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  • A poética do jacaré

    Por: Mariana Mayor, atriz, professora e pesquisadora de teatro

    “Eu preferia ter pedido um olho” é o primeiro livro da escritora paraense Paloma Franca Amorim. Lançado no início de maio de 2017 pela editora Alameda, em São Paulo, o livro reúne 52 crônicas que foram publicadas no jornal “O Liberal”, de Belém do Pará, entre os anos de 2011 e 2016.

    Conheci Paloma em 2007, um pouco antes dela começar a escrever os textos para o jornal e quando talvez nem pensássemos que um dia as suas palavras iriam se transformar em livro. Um dia fui até o apartamento em que ela morava com o pai e a irmã para um almoço entre família e amigos. Foi um encontro melancólico porque lembramos juntos a morte recente de sua mãe. Comemos uma refeição típica paraense: peixe no tucupi com jambu. Lá para as tantas, perguntei onde era o banheiro e, caminhando pelo corredor, esbarrei com um escrito na porta do quarto dela: “porque eu como palavra, e cago palavra.”

    A beleza bruta daquela frase me incomodou, me pareceu heresia – sempre imaginei que os poetas tinham pelas palavras um respeito sagrado. Conheci a escrita de Paloma por essa frase. Depois vieram as dramaturgias, os experimentos literários, os textos no jornal. Tinha criado uma imagem da Paloma parecida com a que imaginei de Hilda Hilst. Esta era a poeta que escreveu os poemas “malditos, gozosos e devotos”. Uma antipoeta, antiparnasiana, que tratava as palavras em sentidos inversos e inesperados, desrespeitando-as ao mesmo tempo em que revelava as suas entranhas.

    Dez anos depois, enquanto lia seu livro, o escrito da porta do quarto retornava por entre cada linha de suas crônicas. A expressão cravada na parede revela mais da sua literatura do que poderia supor. A começar pelo título do livro, homônimo da primeira crônica apresentada: “Eu preferia ter perdido um olho”. Sem constrangimentos, Paloma fala sobre dois estupros que foi vítima – um ainda criança, outro no início de sua vida adulta. Num misto de revolta e melancolia, parte do violento acontecimento para falar contra o patriarcado, o machismo e a misoginia tão presentes em nossa sociedade.

    Suas crônicas são como tiros precisos em direção ao leitor. Cagar palavras também seria usar as palavras como armas? Sua escrita desenha percursos fantásticos de sua imaginação, através de potentes figuras de linguagem. O fantástico encontra o real, porque Paloma cria imagens poéticas que nos colocam a todo momento cara a cara com o mundo – cruel, violento e brutalmente banal.

    A sua escrita tem posicionamento político e ponto de vista. Por isso, ela também tem pressa. A única fotografia presente no livro – a do jacaré de boca aberta na capa – nos dá a impressão de estar a poucos segundos de abocanhar um peixe, ou a nós mesmos, os leitores. Por alguns instantes, vendo a capa, o jacaré se transforma em Paloma, e ela está a comer palavras, violenta e rapidamente. Temos de ter cuidado para não sermos devorados por ela, e olhar o mundo pelos olhos de Paloma.

    A leitura do livro me faz conhecer Paloma. Sou aquela mulher que se perde na caminhada em Aveiro, que olha as montanhas da Patagônia, que desce do ônibus em Belém. Deparo-me com o cotidiano besta da gente em forma de superlativo. Como a vida pode ser tão linda e tão má?

    Depois de algumas horas, deixo o livro na prateleira. Me agarro às costas do jacaré para que ele me conduza rio abaixo e mostre o que de áspero e delicado ainda não pude perceber do mundo. “Eu preferia ter perdido um olho” é uma obra contundente e poética de enfrentar tormentas. Não deixem de ler.

    Mais informações no site Alameda Editorial

  • OPINIÃO | Get Out (Corra!): uma análise-crítica sobre racismo a partir da primeira obra de Jordan Peele (com SPOILER)

    Por: Felipe Sales, Maceió, Alagoas*

    Tive muitas dúvidas se deveria, ou não, escrever este texto. Não me encontro na posição social daqueles que sofrem cotidianamente as fustigações das opressões. Obviamente que isso não seria de todo um impeditivo para que eu escrevesse, não seria essa a expressão de minha preocupação. Minha dúvida dava-se, na verdade, sobre o fato de não saber se conseguiria ter, ou não, a sensibilidade de enxergar e captar as nuances do excelente filme feito pelo satisfatório estreante Jordan Peele. Mas, por sorte (ou seria azar), resolvi arriscar.

    Get Out (Corra!) é um filme com um roteiro simples. Sua simplicidade, no entanto, não deve ser entendida como algo menor, que não necessita de reflexão em busca de um entendimento mais particular. Como todo bom filme, “Corra!” tem camadas de interpretações que garante um bom entretenimento àqueles que assistem um filme sem necessariamente buscar grandes explicações filosóficas-existenciais-sociológicas, e uma excelente discussão àqueles que se arriscam a mergulhar um pouco mais.

    Poderia dizer até que, de certo modo, a mensagem do filme também é relativamente simples: discutir o racismo de modo geral e o racismo estadunidense de forma particular. Agora, é na forma dessa discussão que se encontra a verdadeira magia e a riqueza desta produção.

    Peele, embora comediante, escolheu o terror, um thriller psicológico, para contar sua história. Chris (Daniel Kaluuya), um bom e jovem fotógrafo negro,vive um estável e romântico relacionamento com Rose (Allison Williams), uma jovem mulher branca descendentes de alemães. Quando convidado a conhecer num evento especial a abastada família de classe média alta de sua namorada, Chris pergunta: “Eles sabem que eu sou negro? ”Essa é a interrogativa que irá estabelecer a trama do filme.

    A experiência fílmica de “Corra!” começa com um elegante plano sequência que nos mostra um bairro bem estruturado, com boa iluminação e com excelentes casas. Lentamente vai surgindo e indo ao centro da cena um homem negro ao telefone que logo descobrimos estar perdido e assustado tentando encontrar um endereço. O Clima torna-se angustiante quando um luxuoso carro branco (não seria mera casualidade a cor do automóvel!) passa a perseguir lentamente o rapaz.

    Percebam já de cara, Peele estabelece uma relação aparentemente invertida do que seria o imaginário social do senso comum. Não é o subúrbio e nem um homem branco sendo perseguido. É um negro assustado sendo perseguido por um carro branco em um bairro de classe média alta. Essa cena, penso eu, é uma metáfora para exprimir o sentimento e a sensação de um negro ao chegar em lugares que “não seriam seus”, seja através de sua simples presença transitória em um bairro ou, principalmente, pela conquista de uma posição social de mais destaque. Os olhares e a onipresença dos costumes e elementos culturais fundamentalmente brancos criam um ambiente absurdamente hostil em sua desfaçatez e opressivo para quem tem de encarar o cotidiano dessa realidade sem abrir mão de suas raízes. É também uma clara mensagem de que a violência da estratificação social, não só simbólica como física, é uma realidade tanto das classes baixas como das mais altas.

    A cena termina com o negro desmaiado sendo arrastado para a mala do carro ao som da música “RunRabbitRun” de Flanaganand Allen. E em sincronia com o fechar da porta, a música para e dá lugar ao som das cordas de um angustiante violino dissonante. O carro sai. A cena corta. E entram o título e os créditos iniciais. É um começo de filme e tanto!

    Em seguida pode se ver a partir de um automóvel em movimento a passagem das árvores de uma floresta. Associada com a presença do cervo, essa imagem poderia representar a liberdade, ou a busca dela. Todavia, assim como o animal, essa liberdade acabaria sendo mediada pelas necessidades de se correr dos constantes olhares e perseguições.

