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  • Sobre o livro ‘Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes’

    Por: Carine Martins, de Belo Horizonte, MG

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    Capa do livro

    Lançado no Brasil em fevereiro deste ano, o livro Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes reúne pequenas narrativas na forma de fábulas que descrevem os grandes feitos de 100 mulheres da nossa história. Buscando ser uma obra “antiprincesas” foi escrito pelas italianas Elena Favilli e Francesca Cavallo, contando ainda com a contribuição de 60 mulheres artistas do mundo todo nas ilustrações.

    Indicado para várias idades, as narrativas em sua maioria começam com um “Era uma vez uma criança que sonhava em ser…” e finaliza com a grande mulher que essa garotinha se tornou. São mulheres reais que se destacaram no esporte, na arte, na ciência ou na política, nascidas em diversos países de distintas culturas. Mulheres de diferentes épocas que se destacaram desde séculos antes de Cristo como as rainhas do Egito Hatshepsut (1508-1458a.C) e Cleópatra (69-30a.C), às contemporâneas.

    Há no livro reconhecimentos importantes como o da pequena Coy Mathis, uma criança transsexual, nascida em 2007 nos EUA, e das irmãs Mirabel que lutaram contra o regime de Trujillo na República Dominicana e acabaram sendo assassinadas em 1960. Ou seja, o livro chama atenção por reconhecer mulheres não só por um cargo de poder alcançado, mas também por existirem, resistirem e lutarem. Mulheres negras também se destacaram no livro. Nanny dos Maroons (século XVII na Jamaica) e Harriet Tubman (século XIX nos EUA) foram reconhecidas pela resistência à escravidão que assolava toda a América. Elas organizaram fugas e foram responsáveis pela libertação de centenas de escravos. Outras foram reconhecidas por alcançarem espaços nunca ocupados pro negras como Mae C. Jemison (primeira mulher afro-americana a viajar para o espaço).

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    Fragmento do livro retrata Frida Kahlo

    Das referências femininas mais conhecidas estão, Frida Khallo, Rosa Parks, Nina Simone e a brasileira Cora Coralina, além de outras figuras não tão exemplares, como Margaret Thatcher, Evita Peron, Hillary Clinton ou Michelle Obama, que apesar de poderosas, foram oficialmente reprodutoras da política capitalista que intensifica a opressão das mulheres no mundo todo, mas no livro a perspectiva de classes social não foi critério de seleção das mulheres.

    Escrito em linguagem simples e bastante resumida é de se esperar que as histórias não consigam detalhar as reais dificuldades enfrentadas por essas mulheres ao longo da vida. Muitas inclusive morreram lutando por seus ideais. O formato de fábula busca deixar lições e estímulo às meninas a correr atrás dos sonhos, rompendo com os contos de fadas ou com o senso comum que estabelece papéis para as mulheres. Mas sabemos que sonhar é só um primeiro passo. Como se não bastasse o machismo, as mulheres enfrentam (ainda nos dias de hoje!) outras barreiras ideológicas como a injusta meritocracia, o mito da democracia racial, a LBTfobia e no caso das mulheres pertencentes a classe trabalhadora, barreiras estruturais que as impedem de desenvolver suas potencialidades.

    É inquietante perceber que muitas das mulheres listadas tiveram uma vida anônima ou foram omitidas pela história. A maioria delas foram autodidatas, tendo em vista que ao longo de séculos as mulheres eram proibidas de acessar determinadas profissões. De todo modo, as fábulas deixam três lições: 1) as mulheres sempre resistiram à opressão; 2) provaram historicamente a capacidade para atuar em várias áreas do conhecimento, das artes, da produção, etc e 3) foram (mesmo que em condições desiguais) parte da produção coletiva do conhecimento social, econômico e político do mundo que temos hoje.

  • Capitão Fantástico: a arte como possibilidade

    Por: Karina Lourenço, do ABC, SP

    O filme Capitão Fantástico, do diretor Matt Ross, de 2016, relata a história nada convencional de uma família americana rompida em quase todos os aspectos com a formatada sociedade de consumo e seus valores de mercado.

    Pai e seis filhos compartilham uma vida comunitária em uma cabana quase que totalmente auto sustentável, no alto de uma montanha, no estado de Washington. Caçam, plantam, praticam rituais nada ortodoxos de iniciação tribal, praticam exercícios, recebem formação educacional com viés holístico e humanista, falam seis línguas , inclusive esperanto, linguagem universal. Seus tutores são os pais, livros e o cotidiano compartilhado.

    O roteiro aponta para uma progressiva condensação da trama, quando Ben (Viggo Montensen), a mãe que se encontrava em tratamento psiquiátrico por transtorno bipolar, se suicida, levando Ben e os filhos a se aventurarem em uma viagem até o México para o funeral e a leitura do testamento. A empreitada toca, ao mesmo tempo que tenciona o desenrolar dos acontecimentos. Gradativamente leva a reflexões sobre o posicionamento radicalizado da experiência de rompimento com os valores capitalistas de forma individual, escancarando aos nossos olhos os contrastes.

    A escolha de Ben angustia, revolta, encanta e faz sentir, antes mesmo de fazer pensar. Levando a um progressivo movimento espiralado de defesa, hora de Ben, hora dos avós de Claire (Erin Moriarty), desarmando-nos, por fim, em defesa de ninguém. O filme deixa uma nostalgia filosófica de possibilidades utópicas. É uma obra, um ensaio de contemplação e angústia, um soco no estômago.

    Quando, ao final, Ben, após uma sequência de embates com os personagens fora do seu mundo ideal, ex-sogros, irmã, sobrinhos e filhos, resolve deixar a tutela da criação dos mesmos para os avós maternos, faz a barba, vai embora, ensaia rendição. Leva a crer na possível derrota de seu projeto emancipatório humano.

    No entanto, somos surpreendidos pela volta da sua família comunal. Desenterram a mãe, viajam com o caixão até o topo de uma colina e realizam um funeral de cremação ao som de “Sweet Child O’ Mine” , jogando as cinzas em uma privada pública, como era sua vontade.

    Marx, quando falou do comunismo, mais que uma transformação das forças produtivas da sociedade, retratou que as mesmas deverão estar a serviço da libertação do ser humano, para viver plenamente toda a potencialidade de suas capacidades, prazeres e realizações, sem a culpa castradora.

    Capitão Fantástico é um filme de ensaio e reflexão sobre esses valores, sem ser panfletário. Antes de tudo, é um filme humano em seus vários tons.

  • ’13 Reasons Why’: os porquês do suicídio

    Por: Micael Carvalho*, de São Luís, MA
    *Professor e militante do MAIS

    Terminei de assistir a nova série da Netflix “13 Reasons Why” (Os 13 porquês) e decidi escrever sobre uma temática que ainda é tabu na sociedade: o suicídio. Não vou me ater aos comentários específicos sobre os episódios, para não dar spoiler aos que ainda não assistiram, mas às questões principais que me fizeram refletir ainda mais sobre o assunto.

