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  • Uma interpretação do carnaval

    Por Bernardo Pilotto, de Curitiba.

    Para adoradores, isentões e para quem não gosta, saber qual é a data do carnaval é uma pergunta importante. Afinal de contas, são 4 (em alguns casos até 5) dias de feriado que marcam o fim do verão e o início de fato do ano.

    E a forma que é “escolhida” a data do carnaval mostra muito das suas origens: a terça-feira de carnaval é sempre 40 dias antes da Páscoa. Neste período, chamado de Quaresma, a tradição católica colocava a necessidade de jejum, orações, enfim, de uma preparação para a Páscoa. Por conta disso, foi criada uma festa para anteceder este período de provações. E esta festa é o carnaval.

    O carnaval é, portanto, uma anti-festa. É o momento de fazer aquilo que é proibido no restante do ano, afinal, você vai ter 40 dias para pagar seus pecados após os festejos. É o momento de tirar a fantasia do cotidiano e colocar a de pirata, rei, colombina, arlequim e tantas outras que a nossa criatividade alcançar.

    E a influência cristã no carnaval não é apenas na data: a ideia de um desfile está intimamente ligada a rituais religiosos, como as procissões. Antes do carnaval, já haviam manifestações populares de formato processional, como os festejos da Senhora do Rosário e os ternos de Santos Reis. Esse formato também era visto nas religiões de matriz africana, como no caso dos afoxés vinculados ao candomblé.

    Os ranchos surgiram a partir de comunidades baianas no Rio de Janeiro e desfilavam no dia 06 de janeiro, dia de Santos Reis. Até que Hilário Jovino Ferreira teve a ideia de transferir este desfile para os dias de carnaval. A ideia pegou e os ranchos acabaram aceitos também pelas elites cariocas.

    Até então, nas camadas mais ricas da população, desde meados do Século XIX, se destacavam, no período do carnaval, os desfiles das chamadas Grandes Sociedades. Já as camadas populares preferiam a diversão em blocos improvisados, especialmente os ranchos, que são um dos núcleos fundadores das futuras escolas de samba.

    A partir do começo do século XX, os ranchos foram se afastando de sua origem popular, buscando a aceitação das elites. Buscavam o afastamento dos cordões e blocos, que tinham sua imagem ligada a bagunças e arruaças. Vale lembrar que, durante a República Velha (1894-1930), as manifestações populares, especialmente de cultura negra, eram oficialmente proibidas e reprimidas.

    De lá pra cá, o carnaval sempre sintetizou as disputas pelo uso do espaço público da cidade e refletiu as contradições da nossa sociedade.

    Ainda hoje, a origem do nosso carnaval ainda se faz presente e não apenas na definição na data. As disputas pela aceitação da festa, por exemplo, continuam. E o seu caráter popular também, se renovando e reinventando a cada ano.

    Em tempos de ajuste fiscal e de poderes ocupados quase 100% por setores conservadores, o carnaval tem sido colocado como um inimigo do bom funcionamento da sociedade. Em várias cidades, prefeitos e vereadores ameaçam retirar as verbas públicas para a festa, limitam a venda de bebidas alcoólicas e privatizam a festa (através de parcerias com as grandes cervejarias).

    Essas decisões são hipócritas e elitistas. Do ponto de vista fiscal, o gasto com carnaval representa um valor muito pequeno perto do que as Prefeituras gastam com propaganda, dívidas indevidas e injustas (e que precisam ser auditadas) e remuneração de serviços privados. Ainda nesse campo, é preciso registrar que parte do gasto com os festejos é revertido por conta da maior arrecadação de impostos devido ao incremento de comércio, hotéis, etc. Mas, sinceramente, isso é o que menos importa.

    O mais relevante é que o cancelamento do carnaval esconde uma visão elitista do papel do poder público em relação à cultura. Isso porque o carnaval de rua é uma festa bastante popular e para muitos é a única acessível. É também, como dissemos acima, uma festa transgressora. E isso incomoda muita gente.

    Além de tudo isso, a ausência do poder público favorece a privatização (e consequente elitização) da festa. Em algumas cidades, como Curitiba e Rio de Janeiro, as Prefeituras fizeram acordos com uma cervejaria e aí só se pode vender uma marca de cerveja durante os eventos. Quem ousa vender outra marca, é reprimido.

    A ausência do poder público também impacta naquilo que se ouve durante o carnaval. Isso porque apenas os grandes blocos (normalmente ligados a artistas já consagrados e que muitas vezes procuram inovar o carnaval sem muito critério) conseguem apoio do setor privado para efetivar seus desfiles. Sem o poder público, blocos tradicionais tendem a ter ainda mais dificuldade em resistir e existir.

    Por fim, é preciso dizer com todas as letras: é sim possível fazer festa em tempos de crise. Eu diria que é ainda mais necessário. Se, nesta sociedade bruta em que vivemos, não pudermos ter nossos dias de extravaso, vamos todos acabar confinados e deprimidos.

    *Uma versão reduzida deste texto foi publicada no Jornal Batucada, de Curitiba.

