Rivalidade em campo, negócios à parte, em Belo Horizonte

Por: Alexandre Zambelli, de Belo Horizonte, MG

Passado o primeiro semestre de gestão, após uma campanha eleitoral marcada por um discurso despolitizado, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PHS), continua a mostrar que sabe bem fazer política. Mas, uma política contra o pobre. Semanas após a violenta repressão contra ambulantes na cidade, Kalil volta à cena falando sobre futebol, cenário onde construiu sua imagem ao ter presidido o Clube Atlético Mineiro. Em entrevista ao El País, foi taxativo ao falar sua posição sobre o preço dos ingressos nos estádios no país:

No mundo inteiro, futebol não é coisa para pobre. Doa a quem doer. Ingresso é caro em todo lugar. Torcida dividida e entrada a preço de banana estragada só existem no Brasil”, disse o prefeito.

A despeito da verdade que reside o fato de que o futebol é caro em boa parte do mundo, não é verdade que sempre foi assim. O “padrão FIFA” trouxe aos estádios brasileiros, na esteira dos últimos megaeventos, principalmente Copa das Confederações de 2013 e Copa do Mundo de 2014, um modelo elitista de arquibancada, que afasta o torcedor mais pobre e ao mesmo tempo aquele que também incentivava com mais força seu clube de coração.

Sob o argumento de questões de segurança, a maioria dos estádios acabaram com as “gerais”. As “gerais” basicamente eram espaços de alguns estádios com estrutura mais simples, com maior concentração de público, e com preços mais acessíveis. Claro que havia a questão da visibilidade do campo, que ficava um pouco prejudicada. Mas, sempre foram espaços marcados por festas das torcidas. Hoje isso acabou, da mesma forma que a capacidade dos mesmos também reduziu. Por exemplo, o Mineirão que antes recebia facilmente 90 mil torcedores, desde sua reforma nunca conseguiu passar dos 60 mil. A contrapartida da segurança também não acompanhou as obras. Basta lembrar que, recentemente, um torcedor morreu diante de um incidente envolvendo seguranças contratados pela gestora do estádio.

O discurso de Kalil não é novidade no Brasil. Aliás, é um ponto sobre o qual não há rivalidade em Minas Gerais. Da mesma forma que em 2010 os dirigentes de Atlético, na época o próprio Kalil, e Cruzeiro, o hoje senador Zezé Perrella, se uniram para a eleição de Antônio Anastasia (PSDB) ao governo de Minas, hoje, os atuais dirigentes afirmam que os preços praticados são justos.

O mesmo Kalil, este ano, vetou projeto de lei que propunha ingressos de eventos esportivos a preços populares. Amparados no discurso de que o futebol precisa ser rentável para favorecer o espetáculo, afastam aqueles que historicamente sempre fizeram o verdadeiro espetáculo, nas arquibancadas.

É verdade que há, vez ou outra, iniciativas no sentido de baratear os ingressos, ou mesmo transformar alguns setores com áreas mais populares e ingressos baratos. Porém, são ainda muito pontuais e várias delas limitadas aos torcedores vinculados aos programas de sócio-torcedor. Na maior parte dos casos, resta aos apaixonados pelo futebol realizarem gastos exorbitantes para um espetáculo que muitas vezes deixa a desejar. Soma-se, ainda, a dificuldade de acesso aos estádios, já que as obras de reconstrução dos mesmos não foram acompanhadas de devida melhoria no transporte público. E se o torcedor ainda quiser comer e beber gastará um bom dinheiro e sem direito de escolha, já que agora há acordos comerciais de exclusividade de determinadas marcas em bares e restaurantes localizados no interior dos estádios.

A boa notícia é que já existem vários movimentos e torcidas organizadas que contrapõem e questionam esse modelo de elitização das novas arenas. É um passo na direção de mudar este cenário no qual o torcedor, de qualquer time, segue perdendo.

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