    O cervo é um animal comumente associado à caça. Não é raro, por exemplo, encontrar filmes em que caçadores estão prestes a atirar no animal. Mas sobre a perspectiva da produção de Peele, e em um contexto de discussão político-social (ainda mais quando se verifica um aumento da violência policial contra os negros nos EUA), esta cena acaba tomando outra dimensão. Uma dimensão, em minha opinião, de inferência à realidade dos negros enquanto grupo social marginalizado e constantemente observado sob a mira de um “caçador”. Em “Corra!” há ao menos quatro passagens desta natureza.

    Por exemplo, quando Chris congela seu olhar ao observar o animal agonizando após ter sido atropelado acidentalmente por sua namorada, há um sentimento por traz de seu olhar maior do que a simples compaixão pelo animal. Descobrimos depois que na verdade era uma fagulha de lembrança da morte de sua mãe, que, assim como o cervo, sem ninguém prestar atendimento ou sentir sua falta, agoniza até a morte. A fala do pai de Rose também seria emblemática neste sentido. Ao saber da morte do cervo, o Sr. Armitagere age de forma positiva, pois considera o animal como uma praga e enxerga em sua morte a possibilidade de um novo recomeço.

    A simbologia trabalhada por trás da cena em que Chris acorrentado defronta-se com o cervo pendurado na parede é reveladora. A mudança do foco que depois de um movimento de câmera que sai da parte de trás da cadeira onde Chris está acorrentado e sobe até encontrar num segundo plano o cervo na parede pendurado, tem o objetivo de estabelecer certa correspondência de posições na “hierarquia social” entre Chris e o cervo. E, além de revelar que Chris, assim como o animal, estaria prestes a ser “empalhado”, representaria também a ideia de uma dominação branca sobre uma “inferioridade” negra. Evidenciando assim a alusão entre o cervo/negro, caçador/branco.

    Um outro aspecto desta produção seriam as metáforas sobre as novas formas de dominação. Enquanto no passado a dominação se dava a partir das mais brutais formas de violência, e sob um discurso de animalidade, ou seja, de negação da humanidade negra,hoje essa dominação, além de se estabelecer sobre uma superestimação das qualidades biológicas (o avô de Rose não teria perdido de Jesse Owens nas eliminatórias das olimpíadas de Berlin em 1936, por exemplo, mas sim perdido para a “super qualidade genética” de Owens. Ou as constantes perguntas sobre as predisposições genéticas de Chris) incorporaria também elementos mais sutis como o da assimilação ideológica. O discurso, portanto, adquiriria aspectos hipnóticos para a dominação.

    Não me parece fortuito que a “mise em scène” em que Chris é hipnotizado se estabeleça a partir da mãe de Rose rodando uma colher de prata numa xícara de porcelana sob a área mais iluminada da cena e com livros ao fundo. Enquanto Chris está sentado numa cadeira de couro lembrando-se, em um quarto apertado e iluminado apenas pela difusa imagem de uma televisão, do momento da morte de sua mãe. A colher de prata, a xícara de porcelana e os livros – elementos reluzentes caracterizados pela brancura ou transparência além da identificação de alguma forma de poder – poderiam ser a representação simbólica da dominação da consciência a partir do discurso sedutor e hipnótico do “embranquecimento” ou da meritocracia. Na sequência da hipnose, inclusive, quando Chris pergunta o porquê de não conseguir se mexer, a Sr.ª Armitage afirma que ele está paralisado, assim como no dia da morte de sua mãe em que ele não fez nada. Como se a mera vontade individual, sozinha, independentemente de qualquer situação, fosse o suficientemente forte para as mais extravagantes superações.

    Esta interpretação poderia ser comprovada pela reflexão do uso da palavra que garante o sucesso da hipnose: o “sunkenplace” – “esquecimento”. Não seria mera casualidade que a dominação completa dos corpos dos negros se dessem pelo “esquecimento” de sua identidade, de sua cultura, de sua história. A adaptação da consciência ao modelo da “branquitude” ou ao discurso da meritocracia, nesse sentido, acarretaria num distanciamento do eu-histórico negro semelhante à morte. A incorporação das ideias dominantes em que se relativizaria a posição e a história de um grupo social historicamente marginalizado seria como o preenchimento de um conteúdo completamente distinto das marcas da violência física, simbólica e psicológica impressa em sua materialidade corpórea. Representaria o vazio plasmado num afundamento profundo. Ou seja, seriam ideias que não representariam a real necessidade do ser-histórico negro.

    Tanto é assim que a superação do estado hipnótico de Chris se dá a partir do reconhecimento e afirmação de sua história. É simbolicamente belo como que a angustia da lembrança da morte da mãe fez com que Chris rasgasse a poltrona em que estava acorrentado e que fosse o algodão, produto-símbolo da escravidão estadunidense, o escudo contra a “sedução” auditiva de adaptação e perda da identidade. Nesse momento, a passividade do personagem é transformada em ação. E aí não há mais vacilações. Diferentemente de outras produções do gênero em que as reações das vítimas são abobalhadas, em “Corra!” o protagonista sabe muito bem o que deve fazer, e faz. A utilização do cervo como arma para matar o pai de Roseseria é outro elemento simbólico da afirmação de sua identidade e o resgate de sua história como antídoto contra o “esquecimento” e afundamento do seu ser.

    Por fim, depois de uma construção das expectativas e sensações muito bem trabalhadas, quando tudo parecia caminhar para uma resolução sem mais sobressaltos, acontece o que poderia ser o momento de maior identificação com o personagem, pois Peele coloca o expectador num lugar onde seria impossível não se realizar um exercício de alteridade e ao mesmo tempo de reflexão social. A sensação de incredulidade, decepção, medo ou raiva que o momento final da película pode provocar, só é possível e faz sentido porque sabemos que diante da cena em que Chris, cercado por corpos e em luta contra Rose, vê a polícia chegar,não teria a remota chance de ser considerado inocente. “Corra!”, nesse momento,nos coloca numa posição de confirmação categórica, irrefutável a partir de nossas próprias sensações, da violência física e simbólica não só policial, mas, acima de tudo, social. É a revelação brutal de olhar e nos darmos conta de para onde nossa mira está apontada.

    *O texto reflete a opinião dos autores e não necessariamente do Esquerda Online.

  • 70 anos do vôo da Asa Branca

    Por: Ohana Alencar, de Fortaleza, CE

    Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião, gravou a música Asa Branca, escrita por ele e o parceiro Humberto Teixera, no dia 03 de março de 1947, completando, em 2017, 70 anos. A sandália de couro, o chapéu de lampião, o aboio do vaqueiro, a esperança do nordestino, a fé inabalável por dias melhores, a terra e a plantação como meio de vida, as brincadeiras de roda, as paqueras no forró, os dizeres do povo. Tudo isso Gonzagão levou para o Brasil e para o mundo. A voz dos esquecidos e de suas formas de resistir.

    Asa Branca foi o carro chefe de sua história. A letra representa as pessoas que, assim como as aves que no período da seca voam em busca de alimento e água, migravam em busca de dias melhores. A letra está repleta de esperança pela chuva, de amor pela “morena”, pelo verde da plantação, pela festa de São João, que é o simbolo dos trabalhadores do campo no Nordeste que comemoram os frutos das terra e da chuva.

    Além de cantar a chegada e a partida, Asa Branca é a chegada e a partida de um músico que saiu do seu torrão, Exu, no estado de Pernambuco, rumo ao Rio de Janeiro, para tentar viver da música. Assim como ele, muitos músicos de estilos, tons e cores diferentes, seguiram o mesmo caminho.

    As críticas sobre a música foram diversas, desde o desprezo de alguns sobre a considerada por eles pobreza musical de sua letra, até os aplausos de outros sobre a novo ritmo feito por Luiz, o baião. Para quem duvidou da música, a realidade foi avassaladora. A letra foi um sucesso absoluto, regravada mais de 25 vezes por artistas nacionais e internacionais, com diversas versões em coreano, japonês, inglês, italiano, entre outros. No ano de 2009, a Revista Rolling Stone Brasil elegeu Asa Branca a quarta música mais importante da história do Brasil. Atrás apenas de Construção (Chico Buarque), Águas de Março (Tom Jobim e Elis regina) e Carinhoso (Pixinguinha e Braguinha).

