Valério Arcary

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  • 13 de junho de 2013, quatro anos depois

    Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    Os profetas anarquistas da “propaganda pelos fatos” podem falar até pelos cotovelos sobre a influência estimulante que exercem os atos terroristas sobre as massas. As considerações teóricas e a experiência política demonstram o contrário. Quanto mais “efetivos” forem os atos terroristas, quanto maior for seu impacto, quanto mais se concentra a atenção das massas sobre eles, mais se reduz o interesse das massas por eles , mais se reduz o interesse das massas em organizar-se e educar-se. Porém a fumaça da explosão se dissipa, o pânico desaparece, um sucessor ocupa o lugar do ministro assassinado, a vida volta à sua velha rotina, a roda da exploração capitalista gira como antes: só a repressão policial se torna mais selvagem e aberta. O resultado é que o lugar das esperanças renovadas e da excitação artificialmente provocada vem a ser ocupado pela desilusão e a apatia. – Leon Trotsky

    Foi somente há quatro anos. Mas, parece que foi há muito mais tempo. Porque estes últimos quatro anos estiveram entre os mais intensos, em contraste com as duas décadas anteriores, entre 1993 e 2013, em que prevaleceu a estabilização do regime democrático presidencial, inclusive com a alternância eleitoral entre PSDB e PT. Junho de 2013 precipitou uma oportunidade de mudança. Abriu uma brecha, e isso foi grandioso. Depois, a oportunidade se perdeu, por variadas razões, e isso foi triste.

    No calor dos acontecimentos três campos se definiram: (a) de um lado, as forças que defendiam o caminho da continuidade das mobilizações de Junho com dois desdobramentos, o fortalecimento da auto-organização juvenil-popular, e a união com o movimento operário organizado, e trabalharam pela proposta de um dia de greve geral em 11 de julho, e 30 de agosto; (b) de outro lado, os que se alinharam com a fórmula da Constituinte Exclusiva pela Reforma Política, formulada pelo governo Dilma; (c) por último, mas não menos importante, aqueles que se entusiasmaram com as iniciativas da tática dos Black Blocs, e a agitação por atos de destruição simbólica.

    Quatro anos depois não deve nos surpreender que a disputa ideológica sobre o significado de Junho de 2013 permaneça aberta. Surgiram várias hipóteses de interpretação. Elas se dividem, em primeiro lugar, em dois grandes campos de análise que são incompatíveis.

    De um lado estão aqueles que compreendem as mobilizações entre março de 2015/16 como herdeiras de uma onda conservadora que já teria se manifestado em Junho de 2013. Essa tem sido uma narrativa construída em defesa do balanço dos doze anos de governos liderados pelo PT e do lulismo.

    Como todo discurso ideológico funcional, ou seja, que ambiciona credibilidade, este tem um grão de verdade. Aconteceu um giro reacionário da classe média entre 2013 e 2015. Em alguns momentos de junho de 2013, pela primeira vez, desde o fim da ditadura militar, núcleos fascistas desceram às ruas, e conseguiram uma audiência importante contra a esquerda, em geral, e o PT, em particular. O auge deste conflito foi o assalto contra as bandeiras vermelhas. Estes episódios antecipavam o que aconteceu, dois anos depois, em março de 2015/16: uma avalanche de classe média nas ruas, inspirado na LavaJato, exigindo a derrubada do governo liderado pelo PT que culminou com o golpe parlamentar do impeachment de Dilma Rousseff. Mas esta interpretação é unilateral.

    Do outro lado, aqueles que rejeitam este fio de explicação. Ou seja, aqueles que não concordam que a ideia de uma continuidade, ou de uma sequência ininterrupta entre os dois processos seja a chave de interpretação. Entre a explosão popular de mal estar social popular que se expressou nas ruas em junho de 2013, e a fúria ressentida de setores da classe média engajados em uma campanha para derrubar Dilma Rousseff, com programa de ajuste fiscal, e direção reacionária, existiu uma mudança na situação política.

    Nem o impulso, nem a potência, nem a organização, nem os sujeitos sociais das marchas de 2015/16 foram os mesmos de 2013. Mas, a diferença mais importante é que Março de 2015/16 tinha uma organização política (MBL, Vem para a Rua, Revoltados online), e um programa reacionário de luta pelo poder.

    Junho de 2013 colocou em movimento, na escala de muitos milhões, em centenas de cidades, uma nova geração de trabalhadores e jovens que reclamavam por direitos: queriam mais verbas para o financiamento do transporte público, da educação pública, da saúde pública, e se manifestavam contra o gigantismo das obras dos estádios para a Copa do Mundo e Olimpíadas, ou seja, contra a corrupção.

    A grandeza de Junho não merece ser diminuída. Milhões de pessoas em quatro centenas de cidades, com manifestações de rua de exuberante radicalidade, foi algo magnífico e inusitado. Junho teve como impulso a luta contras o aumento das passagens nos transportes públicos, portanto, a pressão da inflação. Teve como alicerce, no início, a iniciativa do MPL (Movimento pelo Passe Livre), porém, agigantou-se, espontaneamente, em manifestações por direitos sociais, de norte a sul. Em muitas cidades superou a grandiosidade das Diretas Já de 1984.

    Terminou se dispersando pela acefalia: a ausência de um projeto, de um programa e uma direção. Teve um protagonismo, majoritariamente, proletário e popular, embora a classe média tenha descido, também, às ruas. Foi expressão de uma espontaneidade autêntica que só as mobilizações que encontram eco profundo na consciência de milhões pode alcançar. Mas sobre as debilidades de Junho não surgiu um consenso na vanguarda ampla que esteve à frente da convocação através das redes sociais na internet. Esta acefalia relativa foi expressão da força de Junho, mas também da sua fraqueza. Não existiu organização à altura da mobilização durante as semanas de lutas que Junho abriu. Tampouco depois se conseguiu avançar em organização independente. Se refletirmos em perspectiva histórica, esta debilidade parece significativa. As principais mobilizações políticas do século XX em escala mundial, especialmente as urbanas, conheceram as mais variadas formas de auto-organização desde o início. Em junho nasceram experiências fantásticas de assembleias de ativistas no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e Porto Alegre, mas foram fugazes.

    A maior fragilidade de junho é que não deu origem a novas organizações, superiores às existentes. Fortaleceu as existentes, é verdade. Mas não aconteceu um processo qualitativo na reorganização dos movimentos, que vem desde 2003/04. O que a história das lutas populares sugere é que sem organização não é possível avançar na luta por um programa.

    Pela primeira vez, desde os anos oitenta, uma manifestação popular não reconheceu autoridade na direção do PT e da CUT. Lula não apareceu em nenhuma oportunidade, nem expressou qualquer opinião. Porque uma parte do imenso mal estar social se dirigia, também, contra os governos municipais (como em São Paulo) estaduais, e nacional liderados pelo PT. Não foi possível à esquerda anticapitalista oferecer um ponto de apoio, suficientemente, forte para levar as mobilizações para um patamar mais elevado.

    Por ultimo, não fosse bastante o balanço demolidor da experiência ao longo dos últimos quatro anos, o argumento de Trotsky na epígrafe é suficiente para ajudar a compreender o perigo da tática dos Black Blocs. A obsessão pela destruição de vitrines e ataques contra os caixas automáticos dos bancos foram o pretexto usado pelos governos para uma repressão cada vez mais violenta que teve consequências para a continuidade do movimento. Nunca saberemos em que medida exata, mas teve. Já as sequelas deixadas pela aventura substitucionista ficaram escancaradas depois do episódio da morte do cinegrafista no Rio de Janeiro em fevereiro de 2014 que, se não foram irreparáveis, foram muito graves.

    Em resumo, o impulso rebelde e progressivo de Junho de 2013 foi vencido, depois do esgotamento de um semestre inteiro de mobilizações, da morte trágica do cinegrafista, e sob a pressão da iminência da Copa do Mundo.

    De todo este processo resta uma lição estratégica. Na luta social quando não se avança, recua-se. Foi a derrota de Junho de 2013 que abriu o caminho para Março de 2015/16.

  • Duas perguntas erradas e duas respostas honestas

    Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    A lei fundamental da revolução, confirmada por todas as revoluções, e em particular, pelas três rcvoIuções russas do século XX, consiste no seguinte: para a revolução não basta que as massas exploradas e oprimidas tenham consciência  da impossibilidade de continuar vivendo como vivem e exijam mudanças; para a revolução é necessário que os exploradores não possam continuar vivendo e governando como vivem e governam. Só quando “os de baixo” não querem e os “os de cima” não podem continuar vivendo como antes, só então pode triunfar a revolução.(grifo e tradução nossos) [1]
                                                                        Vladimir Ilitch Ulianov, alias, Lenin

    1 – A campanha pelas Diretas é uma armadilha que diminui a preparação da greve geral?

    Não. Não há razão alguma para concluir que a campanha por ‘Diretas, Já’! diminui, ameaça, ou, pior ainda, sabota a preparação da greve geral do próximo dia 30 de junho. Ao contrário, os atos já realizados pelas Diretas Já acumulam forças para que a próxima greve geral possa até ser superior à última greve em 28 de abril. Porque respondem à questão central da conjuntura, que é a possibilidade de derrubar Temer. O exemplo dos artistas defendendo a greve geral no ato por Diretas Já, no Largo da Batata, em São Paulo, no domingo passado, é irrefutável.

    A conjuntura mudou com a delação da JBS e abriu a possibilidade de derrubar Temer. Por quê? Porque precipitou uma ofensiva do PGR (Procuradoria Geral da República) contra Temer, que pode vir a culminar com o pedido do seu indiciamento como réu. Possibilidade não quer dizer que vai acontecer.