    Imagem: Cena de Carnaval, Debret
  • Sambódromo carioca terá desfile com uma nova safra de sambas-enredo

    Por Bernardo Pilotto, de Curitiba.

    O desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro em 2017 (que começam nesta sexta-feira, 24 de fevereiro, com o primeiro dia de desfile do Grupo de Acesso) será marcado pela presença de uma nova safra de sambas-enredo.

    Ao invés de sambas acelerados e com óbvio cunho comercial (que foram a tônica durante alguns períodos entre 1990 e 2010), estamos diante de um crescimento de enredos e respectivos sambas sobre as religiões afro-brasileiras, sobre artistas, poetas e músicos que não estão no centro do showbizz (como Carolina de Jesus, João Nogueira, Beth Carvalho, Gonzaguinha e Zezé Motta), sobre personagens históricas ausentes da história oficial (como João Cândido) e até a presença de algumas críticas sociais (como no caso do samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense, que gerou inclusive uma gritaria dos setores ligados ao agronegócio).

    Definitivamente, a atual crise econômica tem feito bem ao carnaval carioca, pelo menos neste aspecto. Isso porque os patrocínios secaram e fizeram com que as escolas fossem buscar enredos em outras fontes.

    Além do conteúdo, há também mudanças do ponto de vista estético. Em 2016 e 2017, por exemplo, a Acadêmicos do Sossego, escola de Niteroi que nunca chegou ao Grupo Especial (a primeira divisão do samba), apresentou sambas diferenciados: no ano passado, o samba-enredo não tinha rimas, em conformidade com as poesias do homenageado (o poeta Manoel de Barros) e, agora, em 2017, o samba tem um diálogo de teatro, para lembrar as atuações da homenageada (a atriz e cantora Zezé Motta). E isso tem dado resultado: a escola foi campeã do Grupo B em 2016 (e por isso subiu ao Grupo de Acesso) e é cotada para permanecer no Grupo de Acesso para 2018, algo inédito para a agremiação.

    Além dos sambas da Acadêmicos do Sossego, merecem destaque os sambas da Renascer de Jacarepaguá (sobre o encontro de Carolina de Jesus e João Cândido), Acadêmicos do Cubango, Beija-Flor, Mocidade Independente e Vila Isabel de 2017 e os daViradouro, do Salgueiro e da Mangueira de 2016.

    E essa nova safra veio mesmo com a manutenção (e ampliação) de um sistema de escolha de sambas-enredo que vem exterminando as tradicionais Alas de Compositores das escolas (uma reportagem da Folha de S. Paulo do último domingo é bastante explicativa sobre o tema). Os sambas-enredo continuam sendo disputados por coletivos de autores, que muitas vezes se reúnem em escritórios altamente profissionalizados e chegam a gastar mais de R$100 mil para tentar emplacar um samba-enredo. Isso é fruto, entre outros fatores, de uma lógica iniciada já nos anos 1970, quando os sambas-enredo passaram a serem compostos porespecialistas e não mais por aqueles que já compunham outros sambas no restante do ano.

    Um pouco de história

    Quem ouve a grande quantidade de sambas do carnaval de 2017 pode não imaginar o percurso que os enredos passaram até chegar aqui. Apesar de hoje parecer natural, é importante saber que nem sempre as escolas cantaram os orixás, a África e os artistas populares.

    Nos anos 1930, quando os desfiles de escolas de samba tiveram seu início no Rio de Janeiro e passaram a ter músicas compostas especificamente para tais cortejos, as agremiações toparam um acordo: de um lado, o Estado parava de reprimir os desfiles com uso da polícia, por outro, as escolas precisariam abordar temas históricos nacionais nos desfiles.

    Temos, então, até os anos 1960, enredos que enaltecem figuras oficiais da história brasileira. Duque de Caxias, Ana Néri, Rui Barbosa, César Lattes, Getúlio Vargas e outros vultos foram homenageados pelas escolas no período. Os sambas-enredo da época ficaram conhecidos como lençol, visto que cobriam, quase sempre de modo linear, a biografia do homenageado do começo ao fim, sem críticas ou ironias.

    Em 1960, a chegada de Fernando Pamplona a Acadêmicos do Salgueiro muda o panorama do carnaval. Isso porque Pamplona, que até então trabalhava no Teatro Municipal e havia sido jurado do carnaval em 1959, propôs que o Salgueiro homenageasse Zumbi dos Palmares, um personagem que não constava na história oficial. Foi a primeira vez que um negro foi enredo de uma escola de samba carioca.

    A abertura trazida por Pamplona influenciou toda uma geração de carnavalescos (estão, entre os pupilos de Pamplona, nomes como Joãosinho Trinta, Arlindo Rodrigues, Rosa Magalhães e Maria Augusta) e também as demais escolas de samba. A partir de então, as escolas passaram a driblar o acordo celebrado lá nos anos 1930 e outros temas chegaram à avenida. Em 1961, a Tupy de Brás de Pina veio com Seca do Nordeste, primeiro enredo a denunciar um problema social brasileiro; em 1964 e 68, o Salgueiro investiu novamente na temática negra, desfilando com Chico-Rei e Dona Beja, a Feiticeira de Araxá; em 1969, o Império Serrano veio comHeróis da Liberdade, meses depois da edição do AI-5.

