindo apenas 0,5% da classe trabalhadora industrial da cidade. Na abertura da Conferência de Abril, no entanto, o número de membros do partido havia aumentado para dezesseis mil na capital. No final de junho, ele tinha dobrado. Dois mil soldados aquartelados se juntaram à Organização Militar Bolchevique e mais quatro mil se associaram ao Clube Pravda, uma organização não partidária para o pessoal militar, operada pela Organização Militar Bolchevique.

    Esse crescimento maciço no número de membros transformou a organização. Suas fileiras cresceram com recrutas impetuosos que pouco sabiam sobre o marxismo, mas que estavam ansiosos por uma ação revolucionária.

    Enquanto isso, os bolcheviques começaram a incorporar as organizações existentes. Em 4 de maio, no dia anterior à formação do governo da coalizão, Trotsky voltou do exílio. Agora que ele e Lênin tinham encontrado um terreno em comum, Trotsky começou a conectar sua organização, a Organização Mezhraiontsy ou Organização Interdistrital de Petrogrado, ao partido de Lênin.

    Apesar desse crescimento exponencial, os bolcheviques ainda estavam em minoria. Eles representaram menos de 10% dos delegados presentes no Primeiro Congresso dos Representantes dos Sovietes dos Trabalhadores e dos Soldados de Toda a Rússia, que começou em 3 de junho. Este encontro nacional incluiu 1.090 delegados – dos quais 822 podiam votar – que representavam mais de trezentos sovietes de trabalhadores, de soldados e de camponeses, e cinquenta e três sovietes regionais, provinciais e distritais. Os bolcheviques tiveram a terceira maior representação com 105 delegados, atrás dos Revolucionários Socialistas (285 delegados) e dos mencheviques (248 delegados).

    Neste momento, Petrogrado tinha três organizações distintas do partido bolchevique: o Comitê Central de nove homens, a Organização Militar de Todos os Russos e o Comitê de Petersburgo. Cada um tinha suas próprias responsabilidades, submetendo-as a pressões diferentes e às vezes conflitantes. O Comitê Central, que teve que considerar a situação de todo o país, frequentemente se via restringindo os grupos mais radicais.

    A Organização Militar Bolchevique.

    A Organização Militar Bolchevique.

    Preparando o cenário
    A Organização Militar Bolchevique planejou uma manifestação armada para 10 de junho a fim de expressar uma oposição de massas aos preparativos do Governo Provisório para uma ofensiva militar, uma oposição às tentativas de Kerensky de reinstituir a disciplina no quartel e uma oposição à crescente ameaça de transferência para o front de guerra. A Organização Militar Bolchevique cancelou a ação no último minuto, curvando-se à oposição do Congresso Soviético.

    Alguns elementos no Partido Bolchevique, particularmente no Comitê de Petersburgo e na Organização Militar, viram a manifestação abortada como uma potencial revolta. De fato, o próprio Lenin teve que comparecer em uma reunião de emergência para defender a decisão do Comitê Central de cancelar a mobilização planejada. Ele explicou que o Comitê Central tinha que seguir a ordem formal do Congresso Soviético e que a contrarrevolução pretendia usar a manifestação para seus próprios propósitos. Lenin acrescentou:

    Mesmo em uma guerra simples, pode acontecer que as ofensivas programadas devam ser canceladas por razões estratégicas e isso é mais provável que ocorra na guerra de classes. É necessário determinar a situação e ser ousado nas decisões.

    O Congresso dos Sovietes votou a organização de sua própria marcha uma semana depois, em 18 de junho, e ordenou a participação de todas as unidades militares aquarteladas, desarmadas. Os bolcheviques transformaram esta em uma manifestação maciça contra o governo, com mais de quatrocentos mil manifestantes.

    Em seu relato de testemunha ocular da Revolução Russa, Nikolai Sukhanov lembra:

    Todos os trabalhadores e soldados de Petersburgo tomaram parte nela. Mas qual foi o caráter político da manifestação? “Os bolcheviques de novo”, observei, olhando os slogans, “e lá atrás deles está outra coluna bolchevique”. . . “Todo o poder aos Sovietes!” “Abaixo os Dez Ministros Capitalistas!” “Paz para os casebres, guerra aos palácios!” Com esta maneira robusta e pesada, o trabalhador-camponês de Petersburgo, a vanguarda da revolução russa e mundial, manifestou a sua vontade.

    Os bolcheviques haviam planejado a manifestação original com a Federação de Petrogrado dos Anarquistas-Comunistas, um dos dois principais grupos anarquistas que operavam naquele momento. O Comitê Revolucionário Provisório Anarquista decidiu superar seu aliado e rompeu com F. P. Khaustov, editor do jornal linha de frente da Organização Militar Bolchevique, fora da prisão de Vyborg.

    Em resposta, o governo invadiu a sede dos Anarquistas, matando um de seus líderes. Combinado com a Ofensiva de Julho de Kerensky e novas ordens para armas e homens, o assassinato de Asnin intensificou a agitação militar, particularmente no Primeiro Regimento de Metralhadora. Esses soldados começaram a planejar um levante imediato – com o encorajamento dos Anarquistas-Comunistas – já em 1 de julho.