    A campanha pelas ‘Diretas, Já’, ainda que limitada, porque não incorpora a luta por eleições gerais, entre outros possíveis exemplos, facilita a luta pela derrubada de Temer. E a possível queda de Temer favorece a luta contra as reformas. Essa conclusão é simples: não é por outra razão que o centro da intervenção do governo tem sido tentar votar a reforma trabalhista o mais rápido possível, para “mostrar serviço” para o mercado.

    Mas, se não ocorrerem grandes mobilizações populares para deslocar Temer, como os atos de rua e a greve geral, o destino do atual governo e suas reformas ficará nas mãos do Ministério Público e da Polícia Federal, ou seja, imprevisível. Isso seria um desenlace desfavorável da situação política: uma oportunidade perdida de colocar os trabalhadores e seus aliados como os sujeitos sociais de uma saída para a crise.

    E para conseguir realizar grandes mobilizações para tirar Temer da Presidência é necessário apresentar uma resposta à questão de quem deve governar. Os trabalhadores e o povo estão muito desconfiados e, também, inseguros. Não teremos grandes mobilizações sem um programa que demonstre que há um caminho para além da derrubada de Temer. ‘Diretas, Já’ é uma resposta parcial, porém, progressiva, diante da alternativa da eleição de um novo presidente por este Congresso Nacional.

    Uma ampla maioria da população está contra as reformas Trabalhista e Previdenciária. Mas, não é menor a parcela dos trabalhadores e do povo que está contra Temer. A mudança na conjuntura, em função do acordo de delação premiada que presenteou os donos da JBS, abriu a possibilidade de derrubar Temer. O caminho para derrotar as reformas passa agora pela queda de Temer.

    Seria de um sindicalismo estrábico separar uma tarefa da outra. Qualificar os atos pelas ‘Diretas, Já’, que são um instrumento para a unidade na ação para derrubar Temer como regressivos ou, em versões mais exaltadas, de reacionários, quando a luta para derrubar Temer adquire possibilidade real, é insustentável.

    A greve geral se prepara a partir de um chamado feito pelas centrais sindicais, um espaço de articulação no qual se constrói uma frente única de organizações de trabalhadores. Os atos pelas ‘Diretas, Já!’ são uma iniciativa de unidade na ação, mais ampla social e politicamente do que a articulação pela greve geral. Esta ampliação social e política, tentando atrair setores da classe média, é positiva porque enfraquece Temer e, também, o bloco burguês que conspira por uma eleição indireta via Congresso Nacional.

    A ideia de que esta unidade na ação prejudica a luta contra as reformas e dificulta a preparação da greve geral é equivocada. Por que hoje a realização da greve geral contra as reformas no dia 30 de junho, diferente de há um mês, é indivisível da luta pela derrubada de Temer.

    A luta por eleições antecipadas para a Presidência, ou mesmo para o Congresso, ou mesmo para governadores, vai “mudar a vida”? Sim e não. O Brasil precisa de uma revolução. Acontece que não estamos em uma situação revolucionária. Apostar em uma estratégia que flerta com o “insurrecionalismo”, em uma situação em que a luta aberta e franca pelo poder não está colocada com possibilidades mínimas de vitória, é uma tentação substitucionista, portanto, alimenta perspectivas aventureiras.

    Algumas de centrais sindicais são, por enquanto, contra a luta pelas ‘Diretas, Já’. Mas a Força Sindical, por exemplo, era contra o Fora Temer quando da preparação da greve geral do 28 de abril, e isso não impediu a frente única, nem a Marcha a Brasília. Dificilmente a greve geral poderá repetir, ou até superar a força do 28 de abril, se ignorar que Temer pode cair, e não oferecer uma resposta de qual deve ser a saída imediata. Essa saída precisa ser compreensível. Não pode ser uma fórmula de propaganda: “poder popular”, ou “os trabalhadores devem governar”.

    A resposta da imensa maioria da classe dominante é a eleição de um novo presidente pelo Congresso Nacional. A alternativa que pode  repercutir, massivamente, é a exigência de ‘Diretas Já’, ainda que seja também verdade que em setores de massa dos trabalhadores o desgaste com o regime eleitoral seja grande. Infelizmente, é justamente nesta franja que a audiência de Bolsonaro é maior.

    Seria melhor, evidentemente, que fossem eleições gerais, e a esquerda socialista deve explicar o porquê. Mas, não sendo possível uma campanha unitária por eleições gerais, seria ultimatismo, por esta razão, não participar da campanha por ‘Diretas Já’. Ultimatismo significa fazer declarações retóricas: apresentar um programa e proclamar, incondicionalmente, exigências, desconhecendo as relações políticas de forças entre as organizações, ou seja, desconhecer que a CUT e a direção do PT ainda têm posições majoritárias entre os setores organizados da classe operária e do povo.

    2- Quem está interessado nas ‘Diretas, já’ é somente o PT? Essa campanha só serve para abrir o caminho para Lula?

    Não. Não é verdade que a campanha por ‘Diretas, Já’ é um trampolim para tentar eleger Lula. A campanha interessa a todos os que querem derrubar Temer e impedir que o Congresso Nacional eleja o possível sucessor a portas fechadas. Se Temer cair, e não venhamos a conquistar as ‘Diretas, Já’, as mesmas forças políticas que sustentaram Temer, até ontem, elegerão, facilmente, alguém que receba a confiança da classe dominante, e manterão a agenda das reformas e manterão Meirelles.

    O fato de Lula estar em primeiro lugar nas pesquisas de opinião, ainda que com uma taxa de rejeição muito elevada, não deveria ser um obstáculo para que a esquerda anticapitalista se comprometa com esta campanha.

    É verdade que a estratégia do PT, até três semanas atrás, era fazer pose de oposição às reformas (afinal, Dilma Rouseff era, também, a favor de uma reforma nas relações trabalhistas e da previdência, não esqueçamos), desgastar Temer, e acumular forças para a campanha eleitoral de  Lula 2018. Mas, a conjuntura mudou, e a direção do PT mudou, também, a sua localização. Passou a apostar que é possível derrubar Temer. Sabe que sairá fortalecida se Temer, que chegou ao poder através do impeachment de Dilma Rousseff, vier a cair. Ignorar este reposicionamento seria uma tolice obtusa.

    O PT, ou o PCdoB merecem confiança como aliados nesta campanha para tentar derrubar Temer e conquistar ‘Diretas, Já’? Não, nenhuma. Mas a forma educativa de alertar o melhor do ativismo para o caráter vacilante destas lideranças é através de exigências que levem a luta contra Temer e por eleições gerais até o fim. Não a denúncia, a priori, portanto, antecipada e incompreensível de que não têm compromisso em querer derrubar Temer, quando eles afirmam que o têm. As direções da CUT, da CTB e da UNE tampouco merecem confiança e isso não nos deve impedir de buscar a frente única para construir a greve geral.

    Mais de uma vez, no passado, os dirigentes do PT dissimularam posições de luta em público, enquanto, discretamente, faziam negociações paralelas. Não há razões para pensar que mudaram, ou que será diferente neste processo. São especialistas na arte do “faz de conta”, na mágica de “sair de costas fingindo que estão entrando pela frente”. Tanto mais que agora a direção do PT está consciente de que uma condenação de Lula em Curitiba é iminente. Não perderão a oportunidade de tentar negociar a preservação de Lula, e de outros líderes acossados pela Lava Jato, em troca de um compromisso com a “governabilidade”. Este perigo é real.

    Não obstante, não participar dos atos pelas ‘Diretas, Já’, porque poderá ocorrer uma vacilação ou conchavos futuros, facilita a possibilidade da direção do PT e seus satélites realizarem manobras. Porque, quando quiserem negociar uma “redução de danos”, terão que sabotar a luta pelas ‘Diretas, Já’. Mas é muito mais difícil legitimar acordos espúrios com massas nas ruas.

    Portanto, a questão central é derrubar Temer e boicotar o “acordão” para preservar a aprovação das reformas, o mais rápido possível. Este plano reacionário seria, contudo, muito mais difícil se ocorrerem eleições antecipadas. Porque defender as reformas nas ruas, a “quente”, é mais difícil que neste Congresso a “frio”. Por isso, uma esquerda radical, portanto, séria, não pode ser indiferente à luta pelas ‘Diretas, Já’.

    Em resumo: a campanha por ‘Diretas, Já!’ é um instrumento para derrubar Temer nas ruas. Temer ainda não caiu. Poderá, ou não, renunciar. Poderá, ou não, ser investigado como réu. A divisão burguesa abriu uma oportunidade. Mas, devemos alertar contra a confiança em instituições como o Ministério Público, a Polícia Federal, ou os Tribunais. Devemos alertar os trabalhadores, a juventude e o povo a só confiarem nas suas mobilizações independentes.

    A luta por unir os atos por ‘Diretas, Já’ à preparação da greve geral desestabiliza a dominação burguesa, permite acumular forças, e pode paralisar os planos burgueses de uma política de choque, através das reformas ultrarreacionárias. Manter a mobilização dos trabalhadores em permanência, unindo o programa democrático radical às reivindicações de classe, transitórias, é que pode abrir o caminho. Se considerarmos aonde estávamos em novembro do ano passado, a situação melhorou muito.

    [1] LENIN, Vladimir Ilitch Ulianov, La maladie infantile du communisme (Le Gauchisme), Pekin, Editions en langue etrangéres, 1970, parte IX,  p.85.

