Por que as contrarreformas não podem ser comparadas à escravidão

Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

É inegável o abalo sistêmico que as contrarreformas Trabalhista, que já foi aprovada, e Previdenciária estão causando nas estruturas de trabalho e a relação que a classe trabalhadora tem com a sua percepção de direitos e a sua localização social.

Não se pode minimizar os impactos que a contrarreforma Trabalhista causam para nós trabalhadoras e trabalhadores. As relações de emprego formal foram transformadas em relações claras de exploração, não deixando qualquer dúvida de que o Congresso mais conservador desde 64, em conjunto com um presidente interino e golpista, formam uma quadrilha que põe a classe trabalhadora contra a parede e de mãos para cima. O que antes se transformavam em processos nos Tribunais Trabalhistas, hoje foi legalizado como uma relação “comum” em que o empregador sempre irá levar vantagem em relação à parte mais frágil da negociação que, evidentemente, somos nós trabalhadores.

O que não se pode ignorar, ou negligenciar, são as comparações que se tem feito em torno das contrarreformas e da escravidão do povo negro no Brasil colônia. Essas comparações são evidentemente equivocadas, tendo como princípio a negação da cidadania dos escravizados naquele período. As pessoas negras trazidas para o Brasil eram tratadas como propriedade dos senhores e sinhás de engenho, não tendo direito a manterem seus nomes de nascença, a reivindicarem seus rituais religiosos – esses que eram feitos às escondidas, sendo passíveis inclusive de tronco -, ou quaisquer aspectos culturais advindos de suas terras natais.

A negação dos direitos civis, políticos e sociais, o não reconhecimento como “gente”, a troca de trabalho por teto e comida de maneira impositiva através da força física são gêneros que categorizam importantes diferenças entre o trabalhador atual – que por ser reconhecido pelas leis burguesas como trabalhador, já não pode se enquadrar num patamar de escravidão -, comparado ao que o povo negro sofreu.

Dentro da categoria “classe trabalhadora” existem setores abastados em relação a outros. Não podemos hegemonizar a classe trabalhadora; não podemos colocar sob o mesmo patamar discursivo um servidor federal e uma empregada doméstica, um servente e um pedreiro. São explorações que se revelam de maneiras diferentes e que colocam as mulheres trabalhadoras e os trabalhadores negros numa escala de submissão maior do que aqueles do setor de classe média. Isso não era atribuído a qualquer escravo, pois escravos não tinham direito à moradia própria, nem acesso a qualquer remuneração que não despendesse apenas para a sua sobrevivência como qualquer maquinário de fabricação.

Uma das informações debatidas no livro “Mulheres, Raça e Classe” da filósofa estadunidense Angela Davis, é que as mulheres escravizadas ao descobrir que estavam grávidas se matavam, ou abortavam para não gerar mais escravos.

Já o “12 anos de escravidão”, que é baseado numa história real, mostra que milhares de escravos se matavam por causa do sofrimento a que eram submetidos e quando não conseguiam, eram torturados em diversas câmaras de tortura. Em uma cena, uma escrava é presa durante um dia inteiro em um buraco com tampa de aço que ficava embaixo do sol e fazia os escravos “cozinharem” ali dentro. O motivo pelo qual ela foi presa foi por não aceitar ser violentada sexualmente pelo senhor da fazenda.

Em relação ao Brasil, milhares de africanos sequer chegavam aqui. Isso porque eles ficavam presos num porão, sem comida e dormindo no mesmo espaço em que defecavam. Alguns morriam e só eram jogados no mar uns três dias depois.

Este é apenas um dos aspectos mais primários que se tem deste debate para saber a respeito da escravidão, de que comparar isto com a contrarreforma Trabalhista ou Previdência é uma forma de deslegitimar o peso social e histórico que o povo negro traz consigo até hoje. O cenário político é desesperador, isso é um fato. Mas, o momento histórico é outro. Quando imigrantes europeus foram trazidos para trabalhar e foram oprimidos nas fábricas, a punição por fazer greve era o desemprego, nenhum deles foi jogado ao tronco por desobedecer seu patrão, como se fosse um animal maltratado por um dono cruel.

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