    Apesar de abordar o “bullying” como a causa que levou a personagem principal ao suicídio, no Brasil e no mundo as causas são bem mais abrangentes e têm a ver diretamente com o tipo de sociedade que temos hoje, sociedade com base na exploração e opressão. A depressão é o fator que mais acomete esse tipo de ação. Mas, vocês já se perguntaram quais as causas da depressão? Já se perguntaram quantas pessoas próximas, ou não, passam por esse tipo de transtorno e distúrbio mental?

    Sensação de fracasso, inutilidade, insônia, desinteresse por atividades e apetite, cansaço exagerado, sonolência, indisposição, inquietação e ansiedade são apenas alguns dos sintomas. Essas características remetem diretamente a problemas sociais, maioria de saúde pública.

    A relação direta do problema com o modelo social está refletida nos países de baixa e média renda (são 75% dos casos mundiais). Crises, guerras, genocídios, fome, desemprego fazem parte desse sistema desigual e combinado.

    Há ainda o fator geracional para acrescentar na discussão. O alvo possui faixa etária definida: os jovens e os idosos. Em primeiro lugar, a juventude, depois, a terceira idade. Nos jovens podemos associar a fatores como pressões sociais, instabilidade financeira e emocional, modelo tradicional de educação, falta de diálogo com amigos e famílias, delinquências acadêmicas, comparações, sexualidade e um longo etc. Nos idosos, o isolamento social, abandono de familiares e amigos, desesperança, dentre outros.

    A opressão machista, racista, xenofóbica e LGBTfóbica, portanto, são essenciais para a reprodução dessa violência. Na série são categóricos os casos de estupros – “a retirada da ‘alma’”. Bastemos analisar com mais detalhes as consequências dos fatos nos episódios seguintes.

    Aqui em nosso país, o suicídio perde apenas para os acidentes de trânsito, segundo os dados do Relatório “Violência Letal. Crianças e Adolescentes do Brasil”, da Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais (Flacso), divulgado em 2015. A cada 45 minutos, uma pessoa retira sua vida no Brasil. O aumento em dois anos foi de 20,3%, conforme o Mapa da Violência do ano passado (2016).

    Infelizmente, essa situação ainda é tratada de forma inadequada. Há além do senso comum (“fraco”, “inseguro”, “querer chamar atenção”, etc), as questões religiosas que implicam fatores ligados exclusivamente à espiritualidade (a famosa “doença espiritual”).

    É necessário dar o tom do debate fazendo o recorte dos tratamentos adequados por profissionais habilitados para lidar com o problema. Discutir e combater as causas e não analisar as consequências somente.

    Enfim, gostaria de aprofundar muitas coisas desses parágrafos, mas a publicação é numa rede social e não num artigo acadêmico. É um tema sério necessário ao debate, preocupante, estarrecedor e que me despertou certa angústia, porque enquanto você lia esse post, mais uma pessoa (segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS – 2015) cometeu suicídio no mundo.

  • Kurt Cobain não era um ‘rebelde sem causa’

    O líder do Nirvana era um militante anti-homofobia e tinha uma visão de mundo

    Por: Ademar Loureno, de Brasília, DF

    Se estivesse vivo, Kurt Cobain estaria decepcionado com a geração que o teve como porta voz. Vários adolescentes que escutaram Nirvana nos anos 90 hoje são os senhores de meia idade que gostam de Donald Trump nos Estados Unidos e Bolsonaro no Brasil. O que aconteceu? Hoje Kurt teria 50 anos e quem sabe ajudaria a responder. Mas infelizmente, há exatos 23 anos, ele preferiu dar fim à própria vida.

    Foi no dia 05 de abril de 1994, quando Kurt Cobain deu um tiro na própria cabeça, que uma violenta onda musical teve fim. O álbum “Nevermind”, de 1991, teria uma venda considerada boa se chegasse à 400 mil cópias. Mas chegou a 8,5 milhões só nos Estados Unidos. Em janeiro de 1992, vendia mais que “Dangerous”, de Micheal Jackson. Seria o mesmo que uma banda de rock pesado hoje fazer mais sucesso que Juntin Bieber.

    Na década de 80, o rock “ostentação” fazia muito sucesso. Eram bandas que abusavam da maquiagem, das guitarras estilizadas e dos efeitos especiais no palco. Isto tudo estava cansando. Veio o Nirvana, com sua simplicidade e fúria honesta dar outro caminho ao rock. E isto virou um fenômeno que tomou o mundo de assalto.

    Na virada de 1991 para 1992 acontecia outro fenômeno: a União Soviética foi extinta e uma nova era para a humanidade tinha seu início. A música do Nirvana foi, inconscientemente, a trilha sonora deste processo. E suas músicas foram proféticas em relação à etapa histórica que se abria. Elas falavam sobre falta de perspectivas, ausência de referências, dor existencial, ódio e caos. Os últimos 25 anos parecem uma letra de música escrita por Kurt Cobain.

    Muito mais que um “astro do rock”

    Mas Nirvana não era apenas niilismo. Em 1992, a banda tocou em um festival no Oregon organizado contra uma lei que proibia a discussão sobre homossexualidade nas escolas. Kurt dizia: “não sou gay, mas gostaria de ser só para irritar os homofóbicos”. Era a década de 90, quando a discussão ainda não era tão aberta e o estigma da Aids fortalecia o conservadorismo. Kurt Cobain também ajudou a divulgar bandas feministas e se envolveu em uma campanha em defesa do direito da mulher de interromper a gravidez.

    Claro que isso é pouco divulgado. O Kurt Cobain que “vende” é o jovem drogado e rebelde sem causa, que entrou para o sinistro clube de artistas que morreram aos 27 anos. Kurt Cobain na verdade foi um filho de uma família operária que tinha hiperatividade e foi erroneamente tratado com medicamentos “tarja preta”. Era viciado desde criança. Só chegou na heroína nos últimos quatro anos de sua vida.

    Kurt Cobain contestava a sociedade em que vivia. Contestava a hipocrisia, o machismo e a homofobia. Contestava o consumismo. O nome de sua música de maior sucesso, “Smells Like Teen Spirit”, era uma ironia com uma marca de desodorantes. A capa do disco Nevermind fazia graça com a busca irracional pelo dinheiro. Kurt ia a seus shows com camisetas de bandas menos conhecidas e ajudava a divulga-las. Foi o Nirvana que impulsionou o sucesso do movimento grunge, com bandas como Peral Jam e Alice in Chains. Esse lado do líder do Nirvana foi pouco entendido, até mesmo por alguns fãs.