  • Por que defendemos Diretas Já?

    Por Valerio Arcary, Colunista do Esquerda Online

    No que diz respeito à Áustria, antes da invasão nazista, Trotsky disse que era um crime que o PC opusera a palavra de ordem de ditadura do proletariado ao nazismo, quando os social democratas e as massas austríacas só estavam dispostas a lutar pela democracia burguesa. A consigna do PC deveria ter sido a de lutar todos juntos pela democracia, exigindo ao PS que fosse consequente nessa luta e mobilizara as massas. Com isso, se poderia derrotar o fascismo austríaco (…) A política trotskista, a autêntica política trotskista, não os delírios provocados pela marginalidade, sempre procura a consigna mais fácil, mais compreensível para que a classe operária e as massas se mobilizem e lutem. Os escritos de Trotsky são uma cátedra de como buscar essas consignas. Para nós, um slogan é “razoável”, para usar os termos da sua pergunta, se é “fácil”, se é compreensível para o movimento dos trabalhadores e serve para mobilizar. [1]                                                                                                 

    Nahuel Moreno

    Analogias históricas, se respeitadas os seus limites evidentes, podem ser inspiradoras. O elemento em comum entre a situação política que estamos atravessando, quando comparada com 1984 é a crise econômica que produziu uma recessão prolongada que já condena mais de 13 milhões ao desemprego, depois de três anos seguidos de crescentes flagelos sociais. Mas são pelo menos três as principais diferenças entre a luta pelas Diretas já em 2017, quando comparada com a campanha de 1984.

    A primeira é que em 1984 a campanha era realizada contra o último governo da ditadura militar.[2] A segunda é que, ao contrário de 1984, não estamos diante de uma situação pré-revolucionária. A terceira, porém, não menos importante, é que nenhuma fração burguesa importante é a favor da convocação antecipada de eleições como saída para a crise do governo Temer.[3]

    Uma parcela da esquerda anticapitalista dedica importância crucial para a primeira diferença, ou seja, destaca que não estamos sob uma ditadura. Sim, vivemos sob um regime democrático-presidencial, ainda que em uma situação muito atípica, porque Temer foi levado à presidência pelo Senado, depois do impeachment de Dilma Rousseff, e formou um governo apoiado nos partidos que foram derrotados na eleição de 2014. Portanto, sem qualquer legitimidade democrática. Não só porque chegou ao poder através de um golpe parlamentar-jurídico, porque o regime em vigor não é parlamentarista, mas porque o programa de reformas que está em execução que, justiça se diga, começou a ser aplicado pelo governo anterior liderado pelo PT, perdeu as eleições gerais de 2014.

    Não, obstante, em nossa opinião, mesmo aqueles que pensam que já estamos em uma situação pré-revolucionária, deveriam valorizar mais a terceira. Ou seja, a unanimidade na classe dominante em defesa de uma eleição indireta, agora dissimulada como constitucional, ou a ausência de qualquer fração burguesa que defenda a antecipação de eleições. [4]

    Se opõem, ou secundarizam a defesa da exigência de Diretas Já, em especial para a presidência, por variadas razões. Encontramos aqueles que consideram as Diretas Já uma saída, diretamente, reacionária, porque eleições não mudam a vida, e a saída deve ser a luta direta dos trabalhadores pelos Conselhos Populares, ou pelos Comités de base de luta contra as reformas, ou pelo poder popular. Estas são fórmulas de popularização da ditadura do proletariado. São ultra propagandísticas porque não existem os conselhos populares. Eles não existem somente porque os reformista são contra que existam. Não existem porque o seu surgimento não depende da vontade dos revolucionários, mas de um uma experiência social e política feita por milhões de trabalhadores.

    A defesa das Diretas Já é condenada como uma saída por dentro do regime. Sim, Diretas Já é uma reivindicação democrática, portanto, compatível com o regime. Mas acontece que somente em situações de crise revolucionária são possíveis saídas por fora do regime. Não por acaso se apressam em opor a palavra de ordem de Greve Geral à de Diretas Já. Mas a greve geral é um método de luta, não um programa. Está corretíssimo levantar a necessidade de uma nova greve geral para derrubar Temer e as reformas. Mas qual é a saída? A maioria da burguesia se inclina por eleições indiretas e tenta construir um “acordão”. Clamar pelo “povo no poder”, quando os operários e o povo não se colocam, nem remotamente, a tarefa da insurreição é uma estratégia de inspiração anarquista.

    Essa posição irrealista se fundamenta em uma apreciação sobrevalorizada, portanto, imaginária, da relação social de forças que mantém pouco contato com a realidade, e resulta em uma fórmula propagandista, portanto, impotente, inócua, inocente. É ingênua, mas não é inofensiva. Porque os exageros tendem a favorecer expectativas infundadas, e são a antesala de futuras desmoralizações.

    Outros argumentam que a luta pelas Diretas Já só serviria para favorecer um “acordão” que estabilizaria um regime que já estaria “cambaleante”. As três ideias são erradas. O regime não está em crise terminal, o “acordão” passa pela eleição indireta, e a campanha pelas Diretas Já cumpre um papel, exatamente, oposto, desestabilizador.

    Sim, o governo Temer está suspenso, inerte. Mas este tipo de análise comete, pelo menos três erros graves. Primeiro, a fragilidade de Temer, que apesar de muito isolado ainda não caiu, e não vai cair sozinho de maduro, não permite concluir que o regime político, ou seja, o conjunto das instituições do Estado que dividem entre si o poder, e que não se restringem ao Executivo e seus ministérios, mas incorpora, também, o Congresso, a Justiça, as Forças Armadas, esteja trôpego, paralisado. Temer e o Congresso estão desmoralizados, mas outras instituições, como o Ministério Público e o Judiciário estão a cada dia mais fortalecidas, Segundo, Temer está encurralado em função de uma combinação de fatores, como as investigações da Lava Jato, a entrada em cena do movimento dos trabalhadores, a perplexidade da classe média, a divisão da burguesia. Mas o fator detonador da atual crise foi uma iniciativa da PGR (Procuradoria Geral da República), como expressão de uma disputa no interior da classe dominante. Terceiro, o “acordão” real, não o imaginário, está sendo debatido, pública e abertamente, e passa por uma eleição no Congresso Nacional. Até os nomes cotados para poder substituir Temer, como Nelson Jobim e outros, já foram divulgados na bolsa de apostas .

    A reivindicação das Diretas Já é um caminho tático, associada à defesa da dissolução do atual Congresso, portanto, de Eleições Gerais, na atual relação social e política de forças, para impedir o acordão e, por essa via, submetendo ao sufrágio universal a decisão de quem deve governar, derrotar as reformas.

    Finalmente, alguns têm resistência em admitir que bandeiras democráticas possam ter um papel progressivo, portanto, transicional, na disputa política, mesmo quando a luta não é mais contra uma ditadura. Esta posição não encontra respaldo na elaboração dos clássicos do marxismo. A luta por reivindicações democráticas não desaparece quando a luta dos trabalhadores se desenvolve sob um regime democrático eleitoral, somente assume outras formas. A crise dos regimes democrático-burgueses atualiza a luta política pelas reivindicações democráticas, porque elas podem ser usadas contra o próprio regime.

    Trotsky, por exemplo, no Programa de Transição, é muito claro a esse respeito. A importância das reivindicações democráticas não é mencionada somente no capítulo “Reivindicações transitórias nos países fascistas”, quando responde às condições de luta contra regimes ditatoriais. No capítulo “Os países atrasados e o programa das reivindicações transitórias”, argumenta:

    “É impossível rejeitar pura e simplesmente o programa democrático: é necessário que as próprias massas ultrapassem este programa na luta (…) O peso especifico das diversas reivindicações democráticas na luta do proletariado, suas mútuas relações e sua ordem de sucessão estão determinados pelas particularidades e pelas condições próprias a cada país atrasado, em particular pelo grau de seu atraso”.[5]

    Infelizmente, uma parcela importante da esquerda anticapitalista brasileira diminuiu a importância destas lições teóricas. No atual quadro, no contexto da presente conjuntura, e das perspectivas eleitorais, a luta por Diretas já para a presidência e para o Congresso favoreceriam o PT e Lula? Sim, favoreceriam.

    Mas, muito mais importante seriam o caminho para bloquear a reforma da Previdência Social, e todas as muitas outras contra-reformas ensaiadas pelo governo Temer. Uma esquerda radical digna de futuro não poderá se fortalecer, se não souber por onde se abre o caminho.       

     

     

     

    Notas:

    [1] MORENO, Nahuel. Conversaciones con Nahuel Moreno. Consulta 31/05/2017.

    [2] As Diretas, como ficaram conhecidas as jornadas de 1984, foram a maior mobilização política de massas da história do Brasil do século XX. Foi na campanha pelas Diretas que o Datafolha iniciou o cálculo de pessoas presentes nas manifestações usando a medição do número de metros quadrados ocupados pelos presentes. Este método é um critério pouco polêmico. O Datafolha estimou que 300.000 pessoas estiveram na Praça da Sé em São Paulo no dia 25 de Janeiro de 1984. Durante os noventa dias de mobilizações estima-se que saíram às ruas em todo o país mais de 5 milhões de pessoas. Em 1984, a PEA (População Economicamente Ativa) era estimada em 40 milhões. Mais informações clique aqui.  Consulta em 15/11/2011.