    Nos anos 1970, novamente vemos surpresas. Isso porque a União da Ilha do Governador inovou ao trazer o cotidiano para a avenida, com Domingo (1977) e O Amanhã (1978). Inovações também vieram do Salgueiro (sempre ele) e da Beija-Flor de Nilópolis, que trouxeram o sonho e o delírio para o carnaval.

    A abertura política e a crise econômica, características dos anos 1980, também se refletiram nos carnavais da época. Escolas como São Clemente e Caprichosos de Pilares investiram em enredos de forte crítica social, perspectiva que foi assumida, de alguma forma, por quase todas as agremiações.

    Foram nessas duas décadas (1970 e 80) que também vimos os sambas-enredos virarem sucessos nacionais, serem gravados por artistas da MPB e se tornarem sinônimo de lucratividade para quem tivesse um samba escolhido por uma escola. Isso influenciou decisivamente a forma de composição dos sambas. Antes, eram compostos quase sempre por sambistas locais, que também compunham outros sambas ao longo do ano; atualmente, como colocamos acima, temos compositores especializados em samba-enredo, que se articulam através de escritórios e disputam sambas em várias escolas.

    Ainda nos anos 1980, vimos o primeiro enredo patrocinado (do Império Serrano em 1985), que acabou se tornando uma prática dali pra frente, especialmente nos anos de crescimento econômico. Iogurte, cavalo mangalarga, parque de diversões, diversas cidades e estados, artistas de TV e outros temas acabaram virando enredos duvidosos, que muitas vezes deram sono em desfilantes e no público.

    Felizmente essa lógica tem sido revertida, ainda que a muito custo.

  • Pré-estreia do curta “Nós, Carolinas”: um filme sobre as mulheres da periferia, sem estereótipos, para assistir no dia 8 de março

    Leandro Olimpio, de Santos.

    Mais de trinta anos atrás, os documentários brasileiros que buscavam retratar as desigualdade sociais do país e as mazelas do povo pobre receberam uma dura crítica de Jean-Claude Bernardet – um dos principais estudiosos do cinema nacional. Para ele, a maioria das produções realizadas até o início da década de 1980 poderia ser classificadas como de modelo sociológico”.

    Por muitos anos, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, prevaleceu entre os documentaristas brasileiros a utilização de personagens das periferias como uma amostragem daquilo que o cineasta acredita ser justo ideologicamente. Isso também se estendeu aos trabalhadores do campo, aos nordestinos e à classe trabalhadora industrial. E por melhor que fosse a intenção do diretor, por mais à esquerda que fosse sua ideologia, ainda assim era autoritária e unilateral. Talvez venha daí a repulsa de Eduardo Coutinho, maior cineasta brasileiro do real, por filmes ideológicos.

    Na Galeria Olido, que fica na capital paulista, acontecerá no dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher – a pré-estreia de um documentário que simboliza o esforço uma nova geração de cineastas de superar essa característica dos primeiros documentários nacionais.

    Consciente ou não desta definição de Bernardet, preocupado ou não com este debate, o filme Nós, Carolinas– realizado pelo coletivo Nós, mulheres da periferia – tem como proposta subverter este tipo de cinema. Um cinema que, nas palavras do crítico, usa os entrevistados para chancelar a autenticidade de sua visão de mundo. Nesses filmes, o que dizem os entrevistados terá que se encaixar no universo delimitado pelo cineasta. O que não se encaixa é descartado, as contradições são anuladas.

    O filme nasceu de um projeto que combate justamente essa abordagem. As mulheres escolhidas como personagens fizeram parte do projeto Desconstruindo Estereótipos, realizado pelo coletivo em 2015, durante oficinas sobre a representação das mulheres moradoras das periferias na grande mídia. No final do mesmo ano, o coletivo lançou no Centro Cultural da Juventude (CCJ) a exposição multimídia Quem Somos [Por Nós], que incluiu uma série de entrevistas, a partir das quais, como uma segunda etapa deste projeto, foi criado o documentário.

    Este é o primeiro documentário realizado pelo grupo e apresenta vivências de mulheres moradoras de quatro regiões diferentes da capital paulista. Ao assistir o filme, o público irá transitar entre bairros e experiências de vidas relatadas em primeira pessoa. Racismo, solidão, maternidade e a busca da autoestima são alguns dos temas levantados sobre as condições de ser mulher, negra e periférica. As entrevistadas, que têm entre 18 e 93 anos, embora possuam trajetórias diferentes, estão conectadas por elementos cotidianos, como os impactos do machismo e desigualdades raciais e sociais ainda presentes no Brasil.  

    A nossa proposta foi de ouvir e partilhar histórias pessoais que são ignoradas ou desvalorizadas. Para nós, o processo de empoderamento passa necessariamente pela ocupação do lugar de fala. E a nossa busca é não nos acomodar em rótulos, estereótipos, reconhecendo  a diversidade do universo feminino nas periferias, explica Bianca Pedrina, jornalista e cofundadora do Coletivo Nós, mulheres da periferia.