    Na Conferência das Organizações Militares Bolcheviques de Toda a Rússia, os delegados foram alertados a não darem nenhuma vantagem ao governo, ao organizarem um levante desorganizado e prematuro. O discurso de Lenin em 20 de junho soou um aviso premonitório:

    Devemos ser especialmente atentos e cuidadosos, de modo a não sermos arrastados por uma provocação. (…) Um movimento errado da nossa parte pode destruir tudo. (…) Se fôssemos agora capazes de tomar o poder, é ingênuo pensar que, tendo-o tomado nós seríamos capazes de mantê-lo em nossas mãos.

    Já dissemos mais de uma vez que a única forma possível de governo revolucionário seria através dos Representantes dos Sovietes dos Trabalhadores, dos Soldados e dos Camponeses.

    Qual é o peso exato da nossa fração no Soviete? Mesmo nos Sovietes das duas capitais, para não falar agora dos outros, somos uma minoria insignificante. E o que esse fato mostra? Não pode ser descartado. Isso mostra que a maioria das massas estão oscilando, mas ainda acreditam nos Socialistas Revolucionários e nos mencheviques.

    Lenin voltou a essa ideia em um editorial do Pravda (editorial):

    O exército marchou até a morte porque acreditava que estava fazendo sacrifícios pela liberdade, pela revolução e pelo alcance da paz o mais rápido possível.

    Mas o exército o fez porque é apenas uma parte do povo, que nesta fase da revolução estão seguindo os partidos Socialistas-Revolucionárias e Mencheviques. Este fato geral e básico, a confiança da maioria na política pequeno-burguesa dos Mencheviques e dos Socialistas-Revolucionários, que depende dos capitalistas, determina a posição e a conduta de nosso Partido.

    Mas, nas palavras de Trotsky, os trabalhadores e os soldados:

    [L]embraram ou que em fevereiro, seus líderes estavam prontos para bater em retirada, exatamente na véspera da vitória; que em março a jornada de oito horas por dia foi conquistada pelas ações dos escalões mais baixos; que em abril Miliukov havia sido expulso por regimentos que foram para a rua por sua própria iniciativa. A lembrança desses fatos aumentou o clima tenso e impaciente das massas.

    Líderes de nível da Unidade da Organização Militar de Petrogrado apoiaram a ação imediata e direta contra o Governo Provisório e muitos membros da base do partido bolchevique já consideravam inevitável e até desejável um levante sem mais demoras.

    Mesmo quando a ofensiva estava prestes a entrar em colapso, no entanto, o governo entrou em espiral em outra crise: quatro ministros do partido cadete deixaram a coalizão, protestando contra o compromisso de Kerensky com a Rada Central da Ucrânia. Essa deserção abrupta deixou o governo, agora composto por seis ministros socialistas e apenas cinco capitalistas, desorganizado e vulnerável. À medida que as jornadas de julho começaram, os bolcheviques conquistaram a maioria na seção do Soviete de Petrogrado dos trabalhadores, atestando a sua crescente influência entre as massas.

    A Manifestação Armada
    A série de eventos conhecidos como as jornadas de julho começou no dia 3 de julho, quando o Primeiro Regimento de Metralhadora lançou uma rebelião com o apoio de várias outras unidades militares. A eclosão da revolta coincidiu com a segunda Conferência dos Bolcheviques na cidade de Petrogrado, que se iniciou em 1 de julho.

    Foi somente quando ficou claro que vários regimentos, apoiados pelas massas de trabalhadores, já haviam tomado as ruas e que os militantes bolcheviques da base estavam participando, que o Comitê Central se juntou ao movimento e recomendou que as manifestações continuassem no dia seguinte sob os auspícios dos Bolcheviques. Embora o Comitê Central entendesse que os manifestantes levariam armas, a recomendação não dizia nada sobre uma revolta armada ou a tomada de instituições governamentais. Em vez disso, a resolução oficial reiterou o apelo bolchevique para “a transferência de poder para os Representantes do Soviete dos Trabalhadores, dos Soldados e dos Camponeses”.

    Assim, a Organização Militar Bolchevique assumiu a liderança de um movimento de rua que havia, originalmente, se desenvolvido fora de seu controle. A erupção inesperada jogou o partido em desordem. Aqueles que obedeciam ao Comitê Central e argumentavam a favor do adiamento da revolução encontraram-se em conflito com outros, particularmente os membros da Organização Militar e o Comitê de Petersburgo, que eram a favor de uma ação imediata.

    Claro, um partido revolucionário experimenta um crescimento exponencial durante uma revolução: já vimos que o partido bolchevique em Petrogrado cresceu 1.600 por cento em menos de cinco meses. Isso sujeita o partido a uma pressão sem precedentes, que se manifesta em vários graus de intensidade em diferentes órgãos do partido e ameaça separar a organização.

    Nenhum arranjo organizacional pode impedir isso; todo um conjunto de circunstâncias – entre elas a confiança que a liderança do partido tenha conquistado – impacta em como os eventos revolucionários se desdobrarão. É por isso que a construção de um partido não pode ser feita no calor do momento, como a Revolução Alemã iria demonstrar.

