Cem anos num dia: viemos de longe

Por: Enio Bucchioni, de São Paulo, SP

Foi no dia 23 de julho. O ano era 2016. Ao meu lado estavam Deise, com quem comparto a vida e o mundo há trinta e quatro anos, e nosso filho mais novo, o Tulio. Fomos um dos primeiros a chegar. Aos poucos, o salão ficou repleto de pessoas, de amigos, companheiros e companheiras das mais diversas épocas e localidades. Jovens, muitos jovens, com suas bandeiras de luta e expressões de força nos semblantes de felicidade. Feministas, movimento negro, movimento de mulheres, movimento LGBT, estudantes e trabalhadores. Era um ato de lançamento de uma nova organização política, cujo nome ainda era desconhecido para todos nós. Sabíamos apenas que era para ‘Arrancar Alegria ao Futuro’.

Mario Pedrosa aos 80 anos de idade.

Mario Pedrosa aos 80 anos de idade

Sentamos numa das mesas. De repente, meus pensamentos e minhas memórias viajaram através do tempo. Eu estava com sessenta e oito anos de idade e casualmente me lembrei de outro ‘velho’, o Mario Pedrosa, já falecido, que tive a honra e o prazer de conhecer no Chile de Allende. Ele tinha setenta e um anos nessa época e havia sido obrigado a se exilar no ano anterior por suas atividades contra a ditadura. Eram os tempos de Médici, o mais cruel ditador desde 1964.

Lembrei-me dos cabelos brancos do ‘velho’ Mário, o grande inspirador do grupo de exilados brasileiros, o Ponto de Partida. Mário havia fundado a Oposição de Esquerda no Brasil em 1927 e foi o único latino-americano presente quando foi fundada a IV Internacional. No entanto, havia sido anti-defensista durante a polêmica que levou à cisão do SWP norte-americano após o pacto Hitler-Stalin em 1939.

Em 1971 ele já não mais era militante orgânico há bastante tempo, mas ainda preservava as ideias mais gerais do trotskysmo no que se referia à Revolução Russa, à luta contra a burocracia, ao papel central do proletariado na luta de classes contra as concepções guerrilheiras das vanguardas desligadas das massas que imperava na esquerda brasileira desde meados dos anos 60 até a metade da outra década.

Foi com essas ideias que Mário convenceu Tulio Quintiliano durante os meses que ficaram juntos no interior do consulado chileno no Rio de Janeiro à espera do salvo-conduto para partirem para o exílio. Corria o ano de 1970.

 Quadro Tulio Quintiliano, pintado por Enio Bucchioni

Quadro Tulio Quintiliano, pintado por Enio Bucchioni

O jovem Tulio, então com 26 anos, havia sido militante do antigo PCB e depois numa cisão deste, o PCBR, que aderiu à luta guerrilheira. Tulio foi preso pela ditadura, barbaramente torturado, e um pouco tempo depois de ser colocado em liberdade solicitou asilo no Chile, onde fundou o Ponto de Partida.

Cheguei ao exílio alguns meses depois, aos 22 anos, e por mera casualidade do destino, fui parar na casa do Tulio e acabei por entrar para o Ponto de Partida.

Em 11 de setembro de 1973 veio o golpe de estado ultrarreacionário contra o governo de Frente Popular e muitos milhares de trabalhadores e jovens foram assassinados pelos generais gorilas. Tulio Quintiliano também.

Fui preso e três meses depois expulso para a Europa junto a milhares de outros brasileiros, argentinos, uruguaios, chilenos e demais latino-americanos sobreviventes ao golpe de Pinochet.

Alguns poucos sobreviventes do Ponto de Partida, entre eles o meu amigo Waldo Mermelstein, que aderiu ao grupo ao sair do Chile, ficaram algum tempo na Argentina junto ao antigo PST e retornaram ao Brasil. Anos mais tarde, em 1978, esses companheiros fundaram a Convergência Socialista.

Nesse mesmo ano voltei ao Brasil após oito anos de exílio, sendo que no último período tive a honra e o prazer de militar no saudoso PRT português da Revolução dos Cravos ao lado dos amigos Valério Arcary e Gil Garcia, este último dirigente do atual MAS lusitano.

No quadro, Zé Luis e Rosa Sundermann

No quadro, Zé Luis e Rosa Sundermann

Quatro anos se passaram. Em 1982, passei algumas semanas na regional de São Carlos durante as eleições. Lá conheci o grande amigo Catatau e os universitários militantes da CS Zé Luis e Rosa Sundermann, um jovem casal extremamente simpático, dedicado, inteligente e, lembro-me bem, sorridente como é natural nos jovens que têm toda uma vida consciente pela frente.

Em 1994, Zé Luis e Rosa foram assassinados a mando de latifundiários da região. Rosa era dirigente da Convergência Socialista nesse momento e Zé Luis dirigente do Sindicato dos Servidores da Universidade Federal de São Carlos e da Fasubra.

Todas essas minhas lembranças foram repentinamente interrompidas. Voltei ao presente quando vi entrar no salão um outro antigo amigo, o André Freire, que me deu um abraço e disse: “Nosso nome é MAIS, Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista”.

Tantos outros velhos amigos surgiram, entre eles, o Mauro Puerro e a Genilda. O Congresso da nova Organização política, o MAIS, havia terminado. Agora era hora do Ato Público. Cerca de mil e duzentas pessoas presentes, provenientes dos mais diversos quadrantes do país.

Emocionei-me ao rever tantos amigos das mais variadas gerações que dedicaram e ainda dedicam suas vidas em prol da emancipação do proletariado, em prol do socialismo.

Essa emoção me fez retornar aos meus pensamentos. Disfarcei as muitas lágrimas que percorriam sobre a minha face. Gostaria tanto que Tulio Quintiliano, Rosa e Zé Luis Sundermann estivessem conosco nesse momento! Queria tanto que eles soubessem que suas vidas têm prosseguimento em nossas vidas, que suas mortes não foram em vão!

Eles são e sempre serão sangue do nosso sangue. Seus nomes devem permanecer em nossa história e eternamente reivindicados por todos nós e pelas futuras gerações de marxistas revolucionários do MAIS!

Todos os personagens por mim narrados nessa história são descendentes diretos da gloriosa Revolução Russa de 1917. No momento em que escrevo esse texto cerca de cem anos foram percorridos por todos os companheiros que, direta ou indiretamente, forjaram o suporte da existência do MAIS.

Viemos de longe!

Mais que nunca, em nosso Congresso diremos em alto e bom som:

Companheiro Túlio Quintiliano: Presente! Ahora Y Siempre!

Companheira Rosa Sundermann: Presente! Ahora Y Siempre!

Companheiro Zé Luis Sundermann: Presente! Ahora Y Siempre!

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