    Se estivesse vivo, Kurt com certeza estaria na luta contra Donald Trump e a ideologia de ódio que toma conta do mundo ocidental. Bateria de frente com antigos fãs, aqueles adolescentes cheios de fúria e inquietação que se frustraram com a vida e viraram poços de ódio e ressentimento. Como uma banda como Nirvana faz falta hoje em dia.

  • Por um novo Cine Éden, em Ipiaú, na Bahia

    Da Redação

    O Esquerda Online recebeu uma contribuição que relata a campanha de artistas da cidade de Ipiaú, na Bahia, para a reestruturação do Cine Éden. Veja, abaixo, e participe da campanha:

    SOBRE A CAMPANHA

    Por: Edson Bastos*
    *Edson é cineasta

    “Percebendo que a População de Ipiaú anseia por um espaço cultural adequado para apresentações artísticas e pelo fato de existir a possibilidade de reestruturação do antigo Cine Éden, cuja fachada é tombada como Patrimônio Histórico Cultural de Ipiaú, criamos a campanha #PorUmNovoCineEden

    A Cultura nesta cidade tem sido tratada de qualquer maneira, sem a devida atenção dos gestores públicos, mesmo que, de tempos em tempos, surjam movimentos reivindicando a criação de espaços culturais e de mais apoio à produção cultural local.

    Sabemos que é possível realizar a reestruturação do Cine Teatro Éden, firmando uma parceria entre a Ancine e a prefeitura ou governo estadual, ou ainda através de Emenda Parlamentar de algum Deputado Federal. Nesse último caso, o movimento já teve o apoio do Deputado Federal Jean Wyllys, que se disponibilizou a ajudar a reestruturação deste cinema. Mas isso não significa a garantia da revitalização pois, pela legislação, o deputado não pode arcar sozinho com toda a reforma do espaço.

    Mas o primeiro passo a ser dado é a Prefeitura de Ipiaú tornar o espaço de Utilidade Pública e desapropriá-lo, para assim receber os recursos para a reestruturação do Cine Teatro Éden.

    Por isso, convidamos a toda a população, cineastas, teatrólogos, produtores culturais, artistas do Brasil inteiro, a se manifestarem junto conosco para que consigamos sensibilizar os gestores públicos municipais e estaduais, revitalizando assim o Cine Éden e com isso, garantindo que a população de Ipiaú e região ganhe um espaço cultural e os produtores do Brasil e do Mundo inteiro, tenham mais um espaço de promoção cultural para apresentarem os seus trabalhos.

    Para apoiar pelas redes sociais, basta postar uma foto ou graver um video com a hashtag #PorUmNovoCineEden e acompanhar as ações na página do Facebook com o mesmo título “Por Um Novo Cine Éden”.

    Num momento em que o Brasil passa por uma crise financeira, a produção cinematográfica brasileira cresce a todo vapor, além do aumento do número de construções e revitalizações do parque exibidor. É preciso aproveitar a oportunidade.

    O resgate e a revitalização do acervo relacionado ao Cine Teatro Éden é de fundamental importância para preservação da memória e identidade cultural de Ipiaú, uma vez que o mesmo oferece aos interessados, sobretudo os jovens e estudantes, uma oportunidade retornar às origens da história cultural de sua cidade.

    HISTÓRIA DO CINE TEATRO ÉDEN

    Por volta de 1927, vinte anos após a primeira exibição pública realizada pelos irmãos Lumière no Grand Café, em Paris, o imigrante italiano José Miraglia abre as portas do Cine Éden, na cidade de Ipiaú-BA, 352 Km distante da capital, Salvador. Os filmes eram projetados na parede, com poltronas e piso de madeira bem tratado e a trilha sonora era feita por um pianista e um narrador, ao vivo.

    Já em 1937, José Miraglia resolve reformar o cinema e transformá-lo num Cine Teatro. A reforma durou alguns anos. Contruiu uma fachada com referências da “art-noveau”, com 560 poltronas de madeira estavam divididas em 03 fileiras com ótima visibilidade do grande palco com piso de madeira que foi montado para a realização de espetáculos, shows e outros eventos. Foi com essa estrutura que se apresentaram Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Wanderley Cardoso, Jerry Adriane, Raulzito e seus Panteras, dentre outros, nos palcos do Cine Teatro Éden.

    Na época da reforma, em plena II Guerra Mundial, o projetor Triunpho chegou em Ipiaú por um alemão que foi instalar o equipamento no cinema. Ao chegar com uma máquina daquele tamanho, a população pensou ser uma arma para exterminar a população, o que causou o maior alvoroço na cidade.

    Outros cinemas existiram na cidade, mas não se firmaram por muito tempo. “O Cine Bonfim, que se iniciou em 50, o Cine São Luiz – do padre Flamarion e o Cine Dren – Apelidado de Cine Bufa”, segundo Américo Castro. O Cine Éden consolidou-se por algum tempo, mas logo em seguida sofreu constantes mudanças em sua diretoria. Após a morte de José Miraglia, em 1961, o Cine Teatro Éden foi vendido para os irmãos Motta (João e José Motta Fernandes) e passou por nova reforma em 1962. Dessa vez foram instalados som estereofônico e dois projetores Philips FP 56 Total, com lentes anamórficas.

    Justamente nessa época, às vésperas do Golpe Militar, o cinema reabre e tem como projecionista Lula Martins, ou “Pinduca” como era conhecido pela população. Lula foi o protagonista do filme Meteorango kid e criou a lendária capa do disco Acabou Chorare, dos Novos Baianos.

    Posteriormente o Cine Éden foi comprado pelos irmãos Rocha (Francisco Chagas Rocha e Zito Rocha) e por fim, foi vendido à José Assis Filho, mais conhecido como Dren que comenta: “Quem investia num cinema, não perdia dinheiro, mas depois chegou a televisão e o videocassete, as pessoas não queriam mais sair de suas casas para ir ao cinema, o negócio foi dando pouco lucro, não tínhamos nenhum apoio do governo, até que eu fechei o Cine Éden e ninguém quis mais pegar”.

    Assim, o povo de Ipiaú perderia sua maior opção de divertimento coletivo-cultural. O prédio foi arrendado e o espaço onde funcionou o cinema deu lugar a uma loja de móveis e eletrodomésticos, retirando toda a estrutura interior do prédio.

    Conforme texto publicado no Jornal Rapatição, em agosto de 1984, a população não ficou alheia ao fechamento do Éden e de maneira organizada promoveram atos públicos, passeatas, denunciaram e conseguiram sensibilizar a Câmara de Vereadores Municipal, que, por sua vez, embargou a depredação e convocou todos os segmentos da sociedade para discutir o problema, no dia 02 de agosto de 1982, na Sede do Rio Novo Tênis Clube. Na oportunidade a prefeitura quis comprá-lo, mas o proprietário pediu pelo prédio a exorbitante quantia de 300 milhões.

