Charlottesville é um chamado para a ação contra o fascismo

 

Katherine Nolde, Richard Capron e Scott McLemee juntam relatos de participantes do conflito violento entre a extrema-direita e antirracistas em uma cidade na Virgínia.

Artigo publicado em Socialist Worker (diário digital impulsionado pela ISO) em 14 de agosto de 2017

Vigília em Oakland, Califórnia, em solidariedade com Charlottesville. (Stephen Lam | Reuters/Newscom)

Tradução de Pedro lhullier Rosa

A manifestação de extrema-direita em Charlottesville, Virgínia, no dia 12 de agosto – provavelmente a maior congregação em público da racista alt-right, ou “direita alternativa” – foi clara evidência das forças sanguinárias nutridas e encorajadas por Donald Trump durante os últimos dois anos.

E teve consequências letais. Uma manifestante antifascista foi morta e mais de vinte feridos quando um terrorista neonazista acelerou seu carro para cima de uma contramanifestação liderada por organizações de esquerda, incluindo a International Socialist Organization (ISO), os Democratic Socialists of America (DSA) e os Industrial Workers of the World (IWW), entre outras.

Trump proclamou uma condenação fajuta de “ódio, intolerância e violência de muitos lados” que não enganou a ninguém – especialmente a extrema-direita. “Ele se recusou a falar qualquer coisa sobre a gente.” um site racista comemorou. “Quando os repórteres estavam gritando com ele sobre o nacionalismo branco ele simplesmente saiu da sala.”

Então os fascistas veem Trump como um dos seus – e por bom motivo.

Mas o ódio mostrado em Charlottesville – e promovido por quem manifesta o supremo ódio na república – está despertando as pessoas por todo o país.

As notícias do atropelamento terrorista criaram uma onda de solidariedade – dentro de horas, haviam vigílias e protestos em dezenas de cidades, seguidos por mais no dia seguinte, e ainda mais estavam sendo organizados para os próximos dias. Ao final do domingo, as pessoas tinham adotado posições solidárias com Charlottesville em centenas de cidades.

Estas pessoas que mandaram mensagens de protesto não apenas expressaram repulsa pelo ódio dos fascistas e horror pela sua violência, mas também entenderam a necessidade de se defrontar com essa ameaça antes que possa causar mais sofrimento e tomar mais vidas.

Charlottesville mostrou o grave perigo que enfrentamos na forma de uma extrema-direita encorajada. Mas também está revelando o potencial de mobilizar uma oposição de massas ao seu ódio, seja este expressado nas ruas ou na Casa Branca.

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Os milhares que se mobilizaram contra a agenda de Trump nos últimos meses estão tornando impossível para a extrema-direita dizer que representa mais que uma pequena parcela da população estadunidense.

Quando o Ku Klux Klan veio a Charlottesville no mês passado, para protestar contra a remoção e a substituição da estátua do general confederado Robert E. Lee de uma praça pública, atraiu cerca de 50 apoiadores – e 20 vezes mais manifestantes antirracistas.

Sentindo-se humilhados por isso, grupos de extrema-direita anunciaram outra manifestação em agosto. A prefeitura deu permissão aos organizadores da “Unite the Right” (Unir a Direita) para usarem o Emancipation Park na cidade neste último sábado – uma tentativa de último minuto de revogar a permissão foi derrubada por um juiz com base em uma apelação da American Civil Liberties Union (ACLU). Também foi dada permissão aos contramanifestantes para que se reunissem a algumas quadras de distância no Justice Park.

A extrema-direita veio a Charlottesville atrás de uma briga, e começou suas atividades na sexta de noite com uma passeata à luz de tochas no campus da Universidade da Virgínia. Gritando “Heil Trump” e “vocês não vão nos substituir” – às vezes trocado para “os judeus não vão nos substituir”, com sonoridade parecida no inglês – alguns usaram suas tochas acesas para ameaçar o pequeno grupo de manifestantes antirracistas que os confrontaram no campus.

