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  • Fora, terceirização

    Por Jorge Luis Souto Maior, Colunista do Esquerda Online

    Com a aprovação do PL 4.302-E, no dia 22/03/17, muita gente entrou em desespero, imaginando que o mundo acabou.

    Não acabou e, bem ao contrário, pode estar, de fato, nascendo, dependendo, claro, de como consigamos encarar a situação e reagir perante ela.

    Primeiro registro a ser feito é o de que não se pode, de forma alguma, diminuir a gravidade do ocorrido, relativizar os danos ou considerar que a única reação possível é a de buscar destruir a lei por meio da hermenêutica jurídica (o que está em aberto, por certo).

    Neste sentido, considero de suma importância o chamado das centrais sindicais para uma intensa mobilização contra a regulamentação do trabalho temporário e da terceirização aprovada na última quarta-feira.

    De todo modo, há que se perceber o processo político em curso, para que não sejamos (todos aqueles que seriamente se preocupam com a efetivação do projeto constitucional da melhoria das condições de vida da classe trabalhadora) engolidos pela dinâmica de mais esse golpe.

    Votada a lei, logo os meios de comunicação do grande capital (e seus prepostos) se adiantaram para “explicar” aos trabalhadores o que mudaria na sua vida[1], considerando a situação como dada, ou seja, irreversível e, claro, tentando construir a visualização de um futuro promissor para os trabalhadores, ainda que conduzidos, todos, à condição de terceirizados.

    Do outro lado, muitos, sabendo dos efeitos nefastos da terceirização para os trabalhadores e para o projeto social, começaram, imediatamente, a buscar brechas na lei para destruí-la por dentro, destacando, ainda, a sua inconstitucionalidade. Envolvido também nesta tarefa, percebi o quanto o PL aprovado é repleto de imprecisões e contradições explícitas, o que me levou à reflexão que ora deixo consignada neste texto.

    Enfim, o que transparece de uma leitura mais detida do texto que agora vai para a sanção presidencial é que muitos daqueles parlamentares que aprovaram o PL sequer conheciam detalhadamente o seu conteúdo, dadas as suas inúmeras imprecisões. Afinal, o que importava era a sua aprovação imediata, objetivando, na verdade, levar adiante o PLC 30/2015, ainda em tramitação no Senado Federal. Tanto é assim que a votação se deu, como se viu, sem qualquer discussão, realizada à sorrelfa, sem respeito às mais rudimentares regras do processo legislativo, o que, por si só, inclusive, já é motivo mais do que suficiente para, juridicamente, negar validade à lei.

    Mas, como parece, a inconsistência técnica da lei (ou, meramente, a despreocupação com o que, de fato, consta no texto) e a irregularidade do processo legislativo foram assumidos como irrelevantes, pois o que concretamente se pretende é gerar uma comoção pública contra um texto legal que, na essência, eleva para 180 dias, com possibilidade de extensão a 270 ou mais, conforme previsão de norma coletiva, o prazo dos contratos temporários e que, com redação confusa, tenta possibilitar a terceirização irrestrita, sem garantias jurídicas específicas aos trabalhadores, tudo em troca de uma responsabilidade “subsidiária” da empresa tomadora dos serviços, o que não representa nada para trabalhadores sem direitos, para, na sequência, oferecer a opção de um projeto de lei apontado como menos prejudicial, o PLC 30/15 (originário do famoso PL 4.330/04), que tramita no Senado Federal.

    Então, o golpe dentro do golpe já se anuncia: alguns partidos políticos, buscando a invalidação de uma lei sabidamente inválida (mirando o efeito eleitoral da medida ou participando da autoria do conjunto da obra), entram com ações judiciais junto ao STF e, com a suspensão liminar da aplicação da lei (o que daria, inclusive, novo alento ao Supremo, obscurecendo sua história recente de supressões reiteradas de direitos dos trabalhadores), costura-se um grande acordo, que favorece muita gente, sobretudo o governo que terá a grande oportunidade de ganhar certa legitimidade pela possibilidade de vetar uma lei considerada como muito perversa para os trabalhadores e sancionar outra que, neste contexto, se venderá como “benéfica”.

    Ou seja, o risco posto é o de que estejamos caminhando para uma aprovação consentida do PLC 30/15, que legitima a terceirização nas atividades-fim das empresas, com verniz de ser mais benéfico ou menos perverso do que este que foi recentemente aprovado, estimulando-se, inclusive, a sensação de que a troca se deu por um recuo do governo diante da força da mobilização social, das ações judiciais propostas e das ameaças de destruição pela via interpretativa feitas por associações e juristas trabalhistas.

    Ocorre que, embora aparente ser de uma derrota profunda, o momento presente, dada a capacidade de mobilização social demonstrada desde 2013 e que cada vez mais se espalha entre as organizações trabalhistas, que estão reaprendendo o caminho das ruas, constitui uma grande oportunidade para que, enfim, se consiga barrar o processo de desmonte da legislação trabalhista iniciado, na história mais recente, em 1993, exatamente com a legitimação da terceirização, que atinge hoje, inclusive no setor público, em flagrante inconstitucionalidade, a mais de 12 milhões de pessoas, deixando um enorme rastro de mortes, mutilações, sofrimentos, ofensas morais, direitos desrespeitados e conflitos judiciais.

    Assim, toda a indignação, que foi explicitada após a notícia da aprovação do PL 4.302-E/98, deve ser canalizada para barrar o processo do golpe dentro do golpe, conduzindo a uma mobilização voltada à eliminação da terceirização (toda ela, visto que o trabalho humano não é mercadoria de comércio e o eufemismo da terceirização tem servido apenas para legitimar a intermediação de mão-de-obra, absolvendo o capital da mínima contrapartida social), sobretudo no setor público, como forma, também, de preservar as estruturas de Estado, para que, enfim, se apresente para a classe trabalhadora um caminho para frente, superando aquele que lhe tem sido imposto em toda a era neoliberal, de 1989 a 2017, de considerar que não perder direitos já é uma grande vitória.

    São Paulo, 24 de março de 2017.
    [1]. http://veja.abril.com.br/economia/terceirizacao-saiba-o-que-muda-e-tire-suas-duvidas/
    http://epocanegocios.globo.com/Economia/noticia/2017/03/entenda-o-que-lei-da-terceirizacao-vai-mudar-na-sua-vida.html

    Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

     

  • Sejamos anticapitalistas e radicais, antes que as direitas o sejam

    Por: Carlos Zacarias, colunista do Esquerda Online

    As últimas pesquisas realizadas no Brasil para as eleições presidenciais de 2018, não deixam dúvidas: a candidatura do deputado do PSC-RJ, Jair Bolsonaro, começa a aparecer como alternativa viável. Entretanto, nem era preciso verificar os números através da pesquisa. Para um observador atento, parece se tornar cada vez mais evidente que o nome do deputado, que no ano passado prestou homenagens à memória do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra na fatídica sessão que votou o impeachment de Dilma Rousseff, cresce entre os setores menos organizados da sociedade. Mas por que o parlamentar conhecido por seu histrionismo e suas diatribes machistas, homofóbicas e racistas tem despontado como alternativa mesmo entre as camadas mais populares? A pergunta deve ser respondida, entre outras coisas, levando-se em consideração o lugar ocupado pela política na vida das pessoas.