    A tentativa de comprar o imóvel de forma dialogada não deu certo, foi então que a população intensificou as manifestações para que, pelo menos a fachada do imóvel fosse tombada e com isso, houvesse a possibilidade de um dia reestruturá-lo. Em 1991, houve o tombamento da fachada, transformando o Cine Teatro Éden em Patrimônio Histórico Cultural de Ipiaú, mas o mesmo nunca mais retornou à sua atividade de origem, de promover shows, exibir filmes, realizar eventos, reunir a população, formar artistas e movimentar a produção cultural no interior da Bahia.

    Hoje, o imóvel está vazio, disponível para ser alugado, esperando um Novo Cine Teatro Éden. O Éden constituiu um elemento importante para o desenvolvimento da cidade, uma vez que levou multidões para o local e gerou muitos empregos. Foi ainda fator importante para a construção do caráter artístico de muitos cantores, artistas plásticos, escritores, jornalistas, fotógrafos, etc… Além de fazer parte de um memorial que progressivamente é esquecido pelo Poder Público e pela população que já se habituou à ausência do direito à cultura. A cultura precisa ser revivida, praticada e reinventada. Há um cinema cheio de histórias em Ipiaú e uma população que não possui acesso a um equipamento cultural adequado. A nossa história e o Cine Teatro Éden precisam ser preservados.

    Por um Novo Cine Éden!

    EVOLUÇÃO DO MERCADO AUDIOVISUAL BRASILEIRO

    Entre os anos 80 aos anos 2000, a produção cinematográfica sofreu um grande apagão. A televisão se tornando popular. O vídeo cassete surgiu. E os cinemas de rua desapareceram, transformando-se em igrejas, ou lojas de móveis, ou shoppings. Collor fechou a Embrafilmes.

    Mas a partir de 1991, surgiu a Lei do Audiovisual para fomentar a produção cinematográfica brasileira e com isso o movimento de Retomada do Cinema Brasileiro. Já em 2001, a ANCINE – A Agência Nacional do Cinema é criada para substituir a Embrafilmes com o objetivo de fomentar, regular e fiscalizar a produção audiovisual nacional.

    Em 2006 foi criado o Fundo Setorial do Audiovisual com o intuito de desenvolver a Indústria do Cinema no Brasil, chegando a mais de 832 milhões arrecadados em 2013, investidos em diversas linhas de fomento.

    A ANCINE também é responsável pelo programa Cinema Perto de Você, instituído pela Lei 12.599/2012, que disponibiliza recursos para a abertura de salas por Prefeituras e Governos Estaduais, além de possibilitar instrumentos de desoneração fiscal, visando à redução dos custos dos investimentos e da operação dos complexos. Articula, também, ações regulatórias e de estímulo à digitalização, visando à ampliação das receitas e à modernização dos negócios de exibição e distribuição de cinema.

    SOBRE O CINEMA PERTO DE VOCÊ

    O Brasil já teve um parque exibidor vigoroso e descentralizado: quase 3.300 salas em 1975, uma para cada 30.000 habitantes, 80% em cidades do interior. Desde então, o país mudou. Quase 120 milhões de pessoas a mais passaram a viver nas cidades. A urbanização acelerada, a falta de investimentos em infraestrutura urbana, a baixa capitalização das empresas exibidoras, as mudanças tecnológicas, entre outros fatores, alteraram a geografia do cinema. Em 1997, chegamos a pouco mais de 1.000 salas.

    Com a expansão dos shopping centers, a atividade de exibição se reorganizou. O número de cinemas duplicou, até chegar às atuais 3.005 salas, uma para cada 68 mil habitantes (Fonte: http://oca.ancine.gov.br/mercado-audiovisual-brasileiro). Esse crescimento, porém, além de insuficiente (o Brasil é apenas o 60º país na relação habitantes por sala), ocorreu de forma concentrada. Foram privilegiadas as áreas de renda mais alta das grandes cidades. Populações inteiras foram excluídas do universo do cinema ou continuam mal atendidas: o Norte e o Nordeste, as periferias urbanas, as cidades pequenas e médias do interior.

    Hoje, para os profissionais e empresas do setor audiovisual, a ampliação do parque de salas de cinema é uma diretiva consensual, porque abre perspectivas para todos os agentes econômicos. Porém, a motivação para uma ação federal nessa área vai além das razões do cinema. Neste momento, o Brasil se mobiliza para qualificar os serviços das cidades, as condições de transporte, habitação, saneamento, para atender, integrar e melhorar a qualidade de vida de populações há muito desassistidas.

    O Programa CINEMA PERTO DE VOCÊ, instituído pela Lei 12.599/2012, participa desse movimento, focado em levar cinema e serviços culturais para mais perto de todos os brasileiros. É uma iniciativa sem similar na história brasileira, como reconhecem os agentes do setor. Essas medidas representam um desafio aos empreendedores para o crescimento, e uma oportunidade para o fortalecimento e a modernização do cinema no Brasil.

    Fonte: http://cinemapertodevoce.ancine.gov.br/node/2

    SOBRE O CINEMA DA CIDADE (LEVANDO A MAGIA DE VOLTA AO INTERIOR DO PAÍS)

    Nos municípios com menos de 100 mil habitantes, a viabilização de uma sala de cinema envolve uma equação econômica e financeira mais complexa, porque a tomada de empréstimo e o investimento são mais difíceis. Devido ao maior risco comercial dos empreendimentos de cinema nesse grupo de cidades, o Programa CINEMA PERTO DE VOCÊ desenhou o Projeto CINEMA DA CIDADE, que prevê a aplicação de recursos do orçamento da União, alocados por emenda parlamentar, ou por meio da modalidade apoio do Fundo Setorial do Audiovisual.

    O projeto CINEMA DA CIDADE estimula, por meio de convênios com as Prefeituras e governos estaduais, a implantação de complexos de cinema em cidades com mais de 20 mil e menos de 100 mil habitantes que não disponham desse serviço. Nessas cidades, planeja-se a implantação de salas de propriedade pública com gestão preferencialmente privada. O projeto permite a instalação de salas de cinema, bonbonnière e espaços comerciais e de prestação de serviços.

    As Prefeituras interessadas receberão da ANCINE as orientações necessárias e as especificações técnicas exigidas para a elaboração do projeto, além do repasse das verbas para sua execução. Essa iniciativa foi concebida e articulada de modo a atender e se adequar às necessidades de cada município. Desta forma, os agentes públicos poderão escolher a melhor alternativa para sua cidade.

    Fonte: http://cinemapertodevoce.ancine.gov.br/node/13

  • Às vezes sinto vontade

    O Esquerda Online publica o poema, abaixo, do ativista Moisés, de São Bernardo do Campo, enviada como contribuição para o nosso portal. Para também contribuir, basta enviar seu texto para o e-mail portalesquerdaonline@gmail.com .