    [3] Embora o governo Figueiredo tenha sido paralisado, não chegou a ser derrubado no dia 25 de abril de 1984. A crise do governo se transformou em crise de regime. A principal instituição do regime militar, as próprias Forças Armadas, descobriram-se desmoralizadas diante da vontade da nação expressa nas ruas. Figueiredo ficou suspenso no ar, ou seja, por um fio. Faltou o empurrão final. Até o fim do mandato, Figueiredo deixou de  poder governar. Sua queda foi evitada por uma operação política complexa que envolveu governadores da oposição como Tancredo e Brizola, o alto comando das Forças Armadas, e até a Igreja Católica. O governo não ruiu, mas a ditadura acabou. Figueiredo manteve seu mandato, mas, politicamente, o regime militar foi derrotado. As liberdades democráticas conquistadas nas ruas foram garantidas e, finalmente, o regime militar acabou. A força política das Diretas revelou-se insuficiente para alcançar, imediatamente, o direito de eleger pelo sufrágio universal o presidente da República. A democracia liberal brasileira nasceu de uma luta política de massas, a ditadura foi deslocada, mas o governo Figueiredo não caiu. O fim da ditadura foi amortecido por um grande acordo que, finalmente, apesar de ter sido respeitado, nem sequer pôde ser comprido. Quis o acaso que o resultado das Diretas terminasse sendo esdrúxulo: Tancredo Neves foi eleito presidente, tendo José Sarney como vice, mas não tomou posse, porque veio a falecer vítima de uma doença que, misteriosamente, ninguém suspeitava existir.

    [4] As Diretas tiveram desde o início a direção burguesa do PMDB, embora Lula fosse o orador mais entusiasticamente aplaudido em todos os atos, e a vanguarda mais mobilizada fosse petista. A ditadura foi surpreendido pela decisão de uma parcela da direção do principal partido de oposição, o PMDB, um partido socialmente burguês e politicamente liberal, de tentar impulsionar uma mobilização de rua pelas Diretas, subvertendo o calendário da transição controlada pelo regime. O fator detonador foi o impacto da crise econômica detonada pela crise da dívida externa. Em dois anos, entre 1982/84, o crescimento da inflação e do desemprego abriram uma crise social que incendiou o mal-estar no proletariado e provocou uma séria, ainda que minoritária, divisão burguesa, arrastando a classe média para o campo da oposição à ditadura. Esta nova relação de forças se traduziu em um isolamento político do governo que inviabilizou o projeto da transição pelo alto, tal como tinha sido elaborado durante o mandato de Geisel/ Golbery.

    [5] Trotsky, Leon. O Programa de transição. Consulta em 31/05/2017

     

     

     

    Foto: Diretas Já Rio

  • Quatro pontos breves sobre a conjuntura

    Por Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    1. Abriu-se uma nova conjuntura na última semana. Ela foi precipitada por uma divisão séria na classe dominante. No plano imediato, mais tático, há aqueles que já defendem que a queda de Temer é inevitável, e terá um custo inferior à sua permanência para o destino das reformas trabalhista e da previdência.

    Outra fração ainda hesita, porque temerosa de que a destituição pelo TSE, uma renúncia, ou impeachment, sejam fatais para o futuro das reformas. Receiam que a derrubada de Temer subverta a continuidade da agenda reacionária que permitiu formar o bloco que se articulou para fazer o impeachment de Dilma Rousseff, um ano atrás, e praticar  a política de choque pelas reformas.

    As duas frações têm muito medo de que não seja possível eleger, pela segunda vez, um presidente no Congresso Nacional com um mínimo de legitimidade. Mas estes dois blocos expressam diferenças, também, mais estratégicas.

    Uma fração defende a iniciativa do Ministério Público, da Polícia Federal, e de uma parcela do Judiciário que, através da LavaJato, desde 2014, há três anos, decidiu abraçar um programa de reforma política, em especial, de reforma do sistema partidário erguido nos últimos trinta anos, desde o fim da ditadura. Percebem que este sistema partidário é anacrônico, atrasado, obsoleto, corrupto e passou a ser disfuncional. Em primeiríssimo lugar, porque os grandes partidos são todos financiados, ilegalmente, pelas grandes corporações.

    A outra fração resiste, porque teme as consequências de um desmoronamento abrupto do sistema. Ambos os blocos são reacionários. Nenhum deles merece apoio algum. Alianças com qualquer um destes dois blocos serão fatais para a esquerda brasileira.

    Há que explorar as possibilidades abertas pela divisão dos inimigos, mas marchar de forma independente. Isso significa defender o Fora Temer, mas, também, um Fora às contrarreformas trabalhista e previdenciária, e denunciar os planos de um golpe dentro do golpe, que seria a eleição indireta de um novo presidente por este Congresso Nacional.

    Os métodos de luta são, também, importantes. Uma nova greve geral deve começar a ser construída, imediatamente, a partir do Ocupa Brasília da quarta-feira dia 24 de maio. Somos socialistas, não “grevicultores”. Mas a Greve Geral para derrubar Temer se impõe como o próximo passo para que a classe trabalhadora ganhe confiança em suas próprias forças como o sujeito social que abre o caminho.

    2. Já tinha ocorrido uma inflexão favorável na relação social de forças entre as classes depois da greve geral de 28 de abril. A entrada em cena dos grandes batalhões da classe trabalhadora organizada confirmou que a maioria da população já tinha concluído que as reformas trabalhista e previdenciária eram inaceitáveis, e tinha se deslocado para a oposição às reformas do governo Temer.

    A revelação ainda parcial do conteúdo escandaloso da delação premiada parece estar produzindo uma reviravolta positiva na consciência de muitos milhões de trabalhadores. As camadas médias parecem estar perplexas. É possível que franjas da classe média se desloquem para o campo do Fora Temer, o que seria muito positivo.

    Agora o que está em cheque não são somente as reformas, mas a própria continuidade do governo Temer. Acontece que esta dinâmica ainda é lenta, como se confirmou nas primeiras passeatas, essencialmente, de uma vanguarda jovem muito combativa, na última semana. Portanto, a mudança na conjuntura não permite concluir que estamos em uma situação revolucionária. Não existe situação revolucionária sem disposição revolucionária de luta entre os trabalhadores. Esta disposição, infelizmente, ainda não está madura. O que estamos vivendo não autoriza analogias apressadas com a situação de 2001/02 na Argentina. Não se trata de um “argentinazo” em câmara lenta.

    O governo Temer agoniza, é verdade. Quem ainda governa, ainda que pouco é Meirelles. Pensar que estaríamos, de alguma maneira, na iminência de uma crise de regime que pode colocar, do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora, a perspectiva da luta direta pelo poder é uma ilusão muito perigosa, porque a tendência é colocar para o movimento tarefas que não podem cumpridas, portanto, precipitar ações aventureiras. Aprendamos as lições das Jornadas abertas em Junho de 2013. Ações aventureiras foram responsáveis pelo isolamento e refluxo depois de fevereiro de 2014.

    3. O movimento de resistência dos trabalhadores e da juventude veio acumulando forças, no contexto de uma situação defensiva, desde o fim do ano passado. Mas pode dar um salto de qualidade, em função das fissuras na burguesia, e da divisão na classe média. Mas ainda não se deu este salto de qualidade. Não nos enganemos, o papel do PT e PcdB neste processo ainda será decisivo. Apesar de estarem desgastados pela crise das propinas, o PT e Lula ainda têm influência de massas.

    Não estava nos seus planos derrotar as reformas, nem muito menos tentar derrubar Temer. Sua estratégia era desgastar o governo em função das eleições do ano que vem, com a fórmula Lula 2018. Mas é inegável que a frente única construída a partir da convocação da greve geral pelas centrais sindicais, aliadas aos movimentos sociais, foi indispensável para o sucesso do 28 de Abril. Agora o PT e a CUT se reposicionaram à esquerda, um sinal de que estão sentindo a pressão social. Sem uma nova greve geral, maior e mais poderosa não será possível que a força social dos trabalhadores se manifeste, plenamente, como um sujeito social independente, diante dos dois blocos burgueses em disputa.

    O papel da Frente Povo Sem Medo, em especial, tem sido muito progressivo, porque tem se destacado na denúncia dos dois blocos da classe dominante, e assumido a defesa simultânea do Fora Temer, do Fora às reformas, das Diretas Já para a presidência e das eleições gerais. Manter uma política de construir a frente única com um programa de emergência diante da crise é vital.

    O desfecho ainda incerto da luta para derrubar Temer abre a necessidade da CSP/Conlutas se apresentar como uma Central Sindical e Popular engajada na luta pela Frente Única chamando à Greve Geral sem vacilação, mas, também, sem ultimatismos.

    4. A importância do papel da esquerda socialista não deve ser subestimada. Devemos ser conscientes que a disputa política em curso tem os seus ritmos. Estamos em um momento em que o decisivo é ampliar a força social pelo Fora Temer, mas construir um bloco político contra as eleições indiretas. Defender Diretas Já não é capitular a uma “saída eleitoral” nos limites da democracia liberal burguesa. Defender Diretas Já significa dizer não à política da fração burguesa que já se deslocou para o Fora Temer, mas quer que o Congresso Nacional decida quem deve governar.

    Somos por um governo dos trabalhadores e do povo, evidentemente. Mas ainda não temos forças acumuladas para lutar pelo poder. Por isso, não surgiram ainda sequer organismos de base que expressem a frente única. Não há Conselhos Populares, nem embriões de Poder Popular, a não ser como propostas literárias. Não estamos em uma situação revolucionária. O que podemos é impedir a burguesia de conseguir governar. Isso não é secundário. Porque se a classe dominante conseguir arbitrar as suas diferenças, a ofensiva das reformas trabalhista e previdenciária voltará com força total. Podemos e devemos defender eleições gerais, isto é, agitar pela dissolução do Congresso Nacional.

