Cultura

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  • Polícia dificulta atividade cultural Batalha das Pistas, em Mauá, SP

    Por: Everton Bertucchi, de Mauá, SP

    A Guarda Civil Metropolitana de Mauá impediu o acesso de cidadãos ao evento cultural Batalha das Pistas, que ocorre todas as quartas-feiras, no Parque da Juventude, na cidade. O evento iniciou às 19h, mas às 21h foi fechado o portão da área pública que deveria estar aberto até as 23h. As pessoas somente podiam sair do parque, ninguém mais foi autorizado, pela GCM, a entrar.

    Vários jovens que tentavam participar da atividade cultural, foram impedidos de entrar ao Parque

    Vários jovens que tentavam participar da atividade cultural, foram impedidos de entrar no Parque

    Ao ser indagado sobre o porquê da ação, que impedia a entrada em um espaço que é público, um policial afirmou que eram orientações e que reclamações deveriam ser encaminhadas ao Ministério Público.

  • O rosto borrado da juventude brasileira

    Comentário sobre a Websérie “O Filho dos Outros” que estreou nesta quarta-feira na internet

    Por: Paulinho Tó*, de São Paulo, SP

    Sem dúvida, um dos elementos mais relevantes da conjuntura política brasileira atual é o crescimento da extrema direita. Essa direita, que até pouco tempo andava de cabeça baixa, envergonhada dos crimes cometidos pela ditadura militar, recoloca em pauta, com o peito cheio, a discussão sobre a redução da maioridade penal. A consequência objetiva disso é o projeto de lei que tramita atualmente no parlamento, com grandes possibilidades de ser aprovado. Imerso nesse contexto de polarização política, a Websérie documental “O Filho dos Outros” é concebida pelo Coletivo Rebento e estreou nesta quarta-feira, dia 22 de março, na internet.

    Dividida em quatro episódios, a obra mergulha nas condições das casas de “reabilitação”, na realidade do jovem infrator, no sofrimento de seus familiares, no mercado do crime e no universo cultural do adolescente das periferias brasileiras. Logo de cara, o público é introduzido à dura realidade das casas “socioeducativos” no Brasil, em que, muitas vezes, os jovens são agredidos e torturados sistematicamente e que, em alguns casos (como no Estado do Ceará), essas instituições funcionam de maneira quase idêntica ao sistema carcerário. E essa tem sido a tendência das casas em todo o Brasil, o que significa que o encarceramento de menores já acontece, na prática. O primeiro episódio, “Pea”, mostra a falência desse sistema, comprovada pela altíssima reincidência do jovem liberto no crime.

    Enquanto a direita militante da redução da maioridade penal, munida de todo tipo de preconceito, se esforça em retirar a humanidade desses jovens, em reduzi-los ao conceito mistificador de “bandido”, apagando, com isso, qualquer possibilidade de empatia com ele, o segundo episódio de “O Filho dos Outros” nos aproxima da realidade de alguns desses jovens, em entrevistas concedidas pelas mães e por ex-internos da antiga Febem, atual Fundação Casa. Ouvimos as histórias de sofrimento e as consequências psicológicas e emocionais da internação para esses jovens, bem como a agonia vivida por seus familiares do lado de fora.

    Os relatos continuam no episódio seguinte, “Ovelha Negra”, que procura mostrar como esses jovens entram no mundo do crime – as circunstâncias de suas vidas e suas motivações. A dinâmica desses relatos, sempre intercaladas por entrevistas de estudiosos no assunto, é bastante esclarecedora. A entrada desses jovens na criminalidade é observada na perspectiva do mercado bilionário do crime, sobretudo o do tráfico de drogas, que, como qualquer setor econômico, atrai mão-de-obra de jovens periféricos em massa para executar seus serviços. Vemos que, a partir dos anos 1990, o mercado ilegal se fortalece com o a política de encarceramento, que, no limite, estimula a formação do PCC. Nesse sentido, o episódio pendula nossa atenção entre as razões, demasiadamente humanas, que levam determinados jovens a entrar para o mercado ilegal e a lucrativa “indústria” do crime.

    Por fim, em “Roda Gigante”, quarto e último episódio, entramos em contato com o universo cultural do adolescente da periferia. Através de relatos dos próprios adolescentes, o documentário nos aproxima das músicas, das roupas, das danças e da cultura do funk. Todos esses elementos culturais são geralmente utilizados pelas autoridades de forma preconceituosa para identificação de “suspeitos” – vide o caso dos “rolezinhos” em Shopping Centers de classe alta de São Paulo. No documentário, os jovens comentam esses eventos, marcados pelas redes sociais, reprimidos pela polícia e recriminados por diversos veículos da grande mídia.

    Em resumo, “O Filho dos Outros” discute, com inteligência e sensibilidade, os principais pontos da argumentação favorável à redução da maioridade: a sua ineficiência na reabilitação do jovem infrator; a falsa ideia de que a sua aplicação reduziria a criminalidade; a desmistificação da pecha de “bandido”; e o entendimento das razões objetivas que levam o jovem ao crime.

    A redução da maioridade é uma proposta populista da direita e tem encontrado ecos relevantes na sociedade brasileira. Por isso, “O Filho dos Outros” é uma obra corajosa e necessária pros nossos dias.

    Canais de exibição:
    YouTube (/ofilhodosoutros)
    Facebook (@ofilhodosoutros)

    ¬ Cronograma de divulgação

    1o ep – 22/03 (qua) – Pea
    2o ep – 24/03 (qui) – Salmo 121
    3o ep – 28/03 (ter) – Ovelha Negra
    4o ep – 30/03 (qui) – Roda Gigante

    *Paulinho Tó é músico, compositor e pesquisador de canção brasileira. Atualmente lançou seu segundo álbum de canções autorais, De cara no asfalto.