    Em tempos em que a corrupção associada ao parlamento e ao Executivo se tornaram manchetes diárias nos noticiários dos jornais, a confusão entre aquilo que é epifenomenal e o que é central na atualidade não chega a ser uma surpresa, pois faz parte do pacote ideológico disseminado pela classe dominante. Os brasileiros se acostumaram a odiar os políticos em tempos normais e, paradoxalmente, a idolatrá-los em períodos eleitorais quando são contagiados pela propaganda espetacular transmitida em horário nobre. Nos últimos anos uma avalanche de denúncias e algumas punições de políticos conhecidos, transformaram a frustração e a impotência diante dos políticos, em regozijo e contentamento catártico. O efeito, contudo, pode tornar ainda mais difícil o caminho das esquerdas, haja vista que o ódio aos políticos indistintamente percebidos como iguais e corruptos, converte-se, facilmente, em ódio pela política.

    As últimas eleições norte-americanas, vencidas pelo bilionário xenófobo e ultradireitista, Donald Trump, surpreenderam o establishment. Deixando-se de lado o fato de que Trump perdeu no voto popular por uma margem superior a 700 mil votos, surrpreendeu que o eleitorado da potência do norte tenha escolhido um megaempresário histriônico e também machista, racista e homofóbico, como Bolsonaro, para dirigir os rumos da maior economia do planeta. Trump venceu Hilary Clinton obtendo a maioria (270) dos 538 votos no colégio eleitoral, tendo grande quantidade de votos, inclusive, no eleitorado negro, latino, entre as mulheres e a comunidade LGBT. A penetração de Trump nesses setores só foi possível em função do discurso da antipolítica, que penetra bem entre indivíduos atomizados e afastados de qualquer tipo de organização. Anestesiados com a mesmice da política muitos não veem solução para os seus problemas e terminam optando por candidatos que entabulam o discurso mais radical se eles parecem representar alguma perspectiva de ruptura, mesmo que esse discurso parta da direita.

    O recente fenômeno da eleição estadunidense já ofereceu lições ao Brasil em passado não muito distante. Em 1989, Fernando Collor surgiu como candidato da antipolítica desbancando Lula que, na época, era a verdadeira novidade. O “Caçador de Marajás” das Alagoas, despontou para o estrelato nas eleições presidenciais após cinco desastrosos anos de governo de José Sarney e saturação da política e dos políticos. Articulando o discurso da anticorrupção e se apresentando não como político, mas como empresário bem sucedido, Collor conseguiu ser bastante mais radical do que Lula, aparecendo para os eleitores como uma efetiva alternativa ao governo Sarney. Por conta disso, o eleitorado identificou no jovem candidato aquele que seria capaz de superar a continuidade e oferecer soluções para os seus problemas.

    A lista de exemplos poderia crescer, ainda mais se buscássemos experiências pelo mundo. Todavia os exemplos de Trump nos Estados Unidos em 2016 e de Collor no Brasil em 1989 são suficientes para dizer que quando a esquerda não oferece alternativas de ruptura e de justa radicalidade contra o establishment e o mais do mesmo da política eleitoral, as direitas tendem a fazê-lo e os riscos da antipolítica são o prenúncio do desastre. Em vista disso, o entusiasmo presente em setores da esquerda que viram na ida de Lula e Dilma à Paraíba para inaugurarem uma parte da obra de transposição do São Francisco, constitui-se numa armadilha para quem está enfrentando nas ruas o governo de Michel Temer e que sofre na pele as consequências de mais de uma década de governo de conciliação de classes.

    Caso as esquerdas não sejam capazes de apresentar alternativas radicalmente anticapitalistas e continuem insistindo nos velhos e desgastados esquemas de alianças, o abismo pode ser ainda mais fundo do que o experimentado até aqui. Os recentes governos de conciliação de classes foram desastrosos para os trabalhadores e para reverter o retrocesso parece ser necessário recuperar a radicalidade desde já.

    Por paradoxal que seja, o discurso anticapitalista no Brasil de 1989 ou nos Estados Unidos de 2016, esteve nas mãos de empresários que expressavam posições liberais e de direita. Nesse sentido, se se pretende recuperar a política como espaço de intervenção consciente e organizada dos setores explorados e oprimidos que constituem a maioria da população, não se pode deixar que candidatos que expressam posições da antipolítica usurpem o lugar que pertence por direito à classe trabalhadora e suas organizações. Se assim for, haverá a possibilidade de os trabalhadores recuperarem a crença em suas próprias forças, dando um passo decisivo para impor derrotas ao governo ilegítimo de Michel Temer ainda 2017, preparando as bases para a formação de uma Frente de Esquerda para as eleições do ano que vem.

  • Contra a partidocracia

    Por: Valério Arcary, colunista do Esquerda Online

    A separação de funções entre o burguês prático e o político profissional não afeta em nada a dominação de classe da burguesia. To­do um mecanismo de mídia e de financiamentos, legalizados ou não, ata os partidos burgueses e os políticos profissionais, individualmente, à burguesia como classe ou a setores e grupos dela. O mecanismo, vez por outra, incorre em desajustes e falhas e pode mesmo entrarem pane. Mas a regra é o funcionamento satisfatório(…)Comumente, ambiciona ser burguês ao mesmo título que seus patrocinadores, dispondo de patrimônio e de padrão de vida equi­valentes aos deles. Afinal, por que deveria o deputado ou ministro se contentar com os vencimentos protocolares, enquanto os empre­sários, cujas causas eles defendem, se fartam de riquezas crescentes?1

    Jacob Gorender

    Durante décadas escutei dos estudantes a pergunta se o governante x ou y era do bem ou do mal. Assim mesmo. E ser do mal queria dizer algo elementar: ele rouba, ou não?  Dicute-se nos palácios uma reforma política para enquadrar as eleições de 2018, agora que as empresas não poderão mais doar. Vem aí mais uma pizza muito amarga da partidocracia.

    E neste domingo a direita convoca às ruas para testar as suas forças. Aproxima-se a data da sentença contra Lula na primeira instância. E Temer está precisando de uma ajudinha das ruas para avançar para a votação da Reforma da Previdência.

    Responder ao tema da corrupção passou a ser uma questão central, programática, incontornável para toda a esquerda e deve ser encarada com muita seriedade. Isso significa dizer, incansavelmente, que somos contra a partidocracia. Mas não podemos deixar qualquer confusão entre a nossa crítica à partidocracia e a crítica feita pela extrema direita.