    Ou seja, não se trata, portanto, de adotar uma postura aparentemente imparcial diante dos relatos, um simples registro do verbo. Pelo contrário, absorver as contradições que colocam abaixo qualquer tipo de enquadramento ideológico é uma escolha política.

    O nome Nós, Carolinashomenageia Dona Carolina, uma das entrevistadas e personagem do documentário, e faz menção honrosa à escritora Carolina Maria de Jesus, autora do célebre livro Quarto de Despejo o Diário de uma Favelada.

    Após a pré-estreia, o coletivo realizará um circuito de exibição do documentário em diferentes regiões da cidade, incluindo Cidade Tiradentes e Guaianases, na zona leste, Parque Santo Antônio, na zona Sul; Jova Rural, zona norte e Perus, região noroeste, os bairros das protagonistas Carolina Augusta, Joana Ferreira, Renata Ellen Soares e Tarcila Pinheiro.

    Serviço:

    Pré-estreia do documentário Nós, Carolinas

    Data: 8/3, às 19h.

    Local: Galeria Olido –  Av. São João, 473 Centro, São Paulo

    Circuito

    11/3 Centro de Formação Cultural da Cidade Tiradentes Cidade Tiradentes

    16/3 CIEJA Campo Limpo Parque Santo Antônio.

    18/3 –  Biblioteca Cora Coralina Guaianases

    24/3 Biblioteca Padre José de Anchieta Perus

  • Corta o mandato dele! Marchinha do Ocupa Carnaval leva crítica e arte para a rua

    O “Ocupa Carnaval” é um espaço aberto de articulação política criado por artistas e militantes que leva para as ruas do Rio de Janeiro um carnaval irreverente e crítico.

    Neste ano uma das marchinhas fala sobre a crise do Rio, entoando: “olha o caô…. governador… milhões para os amigos… Mas para o povo não tem grana pra pagar….”

    Leia na íntegra o Manifesto do Ocupa Carnaval:

    “O Carnaval é o mais belo grito do povo! Ocupamos as ruas com estandartes, confetes e serpentinas mostrando que o Rio é nosso: suas colombinas e pierrôs estão vivos e pulsam. Abaixo as catracas que transformam a cidade em um grande negócio, onde o lucro prevalece sobre a vida, onde o dinheiro é mais livre que as pessoas. Enquanto capitalizarem a realidade, nós socializaremos o sonho. Viva a energia da rebeldia. Viva a criatividade das fantasias. Viva o Zé Pereira e o Sací Pererê. A cidade não está à venda e nossos direitos não são mercadoria. Foliões, uni-vos!

    Clique aqui e acesso o Canal do Ocupa Carnaval no Youtube

     

    Foto: extraída do facebook do Ocupa Carnaval

  • Cidadão de bem: a marchinha do carnaval de BH

    Em Belo Horizonte a marchinha “Baile do Cidadão de Bem” foi vencedora no tradicional Concurso Mestre Jonas. Realizado anualmente pela Cria Cultura desde 2012. O nome é uma homenagem ao sambista e compositor mineiro: Jonas Henrique de Jesus Moreira. Ele foi idealizador de projetos como o “Samba da Madrugada”.

    Vencedores em 2017, os compositores Helbeth Trotta e Jhê Delacroix retrataram o cidadão de bem que protestou nas ruas do Brasil desde março de 2015.

    Cidadão de Bem era o nome de um jornal da Ku Klux Klan, grupo fascista que nos Estados Unidos defendia a supremacia branca. Daí veio a inspiração para a crítica.

    Clique e conheça:

    Pagina do Concurso Mestre Jonas

    Vídeos do Concurso Mestre Jonas

     

     

  • Carnaval de SP: apesar de Dória, os blocos estão na rua

    Por Gleice Barros, ABC, SP

    E começou o carnaval na capital paulista. O último fim de semana foi marcado pela presença de milhares de pessoas nas ruas da cidade de São Paulo para acompanhar os blocos de rua, que tem se tornado cada vez mais populares.

    Apesar da política do governo municipal de João Dória (PSDB), a cidade entrou no clima de carnaval com mais blocos cadastrados neste ano (391), em comparação com 2016 (306). O prefeito declarou dias antes que os blocos deveriam se organizar para ter limite de 20 mil pessoas e festejos até às 20hs. Nada mais contraditório com o clima em que a cidade foi envolta neste fim de semana. Segundo declarações do próprio prefeito, somente na região de Pinheiros, na zona oeste, foram estimadas a presença de cerca 700 mil pessoas.

    Os blocos de Alceu Valença e Me fode que sou produção reuniram milhares na região central dá cidade. O Bloco soviético encheu as ruas da região da Rua Augusta. Para aqueles que estavam na região do Anhangabaú ainda foi possível aproveitar o divertido Bloco Clandestino.

