O impasse político brasileiro

Editorial 6 de setembro

Um paradoxo marcou o primeiro semestre de 2017. O Governo Temer se enfraqueceu muitíssimo, enfrentou uma forte onda de lutas em março e abril.  A partir dos escândalos da JBS, foi bombardeado pela operação Lava Jato e pela Rede Globo. Apesar disso, manteve-se no governo, ganhou a votação no Congresso pelo arquivamento da denúncia de Janot e reforçou suas relações com a burguesia aprovando a Reforma Trabalhista e uma avalanche de privatizações.

O novo áudio entregue, supostamente por engano, pela defesa da JBS, e que pode comprometer a delação dos irmãos Batista, amplia a desmoralização política da denúncia, enfraquece Janot. E ainda que juridicamente as provas possam ser usadas, fortalece a defesa de Temer.

O primeiro semestre de 2017 parece ter indicado que o grande tema capaz de mobilizar a classe trabalhadora é a luta contra as reformas, mais concretamente a Reforma da Previdência. O Fora Temer e a bandeira das Diretas Já, apesar das pesquisas de opinião indicarem imensa rejeição do presidente e a simpatia de mais de 80% da população pelas eleições diretas, não demonstraram poder de levar milhares de brasileiros para as ruas. Não é um bom sinal, mas tentemos analisar a realidade como ela é e não como gostaríamos que fosse.

No entanto, apesar de não haver mobilizações massivas para a retirada do presidente golpista, a onda de rejeição de Temer cresce a cada nova pesquisa. Divulgada no dia 26 de agosto pelo Estadão, uma pesquisa feita pelo Instituto Ipsos revela que a desaprovação do presidente atingiu 93%. A popularidade nunca foi o ponto forte de Temer, já em agosto de 2016 logo após ter assumido o cargo sua desaprovação era de 68%. Mas é inegável que o crescimento foi galopante.

A questão é que ele não está sozinho, a mesma pesquisa também indica uma onda de rejeição que atinge todos os políticos. O instituto avaliou 26 autoridades de distintas esferas, incluindo o poder judiciário e possíveis apostas da nova direita, como o apresentador Luciano Huck.  Quase todos estão mais desaprovados do que aprovados.  Sergio Moro, Joaquim Barbosa e o referido apresentador são os únicos que mantêm sua aprovação maior que 50%.

O judiciário, que veio se fortalecendo nos últimos dois anos, também começa a enfrentar sinais de desgaste, a taxa de desaprovação dos Ministros do STF caiu, mesmo considerando as figuras mais ligadas à Lava Jato como o Edson Fachin e Carmem Lúcia. O procurador Deltan Dallagnol e o Procurador Geral da República Rodrigo Janot também ampliaram sua taxa de rejeição.

Crises, escândalos e descrédito definirão o futuro?
O Brasil enfrenta uma crise de distintas dimensões, econômica, política e social. Para fazer uma análise marxista da conjuntura brasileira é preciso ir além das crises institucionais, das alas em disputa a cada novo escândalo e avaliar a correlação de forças entre as classes sociais.

A burguesia está unificada na batalha das reformas, do ajuste fiscal e das privatizações. A constituição de 88 está sendo desfigurada a cada dia. Mas, há muita diferença sobre o que fazer com o sistema de partidos e o funcionamento peculiar do atual regime político. Neste terreno, a crise interburguesa é feroz. O setor mais ligado ao poder judiciário e à Lava Jato quer uma reforma política à fórceps, não batalham pelo fim das relações entre o Estado e o mercado, mas querem estabelecer outro tipo de relação, mais moderna e institucionalizada. Já o Congresso Nacional e a Presidência da República buscam conservar o atual modelo, ainda que para dar uma resposta à crise de representatividade estejam buscando aprovar uma reforma política mais restritiva e antidemocrática.

A classe trabalhadora mostrou sua força política na greve do dia 28 de abril, o proletariado brasileiro é um gigante social, sua potência é inquestionável. Mas para isso precisa entrar em movimento e infelizmente o que temos assistido nos últimos meses é o crescimento da apatia nos locais de trabalho e estudo.

Os trabalhadores sabem do ataque a que estão submetidos, as pesquisas indicam claramente que as reformas previdenciária e trabalhista são amplamente rejeitadas, a nova lei das terceirizações é vista pela maioria como benéfica aos empregadores. Os negros e negras, as mulheres e as pessoas LGBTs sentem na pele, em um patamar superior, as consequências do desmonte dos direitos dos trabalhadores. Estão entre os primeiros a serem demitidos, ganham os piores salários, ocupam os postos mais precários. Na medida em que a crise econômica avança, também aumentam os elementos de degeneração social, casos de agressão física e sexual fazem parte do dia a dia da vida de milhares de pessoas oprimidas. O fortalecimento da extrema direita vem acompanhado do crescimento do alcance de ideias reacionárias e da ocorrência de crimes de ódio.

Inúmeros fatores estão pesando para que, até agora, a paralisia tenha vencido a indignação. Estão entre eles a repressão da patronal nos locais de trabalho, o desemprego, o papel das direções burocráticas e a ausência de uma alternativa política capaz de inspirar confiança no futuro.

Entre os ativistas e os setores politicamente mais ativos da classe trabalhadora inúmeras e complexas questões dividem as opiniões políticas. Há aqueles que percebem a ofensiva burguesa, enxergam o peso crescente da extrema direita, são conscientes da necessidade de unificar todas as forças possíveis para a resistência. Eles estão corretos, o compromisso com a unidade da classe para lutar deve ser incondicional.

Não haverá nenhum desfecho positivo sem a mobilização da classe trabalhadora
Não esperamos nada dos agentes da polícia federal, dos juízes e procuradores, nenhum desfecho positivo vai ocorrer sem a mobilização da classe trabalhadora organizada. A grande maioria dos sindicatos e dos movimentos sociais organizados tem forte influência petista.  Lula, o PT e a CUT deve jogar todo seu prestígio político e peso no movimento social para construir uma resistência nacional e unificada contra a reforma da previdência. Este é o caminho mais eficaz para deter o avanço da direita.

É muito importante a articulação das lutas ao redor do dia 14 de setembro, entretanto vemos com preocupação a pulverização do calendário de mobilização. Pelo menos no dia 15 e no dia 19 estão agendados outros dias de luta locais ou de categorias. O melhor caminho é concentrarmos forças numa data unificada, este foi um dos componentes que explicam o sucesso das mobilizações de março e abril: unidade.

No terreno da construção de uma alternativa política da classe trabalhadora, os desafios são ainda maiores. Sem mobilização também este elemento é mais atrasado. A extrema direita está em campanha para 2018, Bolsonaro gira as capitais em busca de aliados. A nova direita ensaia seus líderes, João Dória e Luciano Huck já aparecem nas pesquisas. Lula e o PT estão também em movimento para 2018. Em nossa opinião, o PSOL deve apresentar seu candidato, e ao mesmo tempo estar aberto ao diálogo para a construção de uma Frente com outros partidos, como o PSTU e o PCB, além de movimentos sociais e milhares de ativistas independentes.  As plenárias do Vamos serão um momento de debate e de reflexão programática, apostamos na construção coletiva de uma alternativa dos trabalhadores. Compreender os desafios e as nossas tarefas para transformar a realidade atual, eis o nosso desafio.

Comentários no Facebook

Post A Comment