    Em 3 de julho, os manifestantes armados tentaram, sem sucesso, prender Kerensky antes de irem para o Palácio Tauride, sede do Comitê Executivo Central Soviético. Eles pretendiam forçar este grupo a tomar o poder do Governo Provisório.

    A multidão – estimada em sessenta a setenta mil pessoas – superou as defesas do palácio e apresentou sua demanda. O comitê executivo recusou. Trotsky capturou a ironia do momento quando ele observou que, enquanto centenas de milhares de manifestantes exigiam que os líderes soviéticos assumissem o poder, a liderança em si estava procurando as forças armadas para usar contra os manifestantes.

    No rescaldo da revolução de fevereiro, os trabalhadores e os soldados haviam dado o poder aos Mencheviques e aos Socialistas Revolucionários, mas esses partidos tentaram entregá-lo à burguesia imperialista, preferindo uma guerra contra o povo ao invés de uma transferência de poder sem sangue para suas próprias mãos. Quando os manifestantes de Julho perceberam que a liderança soviética não iria dispensar seus aliados capitalistas – a maioria dos quais deixara o governo por conta própria – a situação atingiu um impasse.

    “Tome o Poder, Seu Bastardo Maldito,Quando Ele é Dado a Você!”
    No dia seguinte, Lenin, que estava ausente, na Finlândia, foi direto para a sede do Partido Bolchevique, a mansão de Kshesinskaia. Em breve, marinheiros da base naval de Kronstadt chegaram lá também. O último discurso público de Lenin até depois da Revolução de Outubro não era o que os marinheiros esperavam: ele enfatizou a necessidade de uma manifestação pacífica e expressou sua certeza de que o slogan “Todo Poder aos Sovietes” venceria. Ele concluiu apelando aos marinheiros para que tivessem auto restrição, determinação e vigilância.

    As Jornadas de Julho lançaram o Comitê Central Bolchevique, e particularmente Lenin, em uma luz mais que incomum: eles haviam impedido um levante prematuro na capital que, se tivesse acontecido, poderia ter isolado os bolcheviques e esmagado a revolução, como aconteceu com a Comuna de Paris em 1871 e à Revolta Espartaquista em Berlim, em 1919.

    Uma forte procissão estimada em sessenta mil participantes dirigiu-se ao Palácio Tauride, apenas para encontrar os franco-atiradores na esquina das Ruas Nevsky e Liteiny e novamente na esquina das Ruas Liteiny e Panteleymonov. A maioria das vítimas, no entanto, veio de confrontos com dois esquadrões Cossacos, que empregaram até artilharia contra os manifestantes. Após essas batalhas campais, os marinheiros de Kronstadt, liderados por Fyodor Raskolnikov, chegaram ao Palácio Tauride, onde se juntaram ao Primeiro Regimento de Metralhadora.

    Petrogrado, 4 de julho de 1917. Manifestantes em Nevsky Prospect buscam refúgio logo após as tropas abrirem fogo.

    Petrogrado, 4 de julho de 1917. Manifestantes em Nevsky Prospect buscam refúgio logo após as tropas abrirem fogo.

    Então, aconteceu um dos eventos mais dramáticos e tragicômicos do dia: Victor Chenov, o chamado teórico dos Socialistas Rveolucionários, foi enviado para acalmar os manifestantes. A multidão o agarrou, e um trabalhador com o punho em riste disse: “Tome o poder, seu bastardo maldito, quando ele é dado a você!”

    Eles declararam Chernov sob prisão e o levaram para um carro nas proximidades. A intervenção oportuna de Trotsky salvou o ministro. Sukhanov descreveu a cena bizarra:

    A multidão estava em tumulto, tanto quanto os olhos podiam alcançar. (…) Todo o Kronstadt conhecia Trotsky e, alguém teria pensado, a multidão confiava nele. Mas ele começou a falar e a multidão não atenuava os ânimos. Se um tiro tivesse sido disparado nas proximidades naquele momento para fins de provocação, uma enorme matança poderia ter ocorrido e todos nós, incluindo talvez Trotsky, poderíamos ter sido destruídos. Trotsky, excitado e não encontrando palavras nesta atmosfera selvagem, mal conseguia que as fileiras mais próximas o escutassem. (…)

    Quando ele tentou conduzir o próprio Chernov, as fileiras ao redor do carro se enfureceram. “Vocês vieram declarar a vossa sua vontade e mostrar ao Soviete que a classe trabalhadora não quer mais ver a burguesia no poder [declarou Trotsky]. Mas por que prejudicar a sua própria causa por pequenos atos de violência contra indivíduos casuais? Cada um de vocês tem demonstrado sua devoção à revolução. Cada um de vocês está pronto a dar sua vida por ela. Eu sei disso. Me dê sua mão, camarada! Sua mão, irmão! Trotsky estendeu a mão para um marinheiro que protestava com especial violência. Mas este recusou-se firmemente a responder. (…) Pareceu-me que o marinheiro, que deve ter ouvido Trotsky em Kronstadt mais de uma vez, teve agora uma sensação real de que ele era um traidor: ele se lembrou de seus discursos anteriores e ficou confuso. (…) Não sabendo o que fazer, os homens do Kronstadt liberaram Chernov.