    Nesta segunda (20), Dória afirmou que houve falhas na logística da prefeitura com relação ao trânsito provocado e a limpeza da cidade. Totalmente compreensível para quem planeja uma cidade que só existe na sua própria cabeça.

    Apesar de a maioria dos blocos estarem inscritos para acontecem no último sábado (18), os paulistanos consideram o último fim de semana como o pré-carnaval. Então podemos esperar mais gente, folia e alegria no próximo fim de semana.

    Blocos, como Itu Oba de Min, Sai Hetero e Tarado ni você (em homenagem a Caetano Veloso), acontecem no próximo fim semana, entre outros. A semana toda conta com programação de blocos todos os dias.

    Os blocos de rua em São Paulo tem se tornado cada vez mais populares e contrastam com o carnaval que ocorre tradicionalmente no sambódromo. Apesar de ter cada vez mais intervenção de patrocinadores privados, como marca de cervejas, a cidade tem recebido mais e mais pessoas participantes de blocos com os mais diversos temas e estilos. Só escolher e aproveitar a festa.

     

  • Documentário Pixo: o alfabeto da disputa espacial na cidade e suas origens

    Por: Carolina Freitas, de São Paulo, SP

    O documentário ‘Pixo’, dirigido por João Wainer, é uma arma crítica contra as empreitadas que João Dória vem promovendo contra os muros da cidade. O filme conta as origens da pichação, sobre como se tornou uma expressão urbana típica da metrópole paulistana desde os tempos de ditadura civil-militar.

    Em meio à discussão estéril a respeito do pixo ser, ou não ser arte, o filme é preciso sobre a sua questão principal, escondida pelas polêmicas produzidas pelos grandes meios de comunicação e pelo governo: afinal, do que se trata o pixo enquanto fenômeno social?

    Com uma pesquisa fiel, que retoma as pichações políticas na ditadura, as propagandas inovadoras do comércio popular com escritos e gravuras nas paredes da cidade, até chegar na pichação como prática ligada ao punk, ao hip hop e a outras manifestações da cultura do proletariado jovem de São Paulo, o documentário vai desenhando sua verdadeira gênese: a luta de classes na sua dimensão espacial.

    Fica evidente, no filme, como o processo de urbanização e de formação das periferias metropolitanas, entre os anos 80 e 90, em São Paulo, determinou o pixo como grito de jovens e trabalhadores excluídos da cidade. A organização em grupos de pichadores, os desafios de pichar muros e paredes de prédios altos, a elaboração das assinaturas, as competições e as festas do universo do pixo compuseram os elementos lúdicos de um jogo de táticas espaciais que confrontaram e confrontam, com cada vez mais força, os sintomas da propriedade privada e sua vocação de “morte” da cidade à juventude e aos trabalhadores periféricos.

    A perseguição e a violência policial, o preconceito de classe, os ataques de toda ordem da opinião pública fabricada, foram, até hoje, apesar de duros, completamente insuficientes para barrar a manifestação da pichação, consolidada já como resistência sistêmica à ordem espacial de segregação produzida pelo capital.

    O prefeito alimenta a polêmica falseada do pixo ser um problema estético urbano, enquanto que os pichadores compreendem nitidamente contra quem estão pichando: a propriedade privada. Nas escrituras e nos registros de imóveis, a cidade pertence aos proprietários. Na rua, nos muros, nos andares mais altos, o pixo ri da segurança jurídica e assina, para qualquer um ver, que as injustiças espaciais não podem dormir tranquilas com o pesadelo de a cidade um dia ser retomada.

    Documentário ‘PIXO’:

    PIXO from TX on Vimeo.

  • Tripla resistência das minas: Roda Cultural da Brasil

    Por: Elber Almeida, do ABC paulista

    Apenas em sua segunda edição, a Roda Cultural da Brasil, batalha das minas, em São Bernardo do Campo, mostra a que veio: resistir

    Na praça Brasil, ponto de encontro de skatistas da cidade, próximo ao Terminal Ferrazópolis, iniciou a roda que acontecerá toda sexta-feira à noite trazendo música ao local. A roda promete trazer atrações do Rap Nacional gratuitas, para além das batalhas, especialmente atrações femininas.

    A batalha é só de minas. Alguns podem chamar isso de segregação, mas, além da Batalha das Minas que a organização da Batalha da Matrix promove de tempos em tempos, as mulheres têm pouco espaço nas batalhas também no ABC paulista. O mic está aberto, só que na cultura machista em que vivemos elas são ensinadas a não se expressarem. Além disso, sofrem vários ataques verbais machistas nas rinhas, incluso quando não estão rimando.

    Desta vez, a Guarda Civil Municipal (GCM) tentou impedir o evento, querendo reprimi-lo. Porém, as minas resistiram com apoio de organizadores da Batalha da Matrix que estavam no local e possuem larga experiência em lidar com abusos policiais. A batalha foi até o fim, apesar dos guardas de terem convencido o pessoal do posto de gasolina local a desconectar a energia que haviam emprestado para alimentar as caixas.

