As pessoas se suicidavam: ’17 de Julho’ 20 anos depois

Por: Mateus A. Magalhães, de Maceió, Alagoas

Hoje, dia 17 de julho de 2017, completam-se 20 anos do dia em que a então prefeita de Maceió pelo PSB, Kátia Born, ajudou a derrubar a grade de ferro da Assembleia Legislativa. Este dia, num dos anos mais marcantes do final do século passado – Ronaldo e Romário faziam a dupla de ataque da Seleção; o Radiohead lançava o OK Computer; a novela Rei do Gado acendia, na Globo, o debate acerca dos movimentos sociais de terra; o Planet Hemp era preso em Brasília por lutar pela legalização da maconha -, transformou-se num substantivo. Mais do que isso, num amuleto: virou O 17 de Julho.

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Para quem ainda não compreendeu, explico. Na metade de 1997, Alagoas estava afundada na mais profunda crise econômica e social. É bem verdade que o Brasil, como um todo, estava naqueles anos terríveis de Fernando Henrique Cardoso. Mas, vale lembrar que, em Alagoas, os problemas sempre são piores. Quando o Brasil vai mal, nós vamos muito pior. E quando o Brasil vai bem, nós vamos, ainda, mal. Um pouco melhores, mas mal. Soterrado por suas próprias dívidas e com as pernas atrofiadas, o estado não conseguia se erguer para além da lama, que já lhe cobria até o queixo.

O governador à época, Divaldo Suruagy, fazia seu terceiro mandato. Eleito em 1995 com altíssima popularidade, ele era um cacique político de primeira categoria e soube construir, durante a Ditadura (quando fez seus dois primeiros mandatos), um curral eleitoral potente. Sua popularidade, apesar disso, se desmanchava rapidamente, dois anos após a eleição, no enorme caldeirão de ácido que eram os anos 90 em Alagoas.

Assim que assumiu, Suruagy aumentou o salário dos funcionários públicos, do Poder Legislativo e do Judiciário, inflando como balão de festa a folha do Estado, mais do que a duplicando e o assustador salto a elevou de R$ 35 para R$ 85 milhões. Desacostumado à democracia, como estavam todos os figurões da anciã política, porque velha é a que presenciamos agora, filha dos generais, ele não sabia que os malabarismos de outrora, para fechar as contas, não seriam possíveis. Nos anos 70, quanto assumiu pela primeira vez, bastava estalar os dedos para receber as sacas de dinheiro do Governo Federal. Dinheiro sujo, sujíssimo, diga-se. Pela corrupção, pelo sangue dos torturados e pelas lágrimas dos exilados. Aquele balão estava prestes a explodir.

O resultado, é claro, não podia ser bom, ou pelo menos ‘mais ou menos’. Estava tudo péssimo: as contas não fechavam, e no dia 17 de julho de 1997 completavam-se, aos servidores, oito meses de salários atrasados. Na tentativa de se salvar, porque, àquela altura, salvar Alagoas já era tarefa pra Hércules, o governador tentou impulsionar as contas públicas vendendo títulos das Letras do Tesouro do Estado. O mercado financeiro reagiu negativamente e não comprou a ideia, o que agrediu ainda mais a já ferida figura de Suruagy. Rapidamente, o mais popular político de Alagoas se transformava no mais odiado.

Para piorar a situação, o processo de emissão das Letras, descobriu-se, era totalmente criminoso. Fora forjado apenas para pagar favores e favorecer alguns dos gestores. Aí, meu amigo, começou o rebuliço. E as pessoas começaram a se suicidar.

Os suicídios, o desespero e o início da sangria
A melhor maneira de exemplificar, de tornar compreensível, o que era o ano de 1997 em Alagoas, é falar dos quatro suicídios que tomaram conta dos ânimos do estado. São eles que melhor representam a profunda crise que sobrevoava as comarcas. O mais famoso caso foi o do policial militar Leandro Alves do Carmo, à época com 30 anos, que não recebia salários há cincos meses. Nessas épocas, a saúde mental se deteriora, e quase deixa de existir, e o policial disparou contra a mulher, sua enteada e seus dois filhos, para depois se matar.

O comércio não funcionava, os hospitais não funcionavam, as delegacias não funcionavam, a escolas não funcionavam.