    Os conflitos sociais distributivos são invisíveis, porque a compreensão de como funciona a economia é rudimentar, quase infantil. Os níveis de desinformação, ou seja, de ingenuidade política são assombrosos. Claro que parece mais fácil tornar o capitalismo brasileiro mais honesto do que derrotá-lo. Essa ilusão é o núcleo duro do pensamento mágico: tenho medo de represálias do sistema, então não será melhor reformá-lo do que tentar destruí-lo?
    Mas, embora seja difícil, esta disputa ideológica contra a inocência é inevitável. O maior problema não são os políticos, mas aqueles que eles representam. São as dezenas de milhares de Marcelo’s Oderbrecht’s que eles representam.

    “Ele rouba ou não?”: a pergunta é sempre individualizada. Não se associam os políticos aos partidos. Porque uma peculiaridade brasileira foi a inflação partidária com as legendas de aluguel. Uma “jabuticaba” em estilo bem “macunaíma”: o vale tudo despudorado. A forma partido está, portanto, compreensivelmente, satanizada. Como é muito difícil para o povo discernir o debate político-ideológico, o que prevalece é a relação de confiança pessoal, em diferentes versões mais ou menos “messiânicas”. O “carreirismo político” passou a ser quase uma regra. Essa crise, aliás, atinge também os partidos de esquerda na forma, por exemplo, de mandatos “infinitos”, por décadas.
    Para uma maioria dos trabalhadores e da juventude, mesmo com a elevação da escolaridade dos últimos trinta anos, o maior problema do Brasil é, essencialmente, a corrupção dos políticos.

    É verdade que os graus de corrupção são muito altos, no mundo inteiro, mas, especialmente, nababescos no Brasil, Isso se explica porque a maioria dos políticos profissionais que representam a classe dominante, em nosso país, não têm origem social burguesa. Embora tenham salários muito altos e outras mordomias, não é por essa via que mudam de classe. Deputados não precisam se inserir na classe média alta: já estão nela. O grande salto é conseguir um entesouramento que permita viver de renda. Mas estes 1% que podem viver de renda são invisíveis aos olhos das massas. Para a grande maioria do povo a classe média alta e a burguesia são uma classe só: são os ricos. Ou seja, o biombo da classe média alta esconde e protege os realmente ricos, que são aqueles que exercem o poder. 
    Os profissionais da política precisam, portanto, construir patrimônio o mais rápido possível, para ganhar alguma independência e, sobretudo, segurança. Daí vem a roubalheira.

    Mas, esse não é o nosso maior problema, porque não é a causa, é o sintoma. Teremos que repetir mil vezes: não é a corrupção, é a desigualdade social, a exploração de quem vive do trabalho. Dizê-lo com todas as letras produz um choque no senso comum e exige uma longa explicação.

    A burguesia brasileira sempre teve problemas com sua representação política. O maior deles tem sido, depois do fim da ditadura, a especialização necessária que impõe a a combinação de duas habilidades que não caminham juntas. A primeira é a capacidade de ganhar votos e ser, eleitoralmente, viável, em um país em que a construção de partidos nacionais com um programa e visão de mundo comum é complicadíssima. A segunda é que essas lideranças tenham capacidade de gestão do Estado. Só muito raramente estas duas qualidades se reúnem na mesma pessoa.

    A profissionalização da política evoluiu de forma muito diferente, dependendo das distintas tradições político-culturais de cada país. Em alguns, é estimulada a militância política entre os jovens representantes das classes burguesas, como nos EUA e no Uruguai, por exemplo. Em outros, os “capos” políticos são profissionais quase técnicos, altamente, especializados nos processos eleitorais e na representação parlamentar, mas sem herança burguesa (como na Inglaterra). Quase sempre, no entanto, predomina um modelo misto: burgueses de origem e quadros técnicos.

    A burocracia do Estado é, também, quase universalmente, uma especialização de carreira, muito bem remunerada (dentro dos limites de um salário de função pública), mas treinada para exercer as funções técnicas seja qual for o partido de turno. O calcanhar de Aquiles da moderna “partidocracia” burguesa é a irrefreável corrupção. 
    De Norte a Sul, passou a ser um tema obrigatório e insolúvel.

    A forma partido, uma “invenção” do XIX, conheceu o seu apogeu histórico no século XX. São um canal para traduzir as pressões sociais: como se sabe, não há outra forma de traduzir interesses, senão formulando um programa. Um programa pode ser parcial, e atender a demandas parciais (e pode se expressar através de sindicatos, movimentos, grupos de ação ou iniciativa, ONG’s, etc…), ou pode ser um programa para toda a sociedade, visando a luta pelo poder. Nesse caso, a forma de organização mais eficiente, embora não seja a única, são os partidos. Mas ela hoje vive uma crise, sem precedentes, em quase todos os países: fraudes políticas abjetas (sendo a mais comum, a eleição com um programa, que depois se abandona, solenemente); corrupção crônica (enriquecimento ilícito, financiamentos eleitorais nebulosos, favorecimento empresarial); aventuras pessoais (busca da imunidade parlamentar para encobrir atividades ilegais, acesso ao poder para intermediações empresariais). O fenômeno da crise dos partidos é internacional, e atinge, em diferentes proporções, a representação política de todas as classes.

    1 GORENDER, Jacob, Marxismo sem utopia, São Paulo, Ática,1999, p.46

  • Preparar a Greve Geral pela base

    Por André Freire, Colunista do Esquerda Online

    Um  Novo Momento

     Na próxima segunda-feira, dia 27 de março, as centrais sindicais voltam a se reunir. Na pauta, a possibilidade da marcação de um dia de Greve Geral, em abril.

    Motivos não faltam: aprovação do congelamento dos investimentos sociais por 20 anos e, nessa semana, mais um golpe contra o povo trabalhador, com a aprovação de um projeto de lei de 1998 que amplia a terceirização do trabalho para as atividades fins das empresas e o prolongamento dos contratos temporários. E, a tudo isso, se soma as propostas de reformas reacionárias da previdência e da legislação trabalhista.

    Caso todos esses ataques sejam consumados, vamos ter, na prática, a destruição das poucas conquistas consolidadas na Constituição de 1988. Sem sequer haver um processo democrático de revisão constitucional.

    Felizmente, menos de um ano depois do golpe parlamentar do Impeachment, a classe trabalhadora e o conjunto dos explorados e oprimidos já demonstraram que não aceitarão calados a esta situação absurda.

    A realização das maiores manifestações do dia internacional de luta das mulheres das últimas décadas e o dia nacional de lutas e paralisações, em 15 de março, muda o cenário, deixando evidente que haverá um grande movimento de resistência contra os ataques do governo ilegítimo de Temer.

    Este é o fato novo da conjuntura. Independente de avaliações distintas sobre a real correlação de forças entre as classes em nosso país, todos e todas devem concordar que a militância da esquerda socialista deve dedicar a maior parte de suas forças para que este movimento seja o mais forte e amplo possível. Ainda mais se tivermos a marcação de um dia de Greve Geral.

     Preparar a Greve Geral pela base

     Há muitos anos não existe uma verdadeira Greve Geral em nosso país.

    A década de 1990 foi marcada pelo auge do neoliberalismo no Brasil, durante os dois governos tucanos de FHC. Foi um período de forte ofensiva das grandes empresas e seus governos, e de defensiva da nossa classe.