    Passados 70 anos, o Nordeste não é mais o mesmo, as idas e vindas dos nordestinos continuam a acontecer. Segue a sina de um povo trabalhador que migra por dias melhores. Para o povo brasileiro mais pobre, escutar Asa Branca, ou as músicas de Luiz Gonzaga é se enxergar, ver seu pai e sua mãe, ver a história contada por seus avós sobre a vida de idas e vindas. Talvez seja esse um dos motivos que faz de Asa Branca, uma senhora de 70 anos, ser tão atual.

    Termino o texto querendo passar o sentimento que Asa Branca passou para tantos sertanejos, a esperança.

    “Eu te asseguro
    Não chore não, viu
    Que eu voltarei, viu
    Meu coração” (Asa Branca – Luiz Gonzaga)

    Imagem: Biografia Luiz Gonzaga 

  • Começa o show pelas Diretas no Largo da Batata em São Paulo

    Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, o Metro Faria Lima não está funcionando mas ainda assim o largo fica mais cheio a cada minuto. O ato pelas Diretas Começou por volta das 12 horas, Chico César abriu o show em grande estilo com o clássico: “Mama África”.

    Vários ativistas dos movimentos sociais estão presentes reforçando a campanha pelo Fora Temer e Diretas Já:

     

     

  • Profissionais de Imprensa ocupam prédio da JBS denunciado como propinoduto de Aécio

    Imóvel é a antiga sede do jornal “Hoje em Dia”, que em 2015 demitiu cerca de 150 funcionários sem pagar o última salário e direitos trabalhistas.

    Por Diego Franco David de BH

    Jornalistas e trabalhadores gráficos de Minas Gerais demitidos do jornal Hoje em Dia ocuparam, na manhã desta quinta-feira (01/06), o prédio que funcionava como sede do Jornal. O edifício voltou a estrelar a grande mídia brasileira depois que o sócio-diretor da JBS Joesley Batista afirmou, em sua delação premiada, que teria usado o imóvel como propinoduto para o senador afastado Aécio Neves (PSDB/MG).

     

    Oucupa Predinho

    Joesley revelou que pagou R$ 17 milhões por esse edifício – que chamou de “predinho” – de forma superfaturada, a pedido do senador. Segundo o diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG) Felipe Canêdo, parte do valor, obviamente, virou caixa dois. “Ou cx2, como o senador prefere dizer”, ironizou.
    Cerca de 100 pessoas ocupam o imóvel neste momento. Além do Sindicato dos Gráficos (STIG-MG) e o SPJMG, o movimento conta com o apoio do SindiElétro, do Sindágua, do Levante Popular da Juventude e do MST.

    O “predinho” fica na R. Padre Rolim, 652, bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte. Os manifestantes convocam a população a se integrarem à ocupação. Confira o evento do facebook do ato:

    Entenda o ato

    Em março de 2016, o jornal Hoje em Dia demitiu 150 trabalhadores, entre eles metade da redação (cerca de 40 jornalistas). Até o momento, os trabalhadores ainda não receberam direitos trabalhistas, como FGTS, nem o salário do último mês. Segundo o SJPMG, os colaboradores foram dispensados sem comunicação prévia e, por isso, sem intermediação da entidade.

    Os ex-funcionários reivindicam o pagamento do salário referente ao último mês trabalhado e seus direitos trabalhistas. A ocupação também levanta a bandeira de uma imprensa mais livre, transparente e democrática.

    A venda do imóvel para a JBS apareceu durante ação movida contra o “Hoje em Dia” pelos 150 trabalhadores demitidos pela empresa, em fevereiro e março de 2016. A demissão aconteceu depois que o Grupo Bel vendeu o jornal para o então prefeito de Montes Claros, Rui Muniz. A história não acaba aí, Rui Muniz é alvo de duas operações policiais – que lhe renderam cem dias de cadeia e uma fuga de mandado de prisão. Ele é acusado de beneficiar seu próprio hospital e também de estar envolvido num esquema de super-faturamento de combustível.

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    Segundo Eliana Lacerda, presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores da Indústria Gráfica, e uma das demitidas do jornal Hoje em Dia, essa é uma ação política para chamar a atenção da população para a situação dos trabalhadores demitidos há mais de 1 ano. “O fato do prédio ter voltado aos noticiários demonstra que a grande corrupção que afeta o país tem consequências diretas na vida das pessoas.  Enquanto figuras importantes do cenário político estão envolvidos em escândalos dignos de história de máfia, trabalhadores simplesmente tem seus direitos mínimos desrespeitados”, comentou.

    Eliana ainda explica que a situação dos demitidos é muito difícil, principalmente devido ao contexto de reformas que o país vive neste momento. E relata seu caso pessoal “Minha audiência de reintegração está marcada para 2018, mas se eu não tivesse sido demitida eu iria me aposentar em junho deste ano. Ou seja, eu posso ficar sem aposentadoria e sem emprego”. Para a sindicalista essa ação pode trazer o debate

    Confira o panfleto distribuído pelos manifestantes

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    Assista o vídeo

     

     

  • História clínica do assassino de Leon Trotsky

    Por Leonardo Padura, Escritor Cubano. Autor de O Homem que Amava os Cachorros

    Tradução: Suely Corvacho

    Leonardo Padura escreveu esta história publicada recentemente na Revista ‘ñ’, da Argentina. Esquerda Online retirou do site Sin Permiso, que já publicou vários artigos deste autor cubano e alguns sobre seu livro mais famoso O homem que amava os cachorros. Esta contribuição de Padura é uma curiosa combinação de sorte e coincidência que traz uma nova informação, que talvez tivesse ficado esquecida para sempre, se não fosse por um encontro casual.

    Dr. Miguel Angel Azcue, oncologista, provavelmente teria levado muitos anos para descobrir quem era realmente aquele paciente que, nos primeiros meses de 1978, diagnosticara, sem qualquer margem de dúvidas, um câncer de amígdalas em estágio avançado. Inclusive, o mais provável é que o médico jamais conheceria a identidade daquele espanhol pálido e envelhecido, trazido para consulta pelo próprio diretor do hospital, Dr. Zoilo Marinello.
    Para que, em 21 de outubro de 1978, Dr. Azcue pudesse descobrir quem era realmente aquele enigmático paciente (e já entenderão porque uso este adjetivo) teve de ocorrer uma série de coincidências, preparadas e desenroladas quase por um destino superior, interessado em revelar ao médico uma história recôndita e alarmante.

    O primeiro fato imprescindível para que o quebra-cabeça se monte foi que, em 20 de outubro, devorado pelo câncer que o Dr. Azcue vira e diagnosticara imediatamente, morreu, em Havana, Ramón Mercader del Rio, o assassino invisível de Trotsky. O segundo fato indispensável é que, ao contrário do que tinha sido planejado, a notícia da morte de Mercader atravessou as férreas cortinas do anonimato e do silêncio e, de alguma forma, vazou para a imprensa internacional. Porque, desnecessário dizer, a imprensa cubana nunca publicou esta ou qualquer outra notícia relacionada à sua presença durante quatro anos ou à morte, em Cuba, do espanhol que, em 1940, havia assassinado violentamente o segundo homem da Revolução de Outubro.

    Os outros fatos que se conjugaram para que o médico se surpreendesse até à comoção foi que, naquele 21 de outubro de 1978, Dr. Azcue e seu colega, Dr. Cuevas, sairam de Havana para Buenos Aires para participar de um congresso de oncologia para o qual haviam sido convidados. Se não existisse este congresso e este convite, Azcue e Cuevitas – como todos chamavam ao experiente oncologista cubano – não estariam a bordo da aeronave das Aerolíneas Argentinas, uma das que, naqueles tempos, cobria o trajeto Havana-Buenos Aires.