    Foto: Reprodução Youtube

  • Jogo privado de espelhos é um relato cru sobre um futuro bem próximo

    Por: Náthalia Lucia Gonçalves[1], de Santo André, SP

    Jogo Privado de Espelhos de Lucas Silva é um livro de ficção política que mostra um futuro que está a poucos anos de acontecer. Sua trama não linear e cheia de suspense coloca personagens distintos em um ambiente que reina a dúvida se esse futuro já não está ocorrendo.

    São Paulo foi divida territorialmente entre a iniciativa publica e privada, sendo as áreas de Fragilidade Econômica os locais aonde são postos sob os cuidados das empresa privadas. A parte que é conhecida como o centro velho (Brás, Anhangabaú, Luz, etc) está sob os cuidados de um conglomerado de várias empresas conhecido como a Repartição. Esse grupo terceirizou e “quarteirizou” os serviços básicos para outros grupos menores, nacionais e internacionais.

    Essa São Paulo do futuro é um pouco fria e sem esperança. Lucas Silva recorre a uma visão de futuro próxima de autores como Ignácio de Loiola Brandão, William Gibson e Philip K. Dick, para tornar os poucos avanços tecnológicos e econômicos desse mundo mais palpáveis para o nosso presente, como por exemplo, os trajes sonoros que jovens de periferia usam, que mudam de cor conforme o tom da musica.

    Nesse ambiente a trama de Jogo Privado de Espelhos acontece. Ela tem dois fatores importantes: Uma tentativa de um desvio de milhões de reais que acabou por não dar certo e o sequestro de uma criança, filha de um famoso empresário.

    Lucas Silva usa de interessantes ideias para contar sua história. Ele brinca com a proposta de uma São Paulo privatizada, para com isso “terceirizar” a trama do livro. Há um uso de metalinguagem de que a história principal é fragmentada em sete contos, passados dentro de uma semana, que mostram pontos de vista pessoal de cada personagem.

    Mas isso não torna a trama complexa, ela existe entre as histórias de cada personagem. Claro que sua proposta é fazer com que o leitor vá a recolhendo aos poucos. Por isso não existe uma linearidade na narrativa, os dias da semana não estão em uma ordem cronológica. Só que como a trama de Pulp Fiction, vemos as coisas se encaixando, personagens que acompanhamos a morte sendo peças relevantes do conjunto principal do livro, retornando para fazer parte de outras histórias.

    Em Jogo Privado de Espelhos, Lucas Silva teve como objetivo quebrar um pouco a rotina das narrativas mais lineares, sem com isso perder o sentido da história, que leva o leitor a conhecer muitos personagens e histórias fascinantes, desprezíveis, normais e peculiares.

    Jogo Privado de Espelhos foi lançado pelo Site Colunas Tortas em formato digital (e-book)

    Link para a compra do livro Jogo Privado de Espelhos

    [1] Nathália Lucia Gonçalves é formada em letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André em 2012. E trabalha como revisora ortográfica e redatora publicitária freelancer.

  • A Bela e Fera: Sonhar é preciso

    Por: Hyago Brayhan, de Brasília

    E finalmente chegou aos cinemas a aguardada produção de “A Bela e a Fera” em live-action (termo utilizado no cinema para definir os trabalhos que são realizados por atores reais). O esperado filme gerou muita expectativa desde a saída do primeiro trailer, que se tornou o mais visto da história. Com direção de Bill Condon (Chicago e A Saga Crepúsculo: Amanhecer 1 e 2) a película gerou polêmica nos EUA devido ao boicote de alguns cinemas americanos, que se recusaram a exibir o filme por conta dos personagens gays que têm destaque na produção.

    O filme tem uma ótima direção de arte, grande elenco e toda a nostalgia de reviver em carne e osso um dos maiores clássicos da Disney. A animação homônima de 1991 foi tão bem sucedida na década de 90 que concorreu ao Oscar de melhor filme. Por sua vez, “A Bela e a Fera” de 2017 mostra mais uma vez uma atualização do estúdio. E isso é muito bom. Não é novidade, por exemplo, que o estúdio sempre teve fortes personalidades LGBTs no seu comando. Entretanto, isso não se retratava em suas produções de maneira explícita.

    Howard Ashman, por exemplo, foi o responsável por ressucitar a Disney de uma grande crise na década de 90 com as famosas produções “A Pequena Sereia”, “A Bela e a Fera” e a “Alladin”. Gay e descendentes de judeus, Ashman se tornou um dos gênios de Hollywood e recebeu muitos prêmios pelo seu incrível trabalho, dentre eles Oscars, Globos de Ouro e até mesmo Grammys pelas suas onipresentes canções nos clássicos da Disney.

    Ashman era tão genial que roteirizou, produziu e escreveu músicas para “A Pequena Sereia”. Ele também compôs para “Aladdin”. No desenho “A Bela e a Fera” de 1991, esse gênio escreveu músicas e ficou responsável pela produção executiva. Entretanto, Ashman, como muitos LGBTs da década de 90, morreu de Aids oito meses antes do lançamento do filme. Quem inclusive recebeu o Oscar que Ashman ganhou por “A Bela e a Fera” foi o seu marido. A doença foi responsável por dizimar milhões de LGBTs, que foram assassinados por uma sociedade preconceituosa que achava que o vírus só atingia essas pessoas. E eu digo assassinato, pois a questão do HIV/AIDS só foi se tornar uma preocupação social quando deixou de ser uma questão só de LGBTs e daí por diante os governos e a sociedade começaram a combatê-la.

    Alguns pensam que essa nova virada liberal do ponto de vista dos valores do estúdio começou com a animação “Frozen”. Na verdade, isso vem desde a produção original de “A Bela Fera” como um ensaio e depois um giro definitivo em “Mulan” (1998), que inclusive é uma das próximas produções em live action do estúdio. Do ponto de vista da discussão moral, “A Bela e a Fera” de agora apresenta um posicionamento político mais forte do que a produção original. Afinal de contas, o mundo mudou e 1991 foi há 26 anos.