    Às vezes sinto vontade
    De: Moisés Côrrea, de SBC

    Às vezes sinto vontade

    De ter lutado ao lado de Zumbi

    Às vezes sinto vontade

    De ter estado ao lado de Luiza Mahin

    A mesma chibata que matava os negros

    É a que teria matado a mim

    Às vezes sinto vontade

    De ter morrido junto e ao lado de Vladimir

    Que mundo injusto é esse?

    Por que lutar até o fim?

    Para enfim uma sociedade

    que não seja boa só para mim

    Só espero que lá no futuro

    Alguém sinta a vontade

    De ter estado junto a mim.

    Imagem: MESS

  • Com cortes em investimentos e criminalização da arte, Dória, Alckmin e Temer massacram os trabalhadores da cultura

    Por: Kely de Castro, da Baixada Santista (SP)

    Nesta segunda (27), um ato reuniu sete mil pessoas contra o congelamento de verbas para a cultura pública da cidade de São Paulo (SP). Desde a posse de João Dória (PSDB), já são centenas de demissões, contratos não renovados e milhares de alunos prejudicados na área da cultura. Esta mobilização marca uma retomada da luta desta importante categoria contra a criminalização e precarização dos artistas brasileiros.

    Aliás, você deve imaginar que não é fácil viver de arte no Brasil. E tem razão. No entanto, depois de muita luta e organização de artistas, e também de profissionais da educação, foram arrancadas conquistas no terreno da política pública para cultura. Porém, “viver de arte” não é para todos e mesmo para os que o conseguem, a relação trabalhista é uma das mais precárias: sem carteira assinada, sem concursos, contratos temporários, etc.

    Grande parte destes programas públicos está no estado de São Paulo e considerável parcela se concentra na capital. Por isso, a destruição dos programas públicos para a cultura na cidade de São Paulo, além de urgente para os capitalistas, é simbólica.

    Temer contra os artistas

    Depois de ter que engolir artistas se organizando contra o golpe, Temer agora ataca publicamente a participação da categoria na política. O presidente ilegítimo ficou irritado com a participação do ator Wagner Moura em um vídeo produzido pelo MTST contra a reforma da previdência proposta pelo seu governo.

    Temer acusou Moura de receber dinheiro do MTST e ordenou a realização de outro vídeo rebatendo as críticas. O vídeo de Temer faz parte de uma campanha publicitária em favor da reforma da previdência que, de tão descarada, foi suspensa pela Justiça do Rio Grande do Sul. A decisão da Juíza Marciane Bonzanine foi resultado de uma ação civil pública contra a União movida por sete sindicatos do Rio Grande do Sul. A juíza concluiu que na campanha publicitária de Temer há uso inadequado de recursos públicos e desvio de finalidade.

    Ainda assim, para os apoiadores do impeachment de Dilma, sejam políticos ou na sociedade em geral, tornou-se senso comum acusar os artistas brasileiros de chupinhar dinheiro público por meio das leis de incentivo.

    Wagner Moura escreveu um texto na Folha sobre o caso em que diz: A natureza da arte é política pura. Numa democracia saudável, artistas são parte fundamental de qualquer debate. No Brasil de Michel Temer, são considerados vagabundos, vendidos, hipócritas, desprezíveis ladrões da Lei Rouanet.

    Depois do golpe, Alckmin ataca a cultura

    Após a aprovação do impeachment, os governos de direita se apressaram em aplicar políticas agressivas contra a classe trabalhadora. Não seria diferente na área da cultura, alvo estratégico para a dominação imperialista. Mirar onde se tem não apenas trabalhadores, mas também pensamento crítico e expressão pública é matar dois coelhos com uma cajadada só. Soma-se a isso a fragilidade da categoria que não goza de direitos trabalhistas, pois a grande maioria dos trabalhadores é regida por contratação temporária ou contrato de prestação de serviço. O SATED, sindicato dos atores, é uma piada e a OMB, ordem dos músicos, dispensa comentários a respeito de seu comprometimento com os direitos da categoria.

    Desta forma, o governador de São Paulo não perdeu tempo. Depois do golpe, cortou R$13 milhões em verbas da Secretaria da Cultura. Nove Oficinas Culturais fecharam, demitindo funcionários, artistas e arte-educadores. O MAC (Museu de Arte Contemporânea), Museu Afro, MIS (Museu da Imagem e do Som), Pinacoteca e outros equipamentos públicos estaduais de cultura reduziram drasticamente a programação, o que tem por consequência a não contratação de  artistas, produtores, arte-educadores e monitores.

    O ProAc, programa de ação cultural, que beneficia projetos de pesquisa, produção e circulação de espetáculos nas linguagens de teatro, música, dança, circo, hip-hop, culturas tradicionais e contação de histórias, sofreu corte de 40%.

    Como consequências do facão de Alckmim (PSDB) sobre a cultura veio a extinção da Banda Sinfônica do Estado e demissões na Jazz Sinfônica e Orquestra do Theatro São Pedro. O Instituto Pensarte, O.S. que dirige os três equipamentos citados, confirmou por meio de nota a demissão de 100 músicos. “Mais de 100 famílias terão sua fonte de renda, seu sustento e dignidade afetados por essa política de cortes na cultura e educação”, diz a nota publicada na fan page do instituto.

    Dória quer desmontar a cultura pública na capital

    Com um dos programas de política pública para cultura mais avançados da América Latina, São Paulo agora tem como prefeito João Dória Junior (PSDB), que ganhou a eleição se gabando com a contraditória afirmação de que não é um político. Assim que assumiu, já criou uma grande polêmica envolvendo o campo das artes. Fã de Romero Britto (artista-plástico conhecido por levar às últimas consequências a reprodução e comercialização de suas criações), Dória acha de mau gosto os murais de grafite em São Paulo. Em uma ação performática, fantasiou-se de funcionário de limpeza e iniciou seu plano, chamado Cidade Linda, que consiste em pintar de cinza os muros de São Paulo.

    Depois de apagar murais já tradicionais da cidade, como o da 23 de Maio, o caso ganhou repercussão internacional e Dória foi obrigado a recuar significativamente em seu plano cinza. Várias entidades e profissionais da categoria se manifestaram e entraram com ações judiciais. Porém, o prefeito segue com sua política de guerra à arte urbana, chamando pichadores de bandidos para quem quiser ouvir.

    Diante desta ocorrência, podemos mensurar o valor e o significado que Dória atribui à arte e aos artistas. Acha que pode julgar o que é arte e o que não é pela régua de seus gostos pessoais.

    Desta forma, deu início ao desmonte da cultura de São Paulo. Estão sob ataque todos os programas culturais da cidade, tais como: Teatro Vocacional, Dança Vocacional, Fomento das Periferias, Jovem Monitor Cultural, Fomento à Dança, Fomento ao Circo, Fomento ao Teatro, Prêmio Zé Renato, Circuito Municipal de Cultura, Projeto Piá, EMIA (escola de iniciação artística) e outros.