    Além disso, se, em vez de viajarem com a companhia rioplatense, tivessem ido com a Aviação Cubana, talvez Azcue e Cuevas não descobrissem a verdade: a diferença profunda entre a imprensa que se entrega aos passageiros em uma e em outra companhia. Na Cubana, imprensa cubana; na Aerolíneas Argentinas, imprensa argentina. Os jornais cubanos, como já foi dito, tinham contribuído para manter Azcue na ignorância, pelo menos mais um dia, ou talvez muitos dias, talvez até para sempre; a imprensa argentina, ao contrário, apresentou um título que, desde o primeiro momento o comoveu em muitos sentidos – “Morre em Havana o assassino de León Trotsky” – e uma foto que lhe remexeu de cima a baixo: aquele Ramón Mercader que aparecia no jornal era o mesmo paciente que, meses antes, ele e Cuevitas diagnosticaram o câncer… e assim se ratificou para Azcue e para seu colega do Hospital Oncológico e companheiro de fileira no avião das Aerolíneas Argentinas onde, para quase completar as conjunções desta história, haviam entregue aos médicos um jornal de Buenos Aires e não um de Havana.

    Na verdade, a história da relação do Dr. Azcue com o assassino de Trotsky havia começado trinta e oito anos antes, na Cidade do México, quando, ainda criança, escutou seu pai dizer que o líder soviético tinha sido assassinado em sua casa de Coyoacán. Azcue, que nasceu na Espanha, tinha chegado muito jovem ao México e só se mudou para Cuba 20 anos mais tarde, tendo vivido desde então com a curiosidade aguçada por aquela história que comovera não só seu pai, um republicano espanhol, mas milhões de homens no mundo. Sobre o assassino de León Trotsky pôde conhecer, ao longo de todos estes anos, o pouco que todos sabiam: que seu nome (provavelmente falso) era Jacques Mornard, que afirmava ser um trotskista desencantado, mas todos sabiam que era uma mentira, que tinha matado Trotsky com um machado de gelo, com muita premeditação e toneladas de malícia, e que, por esse crime, cumpria vinte anos de pena em prisões mexicanas … e praticamente mais nada. Talvez esta mesma névoa de mistério, silêncio, conspiração e enganos que envolvera a figura do assassino, manteve vivo, através do tempo, o interesse de Azcue por aquele homem: o manteve no México, o trouxe consigo a Cuba e o conservava quase perdido em um canto de sua memória – mas vivo e latente – quando subiu no avião das Aerolineas Argentinas e abriu o jornal para encará-lo com uma verdade estarrecedora: ele, Azcue, tinha tido diante de si aquele assassino, tinha lhe falado, havia tocado nele e tinha sido encarregado de lhe dizer que iria morrer em breve.

    Azcue sempre recordaria vividamente a tarde em que o Dr. Zoilo Marinello apresentou aquele paciente. O fato de que o diretor do hospital lhe pedira que examinasse com seus outros colegas oncologistas especialistas em “cabeça e pescoço”, aquele espanhol, que era um caso “seu”, instigou a curiosidade de Azcue. Então o fato de aquele homem, que, segundo ele mesmo, ter sido examinado por muitos médicos (não disse quem nem onde) que foram incapazes de diagnosticar o evidente e muito extenso câncer de amígdalas que o estava matando gerou a surpresa da equipe de especialistas e marcou profundamente a memória do médico. Finalmente, o fato de que o tratamento de consolo – umas poucas radiações – que Azcue e seus colegas aconselharam ao paciente, diante da extensão da doença, não fora administrado no Hospital de Oncologia, mas em outra instituição, terminou de fixar na memória de Azcue a imagem daquele paciente específico que, caso contrário, talvez tivesse se tornado apenas um das dezenas, centenas de pessoas atendidas cada ano.

    Por recomendação do diretor do hospital, havia também vários elementos que só meses mais tarde, quando soube quem realmente, era seu paciente, o Dr. Miguel Angel Azcue começou a valorizar: Dr. Zoilo Marinello era um velho militante comunista, irmão do político e ensaísta Juan Marinello, um dos líderes mais reconhecidos em Cuba do antigo Partido Socialista Popular (Comunista). Como o médico saberia muito mais tarde, Ramón Mercader e sua mãe, Caridad del Río, tinham relações de amizade com alguns desses velhos militantes comunistas cubanos, entre os quais o próprio Juan Marinello e o músico Harold Gratmages, com o qual muito, muito mais tarde, Azcue saberia – Caridad havia trabalhado quando Gratmages serviu como embaixador cubano em Paris (1960-1964).

    Portanto, se alguém sabia ou tinha de saber quem era o republicano espanhol tomado pelo câncer, este homem era Zoilo Marinello. Não se tratava, pois, de um contato atual.

    Foi também anos depois da morte de Mercader e após ter conhecido sua identidade, que o Dr. Azcue teria uma nova e estranha comoção relacionada àquele sombrio e escuro personagem. Ocorreu no centro montanhoso da ilha, o Escambray, onde existe um museu dedicado à “luta contra bandidos”, como foi descrita, a partir da década de sessenta, a guerra de baixa intensidade que se desenvolveu na zona entre as guerrilhas de opositores ao sistema e as milícias e o exército revolucionário. Naquele museu, entre muitas fotos, há uma de um grupo de combatentes “caça-bandidos”, em que aparece um homem que… segundo Azcue deve ser Ramón Mercader! É possível que, quando todos o consideravam em Moscou, Mercader estivesse em Cuba, colaborando com os corpos cubanos antiguerrilhas ou com a contraespionagem? Ainda que as evidências disponíveis tornem pouco provável essa possibilidade, o Dr. Azcue pensa que só se Mercader tivesse um irmão gêmeo, o homem da foto no museu (não identificado nos comentários escritos da mostra) não era ele.

    Vinte e cinco anos após a morte de Ramón Mercader, enquanto eu começava a realizar a pesquisa para escrever o romance sobre o assassinato de Trotsky, que se intitularia O homem que amava os cachorros, tive a infelicidade e a boa sorte de conhecer o Dr. Miguel Angel Azcue. O motivo foi, em princípio, doloroso e preocupante: após a remoção de uma pequena verruga que meu pai tinha no nariz, a biópsia, que se realiza nesses casos, foi positiva, ou seja, havia células cancerígenas. De imediato me mobilizei para ver o que poderíamos fazer com meu pai e, como sempre fazemos em Cuba, a primeira opção foi encontrar um caminho direto para a possível solução: o caminho dos amigos.

    Então escrevi a meu velho amigo e colega José Luis Ferrer, que vive desde 1989 nos Estados Unidos, pois sua mãe, a Dr. María Luisa Buch, que tinha sido a diretora assistente do Hospital Oncológico (sob ordens do Dr. Marinello) e, ainda que ela tivesse morrido, certamente ficaram amigos no staff da instituição. Por esta via, apenas alguns dias depois cheguei com meu pai ao consultório do Dr. Azcue, que, desde o início, assumiu o caso como seu e – hoje sabemos: e aqui é que entra a parte de sorte da história – salvou a vida do meu pai.

    Foi, em uma dessas visitas ao consultório do Dr. Azcue, depois que já havia lhe presenteado com alguns de meus livros e construído uma amizade extra-hospitalar, que comentei estar me preparando para escrever um romance sobre o assassino de Trotsky. Lembro-me de que o olhar do bom médico se fixou no meu, antes de me dizer irônica e orgulhosamente:- Pois eu conheci esse homem e tenho com ele uma história incrível…
    Fonte: https://www.revistaenie.clarin.com/revista-n/ideas/historia-clinica-asesino-leon-

  • Cordel | Fora Temer, fora todos os golpistas

    Por Jorge Garrido, professor de história de Salvador.