    A Bela, personagem principal, é agora uma mulher forte e inteligente de origem parisiense que não se identifica com a vida provinciana. Uma das cenas mais emocionantes tem haver com esse insight. Bela é escrachada pela a população de sua vila por ensinar uma menina a ler e tem sua grande invenção (uma máquina de lavar) destruída. Todavia, a produção não para por aí. As pessoas negras são destaque também. Elas não são apenas os servos nessa utopia, mas as responsáveis pelo conhecimento e participam de todo o desbunde estético e musical de maneira graciosa. Já a questão da homossexualidade é um importante reconhecimento. Afinal de contas, se não fosse um gay, a Disney não teria saído da ruína e “A Bela e a Fera”, como outras animações aqui já citadas, nem teriam existido.

    Do ponto de vista dessas motivações, a evolução do roteiro não para só por aí. A cena na qual o Príncipe se torna Fera não trata a Bruxa como um ser do mal. A Bruxa não é a vilã do filme, mas a personagem responsável por dar o gatilho ético do roteiro. Ela enfeitiça o príncipe por conta da soberba e egocentrismo do mesmo. Esses aspectos da personalidade do príncipe são definidos pela forma que ele tratava as mulheres, trabalhadores e a população. O Príncipe é descrito como um ardiloso homem que cobrava altos impostos da população que ele tratava de maneira cruel. Isso é uma alusão à nobreza pré-revolução francesa. O engraçado é perceber que a decadência da burguesia só a torna cada vez mais parecida com a nobreza no seu último suspirar antes das revoluções protagonizadas pelos trabalhadores, camponeses e a própria burguesia no milênio passado.

    Apesar dos problemas, como o infeliz CGI da Fera, “A Bela e Fera” é um desbunde estético e musical. Com sua densa discussão moral, é também uma produção que nos faz esquecer nossos problemas e fantasiar. Eu, definitivamente, saí da sala de cinema com um incrível desejo de que uma bruxa surgisse para colocar nossa decadente sociedade nos trilhos. Em tempos de ascenso conservador, de Temer e Trump, não seria nada mal que esse ser feminino, a bruxa, surgisse para ensinar a todos nós que lealdade, amor, respeito, liberdade e igualdade são os valores que nos tornam verdadeiramente humanos.

  • Chuck Berry: O único e eterno Rei

    Por: Tibita, do Rio de Janeiro

    Charles Edward Anderson”Chuck” Berry nasceu em 18 de outubro de 1926, em Saint Louis, Missouri, no sul dos Estados Unidos. Noventa anos depois, neste último final de semana, ele faleceu, tendo se tornado um dos músicos mais importantes do século XX e da história da humanidade.

    Com o estado do mundo e com uma enxurrada de mortes de personalidades conhecidas e amadas nos últimos anos, fica fácil não parar para pensar e tratar a morte de Chuck Berry como apenas mais uma. Mas ao se lembrar um pouco da história dele e de sua contribuição para a música popular, pode-se compreender por que ele merece ser homenageado com especial atenção.

    Sua vida começa fazendo parte de uma família com mais 5 irmãos e irmãs, um pai trabalhador da construção civil e diácono de uma igreja batista, e uma mãe diretora de escola. A vida que levava sua família, melhor do que a média das famílias negras no Sul dos EUA, permitiu que ele se dedicasse à música desde muito cedo. Sua primeira apresentação foi no Colégio Secundário Summers, onde estudava. No entanto, as condições sociais da comunidade negra, o racismo sistêmico do Estado e a pobreza, também o fizeram ter muito cedo experiências com o lado mais sombrio da sociedade. Ainda na escola, Chuck foi preso por assalto a mão armada e condenado ao reformatório, onde ficou preso de 1944 a 1947. Ainda preso, Chuck formou seu primeiro grupo musical, um quarteto vocal que chegou a receber autorização para realizar apresentações fora do reformatório.

    Livre, se casou e foi trabalhar. Ele teve vários empregos, inclusive como operário metalúrgico na indústria automotiva e zelador do prédio onde morava com a família. Mas pouco tempo depois, começou a tocar e cantar nos bares e clubes para levantar um dinheiro extra, com o qual conseguiu comprar uma casa, que hoje se encontra no registro de prédios históricos dos Estados Unidos. Dessa época, Chuck trouxe o aprimoramento de sua técnica na guitarra e seu estilo, fortemente influenciado pelo bluesman T. Bone Walker, um dos ídolos do jovem que iria revolucionar a música.

    No início dos anos 50, Chuck tocava com o Johnnie Johnson’s Trio, e começou a misturar no seu repertório, além do Blues, versões de músicas Country da época, como forma de agradar as plateias brancas. Essa combinação do Blues e do Country com uma guitarra elétrica se destacaram. Essas versões e arranjos contribuíram também para o amadurecimento do estilo musical que viemos a conhecer.

    Em 1955, em uma turnê, viria a chance para um grande salto. Após um show, Chuck Berry conheceu Muddy Waters, que muito bem impressionado pelo seu som o recomendou para gravar com a gravadora Chess Records. Ao conhecer Leonard Chess, Chuck pensava que seus blues seriam o alvo. Ele se surpreendeu ao ver que a música escolhida pela gravadora, na época preocupada com uma saturação do mercado de Rhythm and Blues, foi uma versão própria de Chuck para um clássico Country de rabeca: “Ida Red”. A canção passaria para história como seu primeiro sucesso “Maybellene”. Já nessa primeira gravação, Chuck atingiu a marca de mais de um milhão de cópias vendidas, e o primeiro lugar na parada da Billboard na categoria Rhythm and Blues.

    Seguida pelo sucesso que gritava: “Sai da frente Beethoven, se liga nesse Rhytm and Blues!”, os sucessos se acumularam. “School Days”, “Rock and Roll Music”, “Sweet Little Sixteen”, e claro, “Johnny B. Goode” são alguns exemplos de sucessos dessa época. Foi uma época em que Chuck Berry conheceu a fama e ganhou muito dinheiro, chegando inclusive a se tornar dono de uma casa noturna, o Clube Bandstand. Mas esse período também trouxe alguns dos momentos mais difíceis que Chuck Berry teve de atravessar. Um deles foi o processo contra os Beach Boys, pelo plágio de “Sweet Little Sixteen” em “Surfin USA”. No fim, Chuck obteve os direitos sobre a música e foi reconhecido com o crédito. Outro momento difícil é o que certamente ainda figura como a maior mancha na sua história.

