Os 10 anos da Ocupação da Fundação Santo André no ABC

Por Reinaldo Chagas e Gleice Barros do ABC, SP

13 de setembro de 2007. Esta data marcou a vida de vários jovens lutadores da região do ABC. No início deste fatídico dia, exatos dez anos atrás estávamos nos preparando para a assembleia que, à noite, decidiria pela ocupação da reitoria da Fundação Santo André. Mal sabíamos todos os desafios e aprendizados que viriam com esse processo.

No dia anterior, após reunião do Conselho Universitário, nós, que integrávamos o Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Honestino Guimarães”, fomos informados por um professor que o plano da reitoria, à época encabeçada por Odair Bermelho, pretendia impor ao ano letivo de 2008 um aumento de mensalidades escandaloso. Todos que viveram aquele momento lembram que alguns cursos sofreriam reajuste de 126%! O plano era claro e nem mesmo a reitoria queria disfarçar isso: inviabilizar os cursos menos lucrativos (Licenciaturas) e impor uma lógica elitizada para o centro universitário que vinha formando jovens trabalhadores há décadas.

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A resposta foi imediata. Convocamos uma assembleia para discutir com os estudantes o que fazer. A reação seguiu o exemplo da USP, Unicamp e PUC-SP que naquele mesmo ano tinham ocupado a reitoria e travados importantes lutas. A assembleia com cerca de 700 estudantes definiu  por seguir o debate na frente da reitoria. O que se seguiu foi um movimento irresistível e enorme: jovens lutadores, cheios de confiança e com brilho nos olhos se organizando para entrar na reitoria, efetivar a ocupação e definir os rumos da mobilização e do Centro Universitário.

Porém, a ocupação durou pouco. Após cerca de 2 horas, o reitor solicitou a ajuda de um amigo: ninguém menos que o comandante da Força Tática na região do ABC. Chamado prontamente atendido e um grupo de policiais militares, armados com todo seu odioso aparato de “Controle de Distúrbios Civis” invadiu a reitoria e nos retirou sob cacetadas distribuídas ao acaso, muito gás pimenta, balas de borracha e uma intimidação brutal.  

A manhã seguinte foi de muita indignação por conta da repressão violenta, muita preocupação com os próximos planos da reitoria e como seguir com o movimento… era necessária uma nova assembléia!  Organizada, convocada e em marcha a nova assembleia tomou não só a Faculdade de Filosofia, mas todo o campus em passeata. Sem medo de cometer exageros, eram milhares de estudantes revoltados, indignados com a truculência da polícia, preocupados com o aumento das mensalidades e, acima de tudo, dispostos a fazer daquilo apenas o início de algo superior: a palavra de ordem AMANHÃ VAI SER MAIOR! fechou a noite onde professores e estudantes aprovaram o início da greve. Foram 55 dias de paralisação.

Essas são situações em que palavras dificilmente vão conseguir expressar todo esse processo em sua complexidade e grandiosidade. Foram comandos de greve, aulas públicas, assembleias, reuniões, exposições de arte, festas, debates, acordos, desacordos, muito aprendizado e, principalmente, espírito de luta. O fim da greve trouxe a vitória de ter segurado o aumento das mensalidades, mas Bermelho seguia em seu posto. No processo, descobriu-se que o reitor roubava os cofres da FSA e ainda impôs uma dívida milionária à instituição que é motivo de sofrimento até hoje. As acusações se intensificam e, em maio de 2008 Odair Bermelho é derrubado!

Lutamos não só pela mensalidade, mas discutimos Educação de forma mais ampla, a quem e como devia servir, debatíamos ali concepções de mundo e sociedade, dialogando com outras universidades e movimentos. É inegável que este processo forjou uma geração de lutadoras e lutadores. São professores, trabalhadores industriais, ativistas dos movimentos sociais, artistas independentes, coletivos de luta contra as opressões, tod@s formados na FSA ou influenciados pela luta que travamos juntos.

No próximo sábado (16) acontecerá uma grande festa para comemorar essa luta: o despertar para luta de muitos e celebrar a certeza da confiança no movimento coletivo.

Atualmente, a FSA ainda agoniza: a dívida não diminuiu, seu passado público e gratuito é mera lembrança, os processos de cobrança aos inadimplentes se tornaram infernais, os cursos de Licenciatura estão cada vez mais sucateados, esvaziados e caros, docentes e funcionários sofrem com atrasos de salários… Esperamos que trazer a tona os vídeos produzidos no calor dos acontecimentos, o debate sobre histórico e perspectiva do Movimento Estudantil e, não menos importante, a Festa, renove o ânimo, inspire e motive os que estão hoje na FSA, herdeiros daquela luta e, quem sabe, protagonistas de novas e superiores batalhas!

 

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