    Nenhum direito a menos
    Nenhum golpista com paz
    Fora temer, fora temer
    Fora todo golpista a mais

    Hoje Brasília vai tremer
    Hoje Salvador vai sacudir
    Fora temer é o grito
    Até o golpista cair

    Golpista não passará
    Golpista,com certeza
    Cairá

    Sem perdão ao golpista
    Nesse dia 24/05
    O povo diz não ao fascista

  • Primeiro bloco feminino e feminista de Porto Alegre sai neste domingo

    Por: Lucas Fogaça, de Porto Alegre, RS

    O bloco ‘Não Mexe Comigo Que Eu Não Ando Só’ começou em fevereiro de 2016, num encontro que reuniu cerca de 300 mulheres. Elas se juntaram porque, apesar de serem mais de 50% nas baterias em vários blocos tradicionais de Porto Alegre, seguiam não se sentindo confortáveis em espaços dominados pelos homens. Neste Bloco são as mulheres que fazem tudo: o arranjo, as cores, a bateria, as intervenções, tudo.

    O Bloco se autointitula Feminino e Feminista, formado exclusivamente por mulheres e com críticas ao machismo. De fevereiro de 2016 para cá, as mulheres do bloco seguiram ensaiando e amanhã, 21 de maio, vão realizar sua primeira saída. Será a partir das 10h, na Av. Edvaldo Pereira Paiva, entre a Rótula das Cuias e Orla do Guaíba, em Porto Alegre.

    O Bloco afirma ter lado: primeiramente, #FORATEMER, porque ele extinguiu o ministério das mulheres, igualdade racial e direitos humanos. E porque os ataques que está fazendo à aposentadoria e à CLT afetam mais as mulheres. Mas, também pela ocupação dos espaços públicos, pela cultura e, principalmente, contra o machismo e pela igualdade de gênero. As mais de 20 canções que serão apresentadas amanhã vão refletir esse posicionamento em suas letras, arranjos e danças. Ademais, no próprio evento, o coletivo é categórico: respeita as mina! Atitudes machistas, homofóbicas, transfóbicas e racistas não serão permitidas! Não é não!
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    Conversamos com Ana Paula Rosa, uma das fundadoras do grupo, que nos contou que cerca de 80 mulheres de 18 a 50 anos fazem parte do Bloco. Ela nos disse que um dos objetivos é agregar novas mulheres e que elas elegeram quatro Grupos de Trabalho sem hierarquia que, junto com um grupo fechado no Facebook e um grupo no WhatsApp servem para organização interna: criação, harmonia, terror e bateria. Criação e terror são GTs que estão sempre abertos a novas integrantes. Harmonia e bateria, como são grupos que exigem um pouco mais de conhecimento técnico e domínio das músicas, são abertas inscrições periodicamente pela página do face. É por lá que novas integrantes podem se informar como participar.

    Ana Paula falou que a criação do Grupo do Terror foi muito engraçada. Porque, quando elas fizeram o primeiro encontro lá em fevereiro de 2016, apareceram muitas mulheres e, quando perguntadas o que tocavam, elas disseram que “tocavam o terror” (risos). Este GT é formado por cerca de 10 meninas que dançam, pulam, animam a plateia e tocam o terror durante o trajeto.

    A escolha do horário também é uma novidade e um teste, porque normalmente os blocos são à tarde ou à noite. Elas querem testar se é possível ter carnaval o dia inteiro, em horários diferentes, que fujam da mesmice. Ana Paula garante que não tem horário para acabar. Elas pretendiam fazer um percurso maior, mas a Prefeitura começou a colocar uma série de empecilhos e dificuldades. Então, o Bloco fechará o cortejo na Praça do Aeromóvel, em frente à Usina do Gasômetro. Lá, a festa continua com vários coletivos de mulheres de Porto Alegre esperando com música, vendas de comidas/bebidas e artigos para manutenção das entidades feministas.

    Ana Paula disse que “o Bloco é uma novidade da cena política e cultural de Porto Alegre e traz consigo toda a bagagem de dezenas de mulheres que já tocavam em outros blocos e que tem nas ideias feministas e de esquerda fonte de inspiração. Que parece que houve um Bloco assim nos anos 70, mas que hoje em dia é o primeiro”. Afirmou ainda que os homens são muito bem vindos, mas que devem respeitar as mina. Sugere a leitura do Pequeno Manual Prático de como curtir a saída do Não Mexe Comigo Que Eu Não Ando Só sem desrespeitar ninguém, publicado no facebook. Entre as dicas da cartilha está “O amor é livre: beijo lésbico não é entretenimento masculino. Não incomode, não fique olhando, reprima a atitude do amigo que esquecer disso.” e “Não é Não. Se precisar forçar é abuso. Não seja um abusador”.

    Serviço
    O QUÊ? 1ª saída oficial do Bloco Não Mexe Comigo Que Eu Não Ando Só
    ONDE? Na Orla do Guaíba (Av. Edvaldo Pereira Paiva)
    QUANDO? Dia 21 de maio, domingo, às 10h da manhã

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    Fotos: Sofia Cortese.

  • Cineasta Carlos Pronzato fala da nova obra sobre os cem anos da greve geral de 1917

    Por: Gisele Peres, de São Paulo, SP

    Argentino radicado no Brasil desde os anos 80, o cineasta Carlos Pronzato é um dos principais documentaristas da atualidade, com foco em temas populares e processos de lutas, entre eles os aclamados “Carabina M2, uma arma americana – o Che na Bolívia”; “O Panelaço – a rebelião argentina”; “Bolívia, a guerra do gás”; “A Revolta do Buzu”; “Buscando a Allende”; e “Madres de Plaza de Mayo – memória, verdade, justiça”.

    Pronzato, que também é escritor, lançou no início deste ano o livro “O Milagre da Luz e outros contos em Trastevere – Roma- (150 páginas, editora Multifoco, RJ), além do documentário “OCUPA TUDO, Escolas Ocupadas no Paraná”, que retrata a luta dos estudantes secundaristas contra a Reforma do Ensino Médio proposta pelo governo Temer.

    Mas, é com exclusividade para o Esquerda Online que o documentarista fala sobre o seu próximo projeto, um filme sobre os cem anos da Greve Geral 1917, uma das mais abrangentes e longas mobilizações operárias da história do Brasil.

    Esquerda Online: Sua obra transita pela literatura, teatro e cinema. Mas, foram através dos documentários com temas políticos, que geralmente estão fora dos circuitos privados e institucionais de cinema, que você alcançou reconhecimento e prêmios internacionais. Em sua opinião, qual a importância de escolher documentar a trajetória de personagens de esquerda e também manifestações populares, sindicais e estudantis? 

    Carlos Pronzato: A maioria das escolhas são pessoais, outras através de convites. A importância dessas escolhas é fundamental para o trabalho que desenvolvo, já que através desses personagens históricos da esquerda que revivemos episódios marcantes da nossa história, uma história sequestrada e escondida pela direita. Como exemplo posso citar Che Guevara (Carabina M2, um arma americana, Che na Bolívia, 2007) e Marighella (Carlos Marighella, quem samba fica, quem não samba vai embora, 2011), por citar apenas dois das mais proeminentes lutadores sociais, ambos sem espaço nos currículos escolares.

    Ambos impulsam hoje, ao meu entender, propostas político-sociais de enfrentamento à opressão, com as peculiaridades contemporâneas, se conseguirmos entender a amplidão dessas históricas mensagens de coragem que não sucumbiram no tempo e são sempre necessárias para alavancar um presente de lutas, e principalmente agora em que muitas das conquistas do passado estão sendo pisoteadas por um grupo político da pior linhagem que usurpou o poder executivo. Quanto a documentar manifestações populares é outra faceta da mesma proposta, imbuídas de uma pegada diferente, já que nesses trabalhos não há muito tempo para a reflexão histórica e sim de um constante e alerta ativismo, ainda que registrando grupos e coletivos com suas divergências políticas, mas que apontam todas para a emancipação da classe trabalhadora.           