    A resistência das batalhas de rap no Brasil faz parte da resistência de uma camada de maioria de jovens trabalhadores que enfrentam poucas perspectivas de futuro no sistema capitalista. A cada três jovens brasileiros, um está desempregado. Esse índice aumenta quando falamos de negros e de mulheres.

    Essa rapa enfrenta não só desemprego, falta de vagas nas universidades, educação e transporte público destruídos, mas até perseguição ao direito mínimo à liberdade de expressão e ocupação dos espaços públicos. Um exemplo é o que ocorre na repressão às batalhas. Assim, essa juventude encara três resistências: a de fazer parte de uma nova geração de trabalhadores com poucos direitos garantidos, de ser uma maioria de negros que enfrentam o racismo e, no caso das minas, de sofrerem com o machismo até mesmo no Hip Hop.

    O rap feminino se fortalece com a ascensão de novas MC’s no cenário nacional. Outro exemplo de sua força é a batalha Dominação, que ocorre toda segunda-feira à noite próximo à estação São Bento do metrô em São Paulo. A Roda Cultural da Brasil também promete por ser um espaço de expressão artística de alguns dos setores mais oprimidos da sociedade. Toda sexta-feira, 19horas, Praça Brasil, São Bernardo do Campo. Veja o recado da página da organização:

    “Salve Salve manos e manas do A.B.C.D.M.R 7
    Como muitos ainda não sabem, desde o dia 27/01/2017, toda sexta feira, ás 19:00 horas
    na praça Brasil , no centro de São Bernardo do Campo … rola a Roda Cultural!”

    A batalha das minas é um projeto voltado aos elementos da cultura hip hop e fora dele em prol de empoderar, ainda mais, as mina na cena. O movimento é novo, mas consiste numa antiga luta!!!

    Liberdade de expressão e igualdade perante os seres humanos!!!

    No último dia 03 rolou a segunda edição. Logo após a final, fomos abordados pela Guarda Civil Municipal (GCM) e ouvimos ameaças contra o movimento e repressão. Eles disseram que ali não se estabeleceria nenhum movimento de cultura sem haver um ofício da prefeitura. Mas a nossa Constituição nos diz no artigo 5°, parágrafo 9: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, cientifica e de comunicação, independente de censura ou licença”. E a liberdade de expressão pode ser exercida em qualquer momento e lugar, desde que não interfira na integridade física ou mental dos cidadãos. Fica explicito também na Constituição, no artigo 5°, parágrafo 16: ”Todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao publico, independente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso á autoridade competente”. Não necessitamos de pedido de permissão e sim de comunicação. E as devidas providencias quanto a isso já foram tomadas!!

    Não podemos ser reprimidos e oprimidos por executar nosso direito de liberdade de expressão, por pessoas que nem ao menos entendem que também lutamos pelos direitos delas!!

    Podem vestir fardas, mas não podem discernir o que um movimento cultural representa para a sociedade inferior, que vive nos bairros afastados do centro e na podridão que é o próprio centro. Esperamos e contamos com a participação de todos, para que nessa sexta feira, não seja nada diferente dos dias anteriores. Contamos com muita gente, muito barulho e muito axé para esse evento maravilhoso acontecer!!

    Manas e manos convidem a família tragam as crianças, vamos festejar a vida e sua liberdade de informar !!!

    Minas, vamos chegar com força no bagulho, o evento é pra todos, mas principalmente para vocês. Não é atoa que a batalha é feminina, quem apresenta é uma mina, quem põe o som para rolar é uma mina. Então, nada mais certo do que as minas chegarem em peso. Gratidão àqueles que reservaram um pouco do tempo para dar uma atenção, agradecendo ainda mais, quem abraçou a ideia e vai ta chegando para a gente formar uma grande família que o sistema teme.

    A familia C.U.S.P.I. (Coletivo Unificado Social Político Informativo) agradece!!!

    Leia também:

    #0 Cultura e resistência no ABC paulista

    1# Batalha da Pistinha

    2# Batalha da Praça

    3# Batalha da Vila Luzita

    4# Batalha da Galeria

    5# Batalha da Palavra

    6# Resiste Batalha do Carrefa!

    7# A Batalha do Cooperativa

    Mapa das batalhas de rap no ABC

  • ‘Entre Rios’: A história da urbanização de São Paulo contada pelos rios

    Por: Carolina Freitas, de São Paulo, SP

    ‘Entre Rios’, mini documentário produzido pelo Coletivo Madeira, conta a história da urbanização da metrópole paulistana a partir das violentas modificações dos cursos naturais dos rios que por aqui passavam até o século XIX. Reificações, canalizações, aterragens são algumas das obras que o capital industrial e imobiliário da cidade promoveu, como no caso do Rio Tamanduateí, para que fossem “criadas” novas terras e lotes para arrendamento.

    Às vezes, temos a impressão de que a urbanização é um desenvolvimento quase natural da sociedade. O filme, ao explorar justamente um ente da natureza – as águas na antiga Vila de São Paulo de Piratininga –, demonstra que esse processo de natural não tem nada. Pelo contrário, é fruto do planejamento estatal aliado ao empresariado, para extrair riqueza do meio urbano e fazer de São Paulo uma autêntica cidade de propriedades privadas e automóveis.