    Depois, a partir de 2003, vieram os sucessivos governos do PT (Lula e Dilma), que foram marcados pela aliança com grandes empresários e bancos e por um processo de cooptação da maioria das direções sindicais, especialmente da CUT, na prática desmobilizando os movimentos da classe trabalhadora.

    A manobra reacionária do Impeachment, a intensificação do ajuste econômico, das reformas reacionárias e da retirada de direitos provoca uma alteração importante nos movimentos sindicais e populares.

    A maioria das direções destes movimentos, que antes apoiavam os governos petistas de aliança com os grandes empresários, agora estão na oposição. Em geral, estão a favor de mobilizar contra o governo, mesmo que queiram sempre impor limites ao desenvolvimento dos movimentos independentes dos trabalhadores.

    A esquerda socialista deve saber identificar com precisão esta nova situação por que passa nosso movimento de resistência. Adotando uma política ousada de preparação de nossas lutas e da possível Greve Geral. A partir dos locais de trabalho, estudo e moradia, construindo comandos de mobilização pela base.

    Para que uma Greve Geral aconteça em abril, com toda a força possível, será necessário prepará-la, com antecedência, envolvendo o maior número possível de ativistas na sua organização. Todos e todas devem começar por organizar o seu próprio local de trabalho e estudo para paralisar no próximo dia unificado de luta. Para isso, é importante organizar um comitê de base em nossos locais.

    Devemos procurar, em cada cidade, as centrais sindicais e os sindicatos e movimentos mais combativos para ampliar e coordenar estes comitês de base. Levando sua organização para as mais distintas regiões e bairros da nossa cidade.

    Nos dias que antecederem a paralisação nacional, estes comitês devem organizar agitações com panfletagens para informar a maioria da população de nosso movimento, ganhando o povo trabalhador para a necessidade de parar suas atividades neste dia histórico. E, para acumular força, temos que realizar um forte dia de luta em 31 de março. Mãos à obra!

     

  • Reflexões para uma análise marxista da correlação de forças

    Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    Isaac Deutscher no terceiro volume da biografia de Leon Trotsky, O profeta banido, sobre a “teoria da ofensiva”, fundamentada na análise da “crise final” – depois do cataclismo de 1929 – no início dos anos trinta do século XX, em oposição à tática da frente única:

    “Nem o febril ultra-radicalismo do “terceiro período” testemunha qualquer internacionalismo revolucionário novo de Moscou. O ultra-radicalismo obstruía o crescimento do comunismo no mundo, tal como o oportunismo antigo, e encerrava em si, a mesma cínica indiferença burocrática aos interesses internacionais da classe operaria.

    Agora, como antes, Trotski defendeu a opinião de que toda a época que se iniciara com a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa era de declínio do capitalismo, cujas bases mesmas estavam abaladas. Isso, porém, não significava que o edifício estava na iminência de desabar com estrondo.

    A decadência de um sistema social não é um processo isolado de colapso econômico, ou uma sucessão ininterrupta de situações revolucionárias. Nenhuma depressão era, portanto, a priori, a “derradeira e final”. Mesmo em sua decadência, o capitalismo teria altos e baixos (embora os altos se tornassem cada vez mais breves e incertos, e os baixos cada vez mais baixos e ruinosos).

    O ciclo econômico, por mais que se tivesse modificado desde a época de Marx, ainda seguia seu curso habitual, não só de surtos de prosperidade para a depressão, mas também desta para o primeiro. Era, portanto, absurdo anunciar que a burguesia chegara “objetivamente” ao seu impasse final: não havia impasse do qual uma classe dominante não tentasse sair, e seu êxito dependia não tanto de fatores puramente econômicos, mas muito mais do equilíbrio das forças políticas, que poderia pender para um ou outro lado, segundo a qualidade da liderança comunista.

    Prever uma “maré ininterruptamente montante da revolução”, descobrir “elementos de guerra civil” em quase todas as greves turbulentas, e proclamar que era chegado o momento de passar da defensiva à ofensiva, e à insurreição armada, não era proporcionar liderança, mas sim cortejar a derrota.”DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1984, p.50.

    A questão da articulação dos fatores objetivos e subjetivos na análise da relação social de forças entre as classes é mais complicada do que pode parecer. Uma situação revolucionária exige, evidentemente, condições objetivas. Mas elas podem estar maduras há décadas, podem até ter apodrecido, de tão maduras, sem que uma situação revolucionária tenha se aberto.

    A passagem de Deutscher, comentando Trotsky, ajuda a esclarecer esta questão:

    “Detendo-se na ligação entre os fatores “constante” e “variável” demonstra que a revolução não se explica simplesmente pelo fato de estarem as instituições sociais e políticas, há longo tempo, em decadência e prontas a serem derrubadas, mas pela circunstancia de que muitos milhões de pessoas perceberam tal coisa pela primeira vez.

    Na estrutura social, a revolução já estava madura bem antes de 1917; na mente das massas, ela só amadureceu naquele ano. Assim, paradoxalmente, a causa mais profunda da revolução está não na mobilidade da mente dos homens, mas em seu conservantismo inato.

    Os homens só se levantam em massa quando percebem, subitamente, como estão mentalmente atrasados em relação aos tempos e desejam reparar esse atraso imediatamente é a lição que nos mostra a “História da Revolução Russa”: as grandes convulsões na sociedade seguem-se, automaticamente, da decadência de uma velha ordem; gerações podem viver em uma ordem decadente, sem terem consciência disso.

    Mas quando, sob o impacto de alguma catástrofe como a guerra ou o colapso econômico, adquirem consciência disso, há uma explosão gigantesca de desespero, esperança e atividades.” DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de janeiro, Civilização Brasileira, 1984, p.241.

    Um dos aspectos que preocupava Trotsky, era dissociar o conceito de crise revolucionária, das velhas polêmicas sobre a inexorabilidade da “crise final”, e a preocupação em educar as novas gerações marxistas, em torno da experiência russa de que a crise é um processo político e, portanto, guarda sempre uma relativa autonomia, até temporal, em relação aos processos econômicos, mesmo quando esses assumem a forma de um cataclismo: a crise econômica pode ser gravíssima, e no entanto, pode não se abrir uma situação revolucionária.

    A crise econômica seria a condição objetiva para a crise, mas não suficiente. O outro alerta, tão ou mais importante que o primeiro, recorda que a análise da relação de forças deve considerar qual é a situação de todas as classes da sociedade. Análises obreiristas, sejam por euforia ou por desalento, não permitem uma compreensão de qual seria a situação. No pequeno texto Que é uma situação revolucionária? Trotsky escreve:

    “Para analisar uma situação (…) é necessário distinguir entre as condições econômicas e sociais de uma situação revolucionária e a situação revolucionária mesmo. As condições econômicas e sociais de uma situação revolucionária se dão, falando em geral, quando as forças produtivas de um país estão em decadência, quando diminui sistematicamente o peso do país capitalista no mercado mundial e os rendimentos das classes também se reduzem sistematicamente;quando o desemprego já não é simplesmente a conseqüência de uma flutuação conjuntural, mas um mal social permanente com tendência a aumentar(…). Mas não podemos esquecer que a situação revolucionária a definimos politicamente não só sociologicamente, e aqui entra o fator subjetivo. E este não consiste somente no problema do partido do proletariado, mas é uma questão de consciência de todas as classes.” TROTSKY, Leon, “Que é uma situação revolucionária?” in Escritos, Tomo II, volume 2, p. 513 (de 14/11/1931), Bogotá, Pluma, 1976.