    Em 23 de Dezembro de 1959, Chuck Berry foi preso por violação ao Ato Mann, uma Lei Federal estadunidense que visava combater o tráfico humano e a prostituição. Essa lei proibia o transporte de menores de idade através de fronteiras estaduais para “prostituição, atos libidinosos ou quaisquer propósitos imorais”. Ele havia sido acusado por Janice Escalanti, que, ao ser presa por prostituição, revelou ter, aos 14 anos, conhecido Chuck em um de seus shows e ter sido transportada e empregada como garçonete no clube dele. Apesar de Chuck Berry ter negado qualquer envolvimento com Janice e ter afirmado que a demitiu por que ela estava fazendo avanços inapropriados, Janice contava com o seu depoimento e de outras testemunhas, que confirmaram seu relato. Chuck foi condenado a 5 anos de prisão. Sem desconsiderar a gravidade das ações de Chuck Berry, é necessário considerar os elementos de racismo que envolveram seu processo e condenação. Tanto por se observar que as autoridades  norte-americanas se utilizaram desse expediente contra um número relevante de personalidades negras, como o pugilista Rubin Carter; quanto pelo fato de que posturas racistas do Juiz e sua influência sobre o Júri inteiramente branco foram reconhecidos pela Justiça, em uma apelação que manteve a condenação, mas reduziu a pena para 3 anos. Ao fim, Chuck Berry teve seu Clube fechado e ficou preso por um ano e meio.

    Após ser libertado, ele pôde retomar sua carreira e contou com a inesperada ajuda de bandas que faziam muito sucesso em meados dos anos 60, incluídas aí os Beatles e os Rolling Stones. Eles iniciaram a ‘invasão britânica’ nos Estados Unidos e prestavam homenagens regravando suas músicas. Chuck voltou aos palcos, ao rádio e às paradas, só que agora na Mercury Records.  “No Particular Place to Go”, e “You Never Can Tell”, duplamente imortalizada com sua utilização por Tarantino em “Pulp Fiction”, pertencem a esse período. Ao final da década de 60, no entanto, Chuck Berry retornou à Chess. Seus sucessos começavam a se tornar mais raros, e nesse período Chuck teve seu último hit nas paradas com a canção “Reelin’ and Rockin”, parte do disco London Sessions, que registrou a turnê de Chuck e outros astros da gravadora Chess pelo Reino Unido.

    Chuck Berry continuou tocando ao vivo regularmente através dos anos 70, 80 e 90, tendo contado com futuros astros como Bruce Springsteen em sua banda e com uma coleção de sucessos suficientes para sustentar sua carreira. Isso garantiu seu lugar não apenas no Hall da Fama do Rock n’Roll, mas também um lugar de honra no seu Concerto de inauguração. “Johnny B. Goode” foi incluída no disco da Voyager contendo informações sobre a Terra, e serve de testemunho e exemplo da beleza que nossa espécie é capaz de produzir. Chuck Berry será um de nossos representantes mais proeminentes caso a Voyager seja encontrada por civilizações alienígenas.

    Esse é um resumo de sua história, mas sua influência sobre a história da cultura nos EUA e no mundo precisaria de muito mais para ser exposta. O Rock n’Roll tem sua origem no Blues e no Jazz e  foi fruto de um processo social. Muitos podem ser apontados como passos fundamentais para a chegada ao gênero musical mais importante do século XX. Artistas negros como a Irmã Rosetta Tharpe ou Muddy Waters certamente trouxeram o Jazz e o Blues mais próximo do que viria a ser o Rock. Mas a primeira vez que o Rock n’Roll apareceu pronto, como produto acabado para o mundo, foi na guitarra cheia de riffs liderando o conjunto, e tocada com estilo, com as dancinhas e toda a sensualidade de Chuck Berry.

    Durante um período de tensão racial aberta da história dos Estados Unidos, que justificava a regravação domesticada da música dos negros nas vozes de Elvis ou Pat Boone, Chuck fez parte do primeiro time de artistas negros que ‘atravessaram’ a barreira para o mercado branco. Suas músicas foram regravadas por artistas como os Beatles, Rolling Stones, David Bowie, Eric Clapton, The Doors, Elton John, Jimmi Hendrix, Ramones e muitos, muitos mais. A partir de Chuck e de outros artistas, como Little Richard, o Rock influenciou a geração seguinte de artistas se tornou um fenômeno cultural sem precedentes que dominou a música no mundo todo. E essa presença cultural do Rock se faz sentir não apenas na música, mas na política, como se pode notar pela presença de artistas e músicas associados às lutas pelos direitos civis para os negros e negras, ou na luta contra a guerra do Vietnã. E também na economia, provado pela quantidade de capital que movimenta a indústria fonográfica e a explosão que aproveitou com o fenômeno.

    Com Chuck, a rebeldia, o estilo, a sexualidade aberta, os desejos de consumo, e a irreverência necessárias para tornar o Rock n’Roll tudo o que se tornou, apareceram misturados com um som que vinha evoluindo através de inúmeros estilos particulares, de muitos artistas. Desde o Jazz, do Blues, pegando emprestado do Country, acelerando pelo Rhythm and Blues para formar mais esse estilo único, próprio. O primeiro exemplo de Rock n’Roll. Essa combinação passou a ser a nova base sobre a qual continua esse processo de evolução da música nas mãos dos artistas. Um marco que repercutiu na cultura do mundo. E por isso, hoje, a maioria das músicas mais conhecidas internacionalmente, as favoritas, as mais lembradas, pertencem aos últimos 70 anos, a essa nova era da música popular, uma era que começou com os acordes da guitarra de Chuck Berry.