Se os racistas pensaram que teriam a mesma força sobrepujante ao seu lado no próximo dia, estavam errados. Os fascistas estavam em minoria em relação a seus oponentes, que iam de contingentes Antifa e da esquerda radical a organizações antirracistas mais moderadas. Mas a vantagem antifascista não foi tão grande quanto poderia ter sido.

Grupos de cada lado fizeram marchas na linha de visão do outro na manhã de sábado, e houveram conflitos isolados, levantando uma atmosfera de confusão e incerteza.

Quando um grupo de militantes da ISO se aproximou da entrada sudoeste do Justice Park, onde acontecia o contraprotesto, encontraram um grupo de homens brancos jovens de guarda, com fuzis automáticos e faixas vermelhas amarradas no pescoço. O medo inicial se dissipou quando os socialistas foram recebidos com vivas e apertos de mão – estes eram membros da Redneck Revolt, um recém-formado grupo de autodefesa da classe trabalhadora do sul estadunidense.

As polícias local e estadual estavam presentes, mas não intervieram quando os direitistas ameaçaram os contramanifestantes. De acordo com um relato do jornal ProPublica:

“Em um desses inúmeros conflitos, uma multidão raivosa de supremacistas brancos formaram uma linha de batalha defronte a um grupo de contramanifestantes, muitos destes idosos e de cabelo grisalho, que tinham se reunido perto de um estacionamento de igreja. Quando seu líder deu o comando, os rapazes deram uma investida e agrediram sem freios seus inimigos ideológicos. Uma mulher foi jogada na calçada, e o sangue surgiu instantaneamente na sua cabeça ferida.

Nas redondezas, uma tropa de policiais municipais e estaduais fardados com trajes de proteção observaram em silêncio por trás das suas barricadas de metal – e não fizeram nada.”

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Quando o governador da Virgínia Terry McAuliffe declarou um estado de emergência às 11 da manhã, a Guarda Nacional entrou em cena. A polícia dispersou a extrema-direita da sua posição no Emancipation Park – mas isto levou a grupos ambulantes de racistas buscando briga nas ruas ao redor.

Os contramanifestantes receberam a informação de que os fascistas estavam a caminho de uma parte da cidade com uma concentração de habitação pública para acossar os residentes de baixa renda.

Uma marcha foi organizada espontaneamente em defesa da comunidade. “Os sentimentos de incerteza e vulnerabilidade mudaram imediatamente para confiança e autoridade.” disse um membro da ISO que participou do ato. “Não íamos deixar os fascistas controlarem o dia.”

Cerca de 300 antifascistas marcharam e cantaram em formação estreita, parando logo antes de virar a esquina da rua onde as moradias estavam localizadas. Mas, ao chegar, não encontraram os direitistas. Um organizador pertencente à comunidade foi à frente da marcha e tomou o megafone, pedindo uma retirada para diminuir as chances de trazer a polícia para a região.

O grupo fez seu caminho de volta ao centro da cidade e encontrou outro contingente de contramanifestantes tomando a rua em um humor exaltado. Os grupos se uniram e começaram a subir a lombada em direção ao Justice Park, planejando comemorar sua aparente vitória em expulsar os direitistas.

Estavam na metade da subida quando de repente surgiu algo que soou como uma batida ou uma explosão. Corpos voavam, e pessoas gritavam. Um carro tinha atropelado a multidão a toda velocidade, e então subido a colina em marcha ré e saído de vista.

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No caos, as pessoas fizeram o melhor que puderam para manter a compostura, tomar controle da situação e chamar os médicos que monitoravam a marcha. Tiraram os feridos da rua – para evitar o perigo de outro ataque veicular – e chamaram ambulâncias.

O que veio no lugar delas foi um tanque policial. Um homem de farda militar subiu a escotilha com uma arma feita para atirar bombas de gás lacrimogênio. Três viaturas vieram atrás dele, junto com um batalhão de choque. A polícia fechou a área, e os manifestantes se dispersaram.

Foi relatada depois a prisão e acusação de um homem do estado de Ohio, James Fields Jr., por homicídio doloso, três ocorrências de lesão corporal dolosa, e por não parar na cena de um acidente automobilístico resultante em óbito. Fotos anteriores daquele dia mostram o assassino brandindo um escudo com o símbolo do grupo neonazista American Vanguard.

O carro de Fields matou a natural de Charlottesville Heather Heyer, de 32 anos, que trabalhava como paralegal e era devotada apaixonadamente à justiça social.

Um vizinho diz que “ela viveu sua vida como o seu caminho – e foi pela justiça.” A mãe de Heather, Susan Bro, irrompeu em lágrimas ao dizer a um jornalista do HuffPost: “De alguma maneira eu quase sinto que é isto que ela nasceu para ser, um ponto focal para a mudança.”

Mais de vinte outras pessoas foram gravemente feridas. Bill Burke, militante da ISO de Athens, Ohio, estava entre os que foram levados do local em uma ambulância, dada a preocupação de que tivesse sofrido ferimentos na espinha dorsal. Ele não tinha, mas precisou receber monitoramento para dano cerebral e foi tratado de uma concussão, além das dilacerações em seu rosto e da escoriação de seus braços e pernas.

Burke recebeu alta do hospital no fim da tarde de domingo e espera-se que se recupere completamente. Ele mandou esta mensagem a outros militantes da ISO:

“Aprecio o apoio e a solidariedade de todos. Espero que o que os fascistas fizeram sirva para despertar o nosso lado. Racismo, machismo, homofobia, transfobia e capacitismo: a direita representa as piores partes do sistema capitalista. Se realmente queremos impedi-los, precisamos nos organizar melhor e lutar em solidariedade contra toda a opressão. No final, precisamos de um mundo que funcione para as pessoas, não para o lucro.”

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Que o ataque veicular foi proposital parece óbvio a todos além de tipos como Donald Trump.

Mas qualquer um que ainda tenha dúvidas deveria considerar um meme da alt-right que surgiu meses antes do confronto em Charlottesville. Mostra o desenho de um carro atropelando três pessoas com a legenda “ALL LIVES SPLATTER” (“todas as vidas se espatifam”, um trocadilho com a palavra de ordem da direita “todas as vidas importam” – por sua vez uma reação à frase do movimento negro “vidas negras importam”). A outra legenda diz “Ninguém liga para o seu protesto. Tire sua bunda da rua”.

Tudo isto segue o espírito do terrorismo “divertido” de Trump – com sua “piada” de oferecer o pagamento das contas jurídicas de seus apoiadores caso eles agridam manifestantes, e suas referências “irônicas” à ideia de assassinar candidatos adversários. Esta retórica tem encorajado reacionários como os portadores de tocha que, sexta à noite em Charlottesville, quiseram fazer lembrar os comícios de Nuremberg da década de 30.

Sua violência repulsiva já trouxe uma erupção de protestos antirracistas ao redor dos EUA. Mas não podemos parar por aí. Precisamos de um movimento permanente que se mobilize a confrontar a extrema-direita com números muito maiores toda vez que tentarem aparecer – e que organize uma alternativa da esquerda radical à política fascista de desespero e bodes expiatórios.

Como um participante dos protestos antifascistas de Charlottesville escreveu na internet:

“Para controlar as ruas, precisamos enchê-las. Se tivéssemos pessoas cobrindo cada centímetro do centro de Charlottesville, não teríamos ficado tão vulneráveis.

Para desmobilizar o movimento fascista, eles precisam ser postos em desvantagem numérica e expulsos com força física… isole-os, desmoralize-os.

É de quebrar o coração que os contra-manifestantes em Cville tinham recém começado a sentir um ar de confiança e unidade de ação [antes do ataque]…. Dois contingentes, duas multidões marchando convergiram no centro e estavam a caminho do Justice Park para comemorar, finalmente tendo se organizado após terem ficado divididas entre muitos locais.

Este é o objetivo da extrema-direita: aterrorizar, intimidar e destruir as organizações dos trabalhadores e da esquerda, e qualquer outro que eles julguem uma ameaça.

Não podemos deixar que eles se ancoragem mais pelo que aconteceu hoje.”

Alan Maass contribuiu a este artigo.

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