    Queremos que se forme uma Frente da Esquerda Socialista com um programa anticapitalista, que seria uma referência de um terceiro campo político, contra os blocos burgueses e, simultaneamente, contra o lulismo. O Psol tem um lugar especial na formação desta Frente – porque ele deve indicar quem deverá ser o porta-voz desta candidatura – para a qual devem ser chamados todos os partidos e organizações da esquerda radical. Mas o fundamental é começar a popularizar um programa.

  • Três interpretações erradas sobre o golpe parlamentar

    Por Valerio Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Tenho horror a teorias da conspiração. Mas tenho mais medo do autoengano. A mente humana tem vieses ou preferências, e uma delas é a busca incessante por padrões, modelos, regularidades, esquemas. Estamos inquietos à procura de descobrir relações simples entre causas e consequências. Temos uma tendência a pensar assim, porque foi útil aos nossos ancestrais ter a capacidade de antecipação. Mas, perigosamente, uma limitação muito comum, e que nos condena a interpretações erradas, é o raciocínio de tipo paranoico que favorece a credulidade em teorias de conspiração. Ter ideias paranoicas não é o mesmo que ser paranoico. O grau faz toda a diferença. Mas não deixa de ser uma ironia cruel que, pela necessidade de manter uma atitude crítica ou de desconfiança cética possamos ser levadas à suspeita generalizada, com mais frequência do que seria desejável, ou até mesmo saudável.

    Escrevo estas linhas porque, participando de debates sobre a conjuntura, tenho me surpreendido com algumas conclusões que militantes honestos parecem ter retirado do que aconteceu no país no último ano:

    (a) Não é verdade que Dilma Rousseff foi derrubada porque Eduardo Cunha aceitou a tramitação do impeachment. Sim, ele favoreceu as condições para o golpe. É verdade que ele o fez em retaliação à posição da bancada do PT de não defendê-lo na Comissão de ética da Câmara dos deputados. Mas o papel dele nesse processo teria sido substituível. Outro teria assumido o seu lugar sem maiores dificuldades.

    (b) Não é verdade que Dilma Rousseff foi derrubada porque seu governo iniciou um ajuste anticíclico para evitar o aumento do desemprego em 2012. É verdade que Guido Mantega, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini tomaram medidas que flexibilizavam os fundamentos macroeconômicos de câmbio flutuante, altas taxas de juros, e busca de superávit primário, e que as metas de inflação deixaram de ser um critério absoluto. Mas embora estas inflexões tenham produzido resistência em setores da burguesia, a maioria da burguesia não rompeu com o governo do PT nesse momento. Somente três anos e meio depois, e por outras razões. O tempo faz muita diferença quando se faz análises sérias.

    (c) Não é verdade que Dilma Rousseff foi derrubada pela LavaJato. A LavaJato favoreceu as condições que permitiram o triunfo do golpe parlamentar, porque incendiou as expectativas frustradas da classe média que foi para as ruas. Mas esta operação, que foi articulada em cooperação com os serviços norte-americanos, começou no primeiro semestre de 2014, antes das eleições presidenciais. Não era a política de Obama a deposição de Dilma Rousseff. A LavaJato merece ser criticada, severamente, mas não foram os procuradores de Curitiba, nem o juiz Sergio Moro que derrubaram Dilma Rousseff.

    Quem concluiu que o impeachment fragilizou o regime democrático-liberal de dominação errou “rude”. O regime saiu fortalecido. Estabeleceu-se um novo equilíbrio institucional, com maior regulação do Judiciário, apoiado na Polícia Federal. Mas as instituições estão fortalecidas para fazer o ajuste econômico-social subvertendo os poucos direitos conquistados na Constituição de 1988.

    A alternância no poder foi possível durante três mandatos e meio do PT. E caminhava para uma possível ou até provável quarta vitória eleitoral do PT em 2018. Dilma caiu através de um golpe institucional porque, primeiro, a classe dominante assim o quis, depois que ficou claro que o governo do PT seria incapaz de fazer os ajustes que ela considerava indispensáveis para reposicionar o Brasil na economia mundial. E tinha capacidade política de fazer o golpe, mesmo que para isso tivesse que inventar um crime de responsabilidade, porque se apoiou nas mobilizações da classe média, e sempre manteve maioria no Congresso. Quem, depois de tudo isso, ainda tem ilusões na democracia se engana a si próprio. Eu tenho horror ao autoengano.

  • Algumas linhas sobre ideologia

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Muita gente inteligente e honesta acredita que a luta política é uma luta de ideias. Só que não é tão simples. A luta política é uma luta que gira em torno de interesses sociais e pessoais. Nem sempre nesta ordem, claro. As ideias são somente o vocabulário das análises, plataformas, programas e propostas. Os que lutam por ideias e acreditam, sinceramente, em seu desprendimento são considerados idealistas. E o são.

    Mas não no bom sentido. Não no sentido de altruísmo.

    Porque imaginam, ingenuamente, que suas argumentações merecem ser consideradas desconectadas da terrível pressão do meio em que estão inseridos. São idealistas somente porque idealizam a realidade, ou seja, os outros e, em primeiro lugar, a si mesmos.

    O tema das ideologias me parece importante quando a argumentação liberal insiste em repetir que só há uma boa solução técnica para cada problema. O futuro da Previdência pública, por exemplo. Isso é uma simplificação infantil. Há sempre alternativas. Cada uma com seus custos e benefícios. Fazemos escolhas o tempo todo. Aceitamos algumas perdas para garantir ganhos. Fazemos cálculos. Sempre há diferentes soluções para cada problema.

    Entramos aqui em um terreno delicado e até minado da discussão sobre o conceito de ideologia em Marx. Talvez o melhor caminho seja tentar colocar o foco em uma perspectiva histórica. A segunda geração marxista desconhecia a Ideologia Alemã, que permaneceu inédito até 1920: assim Plekanov, Lênin, Trotsky, Gramsci, entre outros, não conheciam, pelo menos nas suas obras iniciais, o sentido mais crítico que Marx atribuía ao conceito.

    Generalizaram-se então duas apreciações aparentadas que podemos resumir como:

    (a)ideologia como a totalidade das formas de consciência social, que voltou a estar muito em voga hoje, com a chamada crise dos paradigmas, inclusive a crítica à racionalidade e às excessivas pretensões do método científico;
    (b) Ideologia como as idéias filosófico-histórico-politicas que expressam a visão do mundo e os interesses de uma classe social.

    Bernstein parece ter sido o primeiro a caracterizar o próprio marxismo como ideologia (isto é, como uma expressão da visão do proletariado, e ainda assim uma tentativa de apreensão parcial, com resíduos idealistas-hegelianos) sem que essa crítica tivesse tido a ressonância de uma “boutade” – uma provocação – porque, pelo menos por isso, foi poupado, o que indicaria que seus interlocutores, Kautsky, Rosa e Plekanov, por exemplo, não consideraram esta questão um escândalo: afinal no famoso Prefácio, o próprio Marx se refere “às formas jurídicas, político, filosóficas, em suma, formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência desse conflito e o solucionam pela luta”, o que autorizaria o uso do conceito despido de uma coloração mais crítica, ou restrita e negativa.

    Numa direção exatamente oposta a essa, também foi comum a utilização do conceito como expressão de falsa consciência, muito freqüente nas décadas de maior influência do estruturalismo de Althusser: na verdade, uma leitura mais próxima ao sentido, ou aos vários sentidos, com que o conceito parece ter sido utilizado por Marx.

    Mas, também, imprecisa e, talvez, até incorreta, porque permitiria a confusão de ideologia com qualquer tipo de erro, o que não era o sentido do conceito para Marx. Nas obras de juventude o conceito de ideologia parece se restringir à qualificação dos elos entre consciência e existência.

    Resume a análise das relações invertidas entre essas duas esferas ou dimensões: elas expressariam tanto uma distorção do pensamento que nasce das contradições sociais, quanto a própria distorção da realidade busca compensações no mundo do pensamento, seja ele religioso ou laico. Assim, a ideologia tanto oculta como explica, tanto mascara quanto revela, porque ela nasce de uma dupla inversão, na realidade e no pensamento, que tenta explicar a realidade.

    Esta ideia da dupla inversão continuou a ser usada por Marx quando analisa nos Grundisse as formas fenomenológicas do Capital, as aparências do seu movimento, e insiste na crítica do mercado como uma forma de regulação transitória e efêmera, anterior ao capitalismo, porem também histórica. Assim, também, por exemplo a religião, é definida metaforicamente como o ópio do povo, como a moral em um mundo imoral, como o sentimento em um mundo sem sentimentos: o que contem os elementos da dupla inversão.

    Mas na Ideologia Alemã, a definição de ideologia era mais elaborada e ao mesmo tempo, mais restrita: as ideologias seriam a expressão do atraso histórico material, encoberto pelos antagonismos sociais, e os homens sendo incapazes de encontrar uma solução para essas contradições na prática histórica, tenderiam a buscar compensações teóricas, que ocultavam e disfarçavam as contradições da realidade, e nesse sentido, ajudariam a preservá-las. A definição é portanto negativa e restrita: negativa porque compreende a ideologia como um ocultamento da realidade, uma distorção das contradições sociais, uma representação parcial, mas que se pretende universal, e tem a pretensão de apreender a totalidade para sempre; restrita porque Marx não está identificando ideologia com todo tipo de erro. As relações entre idéias ideológicas e não ideológicas não se confundem portanto com a relação epistemológica entre erro e verdade.