    Foto: H. Michael Karshis

  • Mais duas garras de prosa sobre Logan

    Por: Gustavo Leão*, de Maceió, AL

    Eu cresci acompanhando histórias de super-heróis. Foi na infância que tive o primeiro contato com os X-men, através do desenho animado exibido no Brasil nos anos 90 e através de quadrinhos que comprava ocasionalmente (quando conseguia juntar algum dinheiro). No entanto, foi já na adolescência que passei a acompanhar, com muito mais frequência, as histórias em quadrinhos dos mutantes da Marvel.

    É interessante tentar pensar no porquê de minha predileção pelos X-men em meio ao panteão super-heróico. Talvez seja porque, diferente dos demais super-heróis, os X-men não se dedicavam a combater o crime, mas a lutar por tolerância e aceitação.

    À época em que anunciaram o primeiro filme do grupo, lançado em 2000, lembro da ansiedade, lembro de acompanhar notícias que diziam que a existência de outras adaptações cinematográficas de personagens Marvel, como Homem-aranha e Vingadores (que só passou a ser cogitado anos depois), dependeria do sucesso desse projeto. Até porque, o último filme do gênero, Batman & Robin, dirigido por Joel Schumacher, havia sido lançado em 1997 e tinha sido fracasso de público e crítica, colocando o que parecia ser a última pá de terra sobre os filmes de super-herói.

    Dezessete anos após o lançamento de X-men: o filme (Bryan Singer), depois de adaptações milionárias, como o já mencionado Vingadores, e de mais nove filmes da franquia X-men – contando com Deadpool – é impossível não perceber o quanto o projeto foi bem sucedido e a sua importância para a história do cinema e aquilo que se convencionou chamar de cultura pop (talvez por falta de um termo mais apropriado).

    Assim chegamos a Logan, filme dirigido por James Mangold (Os Indomáveis) e que traz Hugh Jackman pela última vez no papel de Wolverine. A história do filme se passa no ano de 2029 e mostra um Logan abatido, trabalhando como motorista de aplicativo, vivendo próximo à fronteira dos EUA com o México e cuidando de um Professor Xavier idoso e transtornado.

    Essa rotina muda drasticamente com a chegada de uma garota misteriosa que está sendo perseguida por uma organização poderosa. A partir daí, o filme vira uma espécie de road movie com elementos de perseguição, alta carga dramática e muita, mas muita, violência. Nesse quesito, é preciso salientar que há um sentido para a violência gráfica da película, afinal de contas, a personagem principal possui garras que cortam praticamente qualquer coisa e é preciso mostrar os efeitos disso no corpo humano.

    É tudo aquilo que os fãs de X-men sempre quiseram ver no cinema, mas ao mesmo tempo, a extrema violência e a crueza das cenas de luta não são muito agradáveis, o que é bom. Em alguns momentos a trilha sonora é suspensa e tudo o que ouvimos são gemidos, grunhidos e o gorgolejar de bocas cheias de sangue. A frase icônica do Wolverine (“Sou o melhor no que faço, mas o que eu faço melhor não é nada agradável”), imortalizada na HQ Eu, Wolverine, de Chris Claremont e Frank Miller, nunca fez tanto sentido para a personagem no cinema como nesse filme.

    Isso, claro, muito embora o Wolverine retratado na história de Logan seja um Wolverine velho, debilitado e carregado de cicatrizes físicas e psicológicas. A passagem do tempo deixou marcas que nem o fator regenerativo do mutante conseguiu curar, o que é passado para o espectador através de uma ótima performance de Hugh Jackman, que, em um  momento de extrema comoção do filme, nem precisa dizer nada: a câmera se aproxima de seu rosto e vemos suas feições desabarem emocionalmente.

    Há referências diretas ao clássico do faroeste Os brutos também amam (Shane, no original), de 1953, dirigido por George Stevens. Na história do filme estrelado por Alan Ladd, um forasteiro, o Shane do título original, chega a uma pequena cidade fugindo de um passado conturbado e passa a trabalhar na construção da fazenda de uma família, mas as coisas começam a mudar quando os moradores da cidade vão ficando cada vez mais acuados e sendo mais explorados pelo fazendeiro mais rico da região.

    A partir de então, Shane se vê obrigado a revisitar seu passado como assassino para proteger aqueles que aprendeu a amar. Percebe-se que os dois momentos em que o filme é diretamente citado em Logan não são gratuitos. Outra obra-prima do faroeste, Os imperdoáveis, de 1992, dirigido e estrelado por Clint Eastwood, que retrata um cowboy ex-assassino aposentado tendo que voltar à ativa, certamente também serviu como referência para Logan.

    Patrick Stewart também entrega um Xavier, assim como Logan, fragilizado, que alterna entre momentos de insanidade e lucidez, mas que não abandona a característica essencial da personagem de sonhador esperançoso, mesmo diante de uma realidade difícil. Diferente de X-men: dias de um futuro esquecido (Bryan Singer), de 2014, o futuro aqui mostrado não chega a ser uma distopia feita nos moldes dos quadrinhos de super-herói, mas mostra um 2029 perturbadoramente semelhante à nossa realidade e, principalmente, muito próximo da realidade atual dos EUA.

    Logan leva uma vida difícil junto com Xavier e Caliban (Stephen Merchant). Os mutantes já não são mais numerosos como antes. A intolerância parece ter vencido a batalha antes travada pelos X-men. É interessante ver como aqueles que perseguem e torturam os mutantes se veem como os verdadeiros heróis, como é o caso de Donald Pierce, interpretado por um convincente Boyd Holbrook (Narcos). Pode-se dizer que a grande ameaça do filme é, na verdade, uma empresa estadunidense que, dentre outras coisas, explora a mão-de-obra latina[1].