    O problema do desencontro e descompasso, entre o amadurecimento desproporcional dos fatores objetivos e subjetivos, está entre as maiores dificuldades de compreensão do que seria uma situação revolucionária ou mesmo pré-revolucionária. Por razões óbvias, as idéias revolucionárias só podem se transformar em força material, isto é, se fundir com a vontade de milhões, no calor de uma situação revolucionária.

    Em situações defensivas ou reacionárias, as massas não só não acreditam em propostas revolucionárias, como na maioria das vezes, desconfiam até das propostas de luta mais moderadas e das alternativas mais reformistas, tão baixo é o nível de confiança que depositam em suas próprias forças. A rigor, idéias radicais só podem conquistar a influência sobre a maioria, quando se abre uma crise revolucionária. Mas as crises revolucionárias são raras.

    A diáspora dos revolucionários marxistas em relação à classe que pretendem representar é inexorável, portanto, enquanto a sociedade não for convulsionada por lutas de classes agudas. Como se pode facilmente concluir, esse afastamento teve imensos custos políticos para as correntes revolucionárias. Traduziu-se em inúmeros erros “impressionistas” de apreciação sobre as possibilidades, realmente, existentes.

    Submeteu sempre as correntes revolucionárias a terríveis pressões que se expressaram ou no adormecimento da vigilância, em um afrouxar da tensão necessária para uma grande espera, quando se subestimou a realidade, ou numa embriaguez em relação às possibilidades reais da situação política, uma espécie de “doping” eufórico que super-dimensiona a urgência dos combates, em um outro extremo.

    Nada pode ser mais cruel para uma tendência revolucionária do que não reconhecer uma situação revolucionária quando ela se desenvolve diante dos seus olhos. Mas o erro inverso pode ser ainda mais fatal: o “ufanismo” diante de uma situação ainda imatura prepara o terreno para grandes desilusões e desmoralizações.

  • A Santa do Capital: teatro, realidade e os matadouros

    Por: Baiano, metalúrgico de Contagem, MG

    Há uns meses, quando voltava da aula de teatro, encontrei no metrô o meu amigo escritor e ator Jessé Duarte. Colocamos o papo em dia e ele me falou que estava voltando do ensaio da peça A Santa do Capital¹, que é uma livre adaptação do texto original de A Santa Joana dos Matadouros, de Bertold Brecht.

    A história gira em torno de matadouros (frigoríficos) que são fechados por causa de uma crise econômica e dos acidentes que mutilam e vitimam vários trabalhadores. Que por um lado retrata a dicotomia entre os interesses dos empresários e a situação dos trabalhadores e suas famílias que sofrem na pele as consequências do desemprego, mutilações, doenças físicas, doenças psicológicas e mortes que os levam à miséria, fome e sofrimento. Mostra como o capital se utiliza de várias facetas para se beneficiar, até mesmo da fé inspirada pela Senhora (Joana) que inicialmente faz parte de um grupo que faz pregações aos trabalhadores e depois se transforma em símbolo da luta contra a exploração e opressão capitalista feita pelas empresas aos trabalhadores e seus familiares.

    Por gostar muito do autor, dos temas que ele aborda e já ter participado de uma peça adaptada dele, fiquei bastante interessado e curioso para assistir à peça.

    A peça entrou em cartaz em fevereiro, mas só consegui assistir no sábado (18) passado, num momento mais que oportuno devido à “Operação Carne Fraca” deflagrada pela polícia federal,um dia antes que investigou esquemas de corrupção envolvendo vários frigoríficos (“Matadouros”).

    A montagem do espetáculo teatral é da Companhia Cóccix Teatral e convidados e foi fruto de debates teóricos, treinamentos e experimentações de diversas técnicas teatrais, com a intenção de fugir dos padrões e moldes de criação, utilizando também vários espaços e ocupações da cidade de Belo Horizonte. Está sendo realizada com recursos do Fundo Municipal de Cultural, através da Lei de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.

    A montagem adaptada
    Desde o início somos surpreendidos e fica nítido o desprendimento dos padrões de espaços teatrais que estamos acostumados. São utilizados vários espaços diferentes, adaptados para a apresentação de forma simples e criativa. Essa apresentação que assisti foi encenada em uma ocupação urbana chamada Espaço Comum Luiz Estrela, que não dispõe de uma estrutura muito adequada para um espetáculo teatral, apresentando várias dificuldades técnicas para dicção, iluminação, etc, mas, por outro lado, nos aproxima de algo real e eles conseguiram encontrar uma forma de superar os obstáculos técnicos e manter um nível técnico muito bom.

    Existe uma interação muito grande com o público, que nos faz sentir como parte da apresentação. A interação se dá de diversas formas, seja com conversas, falas ou no espaço físico, como parte do cenário e imagem das cenas, que nos leva a viver e sentir vários sentimentos e conflitos dos personagens.

    Nos deparamos com falas que expressam textos cultos e mais antigos, assim como populares mais atualizados e com traços regionais. Se utiliza de diversas linguagens, canções, sons, rituais, danças, falas que expressam conversas, versos e o chamado distanciamento onde os atores falam diretamente para o público.
    É nítido pelo tema e pela abordagem que existe uma predominância de cenas sérias, fortes, que trazem tristeza, revolta e reflexão, mas em diversos momentos nos deparamos com situações e falas tragicômicas que nos arrancam boas risadas, sem exageros e sem fugir da seriedade das situações retratadas, mas como uma forma de envolver ainda mais o público no espetáculo.

    A força e a realidade da montagem se alicerça em discutir questões sociais, políticas e econômicas que trazem à tona a luta de classes, a exploração e a opressão vivida pelo povo que depende do trabalho para sobreviver. Retrata a nossa vida e os dramas que vivemos no dia-dia do sistema capitalista que na busca por lucro dilacera a vida da maioria dos seres humanos, desde quando a peça foi criada até os tempos atuais onde a sua adaptação nos permite apreciá-la. É um choque de realidade e inspiração de luta, que nos faz indignar e nos alimenta de força e motivos para transformarmos a realidade nefasta que vivemos.

    A atualidade do tema abordado
    A peça original foi escrita por Brecht entre 1929 e 1931 durante a crise econômica há quase cem anos atrás, mas poderia ser tranquilamente confundida e encaixada com a realidade atual. A busca por lucros cada vez maiores e a todo custo por parte das empresas só tem aumentado, assim como, as consequências maléficas e barbaridades causadas pela ganância.