    Chernov retornou ao Palácio Tauride e escreveu oito editoriais condenando os bolcheviques. A revista Socialista Revolucionária Delo nadora finalmente publicou quatro deles.

    No entanto, o Governo Provisório, como um todo, se vingou de uma maneira muito mais pérfida: no dia seguinte, começou uma campanha caluniosa que descrevia Lenin – que havia chegado à Rússia viajando pela Alemanha em um trem selado – como um agente a serviço do imperialismo alemão.

    Triunfo Temporário Da Reação
    Em 5 de julho, o Comitê Executivo Central Soviético e o Distrito Militar de Petrogrado lançaram uma operação militar para reassegurar o controle da capital. As tropas leais ao governo ocuparam a mansão de Kshesinskaia e destruíram a planta de publicação doPravda. Lenin escapou por pouco.

    É inútil especular que, se ele tivesse sido apanhado, teria encontrado o mesmo destino que Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht no rescaldo da Revolta Espartaquista, mas podemos encontrar uma pista em uma caricatura publicada no jornal de direita Petrogradskaia gazeta dois dias depois:

    Lenin quer um alto posto? Bem? ... A posição está pronta para ele.

    As tropas leais também ocuparam as Fortalezas de Pedro e Paulo, que o Primeiro Regimento de Metralhadora havia rendido a mando da Organização Militar Bolchevique. O Comitê Central do Partido instruiu seus seguidores a encerrar as manifestações de rua, convidando os trabalhadores a voltarem ao trabalho e os soldados a retornarem aos seus quartéis.

    Enquanto isso, o governo ordenou a prisão dos principais Bolcheviques, incluindo Lenin, Kamenev e Grigory Zinoviev, bem como Trotsky e Anatoly Lunacharsky, os chefes da Organização Interdistrital. Embora alguns desses prisioneiros políticos, incluindo Trotsky, tenham deixado a prisão durante o golpe de Kornilov para organizar a resistência dos trabalhadores, outros permaneceriam na prisão até a Revolução de Outubro.

    Assim terminaram as Jornadas de Julho, que foram, nas palavras de Lênin, “algo consideravelmente mais do que uma manifestação e menos do que uma revolução”.

    Alguns dos principais líderes do Partido Bolchevique tiveram que passar à clandestinidade, e seus jornais foram fechados, mas o revés foi de curta duração. A ofensiva fracassada do 11º exército na frente sudoeste contra um enorme contra-ataque austro-alemão, acompanhada da deterioração da situação econômica, renovou a validade dos slogans bolcheviques.

    Na verdade, os jornais Bolcheviques logo reapareceram com nomes ligeiramente alterados, e os comitês do partido encontraram novas bases muito rapidamente. Desarmar as unidades militares rebeldes, como o governo havia ordenado, era mais fácil dizer do que fazer. Em breve, a derrota do golpe de Kornilov em agosto de 1917 inverteu a situação, criando finalmente as condições para a tentativa bem-sucedidada tomada do poder pelos Bolcheviques.

    Sobre o autor
    Daniel Gaido é pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (Conicet), Argentina.

  • Heather Heyer, presente: neonazismo assassina ativista de esquerda nos EUA

    EDITORIAL 14 DE AGOSTO DE 2017

    Heather Heyer foi assassinada no último sábado (12), em Charlottesville, na Virgínia, nos EUA por um ataque terrorista de neonazistas. Heather trabalhava em um escritório de advocacia, tinha 32 anos e era uma apoiadora de Bernie Sanders. Um dia antes da manifestação postou em seu perfil no facebook “Se você não está indignado, você não está prestando atenção”, um slogan que virou muito popular depois que Trump assumiu a Presidência. No momento em que foi assassinada, cantava junto aos manifestantes “Vidas Negras Importam”.

    Em primeiro lugar, nossa nossa solidariedade aos amigos, familiares e camaradas de Heather. Ela não será esquecida. Deu a sua vida pela causa do igualitarismo e da luta contra o racismo. A melhor maneira de a honrarmos é manter essa luta e intensificar a batalha por um mundo livre do racismo, da xenofobia, do machismo, da LGBTfobia, da opressão e exploração. É lutar por um mundo comunista.

    Entenda o caso
    Na última sexta-feira (11), centenas de neonazistas participaram de uma manifestação para impedir a retirada de uma estátua do general Robert E. Lee, que comandou os Estados Confederados contra o Norte abolicionista na Guerra Civil (1861-65) norte-americana. A manifestação foi convocada sob o slogan “unir a direita”, contava com tochas, símbolos da Klu Klux Klan, e tinha vários líderes de grupos neonazistas como Richard Spencer. Entre os manifestantes havia bandeiras e palavras de ordem contra negros, judeus, hispânicos, LGBTS, manifestantes de esquerda e imigrantes.