    Em determinado momento, surge uma família negra de fazendeiros que é explorada por fazendeiros brancos. Tudo isso somado ao fato de que a história se passa na fronteira dos EUA com o México, transmite uma mensagem relevante para os EUA e para o mundo da era Trump. No entanto, o principal antagonista do filme não deixa de ser o próprio Logan e seu passado como Arma X, o que é tratado de forma interessante por Mangold (discordo de algumas críticas que disseram que essa decisão resgata o que havia de pior nos quadrinhos dos anos 90, até porque, nesse filme, isso ganha dimensões totalmente diferentes).

    Aliás, o filme consegue ser superior à HQ na qual é bem livremente baseado, Velho Logan, de Mark Millar e Steve McNiven. O quadrinho, que tem uma proposta interessante, muitas vezes deixa a desejar na execução. Apesar de exibir trechos de extrema violência, o que joga para cima a classificação etária de seu público alvo, possui trechos desnecessariamente didáticos, com diálogos expositivos roteiro previsível.

    Já o filme consegue se desvencilhar de tudo isso, sendo muitas vezes pouco didático e nada expositivo, como quando se trata do que aconteceu aos X-men. Tudo fica na base da inferência, o que é uma escolha ainda mais intrigante, uma vez que o que aconteceu foi tão intenso e pesado, que as personagens evitam a todo tempo tocar no assunto.

    O filme fala sobre fim, morte e velhice, mas também fala sobre o novo, o começo, a juventude e a esperança[2], que são personificados, principalmente, na personagem Laura (ou X-23 para os mais íntimos).

    A atriz Dafne Keen, que interpreta a personagem, consegue transmitir a sensação do perigo que representa, através de um olhar ameaçador e dos seus movimentos nas cenas de luta. O desenvolvimento da relação dela com o Wolverine é um dos pontos mais tocantes do filme, que envolve paternidade e transmissão de legado, como evidencia a última cena do filme, em que aquilo que é mostrado em primeiro plano de certa forma contrasta com o que acontece ao fundo.

    Logan não é um filme para todas as idades (sua classificação no Brasil é 16 anos), mas é um filme sobre todas as idades. Sobre o velho e novo. Sobre o fim de um ciclo e o começo de outro. É, sobretudo, o respiro renovador de que as adaptações de quadrinhos de super-herói para o cinema precisavam e é interessante que isso tenha acontecido na franquia que deu origem a tudo.

    Notas

    [1] Texto de Alessandra Fahl Cordeiro que também trata da crítica anticapitalista subentendida no filme: http://esquerdaonline.com.br/2017/03/05/logan-muito-alem-de-uma-ficcao/

    [2] Texto de Henrique Canary sobre Logan que também toca nos pontos da velhice e da juventude: http://esquerdaonline.com.br/2017/03/09/o-que-aprendi-com-logan/. Texto de João Paulo da Silva, camarada do PSTU, que também traz reflexões nesse sentido:  http://www.pstu.org.br/logan-o-filme-que-chegou-ao-coracao-do-wolverine/

    *doutorando em Letras e militante do MAIS Alagoas

    Foto: Divulgação

  • Um bom lugar na quebrada: a batalha do Remp

    Por Elber Almeida, do ABC Paulista

    Há mais de dois anos iniciou uma batalha numa das quebradas de São Bernardo do Campo. A Vila Ferreira e o Parque Esmeralda são hoje duas vilas com conjuntos habitacionais e barracos de alvenaria, mas no passado já foram favelas de barraco de pau. Enquanto ainda havia poucas batalhas no ABC e a maioria era no centro, o movimento dessa quebrada decidiu fazer seu próprio corre.

    A Batalha do Remp ocorre numa pracinha sem iluminação que fica entre três bairros de SBC: além dos dois citados, o conjunto habitacional Três Marias. Os organizadores se viram com uma lâmpada improvisada e puxam a energia de uma das casas que recebe uma taxa para o uso desta pela batalha. Com essa energia também ligam uma caixa de som. As rimas podem começar.

    O aniversário de dois anos foi especial. Quando começou ainda era à tarde em São Bernardo e só terminou às 10 da noite. Nele rolaram algumas atrações do rap local, do ABC, assim como o grupo que já vai se destacando no Rap Nacional, Síntese, que ajudou a fortalecer o evento.

    Quem já viu o famoso clipe da música “Um bom Lugar” de Sabotage poderia comparar os momentos finais deste, em que Sandrão canta com Sabota para uma plateia da quebrada, com o que aconteceu no Remp em seu aniversário. O Hip Hop, mesmo em só um de seus elementos, constrói bons lugares na quebrada anos depois do famoso som do maestro do canão.

    Que outro evento traria uma conexão de São José dos Campos aos ABC, por meio da arte de um grupo como o Síntese, totalmente 0800, ainda mais na quebrada? As apresentações dos grupos ocorreram entre as batalhas de MC’s. Neste dia vieram MC’s de várias partes do ABC, com destaque para Diadema. O campeão foi Drewan, um MC vindo de Macaé, no Rio de Janeiro. Conexões. O Hip Hop traz às ruas a cultura que é negada pelos governos ao povo pobre e preto da periferia.

    MGO e Raul, que fazem parte da organização, destacam a importância social do movimento, que coloca uma perspectiva de evolução da periferia através da cultura, fugindo dos caminhos que o Rap sempre denunciou, como os que levam ao crime. Numa cidade como São Bernardo do Campo, fortemente atingida pela crise que gerou a maior taxa de desemprego na região dos últimos onze anos – segundo fundação SEADE – de mais de 16%, e onde não existem alternativas gratuitas de cultura para sua população, ainda mais agora com o  desmonte do Centro de Áudio Visual (CAV) e Centro Livre de Artes Cênicas (CLAC), e o fim da Coordenadoria de Ações para a Juventude (Cajuv) algo assim mostra sua importância.

    Após o aniversário da batalha aconteceu uma edição de disputa entre o Remp e a Batalha do Kaleman, em Diadema. A organização das duas batalhas frisa que a disputa é puramente no freestyle, e o objetivo final é a união através das batalhas. O Hip Hop, que unificava os guettos nos EUA também faz pontes de colaboração entre as vilas da periferia brasileira.