    Esquerda Online: O tema do seu próximo documentário será a Greve Geral de 1917, promovida por organizações operárias de inspiração anarquista aliada à imprensa libertária. Como foi o processo de produção desse filme? Quais foram os principais desafios e dificuldades?

    Carlos Pronzato: O processo foi iniciado em meados de 2016 com visitas aos arquivos de São Paulo e Campinas, onde se encontra o Arquivo Edgard Leuenroth, em homenagem ao célebre jornalista e militante anarquista, e muitas leituras do material acadêmico produzido até hoje e que atualmente continua em andamento. Todas as entrevistas já foram realizadas e continuamos com a pesquisa em arquivos, jornais, documentos, panfletos, material iconográfico etc. O primeiro desafio é sempre aceitar o desafio de trabalhar sem grandes recursos, com muita solidariedade daqueles que acreditam no potencial transformador deste tipo de obra, sempre realizado às margens do Estado.

    O segundo é tentar configurar um retrato fidedigno dessa que foi a primeira Greve Geral do país e tentar trazer para estes tumultuados dias atuais o espírito da revolta – este é o título do livro da pesquisadora Christina Lopreato, certamente a obra principal que resgata o episódio e uma das entrevistadas. O que sempre me move ao iniciar documentários históricos de corte político é justamente isso, abordar as questões principais que deflagram os acontecimentos e os próprios acontecimentos em si, mas sempre dentro de uma perspectiva de provocar ações concretas hoje, através dos exemplos do passado.

    O longo e extenuante trabalho de encontrar a linha narrativa no decurso da escuta de horas e horas de entrevistas é o processo mais complexo antes de partir para a montagem da obra, incluindo os outros elementos. Talvez seja essa a maior dificuldade neste trabalho, já que se trata de um fato histórico de cem anos atrás, para o qual contamos com um número reduzido de imagens, embora muito material de imprensa, notadamente a imprensa anarquista e socialista da época, alguns em italiano. A maior dificuldade é a infelicidade de não encontrar mais sobreviventes da Greve Geral, inclusive descendentes, o que teria sido fundamental em termos de História oral que é tão importante quanto os excelentes depoimentos de acadêmicos munidos de vasta documentação.

    Esquerda Online: Houve um brutal processo de repressão em 1917, com o uso de violência extrema. Policiais matavam manifestantes, com sabres e tiros, ação que ficou conhecida como noite de São Bartolomeu paulista. Apesar da violência e desaparecimentos nunca explicados, a greve é considerada vitoriosa por ter atingido conquistas como aumentos salariais, redução de jornadas de trabalho e limitação à exploração da força de trabalho de mulheres e crianças. Como o seu documentário aborda a repressão e as conquistas? 

    Carlos Pronzato: Certamente há muita nebulosa quanto ao número de mortos nos enfretamentos nas ruas de São Paulo em julho de 1917 durante a Greve Geral, além da morte do sapateiro espanhol anarquista de 21 anos, José Martinez – fato que deflagrou o acirramento da resposta popular e a conseguinte repressão indiscriminada das forças à serviço das elites paulistas – e os outros dos mortos posteriores. Há indícios de enterros clandestinos no cemitério de Araçá na calada da noite, mas não sabemos exatamente o número que, acredita-se, supera os dois mil. No documentário traçamos um paralelo, inclusive, com as valas clandestinas descobertas pós ditadura civil-militar, vindas a conhecimento público a partir das pesquisas dos persistentes movimentos de Direitos Humanos. Sem dúvida, a brutal repressão reflete o fato de aquela histórica greve colocar em xeque o sistema de exploração inumana da incipiente industrialização daqueles inícios do século XX.

    O que não impediu que as conquistas sociais tenham sido de extrema importância para os trabalhadores que tiveram suas principais reivindicações atendidas, embora num momento posterior muitas delas foram desonradas pelos empresários milionários e o sistema capitalista que lhes deu – e lhes dá – amparo. No filme, resgatamos essas conquistas, o papel da mulher na linha de frente das revoltas e o papel que coube à imigração, maiormente italiana, que trazia experiências de luta na Europa, e exaltamos a maneira em que foram obtidas, com muita organização prévia do sindicalismo revolucionário através das Ligas de Bairro, notadamente a da Mooca, e a importância da pedagogia anarquista (Escolas Racionalistas, Teatro, Literatura, Imprensa) colocada em prática desde muito tempo antes, o que criou um substrato subjetivo que, aliado as condições objetivas da exploração, culminou todo esse processo de lutas iniciado, ao menos, uma década antes.    

    Esquerda Online: Cem anos depois da Greve de 1917, a proposta de reforma da Previdência propõe, entre ouros ataques, aumentar o tempo de contribuição e de idade para aposentadoria condenando os mais pobres a morrerem trabalhando. Cem anos depois, os trabalhadores tomaram as ruas do Brasil no último dia 28, numa Greve Geral, em defesa dos direitos trabalhistas. Podemos afirmar que a luta por condições de trabalho e vida menos exploratórias e mais humanas permanece a mesma? O que a história da primeira greve, levantada no seu filme, tem a nos ensinar em 2017?

    Carlos Pronzato: É justamente neste atual período de alarmantes retrocessos sociais e políticos, em que nos toca viver, que o documentário pode chegar a ter um papel de grande transcendência para, ao colocar o foco naqueles pioneiros das conquistas trabalhistas que desfrutamos hoje, ou melhor, até hoje, que depois passaram por diversos processos de aprimoramento e também aspectos que desvirtuaram as propostas originais durante o período Vargas, desembocar num contundente alerta na defesa de uma carteira de trabalho a cada dia mais rasgada.

    É sintomático que, em dias de greves gerais (28 de abril) este centenário da primeira greve geral se constitua também num pretexto para potencializar a resistência ao momento político atual. Podemos afirmar sim que, mudados os contextos, a luta por condições dignas de trabalho contra a exploração do capital continua a mesma, mas o que o filme tenta trazer aos dias atuais é que a resistência à desumanização do trabalhador por força do capital e a luta por novos horizontes de transformação social continuarão sempre enquanto exista a indignação e a coragem de não abandonar a luta diante de um inimigo completamente desproporcional. Pelo menos, é isso que o exemplo de aqueles grevistas, anarquistas e socialistas de 1917, inauguraram neste país. 

    Acesso

    Os documentários de Pronzato estão disponíveis no site de busca de vídeos Youtube. O catálogo do documentarista pode ser conferido no endereço.

    Colabore!

    cartaz pronzato

  • Resposta da Batalha da Matrix ao MP paulista

    Por: Elber Almeida, de São Bernardo do Campo, SP

    Leia o relato da Batalha da Matrix, evento que ocorre em São Bernardo do Campo há quatro anos, sobre recente intimação do MP paulista à organização. Na intimação, o promotor de justiça Jairo Edward de Luca da Comarca de SBC pede esclarecimentos a respeito de uma outra carta, que foi enviada pelo CONSEG (Conselho de Segurança Centro São Bernardo) para ele, com abaixo-assinado contra a presença da batalha na praça. A organização do evento levou a resposta oficial para o Fórum de SBC.

    Leia, abaixo:

    “Gostaríamos de compartilhar com todo mundo, pra ficar público mesmo, até porque a Batalha da Matrix são vocês. É uma ideia longa… então, se vc faz parte mesmo, é importante saber.

    No dia 28 de agosto chegou para todos os membros da organização da batalha uma intimação do Ministério Público de SP.

    Na intimação, o promotor de justiça Jairo Edward de Luca da Comarca de SBC pede esclarecimentos a respeito de uma outra carta, que foi enviada pelo CONSEG (Conselho de Segurança Centro São Bernardo) para ele.

    A carta do CONSEG tinha abaixo-assinado contra nossa presença na praça, apelos para a prefeitura “fazer alguma coisa”, além de várias outras acusações sem muito sentido.