    Esta semana os artistas trabalhadores dos projetos Teatro Vocacional foram comunicados pela secretaria de André Sturm que não serão recontratados. Isto significa 300 artistas sem seus “empregos”, 8 mil alunos sem aulas e um projeto artístico-pedagógico, construído ao longo de 15 anos descartado.

    A EMIA, uma escola com 35 anos de história na educação-artística, que se tornou referência internacional na área, teve corte de verbas e suspendeu o início das aulas.

    Artistas resistem

    Porém, não vai ser fácil para a gestão Dória dar prosseguimento ao plano de destruição da cultura pública em São Paulo, pois a categoria que envolve artistas e arte-educadores está mobilizada. Apesar de todas as dificuldades, muitos protestos ocorreram desde o início da gestão. O último ato, no dia 27 de março,  reuniu milhares de pessoas em frente ao teatro municipal e seguiu em passeata. Artistas realizaram diversas apresentações em protesto, entre elas uma performance que levou geladeiras para a rua, onde artistas eram supostamente congelados, representando a intenção da gestão municipal.

    É importante destacar que a organização política da categoria é tão precária quanto suas condições de trabalho, já que não goza de nenhum sindicato realmente comprometido com suas necessidades. Atualmente, com todas as devidas contradições, quem tem assumido a liderança dos movimentos são membros das cooperativas de artistas. Neste mês foi criada, porém, a Frente Única da Cultura de SP – Descongela Cultura Já, formada por artistas de diferentes segmentos para organizar a luta.

    Qual a saída para os artistas?

    Diante do avanço da direita e dos ataques brutais aos direitos dos trabalhadores, a única saída para o artista é se colocar ao lado e à disposição dos trabalhadores na luta por nenhum direito a menos. É importante que a categoria avance na sua organização e que tome para suas mãos os órgãos que deveriam representa-la, como os sindicatos.

    Frente a tantos ataques à cultura pública, as intenções dos capitalistas ficam claras: transformar toda arte em mercadoria, descartar manifestações artísticas que não geram lucro e atrapalham a dominação imperialista, acabar com o acesso da classe trabalhadora e da juventude à cultura, entregar os equipamentos públicos de cultura nas mãos da iniciativa privada e, portanto, elitizar a arte e o ensino da mesma.

    Como consequência desta sombria realidade, os artistas de São Paulo não devem se calar e nem temer. Devem assumir a responsabilidade da linha de frente de uma luta que precisa se estender para todo país, por mais cultura para o povo e dignidade aos artistas e arte-educadores.

  • O casamento maximalista: crônica de Graciliano Ramos

    Por: Suely Corvacho, de São Paulo

    Durante as comemorações dos 100 anos da Revolução Russa, é sempre oportuno verificar como os ecos do acontecimento ressoaram no Brasil. Uma forma é acompanhá-los por intermédio das crônicas da época. Nesta perspectiva, transcrevemos o texto de Graciliano Ramos, assinado com o pseudônimo de J. Calisto, publicado em abril de 1921 no jornal O Índio, de Palmeiras dos Índios, Alagoas.

    A leitura da crônica, que já é saborosa, fica melhor se examinarmos as características do veículo que a publicou. De acordo com Dênis de Moraes, que escreveu a melhor biografia do escritor, padre Francisco Xavier de Macedo, responsável pelo jornal O Índio, criado em janeiro de 1921, pediu a colaboração de Graciliano às vésperas do lançamento do periódico. O pedido intrigou muito a população de Palmeiras dos Índios. Nas palavras de Moraes: “A amizade dos dois deixaria muita gente intrigada. O dono da loja Sincera não era ateu convicto? O dinamismo do vigário despertara a atenção de Graciliano, cuja honestidade de propósitos, por sua vez, seduzira padre Macedo. Ao longo da vida, conservariam a admiração mútua, cada qual com seu ponto de vista.” (MORAES, 1993, p. 42)

    Embora fosse pequeno comerciante durante o dia e professor de francês no horário noturno, numa distante cidade, Graciliano Ramos seguia de perto todos os acontecimentos nacionais e internacionais. Prova disso é o depoimento de Adalberon Cavalcanti Lins, aluno do escritor em 1921, recolhido por Moraes: [referindo-se à capacidade de Graciliano discorrer sobre figuras históricas] “Ele falava de Lenin como se o conhecesse pessoalmente. Soltou uma palavra inteiramente desconhecida no meio ambiente: ‘maximalismo’”. Moraes contextualiza: “o termo maximalismo era empregado pela imprensa em lugar de bolchevismo, o que comprova o seu interesse pelo andamento da Revolução” (MORAES, 1993, p. 42)

    O impacto da Revolução Russa foi tamanho que Graciliano Ramos assina vários jornais do Rio de Janeiro, capital do país, na época. E, apesar das informações mais desencontradas a respeito da situação, “ele simpatizaria de imediato com os bolcheviques, não se deixando contagiar pelos que se esmeravam em apresentá-los como enviados do demônio.” (MORAES, 1993, p. 42) A irônica crônica é resposta à reação e ao pavor ao comunismo no Brasil após a Revolução e suas iniciativas, como o Código da Família, promulgado pelos revolucionários em 1918, que reconhece o direito ao divórcio; a legalização do aborto, em 1920; entre outras.

     

    XII

    Um velho amigo, que tentou sem resultado mascarar-se com o extravagante pseudônimo de Lobisomem, enviou-me uma carta a pedir que lhe dissesse alguma coisa a respeito de certo casamento maximalista efetuado no Rio.

    Declaro-me ao missivista, antes de começar, muito agradecido e muito espantado por haver uma criatura da estranha espécie a que ele diz pertencer tomado interesse pela insulsa prosa que nesta coluna se estampa.

    Entre enleado e lisonjeado, aqui lhe mando a opinião que tenho – se não tivesse nenhuma, não haveria nada a perder – sobre o fato em questão.

    Hesito um pouco em dar crédito à notícia.

    O meu caro amigo Lobisomem deve estar lembrado de que, há coisa de dois para três anos, telegramas da Europa nos trouxeram esta assombrosa novidade – na Rússia, as mulheres eram consideradas bem público, podendo ser requisitadas por qualquer cidadão que delas necessitasse.

    Era uma revelação que dava engulhos. Um carvoeiro sentia comichões de contrair matrimônio e, sem mais aquela, fazia requisição de urna duquesa. Infantilidadeevidente, absurdo fácil de descobrir a quem acompanhasse com cuidado os carapetões telegráficos que a Inglaterra nos impingiu durante a guerra.