    Sem dúvidas a Batalha do Remp ainda terá muitas histórias para contar.

    #0 Cultura e resistência no ABC paulista: http://esquerdaonline.com.br/2016/10/20/cultura-e-resistencia-no-abc-paulista-sobre-batalhas-de-rap-na-regiao/

    1# Batalha da Pistinha: http://esquerdaonline.com.br/2016/11/01/cultura-na-periferia-do-abc-paulista-a-batalha-da-pistinha/

    2# Batalha da Praça: http://esquerdaonline.com.br/2016/11/07/entre-a-industria-e-a-quebrada-a-batalha-da-praca-no-silvina/

    3# Batalha da Vila Luzita: http://esquerdaonline.com.br/2016/11/17/a-batalha-da-vila-luzita-a-igreja-e-o-terminal/

    4# Batalha da Galeria: http://esquerdaonline.com.br/2016/11/20/o-contraste-na-cidade-a-batalha-da-galeria/

     5# Batalha da Palavra: http://esquerdaonline.com.br/2016/12/08/a-palavra-rimada-no-centro-de-santo-andre/

     6# Resiste Batalha do Carrefa!: http://esquerdaonline.com.br/2017/01/02/resiste-batalha-do-carrefa/

     7# A Batalha do Cooperativa: http://esquerdaonline.com.br/2017/01/27/a-batalha-do-cooperativa/

    8# A Tripla Resistência das Minas: Roda Cultural da Brasil: http://esquerdaonline.com.br/2017/02/09/apenas-em-sua-segunda-edicao-a-roda-cultural-da-brasil-batalha-das-minas-em-sao-bernardo-do-campo-mostra-a-que-veio-resistir/

    Mapa das batalhas de rap no ABC:

    https://www.google.com/maps/d/viewer?mid=1KX9xOI7W1Ks9jmhSX2JNTIPiHLM&hl=pt-BR

     

  • “Logan”: Muito além de uma ficção

    Por: Alessandra Fahl Cordeiro, de São Bernardo do Campo, SP

    *este texto pode conter alguns leves “spoilers”, porém sem revelações de desfechos

    Fui assistir “Logan” no cinema com uma boa expectativa – trailer bem feito e com trilha sonora interpretada por Johnny Cash (diga – se de passagem, um defensor dos direitos humanos), coisas que causaram boas impressões. Mas estas foram superadas a cada minuto do filme. Apesar de não ser uma fã de carteirinha de ficção ou HQ´s, a história de Wolverine e dos X – Men sempre me causaram certa simpatia.

    O filme se passa em 2029, com “Logan” doente, dependente de bebidas alcoólicas, e motorista de um aplicativo. Escondido, explorado, e sem ter a quem recorrer ajuda.

    Mas o mais importante do filme são as plausíveis críticas anticapitalistas. O próprio personagem principal teve sua condição genética usada contra a sua vontade para ser transformado em uma arma – o que mudou para sempre os rumos da sua vida.

    Tudo corre desta forma, até ele descobrir novas experiências realizadas com seres humanos, movidas por interesses meramente lucrativos. Não existem como objetivos curas de doenças, mas a criação de exércitos obedientes que não questionem ordens. E quando esta nova experiência é considerada como um “prejuízo” – esta palavra é claramente pronunciada por um dos personagens – a ordem é de “descarte” imediato, a partir do momento em que uma outra experiência, ” sem alma”, tem resultado aceito como muito mais eficaz. Uma pergunta fica no ar: pesquisas médicas geneticistas pra quem, servindo à quem e à quais interesses?

    Logan também foi usado em experiências obscuras, mas não perdeu a capacidade de sentir, opinar e escolher. Assim como Charles Xavier, é considerado “um perigo” por estes motivos. Existe algo mais atual do que isso, em tempos de golpes maquiados e manipulação explícita de opinião pública com uso de ameaças das mais variadas, criminalização de protestos e perseguição cada vez maior aos que destoam do considerado “comportamento padrão”?

    Outro ponto marcante é a perseverança na luta. Em meio a todas as adversidades, Logan não desiste do que passa a acreditar no crepúsculo da vida. Abraça finalmente uma causa militante, e não abre mão dessa luta, custe o que custar. Nem da solidariedade, outro aspecto marcante do filme. Muito pertinente, em tempos de individualismo cada vez mais acirrado, reflexo, como diria Marx, da desconfiança que o capitalismo incute entre os indivíduos nas sociedades em que concorrer e ganhar individualmente é mais importante do que colaborar e buscar soluções que beneficiem coletivos.
    Vale ressaltar a atuação da atriz Dafne Keen, de apenas 11 anos, que trabalhou uma expressividade inesquecível ao lado dos veteranos Hugh Jackman e Patrick Stewart – todos impecáveis em seus papéis.

    Recomendo o filme para fãs e não fãs de Wolverine, Marvel e X – Men. Recomendo para todos que desejam assistir uma produção cinematográfica bem produzida, atual, e permeada de elementos ficcionais não tão ficcionais assim, que aborda um futuro cada vez mais presente.

  • Bloco Maria Baderna agitou Santa Tereza, em BH

    Da Redação

    Em Belo Horizonte, o bloco Maria Baderna agitou Santa Tereza na terça de Carnaval. Mesclando suas próprias marchinhas com as mais tradicionais, ele conquistou os foliões de Beagá e mobilizou muitos fãs de Contagem para acompanhá-lo. O bloco foi criado por artistas que atuam nos movimentos sociais de Contagem e reivindicam mais apoio dos governos para os artistas locais. O desfile na própria cidade ocorreu no sábado (25).

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    O nome Maria Baderna faz referência a Marietta Maria Baderna, dançarina italiana que refugiou-se no Brasil no Século XIX e introduziu passos de dança dos escravos no balé. O sincretismo foi considerado imoral na época, ela foi perseguida e nome entrou na língua portuguesa como sinônimo de desordem e bagunça. O grupo escolheu esse nome em 2013 depois que autoridades locais os designaram como “baderneiros”. (Conheça a história do grupo). 