    Por um lado, vemos os grandes “matadouros” praticando corrupção, venda de produtos com problemas sanitários, fora da validade, misturados com produtos cancerígenos e com papelão sem nenhuma preocupação com os consumidores. Por outro, uma produção em série que expõe os trabalhadores a exposição constante de variados instrumentos cortantes; realização de movimentos repetitivos que geraram graves lesões e doenças; pressão psicológica para dar conta do ritmo de produção; jornadas extensivas e até mesmo aos sábados; ambiente asfixiante, insalubre e muito frio.

    Os problemas de saúde batem recorde nos “matadouros” brasileiros, sejam psicológicos ou principalmente físicos. A incidência de LER – Lesão por Esforço Repetitivo devido aos movimentos repetitivos é muito grande. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que entre 2011 e 2014 aconteceram 5 acidentes por dia nos setores de abate de gado e de fabricação de produtos de carne2. Muitos dos acidentes levam à mutilação e até mesmo à morte de muitos trabalhadores.

    Ocorrem no Brasil mais de 700 mil acidentes de trabalho por ano e a cada dia aproximadamente 55 empregados deixam definitivamente o mundo do trabalho, por morte ou incapacidade permanente³. Esses dados mostram que a lógica exploradora, opressora, gananciosa e destruidora é a base do sistema capitalista e não são só dos “matadouros”.

    Como forma de ajudar a combater e tentar mudar essa situação o dia 28 de abril é o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Acidente de Trabalho³. Uma boa forma de lembrar das vítimas e de refletir sobre esses problemas é assistindo à peça nas próximas apresentações também no mês de abril.

    A montagem adaptada de A Senhora do Capital aparece em um momento importante e nos faz refletir sobre os problemas da atualidade através de um belíssimo espetáculo teatral que nos emociona, nos estimula e dá força para lutar para transformarmos essa realidade nefasta que assombra, destrói e leva à miséria milhares de seres humanos.

    SINOPSE DA OBRA

    Espetáculo teatral de ocupação urbana, “A Santa do Capital” é uma livre adaptação do texto “A Santa Joana dos Matadouros”, de Bertolt Brecht. As cenas, que revelam a rua, buscam a investigação dos mascaramentos e totens humanos, metamorfoseados, transfigurados, nos elementos da carne, da fome, da fé, do Capital. Aquele que se sobrepuja à realidade dos miseráveis. Aquele que permite-nos pensar o papel da Santa em meio ao caos da especulação financeira de todos os tempos. Quantas vozes dialéticas possíveis esta Santa pode ressaltar? Qual Santa nos alimenta o estômago? A serviço de quem ela propaga sua, nossa voz?

    FICHA TÉCNICA

    Direção: Lenine Martins
    Dramaturgia: Rogério Coelho
    Elenco: Sinara Teles, Jessé Duarte, Marcelo Aléssio, Rafael Bottaro e Rogério Gomes
    Estudo da Conjuntura Política: Júlia Pereira
    Direção Musical: Sérgio Andrade
    Workshop Sonoro: Diego Poça
    Cenário e Figurino: Marney Heittman
    Artista Plástica: Fernanda Melo
    Produção Executiva: Sinara Teles e Rogério Gomes ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Vânia Silvério Contrarregragem: Davi Cesário
    Iluminação: José Reis
    Fotografia e Vídeo: NAUM Audiovisual
    Artista Gráfico: Fabrício Trindade
    Assessoria de Imprensa: A Dupla Informação
    Realização: Cóccix Cia Teatral.

    Agenda:

    25 de março (sábado) – Minas Caixa – BH, às 20H00.
    31 de março (sexta) – Museu de Arte da Pampulha – BH, às 20H00.
    02 de abril (domingo) – Arquivo Público Mineiro – BH, às 20H00.
    13 de maio (sábado) – Usina de Cultura – BH, às 20H00.

    Notas:

    1- Cóccix Companhia Teatral
    2- Friboi: a campeã nacional em acidentes 
    3-Por um abril em defesa da saúde e segurança do trabalhador

  • O que é ser marxista no século XXI?

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Ontem um jovem me perguntou se eu era luxemburguista, e eu respondi que sim. Ele ficou surpreso. Eu tentei explicar que, em minha modesta opinião, ser marxista no século XXI, significa ser leninista, trotskista, luxemburguista, gramsciano, e não considero contraditório reivindicar todos os líderes da esquerda da II Internacional.

    É verdade que minha identidade principal é o trotskismo e que tenho evitado, em geral, o termo luxemburguismo, porque já foi usado de forma abusiva, até pejorativa, na verdade, embora ele mereça ser utilizado. Foi Stalin quem encabeçou uma campanha de difamação de Rosa Luxemburgo, em um artigo sinistro, “Problemas da História do Bolchevismo”, em que reescrevia a história de acordo às suas conveniências, e no qual decretou, contrariando as mais incontroversas evidências, que Rosa seria responsável pelo imprescritível pecado teórico da revolução permanente e que Trotsky, na verdade, teria plagiado Luxemburgo.

    Isaac Deutscher, em O Profeta Armado, o primeiro volume de sua trilogia biográfica de Trotsky, reivindica, na condição de membro fundador do PC polonês, organização herdeira, também, da influência de Rosa e de Leo Jogiches, que o seu partido teria nascido tendo como programa a concepção sobre as tendências históricas dos processos revolucionário expressas na teoria da revolução permanente.

    De fato, podemos encontrar em Rosa uma identificação do papel do proletariado na revolução democrática contra o Czarismo em Greve de Massas, Partido e Sindicatos. Mas, Rosa resumiu as suas análises a estabelecer os vínculos entre as lições da revolução russa de 1905, e as lutas na Alemanha, tomando a influência dos partidos marxistas na Rússia como uma refração dialética do peso da Internacional no Ocidente, que por sua vez seria uma refração do grau de maturidade da luta de classes, na própria Alemanha. Um exemplo irretocável de análise dialética, em que o subjetivo se transforma em objetivo, em que o atrasado ultrapassa o avançado, e vice versa. Internacionalista até à medula, portanto.

    O estalinismo no seu afã de destilar uma doutrina oficial “quimicamente pura”, uma vulgarização, essencialmente falsificada, do pensamento teórico-político de Lênin, o famoso “marxismo-leninismo”, precisou inventar as mais mirabolantes falsificações históricas. Entre elas surgiu a duradoura versão dos erros de Rosa, que segunda esta tradição, teria sido do princípio até o fim de sua vida política, sectária diante da questão nacional, objetivista e catastrofista em relação à natureza da época e do imperialismo e, portanto, espontaneísta em relação ao protagonismo revolucionário dos trabalhadores, e centrista nos problemas de organização, em suma, com fortes tendências ao oportunismo.