    Entretanto, s. exª. o senhor presidente da república, que naquele tempo não era ainda o grande fazedor de açudes e que em boa hora nos governa, aludiu ao fato como coisa verídica, em documento oficial, mensagem ao congresso, se me não falha a memória. De onde se conclui que as circunvoluções cerebrais de um chefe de estado não são feitas de substância diversa da que se encontra no crânio de qualquer sujeito que lê jornais e acredita ingenuamente no que lhe dizem.

    Julgo prudente, pois, não ter uma confiança exagerada nas folhas.

    É verdade que a capital federal e Petrogrado são coisas muito diferentes. A Laje sempre fica mais perto de nós que a fortaleza de Krasnayagorka. Mas tanto se pode mentir lá como aqui. Apenas a mentira vinda de longe tem mais probabilidade de ampliar-se, engrossar.

    Consideremos, entretanto, o fato verdadeiro. Um partidário das teorias subversivas de Lenine e Trotsky, meetingueiro com certeza, colocador provável de bombas às portas das padarias, um desses homens vermelhos que tiram o sono do senhor Germiniano da Franca, procurou uma companheira que professasse como ele o credo rubro e jurou ligar-se a ela pelos “laços indissolúveis do amor.”

    A frase é reles, clichê perfeito, chavão repetido mil vezes em versinhos alambicados de poetas de meia-tigela.

    Foi um casamento perfeitamente burguês, como muito bem compreendeu o meu velho amigo Lobisomem. A mesma solenidade, a complicação de um cerimonial em que aparecem as inevitáveis testemunhas, em suma o que já possuímos, com ligeiras modificações, talvez. Houve promessa escrita de ligação ilimitada, como consta da ata que se lavrou. Fica excluída, portanto, a liberdade que qualquer das partes deveria ter para acabar com aquilo quando achasse conveniente.

    Julgo que, se o matrimônio bolchevista é semelhante ao que no Brasil se fez, não há na Rússia dos sovietes o amor livre.

    Lobisomem sabe muito bem que essas revoluções violentas, que ameaçam virar a sociedade pelo avesso, arrasando tudo, conservam, não raro, muitas coisas tal qual estavam, mudando-lhes apenas o rótulo, para enganar a gente incauta. Imagine a desilusão que um daqueles exaltados patriotas da revolução francesa sentiria hoje se lhe fosse possível ver o que é a república atual, com uma chusma de preconceitos e privilégios de antanho, as mesmas desigualdades de classes dentro da famosa igualdade hipócrita, a nobreza orgulhosa substituída pela insolência da plutocracia.

    Há instituições que têm fôlego de sete gatos. O casamento, como entre nós existe, é uma delas, que subsistirá, talvez, malgrado a sanha demolidora dos homens dos conselhos.

    Ora o compromisso de ligação sem termo é interessante em um desses barbudos carbonários que tem o muito louvável propósito de transformar a desgraçada ordem social em vigência com estouros de dinamite. O amor é tão indissolúvel como o açúcar dos engenhos de bangüê e a nacionalíssima rapadura. Comprometer-se um indivíduo a conservá-lo em permanente estado de indissolubilidade é idiota, porque enfim quem o sente não pode prever quanto tempo ele levará para derreter-se. E sendo assim, por que há de um pobre diabo ficar preso a um trambolho a amargurar-lhe o resto da vida?

    Meu bom amigo Lobisomem conhece bem os argumentos dos adeptos do amor livre. Não se promete uma união que acabe com a morte, mas entremostra-se a hipótese de a tornar mais firme e duradoura que os casamentos comuns, pois cada um dos cônjuges, sabendo que a cadeia que os une é coisa frágil, tratará de consolidá-la, prendendo o outro por todos os meios possíveis. Desaparecerão, ou pelo menos diminuirão, as arrelias conjugais, o que é magnífico. Se, contra toda a expectativa, não puderem andar de acordo, desmancha-se aquilo muito naturalmente, não só em proveito dos dois, mas em benefício da espécie, pois não havendo afinidade entre os pais, é muito provável que sejam gerados filhos imperfeitos. Há, pois a possibilidade de começar-se a praticar a eugenia, que o doutor Belisário Pena anda a pregar na imprensa. Resta ainda a vantagem de se não poder atirar a outro, como injúria, o epíteto de filho de mulher ruim, o que será uma consolação para muita gente.

    De resto os casamentos legais desfazem-se com uma freqüência dos diabos, apesar das formalidades, e não creio que os que se não desfazem permaneçam intactos em virtude do palavreado do juiz ou do padre. Ignoro se há alguma lei que obrigue o homem a transformar-se em ostra em relação à esposa ou meta entre as grades a mulher que dá com os burros n’água e manda o marido às favas.

    Contam que um sujeito esteve vinte anos atolado numa união pecaminosa, civil e religiosamente falando. Um dia encasquetou-se-lhe a idéia de casar com a amante. Ao

    voltar da igreja, observou que ela era vesga – e deixou-a.

    Aí tem o meu caro senhor Lobisomem as rápidas considerações que me sugeriu sua carta a propósito do primeiro casamento maximalista que em brasílicas terras se realizou.

    Pergunta-me se o não acho parecido aos que se efetuam nas circunvizinhanças do Largo do Rocio.

    Não: é muito diferente. Os das Ruas de S. Jorge, Vasco da Gama, Luís de Camões, Tobias Barreto e outras em que se aloja o rebotalho da prostituição são muito mais sumários e extremamente baratos.

    Julgo-o, pelo contrário, semelhante aos que nos passam todos os dias diante dos olhos, de uma banalidade lamentável.

    E é o que espanta.

    Um homem que tem o intuito de rachar a burguesia d’alto a baixo copiar servilmente a mais burguesa das instituições!…

    Ora aí está por que hesito em dar crédito à notícia e, por precaução, ponho o caso de molho até que ele seja confirmado.

     

    1. Calisto.

    In “O Indío” – Palmeira dos Indíos, AL, abril de 1921.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    MORAES, Dênis. O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

    RAMOS, Graciliano. Linhas tortas: obra póstuma. 5. ed. Rio de Janeiro: Record; São Paulo: Martins, [1977]. p. 83-86.

  • Devaneios sobre a autobiografia da Rita Lee – com spoilers

    Por: Hyago Brayan, de Brasília

    Brasília, 27 de Março de 2017. Caía uma tempestade na Marte do cerrado quando essa beesha que vos fala terminou de ler “Rita Lee: uma autobiografia”. Depois de ler o livro laranjinha da rainha do rock eu fui imediatamente para a minha varanda tomar um banho de chuva e fumar um paiol de mama cadela, bem loca, bem Lee. Tinha que fazer isso. Pirar depois de ler o livro dessa alien ruiva paulista é um dever. Li o livro em uma semana em que eu me permiti fazer tudo.