Lembre, daqui para frente, da PM, porque ela será muito importante na ‘contação’ dessa história, posto que desenvolveu um papel central nas mobilizações. Em Arapiraca, outro policial assassinou a esposa e se matou, porque ela lhe pedira para comprar leite. Era comum ver os agentes entrarem armados em supermercados, encherem a mala do carro de alimentos e partirem ‘na moral’, na base da carteirada. Uma funcionária do Departamento de Estradas e Rodagem subiu no Edifício Brêda, histórico prédio do Centro de Maceió, e se atirou após escrever um bilhete.

O balão já quase explodira há muito tempo
Apesar de tudo isso, é um erro crasso justificar o 17 de Julho somente com o estopim espontâneo das massas. O 17 de julho, na verdade, começou alguns meses antes. No dia 8 de maio, para ser mais exato, quando sindicatos e movimentos sociais ocuparam o Salão de Despachos do Palácio dos Martírios e a Praça dos Martírios. Do lado de dentro, cerca de vinte sindicalistas comandavam a ação. Do lado de fora, os movimentos ligados aos trabalhadores sem terras gritavam alto.

O Bope foi convocado para remover as lideranças dos sindicatos do Palácio, na violência. Numa ação totalmente desproporcional, a pancadaria comeu solta. A cavalaria e as bombas de efeito moral tomavam a praça. A PM, que reprimia os manifestantes, a mando do governador, se uniria a eles dois meses depois, e apontariam suas armas para o palácio. A situação se assombreava debaixo de nuvens pretas.

E o balão explode finalmente
Os policiais militares e civis decidem, depois de muitas plenárias e ameaças administrativas, fazer valer seus crachás de funcionários públicos e aderir à paralisação e ao confronto. E a presença deles, ao lado dos demais trabalhadores, fez com que o dia 17 de junho ganhasse toda uma carga e amanhecesse com a certeza de que a mobilização não seria como qualquer outra. Os policiais foram às ruas de pistola em punho e marcharam juntos dos sindicatos, dos partidos e da população, em direção à praça.

Praça de guerra. Quando chegaram em frente à Assembleia, para pressionar os deputados em favor do impeachment do governador, as pessoas se depararam com o prédio cercado por oficiais do exército, quase todos cabos, muito jovens, amedrontados com a presença da multidão. E armados, até os dentes, com munição letal. Imagine: polícia e exército, fortemente armados, de lados opostos. Agora imagine estar no meio disso e sinta a tensão de uma batalha inevitável. Nem se pensava, ali, em evitar a tragédia, porque ela já parecia inevitável.

Alguns policiais ainda ocuparam o prédio do antigo Arquivo Público, hoje Biblioteca Pública Graciliano Ramos, e ficaram na janela, apontando contra os militares. Heloísa Helena, então deputada pelo PT, vociferava contra os comandantes. Ela denunciava o absurdo de colocar jovens inexperientes, aspirantes, naquela situação. Temia pela vida de todos.

Os deputados estavam no interior da assembleia, armados. E seus assessores também. O clima era de guerra civil. Às 9h30, Kátia Born, então prefeita de Maceió pelo PSB, chega na praça e pede, imediatamente e do alto de se função, para falar com o comandante do exército. Em sua presença, ela esbravejou. Não se admitia fechar a praça. Não se admitia sitiar a praça. E gritou: “a praça é do povo!”. Após o grito, começou o apocalipse.

17 de julho 1997

Os protestantes avançaram contra a grade da Assembleia e a derrubaram. O exército, por sorte e por medo, recuou. E isso evitou o banho de sangue. Apesar do recuo, teve início o tiroteio e a prefeita foi jogada no chão por sua assessora, que lhe disse “você é um dos alvos”. No auge da confusão chega a notícia, para acalmar os ânimos, de que Divaldo Suruagy optou por renunciar. O povo comemorou.

Vinte anos depois, Alagoas continua em crise. Há séculos, vivemos sob uma ditadura cruel, que nos amarra a economia, a da cana-de-açúcar, nossa interminável monocultura. Além dela, só sobrevivemos graças a repasses federais. Após o 17 de julho, o estado elegeu figuras não menos exóticas que o então governador para ocupar os cargos públicos. Mas ele não foi, de longe, um fracasso, não que alguém já tenha dito que foi. Deixou um recado, um importante recado, de que não se pode duvidar da insatisfação das massas. E mostrou, é claro, que o povo teve, que o povo tinha, que o povo tem poder. O povo tem muito poder.

FOTO DE CAPA: Marco Antônio 17/07/1997.
FOTO 2: Adailson Calheiros 17/07/1997.

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