    A seguir um extrato de uma carta de Engels a Merhing, sobre o tema das ideologias, que parece interessante porque contem elementos auto-críticos:

    “Principalmente, todos nós atribuímos e tivemos de atribuir o máximo da importância à dedução das concepções políticas, jurídicas e outras concepções ideológicas, bem como aos atos que delas derivam, a partir dos factos econômicos fundamentais. Ao fazermos isso, descuramos o lado formal em troca do conteúdo – a maneira como surgem essas concepções, etc.(…).A ideologia é um processo que o presumível pensador segue, sem dúvida conscientemente, mas com uma consciência falsa. As verdadeiras forças motrizes que o impelem são-lhe desconhecidas, pois, se assim não fosse, não se trataria de um processo ideológico. Por isso, é levado a imaginar para si próprio forças motrizes falsas ou aparentes. Como se trata de um processo intelectual, deduz-lhe o conteúdo, bem como a forma, do pensamento puro, quer do próprio pensamento, quer do dos seus predecessores. Trabalha exclusivamente com materiais de ordem intelectual(…) O ideólogo histórico (histórico deve ser tomado aqui em um sentido colectivo, por político, jurídico, filosófico, teológico, em resumo, por todos os domínios que pertencem à sociedade, e não apenas à natureza) – o ideólogo histórico, dizíamos, encontra em cada domínio científico uma matéria que se formou de maneira independente no pensamento das gerações anteriores e que passou, no cérebro dessas gerações sucessivas, pela sua própria série independente de desenvolvimentos.(…)É esta aparência de história, independente das constituições de Estado, dos sistemas jurídicos, das concepções ideológicas em cada campo particular que, mais do que qualquer outra coisa, cega a maioria das pessoas. Quando Lutero e Calvino “ultrapassam” a religião católica oficial, quando Hegel “ultrapassa’ Fichte e Kant e quando Rousseau “ultrapassa’ indiretamente, com o seu Contrato Social republicano, Montesquieu, o constitucional, esses acontecimentos permanecem no interior da teologia, da filosofia, da ciência política, constituem fases na história desses setores do pensamento e deles não saem. E, desde que a ilusão burguesa da perpetuidade e da perfeição absoluta da produção capitalista se veio juntar a isso, a vitória dos fisiocratas e de A. Smith sobre os mercantilistas passa, ela própria, é bom de ver, por uma simples vitória da ideia, não como o reflexo intelectual de fatos econômicos modificados, mas como a compreensão exata, e por fim adquirida, de condições reais existiram em todos os tempos e em todos os locais. Se Ricardo Coração de Leão e Filipe Augusto tivessem instaurado o liberalismo econômico, em vez de se dedicarem às Cruzadas, ter-nos-iam poupado quinhentos anos de miséria e de ignorância.”
    ENGELS, Friedrich. “Carta a Mehring de 14 de julho de 1893” In MARX-ENGELS. Sobre a literatura e a arte. Lisboa, Estampa, 1974. [Coleção teoria7] p.45.

  • A história deu razão a Rosa Luxemburgo ou a Lenin?

    Por Valerio Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Ao ler ontem um artigo sobre a revolução de fevereiro, de cem atrás, me surgiu o tema do lugar do espontâneo nas revoluções contemporâneas. O marxismo conheceu velhas discussões sobre o lugar do sujeito politico coletivo, ou seja, da organização revolucionária. A mais instigante, talvez, foi aquela entre Lenin e Rosa Luxemburgo. Tinham diferentes avaliações sobre o lugar da dialética do espontâneo e do consciente no processo revolucionário. Ambos concordavam com a necessidade da construção de um partido revolucionário. Mas tinham expectativas distintas sobre a relação entre a classe e o partido. O tema permanece interessante. Parece razoável considerar que já temos uma distância histórica suficiente para a verificação das duas hipóteses.

    A busca de uma resposta remete à questão das revoluções sem direção política inequívoca. Ou, para sermos exagerados, politicamente, “acéfalas”. A metáfora, talvez, não seja a mais apropriada, mas responde à necessidade de descrever o “vazio” relativo de direção em algumas revoluções. Ou, se preferirmos, aos elevados graus de espontaneidade e improvisação da direção, que podem ser encontrados em inúmeras revoluções políticas.

    A avalanche de mobilização de massas pode ser de tal maneira poderosa que a vitória da revolução, isto é, a derrocada do governo e do regime pode ocorrer de forma fulminante. Esse foi o caso da própria revolução de fevereiro de 1917, ou da revolução de Novembro de 1918 na Alemanha.

    A força do sujeito social é tamanha, e a fragilidade dos regimes é de tal gravidade, que desmoronam como um “castelo de areia”. Em outras palavras, os fatores objetivos e subjetivos se apresentam desigualmente desenvolvidos em uma proporção tão assombrosa, os primeiros quase apodrecendo, e os segundos quase inexistentes, que essa contradição, não impede a revolução de triunfar. Nessas circunstâncias excepcionais, a ausência do sujeito político revolucionário foi suprida pelo ativismo das massas em movimento.

    De qualquer forma, é importante notar, que nas revoluções político-sociais (aquelas em que mudou a natureza social do Estado e das relações sociais de produção, ou, pelo menos, se alteraram de, forma qualitativa, as relações de propriedade), ocorreu o fenômeno diretamente inverso: só triunfaram, pelo menos até hoje, revoluções dirigidas por sujeitos políticos, politicamente centralizados, como na Rússia, ou hiper-centralizados, militarmente, até, como na China, Vietnam e Cuba. Donde se pode avançar a conclusão, de que as necessidades subjetivas, como condição para a vitória, são muito diferentes nas revoluções políticas, comparativamente, às revoluções sociais.

    Evidentemente, por vazio de direção, não se deve concluir que inexistiu qualquer direção política. Não existe vazio absoluto em política: sempre aparece alguma forma, mais ou menos improvisada, de sujeito político coletivo. Mesmo que disforme, sem maior densidade ou homogeneidade programática, “a necessidade abre o caminho”, e exige que surja da luta, uma direção política para que as massas tenham um ponto de apoio para as suas ações. É claro que, sendo improvisadas no calor das circunstâncias, a autoridade dessas direções é muito frágil. Mas as massas se apoiam no material humano que encontram disponível. Muito freqüentemente, aqueles que estiveram à frente da revolução, pela sua própria debilidade, mesmo se tendo cumprido um papel heroico no início da revolução, são deslocados rapidamente do caminho e não ascendem mesmo ao poder, e outro sujeitos políticos, surpreendidos pelo ascenso de massas, mas com maior enraizamento histórico e maior experiência, mesmo chegando atrasados na luta, acabam por “usurpar”o poder.

    Todas as autênticas revoluções populares, despertam as massas, anteriormente resignadas, para a ação política direta, e dentro das massas em movimento, surgem milhares de pequenos chefes políticos, por lugar de trabalho, de moradia, nas cidades e nas vilas, enfim, por toda a parte, e, por isso, os graus de espontaneidade serão tanto maiores, quanto maiores forem as energias desbloqueadas. Mas se essa vanguarda ampla, inexperiente e desarticulada, não tiver um ponto de apoio nacional visível e credível, a tendência é que essa vanguarda se disperse, com a mesma velocidade que surgiu. Se a maturidade dos fatores objetivos for excepcionalmente grande, a primeira vaga da revolução pode triunfar, como revolução política, mesmo que a vanguarda ampla não encontre, para dirigi-la, um sujeito político coletivo (como aconteceu, recentemente, no Paraguai e na Indonésia). As forças espontâneas colocadas em movimento pela revolução, diante de uma regime político apodrecido, podem ser fortes o bastante, para derrubar o governo sozinhas, pela disposição revolucionária do sujeito social e, praticamente, sem sujeito político, isto é, sem um partido (ou mais de um partido, uma frente política, isso parece ser irrelevante), armados de um programa de mudança social, que queira fazer a revolução e tomar o poder. As revoluções políticas, os “fevereiros” da História, deram razão a Rosa Luxemburgo.

    Mas explorando a analogia histórica por outro ângulo a conclusão é distinta. É verdade que as crises revolucionárias de “fevereiro” não exigiram, como condição insubstituível de vitória, a presença de um sujeito político. Por outro lado, todavia, as revoluções político-sociais, como “outubro”, parecem exigir, como uma alavanca imprescindível da vitória, fatores de subjetividade mais complexos. Sem uma direção política, sem um sujeito coletivo forjado, em décadas, de aprendizado e experiência, nas mais difíceis condições da luta de classes, e que tenha conquistado autoridade e confiança da vanguarda ampla, para o programa socialista, as revoluções político-sociais estariam fadadas à derrota.

    Nesse sentido a história deu razão a Lênin. De qualquer forma, mesmo as revoluções, estritamente, políticas mais recentes, em sociedades urbanizadas e, politicamente, mais complexas, vêm se tornando mais complicadas, e colocando a necessidade do sujeito politico de forma mais aguda.

  • Um programa marxista para uma nova esquerda

    Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    Quem acredita em ressurreição fica mais animado com a proximidade da Páscoa. Mas a ressurreição de Lula é improvável. Não existe luta socialista sem emulação, é verdade. Mas não há emulação possível, com bandeiras manchadas: o lugar do exemplo é vital na luta política. E o PT não só carrega bandeiras manchadas, como se recusa a limpar as manchas.