    Hoje, a organização levou a resposta oficial para o Fórum de SBC. Gostaríamos de publicar essa resposta aqui – infelizmente não digitamos a acusação pra vcs lerem também, mas levaremos cópias pra próxima edição da batalha e vcs podem ler (junto com a resposta)

    (Na 5ª página vcs podem ler partes do que o CONSEG disse na acusação, e nossas respostas diretamente para eles)
    ________________
    PG.1

    Resposta | Sociedade Alternativa de Campom (5 Páginas)

    São Bernardo do Campo, 10 de setembro de 2015
    SR. PROMOTOR DO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL
    DR. JAIRO EDWARD DE LUCA

    Através desta carta a organização da Batalha da Matrix vem esclarecer para o Ministério Público, para o Conselho Comunitário de Segurança Centro São Bernardo e para os comerciantes e moradores envolvidos no abaixo-assinado o nosso ponto de vista, a importância de se ter um evento desta magnitude em praça pública semanalmente, as razões que nos levaram a recusar as propostas feitas pela prefeitura e o porquê da falta de segurança na área ter se instalado do modo que é relatado.

    A Batalha da Matrix é um evento cultural legítimo, reconhecido pela Prefeitura e bem adotado pela massa jovem da cidade de São Bernardo do Campo. Desde maio de 2013 estamos na praça da igreja matriz toda terça-feira para realizar uma batalha de MCs, único atrativo do evento. O termo ‘batalha’ se explica justamente por ser um duelo entre dois improvisadores, que fazem rimas na hora para atacar e se defender do oponente. O público define o vencedor em 2 ou 3 rounds fazendo barulho para o melhor.

    O evento tomou grandes proporções de público nos últimos dois anos. Pessoas de diversos lugares da cidade, do estado de São Paulo e até outros estados vêm pra prestigiar os duelos. Isso aconteceu devido a fatores como a facilidade de se locomover até a praça vindo de qualquer lugar. Por ser em local público aberto, não há restrição de entrada; todos são convidados, crianças, jovens, adultos e idosos.

    À curto prazo, pudemos avaliar que muitos jovens se identificaram com o evento e passaram a fazer parte dele – direta e indiretamente. Isso trouxe benefícios incalculáveis para a vida deles, uma vez que em pleno centro da cidade, toda semana, puderam encontrar uma alternativa para sair do ócio cultural local e dos riscos da vida periférica. Alguns se tornaram MCs e ainda batalham, outros formaram grupos e estão começando a atuar em carreira musical, outros são espectadores e participantes do movimento.

    Em pouco mais de dois anos, nossa contribuição com a cultura hip-hop local tem gerado uma opção diferente para a população da cidade – que não seja sob bandeiras da prefeitura, que não seja no Parque Citta di Maróstica e não dependa de verbas, projetos, editais ou qualquer tipo de burocracia formal para existir, só precisa de jovens dispostos a ocupar a praça da igreja matriz durante as noites de terça-feira. Acreditamos que esse é o caminho para que espaços públicos como praças ganhem verdadeiro sentido. A população tem direito à cidade, e para ir e vir ou gerar cultura na rua, não é necessária autorização. Damos início às atividades às 19h30 para que o horário-limite de 22h seja respeitado e possamos finalizar o evento e desligar o som. Vale lembrar que desde o início orientamos o público para que não consumam drogas, alertar é o que podemos fazer com o que está em nosso alcance.
    _____
    PG.2
    No que se refere a roubos, brigas, pichações, drogas e álcool para menores na praça e repressão.
    Esclarecemos neste parágrafo que:

    1) Somos geradores e consumidores da cultura de rua hip-hop. A Batalha da Matrix reúne uma média de 600 jovens toda terça-feira. É irresponsável dizer que este número de pessoas não requer o mínimo aparato de segurança, tanto quanto dizer que essa segurança deve ficar a cargo da organização; uma vez que estamos na rua e não espaço privativo.

    2) A R. Marechal Deodoro tem vigilância permanente da PM e da GCM durante o dia, período em que o comércio está aberto. É inadmissível permitir que centenas de jovens não tenham a mesma segurança no período noturno das 19:30 às 22:00, só porque participam de uma cultura que nem todos da área central apreciam.

    3) Não acreditamos no argumento de que “não há contingente” para tal segurança. Se há contingente para repressão, há para proteção. Não somos obrigados a sair de espaço público e ir para o Parque da Juventude por estratégia da prefeitura de facilitar e atender os interesses de quem a pressiona. O estado deve garantir a mesma segurança que garante no período diurno no mesmo local.

    4) Durante maioria das vezes, agentes da GCM permanecem na praça somente até pouco depois do início do evento. Após requisitarem o número do RG de algum dos organizadores, vão embora alegando ‘ter conversado com organizadores do evento’, deixando o perímetro livre para delitos serem cometidos.

    5) Não somos e tampouco temos autoridade ou força policial para que delitos ou crimes sejam prevenidos, nossa função é somente gerar cultura na rua. Fica claro assim, nossa necessidade de apoio de outros órgãos para que a ordem se mantenha.

    6) A igreja da matriz e a praça são alguns dos maiores patrimônios históricos da cidade. Manter a integridade física do patrimônio público é tarefa da Guarda Civil Municipal. Logo, se ocorrências como pichação e pessoas urinando acontecessem de fato durante o período da batalha, elas seriam prevenidas pelos guardas presentes. Porém em grande maioria das vezes eles não estão presentes, fica claro então o motivo para que tais situações tenham abertura para ocorrer.

    7) Se nem mesmo as forças responsáveis pela segurança da cidade mostram esforço para garantir a segurança de um evento que acontece na rua, não entendemos porque tentam nos responsabilizar pela segurança de centenas de jovens, uma vez que não temos a autoridade cabível para realizar tal ação. Parece ser fácil responsabilizar um grupo de organizadores para possíveis problemas; difícil assumir que a segurança da cidade não é responsabilidade de meia dúzia de jovens.

    8) A questão das drogas é complexa e não teve início na Batalha da Matrix, este é um problema social de grandes proporções que existe por todo o país – na rua, nas faculdades, nas prefeituras, na periferia. Envolve a classe pobre, média e alta. O uso de drogas existe, e uma vez que instalado onde vivemos, é natural pensar que com um grande fluxo de gente se concentrando na praça da matriz ao mesmo tempo este problema iria migrar. A praça da matriz é palco para usuários de drogas e moradores de rua desde muito tempo atrás, acabar com a batalha não é a solução para o problema. Não tapemos nossos olhos com peneiras.

    9) Se há de fato distribuição de álcool para menores de idade, não há nenhuma relação com a batalha, uma vez que não comercializamos álcool no evento. Fica claro então o problema de falta de inspeção nos bares situados nos arredores da praça.
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    PG.3

    No que se refere a negociações com a prefeitura:

    De fato houveram diversas reuniões com representantes da prefeitura, das polícias militar, civil e GCM, membros da Secretaria de Cultura e Secretaria de Segurança Pública, onde então houve a sugestão de migrar o local do evento, da praça da matriz para o Parque da Juventude. A proposta inicial era de que o evento não mais acontecesse na praça, e passasse a acontecer na pista de skate 4 vezes ao mês. Recusamos, pois não queríamos perder a identidade do evento que já havia sido instalada, uma vez que ele se chama “Batalha da Matrix”. Uma nova proposta foi feita, onde o evento seria feito então 3 vezes ao mês no Parque da Juventude e somente uma vez na praça da matriz, de modo que o “stress” gerado para comerciantes e moradores do centro fosse “aliviado”.