    Toda fraude intelectual precisa se apoiar em algum elemento de verdade para ser minimamente plausível. Assim não foi difícil descobrir que Rosa manteve durante anos, e em torno aos mais variados temas discussões acesas com Lênin: e essa seria a prova definitiva e categórica dos desvios do luxemburguismo. A autoridade de Lênin foi assim manipulada ao serviço dos amálgamas mais aberrantes, e em defesa do monolitismo como virtude. Assim como Trotsky, na verdade Rosa manteve polêmicas com quase todos os marxistas mais influentes do seu tempo, umas de maior e outras de menor importância. Esse aliás era o saudável procedimento dos revolucionários que foram seus contemporâneos sem excepção: submeter todas as idéias ao severo exame da crítica.

    A esquerda da Segunda Internacional reuniu por muitos anos, na forma de um movimento que depois esteve, no fundamental, comprometido com a fundação da Terceira, um punhado notável de marxistas das mais diferentes nacionalidades, que debatiam de forma aberta e pública os principais problemas que afetavam os destinos do movimento operário do seu tempo: Racovsky era romeno, Mehring era alemão, Sneevliet era holandês, Gramsci era italiano, Rosa e Radek judeus-poloneses, Joghiches era lituano, Lênin russo, Trotsky judeu-ucraniano: a lista é ao mesmo tempo longa e impressionante, não só pelo talento extraordinário de uma geração excepcional, mas pela pluralidade de experiências nacionais diferentes, enfoques teórico-metodológicos diversos, e pelo impressionante volume de trabalhos, de uma produtividade incrível.

    Todos discutiram seriamente uns com os outros e os alinhamentos variaram permanentemente dependendo dos temas em pauta. Tudo isso está amplamente documentado à exaustão. Mas é mais simples implodir um edifício de uma vez só do que demolir andar por andar. A desqualificação da obra de Rosa assumiu assim a forma de uma campanha contra o Luxemburguismo. As deformações simplificadoras deixaram uma influência perene. A recuperação do pensamento de Rosa está ainda por ser feito em grande medida, e nesse sentido, poderá ser reconhecido o luxemburguismo, como uma sensibilidade, entre outras, de uma corrente política heterogênea , o marxismo revolucionário do início do século.

  • Qual o futuro da Esquerda Brasileira?

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Observo que milhares de ativistas honestos da esquerda se emocionaram com a divulgação das imagens apoteóticas de Lula celebrando a transposição de águas do São Francisco. Esta comoção é proporcional à repulsa pelo governo Temer. Mas é puro pensamento mágico. A perspectiva ameaçadora de votações no Congresso Nacional, em ritmo vertiginoso, da nova lei liberando as terceirizações, a Reforma da Previdência e Trabalhista, acentua o desejo de que Lula possa ser candidato à presidência em 2018.

    O wishful thinking é uma armadilha da inteligência. Esta expressão idiomática da língua inglesa pode ser traduzida para o português, livremente, como pensamento ilusório ou desejoso. É um dos vieses da mente humana. Ninguém está imune, é bom saber. Vieses cognitivos são tendências do raciocínio ou atalhos mentais. Conduzem ao autoengano. Vieses são ruídos mentais, ou distorções provocadas pelo desejo. Aspirações, vontades, pretensões, enfim, preferências são impulsos muito poderosos e podem nos dominar. Também pode ser compreendido como a vontade de acreditar. Resulta da necessidade de conciliar o conflito entre a realidade e um desejo. Incontáveis vezes a força do desejo é tão grande que dispensa o confronto com a realidade. Este viés está na raiz das ilusões. Deixamo-nos seduzir pela vontade, e ficamos vulneráveis a uma percepção imaginária do mundo. Nossas motivações ou preferências nos cegam diante de toda informação que contraria nossos anseios.

    Acontece que é mais razoável pensar que a derrota dos planos de Temer passa pela continuidade da mobilização, iniciada dia 15 de Março, e que pode ter como próximo passo um dia nacional de greve em Abril, do que a perspectiva dificílima de uma vitória eleitoral em 2018. Mas o pensamento mágico prefere os atalhos do desejo.

    Porque, primeiro, é improvável que Lula possa ser candidato. Deve ser condenado em Curitiba nos próximos meses por Sergio Moro. E, dificilmente, terá melhor sorte no recurso ao Tribunal Federal na segunda instância, embora o desenlace deste julgamento seja mais incerto. Sendo candidato é arriscadíssima a previsão de que possa vencer, em função da alta taxa de rejeição. Mas, mesmo que vença, é duvidoso que tenha aprendido algo da tragédia que culminou com o impeachment de Dilma Rousseff. Se retirou conclusões, elas permanecem obscuras. Porque o discurso na Paulista da semana passada foi, de novo, ausente de qualquer balanço autocrítico.

    O futuro da esquerda brasileira depende de uma reorganização para além do lulismo. Ela deverá ser o processo da construção de novos instrumentos coletivos com um novo programa. Estas duas dimensões são indivisíveis.

     

    A esquerda socialista precisa apresentar uma alternativa para o país

  • Uma virada em favor da história

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior, Colunista do Esquerda Online

    Artigo publicado originalmente no Jornal A Tarde, em Salvador, no dia 17/03/2017

    Há dois anos, milhões de pessoas saíram às ruas do Brasil gritando contra a corrupção e pedindo o impeachment de Dilma Rousseff. Era a primeira vez desde as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, ocorridas em 1964, que as direitas davam o ar da graça no asfalto quente. Em manifestações chamadas pelos movimentos das novas direitas, como o Movimento Brasil Livre, o Revoltados Online, o Vem pra Rua e o S.O.S Forças Armadas, o que se viu foram cenas inimagináveis para o país que entrava no século XXI com déficits de democracia do XIX: alguns pediam o retorno dos militares, outros dirigiam impropérios e frases misóginas contra Dilma, uns faziam self com PMs e outros aplaudiam conhecidos torturadores. O festival de horrores transmitido ao vivo em rede nacional por veículos de televisão que apoiaram a ditadura, abriu uma ofensiva das forças conservadoras e reacionárias que culminou no golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016.

    Menos de um ano depois da posse provisória do governo golpista, os trabalhadores começaram a perceber que o golpe desferido não foi tanto dirigido ao PT, mas foi, sobretudo, contra eles próprios. A proposta de Reforma da Previdência (PEC 287) que tramita no Congresso e as incursões sobre a legislação trabalhista, começaram a ser, enfim, entendidas naquilo que elas efetivamente são: um duro ataque aos direitos dos trabalhadores como nunca se tinha visto até o momento no país.

    Em vista a disso, nem chega a ser curioso que a maré comece a virar justo dois anos depois da data em que as direitas saíram às ruas e iniciaram o retrocesso e também na semana em que a lista de envolvidos na delação premiada da Odebrecht atinja o coração do governo e do seu principal aliado, o PSDB. Ou seja, por se tratar de um mal endêmico que atinge a todos os partidos, o combate a corrupção como principal bandeira das direitas tradicionalmente corruptas (vide as acusações que pesam sobre o líder do MBL que responde a 60 processos na Justiça), não pode servir de pretexto para que um único brasileiro saia às ruas.