    Análises instrumentais não são sérias, portanto, não servem para nada. Defender uma bandeira sem manchas não é tão simples como vestir uma camuflagem de programa eleitoral. Não adianta lavar a camisa velha, é preciso trocar de camisa.

    Os defensores do “Volta Lula” afirmam que não há futuro para a esquerda brasileira, se o PT não mantiver sua unidade e suas posições. Mas isso não é verdade. Na verdade, o contrário é muito mais verdadeiro. Mais difícil de compreender, talvez, mas muito mais animador. Mais difícil porque as ilusões reformistas não morrem sozinhas.

    As ilusões reformistas, o desejo de uma capitalismo mais regulado e com mais direitos, podem sobreviver na consciência de trabalhadores, mesmo depois da desilusão com o PT.

    As bandeiras do PT estão manchadas pelo financiamento empresarial, pelo enriquecimento de parte de seus dirigentes, mas, também, pelo fracasso de sua estratégia. Não há lugar para qualquer autocrítica séria na corrente majoritária do PT.

    Não somos nós que o afirmamos, mas a própria oposição interna dentro do PT na preparação do próximo Congresso, aliás, com toda razão.

    A estratégia de colaboração de classes fracassou, essencialmente, por três razões: (a) porque o reformismo quase sem reformas culminou com a fadiga do lulismo, e desconectou o governo Dilma Rousseff da base social histórica do PT, as parcelas organizadas, sindicalmente, da classe trabalhadora; (b) porque a burguesia decidiu descartar o governo do PT e se reunificou em torno do impeachment quando abraçou o projeto de um reposicionamento do Brasil no mercado mundial para favorecer a atração de uma parte da abundância de capitais disponíveis no centro; (c) porque a classe média girou à direita inflamada pelas denúncias de corrupção, e incendiada pelo impacto da estagnação, do desemprego, da inflação nos serviços, e do endividamento.

    Uma parte da vanguarda mais lúcida e mais corajosa já compreendeu que “na boa”, pela via da concertação e negociações, o Brasil não vai mudar nunca. Essa conclusão é a mais importante a retirar da década de governos do PT em “alianças perigosas”.

    Sem Lula candidato o PT se dividirá. A possibilidade de Lula não ser candidato é grande, porque a condenação em Curitiba é certa. Moro será implacável, porque o julgamento não será técnico, será político. Moro sabe que é isso que se espera dele: a destruição moral da liderança de Lula. Isso é reacionário, evidentemente, mas previsível. Já o apelo à segunda instância, dificilmente, será bem sucedido. A hipótese mais provável é que o PT, se Lula não for candidato, irá se dividir. É só uma questão de tempo. A questão é o que virá depois.

    Por enquanto, esse problema não se resolveu: a reorganização da esquerda (política, mas também teórica e programática), que já se iniciou, é ainda muito frágil e lenta. Há fatores que não são nacionais e remetem ao contexto da etapa em escala internacional. Portanto, ao debate programático, em especial, à necessidade da esquerda ir além do keynesianismo.

    Diante da existência, durante mais de sete décadas, da URSS como a representação do “socialismo” (ou seja, de um Estado militarmente muito poderoso, mas com uma economia inferior à dos países imperialistas, e um regime político aterrorizador de partido único), ocorreu o divórcio do que foi, metaforicamente, classificado como a democracia dos “direitos” no Ocidente (em particular, na Europa) e a democracia “dos músculos e nervos” no “campo socialista” (na URSS, China e Cuba).

    Esse processo, não ocorreu em vão, e é razoável pensar, que tenha tido conseqüências severas na consciência dos trabalhadores dos países centrais que, com razão, são apegados às suas conquistas democráticas: parcelas muito expressivas do proletariado, no Mediterrâneo, e a maioria nos países anglo-saxônicos e escandinavos, não se sentiam atraídos pelo “socialismo” real, enquanto ele foi sinônimo de desigualdade social e burocracia, escassez econômica e partido único, ente outros elementos.

    Defender, no Brasil de 2017, um programa keynesiano, nos moldes do que se convencionou denominar Welfare State, ou Estado de bem estar social, quando ele está sendo destruído nos países centrais é anacrônico. Paul Krugman, Larry Summers e Joseph Stiglitz nos EUA, ou Martin Wolf no Reino Unido ou Thomas Piketty na França não têm apresentado senão propostas requentadas de superação do neoliberalismo pela emissão de moeda e maior endividamento estatal para aquecer a demanda privada ou pública, ou, eventualmente, de controle do crédito para evitar uma nova explosão de bolhas como a de 2008. Nada prometedor, portanto.

    Uma esquerda para o século XXI precisa vestir uma camisa nova e limpa. Ou seja, um novo programa. E o marxismo é quem tem esse programa.

  • Contra a partidocracia

    Por: Valério Arcary, colunista do Esquerda Online

    A separação de funções entre o burguês prático e o político profissional não afeta em nada a dominação de classe da burguesia. To­do um mecanismo de mídia e de financiamentos, legalizados ou não, ata os partidos burgueses e os políticos profissionais, individualmente, à burguesia como classe ou a setores e grupos dela. O mecanismo, vez por outra, incorre em desajustes e falhas e pode mesmo entrarem pane. Mas a regra é o funcionamento satisfatório(…)Comumente, ambiciona ser burguês ao mesmo título que seus patrocinadores, dispondo de patrimônio e de padrão de vida equi­valentes aos deles. Afinal, por que deveria o deputado ou ministro se contentar com os vencimentos protocolares, enquanto os empre­sários, cujas causas eles defendem, se fartam de riquezas crescentes?1

    Jacob Gorender

    Durante décadas escutei dos estudantes a pergunta se o governante x ou y era do bem ou do mal. Assim mesmo. E ser do mal queria dizer algo elementar: ele rouba, ou não?  Dicute-se nos palácios uma reforma política para enquadrar as eleições de 2018, agora que as empresas não poderão mais doar. Vem aí mais uma pizza muito amarga da partidocracia.

    E neste domingo a direita convoca às ruas para testar as suas forças. Aproxima-se a data da sentença contra Lula na primeira instância. E Temer está precisando de uma ajudinha das ruas para avançar para a votação da Reforma da Previdência.

    Responder ao tema da corrupção passou a ser uma questão central, programática, incontornável para toda a esquerda e deve ser encarada com muita seriedade. Isso significa dizer, incansavelmente, que somos contra a partidocracia. Mas não podemos deixar qualquer confusão entre a nossa crítica à partidocracia e a crítica feita pela extrema direita.

    Os conflitos sociais distributivos são invisíveis, porque a compreensão de como funciona a economia é rudimentar, quase infantil. Os níveis de desinformação, ou seja, de ingenuidade política são assombrosos. Claro que parece mais fácil tornar o capitalismo brasileiro mais honesto do que derrotá-lo. Essa ilusão é o núcleo duro do pensamento mágico: tenho medo de represálias do sistema, então não será melhor reformá-lo do que tentar destruí-lo?
    Mas, embora seja difícil, esta disputa ideológica contra a inocência é inevitável. O maior problema não são os políticos, mas aqueles que eles representam. São as dezenas de milhares de Marcelo’s Oderbrecht’s que eles representam.

    “Ele rouba ou não?”: a pergunta é sempre individualizada. Não se associam os políticos aos partidos. Porque uma peculiaridade brasileira foi a inflação partidária com as legendas de aluguel. Uma “jabuticaba” em estilo bem “macunaíma”: o vale tudo despudorado. A forma partido está, portanto, compreensivelmente, satanizada. Como é muito difícil para o povo discernir o debate político-ideológico, o que prevalece é a relação de confiança pessoal, em diferentes versões mais ou menos “messiânicas”. O “carreirismo político” passou a ser quase uma regra. Essa crise, aliás, atinge também os partidos de esquerda na forma, por exemplo, de mandatos “infinitos”, por décadas.
    Para uma maioria dos trabalhadores e da juventude, mesmo com a elevação da escolaridade dos últimos trinta anos, o maior problema do Brasil é, essencialmente, a corrupção dos políticos.

    É verdade que os graus de corrupção são muito altos, no mundo inteiro, mas, especialmente, nababescos no Brasil, Isso se explica porque a maioria dos políticos profissionais que representam a classe dominante, em nosso país, não têm origem social burguesa. Embora tenham salários muito altos e outras mordomias, não é por essa via que mudam de classe. Deputados não precisam se inserir na classe média alta: já estão nela. O grande salto é conseguir um entesouramento que permita viver de renda. Mas estes 1% que podem viver de renda são invisíveis aos olhos das massas. Para a grande maioria do povo a classe média alta e a burguesia são uma classe só: são os ricos. Ou seja, o biombo da classe média alta esconde e protege os realmente ricos, que são aqueles que exercem o poder. 
    Os profissionais da política precisam, portanto, construir patrimônio o mais rápido possível, para ganhar alguma independência e, sobretudo, segurança. Daí vem a roubalheira.

    Mas, esse não é o nosso maior problema, porque não é a causa, é o sintoma. Teremos que repetir mil vezes: não é a corrupção, é a desigualdade social, a exploração de quem vive do trabalho. Dizê-lo com todas as letras produz um choque no senso comum e exige uma longa explicação.

    A burguesia brasileira sempre teve problemas com sua representação política. O maior deles tem sido, depois do fim da ditadura, a especialização necessária que impõe a a combinação de duas habilidades que não caminham juntas. A primeira é a capacidade de ganhar votos e ser, eleitoralmente, viável, em um país em que a construção de partidos nacionais com um programa e visão de mundo comum é complicadíssima. A segunda é que essas lideranças tenham capacidade de gestão do Estado. Só muito raramente estas duas qualidades se reúnem na mesma pessoa.