    Do mesmo modo, ainda falamos das enchentes típicas do verão como se fossem consequência do excesso de chuva – noção que o filme também aponta como produto das escolhas e obras feitas no século passado, “erros” voluntários dos dirigentes da cidade, que se repetem continuamente até hoje.

    Os 25 minutos de história sobre São Paulo, recheados de depoimentos de arquitetos, geógrafos, historiadores e engenheiros, são valiosos como ilustração de como uma metrópole desigual, poluída, interditada de carros, com problemas seríssimos de enchente, foi construída para o propósito do lucro, independentemente dos impactos trazidos à natureza e à qualidade de vida da maioria de sua população.

    ‘Entre Rios’

    Foto: Reprodução Entre Rios

  • O espelho que nos reflete

    Por: Michel Silva, de Blumenau, SC

    Possivelmente uma das séries mais comentadas e elogiadas recentemente tem sido Black Mirror. Essa série tem um princípio bastante simples: mostrar os efeitos da tecnologia sobre a sociedade em um futuro (bastante) próximo. A maior parte dos treze episódios exibidos até o momento está centrada nos efeitos do “espelho negro” – que pode ser interpretado como uma tela de celular ou mesmo uma tela de televisão – sobre a vida das pessoas. Contudo, os episódios da série não são um elogio à tecnologia, mas uma crítica ao caráter deletério que provoca na convivência em sociedade e na vida das pessoas.

    Os temas abordados são os mais variados. No primeiro episódio da série, uma princesa é sequestrada e exige-se um bizarro pagamento de resgate: o primeiro-ministro britânico deveria manter relações sexuais com um porco, e o ato transmitido ao vivo pela televisão. Embora o governo se esforce para manter o máximo de sigilo acerca do sequestro e do pedido de resgate, a mídia não apenas divulga todos os detalhes, como constrói uma narrativa sensacionalista. Quanto à população, aguarda ansiosamente pela execução do bizarro pagamento, em frente à televisão, deixando inclusive as ruas completamente vazias. Contudo, esse mesmo público, em frente à televisão, se mostra enojado quando a condição do pagamento do resgate é cumprida pela primeira-ministra.

    O controle do “espelho negro” sobre a vida das pessoas também se expressa na relação com as aparências que se busca manter. Nesse aspecto, o primeiro episódio da terceira temporada acaba assumindo um tom cômico por lembrar muito o cotidiano atual das pessoas nas redes sociais. No episódio, todas as pessoas passam a maior parte do tempo fixadas em seus celulares, atribuindo notas de um a cinco para todas as pessoas com quem interagem. O que se vê é uma competição de popularidade em tempo real, onde as maiores notas garantem o acesso a uma série de bens de consumo e privilégios.

    Contudo, os debates podem ser maiores do que apenas o “espelho negro”. No primeiro episódio da segunda temporada, uma jovem busca na tecnologia formas de suprir a ausência do namorado recentemente morto. Começa com uma espécie de bate-papo, em que textos escritos em vida pelo jovem morto servem como parâmetro para que sejam elaboradas, por uma espécie de inteligência artificial, as respostas mais prováveis em um diálogo. Contudo, essa tecnologia que permite o diálogo com um ser artificial arquivado em uma “nuvem” virtual avança até que seja possível reviver uma réplica do jovem morto em um androide, que não apenas fala e exterioriza sentimentos, mas que até mesmo faz sexo. Ele seria um ser artificialmente criado que aparentemente poderia substituir o ente morto. Contudo, como fica demonstrado na parte final do episódio, o androide não tem como ser a mesma pessoa, afinal é um ser criado com rotinas mecânicas e definidas e que não tem a autenticidade imperfeita de uma pessoa real.

    Outro tema que aparece em diferentes episódios é o que poderia ser chamado de uso da tecnologia para promover formas paralelas de justiça. No segundo episódio da segunda temporada, acompanhamos uma jovem sem memória que por uma razão desconhecida por ela é perseguida e atacada por pessoas mascaradas. Ao mesmo tempo que alguns tentam matá-la, outras pessoas permanecem fixas em seus celulares, gravando as imagens da perseguição. No final descobre-se que a mulher perseguida foi cúmplice no sequestro e assassinato de uma criança, e que a perseguição diária é sua punição, teatralizada dia a dia por aquelas mesmas pessoas.

    Essas formas de punição também aparecem no terceiro episódio da terceira temporada, no qual um conjunto de pessoas que tiveram vídeos e imagens íntimos acessados pela internet se vê obrigado a executar tarefas a mando de um desconhecido, que entra em contato apenas por mensagens de textos, e que os ameaça com o vazamento das imagens e a exposição de seus “podres”. Contudo, mesmo após o cumprimento das tarefas, todas as imagens e vídeos são divulgadas, e então o espectador descobre que as personagens pelas quais nutriram simpatia e até compaixão durante o episódio têm nos materiais vazados crimes como pedofilia e racismo, entre outros. No caso dos dois episódios, trata-se de punições que ocorrem de forma imediata, por meio de tortura psicológica, tendo pessoas comuns como juízes.