    Os movimentos sociais reagiram na hora, formando um cordão humano na estátua e convocando uma manifestação no dia seguinte. A manifestação de sábado (12) contava com milhares de pessoas que cantavam palavras de ordem contra os neonazistas e contra o racismo, até que sobreveio o atentado terrorista da extrema direita: a manifestação foi invadida por James Alex Fields Jr. com um carro, atropelando cerca de 20 pessoas, matando Heather e deixando várias outras feridas. Após este ataque terrorista, conflitos entre manifestantes de esquerda e neonazistas desataram por vários picos da cidade. A imprensa local fala de um levantamento de 46 feridos, alguns em estado grave, resultado dos confrontos.

    No mesmo dia, dois policiais morreram quando monitoravam os confrontos com um helicóptero que se chocou em árvores. A imprensa não fala sobre as causas do helicóptero ter caído.

    Neste domingo (13), havia novas manifestações em solidariedade com a luta antifascista em Charlottesville e em homenagem a Heather Heyer, convocadas pelas organizações de esquerda em várias capitais dos EUA. Mas os neonazistas também convocaram novas manifestações: o líder local de Charlottesville Jason Kessler acusa o governo de impedir seus direitos constitucionais de manifestação e diz que seguirão nas ruas para defender os direitos dos brancos.

    A tragédia de Charlottesvile causou comoção nos EUA e em boa parte do mundo. Partidos políticos de esquerda, sindicatos, celebridades artísticas e personalidades políticas, organizações de direitos humanos e de luta contra o racismo e a xenofobia se manifestaram contra os neonazistas da Virgínia.

    Entre os feridos há Bill Burke, membro da International Socialist Organization (ISO), presente através do camarada Todd Chretien no I Congresso do MAIS e também militantes do Democratic Socialist of America (DSA) e do IWW (Industrial Workers of the World). Em razão das deficiências do sistema de saúde norte-americano, há uma série de campanhas financeiras para ajudar os feridos e também a família de Heather.

    A tensão racial nos EUA atinge seu auge
    A eleição de Trump marcou um momento mais desfavorável para a luta dos oprimidos e explorados. Mas o histórico de racismo nos EUA é só comparável ao do Brasil, em que ambas sociedades foram fundadas sobre a escravidão negra. Foi durante o governo de Obama, primeiro presidente negro da história dos EUA,
    que explodiu a luta por “Vidas Negras Importam” com o assassinato de dezenas de pessoas negras pela violência policial nos EUA. E a reação com a eleição do direitista desatou um imenso movimento de protesto que teve seu ápice na marcha nacional de mulheres contra Trump.

    O movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) postou em sua página no facebook após o ocorrido que, em face do ódio da Ku Klux Klan e dos nacionalistas brancos, apoiam “as pessoas de Charlottesville que lutam contra o fascismo e o racismo” (…) “vivemos em um mundo onde os negros são alvo de morte e destruição. E em um país onde há centenas de estátuas e monumentos dedicados à confederação, não podemos nos surpreender quando momentos como esses acontecem – na verdade, Charlottesville é uma confirmação da violência que os negros precisam suportar no dia a dia”.

    A hipocrisia da imprensa capitalista norte-americana
    É espantoso perceber o tamanho da hipocrisia da imprensa capitalista norte-americana. O New York Times chegou a por no ar uma matéria falando que “protestos terminam com mortos e feridos em Virgínia”, minimizando a ação dos neonazistas e colocando a culpa nos protestos, que são ações e não pessoas, e estimulando por lógico as pessoas serem contra protestos.

    Depois, o mesmo NYT chegou ao absurdo dizendo que um carro atropelou e matou uma ativista dos movimentos sociais, tentando limpar a responsabilidade dos neonazistas, como se o objeto “carro” não dependesse de um motorista da ultra direita. Outros veículos como a BBC chamam o assassino de Virginia de suspeito e o ataque terrorista de conflito – usando um termo em inglês “clash” que insinua algo ambíguo, de certa forma acidental, usado em acidentes de veículos, por exemplo. Após muitas críticas, ao longo do sábado a grande mídia americana foi se adaptando e mudando seus textos, mas ficou nítido qual foi o primeiro impulso, expressando uma visão muito hipócrita e reacionária.

    É indignante perceber, inclusive, os dois pesos e duas medidas usados. Até o fechamento deste editorial, não tivemos conhecimento de nenhum grande jornal ou televisão ter usado expressões como “terrorismo”, “ação premeditada”, “motivos ideológicos”, como sempre usam nos casos dos ataques terroristas ligados às organizações como o autodenominado Estado Islâmico e o Talibã.

    Trump está com os neonazistas
    Muitos dos grupos neonazistas já existiam, mas depois da posse de Trump se sentiram mais à vontade e agora têm coragem de sair às ruas às centenas. Richard Spencer organizou uma manifestação com tochas em Washington, logo após a eleição de Trump, em que se chegou a levantar o lema “Heil, Trump”, em alusão ao “Heil, Hitler”.