    A profissionalização da política evoluiu de forma muito diferente, dependendo das distintas tradições político-culturais de cada país. Em alguns, é estimulada a militância política entre os jovens representantes das classes burguesas, como nos EUA e no Uruguai, por exemplo. Em outros, os “capos” políticos são profissionais quase técnicos, altamente, especializados nos processos eleitorais e na representação parlamentar, mas sem herança burguesa (como na Inglaterra). Quase sempre, no entanto, predomina um modelo misto: burgueses de origem e quadros técnicos.

    A burocracia do Estado é, também, quase universalmente, uma especialização de carreira, muito bem remunerada (dentro dos limites de um salário de função pública), mas treinada para exercer as funções técnicas seja qual for o partido de turno. O calcanhar de Aquiles da moderna “partidocracia” burguesa é a irrefreável corrupção. 
    De Norte a Sul, passou a ser um tema obrigatório e insolúvel.

    A forma partido, uma “invenção” do XIX, conheceu o seu apogeu histórico no século XX. São um canal para traduzir as pressões sociais: como se sabe, não há outra forma de traduzir interesses, senão formulando um programa. Um programa pode ser parcial, e atender a demandas parciais (e pode se expressar através de sindicatos, movimentos, grupos de ação ou iniciativa, ONG’s, etc…), ou pode ser um programa para toda a sociedade, visando a luta pelo poder. Nesse caso, a forma de organização mais eficiente, embora não seja a única, são os partidos. Mas ela hoje vive uma crise, sem precedentes, em quase todos os países: fraudes políticas abjetas (sendo a mais comum, a eleição com um programa, que depois se abandona, solenemente); corrupção crônica (enriquecimento ilícito, financiamentos eleitorais nebulosos, favorecimento empresarial); aventuras pessoais (busca da imunidade parlamentar para encobrir atividades ilegais, acesso ao poder para intermediações empresariais). O fenômeno da crise dos partidos é internacional, e atinge, em diferentes proporções, a representação política de todas as classes.

    1 GORENDER, Jacob, Marxismo sem utopia, São Paulo, Ática,1999, p.46

  • Reflexões para uma análise marxista da correlação de forças

    Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    Isaac Deutscher no terceiro volume da biografia de Leon Trotsky, O profeta banido, sobre a “teoria da ofensiva”, fundamentada na análise da “crise final” – depois do cataclismo de 1929 – no início dos anos trinta do século XX, em oposição à tática da frente única:

    “Nem o febril ultra-radicalismo do “terceiro período” testemunha qualquer internacionalismo revolucionário novo de Moscou. O ultra-radicalismo obstruía o crescimento do comunismo no mundo, tal como o oportunismo antigo, e encerrava em si, a mesma cínica indiferença burocrática aos interesses internacionais da classe operaria.

    Agora, como antes, Trotski defendeu a opinião de que toda a época que se iniciara com a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa era de declínio do capitalismo, cujas bases mesmas estavam abaladas. Isso, porém, não significava que o edifício estava na iminência de desabar com estrondo.

    A decadência de um sistema social não é um processo isolado de colapso econômico, ou uma sucessão ininterrupta de situações revolucionárias. Nenhuma depressão era, portanto, a priori, a “derradeira e final”. Mesmo em sua decadência, o capitalismo teria altos e baixos (embora os altos se tornassem cada vez mais breves e incertos, e os baixos cada vez mais baixos e ruinosos).

    O ciclo econômico, por mais que se tivesse modificado desde a época de Marx, ainda seguia seu curso habitual, não só de surtos de prosperidade para a depressão, mas também desta para o primeiro. Era, portanto, absurdo anunciar que a burguesia chegara “objetivamente” ao seu impasse final: não havia impasse do qual uma classe dominante não tentasse sair, e seu êxito dependia não tanto de fatores puramente econômicos, mas muito mais do equilíbrio das forças políticas, que poderia pender para um ou outro lado, segundo a qualidade da liderança comunista.

    Prever uma “maré ininterruptamente montante da revolução”, descobrir “elementos de guerra civil” em quase todas as greves turbulentas, e proclamar que era chegado o momento de passar da defensiva à ofensiva, e à insurreição armada, não era proporcionar liderança, mas sim cortejar a derrota.”DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1984, p.50.

    A questão da articulação dos fatores objetivos e subjetivos na análise da relação social de forças entre as classes é mais complicada do que pode parecer. Uma situação revolucionária exige, evidentemente, condições objetivas. Mas elas podem estar maduras há décadas, podem até ter apodrecido, de tão maduras, sem que uma situação revolucionária tenha se aberto.

    A passagem de Deutscher, comentando Trotsky, ajuda a esclarecer esta questão:

    “Detendo-se na ligação entre os fatores “constante” e “variável” demonstra que a revolução não se explica simplesmente pelo fato de estarem as instituições sociais e políticas, há longo tempo, em decadência e prontas a serem derrubadas, mas pela circunstancia de que muitos milhões de pessoas perceberam tal coisa pela primeira vez.

    Na estrutura social, a revolução já estava madura bem antes de 1917; na mente das massas, ela só amadureceu naquele ano. Assim, paradoxalmente, a causa mais profunda da revolução está não na mobilidade da mente dos homens, mas em seu conservantismo inato.

    Os homens só se levantam em massa quando percebem, subitamente, como estão mentalmente atrasados em relação aos tempos e desejam reparar esse atraso imediatamente é a lição que nos mostra a “História da Revolução Russa”: as grandes convulsões na sociedade seguem-se, automaticamente, da decadência de uma velha ordem; gerações podem viver em uma ordem decadente, sem terem consciência disso.

    Mas quando, sob o impacto de alguma catástrofe como a guerra ou o colapso econômico, adquirem consciência disso, há uma explosão gigantesca de desespero, esperança e atividades.” DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de janeiro, Civilização Brasileira, 1984, p.241.

    Um dos aspectos que preocupava Trotsky, era dissociar o conceito de crise revolucionária, das velhas polêmicas sobre a inexorabilidade da “crise final”, e a preocupação em educar as novas gerações marxistas, em torno da experiência russa de que a crise é um processo político e, portanto, guarda sempre uma relativa autonomia, até temporal, em relação aos processos econômicos, mesmo quando esses assumem a forma de um cataclismo: a crise econômica pode ser gravíssima, e no entanto, pode não se abrir uma situação revolucionária.

    A crise econômica seria a condição objetiva para a crise, mas não suficiente. O outro alerta, tão ou mais importante que o primeiro, recorda que a análise da relação de forças deve considerar qual é a situação de todas as classes da sociedade. Análises obreiristas, sejam por euforia ou por desalento, não permitem uma compreensão de qual seria a situação. No pequeno texto Que é uma situação revolucionária? Trotsky escreve:

    “Para analisar uma situação (…) é necessário distinguir entre as condições econômicas e sociais de uma situação revolucionária e a situação revolucionária mesmo. As condições econômicas e sociais de uma situação revolucionária se dão, falando em geral, quando as forças produtivas de um país estão em decadência, quando diminui sistematicamente o peso do país capitalista no mercado mundial e os rendimentos das classes também se reduzem sistematicamente;quando o desemprego já não é simplesmente a conseqüência de uma flutuação conjuntural, mas um mal social permanente com tendência a aumentar(…). Mas não podemos esquecer que a situação revolucionária a definimos politicamente não só sociologicamente, e aqui entra o fator subjetivo. E este não consiste somente no problema do partido do proletariado, mas é uma questão de consciência de todas as classes.” TROTSKY, Leon, “Que é uma situação revolucionária?” in Escritos, Tomo II, volume 2, p. 513 (de 14/11/1931), Bogotá, Pluma, 1976.

    O problema do desencontro e descompasso, entre o amadurecimento desproporcional dos fatores objetivos e subjetivos, está entre as maiores dificuldades de compreensão do que seria uma situação revolucionária ou mesmo pré-revolucionária. Por razões óbvias, as idéias revolucionárias só podem se transformar em força material, isto é, se fundir com a vontade de milhões, no calor de uma situação revolucionária.

    Em situações defensivas ou reacionárias, as massas não só não acreditam em propostas revolucionárias, como na maioria das vezes, desconfiam até das propostas de luta mais moderadas e das alternativas mais reformistas, tão baixo é o nível de confiança que depositam em suas próprias forças. A rigor, idéias radicais só podem conquistar a influência sobre a maioria, quando se abre uma crise revolucionária. Mas as crises revolucionárias são raras.

    A diáspora dos revolucionários marxistas em relação à classe que pretendem representar é inexorável, portanto, enquanto a sociedade não for convulsionada por lutas de classes agudas. Como se pode facilmente concluir, esse afastamento teve imensos custos políticos para as correntes revolucionárias. Traduziu-se em inúmeros erros “impressionistas” de apreciação sobre as possibilidades, realmente, existentes.

    Submeteu sempre as correntes revolucionárias a terríveis pressões que se expressaram ou no adormecimento da vigilância, em um afrouxar da tensão necessária para uma grande espera, quando se subestimou a realidade, ou numa embriaguez em relação às possibilidades reais da situação política, uma espécie de “doping” eufórico que super-dimensiona a urgência dos combates, em um outro extremo.

    Nada pode ser mais cruel para uma tendência revolucionária do que não reconhecer uma situação revolucionária quando ela se desenvolve diante dos seus olhos. Mas o erro inverso pode ser ainda mais fatal: o “ufanismo” diante de uma situação ainda imatura prepara o terreno para grandes desilusões e desmoralizações.