    Por conta disso, milhares de pessoas foram às ruas de todo o país na última quinta-feira, dia nacional de greves e paralisações convocadas pelas centrais sindicais e movimentos sociais contra as reformas da previdência e trabalhista. Diferente da manifestação de 2015, ocorrida num domingo, os trabalhadores mostraram que sua força principal consiste em parar a produção, o transporte, o comércio, as escolas e universidades, e ainda caminharem ocupando o espaço que lhes pertence. O sinal de ontem foi positivo para as forças progressistas do ponto de vista quantitativo. Todavia, foi sob o aspecto qualitativo a principal mudança, pois há tempos que não se via tanta gente nova ocupando as ruas ombreando com as forças sociais e políticas que caminham a favor da história.

     

  • Encontro com um velho amigo petista…

    Por André Freire, Colunista do Esquerda Online

    No inicio do ano voltei a morar na minha cidade natal, o Rio de Janeiro. Esse retorno tem me propiciado reencontros muito legais, com velhos amigos. Nessa semana, na manifestação unitária do dia nacional de lutas e paralisações, tive um desses encontros, com um amigo de muitos anos, que segue defendendo o PT e Lula.

    Nossa conversa, sempre amistosa, foi muito interessante. Começamos por um grande acordo, nossa raiva do governo ilegítimo de Temer, de quanto são absurdas as suas medidas reacionárias como a reformas da previdência e trabalhista, que será necessária uma ampla unidade para lutarmos para derrotar todos estes ataques, entre outros acordos importantes para o momento em que vivemos em nosso país.

    Nossos acordos, que permitiram estarmos juntos naquela importante manifestação, esbarraram em uma diferença importante entre nós, que é parte dos debates que acontecem entre os que lutam contra o governo golpista: qual é a alternativa política de oposição temos que construir?

    Meu amigo tomou a ofensiva na discussão. Afirmou que os governos do PT, especialmente os de Lula, melhoraram a vida do povo, com medidas concretas, as que foram possíveis na correlação de forças que exista em nosso país. Que justamente por isso, os setores mais conservadores deram o golpe e tiraram Dilma do governo.

    Meu amigo segue: que a mesma unidade que foi fundamental para construir aquela linda manifestação, deveria se repetir na construção de uma ampla unidade da esquerda para as eleições de 2018. Que, evidentemente, essa unidade deveria ser encabeçada novamente por Lula. Para ele, essa seria a única chance de derrotarmos a direita nas eleições.

    Ele é também é crítico aos 13 anos do governo do PT, defende que a possibilidade de um novo governo do Lula seria a chance de mudarem o rumo, corrigir os erros, limitar as alianças eleitorais somente a Ciro Gomes e aplicar um programa de mais enfrentamento contra o capital, principalmente com a TV Globo, etc… De fato, ele tinha fortes argumentos.

    Quero confessar, que em um primeiro momento, fiquei meio na defensiva. Afinal, sem dúvida nenhuma, a unidade é uma necessidade diante da onda de ataques dos patrões e seus governos sobre a classe trabalhadora, a juventude e o conjunto dos explorados e oprimidos.

    Mas, logo, me recuperei, e de forma calma e firme, eu acho, fui contrapor seus principais argumentos. Comecei dizendo que considerava muito positivo para os trabalhadores e para a esquerda se realmente Lula e o PT tivessem realmente dispostos a rever sua política de alianças e seu programa de governo.

    Que seria ótima uma frente de esquerda ampla, que colocasse na ordem do dia a unidade da classe trabalhadora, da juventude e da maioria do povo. Que nessa frente não caberia os grandes empresários, os políticos corruptos e reacionários dos partidos da velha direita. Que teríamos de apresentar como programa dessa alternativa as autênticas propostas que sempre foram defendidas pelos movimentos sociais e que, inclusive, foram as bases da fundação do PT e da CUT.

    Que deveríamos defender a suspensão e a auditoria da dívida, que defendêssemos acabar com as privatizações e a reestatização das empresas privatizadas, a redução da jornada de trabalho sem redução de salários, entre outras medidas.

    Meu amigo, embora um pouco surpreso, com uma cara que demonstrava me considerar um pouco “esquerdista”, acabou concordando comigo. Eu, me sentindo mais fortalecido, segui: afirmei que o PT teve 13 anos para avançar na aplicação desse programa, mas parou somente na adoção de medidas mínimas, que foram importantes, mas não mudaram para valer a vida do povo, e nem esteve disposto a sobretaxar os lucros astronômicos das grandes empresas e também as grandes fortunas.

    Queria seguir, dizendo que onde o PT está na administração de governos de estados importantes vem aplicando medidas muito semelhantes ao governo ilegítimo de Temer, como o congelamento de investimentos sociais e dos salários dos servidores; que mesmo depois do golpe parlamentar, o PT se coligou com o PMDB em centenas e centenas de cidades nas eleições municipais do ano passado, que na eleição dos presidentes das assembleias legislativas apoiou o PSDB (em SP) e PMDB (no RJ)… Ou seja, a política do PT segue a mesma.

    Mas, não pude continuar, pois meu amigo me interrompeu, dizendo que uma candidatura da extrema esquerda não teria chances de ganhar as eleições em 2018. Que até podia concordar comigo em muito do que eu falava, mas o fundamental era derrotar a direita nas próximas eleições.

    Eu retruquei, dizendo que o argumento das chances eleitorais não podia ser o principal, e que em muito esse discurso foi o que fez o PT começar seu curso de adaptação ao status quo, inclusive com muitos de seus dirigentes se envolvendo em escândalos de corrupção, como sempre fez a velha direita.

    Que as eleições passadas para a prefeitura do Rio de Janeiro demonstraram que é possível superar o PT pela esquerda, como foi feita pela bela campanha militante e mobilizadora de Marcelo Freixo.
    Bem, a conversa acabou sendo interrompida, pois a passeata já estava saindo, e ele precisa ir embora, e eu me somar à coluna da frente de esquerda e socialista, junto à militância do MAIS, da NOS e outras organizações socialistas que compõe este importante espaço.

    Trocamos nossos números de telefone, para seguir a conversa. Embora não tenhamos chegado a um acordo, considero essa conversa muito interessante, pois ela acaba sendo um pequeno retrato dos debates que muitos de nós teremos com vários ativistas no próximo período.

    Estou convicto, que a esquerda socialista deve se jogar com tudo na construção de uma nova alternativa, realmente independente. Nosso esforço deve ser concentrado na construção de uma Frente de Esquerda e Socialista, que na o PSOL, PSTU, PCB, organizações socialistas ainda sem legalidade e movimentos sociais combativos, como o MTST.

    Essa tarefa fundamental não será feita se aliando a Lula. Pois, a direção do PT mantém o seu programa rebaixado e a sua política de alianças com parte dos grandes empresários e os políticos e os partidos da velha direita.

    Mas, outra certeza que tenho, é que essa nova alternativa política da esquerda socialista deve ser construída em permanente diálogo com os trabalhadores e jovens que ainda acreditam em Lula. Temos que ser sempre muito pacientes neste diálogo, mas também muito firmes na necessidade de superarmos a experiência de conciliação de classes, defendidas até hoje pela direção do PT..