“Comemorar” é “lembrar junto”: um ano de MAIS

Por Paulo César de Carvalho é militante do MAIS (fez parte também da Convergência Socialista)

Em 2017, estamos comemorando duas efemérides que se conectam “em profunda unidade” (como nas “Correspondências” de Baudelaire): o centenário de Outubro e o primeiro aniversário do MAIS. Lembrar os 100 anos da vitória bolchevique é celebrar a construção do primeiro “estado operário” da história: o momento que inaugurou a “época da revolução socialista mundial” (conforme Nahuel Moreno), comprovando que Marx estava certo, que o “materialismo histórico” não é uma teoria delirante, que a realidade é dialética, que o capitalismo cria “o germe de sua própria destruição”. Celebrar os 365 dias do MAIS é lembrar as dificuldades da esquerda revolucionária para se localizar no corte histórico aberto pela derrocada dos estados operários burocratizados, seguida da restauração do capitalismo e da colaboração reformista (ou neorreformista). Para nós, portanto, desde a etimologia, “comemorar” tem um sentido profundo: significa “trazer à memória”; quer dizer “lembrar junto” (da I à IV etapa). Aliás, já que falamos em raiz etimológica, lembremos também que “aniversário” deriva de “ano”, que remete à “círculo”, a “ciclo”, traduzindo a noção de abertura e fechamento de um processo. As palavras “comemorar” e “aniversário”, assim, não pertencem ao mesmo campo semântico por mera coincidência: ambas implicam o momento de “balanço” entre o que foi e o que pode ser, o intervalo presente entre as perdas e conquistas do passado e as perspectivas e possibilidades do futuro. Lembrando a “Conferência Modernista” de Mário de Andrade, em comemoração ao aniversário de 20 anos da Semana de Arte Moderna, a moral da história é a seguinte: o que não pode nos servir de “exemplo” que nos sirva ao menos de “lição”. A propósito, vêm bem a calhar estas “lições de outubro” de Trotsky:

“É preciso que todo o nosso Partido e nossa Juventude estudem a experiência de Outubro, que nos forneceu uma verificação incontestável do nosso passado e nos abriu uma ampla porta para o futuro. (…) É certo que o estudo da Revolução de Outubro, por si só, é insuficiente para garantir nossa vitória nos outros países; no entanto é possível que surjam situações em que todas as premissas da revolução existam, salvo uma direção esclarecida e resoluta do Partido, baseando-se na compreensão das leis e dos métodos da revolução” (“As Lições de Outubro”, São Paulo, Global, 1976, p.10).

Como grande leninista que era, o líder do Exército Vermelho aprendeu bem as lições do mestre bolchevique, conforme nos ensina particularmente nesta citação de Lenin sobre os camaradas equivocados, descolados da realidade, insensíveis às exigências da situação objetiva:

“(…) já por muitas vezes, na história do nosso Partido, desempenharam um triste papel, repetindo ininteligivelmente uma fórmula ‘decorada’, em vez de ‘estudarem’ as particularidades da nova situação real” (idem, p.20)

Esses dois trechos nos ajudam a explicar a questão, encurtando o caminho para conectar o centenário de Outubro com o aniversário do MAIS. Nesta etapa mais desfavorável da luta de classes, em que a destruição dos estados operários levou à descrença no “comunismo”, a única via de atuação para as massas parece ser a democracia burguesa. É nesse quadro que se fortalece o reformismo, que se constroem as ilusões de sua política de conciliação de classes: é nesse contexto que se fragilizam as organizações revolucionárias, que se dificulta sua atuação no movimento de massa. Temos consciência, enfim, dos enormes problemas que enfrentamos para cumprir a tarefa estratégica de construção de uma alternativa independente socialista, resistindo à crise de direção revolucionária, para poder superá-la. O MAIS é uma organização ainda recente: comemorar nosso primeiro aniversário, pois, é compreender os grandes desafios que ainda precisamos vencer (das questões financeiras às organizativas, por exemplo). Mas é também celebrar muitas vitórias, como a superação do “centralismo burocrático” e o nosso crescimento com a chegada de novas e novos camaradas (há um nexo de causalidade entre esses fatos). Para não entrar em detalhes, lembramos os companheiros que Henrique Canary fez um excelente balanço dessas questões no texto “No primeiro aniversário do MAIS, algumas reflexões”. Enfim, comemorar a Revolução de Outubro e, cem anos depois, um ano do “Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista” é “lembrar juntos” as lições históricas das lutas bolcheviques, com a advertência de Lenin: não para repeti-las “como fórmulas decoradas”, mas para estudar “as particularidades da nova situação real”. Nos termos de Trotsky, não basta que a realidade ofereça situações favoráveis para a ofensiva dos trabalhadores: isso é condição necessária, mas não suficiente para conquistar vitórias. É preciso destacar aí o papel central da “direção esclarecida e resoluta do Partido, baseando-se na compreensão das leis e dos métodos da revolução”. As “Lições de Outubro”, nessa perspectiva, devem funcionar como um recurso de aproximação do real: os exemplos históricos e as categorias teóricas devem servir como base para que se façam as melhores escolhas táticas em dada situação particular, produzindo avanços (saltos) na disputa estratégica pelo poder. Aliás, como Lenin já dizia há cem anos:

“Se o bolchevismo pôde levar à prática com êxito, nos anos de 1917 a 1920, em condições de inaudita gravidade, a mais rigorosa centralização e uma disciplina férrea, deve-se simplesmente a uma série de particularidades históricas da Rússia.  (…) O bolchevismo surgiu em 1903 fundamentado na mais sólida base da teoria do marxismo. E a justeza dessa teoria revolucionária – e de nenhuma outra – foi demonstrada tanto pela experiência internacional de todo o século XIX como, em particular, pela experiência dos desvios, vacilações, erros e desilusões do pensamento revolucionário na Rússia” (Lenin, “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”, Símbolo, 1978, p.15).

Para concluir, neste primeiro aniversário do MAIS, no contexto de reorganização da esquerda revolucionária, comemorar é lembrarmos juntos a “experiência dos desvios, vacilações, erros e desilusões” que nos trouxe até o MAIS, para nos levar além. Há um ano, lembramos que as pequenas vitórias alcançadas produziram efeitos positivos, abrindo uma perspectiva favorável para a conquista de avanços maiores: renovando, portanto, nossa confiança revolucionária, premissa fundamental para o engajamento na luta.

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