    Portanto, há na série um conjunto de críticas, que passam pelo uso da presença exagerada e controladora da tecnologia na sociedade. Por outro lado, diante de todo o pessimismo que impregna os episódios, não se apresentam possíveis saídas para a solução dos problemas, ou melhor, naquela sociedade entra-se em um círculo cujas alternativas já estão controladas. Sabe-se que a tecnologia é dominada por alguém, possivelmente com recursos financeiras e se materializa em empresas, mas a crítica expressa na série acaba sendo muito mais para as consequências do que para possíveis causas. Em função disso, a crítica expressa nos episódios acaba sendo muito mais uma forma emocional e imediata do que a construção de um projeto alternativo. Existem alguns exemplos significativos disso.

    No segundo episódio da primeira temporada, um grupo de jovens passa os dias pedalando em bicicletas e assistindo a todo tipo de vídeos, entre jogos, desenhos, eróticos, entretenimento e outros. Esse trabalho é recompensado com pontos que permitem a eles viver naquele espaço, uma vida limitada a assistir a programas de televisão e se alimentar. Um dos grandes sonhos expressos por alguns deles é poder deixar a bicicleta e se tornarem estrelas, inspirados nas celebridades que admiram das telas. O jovem protagonista acaba se apaixonando por uma das garotas e doa sua pontuação para que ela participe do teste de um programa de talentos. Ela, apesar da belíssima voz e excelente execução da música, não é considerada uma extraordinária cantora pelos jurados, mas, devido a sua beleza, é convidada a se tornar atriz em filmes eróticos. Embora hesitando no começo, acaba por aceitar o convite.

    O jovem protagonista, enraivecido, se joga a conquistar todos os pontos possíveis para poder chegar a participar do programa de talentos e tentar se vingar do sistema que havia cooptado sua grande paixão. Para tanto, passa horas e mais horas sobre a bicicleta. Deixa de comer para não gastar seus pontos. Ele acaba por conseguir a pontuação necessária para se entrar no programa e executa uma apresentação de dança, mas sua atuação principal é uma denúncia do sistema de imagens falso que predomina naquela sociedade.

    Ele afirma, ameaçando se suicidar, segurando um pedaço de vidro no pescoço: “Estamos tão loucos de desespero que não conhecemos nada melhor. Só objetos falsos e coisas para comprar. É como nos comunicamos, como nos expressamos. Compramos coisas”. Apesar do susto inicial, para surpresa do protagonista, os jurados do programa não apenas afirmam concordar com o discurso raivoso do jovem, como o convidam para fazer participações em um programa para dizer “verdades” sobre a sociedade. A raiva sem projeto político acaba por ser cooptada pela sociedade do espetáculo, tornando-se também um produto rentável.

    A ausência de projeto político também se expressa em outro episódio em que se discute alternativas para a sociedade, ou melhor, mostra-se que em realidade não existem alternativas. Nesse episódio, é colocado em cena um ursinho azul criado por computador, chamado Waldo. Conhecido por seu sarcasmo e pelos muitos palavrões que fala, o ursinho acaba sendo colocado como candidato em uma eleição parlamentar local. Nos debates e em sua propaganda, ele se limita basicamente a “queimar” os demais candidatos e desqualificar qualquer proposta política que se apresente. Com isso, acaba não apenas caindo nas graças do público, mas se tornando favorito na eleição.

    O comediante que dá vida ao Waldo, que tem um envolvimento pessoal com a candidata trabalhista, acaba por se arrepender dos rumos que as coisas vão tomando, ainda que tardiamente e sem a possibilidade de consertar o estrago que havia feito com Waldo. Mesmo perdendo a eleição, ficando atrás somente do candidato conservador, Waldo é exportado para o mundo. Essa forma de fazer a política desprovida de conteúdo acaba por ser levada a sério pelas pessoas, que se sentem cansadas do discurso dos partidos tradicionais e das promessas não cumpridas pelos “políticos”.

    Esse esgotamento da política e esvaziamento de conteúdo do debate leva parte considerável das pessoas a passarem a não levar a sério mesmo projetos políticos consistentes, abrindo espaço para as alternativas de direita. São experiências recentes desse esvaziamento da política as desastrosas experiências com Donald Trump, nos Estados Unidos, e Beppe Grillo, na Itália.

    Black Mirror apresenta um quadro pessimista não apenas de um futuro próximo, mas também da nossa própria sociedade. Os elementos abordados permitem perceber a urgência de se repensar a forma como estamos organizando nossas sociedades e que temos a necessidade urgente de questionar as raízes desses problemas. Se a série não apresenta uma crítica radical da sociedade do capital, pelo menos aponta um conjunto de elementos que permitem avançar em muitas análises e propor a construção de alternativas que estejam no mundo real. Para superarmos a atual forma de produção da vida, não há a necessidade de quebrar os espelhos que nos reflete, mas de olharmos para além deles e enxergar a sociedade real que nos cerca.