    Durante o sábado em que Heather Hayer foi assassinada, Trump primeiro se manifestou condenando a violência em Charlottesville e pedindo a união de todos sem criticar, ou sequer fazer menção ao ataque terrorista ou aos neonazistas. Interviu sobre uma lógica “dos dois demônios”, como se não houvesse assassino e vítima, como se não houvesse racistas neonazistas e ativistas dos movimentos sociais. Depois se manifestou veementemente em solidariedade aos policiais mortos na queda do helicóptero. E após muitas críticas, inclusive de alas da burguesia que já vêm fazendo oposição a ele, se manifesta com duas frases em sua rede social com “condolências à família da jovem mulher morta hoje em Virgínia”.

    O que os trabalhadores e a esquerda devem fazer?
    Apesar de os neonazistas terem assassinado um dos nossos, as mobilizações ainda são pequenas. Embora ideológicos e coesos, por enquanto são apenas centenas. Mas, aos poucos estão formando seus líderes, suas redes de relacionamento e construção, suas finanças e seus jornais. Portanto, atenção, as causas que permitem a extrema direita sair dos porões da marginalidade estão presentes e tendem a se aprofundar. Dez anos depois da crise do Lehman Brothers, que estourou a bolha de especulação imobiliária nos EUA, a crise econômica e social nos EUA está drenando uma parte da classe trabalhadora a posições radicalizadas à direita. São a queda do nível de vida da classe trabalhadora, os planos de austeridade e a crescente desigualdade de que deles advêm que potencializam a reação de extrema direita.

    O Partido Democrata e seus satélites não têm saídas para isso, pois defendem e aplicam o mesmo modelo capitalista e excludente e não querem apoiar a luta nas ruas contra os fascistas. Não por acaso, o prefeito Democrata de Charlottesville, apesar de falar contra os racistas, apelou a que não houvesse manifestações contrárias.

    É preciso construir uma frente única com todas organizações políticas dos movimentos dos trabalhadores, os sindicatos, os movimentos de mulheres, negros, hispânicos e demais imigrantes, os grupos estudantis de esquerda, entre outros, para derrotar a extrema direita em todo o país. Essa frente única não deve confiar ao Estado a luta contra o neonazismo, o que não significa que não deva denunciar as instituições por serem omissas na luta contra os neonazistas e a extrema direita.

    A polícia norte-americana, com a cumplicidade do Poder Judiciário, é uma instituição racista que assassina centenas de negros nos EUA e Trump representa justamente o crescimento de setores radicais de direita. Nem a polícia, nem o Poder Judiciário e muito menos Trump, são aliados para enfrentar a ultra-direita. Só a classe trabalhadora e os movimentos sociais dos oprimidos e de esquerda podem caber nessa frente única.

    As lições históricas pelo mundo e nos próprios Estados Unidos nas imensas lutas pelos Direitos Civis apontam a necessidade da mais ampla unidade e mobilização nas ruas para enfrentar os fascistas e racistas. Só a força social dos de baixo, dos explorados e oprimidos poderá impedir que cresçam. E a luta recém começou.

    E como o caráter da luta contra os neonazistas nos EUA se tornou rapidamente um conflito físico, é preciso criar, desde já, grupos de autodefesa nos sindicatos, nas organizações de esquerda e no conjunto dos movimentos sociais. É preciso ter muito evidente a necessidade de agir em legítima defesa com toda força e meios necessários.

    Para ganhar peso e credibilidade, este movimento amplo e multirracial baseado nos trabalhadores e oprimidos precisa apresentar uma alternativa política à crescente desigualdade social, aos planos de austeridade e ao desespero que causam e que alimentam o crescimento da direita radical. Movimento esse que deve apontar para a luta contra os verdadeiros inimigos que enfrentam os trabalhadores e o povo: o grande capital, as instituições e os partidos políticos a seu serviço.

  • Alguém tem que tomar um lado

    “Vários lados” não estão promovendo racismo e ódio. Um lado está. E o nosso é comprometido em pará-lo

    Por: Shuja Haider (traduzido por Gleice Barros – Equipe Esquerda Online)
    Originalmente publicado na Jacobin Magazine

    Ontem, o ato da organização Unir a direita, em Charlottesville, Virginia, reuniu grupos de supremacia branca de todo o país para exibir seu volume, em ambos sentidos da palavra. Eles trajavam figuras ridículas a principio, vestidos em calças de sarja e camisas polos, brandindo velas de citronela e gritando estranhamente.  Sua presença foi recebida por uma forte oposição, composta por representações locais de Black Lives Matters [Vidas Negras Importam], Socialistas Democratas da América, Trabalhadores Industriais do Mundo e outros grupos. Mas o ato seguiu para um caminho violento. Um jovem branco nacionalista chamado James Alex Fields Jr dirigiu sua Dodge Challenger prateada sobre a multidão de contra manifestantes, deixando muitos feridos e pelo menos uma jovem morta.

    Pouco depois, o presidente Trump fez uma declaração de seu campo de golfe em New Jersey. “Condenamos, nos mais fortes termos possíveis, esta exibição flagrante de ódio, intolerância e violência de vários lados”, disse após acrescentar novamente “de vários lados”.

    O termo “vários lados” parece descrever corretamente o sentido legitimo de vários observadores. Em um confronto entre racistas e antirracistas, cujas ações racistas resultam em mortos e feridos entre os antirracistas, a conta parece não bater quando se diz existirem múltiplos lados equivalentes.  A reticência do presidente Trump traz um viés reacionário que não é surpresa. Mas sua retórica não é exclusiva – a grande mídia e intelectuais liberais já tinham estabelecido o precedente.

    Na manhã anterior à manifestação, Mieky Eoyang, vice-presidente do Programa de Segurança Nacional da organização centrista Third Way, tuitou “Se os amigos de Bernie [Sanders] querem fazer um show de forças em defesa de valores progressivos, sábado em Charlottesville será um bom momento”.

    Neera Tanden, presidente da organização liberal Centro para o Progresso Americano, se virou com desdém para a esquerda, mais tarde, no mesmo dia. “Temos verdadeiros fascistas marchando com tochas. Talvez cada um que esteja do lado progressivo deva se focar nos inimigos do progresso à nossa frente”, tuitou. “Estamos prontos para nos juntar a Neera”, disse em resposta um jovem ativista. A resposta de Tanden foi chamá-lo a condenar “aqueles da esquerda que desejam se juntar aos fascistas”.

    Ao anoitecer, Sheyl Gay Stolberg, jornalista do New York Times que se reportava de Charlottesville, tinha tuitado “a extrema esquerda parece ter o mesmo ódio que a extrema direita”.

    Esta falácia centrista apareceu anteriormente neste ano, em um artigo de James Wolcott na Vanity Fair, em que aponta o dedo para os chamados alt-left (extrema esquerda). Wolcott também direciona seus julgamentos a vários lados.  Ele caracteriza o crescimento da esquerda radical e socialista, formalmente desprezada com um mais esclarecido apelido: amigos de Bernie, como algo mais sinistro. Existe um “parentesco”, alega, entre a extrema esquerda e a supremacia branca da ultra-direita. Elas são unidas pela “desilusão com a presidência de Obama, repúdio a Hillary Clinton, desgosto com identidades políticas e um desejo de mudança que irá abrir caminho para um futuro melhor”.

    A tocha vem sendo levada por liberais centristas desde então. Apenas uma semana antes do ato da Unidos pela Direita, o periódico Atlantic publicou um artigo de Peter Beinart criticando o “Surgimento da Violência Esquerdista”.  Beinart focou nos “antifa” que se refere a grupos táticos de ativistas de esquerda dedicados a defender a si mesmo e seus companheiros da violência fascista. “As pessoas que impedem republicanos de se reunirem em segurança nas ruas de Portland podem se considerar fortes adversários do autoritarismo crescente da direita americana” escreveu. “Na verdade, eles são os aliados mais indesejados”.

    No dia anterior a manifestação, o Wall Street Journal publicou um extrato de um livro a ser lançado de Mark Lilla, The Once and Future Liberal, que sugere que os antirracistas de esquerda criaram uma força centrifuga, causando um movimento em espiral e dissipação em facções. Mesmo que levemos em conta sua complicada metáfora, que se baseia em um conceito inexistente para a física moderna, esta o leva a perigosas conclusões.

    “Vidas Negras Importam é um exemplo escrito de como não construir solidariedade” Lilla escreve. “Não sou um motorista negro e nunca vou saber como é ser um. Se eu vou ser afetado por essa experiência, eu preciso de algum jeito de me identificar com ele, e cidadania é a única coisa que conheço que compartilhamos”.

    Isso não é apenas um fracasso da imaginação, embora com certeza seja. É um fracasso moral e estratégico também. Oferece nenhuma distinção significativa da politica de Donald Trump, que, depois da violência em Charlottesville, tuitou: “Temos que lembrar a verdade: não importa nossa cor, credo, religião ou partido politico, somos PRIMEIRO TODOS AMERICANOS”.

    A primeira declarada morta em Charlottesville foi Heather Heyer, uma advogada de 32 anos, que aparentava pela sua pagina no Facebook ser uma apoiadora de Bernie Sanders. “Se você não está indignado, você não está prestando atenção”, disse em sua ultima postagem.  A mesquinharia de ridicularizar os ‘amigos de Bernie’ ou comparar a esquerda a ultradireita se torna ainda mais ofensivo a luz da coragem de Heather e da tragédia que se sucedeu.  Olhando para circunstancias como estas e vendo “vários lados”, indistinguíveis uns dos outros, numa posição que a historia revelou nada além de covardia moral.

    Esta posição é o objetivo do romance de Graham Greene, O Americano Tranquilo, que segue Thomas Fowler, um jornalista da colonial Vietnã dos anos 1950 e que se dedica a permanecer a qualquer situação. Seu amigo um agente disfarçado da CIA chamado Alden Pyle, que defende vários políticos centristas que chama de “Terceira Força” – que se opõe tanto ao comunismo quanto ao colonialismo, vendo-os como ameaças equivalentes.  Quando Fowler descobre que Pyle estava envolvido em um ato de terrorismo em Saigon, detonando um carro bomba e matando civis, ele vai falar com um membro do partido comunista que conhece como Senhor Heng.

    “Mais cedo ou mais tarde… alguém tem que tomar um lado – se este alguém quer se manter humano”, Heng diz a ele.