    Decidi que quando eu começasse a ler essa bíblia da autoentitulada hippie-comunista eu iria ler tendo experiências surtadinhas. Então teve de tudo:  li o livro na beira do lago, teve pedido de namoro (que eu já queria fazer há algum tempo) e de quebra barraco em uma festa com um machista escroto (chuva de barracos depois de um pedido de namoro romântico, insane is my new name). Bem, tendo feito tudo isso e um pouco mais que não posso falar aqui, acho que Mama Lee falaria para esse medíocre leitor: não fez mais do que sua obrigação, bitch!

    A obra lançada há pouco tempo não é uma história de uma sobrevivente arrependida. É a história de uma mulher que decidiu que luta a todo custo para viver uma vida intensa em todos os sentidos que todas as línguas podem trazer para esse signo. A caçula da família Jones não deixou nada fora do tapete e já no início da sua obra faz uma revelação bombástica: ela sofreu abuso sexual quando criança. Essa história inédita (pelo menos para mim) é trazida no livro, pois, segundo a autora, a tragédia se tornou o motivo para a família aceitar o espírito vanguardista da mulher que mais vendeu discos na terra Brasilis.

    Ler essa autobiografia é essencial para entendermos uma das artistas que participaram de movimentos vanguardistas importantes em um tempo em que as fronteiras entre a arte e a política se confundiam por conta de uma única ordem: seja vanguarda, mude a roda, seja diferente, seja marginal, seja herói ou não seja nada. Dona de uma extensa produção cultural, ler e ver/ouvir cada empreitada artística de Rita Lee é uma tarefa prazerosa nesses tempos nos quais a obra da ruivona está disponível na internet com uma facilidade muito maior. Bem diferente dos tempos em que, para ouvir um álbum, tinha de se esperar em longas filas em lojas de LP.

    A única contraindicação do livro é: leia e cuidado com o que você vai fazer da sua vida daqui para frente. Não tem como terminar essa leitura e não chegar à mesma conclusão da autora: a humanidade foi uma invenção que não deu certo. Ao ler os lacres da juventude de Rita Lee, eu cheguei à conclusão de que a minha geração não soube aprender a viver a vida, pois nos prendemos na Matrix. E bem, para fechar esse texto, pois quero voltar a tomar banho de chuva, termino com uma frase (minha) e um poema presente no livro: Rita Lee lançou o On The Road brasileiro. Hippies comunas da contemporaneidade: saiam da internet e vão viver a vida!

     

    Eu sou do tempo da onça

    De quando os bichos falavam

    Pela Rádio Nacional

    Das marchinhas de carnaval

    Dos concursos de miss

    Ah, eu era feliz…

     

    Do tempo da Guanabara

    Da nova bossa da Nara

    Dos tropicalistas

    Dos hippes comunistas

    Da voz da Elis

    Ah, eu era feliz…

     

    Sou daquele tempo

    Quando rock era tabu

    Do “Let me sing” do Raul

    Do cogumelo de zebu

    Dos desacatos da Leila Diniz

    Ah, eu era feliz

     

    Eu sou do velho novo tempo

    Do fim do vinil

    Do boom da Madonna

    Da zona no Brasil

    Do caos do país

    Ah, eu era feliz

     

    Sou do tempo do tempo

    Do exato momento

    Em que o mundo explodiu

    Foi bom que existiu

    A Brasília da utopia

    Ah, eu era feliz

    Eu era feliz… e sabia.

  • Entrevista: minas do graffiti

    Por: Elber Almeida, do ABC

    O Esquerda Online entrevistou duas grafiteiras da grande São Paulo: Mel, do ABC e Pelox, da Capital. Em meio à perseguição à arte do graffiti promovida pelo governo Dória, em São Paulo, e por Orlando Morando, em São Bernardo do Campo, ambos do PSDB, vale à pena conferir a opinião das minas que fazem a arte de rua.

    EO: Há quanto tempo você grafita, e por quê?

    Mel Zabunov: Graffito há 9 anos, achei a melhor expressão que é ir para a rua e usar cores para passar uma mensagem positiva, de amor e autoestima.

    EO: Como mulher, você já sofreu machismo no meio do grafite e do hip hop?

    Mel Zabunov: Nunca sofri machismo, pelo contrário, sempre fui muito bem aceita no movimento.

    EO: Como as mulheres fazem seu trampo no graffiti? Existe alguma parceria entre as grafiteiras?

    Mel Zabunov: Hoje existe bastante parceria, inclusive mulheres fazem questão de pintar juntas, de fazer eventos e conversar sobre assuntos em comum neste movimento.

    EO: Como você vê a cena do grafite no ABC? As ações de Dória em São Paulo afetam o que ocorre aqui?

    Mel Zabunov: Ainda vejo a cena em SBC um pouco parada. Muitos artistas da cidade preferem pintar fora, acho triste, prezo muito potencializar minha cidade em relação à arte. Já as atitudes do Dória não têm me afetado aqui em São Bernardo em relação à arte de rua, muito pelo contrário, estamos na ativa sem nenhum problema.

    fig2

    EO: Há quanto tempo você grafita, e por quê?

    PELOX: Grafito há 3 anos, por incentivo de uma amiga, professora de artes numa escola onde trabalhei. Sempre desenhei, mas havia parado um bom tempo, Quando ela viu meus desenhos, me incentivou a colocá-los nos muros. Principalmente, minha persona… Daí originou a Pelox.

    EO: Como mulher, você já sofreu machismo no meio do grafite e do hip hop?

    PELOX: Sim, é difícil explicar, mas os homens têm mania de não envolver mulher na parada, tipo, só chama os caras para pintar e não lembram que também tem mana na rua. Em eventos fechados acontece muito, quando organizado por homens, não ter nenhuma mana pintando. Às vezes até um rolezinho qualquer eles não chamam. Porém, isso tem sido quebrado aos poucos, já temos parceiros que gostam da presença da mulher e estão começando a chamar.

    EO: Como as mulheres fazem seu trampo no graffiti? Existe alguma parceria entre as grafiteiras?

    PELOX: Estamos caminhando. Bom, mulher é da hora. Nunca senti nenhum tipo de repressão. Quando as manas se juntam pra pintar, uhuuul, é muita risada da hora e muita diversão. Então, quando a mulher vai grafitar ela vai de coração aberto pro rolê dela, com outras manas da hora e já “eras”.

    EO: Como você vê as ações de Dória com relação aos grafiteiros e pixadores? O que explica ele fazer isso?

    PELOX: Na real, o Dória é um empresário, playboyzinho, quis banir os pixadores porque não quer escutar, nem de longe, a voz do guetto. Apagou os graffites porque quer nos controlar, tipo assim, ele apagou para cadastrar os graffiteiros que iriam participar do próximo “mural”. Só que não deu certo… Amém! Aqui na minha quebrada não senti nada, aliás ele nem conhece aqui, um lugar esquecido por esses ordinários. É bom porque tem muro a rodo e bora pintar todos, sem dó!