    Seguindo a melhor tradição do Carnaval de rua o bloco trouxe para a folia a contestação. Os “baderneiros” cantaram marchinhas ironizando o racionamento de água, a crescente repressão contra as manifestações de 2013 e, claro, puxando o maior grito de guerra deste Carnaval: “Fora Temer”.

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    Vídeo: Quando a Baderna passou ninguém se calou.

     

    Vídeo: “Eu sou baderneiro. Mistura de balé com dança de terreiro”

     

    Vejam mais fotos:

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  • Carnaval de São Paulo: retalhos de um belo enredo

    Por: Eduardo Casteluci, de São Paulo, SP

    O carnaval brasileiro é formado por um denso entrecruzamento de diferentes enredos. Temos, em primeiro lugar, as tramas meticulosamente imaginadas e desenvolvidas pelas agremiações que produzem os desfiles no sambódromo do Anhembi. Carnavalescos, ritmistas, artesãs e hábeis costureiras dedicam praticamente todo seu ano à confecção dos 65 minutos de espetáculo.

    Em 2017, a escola vencedora do carnaval foi a Acadêmicos do Tatuapé, cujo samba-enredo homenageou o país africano Zimbábue. Da zona leste da capital, a agremiação retomou a tradição da principal festa popular brasileira, fazendo ecoar na avenida a história da África, que é também a parte fundamental de nossa própria história. Na kizomba da Tatuapé se cantava Sou eu a negra mãe da humanidade/ Em meu ventre a verdade/ humildade e amor/ A força de um filho guerreiro/ herança de luta e dor”. Nos atuais tempos de desesperança, no Anhembi soou mais alto o tambor africano e orgulho do povo preto.

    Em segundo lugar, existem os enredos produzidos pelos blocos de rua e pelos foliões que os acompanham. Ao contrário dos primeiros, esses enredos são produzidos por diversos arremedos semi-caóticos, semelhante ao movimento dos foliões no momento em que o trio elétrico começa a entrar em uma rua mais estreita. Nesse ano, São Paulo teve seu maior carnaval de rua. Quase quatrocentos blocos se espalharam pela cidade, trazendo consigo milhões de foliões.

    No início, o prefeito João Dória tentou ser o único compositor do samba-enredo das ruas paulistanas. Prometeu à elite da cidade, que possui verdadeira ojeriza às expressões populares de alegria, um carnaval contido, que permitisse aos seus principais apoiadores a tranquilidade que a estratificação social brasileira lhes produz.

    Assim, cumpriu a promessa de reprimir por meio da polícia militar os blocos e foliões que ousassem transgredir os horários por ele estabelecidos. Também voltou a repetir a sua trama farsesca ao varrer a Avenida Faria Lima, uma das principais vias de circulação de carros importados da cidade, sem, entretanto, esquecer de transmitir todo seus movimentos desajeitados com a vassoura por meio de seu facebook. Entre uma e outra varrida incompetente das sarjetas, virava-se à câmera para emitir ofensas a seus adversários políticos. Se não bastasse o seu uniforme perfeitamente ajustado a sua frágil silhueta de bon vivant para lhe distinguir dos outros, tinha nos pés um tênis perfeitamente branco, muito distinto das botinas pretas dos verdadeiros trabalhadores.

    Entretanto, como ao prefeito jamais apeteceu a música popular, a ele é estranha a força do pagode brasileiro. Como já havia anunciado Jorge Aragão, o carnaval é arte popular do nosso chão, pois é povo que produz o show e assina a direção. Assim, ao invés do comedido carnaval de Dória, tivemos, na realidade, explosões de alegria e resistência popular. Durante o desfile dos blocos, era frequente a interrupção da música para se exigir que as mulheres e as LGBTs fossem respeitadas. Além disso, diversos blocos tiveram como protagonistas mulheres transsexuais.

    Também foi marcante o fato de que, em diversos momentos, seja ecoando primeiramente dos enormes alto-falantes ou das milhares de gargantas ao redor deles, os gritos de Fora Dória e Fora Temer foram partes essenciais do enredo do carnaval paulistano. Às manifestações de felicidade se juntaram os cantos de indignação. Se engana, entretanto, quem vê aí alguma contradição. O contentamento do povo se produz também no triunfo sobre seus algozes. Mesmo assim, é inegável também que as infelizes manifestações de racismo, como no black face, de LGBTfobia, como em algumas antiquadas marchinhas que seguiram sendo reproduzidas, e de machismo, como nos injustificáveis beijos forçados, continuaram ocorrendo.

    Mas, então, qual foi de fato o tema central do enredo do carnaval de rua paulistano? Qual é o elemento da complexa trama de histórias que se destaca em relação aos demais, que os organiza de forma coerente e dá um nome à festa? O folião paulistano já estava acostumado a abrir seu carnaval contemplando o belíssimo cortejo das mulheres do Ilú Obá De Min, acompanhando o canto e a dança africana e sendo banhado pela chuva torrencial, cuja força é a exata medida da alegria que seguirá. Entretanto, nesse carnaval se deparou com uma certa novidade. Tivemos um bloco organizado por pretos e pretas periféricas, em sua maioria mulheres e LGBTs, que, com a força de sua dança, anunciaram a sua resistência, a sua existência. Diziam querer enegrecer a cena do carnaval paulistano e, após o bloco, a conclusão evidente é de seu sucesso. Criaram um espaço de maioria preta, protagonizado pelos seus e, assim, libertaram seus sorrisos. Portanto, entre o Anhembi e as ruas da capital, o carnaval de São Paulo teve seu enredo ditado pelo povo preto, retomando sua força, isto é, a força da cultura negra.

    Resta, por fim, atribuir um samba a esse belo enredo. Para isso, pedimos a benção de Dona Ivone Lara para cantarmos junto a ela: um sorriso negro, um abraço negro, traz felicidade!

    Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil