Enterrando a mentira sobre uma “Alt-left” (esquerda alternativa)

É hora de parar de alegar que supremacistas brancos e aqueles que os combatem são farinha do mesmo saco.

Por Branko Marcetic, Editor assistente da Jacobin. Texto publicado originalmente no site da Jacobin.

Tradução: Caio Dias Garrido

Muito há que ser dito sobre o ocorrido em Charlottesville. Como os sentimentos que todos temos pela família de Heather Heyer, uma jovem mulher cujo único crime foi ousar se arriscar enfrentando neonazistas armados. A raiva por um governo que mais uma vez se recusa a condenar voluntariamente uma ação dos supremacistas brancos. Há a frustração em relação a polícia, que está sempre pronta para lançar seus tanques e soldados armados, como em uma distopia, contra o povo negro que protesta por serem assassinados, mas que aparentemente se perfila ao lado de manifestações de racistas apenas apitando contra eles. E há ainda o fato de que os conservadores tradicionais há meses defendem esse mesmo tipo de violência vista em Charlottesville.

Litros de tinta serão derramados para tratar desses assuntos nas próximas semanas. E a batalha para derrotar a extrema direita – através de organização política, mobilização e eliminação das condições políticas e sociais que permitem sua gestação e desenvolvimento – será longa e incessante.

Mas se há uma questão que os eventos de Chalottesville devem imediatamente resolver, e de uma vez por todas, se ainda vivemos em um mundo com um pingo de razão e sentido, é enterrar a mentira de que há uma “alt-left” (esquerda alternativa).  

Em uma contínua disputa, que já dura meses, acerca do futuro das políticas progressistas nos Estados Unidos, membros do centro liberal têm alertado sobre o que chamam de “imagem espelhada” entre a “alt-left” e a “alt-right”. O termo alt-left foi utilizado pela primeira vez por James Walcott, em março, em um artigo da revista Vanity Fair (https://www.vanityfair.com/news/2017/03/why-the-alt-left-is-a-problem), no qual ele afirma haver um “parentesco” entre os dois grupos, e se põe a listar uma série de supostos membros dessa esquerda, sendo todos homens (com exceção da atriz Susan Sarandon).

O texto segue sem dizer que o rótulo se refere a algo que não existe. A própria “Jacobin”, por exemplo, é citada por Walcott como uma divulgadora da “alt-left”, apesar do fato de dedicarmos nosso tempo criticando Trump e seus amigos e de estarmos enraizados em uma tradição socialista democrática de longa data.

O termo foi sempre intelectualmente preguiçoso e desonesto, mas a veracidade nunca foi o objetivo de Walcott. Pelo contrário, seu argumento é uma evolução do calunioso “Bernie Bro” (turma do Bernie Sanders), usado para rebater as críticas vindas da esquerda aos Democratas de centro, que diziam que aqueles seriam racistas e misóginos, mesmo quando na verdade eram, em grande parte, mulheres ou negros, ou ambos. A forma agora é a introdução do rótulo “alt”, para desenhar uma conexão entre os supremacistas brancos e aqueles que militam por um sistema de saúde universal e pelo aumento do salário mínimo.

Nos últimos meses, até os recentes eventos de Charlottesville, a ideia subjacente a esse raciocínio foi adotada e utilizada por membros do centro liberal como um punhal contra os socialistas.

“Se os ‘Bernie Bros’ quisessem ter feito uma demonstração de força em nome de valores progressistas no sábado em Charlottesville teria sido um bom momento” escreveu Mieke Eoyang, ex-membro da equipe do falecido senador democrata Ted Kennedy e vice-presidente do “Programa de segurança da terceira via”, um “think tank” centrista.

Um liberal populista em sua conta no Twitter comparou as passeatas de racistas de ultradireita empunhando tochas com apoiadores de Bernie Sanders.

Bem, a marcha neonazista em Charlottesville aconteceu e as mesmas pessoas que por meses haviam sido acusadas de “racistas enrustidos” estavam na linha de frente, se arriscando contra os supremacistas brancos. A International Socialist Organization (ISO) e a Democratic Socialists of America (DSA) estavam lá contra os neonazistas, e suas bandeiras tremulavam alto depois que os “alt-right” se foram. O DSA iniciou uma campanha de arrecadação de fundos para cobrir os gastos médicos com aqueles que foram lesionados no evento e conseguiram juntar U$138.000,00 até agora. Dois dos seus membros foram no ataque aos protestos. Também se lesionaram alguns membros da equipe do Truthout, uma publicação que foi crítica à campanha de Clinton em 2016. Alguns dos seus  jornalistas foram tachados pelo Tumblr “Trumpian Leftism” (Trumpismo de esquerda) de “Bernie Bro” assim como membros da alt-left.

Olhemos para Heather Heyer, a jovem mulher assassinada, que de forma alguma é a única vítima dos ataques da direita daquele sábado. Heyer era uma defensora convicta dos direitos civis, sua mãe, Susan Bro, disse “ela sempre teve um forte senso do que era certo e do que era errado”. Ela também era uma apoiadora de Bernie Sanders.

Isto tudo não é nenhuma novidade. A DSA e outras organizações de esquerda estiveram envolvidas em protestos anti-Trump, incluindo aqueles contra a implementação dos decretos anti-imigração de Trump. Socialistas tiveram um importante papel nas últimas ações contra a violência policial. Se olharmos para um passado mais distante veremos a esquerda se organizando e derrotando racistas em lugares como Dubuque, Iowa, durante os anos noventa assim como outras campanhas importantes durante todo um século.

Não se pode também sustentar ou aceitar que se tente esmagar grupos progressistas de esquerda comparando-os a neonazistas  porque se opõem aos Democratas. Enquanto nós da esquerda continuamos a combater as políticas do “centro” – as quais consideramos não apenas serem prejudiciais para os dias de hoje, como não contribuírem em nada para conter a ascensão da direita – devemos nos erguer junto àqueles liberais que querem estar ao nosso lado para lutar contra o racismo e o ódio.

Há aqueles que apesar de tudo aderem a uma narrativa falsa e divisionista sobre a esquerda. No dia seguinte ao incidente, Markos Moulitsas, fundador do Daily Kos  (fórum na internet com viés liberal), questionou se alguém “fora a alt-left” estaria “ainda fingindo que as últimas eleições presidenciais eram uma questão de ansiedade econômica”. Um editor do Daily Kos culpou os neonazistas pela “alt-left”, que, “no intento de destruir a ‘impureza’ de Clinton no que toca às questões de justiça econômica, foi conivente com o racismo e intolerância de Trump” que agora estava “cobrando um alto preço”. Outros fazem alusões semelhantes.

Isto tem que acabar. Heyer e aqueles que se feriram em Charlottesville não são nem os primeiros nem os últimos militantes de esquerda atingidos em eventos como este, o que costuma acontecer com os radicais, que são sempre a linha de frente neste tipo de enfrentamento. Eles merecem mais que isto.

A esquerda não é nem apoiadora da supremacia branca nem de Trump, e nunca será. Mas se os liberais se unirem à esquerda eles poderão ajudar na luta contra a extrema direita para acabar com esta corrente de violência política aparentemente interminável perpetrada pelos brancos supremacistas. A união em torno desta questão é um imperativo moral.

 

 

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