    O centrismo liberal tem que prestar atenção no mesmo aviso. A fim de rejeitar os equívocos de Trump sobre “vários lados”, nós temos que escolher um.  Existe um lado que reivindica nossa humanidade comum e luta contra o fascismo, racismo e ódio. Foi representado em Charlottesville por grupos de esquerda que tomaram as ruas para enfrentar a ultradireita. O outro lado é aquele que levou vidas inocentes naquelas mesmas ruas.  As apostas são altas e temos que escolher.

  • Luta contra Reforma da Previdência deve ser pauta para ganharmos de volta as ruas

    Editorial 8 de agosto

    A conjuntura aberta pela crise com as delações da JBS se encerrou com a votação que não deu prosseguimento à denúncia de Janot contra Temer por corrupção passiva na Câmara dos Deputados. Em termos políticos, isso significa que o governo saiu de uma situação defensiva e está rearticulando a pauta de ataques contra o povo brasileiro. O arrefecimento das lutas da classe trabalhadora também é uma das marcas dessa conjuntura, diferente do primeiro semestre marcado pelas lutas de resistência. Para uma boa análise de conjuntura devemos identificar os movimentos de ofensiva dos nossos inimigos para da melhor maneira possível preparar a reação da classe trabalhadora.

    A mudança da conjuntura, onde estava colocada na ordem do dia a queda do governo, não significa a perda de importância da luta pelo Fora Temer e pelas diretas. Cabe agora buscar a melhor maneira de movimentar a classe trabalhadora para ir às ruas e colocar de novo a perspectiva de derrubar esse governo corrupto. Tudo indica que a melhor maneira de fazer isso é rearticular novamente uma forte campanha contra a Reforma da Previdência.

    Os meses de agosto, setembro e outubro serão decisivos. A orientação de Temer é colocar ao menos dois temas para votação no Congresso Nacional. Na Câmara dos Deputados, em setembro, a Reforma da Previdência em primeiro turno. No Congresso Nacional, até o final de setembro, a Reforma Política. Ambas medidas representam um grande retrocesso de direitos democráticos mínimos garantidos na constituição de 88 para a classe trabalhadora.

    A ofensiva sobre a Previdência
    No início de maio foi aprovado o texto base da reforma (PEC 287/16) na Comissão Especial da Reforma da Previdência da Câmara. Desde então, o texto está liberado para ir a plenário. Isso não ocorreu ainda por causa da crise política que foi aberta com as delações dos irmãos Batista, no dia 17 de maio.

    Um dos efeitos da crise foi a divisão da base aliada no Congresso Nacional. Somada à grande contestação das ruas sobre a reforma, fez com que houvesse uma paralisação no trâmite da PEC 287/16. O governo não tinha mais os dois teros garantidos de deputados para aprovar uma emenda constitucional e tinha medo de apresentar a reforma em plenário e, pelo seu grande grau de rejeição pelo povo, servir de combustível para mobilizações.

    A aprovação da Reforma Trabalhista e a votação do não prosseguimento da ação de corrupção contra Temer por maioria simples, tendo como consequência a mudança de conjuntura, reforçam uma mudança de ação por parte do governo. Neste momento, está em operação no Congresso Nacional uma negociação com direito a compra de votos através de emendas e negociações espúrias com os partidos da base aliada. Querem condições para conseguir de volta os dois terços de deputados para ser apresentado o projeto. Há indícios de que o governo conseguirá seu objetivo.

    Neste sentido, é fundamental a rearticulação de uma forte campanha contra a Reforma da Previdência. Temer já indicou que vai concentrar a reforma na mudança da idade mínima e na retirada de direitos dos servidores públicos, chamados pelo governo de privilegiados.

    É preciso rearticular uma grande campanha nacional contra a Reforma da Previdência, uma grande frente única nacional que movimente a classe trabalhadora para, nas ruas, barrar esse ataque.

    A Reforma Política contra os partidos ideológicos
    São dois os Projetos de Emenda à Constituição (PEC 77 e PEC 282) em trâmite no Congresso Nacional. Para valer nas próximas eleições devem ser aprovadas na Câmara e no Senado até o dia 1 de outubro.

    A PEC 282 já foi votada no Senado e sua principal proposta é criar uma cláusula de barreira. Os partidos precisam ter 2% para deputado federal em 14 estados da federação para conseguir ter acesso ao fundo partidário, liderança na Câmara e Senado e acesso a TV. Hoje são poucos partidos que conseguem esse resultado.

    É uma medida que, através da discussão de acabar com as legendas de aluguel, busca atingir partidos ideológicos como o PSOL, PSTU e PCB.

    A PEC 77, relatada pelo Deputado Vicente Cândido do PT, institui o sistema distrital misto, ou seja, 50% das vagas seriam eleitas no sistema atual e outros 50% por distritos definidos pela Justiça Eleitoral. Essa medida aumenta o personalismo na política brasileira e é contra os partidos. Uma outra medida da PEC é criar um fundo eleitoral que aumenta ainda mais o dinheiro que vai para partidos como o PMDB, PSDB e PT. Além disso, existe ainda uma negociação em curso para a volta do financiamento eleitoral empresarial.