    Existem dois adendos decisivos neste ponto:

    1) A juventude da cidade se deslocou para um show do músico Rael no dia 26/04/2015 – no Parque da Juventude Citta di Maróstica – por volta das 18h o local já estava em sua lotação máxima e pessoas foram proibidas de adentrar ao parque. Por volta das 19h, a GCM usou de abuso de força para dispersar jovens da porta do parque, com bombas de gás lacrimogênio, efeito moral e balas de borracha, fazendo com que centenas de jovens se dispersassem para as pistas em frente ao Paço Municipal, onde haviam carros passando com velocidade. Consideramos essa, uma atitude irresponsável da GCM – erro esse reconhecido pelo então Secretário de Segurança Urbana, Benedito Mariano, em reunião com a organização da batalha – e poderia ter acarretado em casos de ferimentos mais graves. Foi claramente um sinal de que a prefeitura não estava preparada para gerenciar um evento cultural de grande porte como o nosso, não mediu as proporções do público que poderia ir ao evento – e quando o evento já estava em lotação máxima, usaram de métodos irracionais para tirar os jovens do local. Vimos então um exemplo de qual seria o procedimento com nosso público caso fosse necessário.

    2) Embora não fosse nossa decisão oficial, ainda assim consideramos e fizemos uma edição da Batalha da Matrix no Parque da Juventude para saber quais seriam os efeitos dessa possível mudança. Essa edição foi realizada no dia 05/05/2015 – Aniversário de 2 anos da Batalha da Matrix, no Parque da Juventude, e contou com o apoio do CAJUV via Mariana Perin, até então Coordenadora de Ações para a Juventude. Tivemos mais uma decepção quando as caixas de som solicitadas por nós falharam no decorrer do evento e os técnicos de som presentes não demonstraram empenho algum para que a situação fosse corrigida, frente à mais de 2.000 pessoas presentes.
    Mais uma vez, tivemos que agir de modo independente buscando caixas de som particulares para dar continuação ao evento – que teve uma pausa brusca de 45 minutos por falta de som, prejudicando inclusive o cronograma que devia ser finalizado às 22h.

    Após muita conversa interna, a organização da Batalha da Matrix chegou ao consenso de que não seria positivo para o movimento nem para o público mudar o local do evento para o parque Citta di Maróstica. Acreditamos que a cultura acontece espontâneamente, e se há sucesso, segue do modo que se instalou. A repressão desnecessária da GCM e PM já ocorria conosco na praça, vimos que não foi diferente no Parque. A necessidade de ser independente, usar de nossa própria aparelhagem já existia na praça, vimos que não foi diferente no Parque. Esse foi o ultimato para confirmarmos mais uma vez o que acreditávamos: nossa cultura deve ser propagada em praça pública, espaço aberto, livre, sem revistas discriminatórias e sem a típica burocracia complicada que envolve fazer eventos em parceria com a prefeitura.

    É direito constitucional ocupar espaço público para fins culturais, desde que sejam manifestações pacíficas e sem armas. A Batalha da Matrix é uma manifestação cultural legítima, pacífica, sem armas que respeita o horário-limite das 22h, portanto permanece definitivamente na praça da igreja matriz, todas as terças-feiras, quatro vezes ao mês.
    _____
    PG.4

    Visto isso, declaramos que:
    Em uma sociedade que prefere culpar jovens consumidores de cultura por problemas que estão instalados desde antes desses jovens nascerem, é difícil obter a devida compreensão e diálogo. Parecem associar jovens ao caos, ao crime, ao medo, e não ao futuro que está por vir na cidade de São Bernardo do Campo e de todo o Brasil. É uma grande conquista reunir centenas de pessoas em praça pública semanalmente com tanto sucesso para celebrar e viver a cultura que for – isso traz sentido à vida cinza das grandes cidades, onde só o horário comercial tem vida. Pessoas compram, movimentam capital, trabalham, e quando se reúnem para motivo diferentes destes são vistas como desocupadas e criminosas. Este pensamento deve acabar! Também somos seus filhos e netos.

    Alertamos que nossa geração pensa diferente do senso comum. O futuro está por vir, os cargos serão assumidos por jovens como nós que enxergam o valor que a cultura de rua tem pra agregar à sociedade, e que em longo prazo interfere em questões como a redução das estatísticas criminais, não o aumento das mesmas.

    Exigimos o devido respeito para com nosso movimento. Não admitimos que o transtorno gerado por parte do público que não está vinculado à batalha seja associado ao verdadeiro motivo de estarmos na praça: uma batalha de MCs.

    Aproveitamos a situação para convidar todos aqueles que tiverem interesse e curiosidade em conhecer a Batalha da Matrix de fato, para que se desprendam de falsas opiniões e rumores que rodeiam a cidade. Venham com seus filhos, irmãos, pais. Verão que na parte inferior da praça da igreja matriz, todas as terças-feiras às 19h30 – o que ocorre é que por duas horas e meia, jovens se encontram e geram cultura hip-hop. Nada mais.
    _____
    PG.5

    Resposta ao CONSEG – Conselho Comunitário de Segurança Centro São Bernardo

    Nesta página usaremos citações do que nos foi enviado e nossas respostas em sequência.

    1) “Desde Agosto de 2014 todas as terças feiras a partir das 19:00HS, começam a chegar na praça da igreja Matriz vários adolescentes de todas as idades dos sexos masculino e feminino, de bicicletas, skates, e a pé, se juntam, enchem a praça se dizendo esportistas cantando rap com alto-falantes dizendo ser cultura, mas na verdade é só para usar drogas livremente e são todos os tipos de drogas, “pinchando” portas comerciais, prédios e residências, “quebra”, assaltam, urinam nas ruas e portas de residências e comércios.”

    Exigimos o devido respeito com o nosso movimento. Não nos rotulem com uma opinião tão preconceituosa e mal fundamentada como a que nos foi digirida. Talvez seus próprios filhos frequentem a batalha.
    Claramente vocês não conhecem nosso movimento de perto, tampouco podem criticá-lo. Fica aqui o convite para que o conheçam de fato. Ao menos tenham a dignidade de ir ver o que acontece de perto.
    Fica também o convite para um debate entre a organização e o conselho a qualquer momento, estamos abertos para diálogo; porém não admitiremos mais falta de respeito e calúnia.
    Não somos pichadores, não somos assaltantes, não somos violentos. Somos integrantes ativos da cultura hip-hop e o que fazemos na parte inferior da praça toda terça-feira às 19h30 é uma Batalha de MCs – não uma zona de guerra como vemos nesse relato sensacionalista.

    2) “Falando para quem estiver sentado no banco da praça para saírem pois eles têm que filmar, várias vezes carro da guarda municipal faz a segurança para eles fazerem o que querem, desrespeitando todos deixando todos amedrontados”

    Este parágrafo está incrivelmente incoerente com os fatos, chega a ser cômico o teor sensacionalista aqui expressado. Todas as vezes que estamos na praça o banco que usamos de palco está desocupado, logo nunca chegou a ser necessário algum pedido de saída referindo-se à algum cidadão, tampouco algum abuso como expulsar pessoas do banco para que possamos filmar, simplesmente não faz sentido. Podemos ver aqui o tipo de apelo que usam para que possam conseguir o que desejam, nossa retirada.

    3) “[…] Pois a praça pertence a prefeitura, que por sua vez foi feita uma obra de reforma e nem banheiro público foi colocado”

    Concordamos nesse aspecto – é lamentável que nenhum banheiro público tenha sido instalado na reforma de uma praça tão grande, fato esse que acarreta em reclamações de pessoas urinando nos arredores.

    Para concluir, enfatizamos que a Sociedade Alternativa de Campom está aberta ao diálogo à qualquer momento, seja com quem for, pra prestar esclarecimentos. Porém, defendemos a permanência definitiva do evento na praça da matriz, como nos é dado por direito constitucional de gerar cultura em espaço público. Alertamos que também temos um grande público que já ultrapassa os limites do estado de São Paulo e não pretendemos entrar em uma guerra de abaixo-assinados. Entendam nossa cultura. Aceitem nossa cultura. Não tirem nossa liberdade.

    Sociedade Alternativa de Campom
    Batalha da Matrix
    Juventude de São Bernardo do Campo”